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Revista Dor

Print version ISSN 1806-0013

Rev. dor vol.14 no.3 São Paulo July/Sept. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-00132013000300015 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Vitamina D e dor crônica em idosos*

 

 

Welington Saraiva de Oliveira; Niele Moraes; Fania Cristina Santos

Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondence

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A dor crônica é queixa muito frequente nas consultas, principalmente entre os idosos. Na tentativa de buscar terapêuticas mais eficazes e com menos efeitos adversos, nessa população, especialmente considerando idosos com dor neuropática e musculoesquelética, tem-se observado estudos que vêm relacionando a vitamina D a quadros dolorosos, o que poderia propô-la como uma alternativa analgésica. O objetivo deste estudo foi rever, na literatura, o papel da vitamina D na dor crônica neuromusculoesquelética em idosos.
CONTEÚDO: Realizada a revisão bibliográfica na base de dados do Pubmed, Medline, LILACS, Biblioteca Cochrane e Scielo, contemplando os últimos 10 anos, títulos em português e inglês. Os descritores usados na busca inicial foram "vitamina D" e "dor crônica", resultando 220 artigos, dos quais apenas os que se tratavam de dor neuromusculoesquelética em idosos foram utilizados. Destes, somente 10 preenchiam os critérios estabelecidos e foram analisados, resultando: um estudo de revisão sistemática, cinco estudos analíticos transversais, dois estudos retrospectivos do tipo série de casos, um estudo observacional prospectivo e um trial clínico randomizado e controlado. Observou-se em cinco estudos uma relação significativa entre a hipovitaminose D e dor crônica musculoesquelética, em três estudos uma melhora da dor após suplementação com vitamina D, e, em outros dois, não haver melhora da dor com esta suplementação.
CONCLUSÃO: Os estudos relacionando a vitamina D e a dor crônica em idosos ainda são escassos e bastante heterogêneos. A avaliação do déficit de vitamina D deveria estar mais presente nas consultas geriátricas, pois este tem sido correlacionado com certas síndromes dolorosas e sua adequação poderia trazer beneficio terapêutico em alguns casos.

Descritores: Dor crônica, Dor musculoesquelética, Idoso, Neuralgia, Vitamina D.


 

 

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial, decorrente da baixa mortalidade e natalidade e aumento da expectativa de vida, resultado do grande avanço científico e tecnológico ocorrido nas últimas décadas1,2. Segundo dados do censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população presente e residente no Brasil com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passou a 5,9% em 2000 e chegou a 7,4% em 20103.

Com o aumento da expectativa de vida, há aumento da prevalência de doenças crônicas e degenerativas. Muitos desses quadros são acompanhados por dor crônica, um importante problema de saúde pública, que vem recebendo destaque recentemente1,2.

A dor crônica descrita como "aquela que persiste além do tempo razoável para a cura de uma lesão" pode ser associada a vários fatores, como depressão, incapacidade física e funcional, isolamento social, alteração na dinâmica familiar e desesperança. Pode acarretar fadiga, anorexia, alterações do sono, constipação e dificuldade de concentração. A incapacidade de controlá-la traz intenso sofrimento físico e psíquico, podendo interferir de modo significativo na qualidade de vida dos idosos, afetando de forma variável as suas atividades cotidianas4-6.

Na tentativa de encontrar terapêuticas mais eficazes e com menos efeitos colaterais, principalmente tratando-se de idosos, observaram-se vários estudos que trazem a vitamina D como uma alternativa para o tratamento da dor crônica.

O objetivo deste estudo foi revisar na literatura o papel da vitamina D na dor crônica neuromusculoesquelética em idosos.

 

CONTEÚDO

Foi realizada uma revisão bibliográfica na base de dados do Pubmed, Medline, LILACS, Biblioteca Cochrane e Scielo, em português e inglês, dos últimos 10 anos. Os descritores usados para a busca foram "vitamina D" e "dor crônica", resultando 220 artigos, sendo incluídos no presente estudo apenas os artigos que avaliaram indivíduos idosos (com 60 anos ou mais), mesmo que não exclusivamente. Desta forma, um total de 65 artigos foi selecionado. Também realizada procura direta por artigos sobre o tema de interesse, artigos estes que não apareceram na busca inicial: três publicações.

