SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.6 issue3A forgotten account: Anselm Eckart and the 18th Century AmazonArqueologia Amazônica author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.6 no.3 Belém Sept./Dec. 2011

https://doi.org/10.1590/S1981-81222011000300008 

MEMÓRIA

 

As notas do Padre Anselm Eckart, S. J., sobre alguns animais do Estado do Grão-Pará e Maranhão (1785)

 

The notes of Father Anselm Eckart, S. J., on some animals from the State of Grão-Pará and Maranhão (1785)

 

 

Nelson PapaveroI; Marcia Souto CouriII; Dante Martins TeixeiraII; Abner ChiquieriIII

IMuseu de Zoologia. Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil
IIMuseu Nacional. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
IIIUniversidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seropédica, Rio de Janeiro, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Os trechos relativos à fauna do Estado do Grão-Pará e Maranhão, escritos pelo Padre Anselmo Eckart (1721-1807), S. J., em 1785, são traduzidos e comentados. Foram incluídas notas críticas sobre cada animal mencionado, atualizando o conhecimento sobre a espécie e comparando as informações zoológicas e linguísticas coligidas pelo jesuíta com outros documentos da época e com a literatura científica pertinente.

Palavras-chave: Anselm Eckart. Jesuítas. Estado do Grão-Pará e Maranhão. Fauna.


ABSTRACT

The passages related to the fauna of the State of Grão-Pará and Maranhão, written by Father Anselm Eckart (1721-1807), S. J., in 1785, are translated and commented. Critical notes about every cited animal were included, bringing the species knowledge up to date and comparing the zoological and linguistic information compiled by the Jesuit with other contemporary documents and with the related scientific literature.

Keywords: Anselm Eckart. Jesuits. State of Grão-Pará and Maranhão. Fauna.


 

 

INTRODUÇÃO

Em seus "Zusätze zu Pedro Cudena's Beschreibung der Länder von Brasilien, und zu Herrn Rectors Christian Leiste Bemerkungen im sechsten Lessingischen Beytrage zur Geschichte und Litteratur, aus den Schätzen der Herzoglichen Bibliothek zu Wolfenbüttel" (Eckart, 1781 in Murr, 1785, p. 451-597)1, o Padre Anselm Eckart (1721-1807) fez alguns comentários sobre a fauna do Estado do Grão-Pará e Maranhão. Esses trechos são aqui traduzidos e comentados. Os números entre colchetes referem-se à página original do trabalho de Eckart; a divisão em parágrafos original não foi mantida. Vários erros foram introduzidos nessa obra do jesuíta alemão, provavelmente pelo impressor, na grafia dos nomes em Língua Geral; são aqui corrigidos, quando viável, nas notas de rodapé, por comparação com os que foram registrados num "Vocabulario da lingua Brazil"2, que mostra extraordinárias coincidências de grafias com os "Zusätze..." de Eckart, fazendo-nos suspeitar fortemente de que sejam obras do mesmo autor.

As notas do Padre Eckart sobre alguns elementos da fauna amazônica aparecem em três trechos de seu trabalho. No primeiro, tratou de alguns animais comestíveis. No segundo, discorreu sobre formigas (entre as quais incluiu os cupins, que, afinal, sempre haviam sido chamados de 'formigas brancas', e, erroneamente, os grilos). Mais adiante, em seu escrito, Eckart passou a fazer comentários mais ou menos relacionados aos outros animais citados por Leiste (1781).

 

OS ANIMAIS DO ESTADO DO GRÃO-PARÁ E MARANHÃO, SEGUNDO O PADRE ECKART3

[511] Uma abundância de víveres, peixes marinhos, caranguejos (o alimento comum dos índios e dos pobres) e carne de caça. Ao Pará não falta carne bovina, dados os grandes rebanhos na grande e vizinha ilha de Marajó; mas os peixes marinhos são muito raros. Nas aldeias e propriedades rurais, é costume comer peixe [de água doce] à noite; as tartarugas eram trazidas de lugares muito afastados e vendidas a um cruzado cada. Com uma tartaruga das grandes4, pode-se preparar um grande número de pratos diferentes. A carne é cozida, assada e frita. As que são capturadas no rio Xingu e têm carne tenra são cozidas na carapaça inferior, na qual se deixa tanto da tartaruga quanto se queira assar; depois, corta-se o assado ao meio e uma das metades é cortada em pedaços pequenos como para picadinho; a outra, cozida, [512] adicionando-lhe suco de limão, dá um prato delicado. Um dos melhores peixes do Pará chama-se tainha5. Não é muito grande. Desta espécie, todos os anos o colégio dos jesuítas recebia um par de centenas, a título de doação pia para um professor das escolas primárias. Do Pará [Belém] em direção ao Maranhão [São Luís], até Caeté [Bragança], a maioria dos lugares conta com grande quantidade de caranguejos. É alimento conhecido tanto entre os índios como entre os europeus, mas do Pará [Belém] em direção aos rios de água doce Tocantins, Xingu etc., tais caranguejos não existem. Na língua do país, o termo geral para caranguejo é uçá6, donde talvez o nome Curuçá da vila que fica nessa região rica em caranguejos7. Os que são capturados no chão e entre as pedras são chamados siri8 pelos índios, e os outros, que sobem nas árvores, sarará9. A caça [principal] são veados e porcos do mato. Em Caeté, o caçador da missão trazia-me todos os sábados um porco do mato, suficiente para mim e para os jovens índios que cuidavam da casa e da igreja; até sobrava para partilhar com os portugueses da localidade próxima. O nome comum desse porco é taiaçu10. Entre os porcos do mato, há uma espécie, menor que a outra, que faz grande estrago nas roças onde se planta mandioca; essa espécie é chamada caititu11.

[513] Conta-se que certo português, ao voltar desta América para a Europa, perguntado em Lisboa sobre o que comera nessas novas paragens, respondeu que, para matar a fome, era preciso engolir toda sorte de bichos; ao ser perguntado como se chamavam tais bichos, ele respondeu - taiaçu, suaçu, sapucaia etc., isto é, porcos, veados, galinhas etc. Ao ouvir esses nomes desconhecidos, os que haviam perguntado julgavam tratar-se de animais tão desagradáveis que não serviriam de alimento em nossas terras.

(...)

[507] Algumas regiões não são cultiváveis devido às infestações das formigas12. Esta praga existe igualmente na capitania paraense. Além da quantidade assombrosa de formigas, ainda existem diferentes espécies delas. Algumas são grandes e vermelhas e roem as plantas: estas são denominadas yçaúba13; outras são iguais a estas, mas possuem uma cabeça menor e são chamadas Aryry14; outras, igualmente danosas para as plantas, são as Tanárga, Juvá15 [e o] Ikijú16. As negras [521] e mal cheirosas, de tamanho médio, têm por nome Taracoá17. As formigas grandes, de cor semelhante, quando mordem [picam], causam uma grande dor e, segundo depoimentos, até provocam febre, [e] chamam-se tocankyras18. Uma outra espécie dessas formigas negras é ainda maior do que a precedente e é denominada TápiaÎ19. Outra espécie mais, embora menor do que as outras, é chamada Taçúba20; quando morde [pica] causa dores intensas, além de uma inflamação; os cupii21 estragam a madeira e as roupas. Uma espécie terrível de formigas é a que está armada de duas pinças e é capaz de desfolhar totalmente uma árvore inteira em uma só noite, conforme eu mesmo vi no vilarejo Piraguiri, às margens do rio Xingu, enquanto me encontrava ao lado da Casa da Missão; seu nome é Taóca22. Naquele lugar, o missionário havia plantado uma figueira há dois anos; contudo, não conseguiu fazer frente a esses insetos devoradores. Em Abacaxis, às margens do rio Madeira, a fim de salvar das formigas alguns legumes, foi preciso construir uma embarcação comprida, sustentada por colunas, enchê-la de terra e replantar os legumes.

(...)

[539] I. Dos animais quadrúpedes. 1. Macacos em quantidades incontáveis. Os maiores não podem ser levados para Lisboa por certos motivos. No ano de 1757, quando retornamos à Europa, havia diversos macacos no navio, sobretudo um macaquinho23 muito pequeno, menor do que um palmo, preto retinto e de aparência muito bonita. Um português sempre o levava junto ao peito. Porém, este belo animalzinho acabou morrendo durante a viagem de três meses e meio. 2. [540] Os morcegos são uma praga destas terras. São extremamente grandes: cada asa apresenta um bom palmo de comprimento. Assim que o sol se põe, esses espectros voadores aparecem. À noite, quando há uma luz no quarto e um desses fantasmas voa para dentroª (em brasileiro, andirá24), ocasiona uma sombra assustadora, imensamente grande. Os meninos americanos, armados de varas, por vezes obravam muito tempo até afugentar esse espectro do quarto, a fim de se poder dormir em paz. Não é nenhuma novidade o fato de tais morcegos sugarem o sangue das veias de pessoas adormecidas. Devido ao grande prejuízo causado ao gado, adestram-se gatos especiais, que saltam de um animal para outro e afugentam esses atrozes sanguessugas, ou lhes aplicam uma mordida mortal. No campo, o gado manso permanece o tempo todo ao ar livre: à noite fica apenas dentro de uma área cercada. 3. A preguiça, 25. Um animal feio; uma alegoria, como se diz, [541] dos preguiçosos brasileiros, como também de muitos outros subsequentes. É com muito esforço que um animal destes sobe numa árvore. Dizem que se parece um pouco com um gato. Alguém que levou uma jovem preguiça falou-me da expressão raivosa e ao mesmo tempo aflita da mãe, por não poder ajudar o filhote preso. 6. O animal-cintado Dasypus, em brasileiro Tatu26. A carne deste animal tem um ótimo sabor; no entanto, a digestão é penosa. 7. Focas, não me recordo de ter visto uma dessas tais na terra paraense. 8. Cães. Pelo que notei, quase todos os cães por aqui possuem focinhos afilados e são ótimos caçadores. Como todos os americanos são bons caçadores, encontram-se estes cães em grandes quantidades. Inclusive à noite, o cão se deita ao lado de suas redes. Eu até vi que ele tem uma rede especial, a fim de poder repousar comodamente. Se o Jaguaruçu também é uma espécie de cão, eu não sei. Na língua da terra, chama-se Jagoáruçú27 um cão grande; contração de Jaguara, cão, e da palavra abreviada turuçu, grande. Grande é também guaçu: porém, guaçu é empregado principalmente para denotar a grandeza de uma pessoa honrada; [542] de modo que os brasileiros denominam um religioso superior ou provincial de toda uma Ordem, de Paí-guaçu28, o grande pai. Por esse termo Jaguaruçu entende-se também um cão-d'água-português29 ; e, então, um cão de caça é um jaguara-çoó-rupiara, ou um cachorro que captura a caça. Como na língua brasileira , ou ixé, eu, significa simultaneamente meu, por tal razão não dizem xé jaguara, meu cão, mas jaguara-xerimbaba30, o que equivale a cachorro de minha criação, como dizem os portugueses, bem como assim chamam [xerimbabos] outros animais que são criados dentro de casa. 9. Espécies de gatos, Felis onca e Tigre dos portugueses etc. Tigres, cobras e crocodilos [jacarés] são os três principais inimigos que, nestas regiões, são temidos pela sua ferocidade e crueldade. Admira que os brasileiros dessem a este felino, em seu idioma, o nome de 'cachorro verdadeiro', já que denominam o tigre [onça] de Jaguaretê31, de jaguara e etê. Na Missão de Abacaxis, certa vez uma onça veio até a minha porta ao cair da noite. De repente, ouvi gritos e o barulho dos meninos americanos dentro de casa, que perseguiam este animal selvagem que viera para saquear. Ele escapou pela porta aberta da casa e saltou por cima do portão fechado do quintal sem ferir, em sua fuga, qualquer uma das crianças, das quais umas [543] 60 ali estavam, em pé, esperando por seu jantar. Antes de minha chegada à aldeia citada, um dos índios fora estraçalhado ali mesmo por um tigre [onça]; a história toda está anotada no Livro de Óbitos. Essa morte cruel foi interpretada como punição de Deus, porque esse americano desviara alguns pertences da igreja (que, no idioma local, é chamada Casa de Deus32) e até se confeccionara uma camisa com a toalha do altar. Justamente às margens deste rio, um português me acompanhou desde a Missão de Piraguiri com uma baioneta na mão, porque eu tive que cavalgar à noite para cuidar de uma pessoa doente. No mais, o[s] padre[s] todas as vezes andava[m] desarmado[s] e apenas acompanhado[s] por um jovem americano. Não há, inclusive, nenhum exemplo, nem neste século, nem nos dois precedentes, de que um missionário fosse ferido por um animal selvagem33. Maracajá34, a raposa brasileira. Este é o nome de um gato selvagem. Um gato doméstico é chamado de pixana35; de um modo geral, estes americanos não suportam muito os gatos, mas têm uma grande estima por seus cães. A lontra brasileira36. Duas destas surgiram uma vez em que me encontrava numa viagem de barco, e com suas [544] cabeças esticadas fora d'água, acompanharam-nos durante um certo tempo. 14. A Paca37. Certa vez, na Missão de Trocano, um cacique, ou principal, advertiu, na minha presença, seus subordinados, porque ainda não haviam trazido uma paca para o padre; e, logo a seguir, eles chegaram da caça trazendo uma. A carne tem um sabor muito bom. Cutia38. Na Missão de Abacaxis, tínhamos uma, jovem, do mesmo tamanho de um cachorro, correndo dentro da casa. Aliás, um coelho, na língua da terra, é chamado Tapiti ou Tapiixi39. 16. Sobre as espécies de veados Seovaçu. O nome brasileiro genérico dos veados é çuaçu40. Quando estava em Piraguiri, um grande veado de galhada pequena atravessava o rio Xingu, quando foi perseguido por uma pequena embarcação que saiu para caçar. A cor e o sabor da carne se assemelham aos do bezerro.

