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Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto)

Print version ISSN 0002-5216On-line version ISSN 1981-5794

Alfa, rev. linguíst. (São José Rio Preto) vol.60 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/1981-5794-1612-7 

RESENHAS

DIALOGISMO EM DEZESSEIS CAPÍTULOS1

Renata Coelho MARCHEZAN* 

* UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Faculdade de Ciências e Letras. Araraquara – SP – Brasil.14800-901 – renata_marchezan@uol.com.br

BRAIT, B.; MAGALHÃES, A. S.Org.. Dialogismo, : teoria e(m) prática. São Paulo: Terracota, 2014. Série ADD, 322p.


[...] no pensamento bakhtiniano, [...] o diálogo figura tanto como modo de funcionamento da linguagem quanto como ponto de vista que instaura um objeto de estudo. (BRAIT; MAGALHÃES, 2014).

Dialogismo: teoria e(m) prática, organizado por Beth Brait e Anderson Salvaterra Magalhães, compreende trabalhos de pesquisa sobre o discurso, situados no domínio do pensamento bakhtiniano. A obra é apresentada por Carlos Alberto Faraco, que destaca sua importância e registra a contribuição de Beth Brait nos diferentes momentos da recepção brasileira das ideias do Círculo de Bakhtin, assinalando, inclusive, suas mais recentes pesquisas que desenvolvem a perspectiva dialógica para o exame do enunciado verbo-visual2 Com doutorado orientado por Brait, Anderson Salvaterra Magalhães tem atuação reconhecida na mesma linha de reflexão.

Retiradas do texto introdutório de Brait e Magalhães, as palavras em epígrafe definem a teoria adotada e expõem a metodologia que orienta os trabalhos. O reconhecimento da natureza dialógica da linguagem acaba por atribuir, ao próprio pesquisador frente a seu objeto de estudo, o papel de interlocutor. Em decorrência disso, lembram os organizadores, o objeto de estudo não se caracteriza apenas como cognoscível, mas também como cognoscente. Aí está o desafio dos dezesseis trabalhos que compõem a obra: a produção de conhecimento, que seja fruto de uma interlocução, teoricamente qualificada. A coerência e a unidade da obra revelam-se já nos títulos das três partes que a organizam. Todos eles se iniciam com o termo “dialogismo” e abrem chave para problematizações específicas, caras ao Círculo de Bakhtin: dialogismo na produção do conhecimento, dialogismo na vida e dialogismo na arte. Seguindo essa organização, encontram-se, na primeira parte – Dialogismo: produção de conhecimento à brasileira –, três trabalhos que se ocupam da questão dos gêneros do discurso e um outro que elege o tema da tradução. Neste último, Sheila Vieira de Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo, que são estudiosas das obras do Círculo de Bakhtin, mas também tradutoras de três dela3, diretamente do russo para o português, expõem a relação desses saberes ao examinar a experiência da tradução com base no conceito bakhtiniano de enunciado, que, no caso analisado, é transmitido e recebido na esfera científica. Para as autoras, o enunciado traduzido pressupõe: a tensão – conceitual e estilística – entre a fidelidade ao original russo e a recepção em língua portuguesa; a relação com outras traduções, realizadas não diretamente do russo, que já circulam em língua portuguesa; e, ainda, a consideração do contexto sócio-histórico e intelectual russo em que o original foi produzido. O estudo, desse modo, permite compor uma postura dialógica do trabalho de tradução, além de adensar a própria reflexão teórica, uma vez que debate a tradução de termos-chave e os localiza no contexto intelectual da época.

Em um dos três estudos já mencionados, que exploram o conceito de gênero do discurso, Adail Sobral retoma suas reflexões anteriores e consolida uma proposta ampla e detalhada para o exame do conceito. Antes de oferecer esse resultado, aplica-se em distinguir gênero discursivo de gênero textual e, para tanto, desenvolve os conceitos de discurso e de texto, caracterizando aquele como a articulação entre a materialidade definidora deste e a situação de enunciação, as posições sócio-históricas. Em sua reflexão, Sobral alerta para a “ênfase excessiva” do aspecto formal do gênero, lembrando que a abordagem dialógica do conceito pressupõe um recorte ideológico do mundo.

