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Rodriguésia

Print version ISSN 0370-6583On-line version ISSN 2175-7860

Rodriguésia vol.68 no.3spe Rio de Janeiro  2017

https://doi.org/10.1590/2175-7860201768338 

Artigos Originais

Flora das cangas da Serra dos Carajás, Pará, Brasil: Monimiaceae

Flora of the cangas of Serra dos Carajás, Pará, Brazil: Monimiaceae

Nara Furtado de Oliveira Mota1  2 

1Museu Paraense Emílio Goeldi, Coord. Botânica, Prog. Capacitação Institucional, Av. Perimetral 1901, Terra Firme, 66077-830, Belém, PA, Brasil.


Resumo

Mollinedia ovata é a única espécie de Monimiaceae registrada para as cangas da Serra dos Carajás. Trata-se de uma espécie de ampla distribuição nas Antilhas e América do Sul, porém localmente foi encontrada apenas na Serra Sul (S11A e S11B), e Serra Norte (N7). Uma descrição detalhada, desenho e comentários sobre morfologia, distribuição e hábitat desta espécie são apresentados aqui.

Palavras-chave: Laurales; Mollinedioideae; Mollinedieae; Mollinedia ovata; taxonomia

Abstract

The only species of Monimiaceae recorded so far for the cangas of Serra dos Carajás is Mollinedia ovata, a widely distributed species in the Antilles and South America. Locally this species has a restricted distribution, found only in the Serra Sul (S11A and S11B) and Serra Norte (N7). A detailed description, illustration and comments on morphology, distribution and habitat of this species are presented here.

Key words: Laurales; Mollinedioideae; Mollinedieae; Mollinedia ovata; taxonomy

Monimiaceae

A família é composta de árvores, arvoretas ou arbustos, raramente lianas escandentes, monóicas ou dióicas, geralmente aromáticas. As folhas são simples, opostas, decussadas ou em verticilos de 2-3 folhas, simples, sem estípulas, pecioladas, glabras ou pilosas e margens variando de inteira a denteada. As inflorescências são axilares ou extra axilares, as estaminadas geralmente em tríades, e as pistiladas solitárias ou em fascículos. As flores, geralmente pequenas, são unissexuais (exceto Hortonia Wight & Arn.), monoclamídeas, com receptáculo plano, campanuladas ou urseoladas, tépalas variando de 3-8 (raro muitas). As flores masculinas possuem poucos a muitos estames e as femininas com 1-muitos carpelos livres. Os frutos são múltiplos, com drupéolas livres, incluídas ou afundadas no receptáculo, cedo reflexo ou tardiamente abrindo-se por fendas irregulares, expondo os frutíolos (Peixoto 1979, 1987; Barroso et al. 2002; Peixoto et al. 2002; Renner et al. 2010).

Monimiaceae é uma família pantropical com 28 gêneros e aproximadamente 200 espécies, com distribuição principalmente austral e tendo como o principal centro de diversidade a Nova Guiné (75 spp./10 gêneros) (Peixoto & Pereira-Moura 2008; Renner et al. 2010). No Brasil, ocorrem cinco gêneros (três endêmicos) e 47 espécies (43 endêmicas) (BFG 2015). O sul e sudeste brasileiro representam um importante centro de riqueza da família (Peixoto & Pereira-Moura 2008; Renner et al. 2010), sendo que para o Domínio Amazônico apenas o gênero Mollinedia Ruiz & Pav. é citado (BFG 2015).

1. Mollinedia Ruiz & Pav.

Árvores ou arbustos dioicos. Folhas geralmente opostas, inteiras a dentadas, glabras a pilosas, membranáceas a coriáceas. As inflorescências estaminadas geralmente em cimeiras trifloras, isoladas, em tirsos ou fascículos, congestos ou laxos, e as inflorescências pistiladas são flores solitárias. O único perianto das flores apresenta quatro tépalas iguais ou dois externos e dois internos diferentes entre si, sendo que os dois internos podem ou não apresentar apêndices inflexos. As flores masculinas apresentam poucos a muitos estames livres, adnados à parede do receptáculo, com anteras rimosas. As flores femininas são compostas de 1 a muitos carpelos uniovulados.

Mollinedia é um gênero neotropical, englobando cerca de 70 espécies distribuídas no sul do México, América Central e América do Sul (Peixoto et al. 2002; Peixoto & Pereira-Moura 2008). No Brasil são registradas 43 espécies, sendo 37 delas endêmicas do país (BFG 2015). Apesar da elevada riqueza no Brasil, apenas três espécies são registradas para o Domínio Amazônico, sendo duas delas citadas para o estado do Pará: Mollinedia killipii J.F.Macbr. e M. ovata Ruiz & Pav.

1.1. Mollinedia ovata Ruiz & Pav. Syst. Veg. Fl. Peruv. et Chil. 1: 143, 1798. Fig. 1a-e

Figura 1 Mollinedia ovata - a. ramo de um indivíduo masculino em flor; b. detalhe da inflorescência masculina; c. flor masculina; d. ramo do indivíduo feminino em fruto (fruto múltiplo); e. detalhe de uma drupéola (a-c. V.T. Giorni et al. 328, d-e. C.R. Sperling et al. 5786). Ilustração: João Silveira. 

Figure 1 Mollinedia ovata - a. branch of male individual in bloom; b. detail of male inflorescence; c. male flower; d. branch of famale individual in fruit (multiple fruit); e. detail of drupelet (a-c V.T. Giorni et al. 328, d-e C.R. Sperling et al. 5786). Illustration: João Silveira. 

