Resumo
Objetivo: Analisar a acessibilidade geográfica ao parto na macrorregião de saúde I de Pernambuco, em 2023, considerando partos de risco habitual e de alto risco realizados no Sistema Único de Saúde.
Métodos: Realizou-se uma análise espacial a partir de registros de partos do Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram incluídos todos os partos hospitalares de residentes na macrorregião I, analisando-se distâncias e tempos de deslocamento entre o município de residência e o local de ocorrência do parto. Foram calculadas frequências absolutas e relativas e aplicado o teste Qui-quadrado de Pearson, adotando-se nível de significância de 5%.
Resultados: Foram analisados 41.354 partos, dos quais 35,6% foram classificados como de alto risco. Observou-se que 56,1% das gestantes necessitaram deslocar-se do município de residência para a internação. A maioria dos deslocamentos ocorreu dentro da própria macrorregião, com forte centralização em Recife. Entre as gestantes de alto risco, 30,8% percorreram distâncias superiores a 60 km e 38,0% tiveram ao menos 60 minutos de tempo de deslocamento.
Conclusão: Observou-se elevada necessidade de deslocamento das gestantes na macrorregião I de Pernambuco, especialmente nos casos de alto risco, com forte centralização dos serviços na Região de Saúde I e em Recife. Distâncias e tempos de deslocamento mais elevados associaram-se significativamente aos partos de alto risco, evidenciando barreiras de acessibilidade geográfica. Os achados indicam fragilidades na regionalização da rede obstétrica e a necessidade de reorganizar a oferta de serviços para reduzir iniquidades no acesso ao parto.
Palavras-chave:
Serviços de Saúde Materna; Acesso aos serviços de saúde; Parto; Equidade em saúde; Análise espacial
Abstract
Objective: To analyze geographic accessibility to childbirth care in health macroregion I of Pernambuco, Brazil, in 2023, considering low-risk and high-risk deliveries performed within the Brazilian Unified Health System (Sistema Único de Saúde, SUS).
Methods: A spatial analysis was conducted using delivery records from the Hospital Information System of the Brazilian Unified Health System (Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde, SIH/SUS). All hospital deliveries among residents in macroregion I were included, with distances and travel times analyzed between the municipality of residence and the place of delivery. Absolute and relative frequencies were calculated, and Pearson’s chi-square test was applied, adopting a significance level of 5%.
Results: A total of 41,354 deliveries were analyzed, of which 35.6% were classified as high risk. It was observed that 56.1% of pregnant women needed to travel from their municipality of residence for hospitalization. Most displacements occurred within the same macroregion, with a strong concentration in Recife. Among high-risk pregnant women, 30.8% traveled distances greater than 60 km, and 38.0% had to travel at least 60 minutes.
Conclusion: A high need for displacement among pregnant women in macroregion I of Pernambuco was observed, especially in high-risk cases, with strong centralization of services in health region I and in Recife. Greater distances and travel times were significantly associated with high-risk deliveries, highlighting barriers to geographic accessibility. The findings indicate weaknesses in the regionalization of the obstetric care network and the need to reorganize service delivery to reduce inequities in access to childbirth care.
Keywords:
Maternal Health Services; Health Services Accessibility; Parturition; Health Equity; Spatial Analysis
Resumen
Objetivo: Analizar la accesibilidad geográfica al parto en la macrorregión de salud I de Pernambuco en 2023, considerando los partos de riesgo habitual y de alto riesgo realizados en el Sistema Único de Salud (Sistema Único de Saúde, SUS).
Métodos: Se realizó un análisis espacial a partir de registros de partos del Sistema de Información Hospitalaria del Sistema Único de Salud (Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde, SIH/SUS). Se incluyeron todos los partos hospitalarios de residentes en la macrorregión I, y se analizaron las distancias y los tiempos de desplazamiento entre el municipio de residencia y el lugar de ocurrencia del parto. Se calcularon las frecuencias absolutas y relativas y se aplicó la prueba de chi-cuadrado de Pearson, adoptándose un nivel de significación del 5%.
