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Ciência Animal Brasileira

Print version ISSN 1518-2797On-line version ISSN 1809-6891

Ciênc. anim. bras. vol.17 no.4 Goiânia Oct./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/1089-6891v17i439010 

MEDICINA VETERINÁRIA

ANATOMIA ÓSSEA E MUSCULAR DA ESCAPULA E BRAÇO DE Chrysocyon brachyurus (CARNÍVORA, CANIDAE)

ANATOMY OF BONE AND MUSCLE OF SCAPULA AND ARM OF Chrysocyon Brachyurus (CARNIVORA, CANIDAE)

Saulo Gonçalves Pereira1  * 

André Luiz Quagliatto Santos1 

Daniela Cristina Silva Borges1 

Priscilla Rosa Ribeiro Queiroz1 

José Onício Rosa da Silva2 

1Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, MG, Brasil.

2Faculdade Patos de Minas, Patos de Minas, MG, Brasil


Resumo

O Lobo-guará Chrysocyon brachyurus - Illiger, 1815, é o maior canídeo da América do Sul, distribuindo-se na região central desse continente, preferencialmente em biomas descampados. Pode atingir entre 20 e 33 kg e até 125 cm de altura. Encontra-se em ameaça de extinção. O conhecimento anatômico é de grande importância para a complementação das informações acerca das espécies silvestres e para implicações clínicas, cirúrgicas e conservacionistas. Objetivou-se descrever os ossos e respectivos acidentes ósseos pertencentes ao cíngulo do membro torácico da região braquial e respectivos músculos do lobo-guará, por meio dos procedimentos de dissecação em animais preservados em solução de formol a 10%. Os animais pertencem ao acervo didático do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Animais Silvestres da UFU e são provenientes de atropelamentos. Os ossos são: escápula e úmero. Não foi observada a clavícula. Os músculos são: M. deltoide; M. supraespinhal; M. infraespinhal; M. redondo maior; M. redondo menor; M. tríceps braquial cabeças: lateral, acessória, longa e medial; M. ancôneo; M. bíceps braquial; M. subescapular; M. coracobraquial; M. tensor da fáscia do antebraço; M. braquial. A escápula e o braço têm acidentes específicos, porém são semelhantes aos dos cães domésticos. O úmero é reto. Os músculos apresentam algumas peculiaridades.

Palavras-chave: anatomia; canídeos; lobo-guará; miologia; osteologia

Abstract

The maned wolf, Chrysocyon brachyurus - Illiger, 1815, is the largest canid of South America and its found in the central region of the continent, preferably in open field biomes. It may reach between 20 and 33 kg and up to 125 cm. It is under threat of extinction. Anatomical knowledge is of great importance to the completion of information about wild species and clinical, surgical, and conservationist implications. This study aimed to describe the bones and the bone accidents of the cingulate forelimb of brachial region and their respective muscles in maned wolf, through dissection procedures of animals preserved in 10% formalin solution. The animals belong to the didactic collection of the Laboratory of Education and Research on Wild Animals of UFU, and are the result of roadkill. The bones are scapula and humerus. There was no clavicula. The muscles are: M. deltoideus; M. supraspinatus; M. infraspinatus; M. teres major; M. teres minor; M. triceps brachii caput: laterale, accessorium, longum and mediale; M. anconeus; M. biceps; M. subscapularis; M. coracobrachialis; M. tensor fasciae antebrachii; M. brachial. The scapula and arm have specific accidents; however, they are similar to domestic dogs. The humerus is straight. The muscles have some peculiarities.

Keywords: anatomy; canids; maned wolf; muscles; osteology

Introdução

A anatomia macroscópica serve como ferramenta fundamental para a descrição de uma espécie e para a comparação entre espécies morfologicamente parecidas. Apesar das semelhanças anatômicas entre os cães domésticos e os canídeos selvagens, há peculiaridades na descrição de espécies selvagens. Dessa maneira, o conhecimento de sua anatomia muscular e óssea é de grande importância(1,2).

