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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.15 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub Nov 28, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457344578 

ARTIGOS

O conceito de aspas verbo-visuais e suas classificações

*Doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUC/SP, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq, Processo 141469/2012-9; CAPES PDSE, processo 6079-13-0; https://orcid.org/0000-0002-5069-7358; rodolfovianna@yahoo.com.br


RESUMO

Este artigo tem por objetivo apresentar o conceito de aspas verbo-visuais e suas classificações. O fenômeno deve ser entendido como um desdobramento metaenunciativo opacificante (em analogia à modalização autonímica, presente no plano verbal), resultante de determinadas relações entre elementos verbais e visuais constitutivos de um mesmo enunciado, uma vez tomada sua dimensão verbo-visual. São três as classificações do fenômeno: aspas verbo-visuais de relação direta entre elementos verbais e visuais, aspas verbo-visuais de opacificação de elementos verbais no plano visual e aspas verbo-visuais de alegoria verbo-visual opacificante. A contribuição pretendida é oferecer ao campo dos estudos sobre a linguagem o conceito de aspas verbo-visuais e suas classificações, com o intuito de auxiliar com um novo instrumental teórico-metodológico as pesquisas que se debruçam sobre a dimensão verbo-visual dos enunciados e suas formas de produção de efeitos de sentido.

PALAVRAS-CHAVE: Aspas verbo-visuais; Modalização autonímica; Verbo-visualidade

ABSTRACT

This article aims to present the concept of verbal-visual quotation marks and their classifications. Once the phenomenon is taken in its verbal-visual dimension, it must be understood as an opacifying meta-utterative unfolding (in an analogy to autonymic modalizations in the verbal dimension), resulting from certain relations between verbal and visual elements that constitute the same utterance. The three classifications of the phenomenon are: verbal-visual quotation marks with a direct relationship between verbal and visual elements; verbal-visual quotation marks that opacify verbal elements on the visual plane, and verbal-visual quotation marks with opacifying verbal-visual allegory. This paper aims to contribute to the field of language studies by providing it with the concept of verbal-visual quotation marks and its classifications, and to offer a new theoretical-methodological instrument to research that focuses on the verbal-visual dimension of utterances and their ways of producing meaning effects.

KEYWORDS: Verbal-visual quotation marks; Autonymic modalization; Verbal-visuality

Introdução

As aspas, no plano verbal da linguagem, são responsáveis por efeitos de sentido já bastante estudados tanto pela Linguística quanto pelas diversas tendências da chamada Análise do Discurso. Dentre as suas diversas ocorrências, como a de delimitar um discurso citado ou a de enquadrar um signo verbal para ser compreendido em seu caráter autonímico (remetendo a ele mesmo, e não ao seu referente), há aquela que faz das aspas “um indicador interpretativo” (DAHLET, 2006, p.182), um “sinal a ser interpretado” (MAINGUENEAU, 2005, p.160) ou a que as marcam como “um tipo de ausência, de vazio a ser preenchido interpretativamente, um ´chamado à glosa´” (AUTHIER-REVUZ, 2012, p.139, grifos no original; tradução própria)1.

Essa última ocorrência se dá quando as aspas são empregadas como marcadores de uma modalização autonímica, conceito formulado por Authier-Revuz (1995), que pode ser sucintamente apresentado como uma espécie de desdobramento metaenunciativo opacificante, num retorno metaenunciativo pelo qual o enunciado se enuncia e, ao mesmo tempo, comenta a si mesmo, explicitando uma não-coincidência que instiga e amplia as possibilidades de compreensão para além da significação literal, da significação corrente.

Este artigo, entretanto, não é sobre as aspas e sua função de modalização autonímica no plano verbal. Fruto de uma pesquisa de doutorado (VIANNA, 2016), o que se quer apresentar aqui é a existência de um fenômeno enunciativo-discursivo que, considerando o plano verbo-visual do enunciado, opacifica elementos visuais e verbais que o constituem ao estabelecer desdobramentos metaeunciativos específicos entre estes elementos. A este fenômeno foi dado o nome de “aspas verbo-visuais”.

Tomando o enunciado em sua dimensão verbo-visual, determinadas relações entre elementos verbais e visuais constitutivos dele podem se configurar como desdobramentos metaenunciativos opacificantes, em analogia à dinâmica da modalização autonímica que ocorre no plano verbal, e serem consideradas aspas verbo-visuais.

A opção por nomear de “aspas verbo-visuais” este fenômeno identificado se deve a dois fatores. O primeiro, por ser corrente a compreensão do sentido da expressão “estar entre aspas”, mesmo entre aqueles que não são estudiosos das Ciências da Linguagem: sabe-se que as aspas são um chamado a uma ampliação de sentido do que está aspeado. O segundo, pela apropriação feita nesta pesquisa das formulações sobre modalização autonímica realizadas por Authier-Revuz (1995, 2012). A noção de desdobramento metaenunciativo (como um retorno do enunciado sobre ele mesmo em forma de comentário) e as não-coincidências do dizer têm um papel central na proposta aqui apresentada. Para Authier-Revuz, as aspas são uma “arquiforma” da modalização autonímica (2012, p.140).