Resultados: Se analizaron 41.354 partos, de los cuales el 35,6% fueron clasificados como de alto riesgo. Se observó que el 56,1% de las gestantes necesitó desplazarse desde su municipio de residencia para la hospitalización. La mayoría de los desplazamientos ocurrió dentro de la propia macrorregión, con una fuerte centralización en Recife. Entre las gestantes de alto riesgo, el 30,8% recorrió distancias superiores a 60 km y el 38,0% tuvo un desplazamiento de al menos 60 minutos.
Conclusión: Se observó una elevada necesidad de desplazamiento de las gestantes en la macrorregión I de Pernambuco, especialmente en los casos de alto riesgo, con una fuerte centralización de los servicios en la Región de Salud I y en Recife. Distancias y tiempos de desplazamiento más elevados se asociaron de manera significativa con los partos de alto riesgo, lo que evidencia barreras de accesibilidad geográfica. Los hallazgos indican fragilidades en la regionalización de la red obstétrica y la necesidad de reorganizar la oferta de servicios para reducir las inequidades en el acceso al parto.
Palabras clave:
Servicios de Salud Materna; Accesibilidad a los Servicios de Salud; Parto; Equidad en Salud; Análisis Espacial
Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação:
Comitê de ética em pesquisa Universidade de Pernambuco
Número do parecer 6.865.305
Data de aprovação 4/6/2024
Certificado de apresentação de apreciação ética 79014524.7.0000.0128
Registro do consentimento livre e esclarecido Dispensado.
Introdução
O acesso oportuno à internação para o parto é um elemento essencial para a segurança e a qualidade da assistência materna e neonatal. Contudo, a distribuição desigual dos serviços obstétricos no território brasileiro evidencia lacunas importantes na oferta do Sistema Único de Saúde (SUS), o que obriga muitas gestantes a se deslocarem para outros municípios em busca de atendimento 1.
Esse deslocamento, longe de ser um evento pontual, constitui um fenômeno persistente e, em algumas regiões, crescente, revelando-se profundas desigualdades no acesso à assistência obstétrica. No Brasil, a proporção de mulheres que saíram do município de residência para o parto aumentou de 24%, em 2010-2011, para 27%, em 2018-2019. Nos mesmos períodos (2010-2011 e 2018-2019), a distância média percorrida cresceu de 54 km para 70,8 km, e o tempo de viagem passou de 63,1 para 84,3 minutos. As regiões Norte e Centro-Oeste concentraram os trajetos e tempos mais elevados. Evidenciam-se desigualdades regionais que repercutem diretamente na segurança materna e neonatal 2.
Organizar os serviços em rede é fundamental para enfrentar esse cenário, pois possibilita planejar a distribuição e a articulação dos pontos de atenção, evitando-se fluxos desordenados de gestantes e a chamada peregrinação, caracterizada pela busca por mais de um serviço de saúde até a admissão 3. Entre 2011 e 2012, 16% das gestantes peregrinaram em busca de assistência ao parto. Essa condição foi mais frequente entre residentes da região Nordeste (25%), mulheres não brancas (88%), adolescentes (42%) e com menor escolaridade (39%), expressando desigualdades sociais no acesso à assistência obstétrica 4. O deslocamento intermunicipal para o parto esteve associado ao aumento da mortalidade infantil (β 0,001; IC95% 0,000; 0,002; p-valor 0,004), indicando que barreiras geográficas podem comprometer desfechos perinatais e ampliar vulnerabilidades em saúde 5.
No campo conceitual, distingue-se a acessibilidade em duas dimensões: a sócio-organizacional, que se refere à forma como a oferta de serviços é influenciada pela capacidade de utilização pelos usuários; e a geográfica, que se relaciona ao espaço e pode ser mensurada pela distância e pelo tempo de locomoção entre a residência e o serviço de saúde 6. A interação entre essas dimensões determina o uso efetivo dos serviços e está diretamente ligada às características da população. Este estudo adota a perspectiva da acessibilidade geográfica, definida como a distância física e o tempo de deslocamento entre o domicílio da gestante e o estabelecimento de saúde onde ocorre o parto 7.
