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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.15 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub Nov 28, 2019

https://doi.org/10.1590/2176-457343943 

ARTIGOS

Refrações do discurso citado como episteme discursiva na criatividade verbal

*Universidade de São Paulo - USP, Escola de Comunicações e Artes - ECA, Departamento de Comunicações e Artes, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq; https://orcid.org/0000-0002-1662-258X; irenear@usp.br


RESUMO

O ensaio revê a análise crítica de V. N. Volóchinov a respeito dos processos de transmissão discursiva, questionando estudos consagrados das categorias estilísticas e impressionistas. Ao descobrir formas em que o discurso citado tensiona a citação fazendo emergir um discurso quase direto, que tanto pode ser do narrador como da personagem, Volóchinov entende ter encontrado uma outra história do discurso, muito mais favorável à manifestação da bivocalidade como reação ativa ao discurso de outrem e como plena manifestação do ideologema. Inferimos, por conseguinte, que o problema examinado pelo teórico se coloca como uma nova episteme discursiva nos estudos dialógicos.

PALAVRAS-CHAVE: Discurso citado; Discurso quase direto; Reação ativa; Entonação; Ideologema

ABSTRACT

This essay reviews the critical analysis of V.N. Voloshinov with respect to the process of discursive transmission, questioning consecrated studies of stylistic and impressionistic categories. Voloshinov, on discovering ways in which reported speech creates tension in the citation, causing a quasi-direct discourse to emerge, which can be attributed to both the narrator as well as the character, understands he has found another history of discourse that is much more favorable to the manifestation of bivocality as active reaction to the discourse of the other, and as a full manifestation of the ideologeme. We infer, thus, that the problem examined by the theorist establishes a new discursive episteme in dialogic studies.

KEYWORDS: Reported speech; Quasi-direct discourse; Active reaction; Intonation; Ideologeme

Introdução: bivocalidade como nova episteme discursiva

No panorama da recepção crítica da obra de V. N. Volóchinov, Marxismo e filosofia da linguagem (1929-1930), o intenso e polêmico debate em torno da autoria do texto pouco contribuiu para a projeção da radicalidade de seu pensamento crítico de revisão conceitual e teórica no campo da produção dialógica da linguagem. Postura agravada ao ser relegado à condição de um mero coautor, um pseudônimo e até mesmo um ghostwriter de Mikhail M. Bakhtin. O quase apagamento do teórico se torna uma ameaça quase certeira ante seu desaparecimento nos expurgos do stalinismo dos anos de 1930, juntamente com outros intelectuais, deixando o mérito de suas contribuições sob suspeita. Contudo, estudos recentes de sua biografia, suas investigações e publicações têm edificado um outro caminho analítico de seu trabalho e vêm contribuindo para a construção da imagem de um estudioso que não é porta-voz, nem mito e muito menos um fantasma (GRILLO; AMÉRICO, 2017, p.255-281).

Sem precedentes nos estudos de filosofia, história e teoria dialógica da linguagem, muitas das abordagens radicais do processo construtivo de signo ideológico de Volóchinov garantem a unidade e coerência de um pensamento teórico competente e fundamentado, que não teme enfrentar desafios em nome do objeto de sua reflexão crítica: as interações discursivas em enunciados concretos a formar consciência sem a qual nenhum pensamento crítico se sustenta e nenhum rigor científico se constitui. Ao realizar um trabalho de análise das obras verbais tão fortemente vinculadas a uma visão da construção sígnica dos processos interativos, Volóchinov marca o espaço crítico epistemológico orientado por metodologias focadas na enunciação - um dos lugares privilegiados de sua reflexão e do desdobramento da refração sígnica.

O destino das formulações conceituais da obra Marxismo e filosofia da linguagem (1929-1930) também foi submetido a tratamentos controvertidos em sua recepção crítica. Formulações conceituais da primeira parte e a revisão histórica das duas correntes teóricas da filosofia da linguagem da segunda partes são comumente citadas e incorporadas aos trabalhos de comentaristas. Já os enfrentamentos conceituais que constroem a teoria da enunciação que focalizam conceitos consagrados sobre enunciação, da terceira parte do livro, demandam um investimento interpretativo mais agudo, de processamento mais lento e, sobretudo, de acesso às fontes não facilmente disponíveis.

Segundo nosso entendimento, a magnitude do conceito de signo ideológico ganha materialidade como forma de enunciação historicamente construída pelos enunciados concretos1 em processos interativos da linguagem porque se constitui como orientação para o outro. Volóchinov dedica a terceira e última parte de seu livro ao entendimento de uma modalidade desta orientação: a revisão dos processos de transmissão do discurso do outro considerando embates entre discurso citado e citação de enunciados concretos no discurso narrativo. Ao examinar os rumos do entendimento das transformações discursivas nas transmissões, descobre uma história das formas do discurso reveladora para suas inquietações. Nesta história, acompanha estudos sobre criações enunciativas em que discurso citado e citação, segundo nosso entendimento, entram em conflito com o contexto da transmissão e apresentam-se como enunciados concretos do narrador e das personagens. Dois problemas são considerados: o primeiro reporta-se à história que remonta à representação no discurso no texto da prosa narrativa das formas de transmissão e de representação do discurso de um e do discurso do outro; o segundo, concerne ao processo de bivocalização quando a emissão direta confunde os limites do discurso de um e de outro. Volóchinov se voltou para esta modalidade bivocal visto que, em vez de o discurso se acomodar numa ou noutra esfera, ele se assume como um discurso direto que pode emanar tanto na voz de personagens como na do narrador. Trata-se de uma formação impura ou imprópria, irreverente à submissão, não se conformando sequer aos limites da consagrada categoria do discurso indireto livre. Conforme a síntese do argumento desenvolvido em nossa investigação, antes da formulação de Charles Bally de 1912, consagrada como discours indirect libre [discurso indireto livre], houve outras tentativas de conceptualizar a difícil relação de enunciar o discurso do outro ou mesmo de citá-lo no corpo de um enunciado concreto ou um outro discurso, tais como os conceitos de Eigentümliche Mischung direkter un indirekter Rede [mistura peculiar de discurso direto e indireto], de Tobler, em 1887; Uneigentliche direkte Rede [discurso direto impróprio], de G. Lerch; Verschleierte Rede [discurso velado], de Th. Kalepky em 1899. Em contraposição a Bally, E. Lork propõe, em 1921, o Erlebte Rede [discurso vivido]. Em seu exame histórico-literário, Volóchinov examina tais formulações para fundamentar seu argumento segundo o qual a categoria que se consagrou como discours indirect libre [discurso indireto livre] se mostra insuficiente para acolher a complexidade epistemológica dos eventos que ocorrem no processo da interação dialógica cujo desafio é a análise distintiva da orientação discursiva.

Contrariamente ao que se poderia supor, Volóchinov não se mostra interessado em propor uma nova categoria mas tão somente formular um problema e construir caminhos de análise crítica para entendimento de um novo fenômeno advindo da experiência do discurso para constituir dialogia do falante com sua própria fala por meio da entoação e seus acentos de valor. Por isso, lhe pareceu imprescindível recuperar o conceito de “несобственная прямая речь” [“nesobstvennaia priamaia retch”] - um discurso que não é propriamente direto nem propriamente indireto mas tão somente um discurso quase direto, bivocalizado, que pode se constituir como discurso citado tanto no discurso das personagens quanto do narrador, visto que se configura na fronteira. Eis o ponto da ousadia do teórico: o discurso direto também se manifesta na voz narradora e na plenivalência de seu discurso em diálogo com seus personagens. Como conceptualizar, então, as formas discursivas produzidas por refrações discursivas desta natureza? Tal foi a tarefa que Volóchinov tomou para si ao formular uma metalinguagem crítica no contexto da configuração histórica no capítulo final, fecho de ouro do livro e da terceira parte, considerada, com merecido fundamento, a mais radical abordagem de todo o livro (LOCK, 2001, p.79).