Na construção do conceito de aspas verbo-visuais, três questões de pesquisa se impuseram e foram respondidas: 1) como compreender o processo de metaenunciação, constitutiva da modalização autonímica, no plano verbo-visual?; 2) O que seriam e como se constroem os desdobramentos metaenunciativos opacificantes (modalização autonímica) entre elementos verbais e visuais a partir da dimensão verbo-visual dos enunciados?; e 3) Quais as similaridades existentes entre as ocorrências das aspas verbo-visuais que possibilitam agrupá-las em determinadas classificações de análise?

1 O plano verbo-visual do enunciado e a metaenunciação

O fenômeno das aspas verbo-visuais só pode ser observado dentro de uma abordagem teórico-metodológica que considere o enunciado em sua dimensão verbo-visual, por suposto.

Para Brait (2010), pesquisadora que desenvolve pesquisas sobre a verbo-visualidade do enunciado há mais de duas décadas, a dimensão verbo-visual da linguagem participa ativamente da vida em sociedade e, consequentemente, da constituição de sujeitos e identidades. Em determinados textos ou conjunto de textos, artísticos ou não, “a articulação entre elementos verbais e visuais formam um todo indissolúvel, cuja unidade exige do leitor, e notadamente do analista, a percepção e o reconhecimento dessa particularidade” (BRAIT, 2010, p.194). A pesquisadora informa ainda que a linguagem verbo-visual pode ser considerada “uma enunciação, um enunciado concreto2 articulado por um projeto discursivo do qual participam, com a mesma força e importância, a linguagem verbal e a linguagem visual” (BRAIT, 2010, p.194).

Atentando-se à dimensão verbo-visual da linguagem, e às postulações teórico-metodológicas provenientes de Bakhtin e o Círculo sobre enunciado concreto (VOLÓCHINOV, 2017 [1929]; BAKHTIN, 2016 [1978]), a orientação para delimitar um enunciado concreto - e suas consequentes dimensões verbais e visuais - deve: 1) respeitar a perspectiva de conclusibilidade; um acabamento mínimo que permite identificar o posicionamento enunciativo3 daquele que enuncia; 2) instaurar, assim, uma postura responsiva por parte do leitor/interlocutor/enunciatário; 3) identificar e considerar a dimensão verbo-visual constitutiva do enunciado, seus elementos verbais e visuais, na apreensão dos efeitos de sentido produzidos; e 4) identificar o gênero discursivo no qual o enunciado concreto está inserido, tanto suas prescrições quanto a sua esfera de produção, circulação e recepção.

Sob estas orientações gerais, as delimitações do enunciado concreto podem sofrer variações conforme forem as abordagens do objeto investigado pelo analista. Se, por um lado, um dos limites do enunciado concreto é certa conclusibilidade que lhe permite ser objeto de uma postura dialógica de outrem, por outro, a postura do analista ao construir seu objeto de pesquisa também é um recorte metodológico por meio do qual um limite ao enunciado se estabelece. Em outras palavras, a postura dialógica assumida pelo pesquisador, compreendendo a natureza do enunciado da forma como exposta, também lhe confere a capacidade de delimitar aquilo a que ele quer responder4.

A partir destas formulações sobre enunciado e verbo-visualidade, construiu-se uma abordagem teórico-metodológica pertinente e necessária para debruçar-se sobre o fenômeno aqui estudado, que pode ser assim resumida: 1) se um enunciado só se constitui concretamente dentro do seu relativo acabamento e conclusibilidade semântico-formal e 2) os elementos verbais e visuais devem obrigatoriamente ser compreendidos como elementos constitutivos deste acabamento e conclusibilidade, num todo indissolúvel; 3) logo, as relações e efeitos de sentido produzidos nesta relação entre elementos verbais e visuais são de natureza metaenunciativa, já que se estabelecem entre elementos constitutivos de um mesmo e único enunciado.

A caracterização da metaenunciação no plano verbo-visual é necessária porque a metaenunciação é basilar nas formulações de Authier-Revuz sobre modalização autonímica, com as quais se construíram analogias para a formulação do conceito de aspas verbo-visuais aqui apresentado. Na sequência será demonstrado esse processo.

2 O conceito de modalização autonímica e sua apropriação para o plano verbo-visual

A modalização autonímica, sendo uma configuração enunciativa pertencente ao campo da reflexividade linguageira, apresenta-se como um modo complexo de dizer, desdobrado por uma autorrepresentação opacificante, isto é, “fazendo intervir nessa ´imagem do dizer´, por meio da autonímia, a materialidade dos signos concernentes, significado e significante” (AUTHIER-REVUZ, 1999, p.7).

Para Authier-Revuz, o retorno metaenunciativo é aquele pelo qual o dizer se dobra sobre si mesmo, ou seja, quando a enunciação se desdobra em um comentário sobre si mesma. Havendo a modalização autonímica, há no enunciado um retorno metaenunciativo que, no fio do seu dizer, ou no em se dizendo, recai sobre este mesmo dizer, opacificando-o.

