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Revista de Odontologia da UNESP

On-line version ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.41 no.5 Araraquara Sept./Oct. 2012

https://doi.org/10.1590/S1807-25772012000500001 

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepção do cirurgião-dentista sobre formação profissional e dificuldades de inserção no mercado de trabalho

 

Perception of dentists about professional training and difficulties of insertion in the labor market

 

 

Nemre Adas SalibaI; Suzely Adas Saliba MoimazI; Rosana Leal do PradoII; Cléa Adas Saliba GarbinI

IDepartamento de Odontologia Infantil e Social, Faculdade de Odontologia, UNESP – Univ Estadual Paulista, 16015-050 Araçatuba - SP, Brasil
IIDoutoranda do Programa de Pós-graduação em Odontologia Preventiva e Social, Faculdade de Odontologia, UNESP – Univ Estadual Paulista, 16015-050 Araçatuba - SP, Brasil

Correspondencia para

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A avaliação da percepção de egressos é uma estratégia fundamental para subsidiar o projeto político‑pedagógico nas universidades.
OBJETIVO: Conhecer a percepção dos cirurgiões-dentistas em atuação no mercado de trabalho a respeito das principais dificuldades para sua inserção profissional, logo após o término da graduação, os aspectos positivos e negativos, e as sugestões em relação à formação acadêmica obtida.
METODOLOGIA: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo inquérito, realizada com egressos dos anos 2000 a 2010, do curso de Odontologia de uma universidade pública brasileira. Foi enviado um questionário autoaplicável por correio/email a todos os egressos no período. Os dados foram transcritos e submetidos à técnica da análise de conteúdo, dividida em pré-análise, caracterizada por leitura com atenção flutuante, e exploração do material, descobrindo orientações para análise propriamente dita.
RESULTADO: As categorias referentes às dificuldades no início da vida profissional foram: conseguir emprego/local de trabalho; condições adequadas de trabalho e baixa remuneração; insegurança e confrontação à formação acadêmica obtida, e falta de experiência administrativa. Os aspectos positivos percebidos em relação à formação foram: boa infraestrutura e reputação da universidade, integração ensino-pesquisa e relacionamento docente-discente. Os aspectos negativos compuseram as categorias: preparo administrativo, falta de integração entre conteúdo teórico e atividade prática, e noções de mercado de trabalho. As sugestões apresentaram-se coerentes às dificuldades para o início da vida profissional e aos aspectos negativos.
CONCLUSÃO: Os profissionais têm-se deparado com a saturação do mercado de trabalho e realidades diferentes daquelas vivenciadas na formação acadêmica. Os egressos sugeriram mudanças, apesar de relatarem aspectos positivos no curso realizado.

Descritores: Odontologia; educação superior; recursos humanos.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The evaluation of the perception of graduates is an essential strategy to support the political project educational in universities.
OBJECTIVE: This study aimed to verify the perception of dentists which are working in the labor market, about the difficulties of professional insertion after the graduation, positives and negatives aspects and suggestions regarding the training received.
METHODOLOGY: This is a qualitative survey conducted with graduates of the years 2000 to 2010, of dentistry course from a Brazilian Public University. A self-administered questionnaire was sent by mail/email to all graduates in the period. The data were transcribed and subjected to content analysis, divided into pre-analysis, characterized by carefully reading floating, material exploration, guidelines for finding the analysis itself.
RESULT: The categories related to the difficulties in early life were: getting a job/workplace, adequate working conditions and low pay, insecurity and confrontation obtained the academic and lack of administrative experience. The perceived positive aspects for the training were: good infrastructure and reputation of the university, integrating teaching-research, teacher-student relationship. The negative aspects comprised the following categories: administrative preparation, lack of integration between content theoretical/practical, concepts used in the labor market. The suggestions presented are consistent with the difficulties to the beginning of professional life and the negative aspects.
CONCLUSION: The professionals have faced the saturation of the labor market and different reality from those found in academic life. Despite the positive aspects, graduates suggest changes in the course conducted.

Descriptors: Dentistry; education higher; human resources.


 

 

Introdução

A demanda social, cada vez mais intensa, por profissionais respaldados de valores morais, éticos, de cidadania e implicados com a transformação da sociedade em que atuam tem conduzido a universidade a repensar o perfil de seu egresso, buscando entender que, para obtenção de formação de excelência, é preciso mais de que boa intenção1,2.

