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Einstein (São Paulo)

Print version ISSN 1679-4508On-line version ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.14 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/s1679-45082016ao3788 

ARTIGO ORIGINAL

Estilos de vida urbano versus rural em adolescentes: associações entre meio-ambiente, níveis de atividade física e comportamento sedentário

Manuela Ferreira Regis1 

Luciano Machado Ferreira Tenório de Oliveira2  3 

Ana Raquel Mendes dos Santos1 

Ameliane da Conceição Reubens Leonidio1 

Paula Rejane Beserra Diniz4 

Clara Maria Silvestre Monteiro de Freitas1 

1 Universidade de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

2 Centro Universitário Asces-Unita, Caruaru, PE, Brasil.

3 Faculdade Boa Viagem, Recife, PE, Brasil.

4 Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.


RESUMO

Objetivo

Analisar os níveis de atividade física e o comportamento sedentário em adolescentes das áreas urbanas e rurais.

Métodos

Estudo epidemiológico, transversal, com abordagem quantitativa e abrangência estadual, cuja amostra foi constituída por 6.234 estudantes (14 a 19 anos), selecionados por meio de uma estratégia de amostragem aleatória de conglomerados. As análises foram realizadas por meio do teste χ2 e da regressão logística binária.

Resultados

Na amostra, 74,5% dos adolescentes eram residentes em área urbana. Após o ajuste, constatou-se que os adolescentes oriundos da área rural usavam menos televisão (odds ratio – OR: 0,45; intervalo de confiança de 95% – IC95%: 0,39-0,52), computador e/ou videogame (OR: 0,30; IC95%: 0,22-0,42), passavam menos tempo sentados (OR: 0,66; IC95%: 0,54-0,80), optaram menos pelo lazer passivo (OR: 0,83; IC95%: 0,72-0,95) e tinham menos chances de serem classificados como insuficientes ativos (OR: 0,88; IC95%: 0,78-0,99), quando comparados àqueles que residiam na área urbana, independentemente do sexo e da idade. Os adolescentes da área rural que não trabalhavam apresentaram mais chances de serem classificados como insuficientemente ativos (OR: 2,59; IC95%: 2,07-3,24), mostrando que a ocupação tinha um papel importante no nível de atividade física deste grupo.

Conclusão

Os adolescentes residentes na área rural estiveram menos expostos aos comportamentos sedentários, optaram mais por um lazer ativo e apresentaram um melhor nível de atividade física, podendo a zona de domicílio e a ocupação influenciar no estilo de vida deles.

Palavras-Chave: Atividade motora; Comportamento do adolescente; Estilo de vida sedentário; População urbana; População rural

ABSTRACT

Objective

To analyze the levels of physical activity and sedentary behavior in adolescents living in urban and rural areas.

Methods

An epidemiological, cross-section study with quantitative design, carried out at the regional level. The sample comprised 6,234 students aged 14 to 19 years, selected using random cluster sampling. The χ2 test and binary logistic regression were used in the analysis.

Results

A total of 74.5% of adolescents lived in urban areas. After adjustment, rural residents spent less time watching television (odds ratio – OR: 0.45; 95% confidence interval – 95%CI: 0.39-0.52), using a computer and/or playing video games (OR: 0.30; 95%CI: 0.22-0.42), or sitting down (OR: 0.66; 95%CI: 0.54-0.80); chose passive leisure less often (OR: 0.83; 95%IC: 0.72-0.95) and were less likely to be classified as insufficiently active (OR: 0.88; 95%IC: 0.78-0.99) when compared to urban residents, regardless of sex or age. The fact that adolescents living in rural areas who did not work were more likely to be classified as insufficiently active (OR: 2.59; 95%CI: 2.07-3.24) emphasized the significant role of occupation in physical activity levels in this group.

Conclusion

Adolescents living in rural areas were less exposed to the sedentary behaviors, chose more active leisure, and had higher levels of physical activity. Place of residence and occupation may play a major role in youth lifestyle.

