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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.15 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub Nov 28, 2019

https://doi.org/10.1590/2176-457342629 

ARTIGOS

Entre acidentes e explosões: indeterminação e estesia no devir da história

*Universidade Paulista - UNIP, Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), Campus Indianápolis, São Paulo, São Paulo, Brasil; http://orcid.org/0000-0003-1559-9530; paolodemuru@gmail.com


RESUMO

O artigo propõe uma releitura cruzada dos conceitos de acidente, desenvolvido por Landowski no âmbito de sua teoria sociossemiótica da interação, e explosão, elaborado por Lotman em seus últimos escritos de semiótica da cultura. Longe de ser um fim em si mesmo, este confronto almeja esboçar uma síntese teórico-epistemológica que possa contribuir à análise dos processos comunicacionais-discursivos que regem o devir dos sistemas socioculturais, bem como ao seu enquadramento conceitual. A minha hipótese é que a cifra desta articulação resida no vínculo entre a indeterminação destacada por ambos os autores e a carga estésica, isto é, o núcleo de tensões sensíveis que, conforme vislumbra Landowski, os acontecimentos acidentais/explosivos são capazes de mobilizar. Para procurar demonstrar sua pertinência e relevância, partirei de um caso concreto: as jornadas de junho de 2013 e seu impacto no processo que levou, em 2016, ao impeachment de Dilma Rousseff e, em 2018, à eleição de Jair Bolsonaro.

PALAVRAS-CHAVE: Acidente; Explosão; Landowski; Lotman; Populismo

ABSTRACT

The article proposes a comparison between the concepts of accident, developed by Landowski in his sociosemiotic theory of interaction, and explosion, elaborated by Lotman in his last writings on the semiotics of culture. Far from being an end in itself, this confrontation aims to sketch a theoretical-epistemological synthesis that can contribute to the analysis of the communicational-discursive processes that trigger the historical flow of sociocultural systems, as well as to their conceptual categorisation. My hypothesis is that the basis of this articulation lies in the link between the indeterminacy highlighted by both authors, and the aesthesic value, that is, the core of sensible tensions that, as shown by Landowski, the accidental/explosive events could mobilise. In order to demonstrate its pertinence and relevance, I will focus on a specific case study: the 2013 protests in Brazil and their impact on the process that led to the impeachment of Dilma Rousseff in 2016 and the election of Jair Bolsonaro in 2018.

KEYWORDS: Accident; Explosion; Landowski; Lotman; Populism

Introdução

Como o sentido das coisas muda? Como se passa de uma determinada forma de mundo para outra? Como arranjos aparentemente consolidados de valores e crenças culturais, sociais, políticas implodem, decompõem-se, desfazem-se, abrindo espaço para novas conjunturas e configurações? Quais são os ritmos dessas mudanças? Que contornos assume o tempo quando as coisas mudam? Como eventos mais ou menos pontuais e circunscritos podem desencadear e/ou acelerar tais processos? E em que sentido é possível entender essas rupturas como fenômenos semiótico-discursivos?

Pensar em fornecer respostas a perguntas como estas é tarefa, no mínimo, ambiciosa. Há anos, a questão da sintaxe dos processos históricos - sociais, culturais, políticos, comunicacionais, etc. - intriga estudiosos de nacionalidades diversas e de distinta extração disciplinar. Só na segunda metade século XX e nas primeiras duas décadas do século XXI estão, entre os pesquisadores que se dedicaram ao assunto, historiadores do calibre de Braudel (1958), Le Goff (1988), Koselleck (1985; 2000) e Hartog (2003), antropólogos do renome de Sahlins (1976), sociólogo tais quais Elias (1984), filósofos como Virilio (1977), Foucault (1969), Ricouer (1985) e Julien (2009).

No âmbito das ciências da linguagem e do discurso, o elenco é igualmente denso e longo. Mikhail Bakhtin enfrenta o problema da temporalidade histórico-discursiva em suas reflexões sobre o “cronotopo” (BAKHTIN, 1997; 2002) e o “grande tempo” (BAKHTIN, 2003; BUBNOVA, 2015). Em um dos capítulos de Semiótica e Ciências Sociais, Algirdas Julien Greimas (1976) aborda as relações entre história fundamental e história evenemencial. Em Sobre o sentido II, esboça, a partir de um texto de Dumezil, uma análise semiótica dos acidentes nas ciências humanas (GREIMAS, 2014). Anos mais tarde, em Da imperfeição (1987), o semioticista volta sobre o problema das imbricações entre continuidade e descontinuidade, debruçando-se, desta vez, sobre o sentido dos acontecimentos estéticos na vida cotidiana. Sucessivamente, o tema foi desenvolvido por alguns de seus mais notórios discípulos, entre os quais Jaques Fontanille (2004) e Claude Zilberberg (2011), teóricos da assim chamada semiótica tensiva, e Eric Landowski (2004; 2014), criador da sociossemiótica. Não podemos esquecer, por fim, de Jurij M. Lotman, semioticista da cultura que se deteve, em diversos momentos de sua carreira, sobre as questões colocadas na abertura deste texto (LOTMAN, 1985; 1994; 2009; 2014a; 2014b)1.

Longe de mim, portanto, pensar em resolver, nestas poucas páginas, problemas teóricos de tamanho alcance e espessura. Mais humildemente, proponho, aqui, uma releitura cruzada dos conceitos de acidente, desenvolvido por Landowski no âmbito de sua teoria sociossemiótica dos regimes de interação e sentido (LANDOWSKI, 2014), e explosão, elaborado por Lotman em seus últimos escritos de semiótica da cultura (cf. LOTMAN, 1994; 2009; 2014a; 2014b).

Tanto o acidente landowskiano quanto a explosão lotmaniana designam uma quebra na evolução gradual da história de sujeitos individuais e/ou coletivos (comunidades culturais, grupos e organizações sociais, instituições políticas, estados-nações) que abre para uma fase de indeterminação semântica, cuja resolução será, posteriormente, objeto de disputa entre intencionalidades diversas. Há, todavia, entre os dois, nuances que os distinguem um do outro.

Para Landowski a indeterminação é prevalentemente negativa: o acidente é um acontecimento marcado pela insensatez, pelo não sentido (LANDOWSKI, 2014, p.71-80). Ao contrário, para Lotman, a indeterminação é positiva: a explosão gera sempre um superávit semântico, isto é, sentido em excesso (LOTMAN, 1994; 2009). Além disso, enquanto a explosão lotmaniana não contempla o papel da estesia, o acidente landowskiano aponta, nas suas interseções com os outros regimes, notadamente o ajustamento (cf. LANDOWSKI, 2014, p.47-60), para a relevância do sensível na dinâmica das interações sociais.

Bem entendido: tal cotejo não é um fim em si mesmo. Muito além disso, ele visa contribuir à construção de um novo arcabouço teórico-epistemológico para o estudo e o enquadramento conceitual dos processos que regem o devir dos sistemas socioculturais e/ou políticos, os quais, em linha com a perspectiva semiótica aqui adotada, são entendidos como sistemas e processos discursivos.