Sobre a opacificação, base das formulações de Authier-Revuz sobre as não-coincidências, a autora utiliza-se das reflexões de Récanati (1979), para quem os signos possuem um duplo destino: a transparência e a opacificidade.

O signo é como um vidro transparente que permite ver outra coisa além dele próprio e essa transparência vem do fato de representar a coisa significada sem ele mesmo se refletir nessa representação. No entanto, o signo pode também não remeter a outra coisa a não ser ele mesmo, perdendo a transparência que permitia ver a coisa através dele, sendo aí que se torna opaco. Em outras palavras, quando o locutor se serve do signo, fazendo uso dele, é transparente, pois, nesse caso, o que o signo é ele próprio como signo não aparece: o que aparece é a coisa significada. Inversamente, pode-se tratar o signo como coisa, mencioná-lo, colocá-lo entre aspas, opacificando-o. A partir da reflexão trazida por Récanati e das indicações presentes em Rey-Debove, Authier-Revuz diz que o signo comum é transparente porque, ao mesmo tempo em que se apaga diante da coisa nomeada, tolera a substituição sinonímica de um termo pelo outro. Já o signo autonímico é opaco, opacidade que resulta de uma interposição, no “trajeto” que leva à coisa designada, de uma consideração sobre o próprio signo. A autora restringe o uso do termo opacificação a esse fenômeno de interposição, que suspende a sinonímia, como na menção - emprego dito “opaco” do signo - mas não suspende a designação do objeto por intermédio do signo (FLORES e TEIXEIRA, 2008, p.81-82).

Um signo transparente é aquele que coincide com ele mesmo, desaparecendo em sua transparência. Já um signo opaco é aquele que não coincide plenamente com ele mesmo, marcando-se pela sua opacificidade, tornando-se presente:

O signo, em lugar de neles preencher, transparente, no apagamento de si, sua função mediadora, interpõe-se como real, presença, corpo - objeto encontrado no trajeto do dizer e se impondo a ele como objeto deste -; a enunciação desse signo, ao invés de “simplesmente” se cumprir, no esquecimento que acompanha as evidências inquestionadas, se duplica com um comentário sobre si mesma (AUTHIER-REVUZ, 1999, p.9).

Na perspectiva da modalização autonímica, o que torna o signo opaco são as não-coincidências do dizer, pela nomenclatura de Authier-Revuz (1995, 2012). A autora classifica como sendo quatro os campos das não-coincidências do dizer, que seriam comentários metaenunciativos não mais no plano da sintaxe, “mas no do que eles dizem ao sujeito do dizer” (1998, p.20; grifos no original). Seriam eles: o campo da não-coincidência interlocutiva entre os dois coenunciadores, o campo da não-coincidência do discurso consigo mesmo (afetado pela presença de si de outros discursos), o campo da não-coincidência entre as palavras e as coisas e o campo da não coincidência das palavras consigo mesmas, afetadas por outros sentidos, por outras palavras, pelo jogo de polissemia, da homonímia etc.

Como já anunciado, o conceito de aspas verbo-visuais aqui apresentado articula as formulações sobre a modalização autonímica, e as não-coincidências do dizer, com a dimensão verbo-visual do enunciado. Antes de ser uma transposição mecânica do que foi formulado a partir da análise da dimensão exclusivamente verbal da linguagem, o que seria pouco rigoroso e metodologicamente equivocado, buscou-se estabelecer analogias que permitiram construir uma abordagem teórico-metodológica pertinente ao fenômeno aqui examinado.

As aspas verbo-visuais são, portanto, a opacificação de signos (verbais ou visuais) oriunda de tipos de relações metaenunciativas estabelecidas entre estes elementos constitutivos de um mesmo enunciado concreto, instaurando uma não-coincidência e externando uma espécie de comentário entre eles, sinalizando a possibilidade e pertinência da interpretação do sentido destes elementos para além do habitual, para além da sua transparência referencial.

As aspas, no plano verbal, são um sinal tipográfico inequívoco: sua presença é mercada no enunciado, cabendo compreendê-las na sua função autonímica ou na sua função de modalização autonímica5. As aspas verbo-visuais, entretanto, não gozam desta mesma característica. Elas não são representadas por nenhum sinal inequívoco nem no plano verbal tampouco no plano visual. Elas são flagradas em uma relação especial entre elementos verbais e visuais constitutivos de um mesmo enunciado.

A partir das análises desses tipos de relações especiais características das aspas verbo-visuais identificou-se recorrências que permitiram a construção de três classificações do fenômeno, e que serão expostas na sequência.

3 As classificações de aspas verbo-visuais

Das análises realizadas do corpus constitutivo da pesquisa da qual resulta este artigo síntese (VIANNA, 2016), composto especificamente por enunciados pertencentes à esfera jornalística impressa, identificaram-se determinadas recorrências que possibilitaram construir três classificações de aspas verbo-visuais, a saber: a relação direta entre elementos verbais e visuais, a opacificação de elementos verbais no plano visual e a alegoria verbo-visual opacificante. Importante frisar que os exemplos apresentados em cada classificação buscam somente flagrar a presença das aspas verbo-visuais e como elas se estabelecem, e não os efeitos de sentido mais amplos derivados de análises enunciativo-discursivas que poderiam ser realizadas conforme enfoques e objetivos específicos. O objetivo aqui é o de apresentar a manifestação do fenômeno, suas classificações, e não de utilizá-lo como instrumental de análise.

