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Epidemiologia e Serviços de Saúde

versão impressa ISSN 1679-4974versão On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.29 no.1 Brasília  2020  Epub 17-Abr-2020

https://doi.org/10.5123/s1679-49742020000100022 

ARTIGO ORIGINAL

Prevalência e fatores associados à violência contra professores em escolas do ensino médio em Teresina, Piauí, 2016: estudo transversal*

Prevalencia y factores asociados a la violencia contra profesores en escuelas de enseñanza secundaria en Teresina, Piauí, 2016: estudio transversal

Patrícia Viana Carvalhedo Lima¹ 
http://orcid.org/0000-0003-3582-4096

Malvina Thaís Pacheco Rodrigues1 
http://orcid.org/0000-0001-5501-0669

Márcio Dênis Medeiros Mascarenhas1 
http://orcid.org/0000-0001-5064-2763

Keila Rejane Oliveira Gomes1 
http://orcid.org/0000-0001-9261-8665

Cássio Eduardo Soares Miranda1 
http://orcid.org/0000-0002-8990-1205

Karoline de Macêdo Gonçalves Frota1 
http://orcid.org/0000-0002-9202-5672

1Universidade Federal do Piauí, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comunidade, Teresina, PI, Brasil


Resumo

Objetivo:

analisar a prevalência de violência contra professores do ensino médio e fatores associados em Teresina, Piauí.

Métodos:

estudo transversal com amostragem por conveniência. Os dados foram coletados em 2016, em escolas públicas e privadas do ensino médio, utilizando-se questionário autoaplicável. Calcularam-se as razões de prevalência (RP) por regressão de Poisson e intervalos de confiança de 95% (IC95%).

Resultados:

participaram da pesquisa 279 professores, dos quais 54,8% (IC95% 48,8; 60,7) relataram ter sofrido pelo menos um tipo de violência. Houve maior prevalência de insultos verbais (39,4%; IC95% 33,7;45,4), associados positivamente às escolas públicas (RP=1,45; IC95%1,00;2,11) e às escolas das regiões Leste (RP=1,85; IC95% 1,17;2,93) e Sul (RP=1,59; IC95% 1,05;2,41). Assédio sexual foi associado ao sexo masculino (RP=2,38; IC95% 2,02;2,71).

Conclusão:

a violência contra docentes foi maior em escolas públicas, localizadas em regiões periféricas e com elevados indicadores de violência urbana.

Palavras-chave: Violência; Professores Escolares; Instituições Acadêmicas; Saúde Pública; Saúde do Trabalhador; Estudos Transversais

Resumen

Objetivo:

analizar la prevalencia de violencia contra docentes de secundaria y factores asociados en Teresina, Piauí.

Métodos:

estudio transversal con muestreo de conveniencia. Se recolectaron los datos, en 2016, utilizando un cuestionario autoadministrado, en escuelas públicas y privadas de enseñanza secundaria. Se calcularon las razones de prevalencia (RP) por la regresión de Poisson y los intervalos de confianza de 95% (IC95%).

Resultados:

participaron 279 profesores, de los cuales un 54.8% (IC95% 48.8;60.7) relató haber sufrido al menos un tipo de violencia. Hubo mayor prevalencia de insultos verbales (39.4%; IC95% 33.7;45.4), positivamente asociados a las escuelas públicas (RP=1.45; IC95% 1.00;2.11) y en las regiones Este (RP=1.85; IC95% 1.17;2.93) y Sur (RP=1.59; IC95% 1.05;2.41). El acoso sexual se asoció al sexo masculino (RP=2,38; IC95%: 2,02;2,71).

Conclusión:

la violencia fue mayor en las escuelas públicas de las regiones periféricas más violentas.

Palabras clave: Violencia; Maestros; Instituciones Académicas; Salud Colectiva; Salud Laboral; Estudios Transversales

Abstract

Objective:

to analyze prevalence of violence against high school teachers and associated factors in Teresina, Piauí, Brazil.