Como nos informa a recente tradução brasileira da obra, o problema foi abordado também por M. M. Bakhtin, que desenvolveu uma proposta baseada em três modalidades: “o discurso voltado para o objeto, o discurso objetificado dos personagens e o discurso orientado para o discurso do outro” (VOLÓCHINOV, 2017, p.87-88, nota 9 [N. da T.]). Acrescenta ainda:

[...] Enquanto em Marxismo e filosofia da linguagem aborda-se o segundo tipo, Bakhtin dedica-se às diferentes modalidades de discurso bivocal (estilização, parodia, skaz etc.) As duas obras parecem participar de um projeto comum de estudar as formas de discurso que têm dupla orientação: para o objeto de sentido e para o discurso do outro (GRILO; AMÉRICO, 2017, p.88, nota 9 [N da T.].

A análise de que se ocupa Volóchinov na terceira parte de seu livro se volta para o estudo da segunda modalidade com encaminhamentos para a terceira, quando se concentra no caráter reativo do discurso ao se construir como ideologema.

Tais esclarecimentos contribuem para se pensar que na terceira parte do livro, para além das questões sintáticas, o alvo são os enunciados concretos em suas distintas refrações, em interação com discursos de outrem. Com isso, a obra encerra uma proposição unificada da problemática do signo ideológico2 como constructo elementar de todo processo semiótico de criação e de comunicação, respeitando-se uma abordagem histórica.

A capacidade de Volóchinov de situar, historicamente, o exame dos procedimentos discursivos juntamente com a construção de uma metalinguagem crítica orientada pelas relações dialógicas, desvenda caminhos analíticos inusitados, favorecendo possibilidades de muitas atualizações. Conceitos como o de enunciação, de citação, de construção do sentido, de transmissão discursiva, de enunciado concreto e, particularmente, de ideologema não só perpassam diferentes abordagens de outras obras do Círculo de Bakhtin, como também podem ser constantemente revisitados ante os desafios da dinâmica dos processos comunicacionais na cultura. A partir deles, o próprio edifício teórico da dialogia projeta as bases de sua constituição relacional. No limite, é todo o universo das relações de fronteira no conflito de seus limites que se descortina.

Quando lidos no contexto do processo de reflexão e refração sígnica ocasionados pelos usos ao longo da história, muitos dos conceitos podem ser alcançados no rigor da metalinguagem crítica desenvolvida pelo teórico, nem sempre concordante com as teorias filosófico-linguísticas das abordagens ocidentais, caso do conceito de enunciação, formulado nos anos vinte e examinado na terceira parte do livro.

Ainda que anterior à formulação de Émile Benveniste de 1958, os quase trinta anos que separam um estudo e outro parecem não terem sido suficientes para a reconsideração da incomparável singularidade da formulação de Volóchinov. A partir dos anos de 1960, com a disseminação dos vários estruturalismos na Europa ocidental, é a concepção de Benveniste que domina os estudos semiológicos que reservam, assim, o mais cruel silêncio às proposições do teórico russo. Perdeu-se, por conseguinte, uma grande oportunidade de aquisição de um instrumento analítico sobre a incorporação das relações contextuais de alteridade nas interações. O mesmo entendemos ameaçar o conceito de ideologema quando distanciado da enunciação discursiva bivocalizada irreverente que não se submete à transmissão de modo a liberar a dialogia como procedimento criativo na composição artística.

Dentre as versões em línguas ocidentais a que tivemos acesso, com exceção da tradução em língua inglesa de 1973, creditada a Ladislav Matejka e I.R. Titunik, todas as demais traduziram “nesobstvennaia priamaia retch” como equivalente ao “style indirecte libre”, tal como denominado, conceptualizado e consagrado por Charles Bally em 1912. Se, por um lado, a noção de “style indirecte libre” ou “discurso indireto livre”, como se referem as traduções em português, responde às necessidades da tradução segundo categorias consensuadas na estilística, por outro, a noção de Bally não atende à demanda epistemológica de apreensão de um processo dialético de construção do discurso de outrem como enunciado concreto formador de consciência. Tampouco abrange a diversidade composicional discursiva da prosa no âmbito da cultura escrita. É para esta apreensão que se dirige a inquietação de Volóchinov3 e, por conseguinte, a nossa. Contudo, vale esclarecer, que o problema de nossa inquietação não se vincula à tradução linguística mas à episteme discursiva que Volóchinov propõe como hipótese dentro de sua teoria sobre as refrações do discurso de outrem nas citações de relatos. Este é o desafio.

Ainda que reconheça a sistematização teórica de Bally, Volóchinov desconfia de que o quadro sistematizado pelo estudioso francês do ponto de vista da técnica estilística da língua francesa fosse suficiente para abarcar modalidades discursivas tão específicas como ele observou em língua alemã e russa, podendo ser examinadas em outras. Em seus estudos, descobriu realizações que, considerados os limites histórico-conceituais, se constituíram como verdadeiros desafios para as possibilidades de enunciar o discurso de outrem em sua variedade e diversidade. Com isso, se os instrumentos teóricos disponíveis caminharam no sentido de sistematizar objetivamente os processos de transmissão das falas, pensamentos, sentimentos de personagens pelo narrador, Volóchinov desviou-se para examinar os processos verbais de criação discursiva na complexidade de suas refrações responsáveis por confrontos da trama de citações. Quando recuperou estudos e realizações que se situavam na fronteira entre o discurso direto dos personagens e o indireto do narrador, ou o direto dos personagens e o direto do narrador, divisou comportamentos discursivos nada afeitos ao quadro categorizado pela técnica estilística que justifica o discurso indireto livre. Propor a noção de discurso quase direto e discurso quase indireto foi sua hipótese para entender as relações dialógicas ocasionadas no embate entre discurso citado e citação. Em última análise: seu método analítico nada mais buscou que não projetar o movimento entre reflexo e refração, mantendo, por conseguinte, a coerência teórica de seu sistema de ideias construído em torno da noção de signo ideológico. Não sem motivo toda sua metalinguagem crítica é encaminhada para alcançar o ideologema - conceito pelo qual exprime a dialogia discursiva no processo de recepção ativa do discurso de outrem que opera na esfera da formação de consciência de onde emanam as possibilidades construtivas do pensamento crítico.

Recuperar os encaminhamentos dessa preciosa investigação, bem como suas proposições e descobertas, de modo a dimensionar o mérito e a atualidade do pensamento de V. Volóchinov é o grande desafio que nos coloca a leitura do último capítulo de seu livro. Quem pensou que signo ideológico que abre o volume foi apenas o intróito inovador do livro certamente degustou da magnitude de seu gran finale.

Emergência do discurso quase direto como forma de refração enunciativa

O leitor de Volóchinov sabe que sua metodologia não dispensa exames minuciosos de fontes primárias, sejam elas obras literárias, históricas ou teóricas. Com elas constrói caminhos investigativos de proposições orientadas pela objetivação do problema a ser examinado, fundamentado, assim, por argumentos de difícil contestação. No estudo do “несобственная прямая речь” [“nesobstvennaia priamaia retch”] - ou discurso quase direto, como vamos referir a partir de agora -, a metodologia não foi diferente. Logo no início de seu argumento, elabora de modo preciso, claro e conciso o problema de sua inquietação teórico-crítica: a necessidade de reposicionar uma nova forma discursiva que se insinuou entre o discurso citado e o relato narrativo criando um relacionamento inusitado entre eles modificando o caráter da própria interação no processo criativo.