Key words: Motor activity; Adolescent behavior; Sedentary lifestyle; Urban population; Rural population

INTRODUÇÃO

A adolescência é caracterizada por uma fase em que ocorrem transformações biológicas, físicas, psicológicas e sociais, que podem afetar diretamente as atividades diárias.(1) Com o decorrer dos anos, nota-se o aumento do número de jovens que não seguem as recomendações diárias de atividade física propostas pela Organização Mundial da Saúde,(2-4) podendo tal crescimento estar relacionado a vários fatores, como tempo gasto com aparelhos eletrônicos,(5) deslocamento passivo para ir à escola,(6) ausência nas aulas de Educação Física na escola,(2) falta de acesso aos espaços adequados para a prática de atividades,(2) inatividade física materna,(7) baixo nível educacional e baixa renda.(8) Estes fatos são alarmantes, e tais comportamentos podem estar relacionados com o aparecimento de doenças crônico-degenerativas e o risco de mortalidade.(9,10)

Estudos com diferentes delineamentos permitem inferir que tanto o nível de atividade física como a aptidão física de jovens e adultos estão relacionados ou podem ser influenciados pelo meio ambiente no qual o indivíduo está inserido.(11) Como o meio ambiente é um determinante do estilo de vida, pessoas de uma mesma região geográfica, separadas apenas por alguns quilômetros, podem ter estilos de vida diferentes no que tange à prática de atividade física, principalmente entre as áreas urbanas e rurais.(12) A maior oferta de equipamentos e espaços públicos de lazer em áreas urbanas, como praças, quadras, calçadões, ciclovias, pode estar associada ao elevado nível de atividade física dos indivíduos.(5,13)

As áreas urbana e rural podem remeter a dois modos de vida distintos,(14) e as características relacionadas ao meio podem contribuir para a redução dos níveis de atividade física e aptidão dos adolescentes.(4,8) No entanto, poucas pesquisas abordaram o nível de atividade física e os comportamentos sedentários em adolescentes residentes das áreas rurais, e também poucos estudos controlam tal variável em suas análises. Tal informação pode ser usada para o planejamento de intervenções que busquem hábitos mais salutares para os adolescentes, na tentativa de reduzir problemas de saúde na fase adulta, visto que doenças estão associadas aos comportamentos de risco adotados durante a juventude.(4,15)

OBJETIVO

Analisar os níveis de atividade física e comportamento sedentário em adolescentes da área urbana e rural, levando em consideração as características socioambientais.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo com abordagem quantitativa, que integra o levantamento epidemiológico transversal de base escolar e abrangência municipal. A amostra foi constituída por estudantes com idades entre 14 e 19 anos, de ambos os sexos, regularmente matriculados em escolas da rede pública estadual de Ensino Médio do Estado de Pernambuco. Foram excluídos os questionários preenchidos inadequadamente, os alunos que se ausentaram no momento da coleta e aqueles se recusaram a participar da pesquisa. A referida pesquisa é intitulada "Prática de atividades físicas e comportamentos de risco à saúde em estudantes do Ensino Médio no Estado de Pernambuco: estudo de tendência temporal".

O processo de seleção da amostra foi realizado por conglomerados em dois estágios. No primeiro, a unidade amostral foi à escola, selecionada de forma aleatória, de acordo com o porte e a região geográfica. No segundo momento, as turmas foram sorteadas, considerando a distribuição do turno e as séries das escolas selecionadas no estágio anterior.

Antes do início da coleta de dados, um estudo piloto foi conduzido, a fim de testar a aplicabilidade do instrumento. Os dados foram coletados em uma escola de referência da rede pública estadual de ensino, escolhida aleatoriamente, na cidade do Recife (PE), com uma amostra de 86 adolescentes.

Os indicadores de reprodutibilidade apresentaram coeficiente de correlação intraclasse moderado a alto nas variáveis utilizadas neste estudo, tendo os coeficientes de concordância (índice Kappa) de 0,78 para visualização de televisão; 0,62 para jogos de vídeo e/ou utilizar o computador; 0,44 para tempo sentado (excluindo o tempo de tela); 0,67 para a atividade de lazer preferida; 0,59 para o nível de atividade física e 1,00 para o local de residência.

A coleta dos dados ocorreu entre o primeiro (maio e junho) e o segundo semestres (agosto, setembro, outubro e novembro) do ano de 2011. A classificação em adolescentes da área urbana ou rural foi mediante a avaliação do local de moradia relatado pelo adolescente, utilizando uma versão traduzida, autoadministrada e previamente testada do Global School-Based Student Health Survey (GSHS), proposto pela Organização Mundial da Saúde, sendo utilizados os domínios informações pessoais, atividades físicas e comportamentos na escola e em casa.

As variáveis relacionadas aos comportamentos sedentários foram “tempo de televisão” determinada pela média ponderada das respostas dadas às perguntas: “Nos dias de aula (segunda a sexta-feira), quantas horas por dia você assiste à televisão?” e “Nos finais de semana (sábado e domingo), quantas horas por dia você assiste à televisão?” (pergunta 1x5 + pergunta 2x2)/7.