A este propósito, conforme proporei a partir de análises e estudos de casos anteriormente desenvolvidos (DEMURU, 2019a; 2019b) - a saber: as jornadas de junho de 2013 e seu impacto no processo que levou, em 2016, ao impeachment de Dilma Rousseff e, em 2018, à eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República Brasileira - a comparação entre acidente e explosão abre para uma síntese conceitual que, ao passo que permite resolver algumas aporias ínsitas em cada uma das noções, demonstra-se heuristicamente válida para a análise de certos fenômenos sociais e políticos contemporâneos, como, por exemplo, o surgimento e avanço, no Brasil e no ocidente de modo geral, de líderes e movimentos populistas de direita e de esquerda, entre os quais Matteo Salvini, Donald Trump, Marine Le Pen, André Manuel Lopez Obrador e, como acabo de mencionar, Jair Bolsonaro.

Minha hipótese é que a cifra desta síntese resida na articulação entre a indeterminação semântica que marca tanto o acidente landowskiano, quanto a explosão lotmaniana, e a carga estésica que tais acontecimentos ou fases históricas imprevisíveis se tornam capazes de mobilizar - sendo a carga estésica o núcleo vivo de tensões sensíveis ainda sem nome (cf. LANDOWSKI, 2004) que circula, em busca de sublimação discursiva, em um dado universo social (DEMURU, 2019a).

Como veremos, é a imbricação entre a vagueza e a estesia que define, hoje, as mudanças em ato no tabuleiro político internacional, bem como, é claro, dos discursos nas quais eles se fundam.

O acidente: a partir de Eric Landowski

Desenvolvendo a gramática narrativa de Greimas (cf. GREIMAS; COURTÉS, 2008, p.328), Landowski elabora em As interações sensíveis um modelo que visa dar conta dos regimes de sentido e interação que norteiam, grosso modo, a existência humana (LANDOWSKI, 2014). Quatro são os regimes identificados por Landowski: programação, manipulação, ajustamento e acidente, os quais o autor dispõe ao longo de um quadrado semiótico regido por relações elípticas (Figura 1).

Figura 1 O quadrado dos Regimes de Interação e Sentido de Eric Landowski - Adaptado de Landowski (2014)  

Na programação, os sujeitos seguem com regularidade percursos narrativos regidos por princípios de causalidades físicas e/ou coerções sociais. É o reino da rotina e dos hábitos, no qual, como já havia apontado Greimas em Da imperfeição (1987), tende-se à insignificância e à usura do sentido.

Na manipulação interage-se conforme uma intencionalidade de tipo estratégico: um destinador leva um destinatário a querer ou a dever fazer alguma coisa, ou seja, a engajar-se em um determinado programa narrativo que prevê a aquisição de determinadas competências modais: poder-fazer, saber-fazer, etc.

No ajustamento não existem roteiros pré-programados ou estratégias definidas: os sujeitos constroem, a partir de um sentir comum e com foco em suas competências estésicas, uma relação que pode resultar, diz Landowski (2014, p.54), em algum tipo de realização mútua.

No acidente, interage-se sob a égide do alea. É o regime da insensatez, no qual o acaso irrompe em sua forma mais pura, quebrando o fluxo contínuo da programação e colocando o sujeito diante em um universo semântico marcado pela insignificância e pelo sem sentido (cf. LANDOWSKI, 2014, p.71).

Os exemplos de acidente fornecidos por Landowski remetem, em sua maioria, aos âmbitos das calamidades naturais (tsunami, raios, terremotos) e da existência singular de sujeitos individuais (imprevistos felizes e infelizes, fatos como uma telha que cair em cima da cabeça, surpresas e golpes de sortes inesperados). No entanto, como propus em outras ocasiões (DEMURU, 2019b), parece-me possível translar o conceito para a esfera dos processos macrossociais. De resto, o próprio Landowski (2001) mostra, em seu estudo sobre a morte de Diana, como o acidente sofrido pela Princesa de Gales configura uma ruptura aleatória não apenas da vida de um sujeito ou de uma família particulares, mas do fluxo histórico-político do inteiro Reino Unido, a partir do qual, inesperadamente, a imagem desgastada da Rainha Isabel e dos Windsor ganhou vida nova. Paralelamente, a partir de um olhar retrospectivo, períodos históricos como o Maio de 1968 na França ou, como veremos, as assim chamadas jornadas de junho de 2013 no Brasil, podem ser considerados como acidentes históricos.

É claro: diante de fenômenos de tal ordem, as coisas tornam-se infinitamente mais complexas. O que define um acidente macrossocial? Quais são os seus traços distintivos? Onde começa e onde ele termina? Voltarei mais adiante sobre tais assuntos, cuja abordagem beneficiar-se-á do confronto com Lotman. Adianto apenas que, segundo as indicações de Landowski, pode-se dizer que a identidade de um acidente depende sempre do ponto de vista e do momento a partir do qual é observado. O que é acidente para alguns pode não o ser para outros. Aos olhos do fatalista, a sorte é um acaso “motivado”, assim como, para os estatísticos adeptos das leis dos grandes números, o acaso pode ser “programado” (LANDOWSKI, 2014, p.77). Do mesmo modo, quando se olha, a partir do presente, para os acidentes do passado, sua intepretação pode mudar. Para retomar um exemplo provido pelo próprio Landowski, diante de um resultado eleitoral inesperado e carente de sentido, pode-se extrair, a posteriori, uma significação oculta, que aponta para uma intencionalidade (manipulação) que, supostamente, o teria causado (cf. LANDOWSKI, 2014, p.75).

Dito disso, vejamos, agora, as dimensões sintáticas, semânticas e aspectuais que caracterizam, segundo Landowski, o regime do acidente.

Como mostra a disposição dos regimes no quadrado (Figura 1), programação, acidente, manipulação e ajustamento ocupam, cada um, uma posição ao longo do percurso definido pelo desdobramento lógico-semântico da categoria continuidade-descontinuidade: enquanto a programação é um processo contínuo, o acidente é um processo descontínuo; enquanto a manipulação é uma interação não-descontínua, o ajustamento é uma interação não-contínua.

Parece existir, portanto, uma configuração aspectual própria de cada regime. Ora, em linguística e em semiótica discursiva, o aspecto é o ponto de vista sobre a ação: enquanto o tempo é uma categoria que situa a ação em relação ao momento da enunciação, isto é, ao quando (presente, passado, futuro), o aspecto define o como a ação se dá, o ritmo através da qual ela se desenvolve (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p.39-40). Uma ação pode ser descrita, assim, como acabada (através dos tempos perfectivos) ou inacabada (através dos tempos imperfectivos), sendo possível ressaltar aspectos diferentes de seu processo: a pontualidade, que ressalta a sua unicidade; a duratividade, que evidencia seu estender-se no tempo; a iteratividade, que foca o seu repetir-se constante e regular; a incoatividade, que aponta para a sua dimensão inicial; a terminatividade, que marca seu fim. Resumindo, a aspectualização é uma sobredeterminação da temporalidade, e todo discurso depende - e é fruto - de um procedimento de aspectualização.