Methods:

this was a cross-sectional study using convenience sampling. Data was collected in 2016 in public and private high schools, using a self-administered questionnaire. Prevalence ratios (PR) using Poisson regression and 95% confidence intervals (95%CI) were calculated.

Results:

279 teachers participated, of whom 54.8% (95%CI 48.8;60.7) reported having suffered at least one type of violence. Verbal insults were most prevalent (39.4%; 95%CI 33.7;45.4), positively associated with public schools (PR=1.45; 95%CI 1.00;2.11) and with schools in the city’s Eastern region (PR=1.85; 95%CI 1.17;2.93) and Southern region (PR=1.59; 95%CI 1.05;2.41). Sexual harassment was associated with males (PR=2.38; 95%CI 2.02;2.71).

Conclusion:

violence against teachers was higher in public schools in poorer outskirt regions and regions with high indicators of urban violence.

Keywords: Violence; School Teachers; Schools; Public Health; Occupational Health; Cross-sectional Studies

Introdução

A violência sofrida pelo professor na escola e a inserção deste profissional em ambiente insalubre podem levar a situações de estresse constante e a um grande descontentamento com sua atividade laboral.1 O professor vítima de atos violentos muda seu comportamento devido ao desgaste emocional, e não consegue ministrar aulas de maneira eficiente. São comuns os problemas emocionais e psiquiátricos entre os docentes que sofrem agressões, pois estes se sentem constantemente inseguros na sala de aula.2

Superlotação das salas de aula e despreparo do professor para atuar em situações de conflito contribuem para a vulnerabilidade do docente.3 Além disso, a violência pode estar relacionada à responsabilidade do professor em avaliar o desempenho do aluno, à insatisfação deste com o processo e o resultado avaliativo, bem como ao acesso dos alunos a armas de fogo ou objetos perfurocortantes.4

Cerca de 80% de 3 mil docentes entrevistados em inquérito nacional por telefone nos Estados Unidos, em 2010, relataram ter sofrido algum tipo de violência, e 44% afirmaram ter sido vítimas de agressões físicas.5 Na Coreia do Sul, em 2010, um terço de mil professores entrevistados sofreram ameaça verbal, agressividade ou abuso por alunos nos dois anos anteriores. As vítimas de violência apresentaram dificuldades em seus relacionamentos pessoais e com os alunos, baixa autoestima e medo.6

Revisão sistemática, com 24 estudos quantitativos brasileiros realizados de 2002 a 2013, constatou que as formas de violência contra professores mais relatadas foram insultos verbais, assédio sexual e violência patrimonial.7 A violência física foi relatada por um em cada 12 professores de educação física do Paraná, em 2013.8

As agressões e infrações ocorridas nas escolas são de difícil monitoramento epidemiológico, o que pode ser justificado pela baixa adesão das instituições de ensino aos instrumentos de notificação e denúncia e pelo não reconhecimento dessas infrações como atos violentos que devam ser notificados.9

Apesar do reconhecimento da violência escolar como um dos problemas mais recorrentes dentro das escolas, os estudos a respeito desse assunto ainda são restritos e, em sua maioria, abordam a temática do bullying. As pesquisas com docentes geralmente investigam a percepção do professor diante de situação de conflito e violência,7,8,10-12 mas ainda são escassas as pesquisas sobre os atos violentos que os docentes sofrem ao exercer seu trabalho. É necessário ampliar o estudo sobre a violência no cotidiano escolar e estudar as diversas formas e atores envolvidos no processo, de forma a se fornecerem subsídios para o estabelecimento de estratégias de enfrentamento da violência na escola.

Diante da relevância do tema para a saúde pública e do impacto dos casos de agressões e crimes no espaço escolar para alunos e docentes, a presente pesquisa teve o objetivo de analisar a prevalência de violência contra professores do ensino médio e fatores associados em Teresina, Piauí.