Da mesma forma, foi determinado o “tempo de computador e/ou videogame” com a média ponderada das respostas dadas às perguntas: “Nos dias de aula (segunda a sexta-feira), quantas horas por dia você usa computador e/ou joga videogame?” e “Nos dias de final de semana (sábado e domingo), quantas horas por dia você usa computador e/ou joga videogame?”.

A variável “tempo sentado (exceto o tempo de tela)” foi verificada por meio da média ponderada das respostas dadas às perguntas: “Nos dias de aula (segunda a sexta-feira), quanto tempo você gasta sentado, conversando com amigos, jogando cartas ou dominó, falando ao telefone, dirigindo ou como passageiro, lendo ou estudando (não considerar o tempo assistindo à televisão e usando computador?” e “Nos dias de final de semana (sábado e domingo), quanto tempo você gasta sentado, conversando com amigos, jogando cartas ou dominó, falando ao telefone, dirigindo ou como passageiro, lendo ou estudando (não considerar o tempo assistindo à televisão e usando computador?”. Todos os comportamentos sedentários foram categorizados em menos de 4 horas e mais de 4 horas de exposição.

Em relação à variável “nível de atividade física”, foram consideradas duas questões do GSHS: “Durante os últimos 7 dias, quantos dias você foi fisicamente ativo por um total de pelo menos 60 minutos por dia?” e “Durante uma semana típica ou normal, em quantos dias você é fisicamente ativo por um total de pelo menos 60 minutos ao dia?”. Para verificar o nível de atividade física, foi adotado o procedimento sugerido por Prochaska et al.,(16) no que diz respeito às questões 1 e 2, utilizando a seguinte fórmula: (questão 1+ questão 2)/2. Caso o resultado obtido fosse um valor menor que 5 dias, os adolescentes eram considerados insuficientemente ativos, ou seja, não cumpriam as recomendações de atividade física. A atividade de lazer preferida foi dividida em lazer ativo (praticar esportes, fazer exercícios, nadar e pedalar) e passivo (jogar dominó ou cartas, assistir à televisão, jogar videogame, usar o computador e conversar com os amigos), conforme realizado em estudo prévio.(6)

O procedimento de tabulação foi efetuado em um arquivo de dados do programa EpiData, versão 3.1, utilizando procedimentos eletrônicos de controle de entrada de dados. Recorreu-se à dupla digitação a fim de conferir a consistência na entrada dos dados. Todos os erros de digitação identificados por meio da ferramenta VALIDATE foram corrigidos. A análise dos dados foi realizada pelo programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 10.0 para Windows.

Foram utilizados procedimentos de estatística descritiva e inferencial. Na análise descritiva, foram realizadas distribuições de frequência absoluta e relativa. Na análise inferencial, foi utilizado o teste χ2 de Pearson, para analisar a associação isolada entre o nível de atividade física e o local de residência (área urbana e rural), além de verificar as variáveis que entraram no modelo, explorar os possíveis fatores de confusão e identificar a necessidade de ajustamento estatístico das análises. Na análise multivariável, recorreu-se à regressão logística binária, por meio da estimativa da odds ratio (OR) e intervalos de confiança de 95% (IC95%), para expressar o grau de associação entre as variáveis dependentes (nível de atividade física, comportamentos sedentários e atividade de lazer preferida) e a variável independente (local de residência), recorrendo-se ao ajustamento para possíveis fatores de confusão (sexo, idade, ocupação e escolaridade materna). Após a obtenção das variáveis preditas do modelo final, testou-se a ocorrência de interação entre o nível de atividade física, local de residência e o sexo.

Em relação às variáveis de confusão, foram introduzidas todas simultaneamente (método Enter), permanecendo apenas as variáveis que obtiveram um nível de significância estatística menor que 0,20 (p<0,20). Chegou-se a um modelo final de regressão com apenas as variáveis que apresentassem contribuição significativa para o modelo. Os resultados foram apresentados como valores de OR brutos e ajustados e IC95%, tendo como significantes aqueles resultados que obtiverem p<0,05.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade de Pernambuco, sob o número 159/10, CAAE: 0158.0.097. 000-10. Os pais dos alunos menores de idade assinaram o Termo de Consentimento autorizando a participação dos seus filhos, e os alunos com mais de 18 anos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Foram visitadas 85 escolas em 48 cidades do Estado de Pernambuco. O fluxograma da coleta é apresentado na figura 1, tendo a amostra final 6.234 adolescentes (14 e 19 anos), sendo 59,7% moças. Dentre os adolescentes, 53,4% encontravam-se numa faixa etária entre 16 e 17 anos de idade e 74,5% residiam na área urbana. Em relação à ocupação, 28,3% dos adolescentes da área rural trabalhavam, conforme tabela 1.