Voltando ao modelo de Landowski, pode-se dizer, então, que a programação é marcada por traços de duratividade e iteratividade, enquanto o acidente configura-se como um evento pontual (cf. GREIMAS; COURTÉS, 2008, p.39-40).

No entanto, a questão do arranjo aspectual do acidente é complexa e merece ser abordada com cuidado. A este propósito, três são as linhas de raciocínio que é oportuno desenvolver.

Antes de mais nada, pode-se assumir que o acidente seja um acontecimento pontual ao mesmo tempo terminativo e incoativo. Esta leitura justifica-se por duas razões. Em primeiro lugar, pelo fato de que Landowski, assim como Greimas em Da Imperfeição (1987), define o acidente tanto como a ruptura da ordem, isto é, como algo a ela logicamente consequente, quanto como o ponto de partida (o ponto “I” da Fig. 1) da sintaxe do quadrado dos regimes de sentido e interação, ou seja, do percurso de um sujeito que, encontrando-se em um mundo aleatório e caótico, comece a procurar algum destinador para dar um sentido novo à sua existência: “partamos, portanto, do ponto oposto àquele de Greimas [afirma Landowski invertendo o raciocínio do semioticista lituano]: e se tudo na origem fosse, como nos mitos, acidente, intranquilidade, instabilidade, agitação e fúria, desordem, caos?” (LANDOWSKI, 2014, p.70). Em segundo lugar, pela denominação dos papeis que o semioticista francês atribui ao acidente. Diferentemente da programação, cujo papel é assimilável ao “papel temático” da gramática narrativa de Greimas (cf. GREIMAS; COURTÉS, 2008, p.496), o acidente opera com um verdadeiro “actante joker”, que cumpre, ao menos, três papeis semânticos-discursivos: (i) um “papel crítico”, ou seja, “é ele que decide a orientação e, ainda, frequentemente, o resultado dos processos nos quais intervém” (LANDOWSKI, 2014, p.79); um “papel catastrófico”, isto é, de algo que rompe com as programações, as manipulações e os ajustamentos em curso; e, por fim, um “papel catalítico”, quer dizer, de algo que engendra um novo ciclo de interações, cujas trajetórias são, no momento no qual se manifesta, ainda imprevisíveis (cf. LANDOWSKI, 2014, p.79). Por rigor filológico, é preciso reconhecer que Landowski reserva ao papel catastrófico uma posição privilegiada, enfatizando, assim, o aspecto terminativo do acidente2. No entanto, embora Landowski não a aprofunde, a atuação conjunta de um movimento catastrófico e um movimento catalítico é, a meu ver, um ponto essencial para entendermos a natureza semiótica dos acidentes históricos, políticos e socioculturais, tanto no nível micro quanto no nível macro.

Prosseguindo, parece-me profícuo estabelecer uma correlação entre esta dúplice valorização aspectual do acidente (pontual/terminativa e pontual/incoativa) e a problemática da estesia. É o que havia feito Greimas em Da Imperfeição (1987) ao abordar a problemática do acidente estético na cotidianidade, entendido como uma fratura de matriz eminentemente sensível3. Ora, é verdade que, em As Interações Arriscadas, Landowski, diferentemente de Greimas, trata separadamente o sensível e o aleatório, fazendo do primeiro o princípio regulador do regime do ajustamento e, do segundo, o princípio regulador do regime do acidente (LANDOWSKI, 2014, p.73-79). No entanto, os termos utilizados pelo semioticista para introduzir o acidente - “intranquilidade, instabilidade, agitação e fúria, desordem e caos” (cf. LANDOWSKI, 2014, p.70), “deslumbramento”, “exclamação” (LANDOWSKI, 2014, p.92) - evocam direta e indiretamente o tema do sentir, cujas implicações não podemos desconsiderar4. Além disso, deve-se lembrar que, conforme a sintaxe elíptica e recursiva que rege as relações entre os regimes (cf. LANDOWSKI, 2014, p.85-89), o ajustamento, isto é, a lógica da sensibilidade, tende, ou pode desembocar, no imponderável e no aleatório. Vice-versa, um evento que atinge dimensões inicialmente imprevisíveis, pode dar origem a processos de ajustamento e contágio coletivo suscetíveis, ou não, de retroalimentá-lo. É o que Landowski tem chamado, em textos mais recentes, de “alastramento” (LANDOWSKI, 2018), uma propagação, no tecido social, de sentidos sentidos fundada no contato entre corpos sensíveis, a qual não corresponde “nem a uma empatia de ordem cognitiva, nem a um contágio viral, mas a uma expansão por contiguidade de elementos que se tocam entre si, à maneira de um incêndio em uma floresta” (LANDOWSKI, 2018, p.15; trad. minha)5. O caso da morte de Diana, que deu lugar à explosão, no discurso midiático inglês e internacional, de uma estesia social generalizada e de ajustamentos, tanto entre o povo e o corpo da Princesa, quanto entre este último e a Rainha Elizabeth II, é um exemplo altamente significativa desta dinâmica (LANDOWSKI, 2001).

Por fim, há de se ressaltar a correlação entre acidente e indeterminação semântica, também crucial no conceito lotmaniano de explosão. Vimos antes que Landowski atribui ao acidente um papel catastrófico, que determina um colapso do sistema de crenças e valores sedimentado em um determinado horizonte narrativo. O regime de sentido ao qual dá origem este choque é o “sem sentido”, o “absurdo”, a “insensatez” (LANDOWSKI, 2014, p.71-80). Infere-se, portanto, que o acidente dá lugar a uma indeterminação semântica de caráter negativo.

No entanto, isso vale apenas a partir de um determinado ponto de vista que ressalta o papel catastrófico e aspecto terminativo do acidente, entendendo-o enquanto o fim de um determinado estado de coisas. Invertendo a perspectiva e salientando o papel catalítico, ou seja, o aspecto incoativo do acidente, as coisas tornam-se mais complexas. O que se tem, nesse caso, não é o não sentido, mas o sentido em excesso, um universo plural e altamente indeterminado de significações possíveis. Ou seja, embora Landowski não aprofunde esta diretriz teórica, a cifra semântica do acidente parece não ser (apenas) o nonsense, a insensatez, mas o sentido demais. Um superávit semântico que, conforme sugere o próprio modelo do semioticista francês, desembocará, mais cedo ou mais tarde, em um regime de manipulação, isto é, em uma disputa entre intencionalidades diversas, cada uma das quais procurará imprimir um rumo à indeterminação proporcionada pelo acidente. É esta, como veremos agora, a opção de Lotman.

A explosão: a partir de Jurij Lotman

Em seus últimos escritos, o semioticista Jurij M. Lotman (1994; 2009) reflete sobre as articulações entre processos graduais e processos pontuais no devir das culturas. As culturas, diz Lotman, evolvem segundo dois movimentos complementares: regularmente, passo após passo, e pontualmente, por saltos. O primeiro movimento é marcado pelo desenvolvimento linear da história; o segundo, por transições e acelerações repentinas, as quais o estudioso define como “explosões” (LOTMAN, 1994, 2009).