Métodos

Delineamento

Trata-se de estudo transversal com dados de inquérito de base escolar realizado no primeiro semestre de 2016, em escolas públicas e particulares de ensino médio de Teresina, Piauí. A pesquisa é parte do projeto Saúde na escola: diagnóstico situacional no ensino médio.13

Contexto

Teresina é a capital do Piauí, estado localizado na região Nordeste do Brasil. No ano de 2016, o município contava com uma população de 847.430 pessoas. Segundo o Censo Escolar de 2014, havia 40.136 alunos matriculados no ensino médio, em escolas públicas e particulares. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), na dimensão educação, era de 0,707, e menos de 50% da população de 18 a 20 anos possuía ensino médio completo. A proporção de pessoas com 10 anos ou mais alfabetizadas alcançava 91,5%. No ano de 2015, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), nos anos finais da rede estadual, foi de 3,8, valor abaixo da meta, que era de 4,0.14

No período da pesquisa, havia 155 escolas públicas e 163 escolas particulares responsáveis pela oferta de vagas no ensino médio, profissionalizante e de educação de jovens e adultos em Teresina. Destas, algumas ofereciam apenas ensino médio, enquanto outras ofereciam ensino médio e profissionalizante concomitantemente.14

As escolas públicas de Teresina são agrupadas geograficamente em quatro regionais de ensino, conforme especificado a seguir.

Centro/Norte: região central, de maior desenvolvimento urbano e comercial14 e com menor índice de crimes violentos na cidade.15

Sul: região periférica, composta por muitos conjuntos residenciais populares,14 e com maiores índices de violência, principalmente nos bairros mais afastados.15

Leste: área geográfica de intenso desenvolvimento urbano e comercial,14 que se encontra em terceiro lugar entre as regiões com maiores taxas de mortes ocorridas por crimes violentos.15

Sudeste: região de muitos conjuntos residenciais populares e intenso desenvolvimento comercial.14 Apresenta um dos menores índices de crimes violentos da cidade.15

Para a pesquisa, as escolas particulares foram distribuídas geograficamente de acordo com a territorialização predeterminada para as escolas públicas.

Participantes

A população do estudo foi composta por todos os professores do ensino médio das redes pública e particular de Teresina, Piauí, os quais se encontravam em atividade laboral no período da coleta de dados, nas escolas selecionadas.

As escolas foram selecionadas por meio de amostragem probabilística estratificada. Foi realizado sorteio de uma escola pública e uma particular de cada porte (pequeno: até 115 alunos; médio: 116-215 alunos; e grande: mais de 215 alunos, conforme tercis de distribuição do número de alunos matriculados)13 e de cada uma das quatro áreas geográficas de Teresina; desse modo, todas as escolas tinham a mesma chance de participar do estudo. Foram sorteadas 12 escolas públicas e 12 escolas particulares, com representatividade de todas as escolas do ensino médio da zona urbana de Teresina.

Todos os professores presentes nas escolas, durante as visitas dos pesquisadores, foram convidados a participar da pesquisa. Em cada escola, os pesquisadores compareceram nos turnos manhã, tarde e noite, nos dias de segunda a sexta-feira, para abordar todos os professores presentes individualmente. Após a abordagem inicial, foram feitas até cinco visitas para se recolherem os questionários preenchidos, visto que alguns professores não preencheram o questionário no momento da abordagem inicial e optaram por devolvê-lo em outra data. As visitas dos pesquisadores foram feitas com base na distribuição de horários dos professores em cada escola. A amostragem se deu por conveniência, composta pelos professores que concordaram em participar da pesquisa e devolveram os questionários preenchidos.

Variáveis

As variáveis dependentes relacionadas ao relato de violência foram as seguintes:

  • ocorrência de violência (resposta positiva a pelo menos um dos tipos de violência: física; verbal; assédio sexual; intimidação);

  • violência física (sim; não);

  • violência verbal (sim; não);

  • assédio sexual (sim; não);

  • intimidação (sim; não).

