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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.8 no.1 São Paulo Jan./June 2013

https://doi.org/10.1590/S2176-45732013000100006 

ARTIGOS

 

Sobre o pensamento bakhtiniano: uma recepção de recepções

 

 

Renata Coelho Marchezan

Professora da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" – UNESP, Araraquara, São Paulo, Brasil; renata_marchezan@uol.com.br

 

 


RESUMO

São diversas as recepções da obra bakhtiniana: as que a situam em perspectiva histórica e cultural, dando a conhecer o contexto inerente a ela, as interlocuções com as quais se edificou e os caminhos de seu desenvolvimento; as que adotam, isoladamente, um ou outro de seus conceitos e as que buscam dela depreender um arcabouço, menos ou mais sistematizado, para a reflexão de um objeto em particular. Fixando-nos nestas últimas e no domínio dos estudos sobre a linguagem, examinamos as recepções do pensamento bakhtiniano como uma pragmática, uma sociolinguística, uma semiótica, uma teoria social, uma teoria do discurso. Na perspectiva desta disciplina, é que nos centramos, por último, para refletir sobre algumas de suas bases fundamentais.

Palavras-chave: Dialogismo; Linguagem dialógica; Discurso; Enunciado


 

 

Para conversar sobre a prosa, confesso apenas um mestre, que li tardiamente e que me
ensinou tudo que sei, na perspectiva acadêmica e fora dela, sobre prosa e romance.

Cristovão Tezza

 

Quais são as contribuições de M. Bakhtin? As respostas a essa pergunta são diversas e vêm de diferentes campos do conhecimento. A epígrafe destaca trecho da "autobiografia literária" de Cristovão Tezza, que, com a força inquestionável dessa espécie de depoimento, declara sua "referência essencial – Mikhail Mikháilovitch Bakhtin" (2012, p.2). Da academia, vêm as respostas provenientes de pesquisas – por definição, propensas ao debate. Nesse contexto, destaca-se a contribuição filosófica e/ou teórica do pensamento bakhtiniano. Várias pesquisas disponíveis dedicam-se a situá-lo em perspectiva histórica e cultural, dando a conhecer o contexto inerente a ele, as interlocuções com as quais se edificou e os caminhos de seu desenvolvimento. É o caso dos trabalhos de Craig Brandist (2002, em especial), que trazem resultados de ampla pesquisa em fontes primárias e compõem uma história cultural e intelectual do período relacionado às atividades de Bakhtin. Ao estabelecer uma rede de relações com as fontes e as interlocuções das obras do Círculo, Brandist problematiza sua completa originalidade e, ao esmiuçar as diferenças entre as contribuições, principalmente de Bakhtin, Voloshinov e Medvedev, e mesmo as diferenças entre as obras de diferentes períodos do próprio Bakhtin, problematiza também sua unidade.

As contribuições bakhtinianas mostram-se, ainda, de outro modo: dispersas em diferentes domínios e disciplinas, que acabam por adotar, isoladamente, um ou outro de seus conceitos, caso dos conceitos de gênero, carnavalização, diálogo, polifonia, entre outros. Aqui se inscrevem, por exemplo, os conceitos de heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva, formulados por Jacqueline Authier-Revuz (1990) com base na obra bakhtiniana, que migraram também da linguística para as análises do discurso. O verbete "dialogismo" tem, inclusive, lugar no Dicionário de análise do discurso (CHARAUDEAU; MAINGUENAU, 2004), e indica uma variedade de seu aproveitamento pelos estudos do discurso.

Reconhecendo também a importância da obra bakhtiniana, mas com objetivos diferentes, outras pesquisas buscam dela depreender um arcabouço, menos ou mais sistematizado, para a reflexão da língua, linguagem, literatura, cultura, educação etc. A tendência entre essas pesquisas é priorizar a consideração de um projeto comum na obra bakhtiniana. Nessa linha, Gary Saul Morson e Caryl Emerson (2008) privilegiam uma perspectiva ética e definem a prosaística.