3.1 A relação direta entre elementos verbais e visuais

A primeira classificação de aspas verbo-visuais apresentada é aquela que é denominada de relação direta entre elementos verbais e visuais. Autoexplicativa, esta classificação tem por marca de sua presença o estabelecimento da relação direita, imediata, entre um mesmo elemento presente no plano verbal, enquanto signo linguístico, e a sua aparição no plano visual, enquanto signo imagético, estabelecendo um desdobramento metaenunciativo opacificante dada esta “copresença”.

Esta “copresença” de um mesmo elemento no plano verbal e no plano visual (a palavra “boca” e a imagem de uma “boca”, por exemplo) é o marcador da presença da relação especial entre estes elementos que a caracterizam como uma relação metaenunciativa opacificante, o marcador da presença das aspas verbo-visuais.

De forma esquemática, o funcionamento desta primeira classificação de aspas verbo-visuais pode ser assim representado:

Aspas verbo-visuais de tipo relação direta entre elementos verbais e visuais
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
X(verbal) X(visual)
PLANO VERBO-VISUAL
X(visual), mas no sentido de X(verbal)
ou
X(verbal), mas no sentido de X(visual)

Utilizando-se das formulações de Authier-Revuz sobre modalização autonímica, para quem a estrutura enunciativa (X, mas no sentido de P) é um exemplo canônico do conceito, o que se apresenta aqui é a substituição dos elementos estritamente verbais (tanto X quanto P são signos verbais nos estudos da autora francesa) para a representação de um mesmo elemento (X) nos diferentes planos semióticos (Xverbal/Xvisual). Por ser um mesmo elemento (X) é que se faz possível estabelecer a relação entre eles e, mais, uma relação direta: Xverbal → Xvisual (ou vice e versa, já que não há uma hierarquia dos diferentes planos semióticos), o que representa a marca da presença das aspas verbo-visuais.

Se a autora francesa estabelece como um dos quatro campos das não-coincidências o da não coincidência das palavras consigo mesmas, nesta classificação de aspas verbo-visuais ocorre o que se denomina aqui de uma não coincidência do elemento visual consigo mesmo, estabelecendo-se uma analogia com as formulações sobre a modalização autonímica.

Na sequência, descrevo um exemplo de sua manifestação. O enunciado analisado foi publicado na primeira página do jornal O Estado de S.Paulo no dia 28 de setembro de 20126. É composto por três fotografias dos então candidatos à prefeitura de São Paulo, em sequência vertical, com uma legenda comum às três imagens. A primeira fotografia retrata o candidato José Serra (PSDB) e foi tirada por Paulo Liebert, da Agência Estado. A segunda fotografia, abaixo da primeira, é de autoria de Epitácio Pessoa, também da Agência Estado e flagra o candidato Fernando Haddad (PT) cumprimentando uma eleitora. Já a terceira foto, de Carlos Pessuto, da Futura Press, traz o candidato do PMDB Gabriel Chalita recebendo um beijo na bochecha. O texto da legenda é: “De cima para baixo, os candidatos à Prefeitura de São Paulo José Serra (PSDB), Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB) ganham beijos de eleitores. Celso Russomano (PRB) visitou uma cooperativa de transporte público. NACIONAL / PÁG. A8”

As três fotografias flagram os candidatos dando e recebendo beijos durante suas respectivas campanhas à prefeitura de São Paulo, com destaque à boca de cada um deles. Como texto introdutório do texto-legenda que acompanha a sequência, há a expressão “boca de urna”. Em sua acepção original, o termo “boca de urna” refere-se à campanha eleitoral realizada no dia da eleição, próxima aos locais de votação, o que é proibido por lei e configura crime eleitoral. Já o termo “pesquisa boca de urna” refere-se à pesquisa de intenção de votos realizada no dia mesmo da eleição. Assim, o sentido de “boca” é o de “proximidade”, seja temporal ou mesmo física.

Com o desdobramento metaenunciativo estabelecido pela relação direta entre os elementos “boca”, presentes no plano verbal e no plano visual, ocorre a opacificação desses elementos quando analisado o enunciado em sua dimensão verbo-visual. Eles estão verbo-visualmente aspeados.

Nessa concomitante opacificação, as “bocas” como parte do corpo, retratadas no plano visual, opacificam-se, ganhando o sentido de campanha eleitoral, de busca de votos, como sendo “bocas de urnas”, ou seja, “bocas coletoras de votos”. A opacificação ocorre também com a palavra “boca” no plano verbal, compondo a expressão “boca de urna”, pois deixa de significar somente proximidade temporal ou física, como na expressão original, e passa a significar também “boca” enquanto a parte do corpo humano.