Em Pernambuco, em 2011, a política de regionalização, descentralização e organização da rede de serviços estruturou o território em 12 Regiões de Saúde, agrupadas em quatro macrorregiões 8. Nessa configuração, cada Região de Saúde deve ser capaz de atender internamente a demanda de partos de risco habitual, enquanto as macrorregiões assumem a responsabilidade pelos partos de alto risco. Garante-se, assim, o acesso integral às ações e serviços de saúde obstétrica.
A vinculação prévia da gestante a uma maternidade de referência é justamente para reduzir deslocamentos. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) adote como diretriz a regionalização e a descentralização dos serviços, observam-se falhas significativas na oferta e distribuição dos serviços obstétricos 9)-(10.
O presente estudo teve como objetivo analisar a acessibilidade geográfica aos serviços de atenção ao parto de risco habitual e de alto risco na macrorregião de saúde I de Pernambuco, no ano de 2023, observando a distância e o tempo percorrido pelas gestantes até as unidades de atendimento.
Métodos
Delineamento do estudo
Trata-se de estudo exploratório, do tipo análise espacial. Analisaram-se todos os partos hospitalares registrados no Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) de residentes na macrorregião I de Pernambuco em 2023.
Contexto e localização
No estado de Pernambuco, o Plano Diretor de Regionalização classifica 12 Regiões de Saúde agrupadas em quatro macrorregiões 8.
A macrorregião de saúde I, denominada Região Metropolitana, é composta pelas Regiões de Saúde I, II, III e XII. A Região I abrange 19 municípios e o Distrito Estadual de Fernando de Noronha, com população de 4.259.679 habitantes 11. Nela, concentram-se seis maternidades estaduais de referência para gestantes de alto risco. A Região II reúne 20 municípios e 605.406 habitantes, e dispõe de duas maternidades regionais voltadas a partos de risco habitual. A Região III compreende 22 municípios com 628.399 habitantes no total. Conta com hospital regional com leitos obstétricos para risco habitual. A Região XII abrange 10 municípios com 316.160 habitantes no total. Também tem um hospital regional com leitos obstétricos de risco habitual.
Participantes
A população de estudo foi constituída por gestantes residentes na macrorregião de saúde I de Pernambuco que realizaram partos no SUS em 2023.
Variáveis
As variáveis consideradas neste estudo incluíram: risco do parto (risco habitual e alto risco); local de residência da parturiente (Regiões de Saúde I, II, III e IV e macrorregião I); e local de ocorrência do parto (dentro da Região de Saúde de residência, fora da Região de Saúde de residência, porém dentro da macrorregião I, e fora da macrorregião I).
Para a análise da acessibilidade geográfica, foram avaliados os deslocamentos das mulheres com base na distância percorrida em busca de assistência ao parto de risco habitual e de alto risco obstétrico, expressa em quilômetros (<30; entre ≥30 e <60; entre ≥60 e <90; entre ≥90 e <120; ≥120), e no tempo de deslocamento entre o município de residência e o município de ocorrência do parto, em minutos (<30; entre ≥30 e <60; ente ≥60 e <90; entre ≥90 e <120; ≥120).
Extração, fonte de dados e mensuração
O estudo incluiu todos os partos de gestantes residentes na Macrorregião I de Pernambuco ocorridos em 2023, o que correspondeu a 64,9% dos nascimentos no estado quando considerados conjuntamente os partos da rede privada. As informações sobre partos hospitalares foram obtidas no Sistema de Informação Hospitalar do SIH/SUS, com base nas autorizações de internação hospitalar.
Os dados foram extraídos do Departamento de Informática do SUS, por meio do TabNet 12. A base analítica foi estruturada em linguagem Python, considerando os seguintes critérios: abrangência geográfica, ano de internação, macrorregião e Região de Saúde, município de residência, município de ocorrência e procedimentos obstétricos. Foram incluídos os procedimentos registrados no Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS 13, classificados como risco habitual (parto normal em centro de parto normal; parto cesariano; parto cesariano com laqueadura por esterilização) e alto risco (parto normal em gestante de alto risco e/ou com eclâmpsia; parto cesariano em gestante de alto risco). O número de autorizações de internação hospitalar foi utilizado como variável substituta do número de gestantes, resultando em 41.354 partos hospitalares em 2023.