II. Da classe das aves. Entre tantas aves americanas, nas terras paraenses apenas um único pássaro, o Tintíng41, gorjeia como os europeus e costuma ser mantido engaiolado; o canto de todos os demais é agreste. O Tintíng é negro como o breu. Os papagaios. A primeira coisa que aprendem, quando são levados a Lisboa [545] (onde antigamente havia uma travessa chamada Rua dos Papagaios), é: Papagaio real de Portugal. O nome genérico dos papagaios na língua da terra é Paraguá42. O navio mercante no qual viajei do Maranhão ao Pará em 1753 estava tão lotado dessas belas aves em ambas as laterais, que quando começavam a gritar em conjunto, não se podia ouvir as próprias palavras. Algumas falavam, outras cantavam, certas outras assobiavam, umas poucas choravam; outras ainda, por seu lado, riam; várias imitavam os clérigos do coro; duas eram ensinadas, sendo que uma perguntava e a outra respondia, o que era agradável de ouvir. O pequeno periquito com manchas azuis. Em geral, é chamado Pirixíto43 [sic]. Ostentando penas multicoloridas, a Arara44, apesar de sua voz desagradável, também aprende a falar. Existe também uma espécie pequena de aves, que são amarelo-douradas45. Costuma-se estripá-las e levar sua pele, junto com as penas, para Lisboa. São usadas pelas mulheres, em substituição às peles, na ornamentação dos vestidos. Eu havia levado comigo algumas dessas belas aves; contudo, foram-me roubadas em Almeida, juntamente com muitas outras coisas. Sobre as aves pernaltas. O colhereiro vermelho do Brasil, Aiaiá46, parece [546] ser desta espécie, dos quais vi todo um bando na viagem para o rio Xingu, em suas margens. Essas aves, de pernas muito altas e de longos bicos, eram completamente vermelhas. Faziam-se grandes buquês de suas belas penas, a fim de ornamentar as igrejas. O Inambu é uma ave do tamanho de uma galinha. Seu nome brasileiro é çapucaia47. Esta palavra pode ser derivada de Açapuçái48, gritar, o que é muito próprio desses galináceos. Ao galo, comumente denominado çapucáia-apyába49 , o macho da galinha, estes americanos também dão o nome de gyurá-pajé50 (em português, ave adivinhadora), ou seja, uma ave prenunciadora, do dia. Jacu51, uma bela ave do tamanho de um galo, cuja carne é muito saborosa. Mutum, esta ave tem o mesmo tamanho que o Jacu e tem uma cor totalmente preta e brilhante. O bico é inteiramente vermelho52. Frita, esta ave é muito boa. Atiati53 é uma ave que persegue peixes. Em 1753, no Engenho (moinho de açúcar) de Maracu54, onde há um lago, essas aves repetidas vezes arribavam em bandos tão grandes que praticamente obscureciam o sol e atacavam os peixes como que em formação de combate. [547] O Jacamim55 gosta de permanecer onde há muita gente. Por isso, é considerado um amigo dos homens. O Tucano56 deriva seu nome do seu grito selvagem; esta ave costuma acompanhar desde longe os navegantes e, como ela voa várias horas à frente deles, já se sabia com muita antecedência quando um barco se aproximava das Missões. Urubu57, o corvo, é maior que o dos nossos países. Estas aves de rapina estão por toda a parte. No vilarejo de Abacaxis, eram verdadeiros despertadores, uma vez que já se aglomeravam aos montes no nosso pátio antes de o sol nascer. Existem também corvos totalmente brancos58, mas são muito raros.

III. Dos Anfíbios, I. Tartarugas59, como: a Jurucuá60. Entre os paraenses, o nome comum das tartarugas é Jurará61. Algumas que têm o pescoço longo chamam-se Matamatá62. Uma outra espécie tem por nome Tracajá63. Uma tartaruga comestível64. Todas as que são capturadas em águas doces, como nos rios Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira, servem frequentemente de alimento. Neste último rio, as tartarugas são tão grandes que muitas pessoas podem fartar-se com uma única apenas. A carne, porém, não é tão macia quanto a das tartarugas do [548] rio Xingub. Nas vizinhanças do Madeira, realiza-se anualmente uma grande caça às tartarugas no mês de outubro, quando também é feita a manteiga de tartaruga. Nessa época, elas depositam seus ovos na areia e enterram-nos profundamente. Ali se reúne um grande número de barcos vindos do Pará e dos lugares adjacentes, permanecendo por três a quatro semanas. Os portugueses trazem seus grandes e bojudos potes de barro, de quatro a cinco litros, como também uma ampla caldeira. Os índios logo percebem, pela elevação da areia, onde se ocultam os ovos: estes são completamente redondos; a casca não é dura, mas sim revestidos por uma pele grossa. Por vezes, uma tartaruga põe cerca de 100 ovos, os quais são mexidos na caldeira sobre o fogo até que se desfaçam e se fluidifiquem como óleo. Esta é a manteiga comum aqui das cidades, como também das comunidades e vilarejos, usada nas cozinhas para derreter, porque a manteiga clarificada é rara na América Portuguesa. A que vem de Portugal é muito cara. Uma terrina de barro com duas alças (os brasileiros dizem camuti ou çuru65), repleta de manteiga de tartaruga, é vendida no Pará por três ou quatro cruzados. [549] As tartarugas que se detêm na água salgada não servem de alimento, exceto para o índio que sente muita fome, o qual (conforme vi certa vez) também comerá carne de macaco. Os cascos dessas tartarugas (cuja espécie não é muito abundante) são levados para a Europa e são caros66. Antes de minha partida de Caeté67, um índio trouxe-me um casco de uma dessas tartarugas que ele havia capturado. São dez ou 11 peças, algumas maiores, outras menores. Jaboti, uma tartaruga terrestre. O nome exato é Jabuti68. Estes não são tão grandes quanto as anteriores. O tamanho comum é de um palmo ou palmo e meio; eles apreciam a pacova [banana], com a qual costumam ser alimentados nas casas até que engordem. O estranho é que este animal possui um fígado muito grande, que preenche todo um prato grande e tem um sabor muito bom, a ponto de ser preferido, ou pelo menos comparado, ao fígado de porco. A carne do jabuti, caso não haja um cozinheiro hábil, não é tão apetitosa. Lagartos, o crocodilo, Jacaré69. Como é do conhecimento geral, é um predador monstruosamente grande, terrível e feroz. Quando cheguei ao Pará, em 1753, e fiz a [550] primeira visita ao Governador [Francisco Xavier de] Mendonça Furtado, vi, em sua antessala, um jacaré estripado e preenchido com outra coisa. A boca era tão ampla que podia engolir facilmente uma criança pequena de uma só vez. Os dentes maiores eram tão grandes que serviriam como armas de ataque. Certa vez, na quinta de Jaguarari, perto do Pará [Belém], eu me encontrava, depois do jantar, na sacada da casa, quando chegou com a brisa um cheiro muito agradável da correnteza do rio; quando perguntei de onde ela provinha, um português disse-me que um crocodilo acabara de passar nadando e que essa era a origem desse cheiro tão ameno. Nunca vi o corpo todo de um jacaré na água, apenas a cabeça, que estica para fora, para logo submergir de novo. Costumam nadar atentos ao largo das praias, à espreita de algo para abocanhar. Um cachorro é um petisco para eles, daí o conhecido provérbio: ut canis e Nilo70, rio este que é mal afamado pela quantidade de crocodilosc. Contudo, também vão atrás de carne humana, como ocorreu com um menino, [551] sentado num pequeno barco, que foi devorado por eles. No vilarejo de Trocano, certa vez, chegou um índio cuja camisa pendia tão baixo do braço esquerdo, que não se via a mão; quando eu lhe disse para puxar a camisa mais para cima, ele respondeu que não tinha mão, porque, quando estava pescando, subitamente apareceu um jacaré do lado esquerdo e trincou-lhe a mão toda. Em outro país da América, o jacaré também é chamado de caimão, e se alguém quiser desejar mal a uma pessoa, dirá: que o caimão te devore! O iguana, Senembi, parece ser o camaleão, ou o denominado 'lagarto-ratazana'. Os brasileiros dizem: cenembu71. Na viagem para Abacaxis, um deles se encontrava numa árvore e foi abatido com sucesso pelas flechas dos índios do barco. Eles prepararam um bom almoço com essa carne, que é branca como a de vitela ou de um frango. O sabor não é nem um pouco desagradável. Tejuguaçu. Esta espécie de lagarto normalmente é terrestre, pelo que os portugueses o chamam de Lagarto da terra72. Lagarto do braço73, como os pés são semelhantes ao braço humano, chama-se em brasileiro [552] Jybaypí ou gibaypí; pelo contrário, o Lagarto da perna74 é conhecido por Ubypú. 3. Serpentes. A cascavel75. Essa espécie de serpente não tem um comprimento extraordinário. A maior que vi, em Piraguiri, media cerca de cinco côvados. Ela veio rastejando desde o rio Xingu em direção à casa da Missão, mas foi de pronto morta por meninos americanos, que vieram correndo com grandes varas, cuidando para logo acertarem a cabeça. A cobra-rei, Boiguaçu76, que significa cobra grande, de Boia, que é o nome genérico das cobras, e guaçie [sic, guaçu], grande. O Padre Malagrida77 contou que viu uma vez uma dessas cobras de tamanho incomum do outro lado do rio, lutando com um crocodilo. Conta-se de um português que, ao passar por uma floresta, sentou-se num tronco abatido (conforme imaginava) a fim de descansar um pouco; notou que o seu assento começou a mover-se e que, na realidade, era uma cobra que se enrolara em um círculo; após o quê se pôs de novo imediatamente a caminho. São muitas as espécies de cobras; apenas das que têm uma picada mortal, encontram-se, na língua brasileira, seis78 com os seguintes nomes: Jararaca79, Boipeba80, Surucucu81, Boiquatiara82, Ibijara83, Piririón84.