Para isso, discute com teóricos da tradição vossleriana e saussureana4 de estudiosos alemães e franceses que se dedicaram ao exame dos problemas da transmissão, sobretudo, do ponto de vista da representação narrativa e da expressão subjetiva. Situa diferentes demandas da prosa e do processo de desenvolvimento das formas de transmissão discursiva no relato ante o desafio de enunciar diferentes construções enunciativas. Com isso, descobre distinções entre as abordagens que tratam as formações discursivas como representações apoiadas na transmissão e aquelas que poderiam ser entendidas como enunciação de uma diversidade de vozes irredutíveis a um único foco narrativo. Em processos dessa natureza a enunciação se configura claramente como apresentação de enunciados concretos - aqueles produzidos em situação comunicativa que compreende as instâncias semióticas realizadas em palavra e organizadas por disposições do entorno. No terceiro capítulo de seu livro trabalha tais distinções e formulações conceituais sem se deixar fixar no quadro teórico que se consagrou no ocidente, fomentando as categorias estilísticas que são a referência fundamental para a análise das formas de transmissão.

Coerente com suas premissas a respeito do signo ideológico e sintonizado com as práticas do Círculo bakhtininiano de estudo da criação verbal no contexto da prosa desenvolvida pela cultura escrita, distante e distinta, portanto, do mundo épico da narrativa oral, Volóchinov inicia seu raciocínio situando historicamente as conquistas discursivas que aprendeu a distinguir entre “discurso de um” e “discurso de outrem” e se vê diante do desafio de não apenas transmitir a pluralidade discursiva como também de consolidar formas de composição conjugada das tramas enunciativas. Introduz, assim, a noção de A. Tobler que, a partir dos estudos de filologia românica, formula caminhos de apreensão conceitual deste processo na obra, quando observa a emergência de enunciações que se acomodam mal, seja na condição de discurso direto, seja no contexto do discurso indireto, visto que não se apresentam como mera transmissão. Na falta de premissas mais pertinentes, Tobler entende manifestar-se aí uma mistura entre discursos, ao que Volochinov pondera:

O fenômeno do discurso quase direto como uma forma especial de transmitir o discurso de outra pessoa, juntamente com o discurso direto e indireto, foi apontado pela primeira vez por Tobler em 1887 (em Zeitschrift für Romanische Philologie [Revista de Filologia Românica], XI, 437). Do discurso direto, essa forma mista empresta, de acordo com Tobler, o tom e a ordem das palavras e, da forma indireta - os tempos e pessoas verbais.

Como puramente descritivo, esta definição pode ser aceita. De fato, do ponto de vista da descrição comparativa superficial das realizações, Tobler indicou com precisão as semelhanças e diferenças entre a forma em questão e o discurso direto e o indireto.

Mas a palavra “mistura” nesta definição é completamente inaceitável pois implica uma explicação genética - “formado a partir da mistura”, o que dificilmente pode ser provado. Mesmo em seu modo puramente descritivo, a definição é insuficiente na medida em que somos confrontados não com a simples mistura mecânica ou adição aritmética de duas formas, mas com uma tendência completamente nova e positiva de percepção ativa do enunciado de outra pessoa, uma direção especial na qual a dinâmica da relação entre relato e citação de outrem se movimenta. Mas Tobler permanece surdo a esta dinâmica e registra apenas sinais abstratos de padrões (Versão comparada VOLOŠINOV, 1973, p.142; VOLÓCHINOV, 2017, p.292-293 e a versão russa 5; ênfase nossa).

Volóchinov entende, pois, que Tobler vislumbrara um novo fenômeno discursivo cujo traço fundamental era a percepção ativa do discurso do outro numa transmissão qualificada que semeia o terreno da bivocalidade discursiva como procedimento da criatividade verbal. Tal entendimento, contudo, não foi cogitado e, historicamente, na virada do século, surge uma sistematização discursiva que, sem se orientar por esta percepção ativa do discurso do outro, consolida suas premissas na estilística. Em 1912, Charles Bally, atento às distinções estilísticas da prosa desenvolvida por Gustave Flaubert em seu Madame Bovary (1857), conceptualiza a elaboração orientada, não pela fala da prosa cotidiana, mas pela prosa emergente do texto escrito, o que lhe sugere a configuração de um procedimento estilístico. Somente aí é que o discurso não propriamente direto nem indireto é conceptualizado como style indirect libre.

O entendimento de Bally segundo o qual o discurso indireto livre se caracteriza como forma de pensamento6 é valioso para a abordagem dialógica e Volóchinov não ignora tão importante contribuição, como se pode ler no trecho:

[...] Bally aponta que essa espécie de discurso indireto, chamada por ele de style indirect libre, não é uma forma congelada, mas se encontra em movimento, tendendo ao discurso direto, que é seu limite. Nos casos mais expressivos, de acordo com Bally, é difícil delimitar onde termina o style indirect libre e começa o style direct (VOLOCHINOV, 2017, p.297) 7.

Contudo, ao longo de seu estudo, esta é a única vez em que Volóchinov cita nominalmente o style indirect libre. Para tratar do problema de sua inquietação - ou o fenômeno como ele se refere - utiliza-se da formulação do já citado “nesobstvennaia priamaia retch”. Tal emprego distintivo revela não um ajuste terminológico, mas a necessidade de compreender a nova episteme discursiva no âmbito da criatividade artística da obra verbal e segundo o processo de percepção ativa do discurso do outro.

O embate se coloca, portanto, no âmbito de uma situação dilemática. O contexto é o universo da “emergência da prosa” (KITTAY; GODZICH, 1987) - marco fundante da cultura ocidental e da constituição de seu “império dos signos” (expressão que tomamos emprestada de Roland Barthes). Não se trata apenas da consagração da escrita mas de diferentes movimentos da metalinguagem que se encarregou da expansão e transformação em sistemas de signos de outra natureza: leitura, interpretação, entonação, ritmos, acentos de valor; signos gráficos, cartográficos etc. (FELDMAN, 1995, p.55-74; KITTAY, 1995, p.179-186; OLSON, 1995a, p.163-178; 1995b, p.267-286) Neste universo da prosa surge a demanda não apenas de transmitir enunciação oral mas de representá-la por escrito, ou melhor, de criar espaços para sua manifestação e expansão como procedimento artístico de criação enunciativa. Enunciação oral que não é só fala mas diálogo, pensamento, réplica discursiva nem sempre vocalizada mas jamais desprovida de ritmos e acentos entoativos, o que obriga a prosa escrita a se submeter às muitas refrações de um universo semiótico de expansão potencial. Volóchinov se mostra atento a todo esse contexto e mantém sob suspeita as formulações de Bally, visto que estas reservam à estilística da frase, tomada em sua estrutura técnico-gramatical, a capacidade de exprimir a expressão discursiva nos vieses de sua manifestação da prosa. Tampouco entende a primazia do discurso indireto do narrador de acolher a complexidade do que se classifica como discurso da personagem. Na verdade, tal limitação afigura-se como incongruência, o que alimenta sua indagação a respeito de formações que se alimentam do conflito entre discurso citado e a citação.