As distâncias rodoviárias e os tempos estimados de deslocamento entre o município de residência e o município de ocorrência do parto foram obtidos por meio do Google Maps 14. Não foram considerados deslocamentos intramunicipais. Foi atribuída distância zero aos partos ocorridos no município de residência 5.
Para a construção dos mapas de fluxo, as bases foram convertidas para formato .csv e importadas no software QGIS. A partir das coordenadas de origem e destino, foram geradas camadas vetoriais representando os fluxos intermunicipais de partos na Macrorregião I. Os mapas evidenciam a distribuição espacial e os deslocamentos das gestantes no território analisado.
Tamanho do estudo
O estudo incluiu todos os registros de partos de residentes na macrorregião I de Pernambuco no ano de 2023 disponíveis no SIH/SUS, totalizando 41.354 eventos.
Métodos estatísticos
A estatística descritiva foi realizada utilizando o programa Stata, versão 14. Medidas de frequências absolutas e relativas foram calculadas para as categorias de partos de risco habitual e alto risco, local de ocorrência dos partos, distância e tempo de deslocamento para a acessibilidade ao parto.
Para identificar a associação entre as variáveis, aplicou-se o teste do Qui-quadrado de Pearson, adotando-se nível de significância de 5%. Nos casos em que alguma célula apresentou frequência inferior a cinco observações, o p-valor foi estimado por simulação de Monte Carlo, com 10 mil réplicas. Em algumas análises, ocorreram combinações estruturalmente inviáveis devido à inexistência de serviço de atenção ao parto de alto risco obstétrico em determinadas Regiões de Saúde (II, III e XII). Essas células foram assinaladas com hífen (-) e as linhas correspondentes foram excluídas do cálculo do teste, por representarem impossibilidade operacional e não por ausência de ocorrência. Esse procedimento não alterou a inclusão dos partos no banco analisado, porém pode influenciar a inferência do teste, com possível direção para subestimação da associação em estratos diretamente condicionados por limitações estruturais da rede, uma vez que a ausência de oferta implica deslocamento obrigatório.
Resultados
Na macrorregião I de Pernambuco, foram analisados 41.354 partos hospitalares, dos quais 64,4% foram classificados como de risco habitual e 35,6% como de alto risco (Tabela 1). A Região de Saúde III apresentou a maior proporção de partos de risco habitual (73,9%), enquanto a Região de Saúde I registrou a menor proporção (61,4%), seguida pelas Regiões de Saúde II (68,5%) e XII (69,8%). O teste do Qui-quadrado indicou associação estatisticamente significativa entre a Região de Saúde de residência e o tipo de risco do parto (p-valor<0,001). Observou-se maior proporção de partos de alto risco entre as gestantes residentes na Região de Saúde I (38,5%) (Tabela 1).
Mais da metade das gestantes residentes na macrorregião I (56,1%) necessitou deslocar-se do município de residência para o parto. Proporcionalmente, os deslocamentos foram mais frequentes para os partos de alto risco (71,8%) do que para os partos de risco habitual (47,4%). Verificou-se por meio do teste do Qui-quadrado que existe associação estatisticamente significativa entre o local de ocorrência do parto (dentro/fora do município de residência) e o tipo de risco do parto (risco habitual/alto risco) (Tabela 2).
As proporções de partos de risco habitual ocorridos fora da Região de Saúde de residência (dentro da macrorregião I ou fora dela) foram de 60,3% na Região de Saúde XII, 18,8% na Região de Saúde III, 14,7% na Região de Saúde II e 1,4% na Região de Saúde I. Nas Regiões de Saúde II, III e XII, não houve registro de partos de alto risco realizados dentro da própria Região de Saúde de residência (Tabela 3).