  • Analisaram-se as seguintes variáveis independentes relacionadas aos aspectos sociodemográficos e profissionais:

  • sexo (feminino, masculino);

  • faixa etária (até 40 anos; acima de 40 anos);

  • administração escolar (pública; particular);

  • gerência regional de ensino (Sul; Sudeste; Centro/Norte; Leste);

  • possui pós-graduação (sim; não);

  • tempo de docência (até 13 anos; acima de 13 anos); e

  • quantidade de escolas em que trabalha (uma escola; mais de uma escola).

Fonte de dados e mensuração

Utilizou-se questionário autoaplicável, semiestruturado e codificado, com questões sobre aspectos sociodemográficos, profissionais e relatos de violência. As perguntas relacionadas à violência contra os professores foram baseadas em um questionário aplicado em estudo realizado com professores no Paraná.4 Algumas perguntas foram adaptadas de acordo com os objetivos do estudo. As respostas foram dicotomizadas. Os dados foram coletados com a participação de alunos dos cursos de graduação e pós-graduação de uma universidade pública. Realizou-se estudo piloto, no qual houve a oportunidade de teste sistemático de execução da pesquisa e treinamento dos entrevistadores na abordagem aos professores.

O relato de ocorrência de violência foi obtido por meio de resposta positiva dos professores a pelo menos uma das seguintes questões: Nos últimos 12 meses, você vivenciou algum ato de violência no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você recebeu insultos verbais de seus alunos no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você recebeu insultos verbais de colegas de trabalho no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você foi vítima de violência física por alunos no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você foi vítima de violência física por colegas de trabalho no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você já foi intimidado(a) por algum aluno que portava arma de fogo ou branca no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você já foi intimidado(a) por algum colega de trabalho que portava arma de fogo ou branca no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você se sentiu pressionado(a) a favorecer, contra sua vontade, algum aluno a passar de ano ou facilitar seu desempenho escolar? Nos últimos 12 meses, você se sentiu pressionado(a) por um colega de trabalho a favorecer, contra sua vontade, algum aluno a passar de ano ou facilitar seu desempenho escolar? Nos últimos 12 meses, você se sentiu assediado(a) sexualmente por alunos no ambiente escolar? Nos últimos 12 meses, você se sentiu assediado(a) sexualmente por colegas de trabalho no ambiente escolar?4

Em visita inicial às escolas, nos três turnos de funcionamento, de segunda a sexta-feira, os professores foram orientados quanto aos aspectos metodológicos e éticos da pesquisa. Caso concordassem em participar do estudo, os docentes recebiam o questionário, que poderia ser preenchido no momento ou devolvido aos pesquisadores em uma das cinco visitas subsequentes às escolas. O questionário era anônimo, sem se permitir a identificação dos professores.

Controle de viés

Para evitar o viés de informação, permitiu-se que os professores levassem o questionário para casa, a fim de obstar qualquer constrangimento relacionado à temática da violência no ambiente de trabalho. Além disso, foram realizadas até cinco visitas em cada escola, com o objetivo de se obter o maior número possível de questionários preenchidos pelos docentes.

Tamanho do estudo

Todos os docentes vinculados às escolas participantes que não estavam de licença, férias ou ausentes em uma das visitas às unidades de ensino, e que devolveram os questionários preenchidos, participaram do estudo.

Métodos estatísticos

Foram calculadas frequências relativas e absolutas para a caracterização dos indivíduos e, para se verificar a associação entre a ocorrência de violência e as variáveis independentes, foi utilizado o teste de Wald, com nível de significância de 5%. Calcularam-se razões de prevalência (RP) brutas e ajustadas e seus intervalos de confiança de 95% (IC95%), segundo modelo de regressão de Poisson com variância robusta. As análises foram realizadas com auxílio do software Statistical Package for the Social Science versão 20.