[553] Em uma quinta perto do Pará [Belém], na qual eu estava presente, um menino procurava algo no capim, quando subitamente começou a gritar desesperadamente de dor, devido à picada mortal de uma cobra. A mão e o braço incharam assustadoramente e começaram a ficar pretos. Foi preciso cortar imediatamente porções inteiras de carne, a fim de salvar-lhe a vida. Mocotó85 é um sapo americano, cujos pés, dizem, têm uma força tão milagrosa que aquele que os levar junto ao corpo não poderá ser afetado por nenhum veneno. O nome comum [do sapo] entre os brasileiros é cururu86. As rãs tampouco faltam neste país. As menores são chamadas Juí87, as grandes, Joué88. Aquelas que coaxam à noite em lugares pantanosos são as cotára89. O gênero dos ratos ali também é muito fecundo. Entre os brasileiros, o nome comum dos ratos é guaviru90. Na primeira noite em que cheguei à Missão de Abacaxis, eu deixei algumas trouxas com penas europeias no chão, as quais encontrei, cedo no dia seguinte, picadas grosseiramente pelos ratos. A espécie maior de ratos que correm nas florestas chama-se Cabója [sic]91; outros ratos do campo e da floresta são os Atúra92. Os maiores de todos, igualando-se a jovens gatos, ou que podem ser ainda maiores, são denominados Mucura93. Estes [554] também são procurados e consumidos pelos europeus como um interessante petisco. O peixe-tremedeira ou Torpedo, que os portugueses denominam Tremelga94, é encontrado no Engenho de Maracu, perto do Maranhão [São Luís]. Um peixe-chifre etc. Eu vi em Caeté uma espécie igual95. Não são peixes muito grandes; são pescados em lugares pantanosos e nas águas paradas das florestas. As escamas são tão duras e juntas, que podem ser comparadas a uma armadura. Outras espécies, também do gênero dos peixes. Entre estes, podem ser os preferidos, tanto pelo tamanho quanto pela quantidade de carne, os que os portugueses chamam de Peixe-boi96. Os brasileiros dão-lhe o nome de Iguaraguá. Ele é tão grande e pesado, que 30 a 40 jovens se unem para puxá-lo com uma corda da margem até a casa: do boi ele nada mais tem do que a semelhança da boca. Em ambos os ouvidos, ele tem um pequeno osso alongado, de uso medicinal. Reduzido a pó, dizem ter a virtude de eliminar a febre. A carne pode ser preparada como a do porco: assada, frita, defumada. Também são feitos chouriços. A carne se assemelha bastante à do porco; o toucinho [555] tem a espessura de dois a três dedos. Grelhado ou frito, cortado em pequenos, mas espessos pedaços, regado à manteiga97, é guardado por muito tempo em grandes recipientes e, desta maneira, poderia ser transportado para a Europa, sem adquirir um mau odor. Na aldeia de Abacaxis e em seus arredores, muitos desses peixes-bois são capturados. O índio joga sobre o peixe que vem nadando um grande anzol, que se encrava profundamente na carne firme e, assim, esse enorme peixe é trazido sem grande esforço por uma pequena embarcação à terra, onde perde todo o seu sangue. Na dita aldeia, certa vez chegou um desses peixes, o qual, uma vez aberto, revelou conter um filhote de um côvado e meio. Pirarucu98 é um peixe muito grande: a língua mede quase um palmo, é muito áspera e, devido às pontinhas afiadas, serve de ralador. É um alimento rústico, como o nosso bacalhau, ou, conforme é conhecido em Portugal e em outros lugares, o bacalhau de todos os dias. Em Piraguiri, certa vez, eu estava observando os nossos jovens americanos da casa, com que destreza preparavam este peixe. Eles subiam numa elevação no pátio feita de juçara99. Aqui, a partir dessa madeira, são produzidos sarrafos. Primeiro, estendiam algumas grandes folhas da árvore pacova [bananeira], para que [556] tudo fosse feito com limpeza no corte, na estripação e na dissecção. Piraíba100 é também um peixe grande de bom sabor. Seu nome não se relaciona com a ação, pois este termo parece ser contraído de duas palavras: Pirá, peixe, e aÏba, mau ou pernicioso. Surubim101 é um peixe menor, mas bem delicioso, e está muito presente no rio Xingu. Igualmente saboroso é o Jandiá102. Tucunaré103. Este peixe, assim como os dois precedentes, tem que ser consumido fresco, pois rapidamente começa a cheirar mal. De um modo geral, nenhum peixe permanece fresco durante muitas horas nestas paragens, devido ao calor excessivo. Caso se queira guardá-lo até o dia seguinte, será preciso fritá-lo ou então polvilhá-lo com sal. Tambaqui104 é também um peixe bom e se assemelha à nossa carpa. Piranambu105 e Piramutaba106 são igualmente peixes brasileiros nada desprezíveis. Piranha107 é um peixe pequeno, mas que tem uma boca afiada, da qual também deriva esse nome, o qual, na língua brasileira, significa o mesmo que tesoura. Certa feita, durante uma viagem, um dos barqueiros indígenas pescou uma delas e foi mordido com tanta força, que levou muito tempo até que lhe estancassem o sangue que fluía abundantemente. [557] O peixe lampreia chama-se, na língua da terra, caramuru108. O largo peixe também chamado raia é a guabibura109 dos brasileiros. Aqui também é encontrado o caranguejo marinho, em português camarão, em brasileiro Poti110; bem como ostras, que são chamadas Reri111. As conchas queimadas fornecem uma boa cal, o Rericuí112. Devo ignorar os gêneros dos insetos e dos vermes. Os primeiros existem em notáveis quantidades, em todos os lugaresd. Com os Arabé113, uma espécie de besouro [sic] [558] (os portugueses dizem Barata) tudo está infestado, especialmente os tapumes, os armários, as encostas, os porões que guardam garrafas etc. Em Trocano, certa ocasião, entrei à noite com uma vela em um quarto onde havia um monte de trigo turco ou milho. Tudo estava de tal maneira coberto por esses insetos, que não se via nada [559] da cor do trigo; de repente, todos esses besouros [sic] negros desapareceram, ou melhor, se esconderame. Com esse milho (os brasileiros dizem Abati114), normalmente costumam engordar as galinhas, como também os porcos. Tombura115, uma espécie de pulga. Ela persegue sobretudo os pés. Os recém-chegados da Europa para esta América são atacados de preferência antes dos outros. De modo que aquele que ali chega como estranho e não tem conhecimento desses insetos, sentirá dores nos pés no primeiro dia; no dia seguinte, a dor diminui e, após vários dias, nada mais sente. Contudo, durante esse tempo, a pulga faz um furo tão grande no pé, que é possível colocar uma ervilha inteira dentro dele. Os meninos indígenas conseguem, muito habilidosamente, retirar com a ponta de uma pequena faca esta pulga que se encontra, juntamente com seus ovos, em uma pequena bolsa revestida de uma pele branca. Depois, preenche-se o buraco com tabaco e, em poucos dias, a ferida estará reconstituída. As pulgas normalmente comuns em nossos países não se encontram aqui, exceto em uma ou outra semana em que chegam navios portugueses da Europa. [560] Também dos importunos percevejos de cama está livre esta terra. A minhoca se chama yçoca116. Coreá117 é o verme que se cria no biscoito; é arredondado e de cor vermelha. O Turu118 se instala na madeira; o Tapuru119, nas carnes e nos peixes deteriorados; a yreçá120, na água estagnada. O Çoçoca121 é encontrado no trigo turco [milho]: este verme é mais ou menos longo e de cor negra. Tudo está cheio de mosquitos e pernilongos. Um mosquito comum ou mosca é o denominado Meru122. A grande, que importuna o gado, chama-se Mutucuçu123. Pium124 é um mosquito bem pequeno, que mal é visto a olho nu; assim mesmo, a sua picada é extremamente dolorosa. Carapanã125 é um pernilongo de pernas compridas e possui um grande ferrão, sendo que uma das espécies tem o nome de carapanatiba126, devido à sua imensa quantidade. O Marigui127 é um mosquito pequeno. O caminho para o Maranhão é totalmente coberto com eles. O Micuim128 é uma espécie de pernilongo [sic] que ataca os pés e causa intensas dores. Nas páginas 520 e 521 [ver acima] já houve informações sobre as formigas. [561] Ikeju129 é uma espécie de grilo. É um ótimo remédio contra a retenção de urina, quando apenas se torram duas pernas reduzidas a pó, que são tomadas assim.

 

AGRADECIMENTOS

Nossos agradecimentos à Profa. Dra. Maria Cândida Drumond Mendes Barros (Coordenação de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi), que gentilmente forneceu o CD com o "Vocabulario da língua. Brazil" e por suas críticas e sugestões. Cabe destacar, ainda, o apoio concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) às pesquisas realizadas pelos autores durante os últimos anos.

 

REFERÊNCIAS

ARAÚJO E AMAZONAS, L. D. Dicionário topográfico, histórico, descritivo da Comarca do Alto-Amazonas. Manaus: Associação Comercial do Amazonas, 1984 [edição fac-similar da de 1852]         [ Links ].