A recepção de Michael Holquist (2002), primeiramente publicada em 1990, parece reconhecer também um projeto comum na obra bakhtiniana, organizado com base no conceito de diálogo. No entanto, os capítulos do seu livro consideram, em separado, "existência como diálogo", "linguagem como diálogo", "romance como diálogo", "autoria como diálogo". Em This Heteroglossia Called Bakhtin, capítulo que acrescenta à segunda edição de seu livro, o autor, ao destacar o trabalho de Bakhtin com o objeto texto, acaba por problematizar seu lugar na filologia1 russa e toma partido em debate sobre o próprio fazer do filólogo – já explorado por Emerson (2003), quando esta examina os diferentes posicionamentos de Mikhail Gasparov, Yuri Lotman, Mikhail Girshman e Vadim Kozinov, a respeito da dissolução do filólogo diante do texto que estuda, da sua relativa independência ou do seu envolvimento.

Especialistas brasileiros também depreendem um projeto comum no trabalho bakhtiniano, a partir do reconhecimento da natureza dialógica da linguagem:

a natureza dialógica da linguagem é um conceito que desempenha papel fundamental no conjunto das obras de Mikhail Bakhtin, funcionando como célula geradora dos diversos aspectos que singularizam e mantêm vivo o pensamento desse produtivo teórico (BRAIT, 1994, p.11).

Recebida, assim, de modo diverso, a obra bakhtiniana é adotada em domínios também diversos. Para o contexto russo do século XXI, Emerson (2003), ao final de sua encorpada reflexão sobre Os cem primeiros anos de Mikhail Bakhtin, antevê um provável impacto do pensamento bakhtiniano nos campos da pedagogia, da literatura e das meta-humanidades. A autora destaca pesquisas em circulação na área pedagógica que afirmam, por exemplo, a importância do diálogo entre culturas tanto na formação do aluno, quanto no amadurecimento profissional do professor. Reconhece também, nesse contexto educacional, um interesse pelos artigos da área do próprio Bakhtin, então, recentemente descobertos. No campo da literatura, a interlocução com Bakhtin, para a autora, tende a se redefinir – longe das "aplicações intermináveis, por vezes absurdas, de slogans bakhtinianos" (EMERSON, 2003, p.331)2 –, conhecida que é, agora, sua perspectiva filosófica. Também em razão desse conhecimento ampliado da obra bakhtiniana, em que seu objeto não é identificado tão somente ao literário, mas ao humano e ao que o circunda, são caracterizados por Emerson, sempre em relação às circunstâncias históricas da Rússia, diferentes desenvolvimentos do pensamento bakhtiniano para o tratamento da cultura.

A adoção de Bakhtin no universo de reflexão sobre a cultura não está, evidentemente, vinculada apenas às circunstâncias russas; há, na área, inúmeras abordagens de estudiosos de várias partes do mundo. Nem todos enfatizam o aspecto linguístico em Bakhtin, como faz, por exemplo, Allon White, que nomeia "sociolinguística crítica da cultura" (2003, p.129) o ramo de saber em que, para ele, Bakhtin se notabiliza.

Hirschkop (1999) e Brandist e Tihanov (2000) são importantes trabalhos que exploram o aspecto sociopolítico da obra bakhtiniana e suas contribuições para uma teoria social. Brandist tem exposto, no entanto, sua consideração acerca dos limites da abordagem bakhtiniana por não comportar uma teoria social. Para o autor, Bakhtin é um pensador idealista. Mas menciona as Teses sobre Feuerbach para, na mesma direção, reconhecer, em relação com um materialismo mecânico, o valor embutido em um idealismo dinâmico, ativo (BRANDIST, 2012, p.9).