De difícil demarcação, o conceito de explosão possui, na teoria lotmaniana, ao menos duas possíveis acepções. Por um lado, indica os momentos históricos nos quais alguma coisa “interrompe a cadeia das causas e dos efeitos e projeta, na superfície, um espaço de eventos igualmente prováveis, dos quais é impossível dizer, em princípio, qual se realizará” (LOTMAN, 1994, p.35; trad. minha)6.

Por outro lado, designa um processo de explosão de sentido - de novos significados, metáforas, analogias - que emerge e se configura como o resultado da tradução do que antes se julgava intraduzível. Ou seja, nas palavras do próprio Lotman, a geração de uma série de “combinações semânticas inesperadas, impossíveis ou proibidas em uma fase precedente” (LOTMAN, 1994, p.93; trad. minha)7.

No primeiro caso, lida-se com a imprevisibilidade de ações, fatos ou eventos, lembrando que “a concepção do evento histórico depende do tipo cultura [...] por isso o historiador com um texto na mão é obrigado a distinguir o que, no texto é um evento de seu ponto de vista de historiador e o que era um evento digno de menção do ponto de vista do autor daquele texto e seus contemporâneos” (LOTMAN, 2014a, p.137; trad. minha)8.

No momento em que George d’Anthès aperta o gatilho de sua arma, afirma Lotman em Cercare la strada, não apenas a vida e a morte de Pushkin são igualmente prováveis, como também existe, potencialmente, uma outra história da Rússia (LOTMAN, 1994, p.36; trad. minha). Outros exemplos citados por Lotman são o da Revolução Francesa e o do Tempo das Dificuldades (que designa o período de interregno que se seguiu ao fim da dinastia dos Rurikides, entre 1589 e 1613. Cf. LOTMAN, 1994; 2009; 2014b). Nessa perspectiva, “a explosão de possibilidades diversas insere, no espaço cultural, a casualidade: as possibilidades são todas prováveis” (LOTMAN, 1994, p.37-38; trad. minha)9. Como explica Lotman, é uma casualidade o fato de que Luís XVI, apaixonado por mecânica, tenha contribuído a projetar a máquina que lhe cortaria a cabeça: a guilhotina. Assim como é um caso o fato de que ela tenha se tornado o símbolo da revolução francesa (se se considera, por exemplo, que os detalhes técnicos relativos aos assassinatos dos reis em outras revoluções não foram revestidos de valências simbólicas). Conforme as palavras do autor:

O critério que permite determinar a natureza explosiva de um processo [...] consiste na imprevisibilidade de princípio de um evento. O evento que se realiza e aquele que não se realiza são, no momento da explosão, variantes intercambiáveis (LOTMAN, 1994, p.96; trad. minha)10.

No entanto, isso é verdadeiro apenas quando se observa a explosão do presente para o futuro, isto é, no momento em que ela acontece, no qual todas as estradas podem ainda ser percorridas. Ao contrário, de modo parecido a quanto vislumbra Landowski, quando se observa a cadeia dos eventos em direção inversa, do ponto de vista de um sujeito que olha o passado a partir do futuro, é normal atribuir ao elemento imprevisível uma “motivação adicional retroativa” (LOTMAN, 1994, p.37; trad. minha)11. Como explica Lotman em outro passo fundamental de Cercare la Strada:

A realidade [...] é como a princesa dos contos maravilhosos, cuja mão é cobiçada por diferentes príncipes. Até quando a escolha não é cumprida, todos têm a mesma probabilidade de sucesso e todos podem ostentar o título de “noivo”. Contudo, ao descrevermos esta situação retrospectivamente, a partir do momento no qual a escolha já foi feita, o único coroado de sucesso nos parecerá como o predestinado à vitória (LOTMAN, 1994, p.81; trad. minha)12.

Por isso, aponta Lotman em seu ensaio Vontade de Deus e jogo de azar (as leis da história e os processos graduais), todo evento histórico é o resultado da atualização de uma das alternativas possíveis e “os percursos atualizados serão circundados por grupos de possibilidades não atualizadas” (LOTMAN, 2014a, p.140; trad. minha)13.

No segundo caso, a explosão é considerada como uma explosão de sentido, isto é, como a emergência de uma série de conexões semânticas não previstas entre valores, temas, figuras, signos, símbolos distantes ou até potencialmente contraditórios. Nas palavras do autor, “o estado da explosão é caracterizado por um momento de equalização de todas as oposições. Aquilo que é diferente parece ser o mesmo. Isso possibilita saltos inesperados rumo a estruturas organizacionais completamente diferentes e imprevisíveis” (LOTMAN, 2009, p.158; trad. minha)14. Isso fica bastante claro nos processos explosivos que investem, conclui Lotman (1994, p.38; trad. minha), “épocas inteiras [...] neste caso, entre os efeitos de uma explosão particularmente forte, que transborda de uma esfera para outra, estará o problema da tradução incorreta: sentidos precisos serão substituídos por explosões de metáforas”15.

Infere-se, portanto, que a imprevisibilidade “factual” e a imprevisibilidade “semântica” estão profundamente ligadas. Assim como na sociossemiótica de Landowski, na semiótica da cultura lotmaniana toda realidade é o fruto de uma construção discursiva. Não há, entre mundo e linguagens, entre mundo e discurso, alguma solução de continuidade.

Ora, o que gera tais explosões de sentido é o que ele define como “a tradução do intraduzível” (LOTMAN, 1994, p.46; trad. minha)16, ou seja, o estabelecimento de elos e vínculos entre porções da semiosfera que são, em uma determinada fase histórica e/ou em um determinado contexto sociocultural, consideradas incompatíveis. Como resumiu Gherlone, este ato de ressignificação de sentido dado não configura “o mero vazamento de nova informação, mas a suspensão de todas as coordenadas [...] dentro das quais se forma o sentido e a emersão de algo radicalmente novo, fruto de uma unidade não sintética das assimetrias” (GHERLONE, 2014, p.81; trad. minha)17.

É correto lembrar que, ao postular a explosão de sentido como o efeito da tradução do intraduzível, Lotman (1994; 2009; 2014a; 2014b) inspira-se, prevalentemente, no processo da criação artístico-literária e, em particular, na obra de Pushkin e Blok. No entanto, o que vale para a arte, vale também para o processo histórico-cultural como um todo. Veja-se, a este propósito, como o autor define a indeterminação gerada pela troca entre sistemas culturais diversos (LOTMAN, 1985, p.128; trad. minha):

[...] em um sistema caracterizado por uma grande indeterminação interna, penetra, do exterior, um texto que [...] adquire, ele próprio, indeterminação interna, apresentando-se não como a realização concreta de uma linguagem, mas como uma construção poliglota suscetível de uma série de intepretações [...] capaz de revelar, em um novo contexto, sentidos inteiramente novos. Esta intrusão aumenta notavelmente a indeterminação de todo o sistema, conferindo uma imprevisibilidade a saltos às etapas sucessivas18.

Em suma: tanto na arte quanto nas outras esferas da cultura, a tradução do intraduzível “remove todos os confins e une o que é incompatível” (LOTMAN, 2009, p.22; trad. minha), Nesse sentido, como bem resume Franciscu Sedda, a explosão produz, na semiosfera, um verdadeiro “achatamento, que transforma um espaço hierarquizado e articulado (‘estriado’) em um espaço chato [...] um espaço ‘conexionista’, onde tudo parece poder voltar a entrar em contato com tudo” (SEDDA, 2006, p.44; trad. minha)19.