Chrysocyon brachyurus - Illiger, 1815 - pertence à ordem Carnívora e à família Canidae, que possui 13 gêneros e 35 espécies(3). É encontrado na Terra desde o período Pleistoceno até os dias atuais, sua filogenia está próxima à dos cães-do-Pólo-Norte, raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus - Lund, 1842) raposinha (Lycalopex vetulus- Lund, 1842 - que é o único canídeo unicamente brasileiro) e, por fim, o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous- Linnaeus, 1766)(4). Habita áreas de vegetação aberta principalmente no Cerrado, Pampas e Caatinga com menor frequência na Floresta Atlântica, ainda há ocorrência na Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, Uruguai. Está classificado como vulnerável em extinção(3).

Os membros torácicos de C. brachyurus são longos, o que auxilia o animal em uma melhor perspicácia visual, maior aceleração, dentre outros fatores. A disposição dos ossos dos membros possibilita sua movimentação em descampados de grande extensão, porém apresenta certa dificuldade para descer(5). Não há dimorfismo sexual aparente.

Com relação ao seu passo, C. brachyurus é classificado como cursorial digitígrado e o seu passo é único entre os canídeos, pois seu andar é "compassado", no qual os membros torácicos e pélvicos, do mesmo lado, se movem ao mesmo tempo. É possível que essa movimentação de andadura seja mais eficiente na manutenção de energia através dos caminhos de gramíneas altas do habitat nativo, representando, assim, sua postura com ossos finos e alongados com possibilidade de aceleração e saltos(6-8).

Visto a importância de C. brachyurus para o meio ambiente, como predador de pequenos animais e dispersor de sementes, considerando, ainda, o conhecimento anatômico sobre a espécie para os apontamentos de ordem clínica, cirúrgica (sobretudo, em função dos vários acometimentos e fraturas ósseas que são bastante recorrentes, muitas devido aos atropelamentos) e conservacionista, objetivou-se descrever os principais acidentes ósseos e os músculos da escápula e braço de C. brachyurus.

Material e Métodos

Foram utilizados os membros torácicos de C. brachyurus de três espécimes adultos, que se encontravam fixados em solução aquosa de formaldeído a 10% e conservados em cubas opacas contendo a mesma solução. Tais animais, que fazem parte do seu acervo permanente do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Animais Silvestres da Universidade Federal de Uberlândia (LAPAS-UFU), são provenientes de atropelamento.

Para a descrição muscular, inicialmente, foi feita a retirada da pele e do excesso de tecido adiposo do membro torácico de três indivíduos. Os músculos foram expostos e dissecados, segundo as técnicas usuais em anatomia macroscópica, observando-se a origem, inserção e distribuição muscular. Para a descrição dos ossos, os membros torácicos de três animais foram macerados por cocção com ebulidor elétrico em balde plástico de 20 litros com água fervente e posteriormente depositados em solução de peróxido de hidrogênio (50% PA). Depois de limpos e secos, os ossos foram identificados e minuciosamente descritos.

A pesquisa está de acordo com a Instrução Normativa 03/2015 do IBAMA e está protocolada no Comitê de Ética na Utilização de Animais UFU 087/16. Os dados foram discutidos e as descrições estão apresentadas, de acordo com os termos recomendados pelo International Committee on Veterinary Gross Anatomical Nomenclature(9). As imagens foram registradas com câmera digital, as fotos foram tratadas pelo software Photoshop CS (2012®).

Resultados e Discussão

O osso escápula de C. brachyurus tem duas faces, três ângulos e três bordas (Figura 1- A, B, C). É um osso plano, triangular e estreito. Existe uma acentuada diferença entre o ângulo cranial que é arredondado e o ângulo caudal que é projetado sobe a quarta costela. Na face lateral em sua região média, de forma oblíqua, encontra-se a espinha da escápula, que aumenta gradativamente de altura no sentido dorsoventral e divide esta face em duas fossas (fossa supra e infraespinhal). Nesta espinha da escápula, em C. brachyurus, inserem-se os músculos omostransverso, deltoide e trapézio. A fossa infraespinhal é mais larga e em sua extremidade apresenta o ângulo caudal bem definido além da fossa supraespinhal que é mais estreita com borda arredondada. Esta configuração também é observada em cão-doméstico (Canis lupus familiaris - Linnaeus 1758)(10-13), paca (Agouti paca)(14) e cachorro-do-mato (15).