ARAÚJO E AMAZONAS, L. da S. Diccionario topographico, historico, descriptivo da Comarca do Alto-Amazonas. Recife: Typographia Commercial de Meira Henriques, 1852.         [ Links ]

AYROSA, P. Os Nomes das partes do corpo humano pella língua do Brasil de Pero de Castilho. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1937.         [ Links ]

BAENA, A. L. M. Ensaio corographico da Provincia do Pará. Belém: Typographia de Santos & menor, 1840.         [ Links ]

BEAUREPAIRE-ROHAN, H. Visconde de. Diccionario de vocabulos brazileiros. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1889.         [ Links ]

BEZERRA, A. J. C.; BEZERRA, R. F.; DI DIO, L. J. A. Brasil 500 anos. Nomenclatura anatômica de um jesuíta no tempo do Descobrimento. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 46, n. 2, p. 186-190, 2000.         [ Links ]

BUTIÑA, F. Pombal y Malagrida: persecución anti-jesuítica em Portugal. Ensayo histórico. Barcelona: Imprensa de Francisco Rosal y Vancell, 1902.         [ Links ]

BUTIÑA, F. Vida del P. Gabriel Malagrida de la Compañia de Jesús, quemado como hereje por el Marqués de Pombal. Barcelona: Imprensa de Francisco Rosal y Vancell, 1886.         [ Links ]

CARAYON, A., S. J. Documents inédits concernant la Compagnie de Jésus. IX. Les prisons de Pombal, ministre de S. M. le Roi de Portugal. 1759-1777. Poitiers: Henri Oudain, Imprimeur-Libraire, 1865.         [ Links ]

CHERMONT DE MIRANDA, V. Glossário paraense ou coleção de vocábulos peculiares à Amazônia e especialmente à ilha de Marajó. Belém: Universidade Federal do Pará, 1968.         [ Links ]

CHERMONT DE MIRANDA, V. Glossário paraense, ou, Collecção de vocabulos peculiares á Amazônia e especialmente á ilha de Marajó. Belém: Livraria Maranhense, 1906.         [ Links ]

DOBRIZHOFFER, M., S. J. Historia de Abiponibus. Equestri, bellicosaque Paraquariae natione. Locupletata copiosis barbarorum gentium, urbium, fluminum, ferarum amphibiorum, insectorum, serpentium precipuorum, piscium, avium, arborum, plantarum, aliarumque eiusdem provinciae, proprietatum observationes. Viena: Typis Josephi Nob. de Kurzbek, 1784a. 3 v.         [ Links ]

DOBRIZHOFFER, M., S. J. Geschichte der Abiponer, einer berittenen und krigerischen Nation in Paraquay. Bereichert mit einer Menge Beobachtungen über die wilden Völkerschaften, Städte, Flüsse, vierfüssigen Thiere, Amphibien, Insekten, merckwürdigsten Schlangen, Fische, Vögel, Blume, Pflanzen, und andere Eigenschaften dieser Provinz. Als dem lateinische übersetzt von A. Kreil. Viena: Joseph Edlen von Kurzbeck, 1784b. 3 v.         [ Links ]

DRUMOND, C. Vocabulario na lingua brasilica. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, n. 135, p. 1-154, 1952; n. 164, p. 1-149, 1953.         [ Links ]

DRUMOND, C. Vocabulário da língua brasílica. 2. ed. São Paulo: [s. n.], 1952. 2 v.         [ Links ]

ECKART, A., S. J. Anselmi Eckarti Specimen linguae brasilicae vulgaris. Editionem separatam alias immutatam curavit Julius Platzmann. Leipzig: B. G. Teubner, 1890.         [ Links ]

ECKART, A. Der Herrn P. Anselm Eckart, ehemaligen Glaubenspredigers der Gesellschaft Jesu in der Capitania von Pará in Brasilien, Zusätze zu Pedro Cudena's Beschreibung der Länder von Brasilien, und zu Herrn Rectors Christian Leiste Anmerkungen im sechsten Lessingischen Beytrage zur Geschichte und Litteratur, aus den Schätzen der Herzoglichen Bibliothek zu Wolfenbüttel. Braunschweig, 1781. In: MURR, C. G. von. Reisen einiger Missionarien der Gesellschaft Jesu in Amerika. Aus ihren eigenen Auffässen herausgegeben von Christoph Gottlieb von Murr. Nürnberg: Johann Eberhard Zeh, 1785. p. 451-597.         [ Links ]

FIGUEIRA, L., S. J. Arte de grammatica da língua brasílica. Lisboa: Officina de Miguel Deslandes, 1687.         [ Links ]

FREIRE, L. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1954. 5 v.         [ Links ]

GOVONI, I. Padre Malagrida. O missionário popular do Nordeste (1689-1761). Porto Alegre: Livraria Padre Reus, 1992.         [ Links ]

HAZIN, E. Gabriele Malagrida: importância de seu resgate para a memória brasileira. Diálogos Latino-Americanos, n. 5, p. 84-98, 2002.         [ Links ]

HERVEY, C. Letters from Portugal, Spain, Italy and Germany, in the years 1759, 1760, and 1761. Londres: J. Davis, 1785. v. 1.         [ Links ]

IHERING, R. von. Dicionário dos animais do Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968.         [ Links ]

IHERING, R. von. Dicionário dos animais do Brasil. São Paulo: Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, 1940.         [ Links ]

IHERING, R. von. Diccionario dos animaes do Brasil. Boletim de Agricultura, São Paulo, n. 37, p. 294-410, 1936.         [ Links ]

LEISTE, C. Anmerkungen über vorstehenden Spanischen Aufsatz des Cudena. In: LESSING, G. E. Zur Geschichte und Litteratur. Aus den Schätzen der Herzoglichen Bibliothek zu Wolfenbüttel. Braunschweig: Verlage des Fürstl. Waysenhaus-Buchhandlung, 1781. p. 464-560.         [ Links ]

LESSING, G. E. Zur Geschichte und Litteratur. Aus den Schätzen der Herzoglichen Bibliothek zu Wolfenbüttel. Braunschweig: Verlage des Fürstl. Waysenhaus-Buchhandlung, 1781.         [ Links ]

MAGALHÃES E BRITO, F. Sunto del processo contro il gesuita Gabriele Malagrida. Lisboa: A. Rodriguez Galhardo, 1761.         [ Links ]

MONTOYA, A. R., S. J. Arte, Bocabulario, Tesoro y Catecismo de la Lengva Gvarani por Antonio Ruiz de Montoya publicado nuevamente sin alteracion alguna por Julio Platzmann. Leipzig: B. G. Teubner, 1876. v. 3.         [ Links ]

MONTOYA, A. R. Arte, y bocabulario de la lengva Guarani. Madri: Iuan Sanchez, 1640. 2 v.         [ Links ]

MONTOYA, A. R. Tesoro de la lengva guarani. Madri: Iuan Sanchez, 1639.         [ Links ]

MÜLLER, P. L. S. Des Ritters Carl von Linné, königlich schwedischen Leibarztes etc. etc. vollständiges Natursystems nach der zwölften lateinischen Ausgabe und nach Anleitung des holländischen Houttuynischen Werks mit einer ausfürlichen Erklärung. Nürnberg: G. N. Raspe, 1773. v. 2.         [ Links ]

MURY, P. Gabriel Malagrida de la Compagnie de Jésus. 2. ed. Strasbourg: F. X. Le Roux, 1899.         [ Links ]

MURY, P. Historia de Gabriel Malagida da Companhia de Jesus. Traslado a portuguez e prefaciado por Camillo Castelo Branco. Lisboa: M. Moreira, 1875.         [ Links ]

OLIVEIRA, L. F. A vila de Bragança, rios e caminhos: 1750-1753. Revista Mosaico, v. 1, n. 2, p. 188-197, 2008.         [ Links ]

PAPAVERO, N.; TEIXEIRA, D. M. A fauna de São Paulo nos séculos XVI a XVIII, nos textos de viajantes, cronistas, missionários e relatos monçoeiros. São Paulo: EDUSP, 2007.         [ Links ]

PARISOT, P. C. Relazione della condanna ed esecuzione del gesuita Malagrida. Lisboa: A. Rodriguez Galhardo, 1761.         [ Links ]

PISO, G. De Indiae utriusque re naturali et medica libri quatuordecim, quorum contenta pagina seqquens exhibet. Amsterdam: Ludovicum et Danielem Elzevirios, 1658.         [ Links ]

PORRO, Antonio. Uma crônica ignorada: Anselm Eckart e a Amazônia setecentista. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 6, n. 3, p. 575-592, 2011.         [ Links ]

RESTIVO, P., Pe. Lexicon Hispano-Guaranicum. "Vocabulario de la lengua Guaraní" inscriptum a Reverendo Patre Jesuita Paulo Restivo secundum Vocabularium Antonii Ruiz de Montoya anno MDCCXXII in Civitate S. Mariae Majoris denno editum et adauctum, sub auspiciis Augustissimio Domini Petri Secundi Brasiliae Imperatoris posthae curantibus Illustrissimis Ejusdem Haeredibus ex unico qui noscitur Imperatoris Beatissimi exemplari redimpressum necnon praefatione notisque instructum opera et studiis Christiani Frederici Seybold, Doctoris philosophiae. Stuttgart: In aedibus Guilielmi Kohlhammer, 1893.         [ Links ]

RESTIVO, P., Pe. Vocabulario de la lengva gvarani compvuesto por el Padre Antonio Ruiz de la Compañia de Jesus. Revisto, y augmentado por otro religioso de la misma compañia. S. Maria la Mayor: [s.n.], 1722.         [ Links ]

SENTENÇA da Inquisiçam de Portugal contra a pessoa, e erros de Gabriel Malagrida, traduzida do portuguez em latim/ Sententia Lusitanae Inquisitionis adversus Gabrielem Malagridam ejusque errores, de lusitano in Latim versa. Lisboa/Olisipone: [s.n.], 1762.         [ Links ]

TASTEVIN, C. Nomes de plantas e animaes em língua tupy. Revista do Museu Paulista, n. 13, p. 687-763, 1923.         [ Links ]

THE PROCESS against the Portuguese conspirators. Abstract of the genuine legal sentence pronounced by the high court of judicators of Portugal upon the conspirators against the life of his Most Faithful Majesty; with the true motives for the same. The Scots Magazine, Edinburgh, n. 21, p. 20-27, 1759.         [ Links ]

TIERNO, J. C. Dicionário zoológico. Contendo, por ordem directa e inversa, todos os termos registrados nos dicionários mais correntes da língua portuguesa. Lisboa: Edição da Tertúlia Edípica, 1954.         [ Links ]

UN MONUMENTO al P. Malagrida. La Civiltà Catolica, Roma, v. 13, n. 9, p. 30-43, 1888.         [ Links ]

UNPARTEYISCHE Nachrichten von dem Leben, und Tode des P. Gabriel Malagrida aus der Gesellschaft Jesu. [s. l.]: Emanuel Thurneyse, 1784.         [ Links ]

 

 

Autor para correspondência:
Nelson Papavero
Rua Clodomiro Amazonas, 1220, ap. 71
São Paulo, SP, Brasil. CEP 04537-002
nelsonpapavero@gmail.com

Recebido em 02/06/2011
Aprovado em 08/11/2011

 