Assim definido, “o momento da explosão coloca-se na interseção entre passado e futuro, em uma dimensão quase atemporal” (LOTMAN, 1994, p.35; trad. minha)20. Como se fosse vivido “fora do tempo, ainda que, na realidade, possa estender-se ao longo de um amplo espaço temporal” (LOTMAN, 2009, p.158; trad. minha)21. Uma dimensão atemporal que se delineia enquanto tal justamente pelo fato de ser marcada por um elevado grau de indeterminação semântica.

No entanto, antes ou depois, esta indeterminação deverá ser resolvida. Como aponta Lorusso (2010, p.85), é este o verdadeiro turning point da explosão: quando um entre os sentidos possíveis se realiza e a explosão começa, em algum nível, a dissipar a vagueza semântica que a caracteriza, inserindo os eventos em um sistema de regras do qual, conclui Lotman, dificilmente poderá ser resgatado (cf. LOTMAN, 1994, p.37; trad. minha)22.

Analogias e diferenças

À luz do caminho até agora percorrido, percebe-se que há, entre o acidente landowskiano e a explosão lotmaniana, analogias e diferenças.

Antes de mais nada, vale precisar que tanto o acidente quanto a explosão dependem, sempre, do ponto de vista e do momento a partir dos quais são observados. Como vimos, o que é um evento acidental/explosivo para uns pode não o ser para outros. Da mesma maneira, o que é considerado um evento acidental/explosivo em um dado momento pode não o ser mais em outro.

Prosseguindo, como o acidente, a explosão possui uma dúplice caraterística aspectual. Por um lado, ela define um acontecimento terminativo, que decreta a ruptura de um sistema sedimentado de relações; por outro, ela configura-se como um acontecimento incoativo, que abre para novas possíveis reconfigurações. Como observa Sedda, é como se toda explosão implicasse uma implosão que se desenvolve no mesmo horizonte espaço-temporal da primeira, desencadeando, simultaneamente, “o colapso do velho e [a] insurgência do novo” (SEDDA, 2012, p.85; trad. minha)23.

Para ambos os autores, tais rupturas catapultam os sujeitos histórico-sociais - individuais e coletivos - em um universo existencial semanticamente indeterminado. Contudo, enquanto para Landowski a indeterminação é negativa, para Lotman é positiva: o estudioso russo coloca o acento no superávit de sentido engendrado pelo processo explosivo, cujas trajetórias podem se espalhar nos cantos mais recônditos do espaço cultural, convergindo e divergindo de diferentes maneiras (cf. LOTMAN, 2009, p.172). O ponto sobre o qual há uma convergência explícita entre os dois é outro: tanto em Landowski, quanto em Lotman, a indeterminação será, em um dado momento, dissipada. O sentido do acontecimento começa a ser disputado. Uma catástrofe ambiental, um ato terrorista ou uma qualquer situação de caos, sugere Landowski (2014, p.82), serão sempre seguidos por uma contenda entre intencionalidades semióticas distintas. É quando o acidente caminha, conforme a sintaxe elíptica entre os regimes de interação e sentido do modelo landowskiano, rumo à manipulação, na qual um destinador procura levar o sujeito a aderir a seu sistema de valores (cf. LANDOWSKI, 2014, p.82). Do mesmo modo, para Lotman, tão logo a explosão se realiza, o seu sentido torna-se objeto de disputa (LOTMAN, 1994, p.36). Quem conseguirá impor a própria interpretação dos fatos, orientará, assim, os rumos da autoconsciência cultural (cf. LOTMAN, 2014b; LOTMAN, 1994, p.100)24.

Além disso, se Landowski não se exprime explicitamente em relação às possíveis durações do acidente, para Lotman não há coincidência entre os processos graduais e a longa duração, de um lado, e os processos explosivos e a curta duração do outro. Como ele mesmo adverte, “a ideia de atemporalidade não está vinculada à real cronologia do processo, que na realidade pode durar por muito tempo” (LOTMAN, 1994, p.35; trad. minha)25. Por exemplo, a queda do Império Romano e os abalos causados na sociedade russa pela primeira guerra mundial, continua o semioticista, são, apesar de se terem protraído por muitos anos, típicos processos explosivos (cf. LOTMAN, 1994, p.35-38)26.

Por fim, contrariamente a Landowski, que vislumbra sua necessidade, é ausente, em Lotman, a problemática da estesia e dos impactos sensíveis e passionais da explosão, cuja problematização é, a meu ver, imprescindível para entendermos as dimensões temporais dos processos sociopolíticos e midiáticos contemporâneos.

Um esboço de síntese

Como antecipei na Introdução a este artigo, o confronto entre as posições de Lotman e Landowski abre espaço para uma síntese teórico-epistemológica que permite enquadrar os acidentes e as explosões da história a partir de outras bases. Para tanto, partirei de um caso concreto, por mim alhures analisado (DEMURU, 2019a; 2019b): as jornadas de junho de 2013 e seu impacto no processo que levou, em 2016, ao impeachment de Dilma Rousseff e, em 2018, à eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República.

A minha hipótese é essa: junho de 2013 constitui, no quadro da recente história política brasileira, um acontecimento acidental/explosivo de proporções e desdobramentos incialmente incalculáveis. Um acontecimento que faz colapsar o sistema de crenças e valores da “era Lula” (cf. NOBRE, 2013; SCHWARZ, 2013; SINGER, 2018; SOUZA, 2016; BUCCI, 2016), engendrando, ao mesmo tempo, a emergência e o crescimento de uma nebulosa de significados a respeito do futuro do país27. Embora não seja possível retomar o corpus e as consequências da análise em sua totalidade, vale a pena, para os fins do presente artigo, resumir brevemente o percurso e os ecos das jornadas de 2013.

Convocados via Twitter e Facebook nos primeiros dias do mês pelo Movimento Passe Livre (MPL), os protestos possuíam, inicialmente, um objetivo preciso: revogar o aumento da tarifa do transporte público aprovado pelos governos estaduais e municipais em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais. Os primeiros atos realizados na capital paulista (em 3, 6 e 11 de junho de 2013) são protagonizadas, tanto nas ruas quanto nas redes sociais digitais, por palavras de ordem e hashtags claras e focadas: três reais é roubo, por uma vida sem catracas, se a tarifa não baixar a cidade vai parar. No entanto, no dia 13 de junho, após a repressão do quarto grande ato contra a tarifa por parte da polícia militar, o cenário muda: os slogans precisos dos dias anteriores cedem lugar a motes com significados abertos e confusos: não é pelos vintes centavos, vemprarua, o gigante acordou, muda Brasil, mais saúde, mais educação, contra a corrupção, etc. Nas palavras de André Singer, “os protestos adquiriram tal dimensão que parecia estar ocorrendo algo nas entranhas da sociedade, algo que poderia sair do controle. O problema é que não ficou claro que algo era esse” (SINGER, 2018, p.102).