Considerado mentor das concepções fundadas no objetivismo abstrato, tal como apresentadas na segunda parte do livro, as formulações do discípulo de Saussure e autor do texto do Cours de linguistique générale [Curso de linguística geral] (1916) são examinadas por Volóchinov com muitas reservas. À luz de seus estudos de fontes histórico-téoricas, afirma que Bally incorreu em erro ao entender a construção do discurso indireto da língua alemã como equivalente ao discurso quase direto da língua francesa, como se pode acompanhar em seu raciocínio:

Bally tampouco tem razão quando aponta a construção indireta alemã do segundo tipo como análoga ao discurso quase direto francês. Este erro é extremamente típico. Do ponto de vista abstrato e gramatical, a analogia de Bally é impecável, porém, do ponto de vista da tendência sociodiscursiva, essa comparação não resiste a uma crítica. Pois, em diferentes línguas, a mesma tendência sociodiscursiva (determinada pelas mesmas condições socioeconômicas), a depender de suas estruturas gramaticais, pode ter diversas expressões externas. Justamente aquele modelo de uma língua que resulta ser mais flexível nessa situação, começa a se modificar em uma determinada direção. Na língua francesa, esse modelo é o discurso indireto, já, em alemão e russo, o discurso direto (Versão comparada entre VOLOŠINOV, 1973, p.146; VOLÓCHINOV, 2017, p.299 e a versão russa 8; ênfase nossa)

Diante do equívoco envolvendo formas cuja expressão em prosa sofre variações em decorrência dos enunciados concretos das diferentes culturas linguísticas em sua formação sociodiscursiva, Volóchinov entende que é difícil ignorar a propriedade da variante do discurso quase direto, enfatizando, não a mistura, mas a entoação capaz de apreender a dimensão social. Além disso, em suas análises, examina o quão distante do francês se apresenta o discurso quase direto alemão e o quanto este se aproxima da forma russa, o que o leva a inferir que:

Na verdade, no sistema abstrato da língua, em que Bally inseriu as formes linguistiques, não há movimento, não há vida, não há realização. A vida começa apenas quando um enunciado encontra o outro, isto é, quando começa a interação discursiva, mesmo que ela não seja direta, “face a face”, mas mediada, literária9 (VOLÓCHINOV, 2017, p.298; VOLOŠINOV, 1973, p.145).

Se nada autoriza colocar a abordagem de Bally na mesma esfera conceitual de Volóchinov, nada nos impede de supor que, ao se voltar para o problema do “nesobstvennaia priamaia retch”, o teórico do círculo bakhtiniano não estava considerando nele um mero correlato do recurso estilístico que Bally concebera como discurso indireto livre. O problema de sua investigação se voltava para enunciados concretos que não se reportam a categorias mas a realizações dialógicas do discurso da criação verbal cuja força entoativa dos valores as libera dos limites da transmissão, enfatizando o processo de recepção ativa do discurso de outrem. Além da possibilidade de embaralhar as fontes de emissão - narrador e personagem - bivocaliza aquilo que se apresenta como discurso direto sem identificar a voz. Com isso, o discurso quase direto se constitui numa modalidade discursiva que não se limita nem se confunde com o discurso indireto livre, deixando escapar enunciações da voz direta. Trata-se de uma modalidade emergente como forma cultural e discursiva no contexto da prosa que se expande complexificando a enunciação que se desenvolve nas fronteiras entre oralidade e escrita; pensamento e voz. Um verdadeiro desafio para o processo comunicacional de transmissão.

O argumento de Volóchinov se nutre de outras formulações históricas contra as quais examina os conceitos de Bally. Recupera o trabalho do vosseleriano Etienne Lorck, Die Erlebte Rede (1921), que se concentrou na compreensão do discurso direto como um discurso vivido (Erlebte Rede), que se distingue do discurso direto falado (Gesprochene Rede), e do discurso indireto da fala comunicada, de repetição (Berichtete Rede) (VOLÓCHINOV, 2017, p.302); V VOLOŠINOV, 1973, p.147). Trata-se, portanto, de um discurso da vivência (Erlebnis), impossível de ser transmitido a um terceiro uma vez que a cena enunciativa e o ambiente da entoação na vivência não é comunicável a um terceiro. Numa situação cênica de um monólogo de Fausto citada por Lork é possível alcançar a sutileza da distinção da vivência como enunciado concreto da enunciação.

Enunciada em primeira pessoa, a frase do monólogo é a seguinte: “Tenho estudado, que desgraça! Filosofia, Jurisprudência [...] completamente e com grande empenho”. Em sua vivência mediada pela percepção, o ouvinte transforma o enunciado em terceira pessoa: “Fausto tem estudado, que desgraça! Filosofia, [...]”. Se o ouvinte for transmitir a um outro o monólogo de Fausto, ouvido e mediado por sua vivência perceptiva ele poderá: repetir a citação do discurso direto [“Tenho estudado, que desgraça! Filosofia!”]; formular a citação no discurso indireto [“Fausto diz que tem estudado, infelizmente, Filosofia!]”; ou ainda, enunciar o discurso indireto livre [“Fausto tinha estudado, que desgraça!”] (VOLÓCHINOV, 2017, p.302) Ainda que os exemplos sejam justificados estilisticamente, a vivência a que se refere a concepção não se mantém, sofrendo refrações. Para resgatá-la seria necessário que as formas discursivas ressoassem umas nas outras em nome da própria dramaturgia que a sustenta, como se pode ler no trecho que se segue.

De fato, para um artista no processo de criação, as figuras de suas fantasias são a própria realidade; ele não apenas as vê, mas as ouve. Ele não as força a falar (como no discurso direto), as ouve falando. Esta impressão vívida de vozes ouvidas, como se fossem um sonho, pode ser expressa diretamente apenas na forma de discurso quase direto. Esta é uma forma da própria fantasia. Foi por isso que soou pela primeira vez no mundo dos contos de fadas de La Fontaine, por isso é um procedimento predileto de artistas como Balzac e especialmente Flaubert, que são capazes de submergir totalmente no mundo criado pela sua fantasia, esquecendo-se de tudo.

E o artista, usando essa forma, também se transforma apenas nas fantasias do leitor. Ele não procura comunicar com ele nenhum fato ou conteúdo do pensamento, ele quer apenas transmitir diretamente suas impressões, para despertar na alma do leitor imagens e ideias vivas. Ele se dirige não à razão, mas à imaginação. Somente do ponto de vista da razão que raciocina e analisa por meio de um discurso quase direto que o autor fala; para a fantasia viva, é a personagem que diz. A fantasia é a mãe dessa forma (VOLÓCHINOV, 2017, p.303)10.

No entendimento de Lorck a forma discursiva, a forma discursiva assim manifestada se apoia basicamente na vivência e naquilo que dela emana como fantasia, o que evidencia, para Volóchinov, a tendência a considerar o discurso como “organismo vivo” (energeia) (Волошинов, 1930/1972, p.146; VOLOSINOV, 1972, p.148; VOLÓCHINOV, 2017, p.304).

As formulações advindas dos trabalhos centrados na análise de realizações em que as formas discursivas são confrontadas com necessidades expressivas, comunicativas e perceptivas, mediadas por vivências distintas, leva Volóchinov a buscar a história dessa forma discursiva que se transforma em diferentes processos enunciativos, inicialmente na tradição francesa e depois na germana, desde período medieval.

Marco importante dessa investida foi a descoberta de que exemplares remotos na língua francesa mostram que o discurso narrativo não distinguia com clareza o que era discurso do autor e o que era citação da personagem. Sem opções gramaticais para tanto, o discurso narrativo não garantia o rigor de um discurso autoral consciente de seus limites como portador de discursos e como filtro da transmissão dos discursos de outrem. Insinuam-se nos usos praticados por essa época indícios formadores para constituir o ambiente discursivo das formações que ele denomina “nesobstvennaia-priamaia retch”, como se pode ler no fragmento.