Com o esse desdobramento metaenunciativo, tem-se o esquema:

Aspas verbo-visuais de tipo relação direta entre elementos verbais e visuais
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
boca de urna boca do candidato
PLANO VERBO-VISUAL
boca do candidato, mas no sentido de boca de urna
ou
boca de urna, mas no sentido de boca do candidato

A opacificação ocorre tanto nos elementos verbais quanto nos visuais devido à relação direta estabelecida entre eles no plano verbo-visual. O fenômeno das aspas verbo-visuais não estaria presente se as fotografias fossem analisadas isoladamente, tomadas como um enunciado, sem nenhuma sequência verbal. O mesmo ocorreria com a expressão verbal “boca de urna”, se o texto fosse tomado isoladamente como um enunciado, sem imagens.

3.2 A opacificação de elementos verbais no plano visual

Nesta segunda classificação, o que é característico é a opacificação de elementos verbais presentes no plano visual (como placas de avisos, letreiros, anúncios etc.), tendo a ampliação de sentido proporcionada pelo comentário metaenunciativo opacificante estabelecido com o contexto oferecido pelo plano verbal do mesmo enunciado.

Diferentemente da primeira classificação, não existe uma relação direta entre o elemento que está presente no plano verbal e também no visual que permita inferir as aspas verbo-visuais. O que deve ser considerado como marca de possibilidade da presença do fenômeno, nesta classificação, é a existência de um elemento verbal no plano visual.

No enquadramento constitutivo do plano visual, a presença de uma placa, letreiro, anúncio etc. - que poder ser excluída por um recorte ou pela escolha de outro plano para o registro da imagem - sinaliza que os dizeres neles contidos (elementos verbais) podem se abrir à interpretação de sentido para além daquele original deste elemento. O elemento verbal presente no plano visual, desta forma, perde sua função original (sinalizar, informar, nomear etc.) e abre-se à inferência de outros sentidos dentro da relação estabelecida com o plano verbal do enunciado do qual faz parte, opacificando-se. Esta classificação de aspas verbo-visuais pode ser assim esquematizada:

Aspas verbo-visuais de tipo opacificação de elementos verbais no plano visual
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
X(verbal) Y(verbal)
PLANO VERBO-VISUAL
Y(verbal), mas no sentido de X(verbal)

Nesta categoria, há uma não coincidência das palavras consigo mesmas. As palavras que não coincidem, entretanto, são aquelas presentes no plano visual do enunciado que, não coincidindo com a função original que possuem, passam a ser passíveis de outras interpretações quando estabelecida a relação com o plano verbal do enunciado. Estas palavras, por meio desta relação metaenunciativa entre os planos verbal e visual, opacificam-se.

Na sequência, descrevo um exemplo da sua manifestação. O enunciado apresentado foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo no dia 28 de setembro de 20127. Refere-se à denúncia de envolvimento de membros do grupo Rio 2016, vinculado ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), no roubo de documentos sigilosos do Comitê Olímpico de Londres (Locog). O conjunto noticioso8 informa ainda que o então presidente do Rio 2016 e também do COB, Carlos Arthur Nuzman, demitiu nove funcionários que estrariam envolvidos no caso relatado, afirmando que eles teriam agido por conta própria, apesar das suspeitas da participação de outros funcionários - incluindo integrantes da cúpula do grupo Rio 2016.

Este enunciado traz a manchete “Nuzman exime cúpula do Rio 2016”. Acima dela, encontra-se no canto esquerdo e escrito em vermelho a rubrica (ou chapéu, no jargão jornalístico) “Escândalo em Londres”. Abaixo, ocupando quase que completamente quatro colunas verticais do enunciado há uma grande fotografia, de autoria de Wilton Junior, da Agência Estado. Na legenda, lê-se: “Desculpa. Nuzman garante que os ingleses apenas pediram que os arquivos furtados fossem devolvidos ou apenas destruídos”. Ao lado esquerdo da fotografia, a linha fina informa que “Presidente do COB diz que funcionários envolvidos no furto de dados se reportavam diretamente ao comitê londrino” e, logo abaixo, o nome dos dois jornalistas: Sílvio Barsetti e Tiago Rogero, seguindo de “Rio”, que indica a localidade geográfica, a cidade do Rio de Janeiro.

A respeito da foto que compõe o enunciado, o enquadramento permite praticamente dividi-la pela metade: à esquerda, encontra-se Carlos Arthur Nuzman em pé, segurando alguns papéis e com um ligeiro sorriso, porém cabisbaixo, parecendo que está em movimento, andando. Na metade à direita, é possível identificar a parte de cima de uma porta levemente entreaberta, e sobre ela um grande e chamativo letreiro no qual se lê “SAÍDA DE EMERGÊNCIA”, sinalizando a função daquela porta.

O desdobramento metaenunciativo aqui analisado é o de opacificação de elementos verbais no plano visual. Assim, ele recairá sobre o elemento verbal presente no plano visual que, neste enunciado específico, é a placa sinalizando a saída de emergência. Qual comentário metaenunciativo sobre ele fará ter seu sentido opacificado?