Das ruas e das redes, a vagueza migra para a esfera da mídia tradicional. “Milhares vão às ruas contra tudo”, é o título da capa da Folha de S. Paulo publicada em 18 de junho de 2013, dia seguinte àquele que foi o maior ato das jornadas (cf. DEMURU, 2019a), enquanto o do caderno Cotidiano é, simplesmente, “Contra”. Na mesma linha, na manhã do dia 17, ao vivo na CBN, o comentarista Arnaldo Jabor, que havia inicialmente chamado os manifestantes de “vândalos” e “baderneiros”, admite ter se enganado e muda sua opinião. Os jovens que ocupam as ruas não são mais um “bando de irresponsáveis movidos por um anarquismo inútil [mas] uma formação política original, justamente pelo fato de “não ter um rumo, um objetivo certo a priori” (JABOR, 2013).

A partir da interação entre novas e velhas mídias e ruas, dois discursos começam a se consolidar na opinião pública: o primeiro é o discurso da crise, isto é, a construção temático-figurativa de um país à deriva, onde tudo, por assim dizer, está errado; o segundo é o discurso da unidade nacional. Conforme conta este último, quem manifesta naqueles dias não é apenas uma fatia restrita e minoritária da população (o MPL, os jovens contrários ao aumento da tarifa, etc.), mas a totalidade do povo brasileiro interagindo ao uníssono em um aqui e agora ao mesmo tempo físico e mediático.

A apropriação, por parte das mídias tradicionais hegemônicas, da vagueza surgidas nas redes sociais engendra, portanto, dois movimentos que se entrelaçam reciprocamente entre si em um único continuum espaço-temporal. O primeiro, implosivo, diz respeito ao colapso do velho, isto é, ao fragmentar-se do sistema de valores e crenças do lulismo: a ideia, para retomarmos a citação de Schwarz, de um país emergente e internacionalmente respeitado, de um sistema político e econômico aparentemente estável. O segundo, explosivo, tange à insurgência do novo, cujas formas e cujas trajetórias semânticas permanecem indeterminadas: como na explosão lotmaniana, vivencia-se, em junho de 2013, uma equalização das oposições entre os valores em jogo, um achatamento do espaço semântico da política brasileira e uma verdadeira explosão de metáforas. Tudo entra em interconexão com tudo: o transporte com a saúde, a corrupção com os vinte centavos, e assim por diante, sem que haja, entretanto, um arranjo e um direcionamento específicos.

Há de se ressaltar, ainda, que esta proliferação de sentido se configura como um fenômeno de ordem estésica. Mais do que isso: é o contágio epidérmico entre sujeitos sensíveis que alimenta a indeterminação semântica dos protestos de 2013. Além das próprias manifestações de rua, é emblemático, neste sentido, o caso do hino nacional cantado à capela em Fortaleza no dia 18 de junho, na ocasião da abertura da Copa das Confederações, transmitida ao vivo pela Rede Globo. O que o corpo social experiencia, no aqui e no agora de tais interações, é um verdadeiro corpo a corpo estésico, a experiência da copresença sensível do outro (LANDOWSKI, 2014; FECHINE, 2008).

Isso vale também pelas interações online. Como mostra bem a pesquisa de Fábio Malini (2016), de modo parecido ao que postula Landowski em relação ao alastramento, engendra-se, naqueles dias, nas redes sociais digitais, uma corrente que “eletriza” (Landowski, 2018, p.14-15; trad. minha) a comunidade de usuários. A prova disso é a explosão da hashtag #vemprarua (cf. MALINI, 2016), que se traduz em uma participação numericamente relevante nos protestos de rua de 17 de junho (cf. SINGER, 2018). Ou seja, entre redes e ruas não há solução de continuidade: a carga estésica que percorre tanto a primeira quanto as segundas é a mesma28.

Após o dia 13 de junho de 2013, a então presidente Dilma Rousseff começa a se tornar o alvo da indignação coletiva. É nela que começa a ser canalizada, através de um verdadeiro processo de “manipulação por contágio” (cf. LANDOWSKI, 2008), a vagueza e a estesia surgidas nas redes e nas ruas. Em 15 de junho, em ocasião da abertura da Copa das Confederações, ela é vaiada pelo público do estádio Mané Garrincha, em Brasília (ALENCASTRO, 2013). Entretanto, é após a sua reeleição, em 2014, que Dilma e seu governo são apontados como os principais responsáveis pela suposta crise social e política da nação. Com as manifestações de 2015 convocadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL) - o qual, ao lado da Globo e dos principais veículos da mídia impressa nacional (Revista Veja, Isto É, Época, etc.; cf. DEMURU, 2019a) - a hipótese do impeachment de Rousseff começa a ganhar corpo, culminando, em 31 de agosto de 2016, na deposição da presidente.

Com Dilma fora de cena, o cenário muda. Por um lado, Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) são apontados como os principais “antissujeitos” (GREIMAS; COURTÉS, 2008, p.487) da nação. Por outro, novos atores começam a revestir este papel actancial narrativo: ativistas LGBT, retratados - principalmente por movimentos como o MBL e o então deputado Jair Bolsonaro - como ameaças à boa moral; artistas e museus, especialmente os que promoveram trabalhos e exposições ligadas à temática da sexualidade; universidades, escolas, professores e pesquisadores da rede de ensino pública e privada, acusados de doutrinamento político de esquerda (cf. SOLANO 2018).

No entanto, os valores que deveriam definir o novo Brasil auspicado pelos manifestantes permanecem, assim como em 2013, ambíguos. Ou seja, a indeterminação semântica se resolve apenas negativamente, apontando uma série de inimigos “contra” os quais dirigir a indignação coletiva. Em momento algum, os “paras” são precisados. Foi essa a estratégia discursiva que garantiu o sucesso, ne eleição presidencial de 2018, de Jair Bolsonaro: construir uma campanha centrada em signos e símbolos vagos e nebulosos - “significantes vazios”, diria Ernesto Laclau (2005): Deus, o Brasil, a bandeira e o hino nacional, o verde amarelo, a camisa da seleção, etc. - e antissujeitos precisos, culpados pelos rumos tomados pelo país.

O caso das jornadas de junho de 2013 pode ser comparado com outros acontecimentos que marcaram a cena política internacional do século XXI. Dinâmicas parecidas registram-se, por exemplo, em 2012, na Itália. No mês de janeiro, o Movimento dei Forconi [Movimento dos Forcados] e a Associazione Imprese Autotrasportatori Siciliani [Associação Empresas Autotransportadores Sicilianos] organizam uma série de manifestações que abalam a Sicília e outras regiões do país. Os protestos ganham visibilidade nas redes sociais, onde, empurrada por demonstrações coletivas de raiva, a hashtag #fermosiclia (#siciliaparada) afirma-se nos trendig topics do Twitter (cf. BIANCHI, 2017, p.35). Como evidencia Leonardo Bianchi (2017), os atos representam um dos eventos mais significativos de uma cadeia de explosões de ressentimento generalizado que, a partir do “V-Day” (“Vaffanculo Day”) realizado por Beppe Grillo, em Bologna, no dia 8 de setembro 2007, espalham-se, ao longo dos dez anos seguintes, pelos meandros mais recônditos da península. O leque de reivindicações que marcam este período é amplo e nebuloso. Transita-se entre o aumento do preço dos combustíveis, os privilégios da elite, os migrantes e os chemtrails, os rastros deixados no céu pela passagem dos aviões, supostas causas, de acordo com a homônima teoria da conspiração, de tumores e outras doenças (BIANCHI, 2017, p.67). É no âmago da relação entre as pulsões estésicas da massa e a vagueza de suas queixas e propostas que surgem as condições para a vitória, nas eleições de março de 2018, de líderes e partidos populistas como o Movimento Cinque Stelle, fundado pelo próprio Grillo, e a Lega de Matteo Salvini, capazes de interceptar as demandas e os humores dos manifestantes e transformá-las em consenso eleitoral.