Figura 1 Escápula de C. brachyurus: A – face lateral. B – face costal. C – face ventral. 1- Borda dorsal; 2- Borda caudal; 3- Borda cranial; 4- Ângulo caudal; 5- Ângulo cranial; 6- Ângulo ventral (cavidade glenoidea); 7- Fossa infraespinhal; 8- Fossa supraespinhal; 9- Espinha da escápula; 10- Acrômio; 11- Tubérculo infragleinoide; 12- Fossa subescapular; 13- Colo da escápula e Forame Nutrício; 14- Face serrátil; 15- Processo coracoide; 16- Tubérculo supragleinoide; 17- Processo hamato. 

A borda cranial é fina e convexa, enquanto a borda caudal é reta e mais espessa. A borda dorsal é, também, convexa e espessa e é circundada por uma faixa de cartilagem escapular. O colo da escápula é bem nítido (Figura 1 - A, B, C), no ângulo ventral, há a cavidade glenoidal, uma superfície lisa, oval e côncava que se articula com o úmero. Situada craniodorsalmente a esta cavidade, há uma saliência rugosa, o tubérculo supraglenoidal, do qual se destaca o processo coracoide. Há um número variável de forames nutrícios no colo da escápula. Na face costal encontra-se a fossa subescapular que é extremamente rasa e áspera com demarcação pouco nítida e na porção proximal cranial a face serrátil, a mesma conformação pode ser encontrada em Cerdocyon thous(15).

Na extremidade distal, no ângulo ventral, está presente o acrômio, que é curto e está oposto à borda da cavidade glenoidal, ainda no acrômio. Percebe-se, assim como nos felinos, o processo hamato (ventral) e o processo supra-hamato (dorsal), que dá inserção do músculo deltoide parte acromial(10,14). C. brachyurus, assim como alguns carnívoros corredores, tem o movimento do passo como cursorial digitígrado e, dessa maneira, a escápula sendo livre de movimento facilita o desenvolvimento de uma aceleração efetiva juntamente com os músculos do cíngulo, dando sustentação para atividades de saltar e pular. Ressalta-se que a escápula alongada facilita tais movimentos em função da ausência da clavícula (7,16,17).

O osso úmero de C. brachyurus (Figura 2 - A, B) possui duas extremidades (proximal e distal), diáfise e faces cranial, medial, lateral e caudal, articula-se com a cavidade glenoidal na sua região proximal para formar o ombro e distalmente com os ossos rádio e ulna formando o cotovelo. É longo e apresenta um tênue giro espiral. Seu corpo apresenta-se levemente comprimido lateralmente, especialmente nos seus dois terços proximais. Comparado ao úmero do C. familiaris, não é tão encurvado e convexo cranialmente (10).

Figura 2 Úmero de C. brachyurus: A – Face Cranial; B – Face Lateral; C – Face Medial; D – Face caudal. 1, 23, 27- Tubérculo menor; 2, 12, 24- Tubérculo maior; 3- Tuberosidade do musculo redondo menor; 4- Crista do tubérculo maior; 5, 22- Tuberosidade do M. redondo maior; 6, 15- Tuberosidade deltoide;7- Sulco do M. braquial; 8, 16- Fossa radial; 9- Forame supratroclear; 10- Capítulo; 11, 17, 25- Tróclea; 13, 26- Cabeça; 14- Colo; 18, 29- Epicôndilo Lateral; 19, 30- Epicôndilo medial; 20- Corpo; 21, 31- Fossa do Olecrano; 28 Crista supracondilar lateral. 

Na extremidade proximal, localiza-se a cabeça do úmero, que é acentuadamente curvada craniocaudalmente e limitada ventralmente por um colo bem delineado (Figura 2 - A, B). Ainda na cabeça encontram-se o tubérculo maior, que está disposto craniolateralmente próximo à cabeça do osso e não apresenta divisões, e o tubérculo menor, situado na face lateral da extremidade proximal do úmero, pouco evidente e repleto de forames nutrícios, principalmente em sua face medial, e que também não é dividido. O sulco intertuberal inicia-se na extremidade cranial da área articular e aloja o tendão de origem do musculo bíceps braquial. O sulco do músculo braquial é uma depressão rasa e lisa na face lateral do úmero, assim como para cães(10).

A face cranial em sua porção distal estreita-se até a tróclea do úmero, onde se encontra a crista do tubérculo maior (Figura 2). A tuberosidade deltoidea localiza-se na face lateral da extremidade proximal, distalmente ao tubérculo maior que é convexo e dá inserção dos músculos supra e infraespihal, e é pouco evidente comparando-se ao cão. O forame nutrício situa-se aproximadamente no terço médio da face caudal. O sulco do músculo braquial é uma depressão rasa e lisa na face lateral do úmero, assim como para Canis lupus familiaris(18). A crista epicondilar é pouco evidente.