 

a Nota da publicação original: Vespertilio spectrum Linn. Der Flatterer. Die Trichternase [O esvoaçador. O nariz afunilado] de Schreber, Säugethiere, I, p. 159, n. 3. pl. 45. Andira aca dos brasileiros, Marcgraf. Brasil. P. 2. 3. Andira guacu, Piso. Ind. p. 290. M[urr].
b Nota da publicação original: Veja-se a p. 481. M[urr]. [O trecho a que remete essa nota, à p. 481, diz: "Unter den niedlich-/sten und schmackhaftesten Speisen allhier ist die/ Schildkröte, so zwo Spannen Lang, und dem/ Hübner, oder zartesten Kalbfleische sehr nahe/ kommt. Von einer Schildkröte pflegen vier un-/terschiedliche Speisen zugerichtet zu werden"].
c Nota da publicação original: O crocodilo do Nilo tem cinco dedos livres nas patas dianteiras e quatro nas patas traseiras, dos quais três são armados de unhas, ao passo que o crocodilo americano possui cinco dedos tanto nas patas dianteiras como nas traseiras, todas com unhas. M[urr].
d Nota da publicação original: Na p. 512 acima já houve a informação sobre os caranguejos, e na p. 520 sobre as formigas. Uma aranha, maior que a chamada comedora de beija-flores (Aranea avicularis Linn.), é tão grande que os portugueses mandam engastar em ouro o aguilhão da boca [quelíceras], em forma de garra, como palitos de dentes. Os portugueses denominam-na, conforme me ensinou o sr. Padre Eckart, aranha caranguejeira, a aranha-caranguejo. Aranei hujus, in Brasilia maximi, unicus pilus, escreveu-me ele em 1780, si tantum carnem tetigerit, ut saepius audivi, (nec eam tam prope contemplatus fui) causa est dolorum maximorum. É provável que seja esta a mesma espécie de aranha do vizinho Paraguai, da qual o sr. Padre Martin Dobritzhoffer escreve na segunda parte da sua História dos Abipones no Paraguai, p. 407 da versão alemã: "É preciso cuidar-se sobretudo de certas aranhas grandes, que os espanhóis denominam Arañas peludas, e os Guaranis ñanduquazú [sic], as grandes. Seu corpo mede três polegadas e consta de duas partes. A anterior é maior, cerca de duas polegadas de comprimento, uma e meia de largura e ligeiramente achatada; a outra, ao contrário, parece mais redonda e se assemelha a uma noz moscada quanto ao tamanho e a forma. Suas costas perfuradas substituem o lugar de um [?]. Seus olhos brilhantes constam de pequenos pontos. Muitas pessoas engastam em ouro seus dentes (presas) longos e extremamente afilados, por sua excepcional beleza, sendo usados na limpeza de dentes e para outros fins. Toda a pele desta aranha está coberta com pelos curtos e pretos, mas que são tão suaves ao toque que poderiam ser tomados por seda. Ela tem dez pernas compridas, peludas, dotadas de ganchinhos irregularmente dispostos, as quais se assemelham, nas extremidades, a espécies de pinças de caranguejo. Estas pernas lhe servem de mãos e pés. Irritada, ela pica qualquer pessoa. A mordida quase invisível revela uma certa umidade, um abcesso negro-azulado e a dor lancinante subsequente. A peçonha da aranha, uma vez infiltrada no corpo humano, demonstra não apenas ser perigosa, mas também mortal. Mal conseguimos salvar a vida daqueles que foram picados pela grande aranha, com todos os medicamentos que costumeiramente agem eficazmente contra o veneno das cobras. Esta aranha quase sempre se instala em sebes, árvores escavadas e nas fendas de muros, onde se ocupa, como todas as outras, em tecer sua rede". M[urr]. [Comentários dos autores: Martin Dobrizhoffer, jesuíta austríaco nascido em Graz, na Estíria, em 7 de setembro de 1717, e falecido aos 17 de julho de 1791. Ingressou na Sociedade de Jesus em 1736 e, em 1749, passou para o Paraguai, onde trabalhou por 18 anos, primeiramente entre os Guaranis e depois com os Abipones. Regressando à Europa após a expulsão dos jesuítas, estabeleceu-se em Viena, obteve a amizade da imperatriz Maria Teresa, sobreviveu à supressão de sua Ordem e escreveu a história de sua missão, publicada no mesmo ano em versões latina e alemã (Dobrizhoffer, 1784a, 1784b). Na edição latina (Dobrizhoffer, 1784a, v. 2, p. 338-339): "Cane pejus, & angue fugiendi aranei praegrandes, quos Hispani arañas peludas, id est, hirsutas, Quaranii Nanduguazu grandes appellant iidem fortassis, qui a latinis phalangia dicuntur. Illorum corpus tres circiter digitos longum e duabus partibus componitur. Anterior pars major est, duos prope digitos longus, sesquidigitum lata, ac non nihil compressa. Posterior ad figuram sphaericam accedit magis, ac tum magnitudine, tum forma nucem muscatam exprimit. Tergus perforatum umbilici suplet vices. Exilia duo punctula ocelli sunt fulgurantes. Dentes longi, & peracuti ob eximiam pulchritudinem a variis auro clauduntur, ad dentes scalpendos, ad alios serviunt usus. Tota aranei hujus cutis pilis curtis nigricantibus vestitur, qui tamen adeo svaves, ac blandii, ut, si tangantur, serici videantur. Decem crura longa, pluribus, paucioribusve internodiis distincta, undique hirsuta numerat, quorum singula in forcipulam, qua cancri gaudent, desinunt. Haec crura pedum, manuunque officio funguntur. Irritatus mordet obvios. Morsum, vix oculi spectabilem, humiditas quaedam, lividum tumor, & qui inde consequitur, dolor acerrimus detegit. Aranei virus humanis corporibus ingestum non periculosum modo, sed & lethale experti sumus; Remedia ad serpentinum vulnus persanandum opportuna pluribus ab araneo grandi ictis vix demum vitam servarunt. Hoc araneorum genus in sepibus, arborum cavernis, murorumque ruinis, ubi reliquorum more telae texendae insudant, potissimum delitescunt". O mesmo trecho, em tradução de Abner Chiquieri: "Pior que o cão e a cobra, devem-se evitar as enormes aranhas que os espanhóis chamam arañas peludas, isto é, cabeludas e que os próprios guaranis possivelmente chamam de Nandiguazu, grandes, e que são chamadas de phalangia pelos latinos. Seu corpo tem o comprimento de três dedos aproximadamente e se compõe de duas partes. A parte anterior é maior, com o comprimento de dois dedos aproximadamente e largura de meio dedo, porém nada comprimida. A parte posterior parece mais com uma figura esférica, tanto no tamanho como na forma, imitando uma noz moscada. O dorso perfurado supre, às vezes, do umbigo. Dois pontinhos salientes são os olhinhos brilhantes. Os dentes [quelíceras], longos e muito agudos, por causa de sua enorme beleza, são encastoados por alguns em ouro, para palitar os dentes. Toda a pele dessa aranha é revestida com pelos escuros curtos, os quais, de tão delicados e suaves, quando tocados, parecem de seda. Conta com dez pernas longas, munidas com muitos ou poucos entrenós, peludas por toda a parte; cada uma delas termina em [forma de] pinça. Essas pernas desempenham o papel de pés e mãos. Ao ser provocada, morde o que encontra no caminho. Uma certa umidade, um inchaço escuro e uma dor muito aguda, a partir daí, desvendam a mordida, dificilmente notada pela vista. Provamos que o veneno da aranha introduzido nos corpos humanos é não só perigoso, mas - mais do que isto - letal. Os remédios apropriados para curar uma ferida de serpente salvaram a vida de muitos que foram mordidos pela grande aranha. Esse gênero de aranhas esconde-se, de preferência, nas cercas vivas, nos ovos das árvores, nas ruínas das paredes, onde deixam cair seu suor para tecer a teias, conforme o costume das outras"].
e Nota da publicação original: Presumivelmente os que, na nossa Francônia e na Áustria, são chamados "Schwabenkäfer" ou "Kakerlaken", a Blatta americana L., que não suporta a luz. Os russos dão-lhe o nome de "Tarakan". M[urr].
1 Para os antecedentes desse trabalho de Eckart, ver Porro (2011).
2 Anônimo (jesuíta alemão), "Vocabulario da lingua Brazil", século XVIII, Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, códice 3143 (doravante, Anôn.1).
3 Tradução de Marcia Souto Couri.
4 Referência à tartaruga-do-am
azonas, Podocnemis expansa Schweigger, 1812, réptil quelônio da família Podocnemididae.5 Mugilliza Valenciennes in Cuvier & Valenciennes, 1836, peixe perciforme da família Mugilidae, do Atlântico ocidental, do sul da Flórida e Bermudas ao sudeste do Brasil.
6 Em Anôn.1, p. 44: "Caranguejo. Uçá".
7 Falsa etimologia para 'Curuçá' ('cruz').
8 Designação comum a todas as espécies de crustáceos decápodes braquiúros da família Portunidae, caracterizados por terem nadadeiras no último par de pernas.
9 Esta palavra foi grafada 'Çararâ' pelo Padre Leonardo do Valle (1585), conforme Drumond (1952, v. 1, p. 67): sob "caranguejo, os piquinhos que sobem pelas arvores"; e conforme Anôn.1, p. 44: sob "caranguejos, que sobem pellas arvores". Baena (1840, p. 111) registrou "sarará", dizendo ser "parecido com o xiri [sic], porém pequenino: é alvo e não recortado o casco; o vermelho chamam 'sarará-péoca'". Chermont de Miranda (1906, p. 89), sob a mesma voz, declarou ser um "pequeno crustáceo decapode abundante nos rios de água salobra". O mesmo autor (Chermont de Miranda, 1968, p. 79) identificou erroneamente o 'sarará' como "Casta de Hyalea [sic!], o nome de um pequeno caranguejo [sic] que se costuma encontrar nos igapós e igarapés". Designação comum aos caranguejos dos gêneros Uca e Aratus, que frequentam os manguezais.
10 Em Anôn.1, p. 102: "Javali, Aper. Taiaccú iarõ"; e p. 134: "Porco do mato. Taiaçúreté (bravo: Tajaçú iarô)". É o 'queixada' Tayassu pecari Link, 1795, mamífero artiodáctilo da família Tayassuidae, distribuído da Venezuela ao norte do Rio Grande do Sul.
11 Em Anôn.1, p. 134: "Porco do mato de outra gasta [sic]. Taitetú". 'Caititu' Pecari tajacu Linnaeus, 1758, mamífero artiodáctilo da família Tayassuidae, da região cisandina da América do Sul.
12 Referência a um trecho de Lessing (1781, p. 507), que diz: "Einige Gegenden, selbst auf der Insel [de Itamaracá], sind wegen der Verheerungen der Ameisen nicht anzubauen; andere sind desto einträglicher".
13 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, g'.de e vermelha, q' come as plantas yçäúba". Saúva, designação dos insetos himenópteros (família Formicidae) do gênero Atta.