A perspectiva de Michael E. Gardiner, no entanto, é de que o pensamento bakhtiniano não é incompatível com a dialética, só o é em relação àquela herdada dos discursos oficiais (2000). Ainda para o autor,

o que é surpreendente é que, a despeito da amplitude e da natureza claramente transdisciplinar do trabalho de Bakhtin, assim como da influência incontestável que ele tem tido na orientação dos debates culturais desde o último quarto de século, seu impacto nas ciências sociais tem sido, no máximo, pontual e, no mínimo, insignificante. (...) defendo a ideia de que o esquecimento relativo no qual ele é mantido é devido, ao menos em parte, ao sério desafio que um dialogismo bakhtiniano lança a numerosos pressupostos e a numerosos métodos que são indispensáveis às ciências sociais em suas práticas habituais (2007, p.67-68)3.

Os estudos de Carlos Alberto Faraco sobre a obra do Círculo de Bakhtin não deixam de examinar suas contribuições no contexto da linguística e sua proposta de uma metalinguística, mas o levam a afirmar que "estamos diante de uma reflexão geral de natureza filosófica (uma formulação sobre o Ser da linguagem) e não de proposições de natureza científica (formulação de um método para análise de um 'objeto calculável')" (2003, p.103).

Outros estudiosos identificam e caracterizam the turn to science (HIRSCHKOP, 1999, p.157-169; BRANDIST, 2002, p.134) em Bakhtin. A "virada científica" inclui as interlocuções com a psicologia, a sociologia e a linguística, que têm, por sua vez, respondido às formulações bakhtinianas. Certamente, um dos fomentos do interesse dessas áreas por Bakhtin é a identificação do texto como objeto comum das ciências humanas, o "dado primário", a "realidade imediata" (1997, p.329). Para Bakhtin, diferentemente das ciências naturais, as ciências que se ocupam do homem, sua mente, seus atos, sua linguagem, não têm objeto diretamente observável, têm os textos que, produzidos pelos homens, manifestam seus pensamentos, seus valores, suas visões de mundo: "onde não há texto não há objeto de estudo e pensamento" (1997, p.329). O estudioso, também ele situado em seu lugar e tempo, "dialoga" com os textos, sua época, suas formulações, para compreendê-los e compreender o homem. Trata-se, portanto, da compreensão do homem pelo homem. Da palavra pela palavra5. Revela-se assim o papel que, para Bakhtin, o texto (a linguagem, a língua, mas não o sistema linguístico) tem na compreensão do mundo e do outro, pelos sujeitos. "As coisas são prenhes da palavra" (1997, p.405).

À vista do destaque do texto como objeto comum das ciências humanas, o pensamento bakhtiniano pode ser entendido como tendo a linguagem6 como núcleo. É certo que essa afirmação não concerne, igualmente, à obra bakhtiniana como um todo. Tem sido mesmo examinado e localizado nas obras de Bakhtin e do Círculo o que se qualifica como uma virada para o domínio da língua/linguagem, considerada sob o signo da ruptura (por exemplo, BRANDIST, 2002), ou da continuidade (por exemplo, FARACO, 2003). Para essa reflexão, no entanto, interessa principalmente apontar que mesmo a centralidade da linguagem, quando é assumida, é também diferentemente considerada.

As interlocuções entre Bakhtin e a linguística são, como se sabe, de mão dupla. Ocorrem já internamente, na própria obra bakhtiniana, com uma crítica ao pensamento saussuriano; com a predileção, criteriosamente exposta, pela unidade da comunicação, o enunciado, e não pelas unidades da língua, a oração, a palavra; com a formulação de uma concepção de língua, de linguagem, constitutivamente dialógica; com a proposta não de uma linguística, mas de uma metalinguística. Continuam com a recepção dessas formulações pelos linguistas, animada, ao mesmo tempo, por pontos de contato e por especificidades. A obra bakhtiniana é aquilatada de modo diverso, ou melhor, relativamente diverso. Variam-se os focos, as relações com outras teorias, se não somente, principalmente, em função dos diferentes contextos teóricos em que é recebida.