Preocupação semelhante, com os procedimentos teórico-metodológicos do estudo dos gêneros do discurso, também anima o trabalho de Anselmo Pereira de Lima, que, com esse objetivo, busca examinar um corpus bem original, que demandou, inclusive, registros audiovisuais: eventos educacionais em um centro de formação profissional, nos quais atuam um professor, vários alunos e um colaborador. A dinâmica da interação entre eles, a repetição e recriação de atividades, são o cerne da análise realizada. Na pesquisa teórica que fundamenta seu estudo, Lima depara-se, como Sobral, com a necessidade de distinguir texto e discurso, e, baseado em L. S. Vygotsky, considera discurso como “processo”, cujo “produto” é o texto. De acordo com esse entendimento, analisar um discurso demanda a observação dos “pontos mais importantes que constituem a história de seu desenvolvimento”. É uma análise explicativa da gênese do fenômeno, e não uma descrição da sua manifestação. A proposição vygotskiana de que “[...] é somente em movimento [de desenvolvimento] que um corpo mostra o que é” (VYGOTSKY apud LIMA, 2014, p.39) estabelece, pois, a perspectiva por meio da qual Lima examina o gênero do discurso.

O estudo de Rodolfo Vianna também elege como foco principal o conceito de gênero do discurso para considerar o gênero jornalístico informativo. Como tem interesse pelas macrocaracterísticas que se mantêm na relativa estabilidade do gênero, e não por seus pormenores e elementos variáveis, Vianna organiza sua reflexão na polarização entre gênero jornalístico informativo e gênero jornalístico opinativo. Nesse caminho, e levando em conta a história da constituição e das transformações da esfera jornalística, analisa a composição do gênero, com base, principalmente, no Manual de redação, da Folha de S. Paulo. Pelas vias do corpus analisado, Vianna registra, na construção do gênero jornalístico informativo, a importância do efeito de objetividade, do posicionamento ideológico do veículo de comunicação e do próprio funcionamento da esfera de atividade; o que configura a adoção de um critério relativo de objetividade.

A segunda parte do livro – Dialogismo na vida – compreende sete estudos, que se dedicam a variados objetos. A reflexão de Anderson Salvaterra Magalhães, cujos objetivos se relacionam com o processo de objetivação no jornalismo e com os desafios atuais da imprensa, permite produtiva interlocução com o trabalho de Rodolfo Vianna. À polarização, Magalhães prefere examinar, na atividade jornalística, a articulação entre os processos de objetivação e subjetivação. O desenvolvimento das análises do corpus, reportagens premiadas do jornal carioca O Dia, e as conclusões do estudo são orientados pela inclusão do componente ético nas reflexões. Afinado com o pensamento bakhtiniano, Magalhães considera a objetivação como exercício intersubjetivo, regulado pela responsabilidade ética.

O estudo de Beth Brait e Bruna Lopes-Dugnani enfrenta a linguagem das ruas. Analisa as manifestações de junho de 2013 – esse momento de especial interlocução, que não poderia ficar fora da perspectiva bakhtiniana –, com o objetivo de compreender os discursos reivindicatórios bem como os sujeitos que se enunciam e suas formas de enunciar. Com base, principalmente, no conceito de enunciado verbo-visual, anteriormente desenvolvido por Brait, a análise detém-se, em especial, em dois tipos de enunciado, o cartaz e a máscara, arma e escudo, que compõem o jogo do dizer, ao mesmo tempo, sério e lúdico. A reflexão vai recortando a multidão, encontrando “versões do mesmo”, vozes coletivas, reiterações de discursos. Depreende, assim, a “gênese de uma discursividade”, mediante a incorporação de discursos consolidados do trabalho, da violência e, ainda, do nacionalismo. O estudo não deixa também de aproximar o foco de análise, e, ao fazê-lo, reconhece, em meio ao coletivo, traços de individualidade, em especial, nas caligrafias e nas gestualidades.