14 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, outra com cabeça mais peq.º Aryrý". Designação comum aos exemplares (macho e fêmea) dos insetos isópteros, ou cupins, quando abandonam o ninho para o voo nupcial, após o qual as fêmeas fecundadas formam novas colônias; também chamados aleluia, siriluia, siriruia etc. O termo 'aririÎ' já fora registrado por Restivo (1722, 1893, p. 378: "mariposillas que vuelan despues de aver llovido").
15 Muito provavelmente uma leitura errônea feita pelo impressor. Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, outras, q' comem as plantas, se chamão: Tanánga [?], Tambejüuá, Iki jú". Sob 'tanánga' (a leitura da penúltima letra é tentativa), podemos conjeturar apenas que Eckart queria referir-se à 'tanajura', fêmea alada da saúva. 'Tambejüuá' (erroneamente transcrito como 'Juvá' em Murr) é o Solubea poecila Dallas, 1851, inseto heteróptero (hemíptero) da família Pentatomidae, praga do arroz; outras grafias são 'tambeiuá' (Montoya, 1639, p. 353v) e 'tambe yuá' (Montoya, 1640, p. 285). Para 'iki jú', ver nota seguinte.
16 É o nome dos grilos, não de uma formiga.
17 Do Tupi 'taraku'a', devorador de espigas. Termo já registrado por Restivo (1722, 1893, p. 334), como 'taracuá'; e pelo Padre Marcos Antônio (1757, fol. 50v) como 'taracoá' (In: "Vocabulario das línguas brasilica e portugueza", 1757. Manuscrito n. 223, Coleção de Jorge IV. Museu Britânico, Londres). Designação das formigas do gênero Camponotus. Em Anôn.1, p. 94: "Formiga preta e fedorenta, Taracoá".
18 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga grande e preta, q' mordendo mto doe, e causa ainda febre, Tocankýra". 'Tocandira' Paraponera clavata Fabricius, 1775, inseto himenóptero da família Formicidae (Ponerinae), comum na Amazônia, de coloração preta, e que atinge até 22 mm de comprimento. Tem um tubérculo no protórax e outro no pedúnculo do primeiro segmento abdominal, e constrói ninho subterrâneo. De picada muito dolorosa, capaz de produzir vômitos, é utilizada pelos índios para cerimônias de emancipação de adolescentes.
19 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, outra semelhante [à tocankýra], mas mais gde, Tepiäí". 'Tapiaí', provavelmente, pelo contexto, Pachycondyla commutata Roger, 1860, inseto himenóptero da família Formicidae, subfamília Ponerinae. Formiga amazônica semelhante à tocandira, porém menor e de cor negra brilhante, não aveludada. Sua picada é muito dolorosa, mas não tão agressiva como a da famigerada tocandira. O nome 'tapiaí' é também aplicado a outras espécies de formigas.
20 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga mais pena, que todas as das, q' m'to morde e queima. Taçúba". Ou Taciba. Trata-se da 'lava-pés', Solenopsis saevissima F. Smith, 1855, inseto himenóptero da família Formicidae (e outras espécies próximas). As picadas das 'lava-pés' são muito dolorosas.
21 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, a q' come a madeira, lignum, Rupa & Rupií [sic]". Cupim, insetos da ordem Isoptera.
22 Em Anôn.1, p. 94: "Formiga, outras, q' tem dentes como anzoÎs: Täóca". Taocas são as 'formigas-correição', designação comum aos insetos himenópteros da família Formicidae, subfamília Dorylinae, gênero Eciton, capazes de realizar grandes migrações, em que milhares de obreiras percorrem vastas extensões de território durante algumas horas ou mesmo dias. Em algumas espécies, os soldados têm mandíbulas muito desenvolvidas. Eckart, entretanto, neste trecho, confunde-as com as saúvas.
23 Provavelmente, um jovem Saguinus midas Linnaeus, 1758, primata da família Cebidae, cujo corpo varia de 20,5 a 28 cm.
24 Em Anôn.1, p. 117: "Morcego, Vespertilio, Andirá". Designação geral para os mamíferos quirópteros, cujos membros anteriores são transformados em asas pela presença do patágio.
25 Em Anôn.1, p. 135: "Preguiça, animal. äý". Designação comum aos mamíferos desdentados da família Bradypodidae, arborícolas, de pelagem muito densa e longa, membros muito desenvolvidos e cauda rudimentar.
26 Designação comum aos mamíferos desdentados da família Dasypodidae, com seis gêneros no Brasil e aproximadamente 11 espécies.
27 Em Anônimo, "Prosodia da lingoa [dos Indios]", século XVIII, in Anônimo, "Dicionario da lingua falada por indios do Brasil, contendo no fim varios textos principalmemte os anteriores escritos na mesma lingua", Academia de Ciências de Lisboa, MS cota: MA n. 569 (doravante, Anôn.2), fol. 55, coluna 4: sob "lobo, animal".
28 Em Anôn.1, p. 3: "Abade ou Prelado. Abarégoaçu, Paý goaçú".
29 Em Anôn.1, p. 43: "Cão de agoa. Jagoáruçú".
30 Em Anôn.1, p. 43: "Cão. Animal. Jagoára vel Jagoamimbába. Não se diz: xeiagoara, mas iagoára xereimbába".
31 Em Anôn.1, p. 123: "Onça, macho. Jagoareté apyába. [Onça] femea. [Jagoareté] cunhã"; e p. 171: "Tigre. Jagoareté". Panthera onca Linnaeus, 1758, mamífero carnívoro da família Felidae, encontrado (salvo no Chile e nos Andes) em toda a América, desde o sudeste dos Estados Unidos.
32 Em Anôn.1, p. 103: "Igreja. Tupã óca ou Tupãea [?] róca".
33 Já o Padre Anchieta, em sua carta de 31 de maio de 1560, sobre as produções naturais de São Vicente, declarava: "Todavia, no meio de uma multidão tão grande e frequente delas [cobras venenosas], o Senhor nos conserva incólumes, e confiamos mais nele do que em contraveneno ou poder algum humano; só descansamos em Jesus, Senhor nosso, que é o único que pode fazer com que nenhum mal soframos, andando assim por cima de serpentes" (Papavero e Teixeira, 2007, p. 50).
34 Em Anôn.1, p. 97: "Gato de mato. Maracájá". Um dos sinônimos da 'jaguatirica' Leopardus pardalis Linnaeus, 1758, mamífero carnívoro da família Felidae, distribuído desde os Estados Unidos (Arizona e Texas) até o norte da Argentina.
35 Alteração do português 'bichano'. Em Anôn.1, p. 97: "Gata caseira. Pixána cunhã; gato. Pixána apyába. Felis".
36 Referência ou à ariranha Pteronura brasiliensis Gmelin, 1788, mamífero carnívoro da família Mustelidae, outrora comum na região cisandina da América do Sul, e atualmente só encontrada em regiões pouco desbravadas da Amazônia e do Brasil Central, ou à lontra Lontra longicaudis Olfers, 1818, mamífero carnívoro da mesma família, distribuído desde o México até o Uruguai.
37 Cuniculus paca Linnaeus, 1758, mamífero roedor da família Caviidae, distribuído por quase toda a região cisandina.
38 Designação comum às espécies de mamíferos roedores da família Dasyproctidae, gênero Dasyprocta.
39 Em Anôn.1, p. 51: "Coelho. Tapití vulgò Tapiixí". Sylvilagus (Tapeti) brasiliensis Linnaeus, 1758, mamífero lagomorfo da família Leporidae, único representante da família no Brasil.
40 Em Anôn.1, p. 160: "Veado. Çuaçú. Çuguaçú". Muito provavelmente, um macho jovem do veado-campeiro Ozotocerus bezoarticus Linnaeus, 1759, mamífero artiodáctilo da família Cervidae.
41 Referência à graúna Scaphidura oryzivora oryzivora Gmelin, 1788, ave passeriforme da família Icteridae.
42 Em Anôn.1, p. 125: "Papagayo. Paragoá".
43 Referência de Leiste ao "Blauhals. Psittacus menstruus", de Müller (1773, p. 147). 'Maitaca' Pionus menstruus Linnaeus, 1766, psitaciforme da família Psittacidae, da porção meridional da América Central e oeste-setentrional da América do Sul cisandina (também na vertente pacífica da Colômbia), desde os seus limites setentrionais (da Colômbia às três Guianas) até o norte da Bolívia, incluindo o leste do Equador, o nordeste do Peru, o Brasil oeste-setentrional (dos limites ocidentais da Amazônia ao norte do Maranhão e de Mato Grosso) e central (Tocantins).
44 Designação comum às aves psitaciformes da família Psittacidae, gêneros Anodorhynchus e Ara.
45 'Ararajuba' Guarouba guarouba Gmelin, 1788, ave psitaciforme da família Psittacidae, do Brasil setentrional, da margem direita do baixo Amazonas, no rio Tapajós, para leste, até, primitivamente, todo o nordeste do Brasil (hoje, não além do Maranhão).
46 'Aiaiá' ou colhereiro Ajaja ajaja Linnaeus, 1758, ave ciconiiforme da família Threskiornithidae, de rios, banhados e praias lodosas da América, desde o sul dos Estados Unidos (Califórnia, Flórida etc.), a América Central e algumas das Grandes Antilhas, até o estreito de Magalhães (e as ilhas Malvinas), sem excluir a vertente do Pacífico (Chile); no Brasil, primitivamente, em todos os estados; nos dias atuais, quase que tão somente na Amazônia e outras grandes bacias.
47 Trecho um tanto confuso, a menos que se entenda que Eckart queira se referir à palavra 'galinha' e não ao inhambu. Em Anôn.1, p. 97: "Gallinha. Çapucáia cunhá".
48 Em Anôn.1, p. 99: "Gritar chamando, Açapucái".
49 Em Anôn.1, p. 97: "Gallo.Çapucáia apyába".
50 Em Anôn.1, p. 97: "guyrá pajé, pássaro adivinhador".
51 Designação comum a várias aves galiformes da família Cracidae, gênero Penelope, frequentes nas matas primitivas do Brasil.
52 Referência ao 'mutum-cavalo', Mitu mitu mitu Linnaeus, 1766, originalmente da faixa oriental florestada do Nordeste do Brasil, incluindo Alagoas e nordeste da Bahia, e Mitu mitu tuberosa Spix, 1815, da porção amazônica da Colômbia (rio Uaupés), do Peru e da Bolívia, Brasil oeste-setentrional, ao sul do rio Amazonas, incluindo o Mato Grosso (rio das Mortes) e o extremo leste do Pará (rio Capim), aves galiformes da família Cracidae.
53 Nome indígena das gaivotas.
54 A casa jesuítica de Maracu situava-se junto ao lago e rio homônimos, na região da atual Viana, no baixo rio Pindaré.
55 Designação comum a várias aves gruiformes da família Psophiidae, gênero Psophia, da região amazônica.
56 Designação comum às aves piciformes da família Ramphastidae, gênero Ramphastos.
57 Em Anôn.1, p. 56: "Corvo. Urubú". Designação comum às aves falconiformes da família Cathartidae, de cabeça pelada, que se alimentam de carnes em decomposição.