Na Região de Saúde I, observou-se associação estatisticamente significativa entre local de ocorrência do parto e classificação de risco (p-valor<0,001). No conjunto da macrorregião I, também foi identificada associação estatisticamente significativa entre as variáveis (p-valor<0,001). Nas Regiões de Saúde II (p-valor 1,000), III (p-valor 0,452) e XII (p-valor 0,310), não foi observada associação estatisticamente significativa (Tabela 3).
Os fluxos de deslocamento das gestantes residentes na macrorregião de saúde I de Pernambuco para a realização de partos de risco habitual e de alto risco, segundo as Regiões de Saúde de residência, no ano de 2023, estão apresentados (Figura 1). Para os partos de risco habitual (Figuras 1A-1D), observa-se predominância de deslocamentos realizados dentro da própria Região de Saúde de residência das gestantes. Em relação aos partos de alto risco (Figuras 1E-1H), os fluxos de deslocamento concentram-se principalmente em municípios da macrorregião, com destaque para Recife, Vitória de Santo Antão e Jaboatão dos Guararapes. Em Recife ocorreram 93,0% desses partos.
Fluxo de deslocamento das gestantes em busca de realização de partos de risco habitual nas Regiões de Saúde I (A), II (B), III (C) e XII (D) e de alto risco nas Regiões de Saúde I (E), II (F), III (G) e XII (H) da macrorregião de saúde I. Pernambuco, 2023 (n=23.199)
Entre os partos de risco habitual, 59,9% ocorreram após deslocamentos inferiores a 30 km, enquanto, entre os de alto risco, essa proporção foi de 51,0%. Nas distâncias entre 30 e 60 km, observaram-se 25,0% dos partos de risco habitual e 18,2% dos de alto risco. A partir de 60 km, a proporção de partos de alto risco superou a de risco habitual: entre 60 e 90 km, 15,7% e 11,6%; entre 90 e 120 km, 10,2% e 2,5%; e nas distâncias iguais ou superiores a 120 km, 4,9% e 0,9%. Houve associação estatisticamente significativa entre distância percorrida e tipo de parto (p-valor<0,001) (Tabela 4).
Quanto ao tempo de deslocamento, 39,1% das gestantes com parto de risco habitual percorreram menos de 30 minutos e 54,5% entre 30 e 90 minutos. Entre os partos de alto risco, 25,2% ocorreram após deslocamentos de até 30 minutos, enquanto 38,0% demandaram 60 minutos ou mais para chegar ao município de ocorrência do parto. O tempo de deslocamento também apresentou associação estatisticamente significativa com o tipo de parto (p-valor<0,001). Nos trajetos de até 60 minutos, observou-se menor proporção de partos de alto risco. Em deslocamentos iguais ou superiores a 90 minutos, a proporção de partos de alto risco foi superior à de risco habitual, especialmente nos intervalos de 90 a 120 minutos e acima de 120 minutos. Na faixa de 60 a 90 minutos, não se observaram diferenças relevantes na proporção de partos segundo o tipo de risco.
Discussão
Os resultados deste estudo evidenciam importantes desigualdades no acesso aos serviços hospitalares para a realização do parto na macrorregião de saúde I de Pernambuco. Observou-se predominância de partos classificados como de risco habitual, embora mais de um terço (36%) dos partos tenha sido de alto risco, com variações entre as Regiões de Saúde e maior proporção (38%) entre gestantes residentes na Região de Saúde I. Mais da metade das gestantes (56%) necessitou se deslocar do município de residência para a realização do parto. Esse deslocamento foi proporcionalmente mais frequente (72%) entre os partos de alto risco. Os resultados também indicaram diferenças no local de ocorrência dos partos entre as regiões, com ausência de registros de partos de alto risco realizados dentro da própria Região de Saúde de residência nas Regiões II, III e XII. Além disso, os fluxos de deslocamento mostraram concentração de partos de alto risco em Recife (93%). Por fim, observou-se associação entre o tipo de risco gestacional, o local de ocorrência do parto e a necessidade de deslocamento, o que evidencia desigualdades na acessibilidade geográfica aos serviços obstétricos
Entre as limitações do estudo, destacam-se aquelas inerentes ao uso de dados do SIH/SUS, sujeitos a sub-registros, inconsistências e possíveis imprecisões na classificação do risco gestacional. A estimativa de distância e tempo de deslocamento a partir dos centroides municipais, em substituição ao endereço residencial das gestantes, pode ter gerado super- ou subestimação da acessibilidade geográfica, especialmente em municípios de grande extensão territorial ou com distribuição populacional heterogênea. Além disso, a análise restringiu-se à dimensão geográfica do acesso, não contemplando fatores como custos, disponibilidade e tipo de transporte. A exclusão dos partos realizados no setor privado limita a avaliação do sistema de saúde como um todo; por outro lado, fortalece a validade interna da análise ao reduzir possíveis confundimentos relacionados à cobertura por planos de saúde e às desigualdades socioeconômicas.