Figura 1 Fluxograma da entrada dos estudantes do Estado de Pernambuco no estudo 

Tabela 1 Características dos adolescentes das áreas urbana e rural 

Variáveis Urbana (n=4.646) Rural (n=1.588) Total (n=6.234) Valor de p
n (%) n (%) n (%)
Sexo
Masculino 1.878 (40,4) 640 (40,3) 2.524 (40,3) 0,938
Feminino 2.766 (59,6) 947 (59,7) 3.737 (59,7)
Idade, anos
14-15 983 (21,2) 357 (22,5) 1.350 (21,6) 0,099
16-17 2.554 (55,0) 779 (49,1) 3.345 (53,4)
18-19 1.109 (23,8) 452 (28,4) 1.569 (25,0)
Ocupação
Trabalha 938 (20,2) 448 (28,3) 1.390 (22,3) <0,001
Não trabalha 3.697 (79,8) 1.135 (71,7) 4.857 (77,7)
Escolaridade materna, anos de estudo
>8 1.669 (41,2) 228 (17,2) 1.903 (35,3) <0,001
≤8 2.378 (58,8) 1.100 (82,8) 3.491 (64,7)

Observaram-se hábitos mais salutares entre os adolescentes que residiam na área rural, quando comparados àqueles que residiam na área urbana em relação à preferência pelo lazer ativo (43,2% versus 39,5%), menos tempo sentado (90,1% versus 83,7%), menos exposição ao computador e/ou videogame (97,1% versus 88,1%), menos exposição à televisão (88,7% versus 86,0%) e maior nível de atividade física (37,3% versus 34,5%) (Tabela 2).

Tabela 2 Nível de atividade física e comportamentos sedentários entre adolescentes das áreas urbana e rural 

Variáveis Urbana (n=4.646) Rural (n=1.588) Total (n=6.234) Valor de p
n (%) n (%) n (%)
Nível de atividade física
Ativo 1.596 (34,5) 591 (37,3) 2.192 (35,1) 0,041
Insuficientemente ativo 3.031 (65,5) 992 (62,7) 4.047 (64,9)
Tempo de utilização da televisão, horas
<4 3.988 (86,0) 1.404 (88,7) 5.420 (86,5) 0,006
≥4 647 (14,0) 178 (11,3) 826 (13,2)
Tempo de utilização do computador e/ou videogame, horas
<4 4.081 (88,1) 1.537 (97,1) 5.647 (90,5) <0,001
≥4 549 (11,9) 46 (2,9) 596 (9,5)
Tempo sentado (exceto o tempo de tela), horas
<4 3.848 (83,7) 1.412 (90,1) 5.286 (85,4) <0,001
≥4 749 (16,3) 155 (9,9) 907 (14,6)
Atividade de lazer preferida
Lazer ativo* 1.621 (39,5) 611 (43,2) 2.241 (40,4) 0,015
Lazer passivo 2.483 (60,5) 804 (56,8) 3.305 (59,6)

* Lazer ativo: praticar esportes, fazer exercícios, nadar e pedalar; lazer passivo: jogar dominó ou cartas, assistir à televisão, jogar videogame, usar o computador e conversar com os amigos.

Realizou-se um modelo para cada comportamento, recorrendo-se ao ajustamento por sexo, idade, ocupação e escolaridade materna, permanecendo no modelo apenas as variáveis que obtiveram p<0,20. Após o ajuste, observou-se que os adolescentes que residiam na área rural tinham menos chances de exposição ao computador e/ou videogame (OR=0,30; IC95%: 0,22-0,42), à televisão (OR=0,45; IC95%: 0,39-0,52) e ao tempo sentado excluindo o tempo de tela (OR=0,66; IC95%: 0,54-0,80).