Aspectos éticos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), por meio do parecer nº 1.495.975, no dia 13/04/2016. A autorização para realização do estudo foi concedida pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Piauí (Seduc/PI) e pelos diretores das escolas particulares. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Resultados

Do total de 500 professores vinculados às 24 escolas sorteadas, 279 (55,8%) aceitaram participar da pesquisa e devolveram os questionários preenchidos. A maioria dos professores era do sexo masculino (58,1%), tinha até 40 anos de idade (58,5%), atuava em escolas da regional Centro/Norte (43,0%), trabalhava em mais de uma escola (75,9%), concluiu o ensino superior em instituições públicas (97,5%) e possuía pós-graduação (69,1%). Os professores tinham, em média, 13,1±7,8 anos de docência (Tabela 1).

Tabela 1 - Características dos professores do ensino médio de escolas públicas e particulares de Teresina, Piauí, 2016 (n=279) 

Características n %
Sexo (n= 279)
Feminino 162 58,1
Masculino 117 41,9
Faixa etária (n=224)a
Até 40 anos 131 58,5
Acima de 40 anos 93 41,5
Administração escolar (n= 279)
Particular 140 50,2
Pública 139 49,8
Regional de ensino (n=279)
Centro/Norte 120 43,0
Leste 46 16,5
Sudeste 46 16,5
Sul 67 24,0
Local da graduação (n= 278)a
Universidade pública 271 97,5
Universidade particular 7 2,5
Pós-graduação (n=275)a
Sim 190 69,1
Não 85 30,9
Tempo de atuação na docência (n= 241)a
Até 13 anos 124 51,5
Acima de 13 anos 117 48,5
Atuação em mais de uma escola (n= 274)a
Sim 208 75,9
Não 66 24,1

a) Perdas devidas a questionários incompletos nessa variável.

A violência no espaço escolar foi relatada por 54,8% (IC95% 48,8;60,7) dos professores. Insultos verbais foram os mais frequentes (39,4%; IC95% 33,7;45,4), seguidos de pressão para favorecer algum aluno contra a sua vontade (26,9%; IC95% 21,8;32,6), assédio sexual (15,4%; IC95% 11,5;20,3), intimidação com arma de fogo ou branca (2,2%; (IC95% 0,8;4,8) e violência física (1,4%; IC95% 0,5;3,9); (Figura 1).

Figura 1 - Prevalência e intervalo de confiança de 95% de violência contra professores do ensino médio de escolas públicas e particulares de Teresina, Piauí, 2016 (n=279) 

Escolas localizadas nas regionais Leste (RP=1,65; IC95% 1,14;2,39) ou Sul (RP=1,48; IC95% 1,05;2,08) apresentaram associação positiva com violência, em comparação às escolas da regional Centro/Norte (Tabela 2). Ter sido alvo de insultos verbais foi associado positivamente ao trabalho em escolas de administração pública (RP=1,45; IC95% 1,00;2,11) e com aquelas das regionais Leste (RP=1,85; IC95% 1,17;2,93) e Sul (RP=1,59; IC95% 1,05;2,41; Tabela 3), em comparação com as escolas do Centro/Norte. Trabalhar em uma única escola foi associado negativamente ao assédio sexual (RP=0,93; IC95% 0,86;0,99; Tabela 4).

Tabela 2 Razão de prevalência de violência contra professores e intervalo de confiança de 95%, segundo aspectos sociodemográficos e profissionais, em escolas do ensino médio das redes pública e particular de Teresina, Piauí, 2016 (n=279) 