No francês antigo, as construções psicológicas e gramaticais estavam longe de serem distinguidas por seus traços como elas o são agora. Constituintes paratáticos e hipotáticos se misturavam de modos muito variados e a pontuação estava em seu estágio embrionário. Por isso, não havia demarcações de fronteiras claras entre o discurso direto e o discurso indireto. O narrador do francês antigo era ainda incapaz de separar as figuras de sua fantasia de seu próprio “eu”. Ele participava de modo íntimo de suas palavras e de suas ações situando-se no interior, agindo como seu intercessor ou seu defensor. Ele não havia aprendido ainda a transmitir as palavras de outra pessoa de modo literal numa forma externa, evitando envolvimento e interferências pessoais. O temperamento do francês antigo ainda estava distante de julgamentos imparciais, objetivos e de observação especulativa. Não obstante, a dissolução do narrador nas personagens no francês antigo não era resultado de sua livre escolha mas sim decorrência de uma necessidade: a não distinção entre formas lógicas e sintáticas consistentes, com fronteiras mutuamente delimitadas. Por conseguinte, o discurso quase direto apareceu no francês antigo devido a deficiências gramaticais e não como um procedimento estilístico livre. O discurso quase direto nesse caso é o resultado da incapacidade gramatical de separar seu ponto de vista do narrador daquele representado pelas personagens. (Versão comparativa entre VOLÓCHINOV, 2017, p.306-307; VOLOŠINOV, 1973, p.150 e a versão russa11; ênfases nossas).

Se, no medievo, a transmissão do discurso alheio é praticamente inexistente, na Renascença se torna intuitiva uma vez que o narrador se alia a seus personagens de modo mais íntimo. Todavia, a personalização do discurso alheio só aconteceria no século XVII quando o discurso indireto se organiza com regras temporais e modais. O uso do imperfeito marca a distinção com o tempo presente do discurso direto marcando, assim, a independência do discurso autoral. Configura-se aí um terreno favorável ao aparecimento do discurso quase direto concebido como demanda de distinção e de coordenação das ações no tempo (consecutio temporum). Tal é o caminho que leva Volóchinov a considerar a importância da criação emblemática de La Fontaine, como se pode ler em sua formulação.

Para o fabulista La Fontaine, esse procedimento de discurso quase direto, que tão felizmente superava o dualismo da análise abstrata e da impressão direta, levando-os a uma consonância harmoniosa, era muito conveniente. O discurso indireto é muito analítico e sem vida. Já o discurso direto, embora recrie de modo dramático o enunciado alheio, é incapaz de criar nesse mesmo movimento uma cena para ele, um meio emocional para sua percepção (Versão comparativa entre VOLÓCHINOV, 2017, p.309; VOLOŠINOV, 1973, p.151 e a versão russa12; ênfase nossa)

Existe algo de revelador no resgate destes processos na marcha da história que diz respeito diretamente ao problema examinado por Volóchinov: focalizadas no contexto de seu desenvolvimento histórico, as formas discursivas evidenciam transformações estruturais que se manifestam diferentes níveis de amadurecimento. Contrariando a premissa estilística que consagrou o discurso indireto livre no século XX e delimitou o âmbito de sua constituição nos processos de transmissão, o fenômeno da forma compreendida como “nesobstvennaia-priamaia retch” evoca um quadro de possibilidades discursivas cujo desenvolvimento não se desvincula das contradições internas de seus próprios constituintes. Enquanto as formas de transmissão permitem uma categorização disjuntiva, as formas instáveis do discurso quase direto se movem de modo conjuntivo no sentido de superar seus próprios limites. Estamos diante de um argumento bastante significativo para a análise do fenômeno que Volóchinov tomara como desafio (Волошинов, 1930/1972, p.148; VOLOŠINOV, 1973, p.150; VOLÓCHINOV, 2017, p.306).

Não obstante Volóchinov considere a importância da criação discursiva em La Fontaine, em suas premissas mantém-se distante dos pressupostos de Lork uma vez que estes se manifestam como representação das vivências que, pela linguagem, tornam-se expressão da vida psíquica. O raciocínio de Volóchinov segue numa direção oposta: considera que o discurso não é uma vivência mas experiência de linguagem capaz de reagir ativamente ao discurso de outrem.

Ideologema como processo de reação ativa do discurso de outrem

Sem conceder primazia nem às categorias estilísticas abstratas apoiadas em recursos gramaticais nem às formas discursivas como expressão de vivências emocionais e psíquicas de modo amplo, a investigação de Volóchinov se distancia dos estudos firmados apenas na transmissão e, de certo modo, na representação. No horizonte de sua indagação se coloca somente a necessidade de entender os processos pelos quais discurso citado interage com citação, evidenciando as tensões que o falante experimenta com seu próprio discurso, quando sua fala se torna bivocalizada. Configura-se então uma experiência discursiva orquestrada pelos acentos valorativos de entoações que denunciam as reações ativas ao discurso de outrem. Embora se desenvolvam, na maioria das vezes, como discurso interior, não se trata de expressão da vivência mas sim manifestação de autoconsciência.

Estamos longe de entender reação ativa nos limites da transmissão e recepção discursivas. O campo de forças da reação ativa ao discurso de outrem se manifesta como luta entre discurso citado e citação, ao mesmo tempo que evidencia o deslocamento do enfoque centrado na vivência para a imersão no mundo vivo das experiências discursivas de enunciados em interação13.

Na obra de Volóchinov, o processo analítico de compreensão da reação ativa ao discurso do outro remonta ao contexto de sua análise do signo ideológico, quando redimensiona na palavra a trama de suas inflexões na arena do diálogo graças às forças que atuam no campo de sua realização: o processo de reflexão e de refração das ideias. No embate entre discurso citado e citação a reação ativa ao discurso de outrem acentua posicionamentos, o que Volóchinov entende como autêntica constituição do “ideologema”. Com este conceito, designa a culminância do processo de autoconsciência que emerge na reação ativa e se constitui como acentuação valorativa. No segmento em que introduz o conceito de ideologema em seu texto, considera a autoconsciência como uma personalidade que se elabora como criação verbal em diferentes contextos da produção ideológica, como se pode ler no trecho reproduzido a seguir.

A personalidade subjetiva interior com sua autoconsciência própria é dada não como um fato material, que pode servir de apoio a uma explicação causal, mas como um ideologema. A personalidade interior com todas as suas intenções subjetivas, com todas as suas profundezas interiores, é apenas um ideologema, e ainda por cima um ideologema impreciso e instável, enquanto ela não se definir em produto mais estáveis e elaborados da criatividade ideológica. Por isso é inútil explicar qualquer fenômeno e forma ideológicas por meio de fatores e intenções psíquico-subjetivas, pois isso significa explicar um ideologema mais claro e definido por meio de um outro ideologema mais confuso e desordenado (VOLÓCHINOV, 2017, p.311; VOLOŠINOV, 1973, p.152-153; ênfase nossa)14.

Por “ideologema” devemos entender um processo analítico que permite formular criticamente o entendimento das interações no embate das relações dialógicas e das refrações que nela se operam como reações ativas de alteridade. Se na transmissão uma, ou mais, dimensões se perde(m), no ideologema é fundamental o confronto das diferentes atuações reagentes. Com isso, Volóchinov formula uma de suas concepções mais frontalmente reativas aos limites conceituais que teorias consagraram na base de categorias parciais e muitas vezes equivocadas. Afirma, então: “Por conseguinte, não é a palavra que expressa a personalidade interior, mas a personalidade interior que é uma palavra externalizada ou internalizada”. (VOLÓCHINOV, 2017, p.311; VOLOŠINOV, 1973, p.153; ênfase nossa)15. Além de firmar a compreensão do idelogema como reação ativa do processo de autoconsciência, Volóchinov deflagra seu argumento mais pesado contra os estudos linguísticos fundados na estilística e no impressionismo das enunciações que, incapazes de compreender a complexidade dos processos que analisam, acabam criando categorias que apenas contribuem para banalizar os conflitos e tensões de pontos de vista discursivos sem os quais nenhum diálogo se constitui.