Em relação ao nível de atividade física, os adolescentes da área rural tiveram menos chances de serem classificados como insuficientemente ativos, independentemente do sexo (OR=0,88; IC95%: 0,78-0,99), mas, após o ajuste pela ocupação, tal associação perdeu a significância (OR=0,94; IC95%: 0,83-1,06) (Tabela 3). Neste sentido, analisou-se a associação entre a ocupação e o nível de atividade física apenas entre os adolescentes da área rural, sendo observado que os que não trabalhavam tinham mais chances de serem classificados como insuficientemente ativos (OR=2,59; IC95%: 2,07-3,24), ressaltando que a ocupação teve um papel importante em relação ao nível de atividade física entre os adolescentes da área rural. Pelo fato de não ter sido encontrada interação entre nível de atividade física, local de residência e sexo (0,21), foram realizadas as análises sem a realização da estratificação pelo sexo.

Tabela 3 Relação entre local de residência (área urbana e rural) e o nível de atividade física e comportamentos sedentários 

Variáveis Adolescentes que residem na área rural

Odds ratio IC95% Valor de p Odds ratio IC95% Valor de p
(bruta) (ajustada)
Nível de atividade física*
Ativo 1 1
Insuficientemente ativo 0,88 0,78-0,99 0,041 0,94 0,83-1,06 0,29
Tempo de utilização da televisão, horas
<4 1 1
≥4 0,78 0,65-0,93 0,006 0,45 0,39-0,52 <0,001
Tempo de utilização do computador e/ou videogame, horas
<4 1 1
≥4 0,22 0,16-0,30 <0,001 0,30 0,22-0,42 <0,001
Tempo sentado (exceto o tempo de tela), horas
<4 1 1
≥4 0,56 0,47-0,68 <0,001 0,66 0,54-0,80 <0,001
Atividade de lazer preferida§
Lazer ativo 1 1 0,008
Lazer passivo|| 0,86 0,76-0,97 0,015 0,83 0,72-0,95

* Ajustada pelo sexo e ocupação; ajustada pela idade e ocupação; ajustada pelo sexo, idade, escolaridade da mãe e ocupação; § ajustada pelo sexo e ocupação; lazer ativo: praticar esportes, fazer exercícios, nadar e pedalar; || lazer passivo: jogar dominó ou cartas, assistir televisão, jogar videogame, usar o computador e conversar com os amigos.

DISCUSSÃO

Os adolescentes que residem na área rural apresentaram maiores níveis de atividade física, tiveram uma menor preferência pelo lazer passivo e estavam menos expostos aos comportamentos sedentários quando comparados com os adolescentes que residiam na área urbana.

Este estilo de vida mais ativo pode estar associado à inserção no mercado de trabalho, que é realizado, na maioria das vezes, pela força física da agricultura de subsistência,(17,18) além das atividades no domínio doméstico comuns entre as mulheres da área rural.(19) Este achado difere do encontrado em outras pesquisas,(5,20) que constataram que os adolescentes da área rural tinham maiores chances de serem classificados insuficientemente ativos, posto que, nas áreas urbanas, há uma maior oferta de espaços públicos de lazer (praças, centros esportivos e quadras públicas) em relação às rurais. Portanto, a inserção no mercado de trabalho entre os adolescentes das áreas rurais avaliados neste estudo é um dado importante para justificar o maior nível de atividade física entre eles.

As atividades físicas no período lazer têm sido vistas como uma das mais importantes dimensões da atividade física,(17) pois 55% a 65% das atividades moderadas e vigorosas realizadas pelas crianças e adolescentes são provenientes de atividades desta natureza.(9) Na presente pesquisa, verificou-se que os jovens rurais tinham uma menor preferência pelo lazer que tem um menor gasto energético, como jogar dominó ou cartas, assistir à televisão, jogar videogame, usar o computador e conversar com os amigos. Neste sentido, pesquisas recentes também observaram alta prevalência desses comportamentos sedentários e baixos níveis de atividade física entre os jovens que moravam na área urbana,(21,22) podendo estar relacionada ao facilitado acesso aos bens tecnológicos, sobretudo o computador.(23) Estudo também relatou que grande parte dos jovens que excedem o tempo de uso de computador não atinge a faixa de recomendação de atividade física,(24) ocorrendo a substituição da prática de atividade física pelos comportamentos sedentários.(17)

Duas categorias podem influenciar nos níveis de atividade física e na adoção de comportamentos sedentários: as características individuais, incluindo motivações, autoeficácia, habilidades motoras e outros comportamentos de saúde; e as ambientais, como o acesso ao trabalho ou espaços de lazer, custos, suporte sociocultural e barreiras de disponibilidade temporal.(25) Esta última, apontada como um dos principais motivos para os níveis insuficientes de atividade física e/ou maior adoção de comportamentos sedentários, não mostrou associação no presente estudo, uma vez que os jovens de área rural, mesmo entrando no mercado de trabalho mais cedo, mostraram ser mais ativos fisicamente. Também podem influenciar no nível de atividade física as aulas de Educação Física escolar(4,26) e os comportamentos adotado pelos pais,(27) uma vez que a família constitui o primeiro ambiente de aprendizagem das crianças e dos adolescentes.