Considerando-se o setor público como excelente espaço para que esses atributos sejam aperfeiçoados e se cumpram algumas das funções sociais da educação, a Odontologia caminha aquém de outras profissões. Por diversos anos, foi considerada uma profissão das mais elitizadas no País, com reduzida inserção no setor público, sendo esta basicamente limitada ao atendimento a escolares3. E, mesmo com o movimento de Reforma Sanitária, que contribuiu para reflexões críticas sobre a formação em diversas profissões da saúde, houve a permanência da Odontologia nesta posição4.

Este fato pode ser reafirmado por pesquisas que demonstram aspectos relacionados ao perfil do cirurgião-dentista brasileiro e revelam sua inserção no mercado de trabalho5-8. De modo geral, tais pesquisas apontam a predominância de mulheres no mercado de trabalho e a concentração dos profissionais na região sudeste, com estes atuando predominantemente como autônomos. A ideia de seguir carreira autônoma em consultório particular, pautada nas possibilidades de lucro, ainda é um fator dominante, mas não exclusivo aos graduandos em Odontologia9.

A realidade da Odontologia tem permanecido cada vez mais vinculada à realidade das classes operárias, nas quais a jornada de trabalho é superior a 40 horas semanais, tendo, em algumas situações, mais de um vínculo e possibilidades de remuneração menores, além do atrelamento quase que compulsório a convênios10.

O ordenamento da formação de recursos humanos em saúde, mesmo sendo garantido constitucionalmente ao Sistema Único de Saúde (SUS)11, ainda encontra entraves para que o transformem em prática institucional. As instituições de Ensino Superior ainda encontram dificuldade em formar profissionais dotados de visão humanística, crítica e reflexiva, e com preparo para lidar com a comunidade, apesar de o setor público constituir ampla área de atuação para o cirurgião-dentista. Atividades chamadas extramurais, que conduzem o processo ensino‑aprendizagem para além dos limites da universidade, estiveram, em sua história, pautadas em ideologias e voluntariado de docentes, os quais necessitavam contar com a adesão de alunos4. Contudo, buscando uma mudança de paradigmas na formação acadêmica, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para o curso de Odontologia foram publicadas em 2002 e trouxeram em sua redação orientações que deveriam, a partir de então, conduzir a elaboração dos currículos de modo a possibilitar ao egresso uma formação "[...] generalista, humanista, crítica e reflexiva [...]", a qual deve ser pautada "[...] em princípios éticos e legais, e na compreensão da realidade social, cultural e econômica do seu meio, dirigindo sua atuação para a transformação da realidade em benefício da sociedade."12. Esforço neste sentido tem de ser atribuído também ao Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde), destinado à reorientação da formação em saúde por meio do ensino integrado ao serviço público, buscando responder às necessidades da população brasileira, quando da formação de recursos humanos13. Outra iniciativa que contribui para a transformação dos processos formativos das práticas em saúde e a organização dos serviços é a política de Educação Permanente, a qual interliga ações das esferas de gestão do sistema de saúde e instituições formadoras, em busca de identificação de problemas cotidianos e de construção de soluções14.

Em vista disso, considerando-se o período de novas demandas sociais, o papel da educação é fundamental para contribuir com a transformação da realidade, sem deixar de lado os questionamentos das práticas pedagógicas empregadas nas universidades e da aplicabilidade do conteúdo ensinado. Neste enfoque, o conhecimento e a percepção dos profissionais formados sobre suas dificuldades e deficiências no exercício profissional, sejam estas de formação acadêmica ou relativas a exigências próprias que o mercado de trabalho lhes vem imputando, são de grande valia para a reorientação curricular dos cursos de Odontologia. Considerando-se o momento no qual a universidade está imersa, no qual cursos que reestruturaram seus currículos a partir das DCN estão em fase de reavaliação, a contribuição dada por profissionais egressos das instituições parece ser fundamental.

Na interface dessas circunstâncias, objetivou-se conhecer a percepção dos cirurgiões-dentistas, em atuação no mercado de trabalho, a respeito das principais dificuldades para sua inserção profissional logo após o término da graduação, dos aspectos positivos e negativos, e das sugestões em relação à formação acadêmica obtida.