O mesmo padrão evolutivo parece repetir-se nos atos dos Coletes Amarelos que vêm se subseguindo, desde outubro de 2018, na França. Fomentados por grupos de “revoltados online” e caracterizados, incialmente, por denúncias específicas (a revogação dos aumentos do preço do combustível), os protestos ganham rapidamente uma dimensão e uma intensidade estésica imprevista, incluindo, em sua agenda, uma série desconexa de novas pautas: políticas econômicas antiglobalização, salário mínimo, aposentadoria, participação popular sob forma de referendum, e assim por diante (cf. HARDING, 2019). Contudo, diferentemente do que aconteceu no Brasil e na Itália, não se sabe ainda, no momento em que escrevo, em abril de 2019, quais e quão agudos serão seus impactos no futuro da política francesa.

Ora, tais exemplos evidenciam o vínculo estreito entre indeterminação e estesia nas fases históricas que configuram uma quebra e/ou uma aceleração dos sistemas culturais, sociais e políticos. Independentemente de como os chamemos - acidentes, explosões, turbulências (cf. FABBRI, 2010) - há de se convir que estas rupturas são marcadas não apenas pela irrupção do não sentido, mas, vice-versa, pela produção de sentido em excesso, de elos e conexões semânticas inesperadas, nebulosas, volúveis, imponderáveis.

Ao mesmo tempo, tais momentos caracterizam-se pela explosão e pela circulação, em diferentes esferas discursivas, de um elevado grau de carga estésica. Nas ruas como nas mídias digitais, assiste-se, hoje como nunca, a processos de contágio estésico intersubjetivos que, conforme sugere Landowski, podem alastrar-se até dar vida a um corpo social aparentemente uniforme, o qual passa a se perceber (e a ser percebido) como uma totalidade integral indistinta e coesa (cf. LANDOWSKI, 2018; GREIMAS, 1976). Aliás, como procurei mostrar em Demuru (2019b), as redes sociais são o principal vetor dos alastramentos estésicos contemporâneos.

Mais do que isso: o impacto do processo explosivo, bem como a sua duração, parece ser diretamente proporcional à carga estésica que o engendra e que, vice-versa, ele se torna capaz de acionar. Um pouco como acontece, em física, nos sistemas quânticos (ROVELLI, 2017), a intensidade e a extensão temporal do acidente parecem depender da energia gerada pelo contato e pela interação entre os corpos em movimento. Talvez isso signifique que o acidente não seja apenas um produtor (o agente gerador) de forças sensíveis, como também, vice-versa, o produto (o resultado) de um encontro de sensibilidades de outra ordem, reconduzível ao regime do ajustamento. Mas, por ora, este é um assunto que ultrapassa os limites deste trabalho.

Considerações (e desvios) finais

Procurei mostrar, neste artigo, como o confronto entre os conceitos de acidente, postulado por Eric Landowski no âmbito de sua teoria sociossemiótica da interação, e explosão, cunhado por Jurij M. Lotman em suas obras derradeiras de semiótica da cultura, revela-se fértil a fim de refletirmos sobre a natureza semiótico-discursiva dos eventos imprevisíveis que rompem o fluxo linear da história. Minha hipótese, a ser testada em pesquisas futuras, é que a correlação entre indeterminação semântica e estesia cumpra, nestes processos, um papel de primeiro plano. O caso das jornadas de junho de 2013, bem como os das recentes transformações políticas italianas e francesas, oferecem, nesse sentido, algumas primeiras indicações. Em tais episódios, a imbricação entre a explosão de sentidos e a carga estésica em circulação nas respectivas sociedades é nítida e estreita. Ambas caminham constantemente lado a lado: quanto maior é a primeira, maior será também a segunda.

A ascensão ao poder de líderes e partidos populistas na segunda década do século XXI pode ser explicada a partir destas bases teóricas. Como propusemos alhures, o populismo, em seu momento de emersão, apresenta-se, ao mesmo tempo, como uma ausência e uma con-fusão de sentido, provocando, simultaneamente, o colapso dos velhos universos de crenças e valores e a insurgência de novos universos, cujos confins, nexos e direcionamentos são ainda indecifráveis (cf. DEMURU 2019a; 2019b). Surge, aqui, a questão dos rumos que o momento populista irá tomar, os quais se tornam, como nos casos acima citados, objeto de disputa política.

Há políticos reconhecidamente populistas que, mesmo no poder, insistem em estratégias que reafirmam o caráter imprevisível e indeterminado dos acontecimentos dos quais se aproveitaram para se eleger. É o caso de figuras como aquelas de Donald Trump e Jair Bolsonaro que, com sua comunicação dissonante, fundada em constantes desmentidos, passos para frente e imediatos passos par trás (cf. SETO, 2018), configuram-se como verdadeiros “actantes joker”, presidentes, em certo sentido, “acidentais”.

Além disso, tanto a emergência quanto a eficácia do discurso populista dependem do envolvimento estésico-afetivo que a sua explosão é capaz de proporcionar. E isso não vale apenas para os atuais populismos de direita. Mesmo os teóricos contemporâneos dos populismos de esquerda parecem ter consciência da relevância desta dimensão. Pense-se, a este propósito, nas últimas intervenções de Chantal Mouffe, a qual defende que, para o populismo de esquerda ser exitoso, “é essencial tomar consciência de quão importante é encorajar emoções compartilhadas, porque, como Spinoza fazia questão de evidenciar, um afeto pode ser substituído apenas por um afeto oposto, mais forte do que aquele que é chamado a reprimir” (MOUFFE, 2018, p.78)29. Que nos lembremos: quando se trata de discurso político, toda explosão de sentido e sentidos é e será sempre, antes ou depois, um campo de luta semiótica.

1A lista poderia continuar. Muitos foram os autores que, especialmente no âmbito da semiótica discursiva, refletiram, nos últimos anos sobre a problemática do tempo e das relações entre continuidade e descontinuidade. Vejam-se, a este propósito, os ensaios de Sedda (2012) e as obras coletivas organizadas por Bertrand e Fontanille (2006); Migliore (2010) e Mendes (2010).

2“Retenhamos, pois, este último qualificativo [catastrófico], para fazer contrapeso ao papel temático no modelo abaixo”, afirma Landowski à margem do capítulo de Interações arriscadas sobre o acidente (LANDOWSKI, 2014, p.79). Além disso, como é possível observar na figura 1, o papel que designa o acidente é justamente o papel catastrófico.