No primeiro parágrafo do texto principal do enunciado, lê-se:

pressionado por suposições, e algumas declarações, de que a cúpula do Rio 2016 estaria envolvida diretamente no escândalo dos arquivos copiados do comitê londrino, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, finalmente veio a público para tentar explicar o incidente que ganhou destaque na imprensa europeia e afetou a organização dos próximos Jogos.

A placa, cuja finalidade é a de sinalizar a porta de saída de emergência da sala na qual a coletiva de imprensa foi realizada, tem seus dizeres - seus elementos verbais - opacificados por estarem verbo-visualmente aspeados. A “saída de emergência” para a qual Nuzman se dirige é a de isentar a cúpula do grupo Rio 2016 de responsabilidade, afirmando que o ato dos funcionários demitidos foi de exclusividade deles próprios e que eles se reportavam diretamente ao Comitê Londrino, e não ao grupo Rio 2016 ou ao COB.

De forma esquemática, este desdobramento metaenciativo opacificante pode ser assim representado:

Aspas verbo-visuais de tipoopacificação de elementos verbais no plano visual
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
Nuzman exime cúpula do Rio 2016 de participação no escândalo Placa: SAÍDA DE EMERGÊNCIA
PLANO VERBO-VISUAL
SAÍDA DE EMERGÊNCIA, mas no sentido de Nuzman eximir a cúpula do Rio 2016 de participação no escândalo

No plano verbo-visual, estabelecido o desdobramento metaenunciativo, os dizeres da placa (elementos verbais) presentes na fotografia são comentados, tendo seu sentido opacificado: não se trata mais da sinalização da saída de emergência daquela sala, mas sim da estratégia encontrada pelo presidente do COB para tentar encerrar o escândalo envolvendo o roubo de documentos confidenciais. Os elementos verbais da placa de sinalização não coincidem com eles mesmos, há uma não coincidência das palavras consigo mesmas.

Novamente, como em todas as classificações de aspas verbo-visuais, o fenômeno não estaria presente se esta fotografia fosse analisada isoladamente, como um único enunciado: nessa situação, os elementos verbais da placa de sinalização não estariam verbo-visualmente aspeados.

3. 2 A alegoria verbo-visual opacificante

A terceira e última classificação das aspas verbo-visuais é denominada de alegoria verbo-visual opacificante. A alegoria, como informa Hansen (1986), deriva do grego allós (outro) e agourein (falar) e, dentro da retórica clássica, pode ser entendida como dizer b para significar a. Ou ainda, como define Lausberg (2004), a alegoria “é a metáfora, que é continuada como tropo de pensamento, e consiste na substituição do pensamento em causa, por outro pensamento, que está ligado, numa relação de semelhança, a esse mesmo pensamento em causa” (LAUSBERG, 2004, p.249).

A alegoria, seja como figura retórica no plano verbal, seja como recurso amplamente utilizado nas artes plásticas, se constitui como uma possibilidade de formar uma “virtualidade significante” (HANSEN, 1986, p.10), ou seja, é uma construção pela qual há a potencialidade de outros sentidos emergirem.

O termo foi escolhido para nomear esta terceira classificação de aspas verbo-visuais porque não há uma relação direta entre elementos verbais e visuais (como na primeira classificação), tampouco a opacificação de elementos verbais no plano visual (como na segunda). O que essa particular forma de relação entre elementos verbais e visuais possibilita é a opacificação do conjunto visual como um todo, opacificando-o de forma que ele se abra à inferência de um sentido outro e passe a representar, via discurso visual, o discurso presente no plano verbal.

Na alegoria verbo-visual opacificante, a relação não é uma relação direta, mas sim mediada. E o que aqui se chama de relação mediada é aquela que, para ser compreendida, necessita da mobilização de informações e saberes outros para além do que está presente estritamente no enunciado analisado. Ou seja, há a necessidade de uma mediação.

Neste tipo de classificação, o que ocorre é uma não coincidência do discurso visual consigo mesmo. Estabelecida a opacificação por meio da relação entre o plano verbal e o visual, o plano visual abre-se à inferência de outro sentido no momento que passa a ser comentado pelo desdobramento metaenunciativo. É nesse sentido que o plano visual se torna uma alegoria do que está presente no plano verbal.

De forma esquemática, este terceiro tipo de aspas verbo-visual pode ser assim apresentado:

Aspas verbo-visuais de tipo alegoria verbo-visual opacificante
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
Discurso X(verbal) Discurso Y(visual)
PLANO VERBO-VISUAL
Discurso Y(visual), mas no sentido de Discurso X(verbal)

Na sequência, um exemplo dessa classificação de aspas verbo-visuais. O enunciado aqui descrito e analisado foi publicado na revista Veja do dia 17 de outubro de 20129. Intitulado de “O dilema do vencedor”, trata do crescimento do Partido Socialista Brasileiro (PSB) nas eleições municipais realizadas no final de 2012. É mostrado o crescimento de 40% do número de prefeituras comandadas pelo referido partido em relação às eleições anteriores. Entretanto, o foco da notícia é o crescimento da influência política do então presidente nacional do PSB e também governador do estado de Pernambuco à época, Eduardo Campos, assim como o seu posicionamento futuro quando das próximas eleições presidenciais. Eduardo Campos faleceu em um acidente aéreo durante a sua campanha presidencial em 2014.