 

Metodologia

Esta pesquisa do tipo inquérito foi realizada com a participação de profissionais formados no curso de Odontologia de uma universidade pública brasileira, após aprovação do comitê de ética em pesquisa com seres humanos.

Para a compreensão do cenário de estudo, é importante recorrer às DCNs, que permitem, a critério do colegiado de cada curso, escolher a modalidade de funcionamento de seu currículo12. A universidade em questão adota a modalidade seriada anual e encontra-se em processo de transição do currículo acadêmico.

A coleta de dados foi realizada empregando-se um instrumento contendo questões abertas, que buscaram avaliar as principais dificuldades para a inserção profissional dos cirurgiões-dentistas, logo após o término da graduação. Também foram questionados aspectos positivos e negativos, e solicitadas sugestões em relação à formação acadêmica. Os questionários foram enviados pelo correio e/ou e-mail aos egressos do período de 2000 a 2010. Do total de questionários enviados, 56 retornaram ao remetente e 991 possivelmente chegaram ao seu destino. Destes, 189  retornaram respondidos, representando 19,1% de retorno, o que é esperado para este tipo de pesquisa. Os endereços foram obtidos junto à seção responsável na universidade. Compuseram o conteúdo enviado: a carta explicativa da pesquisa e a apresentação do pesquisador, o questionário e um envelope pré-endereçado e já selado. Os participantes foram também informados quanto a aspectos éticos concernentes ao sigilo das informações.

Os dados dos profissionais participantes da pesquisa foram transcritos na íntegra e submetidos à técnica da análise de conteúdo, de acordo com as fases propostas por Bardin15: Pré-análise, caracterizada por leitura com atenção flutuante, e Exploração do material, através de várias leituras deste, já categorizado, descobrindo orientações para a análise propriamente dita. Os resultados obtidos foram interpretados, por meio da busca do sentido latente ou subjacente expresso no manifesto, e da associação com tendências e abordagens correntes a respeito do fenômeno estudado16.

 

Resultado

Na análise dos resultados, observou-se a coerência entre as respostas dos participantes da pesquisa. As temáticas apontadas no item 'Dificuldades no início do exercício profissional' ressurgiram como aspectos negativos na formação e também nas sugestões para a melhoria do curso de graduação.

De forma a facilitar a compreensão, os resultados foram apresentados em quadros, compostos pelas categorias emergidas da análise de conteúdo. Tais categorias compõem os objetos de estudo desta pesquisa, sendo que as falas dos profissionais estão descritas na íntegra, preservando possíveis erros gramaticais e ortográficos.

As dificuldades para o início da vida profissional foram expressas pelas seguintes categorias: Conseguir emprego/local de trabalho; Confiança de outros profissionais e pacientes com o fato da recém-formatura; Condições adequadas de trabalho e baixa remuneração; Insegurança e confrontação à formação acadêmica obtida; Falta de experiência administrativa (Quadro 1).

A diversidade apresentada nas categorias demonstrou, como tônica, a submissão a condições inadequadas de trabalho atreladas à baixa remuneração e à falta de experiência administrativa. Os relatos dos egressos impulsionam a uma reflexão a respeito das condições a que os profissionais se submetem para não ficarem desempregados.

A categoria 'Insegurança e confrontação à formação acadêmica obtida', excepcionalmente esteve apresentada em subcategorias, tamanha a sua complexidade. Em um dos relatos, o profissional assume ter de se submeter a situações impróprias para que possa trabalhar, as quais denomina 'certas coisas'. Relatos dessa natureza podem demonstrar que o ensino oferecido na universidade difere da realidade do mercado de trabalho e, ainda, que este tem se tornado austero quanto à lida com o trabalhador, forçando-o a se comportar de maneira contrária às suas convicções.

A falta de experiência administrativa, recorrente em muitos relatos, surge uma vez que o curso de Odontologia oportuniza diferentes possibilidades de atuação aos egressos, inclusive a atuação autônoma. Essa percepção também pode estar relacionada à dificuldade para inserção no mercado de trabalho, já que, principalmente na modalidade autônoma, o conhecimento de aspectos gerenciais e administrativos colabora com o desempenho e o sucesso profissional.

