Objetivos: Avaliar a ocorrência e a distribuição espacial de cardiopatias congênitas e descrever as características maternas, gestacionais e dos recém-nascidos em Santa Catarina no período entre 2011 e 2019.
Métodos: Estudo descritivo, com análise espacial de dados secundários provenientes do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, com uso do índice de Moran global e do indicador local de associação espacial.
Resultados: Identificaram-se 754 casos de cardiopatias congênitas. A taxa de prevalência média cardiopatias foi de 8,9/10 mil nascidos vivos, com predomínio nas regiões da Grande Florianópolis (14,3/10 mil; intervalo de confiança [IC95%] 12,4; 16,5) e no Sul (11,0/10 mil; IC95% 9,2; 13,1). Foram identificados municípios que apresentavam dependência espacial significativa nas macrorregiões da Grande Florianópolis e no Meio Oeste Catarinense. Entre as características das mães, 19,2% apresentaram abortos prévios e 28,9% realizaram <7 consultas de pré-natal; 25,9% tiveram partos prematuros e 84,2% do tipo cesárea; 30,0% dos recém-nascidos apresentaram baixo peso, 39,8% tiveram o Apgar de 1° minuto baixo e 18,8% apresentaram o Apgar de 5° minuto inadequado; e 8,7% possuíam mais de uma cardiopatia registrada ao nascimento. A malformação não especificada do coração foi a mais registrada, com 34,9% dos casos.
Conclusão: As cardiopatias congênitas são condições de alta morbidade entre os recém-nascidos em Santa Catarina, apesar da possível subnotificação. Pequenas variações na prevalência foram observadas no período 2011-2019, além de discrepâncias regionais, com associação espacial significativa entre municípios da Grande Florianópolis.
Palavras-chave:
Cardiopatias Congênitas; Sistemas de Informação em Saúde; Nascido Vivo; Análise Espacial; Epidemiologia Descritiva
Abstract
Objectives: To assess the occurrence and spatial distribution of congenital heart defects and to describe maternal, gestational and neonatal characteristics in Santa Catarina state between 2011 and 2019.
Methods: This was a descriptive study, with spatial analysis of secondary data from the Live Birth Information System, using the global Moran index and local indicators of spatial association.
Results: 754 cases of congenital heart defects were identified. The average prevalence rate of heart defects was 8.9/10,000 live births, with predominance in the Greater Florianópolis macroregion (14.3/10,000; 95% confidence interval [95%CI] 12.4; 16.5) and the Southern macroregion of the state (11.0/10,000; 95%CI 9.2; 13.1). Municipalities with significant spatial dependence were identified in the Greater Florianópolis and Midwest macroregions of Santa Catarina. Among the mothers’ characteristics, 19.2% had previous spontaneous abortions and 28.9% had fewer than seven prenatal appointments; 25.9% had premature births and 84.2% had cesarean sections; 30.0% of the newborns had low birth weight, 39.8% had low 1-minute Apgar scores, and 18.8% had inadequate 5-minute Apgar scores; and 8.7% had more than one heart defect recorded at birth. Unspecified heart malformation was the most frequently reported condition, accounting for 34.9% of cases.
Conclusion: Congenital heart defects are high-morbidity conditions among newborns in Santa Catarina, despite possible underreporting. Small variations in prevalence were observed between 2011 and 2019, in addition to regional discrepancies, with significant spatial association among municipalities in the Greater Florianópolis macroregion.
Keywords:
Heart Defects, Congenital; Health Information Systems; Live Birth; Spatial Analysis; Epidemiology, Descriptive.
Resumen
Objetivos: Evaluar la ocurrencia y distribución espacial de las cardiopatías congénitas y describir las características maternas, gestacionales y neonatales en Santa Catarina entre 2011 y 2019.
Métodos: Estudio descriptivo, con análisis espacial de datos secundarios del Sistema de Información de Nacidos Vivos, utilizando el índice de Moran global y el indicador local de asociación espacial.
Resultados: Se identificaron 754 casos de cardiopatías congénitas. La tasa media de prevalencia de cardiopatías fue 8,9/10.000 nacidos vivos, con predominio en la Gran Florianópolis (14,3/10.000; intervalo de confianza del 95% [IC95%] 12,4; 16,5) y en la macrorregión Sur (11,0/10.000; IC95%: 9,2; 13,1). Se identificaron municipios con dependencia espacial significativa en las macrorregiones de la Gran Florianópolis y del Centro-Oeste de Santa Catarina. Entre las características de las madres, el 19,2% presentó abortos espontáneos previos y el 28,9% tuvo menos de siete citas prenatales; el 25,9% tuvo partos prematuros y el 84,2% tuvo cesáreas; el 30.0% de los recién nacidos presentó bajo peso al nacer, el 39,8% presentó puntuaciones bajas de Apgar al minuto 1 y el 18,8% tuvo puntuaciones inadecuadas de Apgar a los 5 minutos; y el 8,7% presentó más de una cardiopatía registrada al nacer. La malformación cardíaca no especificada fue la más frecuentemente reportada, representando el 34,9% de los casos.