Do ponto de vista de suas refrações discursivas, a análise das relações discursivas a partir do ideologema alcança os confrontos quando, “[...] nas formas de transmissão do discurso citado, a própria linguagem reage à personalidade como portadora da palavra” (Versão comparada entre VOLOŠINOV, 1973, p.153; VOLÓCHINOV, 2017, p.312 e a versão russa16). Trata-se de uma elaboração que elevou a prosa verbal ao nível de elaboração artística uma vez que a citação se manifesta claramente como encarnação sonora do discurso citado revelado pelo contexto do autor (VOLOŠINOV, 1973, p.156; VOLÓCHINOV, 2017, p.317)17. Com isso, o ideologema se apresenta como um dispositivo analítico de apreensão, não de uma categoria, nem de uma classe, mas de um acontecimento discursivo cujo caráter comunicacional se configura pelo jogo de forças das relações discursivas em diálogo.

O pressuposto da bivocalidade entre citação e discurso citado não foi considerado nos estudos de Lorck e Lerch, que para Volóchinov são os teóricos que mais se aproximaram da experiência do discurso com a dupla entoação. Não obstante, faltou considerar o caráter valorativo das entoações que se confrontam no discurso. Ao que infere Volochinov:

Lorck e Lerch, ambos não consideraram um aspecto que é extremamente importante para a compreensão de nosso fenômeno: o julgamento de valor contido em cada palavra viva elaborada e expressa pela acentuação e entoação expressiva do enunciado. O sentido do discurso não é dado fora de sua acentuação e entonação viva e concreta. Em um discurso quase direto, reconhecemos uma palavra de outrem não tanto pelo significado tomada abstratamente, mas principalmente pela acentuação e entonação da personagem, nos termos da orientação valorativa do discurso.

Percebemos como essas avaliações alheias interrompem os acentos e entonações do autor. Isto é o que distingue, como sabemos, o discurso quase direto do discurso substituto, onde não aparecem novos acentos em relação ao contexto circundante do autor (Versão comparada entre VOLÓCHINOV, 2017, p.314-315; VOLOŠINOV, 1973, p.155 e a versão russa18)

Da entoação bivocalizada nasce não apenas uma trama discursiva de um jogo entre discurso citado e citação a partir do qual é possível alcançar as refrações da existência humana em suas condições sócio-históricas. Nesse quadro, a forma discursiva do ideologema é traduzida tanto pela semiose discursiva quanto pela projeção ideia encarnada em sua entoação, projetando-se, por conseguinte, como uma forma tridimensional que se manifesta no tempo/espaço de sua configuração. Em linhas gerais, é desta tridimensionalidade entoacional refratada no discurso que se trata a reação ativa do jogo entre discurso citado e citação na obra verbal de Dostoievski, examinada com minúcia e rigor por M. M. Bakhtin no tecido polifônico do discurso interior criado pelo escritor russo.

Por ora vale dizer que, do ponto de vista do ideologema definido como reação ativa ao discurso do outro, o discurso interior - das ideias sensíveis, imprecisas, especulativas - transcende os limites do discurso indireto livre. Primeiro, não cabe nos limites do discurso indireto; segundo, evoca uma fala-em-direto; terceiro, se coloca na tradição do discurso que não conhece seus limites no campo de um autor e leva às últimas consequências a bivocalidade dos enunciados chegando à polifonia no confronto entoativo dos muitos acentos. Assim, Volóchinov qualifica seu entendimento do discurso quase direto como fenômeno investigativo da criação verbal que não teme enfrentar a irreverência dos discursos da criação.

O discurso quase direto de modo algum exprime uma impressão passiva recebida do enunciado alheio. Pelo contrário, ele exprime uma orientação ativa e não uma mera alternância de primeira para terceira pessoa, de modo a imprimir na enunciação citada suas próprias entoações e acentos que se chocam com os acentos da enunciação do discurso/enunciação citada e neles interferem. [...] Cada forma de discurso citado percebe o discurso a ser citado em sua particularidade. (Versão comparada entre VOLOŠINOV, 1973, p.154; VOLÓCHINOV, 2017, p.314 e a versão russa19; ênfase nossa)

Se não é proposto como categoria, discurso quase direto ganha o estatuto de forma discursiva pela qual o ideologema pode ser examinado. Além da bivocalidade entre a entonação do contexto autoral e aquela que marca o discurso da personagem, examinado na análise de um trecho de Púchkin, Volóchinov considera que os acentos e entonações podem interagir de modo a provocar um isolamento em que se observa um descolamento do discurso autoral. Em situações como essas,

O discurso citado começa a soar como se fosse entoado num palco onde não há contexto circundante e onde as réplicas das personagens se confrontam entre si sem nenhuma concatenação gramatical. Então, a relação entre discurso citado e contexto autoral por meio da atuação absoluta, toma a forma análoga às relações entre as réplicas alternadas de um diálogo. Com isso, o autor se coloca no mesmo nível de seus personagens e seu relacionamento é dialogizado. Disso se conclui que a atuação absoluta do discurso citado em que a obra de ficção é lida em voz alta acontece em raríssimos casos (Versão comparada entre VOLOŠINOV, 1973, p.157; VOLÓCHINOV, 2017, p.318 e a versão russa.20)

Concluir que o discurso quase-direto não é, pois, categoria, modalidade e muito menos técnica estilística não significa alcançar a magnitude da formulação de Volóchinov no que se refere à geração do processo de interação social na base material da palavra entendida como signo ideológico por excelência. Consciente de que existem vários caminhos investigativos para se aproximar do fenômeno que analisa, Volóchinov optou por buscar a geração social da palavra na filosofia da palavra e, particularmente, na história da palavra na palavra. Ou, como afirma numa das formulações que, elaboradas a partir de Lork, pode ser tomada como paradigmática do pensamento que fecha o estudo sobre a “palavra que realmente significa e assume a seriedade pelo que diz.” (Versão comparada de VOLOŠINOV, 1973, p.159; VOLÓCHINOV, 2017, p.322 e a versão russa.21)

Conclusão

O raciocínio desenvolvido por Volóchinov é denso e sua abrangência não caberia nas poucas linhas de nosso ensaio. O dilema sobre a emergência discursiva aqui analisada se não é resolvido, pelo menos é apresentado no rigor e na complexidade do pensamento do autor. O problema apreendido e formulado por Volóchinov está longe de ser apenas uma escolha de tradução ou de ajuste terminológico. Por um lado, trata-se da percepção de que relatar o discurso de outrem envolve dificuldades que não se resolvem na esfera linguística mas se reportam a problemas de enunciação de experiências semióticas concretas; por outro, implica a investigação de um fenômeno novo nos estudos que avançam para além da transmissão, rumo à plenivalência da bivocalidade discursiva do diálogo. Nesse sentido, estamos diante, de fato, de uma nova episteme nos estudos do discurso em seus processos interativos, nas relações dialógicas e, particularmente, na criatividade verbal onde quer que ela se manifeste. Relação que, insistimos, extrapola os limites da transmissão e recepção e se configura como citação enunciativa mergulhada na trama contrastante de suas próprias entonações. Aqui, citação não se confunde com transmissão excedendo o campo da atuação discursiva autoral com o qual se confronta para se manifestar no hibridismo das formas geradas pelas ideias. No processo da comunicação dialógica, o trânsito das trocas discursivas se constituem como potências dialógicas que são, ou seja, como “ideologema” em relações dialógicas de seus ideólogos.