Os relatos dos egressos a respeito de aspectos positivos do curso de graduação puderam ser classificados nas seguintes categorias: infraestrutura, ensino e pesquisa, relacionamento discente/docente, reputação da universidade (Quadro 2).

A questão infraestrutural pode ser atrelada à gama de investimentos que vêm sendo feitos nas universidades públicas brasileiras nos últimos anos, o que tem colaborado para o aprimoramento do ensino. Porém, nesta categoria, destaque pode ser dado ao reconhecimento da qualidade de um ensino pautado em evidências científicas, além da reputação da universidade.

Em relação aos aspectos negativos apontados pelos profissionais, as categorias emergidas da análise de conteúdo foram as seguintes: preparo administrativo, falta de integração entre conteúdo teórico e prático, e noção do mercado de trabalho (Quadro 1).

Em coerência com as dificuldades para o início profissional, o preparo administrativo agora é enfocado como deficiência da graduação oferecida.

A falta de integração entre o conteúdo teórico e a atividade prática relaciona-se à capacidade de significar o aprendizado teórico de maneira que o aluno consiga perceber seu sentido prático e oportunizar vivências diversas que são fundamentais para a consolidação do aprendizado. Os relatos nessa categoria levam a questionar qual seria o melhor modelo de currículo para um curso de Odontologia, considerando-se inclusive a ampliação do tempo de graduação. Na medida em que a universidade em questão encontrava-se em período de transição do currículo, o curso de graduação integral que possuía duração de quatro anos, neste novo modelo, já foi ampliado para cinco anos.

Por último, nos relatos dos egressos em relação a sugestões que contribuiriam para a melhora do curso de Odontologia, as categorias, novamente coerentes com as anteriores, foram as seguintes: Implementação de aulas de administração/gerenciamento/marketing; Mudanças na grade curricular e direcionamento da formação à realidade nacional; Atuação do professor junto à universidade; Minimizar gastos pessoais com o curso (Quadro 3).

Sugestões, como ampliação da grade curricular, aprofundamento teórico de algumas disciplinas e ênfase em outras, tomando como referência a realidade nacional, determinaram a tônica desta categoria. A universidade estudada vem passando pela reestruturação de seu currículo e sua grade do curso integral, que era quatro anos, foi estendida para cinco anos. Já o curso noturno, desde sua implementação, ocorre em seis anos.

Alguns profissionais relataram a necessidade de dedicação exclusiva do docente à universidade e, em alguns casos, há o desejo de aprofundamento teórico ainda no período de graduação. Como é possível encontrar nos relatos, algumas vezes os egressos sentiram-se tratados de maneira diferenciada, quando comparados a pós-graduandos.

A sugestão de um planejamento mais racional das listas de materiais solicitadas na graduação, de maneira a evitar despesas desnecessárias aos alunos e ocorrer uma contrapartida da universidade, retornou aos achados da pesquisa nesta última temática.

 

Discussão

A opção por uma metodologia também de cunho qualitativo deveu-se à importância desta na busca por compreensão de questões, as quais o método quantitativo, por si só, não é capaz de elucidar. A lente pela qual o pesquisador compreende o objeto de estudo traz consigo observações que estão atreladas à subjetividade dos profissionais pesquisados e também dele próprio, considerando, inegavelmente, a consciência histórica da pesquisa17. São ricas as contribuições que esta abordagem traz para a ciência.

Em relação ao percentual de retorno, este ocorreu dentro do esperado, apesar de haver na literatura diferentes registros, variando de acordo com as peculiaridades metodológicas. Estudos realizados com cirurgiões-dentistas usando semelhantes metodologias obtiveram retornos entre 7% e 15,5%18,19. Pode-se considerar, ainda, o não recebimento de alguns questionários pelos profissionais, bem como a própria cultura brasileira de participação em pesquisas, que não é frequente.

A necessidade de reformulação do processo educacional, atrelada ao redirecionamento do perfil do egresso demandado pela sociedade, às novas possibilidades de inserção profissional e ao posicionamento que a Odontologia ocupa entre as profissões da saúde, incita a buscar uma compreensão sobre a qualidade do Ensino Superior.