Variáveis Algum tipo de violência RPa bruta RPa ajustada
n % IC95% b p-valorc IC95% b p-valorc
Sexo 0,969 0,430
Masculino 89 54,9 1,00 (0,80;1,24) 0,89 (0,67;1,18)
Feminino 64 54,7 1 1
Faixa etária 0,596 0,341
Acima de 40 anos 53 57,0 1,06 (0,84;1,35) 1,17 (0,84;1,62)
Até 40 anos 70 53,4 1 1
Administração escolar 0,252 0,794
Pública 81 58,3 1,13 (0,91;1,40) 1,03 (0,78;1,38)
Particular 72 51,4 1 1
Regional de ensino 0,035 0,021
Leste 31 67,4 1,47 (1,11;1,94) 1,65 (1,14;2,39)
Sul 42 62,4 1,36 (1,04;1,78) 1,48 (1,05;2,08)
Sudeste 25 54,3 1,18 (0,85;1,64) 1,14 (0,74;1,76)
Centro/Norte 55 45,8 1 1
Pós-graduação 0,939 0,809
Sim 106 55,8 1,00 (0,80;1,26) 0,96 (0,71;1,30)
Não 47 55,3 1 1
Tempo de atuação na docência 0,445 0,309
Acima de 13 anos 68 58,1 1,09 (0,87;1,36) 1,19 (0,84;1,67)
Até 13 anos 66 53,2 1 1
Atuação em mais de uma escola 0,916 0,643
Sim 115 55,3 1,01 (0,78;1,30) 0,92 (0,65;1,29)
Não 36 54,6 1 1

a) Razão de prevalência.

b) Intervalo de confiança de 95%.

c) Teste de Wald.

Tabela 3 - Razão de prevalência de insultos verbais contra professores e intervalo de confiança de 95%, segundo aspectos sociodemográficos e profissionais, em escolas do ensino médio das redes pública e particular de Teresina, Piauí, 2016 (n=279) 

Variáveis Insultos verbais RPa bruta RPa ajustada
n % IC95% b p-valorc IC95% b p-valorc
Sexo 0,143 0,650
Feminino 52 44,4 1,24 (0,93;1,65) 1,08 (0,77;1,51)
Masculino 58 35,8 1 1
Faixa etária 0,736 0,114
Acima de 40 anos 39 41,9 1,05 (0,76;1,45) 1,37 (0,92;2,02)
Até 40 anos 52 39,7 1 1
Administração escolar 0,014 0,048
Pública 65 46,8 1,45 (1,07;1,96) 1,45 (1,00;2,11)
Particular 45 32,1 1 1
Regional de ensino 0,032 0,033
Leste 25 54,4 1,76 (1,20;2,56) 1,85 (1,17;2,93)
Sul 29 43,3 1,40 (0,95;2,06) 1,59 (1,05;2,41)
Sudeste 19 41,3 1,34 (0,86;2,07) 1,22 (0,73;2,05)
Centro/Norte 37 30,8 1 1
Possui pós-graduação 0,060 0,226
Sim 82 43,2 1,41 (0,98;2,02) 1,27 (0,86;1,89)
Não 26 30,6 1 1
Tempo de atuação na docência 0,494 0,096
Até 13 anos 52 41,9 1,11 (0,81;1,52) 1,41 (0,94;2,13)
Acima de 13 anos 44 37,6 1 1
Atuação em mais de uma escola 0,264 0,882
Sim 86 41,4 1,24 (0,85;1,81) 1,04 (0,65;1,64)
Não 22 33,3 1 1

a) Razão de prevalência.

b) Intervalo de confiança de 95%.

c) Teste de Wald.

Tabela 4 - Razão de prevalência de assédio sexual contra professores e intervalo de confiança de 95%, segundo aspectos sociodemográficos e profissionais, em escolas do ensino médio das redes pública e particular de Teresina, Piauí, 2016 (n=279) 