Atentemos, então, sem nenhum objetivo exaustivo7, para essa diversidade da recepção no contexto dos estudos da língua, da linguagem. Geraldo T. Souza (1999) aposta no desenvolvimento da metalinguística, proposta por Bakhtin, cujo objeto, o enunciado concreto, identifica em análise cuidadosa da obra bakhtiniana.

Considerando também a metalinguística, ou, como prefere, a translinguística bakhtiniana, Julia Kristeva (1970) destaca a noção de enunciado e identifica, em Problemas da poética de Dostoiévski, uma noção de discurso, ainda que difusa. Em perspectiva estruturalista, notabiliza Bakhtin como precursor de uma semiótica moderna, de uma teoria da significação, então inexistente. Enfatiza, assim, que a obra bakhtiniana permite tratar da significação como um todo, descrever as especificidades da literatura e situar a construção literária concreta em seu lugar diferencial, na história dos sistemas significantes – historicidade que interpreta pelas vias modernas da sincronia e da diacronia. Nesse momento, em que prefacia a publicação francesa da obra bakhtiniana sobre Dostoiévski, a autora considera que, mesmo sem uma teoria moderna sobre a língua – o estruturalismo – e sobre o sujeito – o freudismo –, Bakhtin distingue-se por não dicotomizar forma e conteúdo e por adotar uma perspectiva histórica, ausente na poética dos primeiros formalistas. Como se vê, também aqui uma leitura permeada pelas investigações da autora e pelas circunstâncias de sua época.

Como Kristeva, Tzvetan Todorov (1981; 1997) elege também o termo translinguística, mas deixa claro seu entendimento da proposta bakhtiniana quando a relaciona com a pragmática: "o termo atualmente em uso que corresponderia mais fielmente ao que visa Bakhtin seria provavelmente pragmática; e podemos dizer, sem exagero, que Bakhtin é o fundador moderno dessa disciplina" (1981, p.42)8.

Com o epíteto, o autor acentua a língua em uso na comunicação, o "princípio dialógico" – que norteia toda a sua reflexão de 1981 –, e, na comparação com as formulações jakobsonianas, aponta o que considera ausente destas: a relação entre os enunciados – que traduz como intertexto, a partir de Kristeva.

No entanto, os desenvolvimentos da pragmática e, vinculadas a eles, as análises do diálogo que, de modo geral, exploram, formalmente, as relações lógicas de sequências linguísticas curtas, não constituem um lugar de reflexão sobre o diálogo tal como a obra bakhtiniana aponta; e deixa bem claro, por exemplo, em O discurso no romance (BAKHTIN, 1988). A ressalva pode, inclusive, esclarecer a advertência de que "a relação dialógica não coincide de modo algum com a relação existente entre réplicas de um diálogo real, por ser mais extensa, mais variada e mais complexa" (BAKHTIN, 1997, p.354).

White (2003), a quem já nos referimos, mesmo situando-se no plano da literatura, da cultura, pondera acerca da contribuição de Bakhtin para a sociolinguística clássica. Para o autor, ela é descritiva, mas não explicativa, uma vez que não tem uma teoria social, para ele, presente nos postulados bakhtinianos sobre as forças centrífugas e centrípetas. De acordo com suas palavras, o modelo dinâmico, proposto por Bakhtin, que compreende a ação das forças sociais em embate, salva-o da relação crua entre língua e classe social.

Em direção semelhante, Mika Lähteenmäki (2010) também explora as possíveis contribuições bakhtinianas para o estudo sociolinguístico, a começar pela noção de diversidade linguística, que não é considerada no plano da exceção, do desvio, mas, positivamente, como uma propriedade definidora das línguas naturais e das comunidades linguísticas. O autor destaca a voz e a heteroglossia bakhtinianas como instrumentos valiosos para analisar a diversidade linguística, que compreende conceptualizações do mundo, específicas, concretas e ideologicamente diferentes. Lähteenmäki, no entanto, considera que a abordagem sociolinguística necessita dotar-se também de uma teoria sociológica9, para ele, portanto, ausente da obra de Bakhtin.