Dessa maneira, as muitas questões que permeiam a prática profissional puderam, em parte, ser aqui expressas. As variáveis questionadas demonstraram coerência entre si, sendo este fato percebido por meio da análise dos resultados. Ao se observarem as temáticas apontadas no item 'dificuldades no início do exercício profissional', percebe-se que são recorrentes nas categorias seguintes, as quais expressam pontos negativos e sugestões para o aprimoramento do curso.

Além de outros fatores, o bom desempenho profissional está diretamente relacionado com a qualidade do ensino oferecido. Porém, o entendimento do conceito 'qualidade' não se configura tarefa simples e, por diversas vezes, vem imbricado à empregabilidade e à lógica de mercado20, não se considerando outras possibilidades. Pensando desta maneira, ao avaliar o relato dos profissionais sugerindo dificuldades em empregar-se no início da carreira, pode-se ser conduzido a pensar de maneira equivocada a respeito da formação oferecida pelas instituições de Ensino Superior, colocando em questão a qualidade do ensino proporcionado por estas, desconsiderando o entorno das relações profissionais.

Altos padrões infraestruturais, como: acesso a laboratórios de última geração, bibliotecas interligadas a bases de dados internacionais e acervo homérico podem garantir boas avaliações quantitativas, mas é possível questionar: 'De fato, por si só são capazes de formar profissionais críticos ao processo ensino‑aprendizagem?'. A resposta a essa questão não é simples, mas, com certeza, bons recursos humanos a serem lapidados e docentes qualificados e dispostos a essa lapidação, compõem parte importante nesse processo. Considerando-se, ainda, que a sociedade atual não demanda profissionais com a mesma qualificação de anos atrás e que o mundo globalizado, imerso em tecnologias de informação, exposto a diferentes culturas e países, a formação de cidadãos éticos é mais necessária que nunca1.

Porém, nessa conjuntura globalizada, é um equívoco considerar apenas a atuação docente quanto à formação profissional, apesar de sua reformulação ser iminente. Os docentes mostram lacunas em sua preparação didático-pedagógica, a qual requereria das instituições de ensino superior esforços em subsidiar cursos de capacitação e possibilitar, ainda, estratégias de ensino que transformem o aluno em agente corresponsável por seu aprendizado, dividindo com o professor este encargo21.

Conforme o relato dos participantes, a reputação da universidade é um aspecto positivo e importante na escolha da carreira, mas, ainda segundo os relatos, está atrelada a outros valores: competência docente, impressões da sociedade e aspectos mercadológicos.

Este último aspecto está relacionado ao fato de que a Odontologia possibilita o trabalho em várias modalidades, como atuação autônoma, serviço público e privado6,22, além da inserção de profissionais em convênios e trabalho por porcentagem, os quais têm se popularizado. Desta maneira, a necessidade de apresentar atributos necessários aos empregadores tem de ser considerada. Esses atributos muitas vezes são alcançados através de sujeição à baixa remuneração ofertada por convênios, por exemplo, e consequentemente ao descontentamento, tanto com rendimentos quanto com a profissão, estando estes presentes nos relatos.

Entretanto, e fundamentalmente, a formação educacional tem de trazer consigo questionamentos críticos que valorizem a pessoa, de forma a manter latente a confrontação do trabalhador ao seu trabalho.

Nessa conjuntura, os progressos da ciência não trouxeram consigo apenas aspectos proveitosos da divisão do trabalho. Agregaram também os caminhos tortuosos da superespecialização e da fragmentação do conhecimento, reservando a técnica aos especialistas e conferindo-lhes a competência por áreas delimitadas, atreladas à incompetência, quando tais áreas sofrem agregação de novos conhecimentos. Nesses termos, o cidadão é destituído do direito ao conhecimento, restando-lhe o saber especializado, o qual é adquirido nos estudos com seus pares. Também é privado da qualidade de cidadão, quando considerado sob qualquer ponto de vista global e pertinente23.

Em face disso, a Educação Superior proporcionada pelas instituições tem aguçado em seus alunos a supressão da subjetividade e o esmagamento da autonomia? De acordo com os achados, os profissionais relataram uma boa formação técnica obtida junto à universidade, entretanto, as questões globais, de cunho humano e social, e o conhecimento de outras ciências, como demografia, economia e necessidades da população, têm sido subjugados, o que se pode perceber por meio das sugestões que os egressos fizeram para a melhora do curso.