A face caudal é lisa e termina estreitando-se na fossa do olecrano. Já na face medial, assim como para cães, a crista do tubérculo menor liga-se à tuberosidade redonda maior. Nesta região inserem-se os músculos grande dorsal e redondo maior e está pouco evidente em lobo-guará(11,18).

Ossos alongados e retos dão para esta espécie algumas funcionalidades adaptativas, tais como, deslocamento por grandes áreas, velocidade, capacidade de saltos e de sustentação. Essas adaptações fazem parte de seu comportamento(19,20). O côndilo divide-se em tróclea do úmero, capítulo, fossa radial e olecrano.

Em C. Brachyurus, o sulco que divide a tróclea do úmero e o capítulo é bastante proeminente, diferentemente do que é descrito para cães(10). Tal característica favorece as alavancas para um maior ganho no passo(21). A fossa radial é uma depressão rugosa, na porção cranial do osso úmero, localizada acima da tróclea do úmero. A fossa do olecrano, situada na porção caudal, abriga parte do osso ulna. Estas fossas comunicam-se através do forame supracondilar, bem desenvolvido em carnívoros. Os epicôndilos são o medial na face medial da extremidade distal e o epicôndilo lateral proximal ao capítulo, que são bem nítidos, sobretudo o epicôndilo medial(18,11,12).

Os músculos são as unidades ativas de trabalho dos animais e, por meio dos movimentos de contrações e relaxamentos de suas fibras, harmonizam os movimentos de flexão, extensão, rotação, adução e abdução do membro(22). Os músculos da escápula, ombro e braço de C. brachyurus originam-se na escápula e se inserem no úmero. Dividem-se na face lateral e face medial da escápula e úmero. Os músculos laterais da escápula (Figura 3- A) compreendem os músculos supraespinhal, deltoide, infraespinhal e redondo menor.

Figura 3 Músculos de ombro de braço de C. brachyurus - A- Vista Lateral, B- Vista Medial 1- M. Supraespinhal; 2- M. Infraespinhal; 3- M. Redondo maior; 4- M. Bíceps braquial; 5- M. Tríceps braquial cabeça acessória; 6- M. Tríceps braquial cabeça lateral; 7- M. Ancôneo; 8- M. Deltoide porção escapular [parcialmente rebatido]; 9- M. Deltoide porção acromial; 10- M. Tríceps braquial cabeça longa; 11- M. Bíceps braquial; 12- M. Braquicefálico [parcialmente rebatido]; 13- Ângulo cranial da escápula; 14- Face Serrátil; 15- M. Subescapular, 16- M. Redondo maior; 17- M. Coracobraquial; 18- M. supraespinhal; 19- M. Grande Dorsal [parcialmente rebatido]; 20- M. Bíceps braquial; 21- M. Tríceps braquial cabeça medial; 22- M. Tensor da fáscia do antebraço; 23- Olecrano. 

O M. Supraespinhal origina-se e se localiza na fossa supraespinhal da escápula, está localizado profundamente ao M. trapézio e M. omotransversal, insere-se por um tendão no tubérculo maior do úmero, é longo, profundo e sinergista do ombro. Semelhança a essa anatomia também foi encontrada em Cerdocyon thous(23), em Nasua Nasua(24) e na onça-parda - Puma concolor - Kerr, 1792(25).

O M. Infraespinhal (3 2A) origina-se e localiza-se na fossa infraespinhal da escápula, insere-se na parte caudal do tubérculo maior do úmero, está profundo ao M. Deltoide, é sinergista da articulação do ombro e é um músculo plano. Este músculo funciona como um ligamento colateral lateral da articulação do ombro assim como para outros carnívoros(26).

O M. redondo menor (Figura 3- A) é pouco evidente em C. brachyurus, é curto, origina-se na borda caudal da escápula e se insere-se na tuberosidade do redondo menor no úmero, assim como para mão-pelada (Procyon cancrivrus- Cuvier, 1798)(27), semelhante ao Canis lupus familiaris(11) e ao Nasua nasua(24).