Beth Brait prefere interpretar a proposta bakhtiniana como uma "teoria/análise dialógica do discurso" (2006, p.14), e o faz em estudo que, além de percorrer a obra bakhtiniana para destacar o discurso como objeto e um corpo de conceitos pertinentes, reflete sobre a metodologia apropriada ao exame dialógico do discurso.

Filiamo-nos aos estudos que reconhecem nas obras do Círculo, como um todo, importantes contribuições com base nas quais se pode organizar um conjunto teórico-metodológico para a compreensão e estudo da língua, da linguagem. Uma teoria em que, pelo menos, no contexto de preocupação com a língua, com a linguagem, se destaca um conceito de diálogo como seu eixo fundador e organizador. Uma teoria dialógica, portanto.

Para nós, a concepção dialógica da linguagem tem, leigamente falando, o valor de uma evidência, uma obviedade que, no entanto, nos espanta; uma obviedade que, no entanto, precisou ser mostrada, desenvolvida. Sua especificidade – a despeito da formulação assistemática e, sob vários aspectos, irregular – insere-a na história das ideias linguísticas. Acreditamos que há, aí, um lugar para o pensamento bakhtiniano.

Nesse contexto, para a reflexão sobre o objeto da teoria dialógica, retomamos os dois principais conceitos, apontados anteriormente: discurso e enunciado. No glossário que disponibiliza ao final de sua edição e tradução para o inglês de textos de Bakhtin, Holquist (1981) inclui os termos. No primeiro verbete, insere uma explicação sobre uma escolha em sua tradução; no segundo, uma citação para elucidar o termo.

DISCURSO, palavra [slovo]
A palavra russa slovo cobre um domínio muito maior do que seu equivalente em inglês, significando tanto uma palavra individual como um método de usar as palavras [cf. logos do grego] que presume um tipo de autoridade. Assim o título de nosso ensaio final, "Discurso no romance", poderia também ter sido apresentado como "A palavra no romance". Optamos pelo termo mais amplo porque o que interessa Bakhtin é o tipo de discurso que o ambiente romanesco possibilita, e também o modo como esse tipo de discurso ameaça outros sistemas mais fechados. Algumas vezes Bakhtin usa discurso como ele é às vezes usado no Ocidente – como um meio de se referir a subdivisões determinadas por diferenças sociais e ideológicas dentro de uma mesma língua (isto é, o discurso dos encanadores americanos vs o discurso dos acadêmicos americanos). Mas é muito mais comum o modo mais difuso de insistir na primazia da fala, do enunciado, todos eles aspectos da língua in praesentia (1981, p.427)10.

ENUNCIADO [vyskazivanie]
A ampliação de Bakhtin para o que Saussure chama parole (o ato de fala/o enunciado), mas em que enunciado é considerado especialmente social, histórico, concreto e dialógico. Vejam-se as numerosas e excelentes discussões disso em V. N. Voloshinov, Marxismo e filosofia da linguagem, como nas pp. 40-41: "Na comunicação verbal, em cada enunciado, não importa quão trivial seja, renova-se cem cessar [uma] síntese dialética viva entre psique e ideologia, entre o interior e o exterior. Em cada ato de fala, a experiência subjetiva rende-se ao fato objetivo da palavra enunciada, e a palavra enunciada subjetiviza-se no ato de entendimento responsivo, para gerar, cedo ou tarde, uma contrapalavra" (1981, p.433-4)11.

No primeiro registro, são assinalados o sentido mais amplo do termo discurso e também a acepção que o aproxima da noção de enunciado, exposta no segundo registro. O autor depreende, da obra do Círculo, o significado das noções, mas também as inclui no paradigma da linguística saussuriana para contrastá-las com o conceito de parole, ressaltando-lhes o caráter social, histórico, concreto e dialógico.