58 Urubu-rei Sarcoramphus papa Linnaeus, 1758, ave falconiforme da família Cathartidae, distribuída do México à Argentina.
59 Em Anôn.1, p. 152: "Tartaruga. Jurará, gaarará, se são de Rio: do mato, ou cágado, Jabuti: outras com pescoço comprido e torto, Matámatá. Outras, Tracajá".
60 É a 'suruanã' Chelonia mydas Linnaeus, 1758, réptil quelônio da família Cheloniidae, dos mares tropicais.
61 Em Anôn.1, p. 152: "Tartaruga. Jurará; goarará, se são de Rio". Nome aplicado a diversas tartarugas, como a 'aperema', a 'muçuã' e a tartaruga-do-amazonas.
62 Em Anôn.1, p. 152: "Tartaruga, outras com pescoço comprido e torto, Matámatá". Chelus fimbriatus Schneider, 1783, réptil quelônio da família Chelidae, aquático, que ocorre na maioria das grandes bacias de drenagem do norte da Bolívia, leste do Peru, Equador, leste da Colômbia, Venezuela, Guianas e norte e centro do Brasil. Também foi encontrada em Trinidad.
63 Em Anôn.1, p. 152: "Tartaruga. Outras, Tracajá". Nome dado à fêmea do réptil quelônio da família Podocnemididae Podocnemis unifilis Troschel in Schomburgk, 1848, da Amazônia.
64 Referência à tartaruga-do-amazonas. Ver nota 4. Em Eckart (1890, p. 5-6), lemos: "Hâc ipsa in Missione Abacaxis (...) cum piscatores frequentissimè, diebus praesertim Sabbati e lacu, vulgo lago de Sampayo, afferrent testudines, tantae magnitudinis, ut ex una personae decem ad satietatem prandium sibi parare possint, e piscatoribus ubi quaerebatur, quot essent testudines? Cocecói Rai! h. e., Ecce Pater! reposuerunt, bacilli ei porrigentes oblongum, (hoc talca etiam appellatur) cui tot inciderunt crenas (Schnitte am Kerbholz) quot jurás (jurarás Brasilicè testudo) attulerant. Incisuram autem decimam semper reddiderunt majorem: Et sic duntaxat recensendo crenas, testudinum numerus jam sciebatur: tulerunt vero plerumque unâ pro hebdomade quadraginta, et plures" ("Nessa mesma Missão de Abacaxis (...), quando, muitas vezes, os pescadores, principalmente aos sábados, traziam de um lago, vulgarmente chamado lago de Sampaio, tartarugas de um tamanho muito grande que, de uma só, poder-se-ia preparar uma refeição farta para dez pessoas, perguntávamos aos pescadores onde e quantas tartarugas havia. Cocecói Rai!, isto é, Olha, Padre!, respondiam, apresentando o longo de uma vara (também chamada talca), onde haviam entalhado tantos cortes (Schnitte am Kerbholz) quantas jurás (jurará é tartaruga em brasileiro) tinham trazido. Sempre faziam maior, no entanto, o décimo entalhe: e assim, somente contando os entalhes, já se sabia o número de tartarugas: com efeito, traziam, na maior parte das vezes, quarenta para uma semana e até mais"). Tradução de Abner Chiquieri.
65 Em Anôn.1, p. 160: "Vaso. Camutí, meliùs Çurú, vg jandýrurú, ajuntandolhe a cousa, q' conserva; e se he de servir p.ª azeite, vinho &c se dirá: jandýrurúrama".
66 Referência à tartaruga-de-pente Eretmochelys imbricata Linnaeus, 1766, réptil quelônio da família Cheloniidae (subfamília Cheloniinae), dos mares tropicais.
67 Cäáeté, Caeté ou Vila de Souza do Caeté é a atual Bragança, no estado do Pará. Para a história de Caeté (1750-1753), ver Oliveira (2008).
68 Em Anôn.1, p. 152: "Tartaruga. do mato, ou cágado, Jabutí". Chelonoidis carbonaria Spix, 1824 ocorre do Panamá até o Rio de Janeiro, Bolívia, Paraguai e norte da Argentina, a leste dos Andes; Chelonoidis denticulata Linnaeus, 1766 ocorre do sudeste da Venezuela, Guianas, Equador, Colômbia, nordeste do Peru, norte e leste da Bolívia e Brasil, e ilha de Trinidad. Répteis quelônios da família Testudinidae.
69 Em Anôn.1, p. 107: "Lagarto de agoa: Jacaré". Designação comum a todos os répteis crocodilianos da família Crocodylidae (= Alligatoridae).
70 Como o cão (que bebe) do Nilo (rapidamente, antes que seja abocanhado por um crocodilo).
71 Anôn.1, p. 42: "Camaleão, Chameleon, Ratten-Eidex [eidechse]. Cenembú". É o iguana, Iguana iguana Linnaeus, 1758, réptil lacertílio da família Iguanidae, do México e das ilhas do Caribe até as regiões temperadas e tropicais do Brasil, às proximidades do paralelo 20º S.
72 Padre Leonardo do Valle (1585) in Drumond (1952, v. II, p. 17): "Lagarto da terra - Tejû. Tajuguaçû"; Anôn.1, p. 197: "Lagarto de terra, Teiú"; Anôn.2, fol. 54, coluna 1: "Lagarto da terra - Teiú". Teiú, Tupinambis teguixin Linnaeus, 1758, réptil lacerílio da família Iguanidae.
73 Em Anôn.1, p. 107: "Lagarto [do] braço; Lacertus, Jybaypý ou gibaypý". No "Nomina anatomica", do Padre Pero de Castilho, S. J., livro composto em 1613 (Ayrosa, 1937; Bezerra et al., 2000, p. 188), consta: "Iibaipiaiýa = Lagarto do braço" (bíceps do braço). Montoya (1640) registra: "Lagarto del braço. Y1bá y pÏ. YÏbá ñêã". Novamente, Eckart considerou um músculo com um réptil. Também em Anôn.1, p. 39: "Bucho do braço, Lacertus. xeyibá röó".
74 Em Anôn.1, p. 107: "Lagarto da perna - ybypý vg. xejybypý jibypý". O Padre Castilho dá "Ûba poã aiýa = Lagarto" (ventre muscular da perna) (Bezerra et al., 2000, p. 190).
75 Cascavel, Caudisona durissa Linnaeus, 1758 (Crotalus durissus Linnaeus, 1758), réptil ofídio da família Crotalidae, comum nas zonas secas, raro no extremo Sul e na Amazônia, facilmente reconhecível pela presença de guizo ou chocalho na ponta da cauda.
76 Jiboia, Boa constrictor constrictor Linnaeus, 1758, e Boa constrictor amarali Stull, 1932, répteis ofídios da família Boidae, do México (Yucatán), Belize, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela (Mérida), Guianas, Peru, Bolívia, Brasil, Argentina, Paraguai, Trinidad, Tobago e Antilhas. Vivem nas florestas ou nos campos, são arborícolas e alimentam-se de roedores e aves; comprimento: até 4 m. Apesar de não venenosos, sua mordedura dói e pode causar infecção. A pele é largamente usada na confecção de artefatos de couro.
77 Gabriele Malagrida nasceu em 5 de dezembro de 1689, em Menaggio, na margem ocidental do lago de Como, na Lombardia, Itália. Desde criança, deu provas de engenho e, ao mesmo tempo, de uma tendência exagerada para o misticismo. Aos 12 anos, foi enviado a estudar com os padres somascos de Como e, demonstrando interesse para a vida religiosa, acabado o ensino médio, foi a Milão, ao Colégio Helvético, para iniciar seus estudos de Filosofia e Teologia. Em 1711, querendo tornar-se religioso, aproximou-se dos jesuítas de Como e foi admitido como noviço. Foi destinado para professor do ginásio na ilha de Córsega e, após completar os estudos de Teologia em Gênova, pediu ao superior Gela, da Companhia de Jesus, para ser destinado como missionário nas Índias. Malagrida tornou-se sacerdote jesuíta em 23 de outubro de 1711. Partiu para as missões no Estado do Grão-Pará e Maranhão em 1721. No Maranhão, começou a aprender a língua indígena. Em 11 de outubro de 1723, seus superiores designaram-no como pregador do Colégio de Belém. Nesse mesmo ano, foi enviado pela primeira vez, como missionário, aos índios Caicazes, ao longo dos rios Itapicuru e Munim, no Maranhão. Dessa nação indígena, passou a outras: os Guanarés e os Barbados, no rio Mearim, onde sofreu maus bocados, quer pela resistência dos feiticeiros da tribo, quer pela epidemia de peste que assolava os índios. Permaneceu entre eles até 1727, com aventuras arriscadas e dignas de um romance, mas dando sempre provas do misticismo extravagante que tão fatal lhe haveria de ser - pretendia que vozes misteriosas lhe falavam, que tudo eram milagres e prodígios; julgava-se um favorito do céu. Em 1727, por ordem dos superiores, voltou a São Luís para reger, no colégio dos jesuítas, a cadeira de Belas Letras. Mas, logo voltou a catequizar os índios, em 1728, conseguindo amansar uma das tribos mais ferozes do interior - a dos Barbados, entre os quais fundou uma missão, que teve logo grande desenvolvimento. Em 1730, voltou novamente a São Luís e foi encarregado de reger, ao mesmo tempo, Teologia e Belas Letras. A partir de 1735, iniciou sua segunda fase - a de 'missionário apostólico', ou missionário popular, quando, deixando São Luís, dirigiu-se, via Piauí, para a Bahia, pregando missões populares por todas as localidades por que passava, promovendo a renovação espiritual por meio dos Exercícios Espirituais Inacianos e animando a vida religiosa do interior, até então desamparado espiritualmente. Chegou a Salvador em 1738 e continuou suas pregações populares com grandes conversões, em número e qualidade. Lá iniciou um convento para 'convertidas' e um seminário para o clero diocesano. De 1741 a 1745, andou por Pernambuco e pela Paraíba, sempre pregando retiros e tomando iniciativas de fundação de conventos e seminários. Entre 1746 e 1749, permaneceu no Maranhão e no Pará, onde continuou sua ação de pregador de missões populares, até que concebeu a ideia de ir a Portugal solicitar a aprovação do Rei para funcionarem legalmente suas fundações e conseguir recursos. Chegado a Lisboa em 1750, assistiu aos últimos momentos de vida do rei D. João V. Permaneceu nessa capital até 1751, quando se dirigiu novamente ao Maranhão. Em 1754, voltou definitivamente a Portugal, a rogo de D. Mariana d'Áustria, viúva de D. João V. Nessa altura, estava no poder o Marquês de Pombal, que não deixou Malagrida entrar na intimidade da rainha viúva. Dirigiu-se, então, o jesuíta, para Setúbal, onde depois teve a notícia da morte da soberana. Sobreveio o grande terremoto de Lisboa de 1755 (Hervey, 1785, p. 11-16 [Carta IV. Lisboa, 16 de Janeiro de 1759], p. 17-25 [Carta V. Lisboa, 14 de janeiro de 1759], p. 31-36 [Carta VII. Lisboa, 25 de janeiro de 1759], p. 37-41 [Carta IX. Lisboa, 30 de janeiro de 1759]), ali estando Malagrida. A catástrofe ocasionou terror imenso na população da capital. Para levantar os espíritos abatidos, Pombal mandou compor e publicar por um padre um folheto em que se explicavam as causas naturais dos terremotos e se desviava a crença desanimadora de que fora castigo de Deus e de que eram indispensáveis a penitência e a compunção. Saiu a campo, indignado, o padre