Em geral, escolas de administração utilizam, como recursos, disciplinar o trabalhador, anulando-lhe o orgulho, a autonomia e a iniciativa crítica24. A instigação destas situações é posta ao se verificar nos achados a submissão a situações inadequadas, de desvalorização e exploração da atividade profissional, insegurança em excesso, necessidade de preceptoria após a graduação e a falta de parâmetros profissionais. Pensando exclusivamente em questões mercadológicas, pautadas em leis de oferta e procura, acumulação de capital, algumas dessas situações encontram certas justificativas. A recém-formatura também oferece algum respaldo argumentativo, se considerada, a priori, como o desbravar de um novo campo. Contudo, se for considerada exclusivamente a moldagem às tendências do mercado de trabalho, pode preambular a frustração e o insucesso.

Entretanto, a confrontação dos profissionais com a realidade do trabalho fora da universidade, a fragmentação das disciplinas do curso e o posterior desejo da inserção de disciplinas optativas, como foi constatado, sugerem indícios de uma educação fracionada. Enquanto acadêmicos, os profissionais, em vez de buscar atender às necessidades da população, veem no paciente um objeto no qual o conhecimento teórico adquirido é praticado, desvinculando-o de sua realidade25. Referência sutil no relato "Falta de preparo para mercado de trabalho e gerenciamento financeiro do consultório. Fechei o meu (consultório) em 2 anos e fiquei só na prefeitura", permite considerar que o serviço público tem tornado-se campo importante de atuação do cirurgião‑dentista. Tal importância é reafirmada pelo esforço governamental em aproximar as práticas pedagógicas dos cenários reais, com a implementação do Pró‑Saúde, por exemplo13. Porém, o SUS tem sido apenas em parte reconhecido com referencial cognitivo-político-ideológico pelos cirurgiões-dentistas26, o que se configura em um problema, quando considerada a necessidade de garantia de seus princípios doutrinários, segundo os quais se deve, fundamentalmente, considerar o paciente.

Assim, há um distanciamento entre o ensino da Odontologia nas universidades e a proposta de universalização do cuidado em saúde bucal à população brasileira27. No cenário atual, a profissão vive uma crise de prestígio e, na tentativa de negá-la, a academia enfatiza o 'status' já conseguido, pautando-o na competência técnica28.

 

Considerações finais

A Odontologia, assim como outras profissões de saúde, há muito tempo vem passando por processos de transformação, atendendo à necessidade de romper com o paradigma tecnicista e incorporar outros atributos também necessários ao seu desempenho.

Os cirurgiões-dentistas têm sido subjugados às leis de mercado e, com isso, têm tido dificuldade em refletir a respeito de aspectos éticos e bioéticos. Deparam-se com a saturação deste mercado e com realidades diferentes daquelas encontradas na vida acadêmica, aspecto este fortalecido pela ênfase na formação técnica. Sentiram-se de despreparados do ponto de vista administrativo para ingressar no mercado de trabalho, o que também pode ser reflexo da saturação.

Acreditaram ser importantes, em sua formação, a boa infraestrutura e a reputação da universidade, o foco na pesquisa científica e o bom relacionamento com docentes.

A mudança na grade curricular, a inserção de conteúdos sobre administração, o ajuste de alguns conteúdos teóricos e práticos e a consonância da formação à realidade do mercado do trabalho mostraram-se como sugestões para aprimoramento da Educação Superior em Odontologia.

Entre potencialidades e limitações, esta pesquisa vem contribuir para a reflexão da formação em Odontologia, a qual possui como desafio ir além do caráter tecnicista, incorporando, ao ensino regular, aspectos que fortaleçam a educação crítico‑reflexiva e ética, e que sejam produtores de autonomia e cidadania.

 

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Autor para correspondência

Rosana Leal do Prado
Departamento de Odontologia Infantil e Social, FOA – Faculdade de Odontologia de Araçatuba, UNESP – Univ Estadual Paulista, Rua José Bonifácio, 1193, Vila Mendonça, 16015-050 Araçatuba - SP, Brasil
e-mail: rosanahb@yahoo.com.br

Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Recebido: 14/05/2012
Aprovado: 05/09/2012

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