O recurso de Holquist ao conceito de parole de Saussure para explicar o de enunciado de Bakhtin – mesmo não tendo sido o elemento da dicotomia priorizado por seu formulador e mesmo havendo já tantas reflexões sobre a questão – pode levar a inserir este no paradigma daquele que, com o conceito de langue, assenta a história da linguística moderna. Sabemos que a noção de sistema, de estrutura, não é desconsiderada por Bakhtin, mas é entendida, antes, como uma decorrência – e não o contrário – da linguagem viva, em uso. E é esta que motiva e organiza a proposta bakhtiniana.

A partir das noções de discurso e de enunciado, pode-se configurar o objeto visado por Bakhtin: a manifestação real da linguagem, por interlocutores situados em contexto determinado. Assim, resumidamente indicado, esse objeto pode confundir-se com o de outras perspectivas da linguística contemporânea. O objeto especifica-se, não poderia ser diferente, quando posto em relação a um domínio mais amplo da reflexão e quando contrastado com outras perspectivas teóricas e metodológicas.

O recorte do objeto não o alija de suas relações com a sociedade que o produz. Os verbetes permitem-nos qualificar isso. O primeiro verbete atenta ao caráter social e ideológico que comporta a noção de discurso na obra bakhtiniana. Lembra-nos também que o enfoque dado ao discurso romanesco o caracteriza como parte de um embate social a constringir outros discursos, no caso, outros sistemas mais fechados.

Não é, pois, à toa, que Bakhtin considera exemplar o romance. Na interação complexa e tensa entre personagens e na própria relação entre estas e a voz autoral, definidora de uma dada forma romanesca, manifestam-se uma pluralidade de vozes, uma diversidade de gêneros discursivos e diferentes modos de transmissão da fala do outro; ao mesmo tempo, o próprio romance, como lembra o verbete, atua, ele mesmo, como um contradiscurso no domínio dos gêneros literários consolidados. São as forças centrípetas e centrífugas, a que já fizemos menção, por meio das quais Bakhtin explica a luta discursiva travada na sociedade.

O trabalho de Bakhtin sobre o romance é exemplar também para nós; se não, obviamente, para encontrarmos a mesma relação e estratificação de vozes em outros gêneros, é para apreendermos o significado que tem, na sua obra, a afirmação do caráter social, ideológico e dialógico que atribui ao discurso, ao enunciado. Forjadas em interlocução crítica com o formalismo, mas também com o ideologismo, as reflexões bakhtinianas não rejeitam a forma. Inseparável do conteúdo, a forma, ela mesma, expressa a relação axiológica do autor e do interlocutor com o conteúdo. Para Bakhtin, a forma polifônica do romance de Dostoiévski expressa, artisticamente, uma luta contra a coisificação do homem12.

A citação introduzida no segundo verbete explicita os elos estabelecidos entre o enunciado, de natureza responsiva, e os sujeitos da interlocução, seu mundo interior e exterior. Atribui-se, assim, à linguagem um importante papel na constituição da consciência, na formação das identidades, na organização de mundos. O recorte do objeto não separa, assim, o discurso, o enunciado de suas relações com os sujeitos que os produzem. Sujeitos sociais, dotados também de um mundo interior, construído também dialogicamente.

Reconhece-se, assim, que a língua, não a língua como sistema, nem a língua das gramáticas, mas a língua viva, das interações complexas e tensas, tem um importante papel nos processos humanos de concepção de realidades, de mundos13. Não se trata, porém, de uma perspectiva relativista, nem antirrealista – a não ser que se entenda por realista a correspondência espelhar entre língua e mundo, língua e sociedade.

Ao refletir sobre a polifonia, Bakhtin pondera:

Não vemos qualquer necessidade de dizer especialmente que o enfoque polifônico nada tem em comum com o relativismo (e igualmente com o dogmatismo). Devemos dizer que o relativismo e o dogmatismo excluem igualmente qualquer discussão, todo diálogo autêntico, tornando-o desnecessário (o relativismo) ou impossível (o dogmatismo) (1981, p.59).