O conjunto noticioso mostra que Eduardo Campos está sofrendo assédio dos dois principais possíveis candidatos presidenciais em 2014: o da presidenta Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores - PT), que buscava a reeleição; e de Aécio Neves (Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB).

O conjunto ocupa duas páginas da revista (as páginas 74 e 75) e nele podemos identificar três grandes elementos visuais: na página da esquerda, há uma grande foto do político Eduardo Campos ocupando duas das três colunas verticais e dois terços do espaço horizontal da página. A foto é de João Carlos Mazelli, da Fotoarena. Em seu canto inferior esquerdo há a legenda “Aliado ou rival? Eduardo Campos terá de dizer a Dilma se será ou não candidato em 2014”. Abaixo desta fotografia, há um quadro onde é apresentado o crescimento dos partidos políticos após as eleições municipais de 2012.

Na página da direita, encontra-se outra fotografia, porém menor, ao topo da página e quase que centralizada (está ligeiramente deslocada para a direita) na qual se vê Aécio Neves, então senador pelo PSDB e candidato do partido para as eleições presidenciais de 2014. A foto é de André Fossati, da Folhapress e, ao seu lado, encontra-se a legenda “Sonho tucano. Aécio Neves, candidato do PSDB, quer Eduardo como vice ou a seu lado no segundo turno”.

A grande manchete do conjunto noticioso é “O dilema do vencedor”, tendo por linha fina “O PSB de Eduardo Campos venceu o primeiro turno. Agora ele precisa decidir se continua com Dilma ou disputa a Presidência”.

A alegoria verbo-visual opacificante manifesta-se na fotografia maior do enunciado, na qual Eduardo Campos é retratado e tem seu rosto dominando o quadrante superior da imagem, tendo suas mãos dominando o quadrante inferior. Atrás da cabeça do então governador, em segundo plano e ligeiramente desfocado, vê-se o brasão do estado de Pernambuco, conforme se pode cotejar com sua representação a seguir:

Pela descrição presente na página oficial do Governo de Pernambuco, o ramo à esquerda do escudo é de cana-de-açúcar e aquele à direita é de algodão, que representam as riquezas econômicas do estado, ao menos à época da oficialização do símbolo como brasão, em 1895.

Retomando a fotografia, percebe-se que o enquadramento fez com que esses dois ramos (o de cana-de-açúcar e o de algodão) ladeassem a cabeça de Eduardo Campos pela sobreposição desta em relação ao brasão presente na parede, ao fundo.

Se a sobreposição presente na fotografia, derivada não da manipulação posterior mas do enquadramento realizado no ato de fotografar, já permite visualizar a cabeça de Eduardo Campos ladeada pelos ramos de cana-de-açúcar e algodão, o desdobramento metaenunciativo entre os elementos verbais e visuais opacifica o significado destes ramos: o que é cana-de-açúcar e algodão no brasão passa a significar ramos de louro, e Eduardo Campo, vencedor, ostenta o símbolo da vitória em sua cabeça.

A “coroa de louros” tem origem na Roma Antiga, quando era ofertada aos generais vitoriosos de batalhas, e transformou-se em símbolo de vitória, gerando expressões como “colher os louros da vitória”, “dar os louros ao vencedor” etc.

Se a fotografia, tomada como um enunciado isolado, já possibilitava a inferência de significado pela sobreposição da cabeça do governador com o brasão do estado de Pernambuco, o conjunto noticioso em seu todo, e o respectivo desdobramento metaenunciativo opacificante entre os elementos verbais e visuais, só a fortalece. Se havia alguma dúvida da possibilidade de inferência de tomar os ramos de cana-de-açúcar e algodão como uma coroa de louros pousada sobre a cabeça de Eduardo Campos, o conjunto verbal do título da matéria a reduz substancialmente: “O dilema do vencedor”. Assim, o que eram ramos de cana-de-açúcar e de algodão opacificam-se, abrindo-se à interpretação de serem tomados por ramos de louro, numa coroa símbolo da vitória. O desdobramento metaenunciativo estabelece um comentário sobre estes elementos visuais: os ramos de algodão e de cana-de-açúcar estariam, portanto, verbo-visualmente aspeados, uma vez que significam ramos de louro. Tem-se o esquema:

Aspas verbo-visuais de tipo alegoria verbo-visual opacificante
PLANO VERBAL PLANO VISUAL
Eduardo Campos tido como o vencedor do pleito eleitoral de 2012 sobreposição da cabeça de Eduardo Campos e ramos de açúcar e algodão do brasão de Pernambuco.
PLANO VERBO-VISUAL
Sobreposição da cabeça de Eduardo Campos e ramos de açúcar e algodão, mas no sentido de coroa de louros do vencedor do pleito eleitoral de 2012 e seu dilema

O que ocorre nesta classificação de aspas verbo-visuais é a opacificação do conjunto da fotografia, numa inter-relação discursiva entre os elementos verbais e visuais que constituem o enunciado. É esta inter-relação discursiva a relação especial entre elementos que marcam a presença das aspas verbo-visuais. A fotografia, portanto, torna-se a alegoria do “dilema do vencedor”, há uma não coincidência do discurso visual consigo mesmo: não é mais a fotografia de Eduardo Campos com o brasão do estado de Pernambuco ao fundo, mas sim a imagem (discurso visual) do vencedor Eduardo Campos, sua coroa de louros e seu dilema. Há, assim, a ressonância de outros discursos que opacificam o sentido da fotografia, da imagem como um todo.