3Em suas reflexões sobre o acontecimento, Zilberberg (2006) evidencia a relação entre acontecimento e estesia, refletindo, em particular, sobre as imbricações entre a intensidade aspectual e a carga afetiva no sobrevir do evento inesperado. A comparação entre o acidente em Landowski e o acontecimento em Zilberberg foi objeto de um estudo de Jacques Fontanille (2016). No entanto, embora desejável, sua exploração extrapola os limites do presente trabalho.

4A imbricação entre o acidente landowskiano e estesia é evidenciada por Ana Claudia de Oliveira em seu estudo sobre o fait divers (OLIVEIRA, 2012).

5No original: “Ni empathie d’ordre cognitif ni contagion virale mais expansion par contiguïté des éléments touchés, à la manière d’un incendie de forêt” (LANDOWSKI, 2018, p.15).

6Na tradução italiana: “Il momento dell’esplosione interrompe la catena delle cause e degli effetti e proietta in superficie uno spazio di eventi parimenti probabili di cui è impossibile per principio dire quale si realizzerà”.

7Na tradução italiana: “la possibilità di combinazioni strutturali semantiche inattese, impossibili o proibite in una fase precedente”. Vale precisar que, para Lotman, processos graduais e explosivos não se alternam entre si, mas podem, inclusive, coexistir: conforme sugere o semioticista em La Semiosfera (1985), porções especificas da cultura podem evoluir a velocidades diversas das outras.

8Na tradução italiana: “La concezione di evento storico dipende dal tipo di cultura ed è un importante indicatore tipologico. Per questo prendendo in mano il testo lo storico è costretto a distinguere che cosa nel testo è un evento dal punto di vista suo, e che cosa era un evento degno di menzione dal punto di vista dell’autore e dei suoi contemnporanei”.

9Na tradução italiana: “L’esplosione di possibilità diverse introduce nello spazio culturale la casualità: le possibilità sono tutte probabili”.

10Na tradução italiana: “Il criterio che permette di determinare la natura esplosiva di un processo (…) consiste nella imprevedibilità di principio di un evento. L’evento che si realizza e quello che non si realizza sono, nel momento dell’esplosione, varianti intercambiabili”.

11Na tradução italiana: “L’elemento imprevedibile viene dotato di significato, munito di motivazione aggiuntiva retroattiva”.

12Na tradução italiana: “La realtà [...] è come la principessa delle fiabe, alla cui mano aspirano più principi. finché la scelta non è compiuta tutti hanno la stessa probabilità di successo e tutti possono fregiarsi del titolo di ‘fidanzato’. Se però descriviamo questa situazione retrospettivamente, a scelta compiuta, l’unico coronato di successo ci sembrerà predestinato alla vittoria, e gli altri indegni usurpatori. L’arte guarda alla vita con gli occhi della fidanzata ancora libera, la storia invece come con lo sguardo della moglie vincolata dalla sua scelta”.

13Na tradução italiana: “I percorsi attualizzati saranno circondati di gruppi di possibilità non attualizzate”.

14Na tradução em inglês: “The state of explosion is characterized by the moment of equalisation of all oppositions. That which is different appears to be the same. This renders possible unexpected leaps into completely different, unpredictable organisational structures”.

15Na tradução italiana: “in questo caso, tra gli effetti di un’esplosione di particolare forza, che trapassa da una sfera in un’altra, ci sarà il problema della traduzione scorretta: sensi precisi saranno sostituiti da esplosioni di metafore”.

16Na tradução italiana: “La traducibilità dell’intraducibile”.

17Na tradução italiana: “Questa particulare intersezione dà luogo a quella che Lotman definisce un'esplosione di senso, che non è la mera fuoriuscita di nuova informazione ma la sospensione di tutte le coordinate (culturali, temporali, spaziali) entro cui si forma il senso e l’emersione di qualcosa di radicalmente nuovo, frutto di un’unità non sintetica delle assimetrie”.

18Na tradução italiana: “In un sistema con una grande indeterminatezza interna entra dall’esterno un testo che [...] acquista esso stesso indeterminatezza interna, presentandosi non come la realizzazione concreta di un linguaggio, ma come una costruzione poliglotta plausibile di una serie di interpretazioni dal punto di vista dei linguaggi diversi, interna- mente conflittuale e capace di rivelare in un nuovo con- testo sensi interamente nuovi. Questa intrusione aumenta notevolmente l’indeterminatezza di tutto il sistema, dando un’imprevedibilità a sbalzi alle tappe successive”.

19No original: “Ecco dunque come nella semiosi sociale quotidiana si riproduce un movimento di appiattimento, che trasforma uno spazio gerarchizzato e articolato (“striato”) in uno spazio piatto [...], uno spazio “connessionista” in cui tutto sembra poter tornare in contatto con tutto”.

20Na tradução italiana: “Il momento dell’esplosione si colloca nell’intersezione di passato e futuro, in una dimensione quasi atemporale”.

21Na tradução em inglês: “This moment is experienced out of time, even if, in reality, it stretches across a very wide temporal space”.

22Digo em algum nível porque, como veremos melhor nas próximas páginas, há casos em que a indeterminação é resolvida apenas em determinadas esferas discursivas, permanecendo viva, ao contrário, em outras.

23No original: “collasso del vecchio e insorgenza del nuovo”. Isso vale particularmente para as explosões que caracterizam aqueles sistemas que Lotman define “ternários”. É o caso da revolução francesa, entendida pelo semioticista russo como um momento explosivo que contemplava, contemporaneamente “tendências destrutivas e construtivas” (LOTMAN, 2014b, p.152).

24Lembrando que, seguindo a elipse em sentido contrário, o acidente pode desembocar no ajustamento ou ser regido, conforme a lógica da recursividade oblíqua postulada por Landowski, por outros regimes (cf. LANDOWSKI, 2014, p.89).

25Na tradução italiana: “L’idea di temporalità non è legata alla reale cronologia del processo, che nella realtà può durare anche molto a lungo”.

26Entre os confins da semiótica pós-greimasiana, quem refletiu mais a fundo sobre este tipo de acontecimento de longa duração foi Luiz Tatit (2010).

27Em Singer (2018) há um elenco detalhado dos índices que mostram, no arco das jornadas, a queda repentina da aprovação do governo Dilma Rousseff. Tais dados quantitativos reforçam e justificam, como apontei em Demuru (2019b), a leitura semiótica das jornadas enquanto acontecimento acidental/explosivo.

28Em Demuru (2019b) explorei mais a fundo as dimensões temporais deste processo, mostrando como o processo acidental/explosivo engendrado pelas jornadas de junho de 2013 dá vida a um regime temporal hiperpresentista, caracterizado pela instantaneização, pela compressão e pela aceleração do tempo histórico-social.

29No original: “It is essential for a left populist strategy to acknowledge the importance of fostering common affects because, as Spinoza was keen to stress, an affect can only be displaced by an opposed affect, stronger than the one to be repressed”.

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Recebido: 06 de Maio de 2019; Aceito: 16 de Outubro de 2019

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