Variáveis Assédio sexual RPa bruta RPa ajustada
n % IC95% b p-valorc IC95% b p-valorc
Sexo 0,004 0,367
Feminino 10 8,6 1 1
Masculino 33 20,4 2,38 (2,02;2,71) 1,03 (0,96;1,10)
Faixa etária 0,120 0,198
Até 40 anos 27 20,6 1 1
Acima de 40 anos 12 12,9 0,63 (0,81;1,03) 0,95 (0,87;1,03)
Administração escolar 0,236 0,168
Particular 18 12,9 1 1
Pública 25 18,0 1,40 (0,96;1,17) 1,05 (0,98;1,13)
Regional de ensino 0,113 0,203
Sudeste 5 10,9 1 1
Leste 10 21,7 2,00 (1,81;2,12) 1,07 (0,99;1,16)
Sul 5 7,5 0,69 (0,51;1,07) 0,99 (0,80;1,10)
Centro/Norte 23 19,2 1,76 (0,98;1,91) 1,07 (0,99;1,16)
Pós-graduação 0,353 0,452
Sim 27 14,2 1 1
Não 16 18,8 1,32 (0,97;1,08) 1,03 (0,95;1,11)
Tempo de atuação na docência 0,730 0,712
Até 13 anos 20 16,1 1 1
Acima de 13 anos 17 14,5 0,90 (0,84;1,19) 0,98 (0,89;1,08)
Atuação em mais de uma escola 0,323 0,033
Sim 35 16,8 1 1
Não 8 12,1 0,72 (0,63;1,06) 0,93 (0,86;0,99)

a) Razão de prevalência.

b) Intervalo de confiança de 95%.

c) Teste de Wald.

Discussão

A violência no espaço escolar foi relatada por mais da metade dos professores do ensino médio de Teresina em 2016, sendo mais frequentes os insultos verbais. Trabalhar em escolas públicas favoreceu a ocorrência de insultos verbais, e ser homem foi associado positivamente ao assédio sexual. Professores que trabalhavam em escolas localizadas nas regiões centrais da cidade e que atuavam em apenas uma unidade de ensino foram menos expostos às situações de assédio sexual no ambiente da escola.

A baixa adesão dos professores à pesquisa compromete a validade externa dos achados. Apesar de terem sido feitas cinco visitas em cada unidade de ensino, a forma de coleta dos dados, com a possibilidade de preenchimento em domicílio, pode ter causado perda de participantes e viés de seleção. Os resultados também estão sujeitos a viés de informação, devido à complexidade do tema e ao possível temor por retaliações no ambiente de trabalho, ao se manifestarem os participantes sobre situações passíveis de denúncia.

Constatou-se prevalência de violência inferior àquela observada em estudos prévios, o que pode ser atribuído aos possíveis vieses de seleção e informação. Além disso, pesquisas anônimas mostram taxas maiores de violência escolar, principalmente quando os professores temem por alguma retaliação ou julgamento.5 Nos Estados Unidos, em um estudo nacional, realizado em 2009, 80% de professores relataram algum tipo de vitimização na escola, seja por aluno, pai ou outros profissionais no ambiente escolar.5 Estudo transversal realizado em Pernambuco, em 2013, com 525 docentes da rede municipal, revelou prevalência de 42,9% de ameaças verbais e 22,9% de agressões físicas, perpetradas principalmente por alunos.2

Os insultos verbais foram o tipo de violência mais relatada pelos docentes, principalmente entre aqueles de escolas públicas. Essa ocorrência foi a mais frequente em estudo descritivo, realizado em 2012, na Coreia do Sul,6 e em estudo transversal realizado no Brasil em 2013, no qual os autores destacaram que docentes atribuem as agressões verbais à desvalorização do profissional na sala de aula.8 Os jovens utilizam palavras de baixo calão com frequência e, em um cenário de desvalorização do professor e desrespeito ao seu papel na sala de aula, os alunos podem usar esse recurso para ofender o profissional.4 A violência verbal também pode estar relacionada ao clima constante de conflitos gerado por uma rotina escolar que não possibilita aos alunos e professores uma escuta democrática.12

O assédio sexual foi mais frequente em docentes do sexo masculino. Em uma pesquisa nacional dos Estados Unidos, que avaliou dados nacionais da educação básica (elementary school), ensino fundamental (middle school) e ensino médio (high school), o assédio sexual foi mais comum em professores do sexo masculino na maioria dos anos em que o estudo foi realizado.16 De um modo geral, professores do sexo masculino se envolvem mais em situações de conflitos entre estudantes, o que os torna mais vulneráveis a situações de violência; além disso, as mulheres se sentem mais intimidadas ou temem ser julgadas ao relatarem casos de assédio.5