Ainda com atenção voltada a enunciados verbo-visuais, Miriam Bauab Puzzo seleciona três capas da Revista Veja que estampam o ex-presidente Lula, em momentos históricos distintos, e as analisa de modo exemplar, ao caracterizar a interlocução tanto jornalística quanto publicitária que promovem; ao descrever sua forma arquitetônica, constituída na articulação entre a linguagem verbal e a visual; ao examinar seu tom avaliativo, que se altera com o momento histórico.

Com base no pensamento bakhtiniano colocado em diálogo teórico com a retórica e a nova retórica, o estudo de Maria Helena Cruz Pistori examina, nas páginas dos jornais Folha de S. Paulo e Correio Braziliense, a repercussão de um crime, ocorrido em 1997, e de seu julgamento. Na investigação desse objeto, que visa captar a relação entre discurso jurídico e discurso jornalístico, revelam-se os valores, as especificidades e as coerções dessas esferas. As caracterizações apresentadas não são atemporais, não representam as esferas jurídica e jornalística de qualquer época. Trata-se da imprensa e do judiciário contemporâneo. A análise perspicaz do corpus encaminha a conclusão: “[...] independência e autonomia do judiciário, ao lado da liberdade de expressão da imprensa [...] são valores democráticos não contraditórios, mas mutuamente influenciáveis em diferentes graus, em nossa economia liberal de mercado.”

Em proposta original, Vinícius Nascimento volta-se ao dialogismo para aquilatar sua contribuição à formação de tradutores intérpretes de libras/português. Com esse propósito, explora pertinentes conceitos do domínio bakhtiniano e, com eles, fundamenta a interlocução tradutor intérprete/surdo, extraindo, daí, uma proposta para a formação dos profissionais.

Ainda na segunda parte da obra, dois trabalhos dedicam-se ao exame do livro didático. Cláudia Garcia Cavalcante e Regina Braz Rocha ocupam-se, respectivamente, de Prática de texto para estudantes universitários, de C. A. Faraco e C. Tezza, e de Aulas de redação, de B. Brait, J. L. C. A. Negrini e N. R. P. Lourenço. O primeiro estudo tem como questão central investigar a interação entre autor e aluno/leitor promovida pelo livro e o modo como ela orienta as atividades didáticas. As análises, que se concentram na seção Prática de texto, identificam as posições enunciativas assumidas pelo autor e conferidas ao aluno/leitor, assim como qualificam a relação estabelecida entre elas. O segundo estudo aproxima gramática e letramento verbo-visual, e propõe uma questão: “que contribuições o ensino de gramática oferece para a promoção do letramento verbo-visual de alunos do ensino médio?”. O trabalho examina o livro didático selecionado e mostra como ele, por meio de propostas de atividade com enunciados verbo-visuais, responde, concretamente, à questão formulada.

Na terceira e última parte do livro – Dialogismo na arte –, a literatura não poderia estar de fora, mas são também examinados uma exposição artística, Jorge Amado e Universal, e textos de divulgação de uma peça de teatro. Da exposição, ocupa-se Adriana Pucci Penteado de Faria e Silva, cuja análise sensível, adequada ao objeto artístico, é exemplar de como abordar dialogicamente um objeto múltiplo, tomando como fundamento uma teoria, originalmente, concebida para o exame de textos verbais. Conhecedora da obra de Jorge Amado, a pesquisadora, sem perder o rigor, parece passear pela exposição, ouvindo, e fazendo ouvir as vozes do autor, ora narrador, das personagens, fazendo ver o que vê. A conduzi-la também a voz curatorial, seus enunciados, que, de acordo com a análise, refletem e refratam a poética amadiana.

É Jean Carlos Gonçalves que traz o teatro para a terceira parte do livro. Em um amplo quadro de reflexão sobre o teatro, que considera o espetáculo, mas também a peça escrita, as etapas de construção e recepção cênicas, os ensaios, as conversas com o público, as críticas especializadas, etc., Gonçalves elege para exame dois enunciados verbo-visuais que divulgam o espetáculo Circo negro. Analisa e contextualiza o espetáculo, a companhia, e caracteriza, dialogicamente, seu estatuto publicitário, sua forma de convite, que faz ecos a Picasso, ao universo circense e a símbolos do teatro.