Volóchinov não propõe uma modalidade nem uma categoria, mas descobre um fenômeno potencialmente responsável por uma episteme. Disto ele mostrou ter plena consciência, como se pode ler no seu franco depoimento, relatado estrategicamente no final de seu ensaio:

Somos completamente conscientes das deficiências de nossos estudos e só podemos esperar que o fato de formular o problema da palavra na palavra tenha uma importância crucial. A história da verdade, a história da veracidade artística e a história da linguagem podem se beneficiar consideravelmente de um estudo das refrações do seu fenômeno básico - o enunciado concreto - nas construções da própria linguagem. (Versão comparativa entre VOLOŠINOV, 1973, p.158; VOLÓCHINOV, 2017, p.320 e a versão russa.22)

Volóchinov completa com tal pensamento sua “resposta à ciência da linguagem do século XIX-XX” (GRILLO, 2017, p.7-79), cumprindo com rigor a análise dos problemas fundamentais das abordagens teóricas consagradas sem hesitar em expor seus limites conceituais mais problemáticos. Como resposta, o resultado das investigações mantém-se coerente com os pressupostos elementares do entendimento dialógico dos fenômenos da linguagem na extensão potencial de sua criatividade verbal.

1Enunciação, enunciado e enunciado concreto são conceitos correlatos mas não equivalentes, como diferentes teorias já trataram de elucidar (TODOROV, 1970; BRAIT; MELO, 2005, p.78; DE OLMOS, 2006, p.91-97; SOUZA, 1999). Aqui se emprega enunciação no sentido amplo de realização dialógica das manifestações interativas no ato vivencial. (MACHADO, 1995, p.311; 337) Não se restringe, pois, ao verbal mas alcança a semiose comunicacional sócio-cultural mais ampla. Os estudos da enunciação consagraram estudos do filme no cinema (SIMON; VERNET, 1983, p.38). Quando a análise se refere ao enunciado, o objetivo é focar, na medida do possível, a unidade da interação verbal no processo de sua realização como linguagem. Já o enunciado concreto designa e distingue aquilo que na interação é realização discursiva: o discurso em toda potencialidade da linguagem que o realiza é o núcleo conceitual do enunciado concreto. O núcleo do enunciado concreto é a entoação, como examina Volóchinov. De um outro ponto de vista, Sergei Eisenstein mostrou como o mesmo fenômeno acontece na linguagem fílmica (EISENSTEIN, 1989, p.71-84; MACHADO, 1999, p.193-210).

2Esclarecemos ainda que por signo ideológico entendemos as refrações da palavra para se constituir como discurso no contexto da enunciação. Nesse sentido, a chave conceitual reside no confronto entre pontos de vista, a tensionar qualquer tendência conciliatória. Já o ideologema refere-se à realização do discurso concreto da palavra situada no campo enunciativo tendo como chave conceitual a distinção de seus acentos e entoações. Nesse sentido, o ideologema é construção do ideólogo responsável pelo discurso que enuncia.

3Para examinar a premissa de Volóchinov, o presente ensaio orienta-se por versões comparativas, recorrendo, prioritariamente, ao texto russo de Volóchinov de 1929-1930 publicado em 1972 pela Mouton; à versão em inglês de 1973, com prefácio do autor de 1929; à versão em português de 2017 que se baseia nas duas edições russas de 1929 e 1930. Consultamos ainda a tradução francesa de 1977, na qual se baseou a primeira versão em português de 1979. Dados bibliográficos completos citados nas referências.

4Correntes constituídas em torno de Karl Vossler (1872-1949), representante do idealismo alemão ou subjetivismo idealista; e Ferdinand Saussure (1857-1913) vinculado ao objetivismo abstrato. Volóchinov discute com ambos na segunda parte de seu livro. Para estudo da inserção do pensamento dessas correntes na obra de Volóchinov consultar GRILLO, 2017, p.7-80.

5Versão russa: Явление несобственной прямой речи, как особой формы передачи чужого высказывания, рядом с прямой и косвенной речью, было впервые указано Tobler'ом в 1887 г. (в “Zeitschr. f. roman. Philol.”, XI, S. 437). Он определил, что явление, как «своеобразное смешение прямой и косвенной речи» (“Eigentumliche Mischung direktеr und indirekter Redem). Из прямой речи эта смешанная форма заимствует, по Tobler'у, тон и порядок слов, а из косвенной - времена и лица глаголов. Как чисто описательное, это определение может быть принято. Действительно, с точки зрения поверхностного сравнительного описания признаков, соответствующие различия и сходства данной формы с прямою и косвенною речью Toblep'ом указаны правильно, Но слово “смешение” в данном определении совершенно неприемлемо, так как включает генетическое объяснение - “образовалось из смешения”, что едва ли может быть доказано. Да и чисто описательно оно неверно, ибо перед нами не простое механическое смешение или арифметическое сложение двух форм, но совершенно новая, положительная тенденция активного восприятия чужого высказывания, особое направление динамики взаимоотношения авторской и чужой речи. Но этой динамики Tobler не слышит, констатируя лишь абстрактные приЗнаки шаблонов. (Волошинов, 1930/1972, p.139-140; ênfase nossa).

6Sabemos que a compreensão do discurso indireto livre se desenvolve com Charles Bally em análise das técnicas estilísticas dos romances de Gustave Flaubert e Emile Zola, publicada no ensaio que se tornou clássico: Le style indirecte libre en français moderne. Neste ensaio, segundo Othon Garcia (1971, p.128), “Bally chamou a atenção para a nova técnica, até então ignorada pelas gramáticas”, reconhecendo nela “uma forma de pensamento” inalcançável para as formas gramaticais (BALLY, 1912, p.605; apudGARCIA, 1971, p.128, nota 46). A proposição conceitual seria consagrada a partir de 1926 quando Marguerite Lips escreve um ensaio sobre Le style indirecte libre de modo a formular as bases do conceito (GARCIA, 1971, p.128), marcando definitivamente a linguística estilística francesa que se consagrou no ocidente de modo generalizado.

7[...]Bally указывает что эта разновидность косвенной речи, которую он и называет соответственно style indirесt librе, не является застывшею формой, а находится в движении, стремясь к прямой речи, как к своему пределу. В найболее выразительных случаях, по ваllу, трудно бывает определить, где кончается «style indirесt libre» и начинается «style direct». (Волошинов, 1930/1972, p.142)

8Versão russa: не прав Ваllу и тогда, когда он указывает в качестве аналогии французской несобственной прямой речи на немецкую косвенную конструкцию второго типа. Эта ошибка его чрезвычайно характерна. С точки брения абстрактно-грамматической аналогия Ваllу безукоризненна, но c tочки зрения социально-речевой тенденции это сопоставление не выдерживает критики. Ведь одна и та же социально-речевая тенденци (oпределяемая одними и теми же социально-экономическими условиями) в различных языках, в зависимости от их грамматических структур, может проявиться в различных внешних признаках. В том или ином языкe начинает модифицироваться в определенном направлении именнo тот шаблон, который оказывается наиболее гибким в данном отношeнии. Таким во французском языке оказался шаблон косвенной речи, в немецком и русском - прямой речи. (Волошинов, 1930/1972, p.143)

9Versão russa: На самом деле, в абстрактной системе языка, где даны fоrmеѕ linguistiques Bally, нет движения, нет жизни, нет свершения. Жизнь начинастся лишь там, где сходится высказывание с высказыванием, т. е. там, где начинается речевое взаимодействие, хотя бы и не непосредстесное, «лицом к лицу», а опосредствованное, литературное. (Волошинов, 1930/1972, p.143)