O M. Deltoide (Figura 3) situa-se lateralmente à escápula, assim como em Canis lupus familiaris, gato (Felis catus - Lineus 1758)(28,29), em quati (Nasua nasua)(24) e em Cerdocyon thous(23) e divide-se em duas partes (porção proximal e distal). Em C. brachyurus a porção proximal origina-se na espinha da escápula e a porção acromial (distal) origina-se na região do acrômio junto ao processo hamato. Ambas as porções inserem-se na tuberosidade deltoidea na face lateral do úmero. Com relação à sua ação, infere-se que auxilie juntamente com o M. cleidobraquial na movimentação e deslocamento em função da ausência da clavícula.

Os músculos laterais da escápula (Figura 3- A) são: M. subescapular; M. redondo maior e M. coracobraquial. O M. redondo maior (Figura 3- B) origina-se no ângulo caudal da escápula e insere-se na tuberosidade do redondo maior do úmero. É um músculo alongado; apesar de ser chamado redondo não é arredondado, diferentemente de Canis lupus familiaris que é afinalado na extremidade distal.

O M. subescapular (Figura 3- B) localiza-se na fossa subescapular e parte da face serrátil da escápula. É um músculo plano com várias inervações longitudinais em direção à inserção do músculo que se localiza no tubérculo menor do úmero. Ele ocupa apenas essa fossa, diferentemente do observado em Cerdocyon thous que ocupa uma área maior que a da fossa subescapular(23).

O M. coracobraquial (Figura 3- B) em C. brachyurus é um músculo pouco evidente, alongado, que tem sua origem em um estreito tendão a partir do processo coracóide da escápula e insere-se profundamente ao M. Tríceps braquial cabeça lateral. Este músculo é, também, alongado para auxiliar no posicionamento de extensão do ombro; no entanto, sua ação é aparentemente restrita(29).

Os músculos do braço de C. brachyurus são, em sua parte cranial, o M. bíceps braquial e o M. braquial e, em sua face caudal, o M. tensor da fáscia do antebraço, o M. Tríceps braquial e o ancôneo.

O M. bíceps braquial (Figura 3- A, B) de C. brachyurus origina-se como um tendão proeminente a partir do tubérculo supragleinodal da escápula. É um músculo tendíneo em sua porção muscular, é fusiforme e alongado onde tem uma fáscia tênue lateralmente, com a mesma conformação que Canis lupus familiaris(30). Insere-se na tuberosidade ulnar e radial por dois tendões fibrosos. Um padrão encontrado nessa espécie foi o de músculos alongados, assim como seus ossos. Acredita-se que esta condição corpórea dê ao animal a possibilidade de ter membros também alongados, o que proporciona uma melhor capacidade visual, dentre outros fatores. Carnívoros arborícolas como Nasua nasua tem esse músculo menos alongado (24). A ação descrita para Canis lupus familiaris de flexionar a articulação do cotovelo e estender a articulação do ombro também descreve C. brachyurus(18).

O M. braquial (Figura 3- A, B) está localizado no sulco do M. braquial, em C. Brachyurus, e cruza a articulação do cotovelo. Este músculo tem uma parte que está profunda ao M. cíceps braquial e, juntamente com este, insere-se na tuberosidade da ulna, diferentemente do descrito para Canis lupus familiaris que tem sua inserção no rádio(18).

M. tensor da fáscia do antebraço (Figura 3- A, B) é alongado e está superficialmente situado em C. brachyurus sobre o M. tríceps braquial cabeça longa. Sua origem é na margem caudal da escápula e tem sua inserção no olecrano. Assim como em outros canídeos, acredita-se que, em função de sua posição, o M. tensor da fáscia do antebraço flexiona a articulação do ombro e tenciona a fáscia antebraquial(11).