Sobre a influência dos pais, é importante considerar a escolaridade da mãe como um fator que pode interferir no estilo de vida dos mais jovens. A este respeito, estudos indicam associação significativa entre a escolaridade materna (baixa ou intermediária) e a exposição aos níveis insuficientes de atividade física e adoção aos comportamentos sedentários.(28,29) Entretanto, chamou atenção, no presente estudo, que a escolaridade da mãe dos adolescentes da área rural era menor quando comparada à dos adolescentes da área urbana, sendo estes adolescentes da área rural mais fisicamente ativos e menos expostos aos comportamentos sedentários. Uma das possíveis explicações é que a baixa escolaridade dos genitores pode ser um fator relacionado ao menor nível socioeconômico,(30) dificultando o acesso a aparelhos eletroeletrônicos (computador, videogame e televisão), diminuindo as chances de os adolescentes das areas rurais adotarem comportamentos sedentários e, assim, serem fisicamente mais ativos com uma maior utilização de transportes ativos em seu deslocamento diário e maior envolvimento com atividades domésticas, contribuindo de forma expressiva para o nível de atividade física desses sujeitos.

As áreas urbana e rural estão além da mera diferenciação espacial e remetem também a diferentes formas de organização social, econômica, cultural, indicando também dois modos de vida distintos.(14) Nesse sentido, características do meio urbano, como falta de segurança, elevada densidade populacional e envolvimento excessivo em atividades intelectuais, podem contribuir para a redução dos níveis de atividade física, maiores exposições aos comportamentos sedentários e, consequentemente, menor aptidão física dos adolescentes.(6,9) Assim, a área de domicílio também pode ser um possível fator que leva à obesidade, considerado um dos maiores problemas de saúde da população mundial e diretamente associada à inatividade física.(12)

A pesquisa tem limitações que merecem menção. O delineamento transversal e a natureza correlativa dos dados impedem o estabelecimento de uma relação causal entre o local de residência e os hábitos dos adolescentes. Além disso, não foram considerados aqueles que estudavam na rede privada de ensino e, por ser um estudo de base escolar, não foi possível generalizar os resultados para todos os adolescentes do Estado de Pernambuco. Outra limitação foi a autorreferência da atividade física. Ainda, não foram coletados fatores individuais e ambientais que influenciam direta ou indiretamente no nível de atividade física, como apoio social, espaços físicos e tempo.

Entre os pontos fortes, destacam-se a amostra representativa e os procedimentos de amostragem estabelecidos, que garantiram que a amostra fosse composta por estudantes que frequentavam as escolas em seus diferentes turnos e adolescentes das áreas urbanas e rurais.

Ciente da importância da adoção de um estilo de vida saudável na busca de uma melhor qualidade de vida e na redução de doenças oriundas de um baixo nível de atividade física,(19) estudos de base populacional são necessários para fornecer dados de prevalência de sedentarismo e de baixos níveis de atividade física em populações urbanas e rurais, permitindo o planejamento e a implementação de programas de promoção da saúde, incentivo à prática de atividade física regular e de combate ao comportamento sedentário, atreladas à elaboração de políticas públicas, adaptadas às questões sociais, ambientais e culturais de cada população.

CONCLUSÃO

As diferentes características que compõe o meio urbano e rural estiveram relacionadas com o estilo de vida de seus habitantes. Os adolescentes que residiam na área rural estiveram menos expostos aos comportamentos sedentários, optaram pelo tipo de lazer mais ativo e apresentaram maior nível de atividade física.

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Recebido: 20 de Junho de 2016; Aceito: 25 de Outubro de 2016

Autor correspondente: Luciano Machado Ferreira Tenório de Oliveira – Avenida Engenheiro Domingos Ferreira, 3.181, edifício Janaína, apto. 301 – Boa Viagem – CEP: 51020-035 – Recife, PE, Brasil Tel.: (81) 3466-8043 – E-mail: luciano2308@hotmail.com

Conflitos de interesse: não há.

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