Lecionar em uma única escola associou-se negativamente ao assédio sexual. Resultados semelhantes foram encontrados em outros estudos nacionais, realizados nos anos de 20114 e 20138 no estado do Paraná. No primeiro estudo, a violência física foi associada ao fato de o professor trabalhar em duas escolas, e no segundo, foi encontrada associação entre o fato de o professor se sentir inseguro em algum espaço da escola e trabalhar em mais de uma instituição de ensino. Cargas horárias extensas, múltiplos locais de trabalho e contratos temporários deixam o professor mais vulnerável às situações de violência, pois diminuem seu vínculo com a instituição e o seu poder de decisão.4,8

Professores de até 40 anos e com menor tempo de docência representaram o grupo etário mais vitimizado, fatos que corroboram estudo realizado no Brasil, em 2013, no qual professores com até 40 anos sofreram mais violência, o que não se observou para outros com mais idade e mais experiência na sala de aula.8 Profissionais da educação mais novos estão geralmente mais dispostos a encarar condições precárias de trabalho até conseguirem uma carreira estável e com melhores salários, além de atuarem em um número maior de escolas, e, assim, estão mais expostos à violência. Acredita-se que professores com mais idade e mais experiência consigam lidar melhor com as situações de conflito.8,17

Encontrou-se menor frequência de violência em regiões centrais da cidade e com menores taxas de criminalidade. A sensação de insegurança percebida no bairro está diretamente relacionada àquela percebida na escola. Regiões e comunidades violentas também possuem altas prevalências de violência escolar.8,18 Além disso, escolas localizadas em regiões afastadas, de difícil acesso e com altos índices de violência geralmente ofertam vagas de trabalho com frequência, e são opção para aqueles professores que desejam um segundo turno de trabalho para aumentar sua renda.8 Em Teresina, as escolas que apresentaram menores indicadores de violência contra o professor localizam-se nas regiões Centro/Norte e Sudeste, as quais possuem intenso comércio e menores índices de crimes violentos. A região com maior frequência de violência contra os professores foi a mesma região que apresentou aumento nos índices de violência urbana entre os anos de 2006 e 2016.19

Os achados deste estudo podem ser úteis para direcionar ações e políticas de saúde voltadas à prevenção da violência contra professores no ambiente escolar. Tais iniciativas deveriam alcançar professores que trabalham em regiões urbanas periféricas ou com maiores indicadores de violência, em escolas públicas, que lecionam em mais de uma escola e que são do sexo masculino.

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*Artigo derivado de dissertação de mestrado intitulada Violência contra professores em escolas do ensino médio, defendida por Patrícia Viana Carvalhedo Lima junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comunidade da Universidade Federal do Piauí, em 10 de abril de 2019.

Recebido: 31 de Maio de 2019; Aceito: 15 de Dezembro de 2019

Endereço para correspondência: Patrícia Viana Carvalhedo Lima - Universidade Federal do Piauí, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comunidade, Av. Frei Serafim, no 2280, Centro, Teresina, PI, Brasil. CEP: 64000-020 E-mail: patriciavianalima@hotmail.com

Contribuição dos autores

Lima PVC, Rodrigues MTP e Mascarenhas MDM planejaram o delineamento da pesquisa, analisaram os dados, revisaram o texto e elaboraram a versão preliminar do manuscrito. Gomes KRO, Miranda CES e Frota KMG contribuíram para a análise e interpretação dos dados, participaram na redação e revisão de importante conteúdo intelectual. Todos os autores aprovaram a versão final do artigo e são responsáveis por todo o conteúdo do trabalho, inclusive por garantir sua veracidade.

Editora associada: Taís Freire Galvão orcid.org/0000-0003-2072-4834

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