Considerações finais

Como informado na introdução deste artigo, as aspas verbo-visuais não são um sinal tipográfico inequívoco, mas sim um tipo específico de relação entre os elementos verbais e visuais que constroem um mesmo enunciado. Demandam, portanto, três esforços interpretativos: o primeiro, o de flagrar a relação específica entre estes elementos verbais e visuais que podem se configurar como um desdobramento metaenunciativo opacificante; o segundo, o de buscar classificar o tipo de aspas verbo-visuais por meio das características desta relação específica encontrada; e, o terceiro, o de buscar compreender qual o sentido enunciativo-discursivo produzido por esta relação.

Neste artigo, o objetivo foi o de demonstrar a existência do fenômeno das aspas verbo-visuais e suas respectivas classificações, e não o de utilizá-las como instrumento de análise mais aprofundada de um determinado enunciado. Buscou-se aqui apresentar o que é, como pode ser identificado e como pode ser classificado este fenômeno, e não os efeitos enunciativo-discursivos específicos derivados da sua presença em determinado enunciado (marcas de posicionamento ideológicos, estabelecimento de relações dialógicas com outros enunciados, efeitos retóricos etc.).

O corpus original da pesquisa da qual resulta este artigo foi composto por enunciados da esfera jornalística impressa. Nada obriga, entretanto, a circunscrever o fenômeno das aspas verbo-visuais a enunciados pertencentes unicamente a essa esfera. Respeitados os procedimentos teórico-metodológicos aqui apresentados, principalmente o de compreender o enunciado em sua dimensão verbo-visual constitutiva, as aspas verbo-visuais podem estar presentes em qualquer enunciado no qual há a presença de elementos verbais e visuais tomados em seu conjunto indissolúvel. É possível desde já, à guisa de exemplo, considerar a pertinência do conceito das aspas verbo-visuais para análises que tenham por foco o estudo da produção discursiva dos chamados corriqueiramente de “memes” (entendidos como enunciados verbo-visuais de ampla circulação na esfera discursiva da internet).

Sobre as classificações de aspas-verbo visuais, a pesquisa realizada possibilitou a construção dos três tipos aqui apresentados, dada a recorrência de determinadas características comuns que possibilitou este agrupamento. Nada impede, por sua vez, a existência de outras classificações10. Se as aspas verbo-visuais se estabelecem na relação entre elementos verbais e visuais de um mesmo enunciado (possibilitando o desdobramento metaenunciativo opacificante), o que permite construir uma nova classificação do fenômeno é a identificação de uma nova e recorrente relação entre estes elementos para além das aqui demonstradas.

São estas as contribuições que se pretendeu oferecer ao campo dos estudos sobre a linguagem apresentando o conceito de aspas verbo-visuais e suas classificações, com o intuito de auxiliar com um novo instrumental teórico-metodológico as pesquisas que se debruçam sobre a dimensão verbo-visual dos enunciados e suas formas características de produção de efeitos de sentido.

1No original: “une sorte de manque, de creux à combler interprétativement, un <<appel de glose>>”.

2A autora refere-se à formulação de “enunciado concreto” dentro da tradição das concepções do denominado Círculo de Bakhtin.

3Não confundir posicionamento enunciativo, pela perspectiva de Bakhtine o Círculo, com a posição enunciativa da tradição da Teoria da Enunciação fundada por Émile Benveniste.

4Para maiores detalhes, ver AMORIM (2004,2007).

5Nos dizeres de Authier-Revuz, como já citado, as aspas são a arquiforma da modalização autonímica. Porém há modalização autonímica sem a presença deste recurso tipográfico.

8O conjunto noticioso nesta pesquisa é tomado como sendo um único enunciado. Para detalhes deste procedimento teórico-metodológico, ver (VIANNA, 2016, p.75-94).

10Na pesquisa de base deste artigo, aventou-se a possibilidade de criação de uma quarta classificação, a das aspas verbo visuais de relação direta entre elemento verbal e forma visual (VIANNA, 2016, p.141-145). Mas como só houve a identificação de um único enunciado pertencente ao corpus que se enquadraria nesta classificação, o que impediu a investigação da existência de características comuns recorrentes para caracterizar uma classificação mais abrangente, optou-se por somente pontuar a possibilidade de sua existência.

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Recebido: 16 de Abril de 2019; Aceito: 15 de Setembro de 2019

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