Malagrida, escrevendo um folheto intitulado "Juízo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a Corte de Lisboa no 1º. de novembro de 1755". Nesse escrito, combatia com indignação as doutrinas do outro padre que Pombal fizera espalhar; atribuía a castigo de Deus o terremoto, citava profecias de freiras, condenava severamente os que levantavam abrigos nos campos, os que trabalhavam em consertar as ruínas da cidade e recomendava procissões, penitências e, sobretudo, recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de santo Inácio de Loiola. O Marquês de Pombal não era homem que permitisse semelhantes contrariedades. Mandou queimar o folheto pela mão do algoz e desterrou Malagrida para Setúbal. Passava-se isto em 1756. O jesuíta imaginava que, com o seu prestígio de taumaturgo, podia lutar contra a vontade do Marquês. Parece que, de Setúbal, escreveu mais uma carta ameaçadora, carta que, depois do atentado dos Távoras contra o rei, em 3 de setembro de 1758, podia ter uma terrível significação. Pombal acusou Malagrida de ter colaborado na tentativa de regicídio, denunciando-o à Inquisição como falso profeta, impostor e, pior de tudo, de ser um herege, o que equivalia à morte na fogueira. Septuagenário, alquebrado pelos trabalhos passados e pela prisão doentia, Malagrida tornou-se demente, persistindo obstinadamente em suas crenças. Entregue à Inquisição de Lisboa, foi acusado de heresia e condenado ao garrote e à fogueira num auto-de-fé, que ocorreu aos 21 dias de setembro de 1761, tendo sido queimado no Rossio, a praça principal de Lisboa (The Process..., 1759; Sentença..., 1762; Unparteyische..., 1784; Un monumento..., 1888; Butiña, 1886, 1902; Carayon, 1865; Govoni, 1992; Hazin, 2002; Hervey, 1785, p. 17-25 [Carta V. Lisboa, 14 de janeiro de 1759], p. 26-30 [Carta VI. Lisboa, 20 de janeiro de 1759], p. 42-50 [Carta X. Lisboa, 3 de fevereiro de 1759], p. 51-58 [Carta XI. Lisboa, 7 de fevereiro de 1759], p. 59-69 [Carta XII. Lisboa, 10 de fevereiro de 1759], p. 70-88 [Carta XIII. Lisboa, 13 de fevereiro de 1759], p. 89-106 [Carta XIV. Lisboa, 16 de fevereiro de 1759], p. 107-117 [Carta XV. Lisboa, 20 de fevereiro de 1759], p. 209-217 [Carta XXV. Lisboa, 8 de abril de 1759]; Magalhães e Brito, 1761; Parisot, 1761; Mury, 1875, 1899).
78 Em Anôn.1, p. 50: "Cobra, Serpens, coluber. São de varias gastas [sic], q' matão, Jararáca. boipeba. Çurucúcú. Boicoatiára. Ybijara. piririón".
79 Designação comum a várias espécies de répteis ofídios da família Crotalidae, gêneros Bothriopsis, Bothropoides e Bothrops.
80 Boipeva, provavelmente Waglerophis merremii Wagler, 1824, muito comum em todo o Brasil. Quando irritada, a boipeva achata o corpo, sobretudo o pescoço.
81 Provavelmente a surucutinga, Lachesis muta muta Linnaeus, 1766, réptil ofídio da família Viperidae, da Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Venezuela, Trinidad, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Brasil (Amazônia, hileia do Maranhão), que pode atingir 3,60 m de comprimento. É a maior cobra venenosa do Brasil.
82 Boicoatára, Boiquatiara, nomes da urutu, Bothrops alternatus Duméril, Bibron & Duméril, 1854, réptil ofídio da família Viperidae, do centro e sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. Não ocorre na Amazônia. Eckart deve ter se baseado em vocabulário escrito por algum jesuíta do sul do Brasil.
83 Ibijara, designação indígena das cobras-de-duas-cabeças, répteis lacertílios da família Amphisbaenidae.
84 Quiririó, um dos nomes da urutu. Ver nota 82.
85 Sapo não identificado. Eckart foi o primeiro a registrá-lo. O nome vai ser repetido por Araújo e Amazonas (1984 [1852]), p. 18; Tastevin (1923, p. 720 ["Mocotó - Sapo roncador"]); Ihering (1936, p. 310; 1940, p. 518; 1968, p. 460); Freire (1954, p. 3461); Tierno (1954, p. 493). Como mócótó em Baena (1840, p. 115 [sapo]) e Beaurepaire-Rohan (1889, p. 95 [repete Baena]).
86 Em Anôn.1, p. 145: "Sapo, bufo, garten-krot. Cururú". Designação comum a alguns sapos de grande porte de pele enrugada, principalmente do gênero Ranilla (ex Bufo).
87 Em Anôn.1, p. 138: "Rãa. Rana, Juí".
88 Em Anôn.1, p. 138: "Rãa g.de Joue".
89 Cotorá em Piso (1658, p. 298), uma rã não identificada. Em Anôn.1, p. 138: "Rãa, outras nos rios canta de noite Cotára". São os dois únicos autores a citar este nome.
90 Em Anôn.1, p. 139: "Rato doméstico. Guabirú". Rattus rattus Linnaeus, 1758, mamífero roedor da família Muridae, cosmopolita.
91 Em Anôn.1, p. 138: "Rato do mato. Çagoiá. V. Saboiá. çauoiá. outra gasta [sic]: Aturá". Sauiá, um dos sinônimos dos ratos-de-espinho, designação comum aos mamíferos roedores das famílias Cricetidae (gênero Neacomys) e Echimyidae, caracterizados por terem os pelos em forma de cerdas espinhosas, sobretudo na região dorsal, onde pelos aristiformes sobressaem aos setiformes. Arborícolas, notívagos, preferem para morada as áreas ribeirinhas e emitem periodicamente um som característico, que lhes valeram o nome popular de toró ou coró.
92 Aturá. Este vocábulo, que só aparece em Eckart (1785), no Anôn.1 (p. 138) e no Anôn.2 (fol. 72r), é provavelmente um erro por arúrú ou arurú, nomes registrados por Montoya (1639, p. 70r [1876, p. 70r]), sob "especie de ratones", e Montoya (1640, v. 2, p. 167), sob "raton".
93 Didelphis marsupialis Linnaeus, 1758, mamífero marsupial da família Didelphidae.
94 Referência ao poraquê ou peixe-elétrico, Electrophorus electricus Linnaeus, 1758, peixe gimnotiforme da família Electrophoridae, da Amazônia.
95 Referência a um baiacu, peixe tetraodontiforme da família Tetraodontidae.
96 Igoaragoá. Em Anôn.1, p. 128: "Peixe... boy. Igaragoá". Trichechus inunguis Natterer, 1833, mamífero da ordem Sirenia, família Trichechidae, da bacia do Amazonas.
97 É a chamada mixira.
98 Arapaima gigas Schinz, 1822, peixe osteoglossiforme da família Arapaimidae, da bacia amazônica. Comprimento de até 2,5 m, peso de até 80 kg. É o maior peixe de escamas do Brasil. A pesca é feita com anzóis ou com arpão. A língua é usada para ralar o guaraná e a escama para lixar unhas. Defende seus alevinos recolhendo-os na boca. A carne, fresca, salgada ou seca (piraém), é muito apreciada.
99 Euterpe edulis Martius, da família Arecaceae.
100 Brachyplatystoma filamentosum Lichtenstein, 1819, e Brachyplatystoma capapretum Lundbergh & Akama, 2005, peixes siluriformes da família Pimelodidae, dos rios Amazonas, Tocantins, Madeira e Araguaia.
101 Designação comum a várias espécies de peixes siluriformes da família Pimelodidae, dos gêneros Brachyplatystoma, Platysytomatichthys, Pseudoplatystoma, Sorubim e Steindachneridion.
102 Designação comum a várias espécies de peixes siluriformes da família Pimelodidae.
103 Designação comum a várias espécies de peixes perciformes do gênero Cichla (família Cichlidae).
104 Colossoma macropomum Cuvier, 1816, peixe caraciforme da família Characidae (Serrasalminae), das bacias dos rios Amazonas e Orenoco.
105 Pinirampus pirinampu Spix & Agassiz, 1829, peixe siluriforme da família Pimelodidae, dos rios Amazonas e Tocantins, assim como de Mato Grosso, Guianas, Venezuela, Bolívia e Paraguai.
106 Piramutana piramuta Kner, 1858, peixe siluriforme da família Pimelodidae, da Amazônia.
107 Designação comum a vários gêneros e espécies de peixes caraciformes da família Characidae (subfamília Serrasalminae).
108 Nome geral aplicado a diversos Muraenidae.
109 Goabibúra. Em Anôn.1, p. 138: "Raya, peixe. Jabebyra. goabibúra".
110 Em Anôn.1, p. 42: "Camarãens, gammarus, Meer-Brebs. Poti".
111 Em Anôn.1, p. 124: "Ostra geralmte ostrea: Reri".
112 Em Anôn.1, p. 124: "Ostra; unde reriçüí, cal de ostra, ou ostra feita em pó".
113 Em Anôn.1, p. 33: "Barata; bicho, que roe os vestidos e livros, Blata [sic], Arabé".
114 Em Anôn.1, p. 115: "Milho, gerl. Abatí; Saburro, Milium Indicum, Türkischer weitz".
115 Em Anôn.1, p. 35: "Bichos, q entrão nos pés. Tunga, Tûmbura. Relat. Tunga, o bicho do pé. Arte, p. 77". Eckart refere-se aqui à "Arte de grammatica da lingua brasilica" (Figueira, 1687), onde consta à p. 77: "Túnga, o bicho do pé".
116 Em Anôn.1, p. 35: "Bichos dos páus, ou da terra. yçóca".
117 Em Anôn.1, p. 35: "Bicho, q' costuma gerar se no viscouto, algum redondo, e vermelho, Corëá".
118 Em Anôn.1, p. 35: "Bichos, q' se comem, e nascem dos páos, e canas, arundines, Turú".
119 Em Anôn.1, p. 35: "Bichos da carne e peixe podre. Tapurú".
120 Em Anôn.1, p. 35: "Bichinhos de agoa sediça, putrída, q' se gerão nella. yreçá".
121 Em Anôn.1, p. 35: "Bicho, q' se gera no milho, Milio, Hirsch; Asiatico, Türkischer weitzen, comprido e preto. Çoçóca".
122 Em Anôn.1, p. 117: "Mosca. Merú". Designação geral dos dípteros.
123 Em Anôn.1, p. 117: "Mosca, de gado: Mutúcuçú, g.de motúca". Díptero da família Tabanidae.
124 Em Anôn.1, p. 117: "Mosquitos, que mordem, e mui peq.os: PÏu". Dípteros da família Simuliidae (pium na Amazônia; borrachudo em outros lugares do Brasil).
125 Em Anôn.1, p. 117: "Mosquitos, os de pernas compridas, e aguilhão comprido, e q' cantão como trombeteiras, carapanã". Dípteros da família Culicidae.
126 Carapanatiba (ou -tuba) não é nome de uma espécie de carapanãs, mas designa um lugar ou sítio onde estes abundam. Nome de um rio e de uma localidade no Amapá.
127 Em Anôn.1, p. 117: "Mosquitos, os peqos: Mariguí, q' não faltão no caminho do Maranhão".
128 Em Anôn.1, p. 117: "Mosquitos, os q' se pegão nas pernas, Mocüí". Micuim, designação vulgar dos ácaros da família Trombiculidae, especialmente os do gênero Trombicula, que em sua fase larval costumam atacar o homem e os animais, causando fortes comichões. Muito conhecida na Amazônia, a espécie Trombicula brasiliense ataca o homem e os animais, de agosto a outubro, nas regiões descampadas. Tem coloração avermelhada e o porte tão diminuto que é necessária uma lente para poder ser visto com detalhes.
129 Ver nota 16.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License