Dentre os artigos encontrados, somente 10 preencheram os critérios estabelecidos: vitamina D e dor crônica neuromusculoesquelética envolvendo indivíduos idosos. Assim, os trabalhos incluídos e analisados foram: um estudo de revisão sistemática, cinco estudos analíticos transversais, dois estudos retrospectivos do tipo séries de casos, um estudo observacional prospectivo e um trial clínico randomizado e controlado.

A tabela 1 apresenta uma pequena síntese dos artigos selecionados e seus principais resultados.

 

DISCUSSÃO

Analisando os artigos desta revisão, observou-se que a associação entre déficit da vitamina D e dor crônica parece ser frequente, mas outros pontos ainda estão por esclarecer e merecem consideração, como uma possível ação da vitamina D em transtornos do humor, do tipo ansiedade e depressão, que, comumente, acompanham os quadros dolorosos crônicos. Sugere-se, ainda, que a vitamina D apresente atividade anti-inflamatória, diminuindo algumas citocinas pró-inflamatórias e, assim, diminuindo a dor17.

Infere-se que nem todos aqueles que apresentam déficit da vitamina D desenvolvam quadros de dor musculoesquelética, mas a probabilidade disso ocorrer aumenta quanto menor forem os seus níveis. Poder-se-ia esperar que a vitamina D fosse de grande valia no tratamento da síndrome dolorosa crônica no idoso. Mas, analisando os estudos selecionados nesta revisão, observa-se que alguns chegam a essa conclusão, enquanto outros não podem afirmá-lo.

Não está claro se a deficiência de vitamina D é causa efeito ou, simplesmente, um epifenômeno em situações de dor.

Mais recentemente, autores também sugerem que a hipovitaminose D possa induzir a várias desordens neurológicas, como a epilepsia18. Assim, outra vez se propõem a necessidade de consideração adicional do status da vitamina D em pacientes idosos, que também apresentam desordens neurológicas muito frequentemente.

Quando se busca qual a dose de vitamina D que deve ser utilizada nos quadros de dor crônica, também não se observa um padrão nos estudos. Sugere-se a utilização de vitamina D em doses mais altas, visando não somente aumentar os depósitos daquela vitamina, principalmente no tecido adiposo, mas também visando uma melhora na dor crônica. Uma suplementação de vitamina D3 total diária de 2.400 a 2.800 IU, para iniciar, seria potencialmente benéfica em pacientes com dor musculoesquelética crônica e com síndromes de fadiga19. Vale ressaltar o relato de que pode haver um tempo de até nove meses para que os efeitos máximos desta suplementação sejam atingidos19.

 

CONCLUSÃO

Os estudos existentes sobre vitamina D e dor crônica em idosos ainda são poucos, e os que utilizam a vitamina D no tratamento da dor crônica, principalmente a neuromusculoesquelética, ainda são mais escassos, além de bastante heterogêneos.

Nesta revisão observou-se maior prevalência de dor crônica em indivíduos com deficiência de vitamina D, principalmente em mulheres, e a sua suplementação mostrou-se benéfica em alguns casos, mas não em outros. Assim, há necessidade de mais estudos com objetivos e critério melhor definido para se chegar a maiores conclusões sobre o tema.

A avaliação do déficit de vitamina D deveria estar mais presente nas consultas médicas geriátricas, principalmente naquelas em que existem queixas de dor crônica neuropática e musculoesquelética, por meio da sua dosagem e suplementação, considerando-se que tem baixo custo e ainda poderia ser benéfica no tratamento da dor, além de bem tolerada nas doses habitualmente utilizadas.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Welington Saraiva de Oliveira
Rua Potenji, 60/32
04139-020 São Paulo, SP
E-mail: welington_so09@hotmail.com

Apresentado em 07 de fevereiro de 2013.
Aceito para publicação em 24 de julho de 2013.
Conflito de interesse: Nenhum.

 

 

* Recebido do Serviço de Dor e Doenças Osteoarticulares da Disciplina de Geriatria e Gerontologia (DIGG), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). São Paulo, SP.

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