Arvoreta 2-7 m alt., ramos cilíndricos, pubérulos, tardiamente glabrescentes ou glabros. Folhas 10-20 × 3,5-7,5 cm; pecíolo 0,5-1,5 cm compr., canaliculado; lâmina cartácea, geralmente elíptica, raro ovadas, base aguda, raro obtusa, ápice acuminado, margem com 3-9 pares de dentes irregulares e pronunciados, principalmente na metade superior, face adaxial glabrescentes a glabras, abaxial pubescentes, nervuras secundárias 6-9 pares. Flores masculinas em cimas trifloras ou tirsos de 6-12 cimas trifloras, axilares ou terminais, pilosas; receptáculo campanulado, lobos externos e internos com ápice arredondado, os internos com apêndice curto a longo, denticulado; estames aprox. 25, filetes muito curtos, anteras hipocrepiformes. Flores pistiladas não observadas. Drupéolas 0,8-1 × 0,4-0,6 cm, ovadas, sésseis, ápice agudo, estilete persistente, receptáculo frutífero 0,5-1 cm diâm.

Material selecionado: Parauapebas, N7, floresta, 6°9'9"S, 50°10'43" W, 24.VI.2012, fr., L.V.C. Silva et al. 1315 (BHCB). Canaã dos Carajás, Serra Sul, Corpo A/B vegetação ribeirinha, 6°20'39" S, 50°24'31" W, 650 m, 4.X.2009, pl. ♂ fl., V.T. Giorni et al. 328 (BHCB).

Mollinedia ovata possui grande variação morfológica na dimensão das folhas e no número de estames e carpelos, sendo uma espécie de difícil delimitação e consequentemente, difícil identificação (Lírio 2014). A inflorescência e flores masculinas são cobertas por indumento alvo-pubérulo, com o tempo tornando-se glabrescentes a totalmente glabras. Os indivíduos femininos geralmente apresentam flores solitárias (Lírio 2014; Peixoto 1987), diminutas, fato que contribui para a ausência de coletas de materiais com flor feminina. Usualmente os indivíduos pistilados são coletados em fruto, quando tornam-se vistosos. Geralmente M. ovata é confundida com Mollinedia schottiana (Spreng.) Perkins pela semelhança no formato das folhas, flores e frutos (Lírio 2014), no entanto tal espécie não é registrada para área de estudo, nem mesmo para o domínio Amazônico (BFG 2015).

Mollinedia ovata apresenta ampla distribuição nas Antilhas, Suriname, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Brasil (Lírio 2014). No Brasil ocorre em todos os Domínios, sendo uma das poucas espécies do gênero citada para o Domínio Amazônico (BFG 2015). Na Serra dos Carajás é registrada em áreas florestais não associadas às cangas e também nas matas de galerias de córregos temporários nas cangas da Serra Norte: N7 e Serra Sul: S11A e S11B.

Lista de exsicatas

Giorni VT 328 (1.1). Lobato LCB 4170, 4215 (1.1). Silva LVC 1315 (1.1). Sperling CR 5786, 5892 (1.1).

Editora de área: Dra. Ana Giulietti

Agradecimentos

Agradecemos ao Museu Paraense Emílio Goeldi e ao Instituto Tecnológico Vale, a estrutura e o apoio fundamentais ao desenvolvimento desse trabalho. Aos curadores dos herbários consultados, o acesso aos materiais examinados. Ao ICMBio, especialmente ao Frederico Drumond Martins, a licença de coleta concedida e suporte nos trabalhos de campo. Ao João Silveira, a confecção das ilustrações. Ao Programa de Capacitação Institucional (MPEG/MCTI), a bolsa PCI concedida à autora. Ao projeto objeto do convênio MPEG/ITV/FADESP (01205.000250/2014-10) e ao projeto aprovado pelo CNPq (processo 455505/2014-4), o financiamento.

Referências

Barroso GM, Peixoto AL, Ichaso CLF, Guimarães EF. & Costa CG (2002) Sistemática de Angiospermas do Brasil. Vol. 1. 2ª ed. Editora Universitária UFV, Viçosa. Pp. 58-59. [ Links ]

BFG - The Brazil Flora Group (2015) Growing knowledge: an overview of seed plant diversity in Brazil. Rodriguésia 66: 1085-1113. [ Links ]

Lírio EJ (2014) Monimiaceae do Espírito Santo, Brasil: taxonomia, distribuição geográfica e conservação. Dissertação de Mestrado. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 113p. [ Links ]

Peixoto AL (1979) Contribuição ao conhecimento da seção Exappendiculate Perkins do gênero Mollinedia Ruiz & Pavon (Mollinedieae, Monimioideae, Monimiaceae). Rodriguésia 50: 135-222. [ Links ]

Peixoto AL (1987) Revisão taxonômica do gênero Mollinedia Ruiz & Pavon (Monimiaceae, Monimioideae). Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 392p. [ Links ]

Peixoto AL & Pereira-Moura MVL (2008) A new genus of Monimiaceae from the Atlantic Coastal Forest in South-Eastern Brazil. Kew Bulletin 63: 137-141. [ Links ]

Peixoto AL, Pereira-Moura MVL & Santos IS (2002) Monimiaceae. In: Wanderley MGL, Shepherd G & Giulietti AM (orgs.) Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Ed. Hucitec, São Paulo. Vol.2, pp. 189-207. [ Links ]

Perkins JR (1900) Monographie der Gattung MollinediaBotanische Jahrbücher fur Systematik, Pflanzengeschichte und Pflanzengeographie 27: 636-682. [ Links ]

Renner SS, Strijk JS, Strasberg D & Thébaud C (2010) Biogeography of the Monimiaceae (Laurales): a role for East Gondwana and long-distance dispersal, but not West Gondwana. Journal of Biogeography 37: 1227-1238. [ Links ]

Recebido: 09 de Maio de 2017; Aceito: 28 de Junho de 2017

2 Autor para correspondência: nara.mota@gmail.com

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