Elaine Hernandez de Souza volta às fábulas e faz uma análise cuidadosa, com metodologia bem explicitada, das variações de A cigarra e a formiga, de Esopo, La Fontaine e Lobato; considerando também as ilustrações, descreve a relação nem sempre convergente entre o texto verbal e o desenho. Souza, portanto, toma as fábulas como enunciados verbo-visuais e caracteriza as relações dialógicas estabelecidas entre as fábulas, entre a materialidade linguística e a imagética, entre cada uma das fábulas e seu contexto sócio-histórico, e, ainda, entre a vida cotidiana e a arte manifestada nos textos.

Os dois últimos estudos do livro trazem à reflexão Vidas secas e Grande Sertão: Veredas. Maria Celina Novaes Marinho coloca Vidas secas sobre o foco dialógico e caracteriza a articulação de vozes, que constrói a arquitetônica do texto. Na análise, Marinho reconhece as personagens como “seres que falam e não apenas são falados pelo autor”, assinala grupos identitários que são definidos em embate com outro, examina a representação das diferentes vozes, as formas de citação, os tons apreciativos, a relação mundo interior/mundo exterior. Teoria precisa, análise fina e equilíbrio entre elas.

No último trabalho, Sandra Mara Moraes Lima quer escutar a voz materna que ecoa em Grande Sertão: Veredas. Como declara, seu objetivo não é analisar a obra, mas “promover uma reflexão sobre a linguagem e o homem, o seu estar/fazer no mundo”. Buscando, primeiramente, em Bakhtin, o exame sobre o papel da palavra da mãe na aquisição e construção da linguagem da criança, a autora dedica-se, depois, a reconhecer nas palavras de Riobaldo as ressonâncias da voz de sua mãe, uma voz sempre “reverenciada” por ele. Nesse caminho, e aceitando a proposição da analogia que considera a obra rosiana “um retrato do Brasil”, o estudo examina o modo como esse texto literário refrata o papel da mulher na sociedade, e também o papel da mestiça na construção identitária do país.

Dialogismo: teoria e(m) prática compõe um amplo e denso estudo que permite a compreensão do pensamento bakhtiniano, fomenta seu debate e desenvolvimento. Como se procurou mostrar, a obra insiste, principalmente, em um e outro conceito, sobre os quais se estende mais, e chama, assim, a especial atenção para sua atualidade e produtividade. Ao mostrar a contribuição do pensamento bakhtiniano em operação nos domínios atuais do estudo do discurso, a obra orienta o leitor no reconhecimento da articulação de vozes que preside e esclarece os mais variados corpora analisados. Reúnem-se, portanto, contribuições teóricas e resultados de análise, além de problematizações metodológicas e aproveitamentos didáticos.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. M. Questões de estilística no ensino da língua. Tradução de posfácio e notas de Sheila Camargo Grillo; Ekaterina Vólkava Américo; apresentação de Beth Brait; organização e notas da edição russa Serguei Botcharov e Liudmila Gogotichvíli. São Paulo: 34, 2013. [ Links ]

BRAIT, B. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica. Bakhtiniana, São Paulo, v.8, n.2, p. 43-66, jul./dez. 2013. [ Links ]

LIMA, A. P. de. Procedimentos teórico-metodológicos de estudo de gêneros do discurso: atividade e oralidade em foco. In: BRAIT, B.; MAGALHÃES, A. S. (Org.). Dialogismo: teoria e(m) prática. São Paulo: Terracota, 2014. p. 37-53. (Série ADD). [ Links ]

MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução de Ekaterina Vólkava Américo e Sheila Camargo Grillo. São Paulo: Contexto, 2012. [ Links ]

VOLOCHÍNOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Ekaterina Vólkava Américo e Sheila Camargo Grillo. São Paulo: 34, [20--]. No prelo. [ Links ]

1 Resenha da obra: BRAIT, B.; MAGALHÃES, A. S. (Org.). Dialogismo: teoria e(m) prática. São Paulo: Terracota, 2014. (Série ADD). 322p.

2 Destaca-se Brait (2013), cuja importância se deixa mostrar também na obra, aqui, resenhada.

Recebido: Outubro de 2015; Aceito: Janeiro de 2016

Translated by Grazyna Anna Bonomi

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