O M. tríceps braquial (Figura 3- A, B) de C. brachyurus está dividido em quatro partes (cabeças): longa, lateral, acessaria e medial; no entanto com três inserções no olecrano. A porção longa é mais protuberante e, como o próprio nome diz, mais alongada que as demais. Esta porção origina-se na borda caudal da escápula. Em seu corpo alongado existem fibras direcionadas tendíneas que formam um forte tendão que se inserem na parte caudal do olecrano. De acordo com sua posição, infere-se que, assim como com outros canídeos, tenha a função de flexionar a articulação do ombro(10-12,18). A parte lateral do tríceps-braquial origina-se no úmero por uma aponeurose fina na cabeça lateral do úmero e se insere juntamente com o tendão da porção longa. A porção medial do M. tríceps-braquial de C. brachyurus é pouco evidente e está aderida à porção longa. Diferentemente de Canis lupus familiaris e Cerdocyon thous, sua origem é na tuberosidade redonda do úmero e se insere também no forte tendão da porção longa. Em C. Brachyurus, a porção acessória é pouco evidente, originando-se na parte caudal do úmero e estendendo-se como um músculo tendíneo, que se insere juntamente com as outras partes no olecrano. No lobo-guará, assim como outros mamíferos, o M. tríceps-braquial é o mais evidente na região do braço, destacando-se o posicionamento das fibras e a forma alongada dos músculos, o que pode contribuir para a corrida(12). M. ancôneo (Figura 3- A, B) é um músculo largo, porém, alongado. Em C. Brachyurus, tem sua origem no epicôndilo lateral do úmero e se insere no corpo da ulna e não na extremidade proximal da ulna como descrito para cães(11).

O Quadro a seguir apresenta os pontos de fixação (origem e inserção) e a inferência da ação dos músculos do cíngulo escapular e braço de C. brachyurus, com base nos pontos de fixação, direção de fibras e o que é descrito pela literatura para outros canídeos.

Quadro 1 Origem, inserção e inferência da ação dos músculos do cíngulo escapular e braço de C. brachyurus 

Músculos Origem Inserção Inferência de ação
M. Deltoide Porção proximal: espinha da escápula; Porção distal: Acrômio e processo hamatus Tuberosidade deltoide Flexionar o ombro
M. Supraespinhal Cartilagem da escápula Tubérculo menor Estender a articulação do ombro
M. Infraespinhal Fossa infraespinhal Tubérculo maior do úmero Estender e flexionar o ombro.
M. Redondo menor Tubérculo infragleinodal Tuberosidade do redondo menor Flexionar a articulação do ombro
M. Subescapular Fossa subescapular Tubérculo menor do úmero Aduzir e estender o ombro
M. Redondo maior Borda caudal da escápula Tuberosidade do M. redondo maior no úmero Flexionar a articulação do ombro e aduzir o braço
M. Coracobraquial Processo coracóide da escápula Crista do tubérculo menor no úmero Aduzir o braço e estender o ombro
M. Bíceps braquial Ambas partes no Tuberosidade supragleinodal Tuberosidade ulnar e radial Flexionar a articulação do cotovelo estender ombro
M. Braquial Terço proximal da superfície lateral do úmero Tuberosidade ulnar e radial Flexionar a articulação do cotovelo
M. Tríceps do braço Cabeça longa: borda caudal da escápula Olecrano Estender a articulação do cotovelo e flexionar a articulação do ombro
Cabeça lateral: Linha do M. tríceps no úmero, imediatamente distal ao tubérculo menor Olecrano Estender a articulação do cotovelo
Cabeça medial: Tubérculo menor Olecrano Estender a articulação do cotovelo
Cabeça acessória: Colo do úmero Olecrano Estender a articulação do cotovelo e flexionar o ombro
M. Tensor da fáscia do antebraço Face lateral do M. Grande dorsal Olecrano Estender a articulação do cotovelo
M. Ancôneo Epicôndilos medial e lateral Extremidade proximal da ulna Estender a articulação do cotovelo

Conclusão

A escápula e o braço de C. brachyurus têm acidentes específicos; no entanto, são semelhantes aos dos cães domésticos. Existe uma marcante diferença entre o ângulo cranial e o ângulo caudal da escápula e há presença de processo hamato. O úmero é reto, o sulco que divide a tróclea e o capítulo é bastante proeminente. Os músculos apresentam similaridades com o cão-doméstico e outros canídeos silvestres e domésticos. O M. deltoide em sua porção acromial origina-se na região do acrômio junto ao processo hamato. A inserção do M. braquial é na tuberosidade da ulna. O M. ancôneo insere-se no epicôndilo lateral. As principais diferenças morfológicas de C. brachyurus apoiam a inferência que a estrutura anatômica da escápula e do braço é adaptada funcionalmente para esta espécie.

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Recebido: 10 de Dezembro de 2015; Aceito: 09 de Agosto de 2016

*Autor para correspondência - saulobiologo@yahoo.com.br

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