A proporção de partos classificados como de alto risco foi superior à observada em na macrorregião II de Pernambuco em 2018 (22%) 15 e à identificada no Nordeste como um todo (25%), no período de 2011 a 2012 16. A ocorrência de risco gestacional elevado está associada a extremos de idade materna e antecedentes obstétricos desfavoráveis 16, fatores que podem influenciar a demanda por serviços especializados e podem intensificar a necessidade de deslocamento para unidades de maior complexidade.
A concentração dos partos de alto risco na Região de Saúde I, especialmente no Recife, indica dependência acentuada de serviços de alta complexidade. Embora a centralização seja esperada no cuidado especializado, a magnitude dessa concentração sugere insuficiência de serviços intermediários e fragilidade da regionalização. Esse padrão reforça a sobrecarga dos serviços de referência e pode comprometer a resposta oportuna aos casos que demandam maior complexidade assistencial.
Na macrorregião I, observa-se intensa rede de deslocamentos de gestantes entre municípios e Regiões de Saúde (56%). Embora predominem nos partos de alto risco, esses fluxos também ocorrem de forma relevante para partos de risco habitual. A análise da estrutura hospitalar e da demanda assistencial é fundamental para aprimorar a organização da rede, reduzir deslocamentos desnecessários e ampliar a acessibilidade geográfica.
Entre os períodos de 2010-2011 e 2018-2019, 35% das mulheres da região Nordeste necessitaram se deslocar para realização do parto, enquanto as residentes da região Norte enfrentaram as maiores distâncias percorridas (97 km a 133 km) e os maiores tempos de viagem para acesso ao parto hospitalar (1.012 a 1.850 minutos). 2. Além disso, gestantes que experienciaram desfechos adversos percorreram distâncias significativamente maiores. Gestações de alto risco, naturalmente associadas a maior chance de complicações, foram justamente aquelas em que o deslocamento foi mais extenso, principalmente para residentes em áreas mais distantes da capital 17.
Em Pernambuco, observa-se uma forte concentração dos serviços obstétricos na Região de Saúde I. Nesse contexto, a implantação de Centros de Parto Normal, destinados a gestações de risco habitual e fundamentados nos princípios da humanização e do protagonismo da mulher no processo de parto 18, representa uma estratégia relevante para ampliar o acesso, reduzir deslocamentos longos e favorecer a equidade.
Em 2012, a mesma macrorregião já apresentava a necessidade de uma maternidade de risco habitual em Igarassu 19. No presente estudo, observou-se que 23% dos partos realizados em Recife foram de gestantes provenientes de municípios vizinhos. A carência de serviços obstétricos distribuídos de maneira equitativa na região reforça a centralização da atenção obstétrica em Recife, indicando fragilidades na organização e regionalização da rede de cuidado. Esse padrão sugere que a rede obstétrica desses municípios não tem sido suficiente para absorver a demanda local, o que gera deslocamentos significativos e sobrecarga dos serviços de referência de Recife.
A concentração da demanda na capital implica sobreposição de funções nas maternidades de maior complexidade, que passam a atender também partos de risco habitual. Tal cenário pode reduzir a capacidade de resposta para os casos de alto risco, conforme apontado em estudo anterior na região 19.