Todorov (1997), no já citado prefácio – sem a preocupação de sistematizar o pensamento bakhtiniano, que o move no livro de 1981 –, recorta, de outra edição, a mesma citação, para, com ela, negar o relativismo e assentar a obra bakhtiniana sobre a religiosidade que dela depreende. É de outro modo que voltamos à citação acima: para alegar, contra o relativismo, o mesmo lastro indicado por Bakhtin: o "diálogo autêntico", intrinsecamente social.

À vista disso, com a presente reflexão sobre diferentes recepções da obra bakhtiniana, não queremos qualificar como verdadeira uma delas entre outras, mas participar do debate, do "diálogo autêntico", que envolve tantas áreas do conhecimento.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 06/05/2013
Aprovado em 23/06/2013

 

1 Em sua argumentação, Holquist não esquece a resposta de Bakhtin a Viktor Duvakin, de que se considerava mais filósofo do que filólogo: "Sou um filósofo, um pensador" (Apud HOLQUIST, 2002, p.192).
2 São nossas esta e as demais traduções das citações que incluímos neste trabalho. O original: "endless, at times mindless applications of Bakhtinian catchwords".
3 O original: "what is amazing is that, despite the clearly transdisciplinary amplitude and nature of Bakhtin's work, as well as the unquestionable influence that he has had in the course of cultural debates since the last quarter of century, his impact on social sciences has been, at most, punctual and, at least, insignificant (...) I defend the idea that the relative oblivion in which it is kept is due to, at least in part, the serious challenge that a Bakhtinian dialogism causes to numerous presuppositions and to several methods that are essential for the social sciences in their customary practices" (GARDINER, 2007, p.67-68)
4 Os dois autores, no entanto, a localizam de modo diferente nas obras dos membros do Círculo.
5 Um posicionamento relativista? Mais adiante, voltaremos a isso.
6 Com o termo linguagem, inclui-se também a linguagem não verbal.
7 Tampouco de ordenação cronológica.
8 Com mais certeza, Todorov reafirma: "(...) Bakhtin se empenha em lançar as bases de uma nova linguística, ou, como dirá mais tarde, „translinguística‟ (o termo em uso hoje seria antes „pragmática‟), cujo objeto já não é mais o enunciado, mas a enunciação, ou seja, a interação verbal" (1997, p.15).
9 Em Lähteenmäki (2004), o autor traz a perspectiva sociológica de Anthony Giddens.
10 DISCOURSE, word [slovo] The Russian word slovo covers much more territory than its English equivalent, signifying both an individual word and a method of using words [cf. the Greek logos] that presumes a type of authority. Thus the title of our final essay, "Discourse in the Novel," might also have been rendered "The Word in the Novel." We have opted for the broader term, because what interests Bakhtin is the sort of talk novelistic environments make possible, and how this type of talking threatens other more closed systems. Bakhtin at times uses discourses as it is sometimes used in West – as a way to refer to the subdivisions determined by social and ideological differences within a single language (i.e., the discourse of American plumbers vs that of American academics). But it is more often than not his more diffuse way of insisting on primacy of speech, utterance, all in praesentia aspects of language (1981, p.427).
11 UTTERANCE [vyskazivanie] Bakhtin's extension of what Saussure called the parole aspects of language (the speech act/utterance), but where utterance is made specifically social, historical, concrete and dialogized. See the numerous and excellent discussions of this in V. N. Voloshinov, Marxism and the Philosophy of Language, as on pp. 40-41: "In the verbal medium, in each utterance, however trivial it may be, [a] living dialectical synthesis is constantly taking place between the psyche and ideology, between the inner and outer. In each speech act, subjective experience perishes in the objective fact of the enunciated word-utterance, and the enunciated word is subjectified in the act of responsive understanding in order to generate, sooner or later, a counterstatement" (1981, p.433-434).
12 À qual já nos referimos em Marchezan (2006).
13 Em Marchezan (2010), reportamo-nos a essa questão com base em Pavel Medevedev.

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