10Versão russa: В самом деле, для художника в процессе творчества образы его фантазий являются самою реальностью; он не только видит их, но и слышит. Он не заставляет их говорить (как в прямой речи), он слышит их говорящими. И это живое впечатление от как бы во сне услышанных голосов может быть непосредственно выражено только в форме несобственной прямой речи. Это - форма самой фантазии. Потому-то она и зазвучала впервые в сказочном мире Лафонтена, потому-то она и является излюбленным приемом таких художников, как Бальзак и oсобенно Флобер, способных совершенно погрузиться и забыться в созданном их фантазией мире. и художник, употребляя эту форму, обращается тоже только в фантазии читателя. Он не стремится сообщить с ее помощью какихлибо фактов или содержания мышления, он хочет лишь непосредственно передать свои впечатления, пробудить в душе читателя живые образы и представления. Он обращается не к рассудку, но к воображению. Только с точки зрения рассуждающего и анализирующего рассудка в несобственной прямой речи говорит автор, для живой фантазии говорит герой. Фантазия - мать этой формы. (Волошинов, 1930/1972, p.145-6)

11Versão russa: В старо-французском языке психологические и грамматические конструкции еще далеко не столь строго различались, как теперь. Паратаксические и гипотаксические сочетания еще многообразно переменнивались. Пунктуация находилась еще в зачатке. Поэтому не было рекзких границ между прямой и косвенною речью. Старо-французский рассказчик еще не умеет отделить образов своей фантазии от своего собственного “я”. Он внутренне участвует в их поступках и словах, выступает, как их ходатай и защитник. Он еще не научился передавать слова другого в их дословном внешнем виде, воздерживаясь от собственного участия и вмешательства. Его старо-французский темперамент еще далек от спокойного, созерцательного наблюдения и объективного суждения. Однако, это растворение рассказчика в своих героях в старо-французском языке является не только результатом его свободного выбора, но и необходимости: отсутствовали строгие логические и синтаксические формы для отчетливого взаиморазграничения. И вот на почве этого грамматического недостатка, а не как свободный стилистический прием, и появляется впервые в старо-французском языке несобственная прямая речь. Здесь она - результат простого грамматического неумения отделить свою точку зрения, свою позицию от позиции своих героев. (Волошинов, 1930/1972, p.148; ênfase nossa)

12Versão russa: Баснописцу Лафонтену очень подходил этот прием несобственной прямой речи, столь счастливо преодолевающей дуализм абстрактного анализа и непосредственного впечатления, приводя их к гармоничному созвучию. Косвенная речь слишком аналитична и мертвенна. Прямая же речь, хотя она и воссоздает драматически чужое высказывание, не способна одновременно же создать и сцену для него, душевное эмоциональное milieu для его восприятия. (Волошинов, 1930/1972, p.149; ênfase nossa).

13Vale lembrar da importância do conceito de Erfahrung na concepção de Walter Benjamin em seu clássico estudo do narrador. Entendido como experiência de um conhecimento dialogicamente construído por diferentes gerações em produções de linguagem (narrativas sob forma de contos, fábulas, sagas, parábolas, provérbios etc.), a Erfahrung se constitui como uma espécie de atavismo histórico-cultural, distinto, porém, da vivência (Erlebnis), que não implica mediação de linguagem mas tão somente exprime comportamentos. Segundo Benjamin, a modernidade, ao valorizar de modo excessivo a vivência (Erlebnis), coloca a experiência (Erfahrung) sob ameaça, o que se agravou com o pós-guerra, praticamente anulando a capacidade de contar por meio dessa memória de um passado comum de muitos a ser transmitido a outros inúmeros (BENJAMIN, 1992, p.57). O conceito benjaminiano de Erfahrung ressoa na noção de recepção ativa concebida por Volóchinov, acentuando seu caráter de realização dialógica interdiscursiva e como experiência histórico-cultural e sociodiscursiva da linguagem não limitada à vivência.

14Versão russa: Внутренняя субьективная личность с ее собственным самосознанием дана не как материальный факт, могущий служить опорой для каузального объяснения, но как идеологема. Внутренняя личность, со всеми ее субъективными интенциями, со всеми ее внутренними глубинами только идеологема; и идеологема смутная и зыбкая, пока она не определит себя в ботее устойчивых и проработанных продуктах идеологического творчества. Поэтому бессмысленно объяснять какие-либо идеологические явления и формы с помощью субъективно-психических факторов и интенций: ведь это значит объяснять более ясную и отчетливую идеологему идеологемой же, но более смутной и сумбурной. (Волошинов, 1930/1972, p.150-151; ênfase nossa].

15Versão russa: Следовательно, не слово является выражением внутренней личности, а внутренняя личность есть выраженное или загнанное во внутрь слово. (Волошинов, 1930/1972, p.151)

16Versão russa: [...] в формах передачи чужой речи, сам язык реагирует на личность как на носительницу слова (Волошинов, 1930/1972, p.152).

17Versão russa: проблемы звукового воплощения чужой речи, обнаруженной авторским контекстом (Волошинов, 1930/1972, p.155).

18Versão russa: и Lorck и Lerch, оба одинаково не учитывают одного чрезвычайно важного для понимания нашего явления момента: оценки, заложенной в каждом живом слове и выражаемой акцентуацией и экспрессивной интонацией высказывания. Смысл речи не дан вне своей живой и конкретной акцентуации и интонации. В несобственной прямой речи мы узнаем чужое слово не столько по смыслу, отвлеченно взятому, но прежде всего по акцентуации и интонированию героя, по ценностному направлению речи. Мы воспринимаем, как эти чужие оценки перебивают авторские акценты и интонации. Этим и отличается, как мы знаем, несобственная прямая речь от замещенной речи, где никаких новых акцентов по отношению к окружающему авторскому контексту не появляется. (Волошинов, 1930/1972, p.153; ênfase nossa]

19Versão russa: Несобственная трямая речь вовсе не выражает пассивного впечатления от о чужого высказывания, но выражает активную ориентацию, отнюдь не сводяшуюся к перемене первого лица в третье, а вносящую свои акценты в чужое высказывание, которые сталкиваются и интерферируют здесь с акцентами чужого слова. [...] Каждая форма передачи чужой речи по-своему воспринимает чужое слово и активно его прорабатывает, [...] (Волошинов, 1930/1972, p.152-153; ênfase nossa)

20Versão russa: Чужая речь начнет звучать как в драме, где нет объемлющего контекста и где репликам героя противостоят грамматически разобщенные сним реплики другого героя. Таким образом, путем абсолютного разыгрывания между чужою речью и авторским контекстом устанавливаются отношения, аналогичные отношению одной реплики к другой в диалоге. Этим автор ставится рядом с героем, и их отношения диалогизуются. Из всего этого с необходимостью вытекает, что абсолютное разыгрывание чужой речи при чтении вслух художественной прозы допустимо лишь в редчайших случаях (Волошинов, 1930/1972, p.155).

21No trecho final da versão russa se afirma [...] только и возможно обновление идеологического слова, тематического, проникнутого уверенной и категорической социальной оценкой, серьезного и ответственного в своей серьезности слова (Волошинов, 1930/1972, p.157).

22Versão russa: Мы отлично понимаем ее недостаточность и надеемся лишь на то, что самая постановка проблемы слова в слове имеет существенное значение. История истины, история художественной правды и история языка могут много выиграть от изучения преломлений их основного феномена - конкретного высказывания - в конструкциях самого языка (Волошинов, 1930/1972, p.156).

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Recebido: 09 de Julho de 2019; Aceito: 20 de Outubro de 2019

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