Além da ausência de serviços obstétricos adequados, os deslocamentos também podem ser intensificados por fragilidades estruturais de hospitais regionais e municipais, incluindo fechamento de plantões por insuficiência de equipes e de insumos. Em 2018, na macrorregião II de Pernambuco, a maternidade de referência para alto risco apresentou plantões fechados em proporção relevante (30% diurnos e 39% noturnos), em razão da dificuldade de manter equipes completas 15. Tais condições podem reduzir a resolutividade dos serviços locais e favorecer a busca por atendimento em unidades mais distantes.
Essa situação se agrava pela dificuldade de vinculação prévia das gestantes às maternidades durante o pré-natal, uma estratégia que poderia reduzir a peregrinação. No Brasil, no período de 2011 a 2012, 55% das gestantes foram efetivamente vinculadas à maternidade durante o pré-natal 20. A peregrinação para dar à luz foi mais frequente na região Nordeste, afetando 33% das mulheres 20. Resultados semelhantes foram observados no período 2020-2021, em maternidade de referência no Ceará, onde foi identificada frequência de peregrinação anteparto superior a um terço das puérperas (34%), associada principalmente à ausência de orientação sobre a maternidade de referência e à distância entre o local de residência e o serviço de parto 21. Esses achados reforçam que fragilidades na vinculação das gestantes durante o pré-natal e na organização regional da assistência obstétrica contribuem para deslocamentos adicionais e dificuldades de acesso oportuno ao parto.
Ademais, a estrutura das unidades de atendimento materno apresenta limitações significativas, tanto pela distância quanto pelo tempo de deslocamento, influenciando o aumento da probabilidade de partos de alto risco. O tempo de deslocamento até a maternidade é apontado como fator crucial para que a assistência ocorra em tempo oportuno, prevenindo desfechos desfavoráveis 22. Na Coreia do Sul, em 2013, identificou-se que gestantes residentes fora do tempo ideal de acesso hospitalar apresentaram maior risco de complicações obstétricas graves. Tempos de deslocamento superiores a 30 minutos estiveram associados ao aumento do risco de parto prematuro (OR 2,2; IC95% 1,96; 2,47), internação em unidade de terapia intensiva (OR 1,42; IC95% 1,02; 1,98), embolização da artéria uterina (OR 1,54; IC95% 1,05; 1,83) e histerectomia cesariana (OR 2,69; IC95% 1,09; 6,65) 23. Nesse contexto, a elevada taxa de deslocamento para o parto, associada às fragilidades estruturais da rede, pode representar risco adicional para a ocorrência de complicações e para a persistência da mortalidade materna e neonatal 24.
Conclui-se que a organização da atenção ao parto na macrorregião I de Pernambuco evidencia concentração territorial dos partos de alto risco, especialmente em Recife, bem como fluxos intermunicipais relevantes para a realização do parto, associados a maiores distâncias e tempos de deslocamento. Embora a análise tenha se concentrado na dimensão geográfica do acesso, os achados oferecem subsídios para planejar e avaliar a regionalização da rede obstétrica, com vista ao aprimoramento da distribuição e da articulação dos serviços no território.
Disponibilidade de dados
O banco de dados e os códigos de análise utilizados na pesquisa estão disponíveis em https://doi.org/10.17605/OSF.IO/X5NWG 12.
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Gestora de pareceristas:
Izabela Fulone https://orcid.org/0000-0002-3211-6951
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Uso de inteligência artificial generativa
A redação deste documento, incluindo a escolha de termos e a forma de expressão, contou com o auxílio do ChatGPT (https://chatgpt.com/). As ideias, a conceituação e o conteúdo analítico são de responsabilidade dos autores do manuscrito.
Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editora associada:
Ana Sara Semeão de Souza https://orcid.org/0000-0002-4554-1551
Citações de dados
Brasil. Ministério da Saúde. DATASUS. Sistema de gerenciamento da tabela de procedimentos, medicamentos e OPM do SUS [Internet]. 2022 [cited 2025 Jan 6]. Available from: Available from: http://sigtap.datasus.gov.br/tabela-unificada