Conclusión: Las cardiopatías congénitas son afecciones de alta morbilidad entre los recién nacidos en Santa Catarina, a pesar de un posible subregistro. Se observaron pequeñas variaciones en la prevalencia entre 2011 y 2019, además de discrepancias regionales, con una asociación espacial significativa entre los municipios de la Gran Florianópolis.
Palabras clave:
Cardiopatías Congénitas; Sistemas de Información en Salud; Nacimiento Vivo; Análisis Espacial; Epidemiología Descriptiva.
Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprova-ção:
Comitê de ética em pesquisa: Universidade do Sul de Santa Catarina
Número do parecer: 4.671.146
Data de aprovação: 26/4/2021
Certificado de apresentação de apreciação ética: 46010121.0.0000.5369
Comitê de ética em pesquisa: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Número do parecer: 4.720.887
Data de aprovação: 19/5/2021
Certificado de apresentação de apreciação ética: 46010121.0.3001.5347
Registro do consentimento livre e esclarecido: Dispensado.
Introdução
O conceito de cardiopatia congênita abrange toda alteração estrutural e funcional formada no período intrauterino que toca o âmbito coronário ou os principais vasos sanguíneos intratorácicos. Suas repercussões clínicas são potencialmente significativas e, não raramente, fatais 1.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 295 mil neonatos portadores de anormalidades congênitas morrem por ano no primeiro mês de vida; de todos os casos diagnosticados, 40% são relacionados aos defeitos cardíacos 2. Esse grupo de patologias possui uma prevalência mundial que varia entre 1% e 5% 3. No Brasil, nascem anualmente 28,9 mil crianças portadoras dessas anomalias, totalizando 1% dos nascidos vivos, sugerindo que grande parte dos casos perdura subdiagnosticada 4,5.
A etiologia das cardiopatias congênitas permanece desconhecida, porém estudos epidemiológicos têm demonstrado que sua base é de origem multifatorial e que sofre forte influência genética 6,7. Neonatos portadores de síndromes cromossômicas, como Down, Turner e DiGeorge, chegam a apresentar alterações cardíacas em 45% dos casos. Histórico familiar, fatores maternos - como obesidade, idade a partir de 40 anos, diabetes, fenilcetonúria mal controlada - e aspectos gestacionais - destacando-se infecções recorrentes, uso de álcool, fármacos, drogas e exposições ambientais, como a exposição a herbicidas ou a solventes orgânicos - são apontados como possíveis fatores desencadeantes, entretanto suas comprovações causais ainda carecem de investigações mais robustas e confiáveis 8.
Subdivididos em dois grupos, cianóticos e acianóticos, os defeitos cardíacos congênitos são representados por diversas patologias, como a comunicação interventricular, o defeito no septo atrioventricular total ou parcial, a comunicação interatrial, a persistência do canal arterial, a estenose aórtica, a coarctação da aorta e, potencialmente mais grave, a tetralogia de Fallot 9.
Em um quadro nacional, há necessidade cirúrgica em 80% dos casos diagnosticados, e metade dessa população passa por intervenções agressivas no primeiro ano de vida 9. Ainda que se tenha lançado o Plano Nacional de Assistência à Criança com Cardiopatia Congênita em 2017, no intuito de integrar ações e aprimorar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à reabilitação da criança e do adolescente com cardiopatia congênita, além de reduzir a morbimortalidade, o Brasil apresenta uma letalidade de 64,7% para neonatos cardiopatas congênitos considerados críticos, além de a sobrevida ser reduzida por volta de um mês de vida em 70% desses casos 4,10.
Tendo em vista que as cardiopatias congênitas se apresentam de maneira insidiosa e possuem altas taxas de letalidade e de morbidade, com altos custos socioeconômicos para o sistema de saúde 11, este estudo buscou ampliar os conhecimentos epidemiológicos sobre o tema, principalmente em âmbito estadual, uma vez que a bibliografia nesse nível é escassa e a difusão de informações possibilitaria o desenvolvimento de novas políticas públicas de enfrentamento a essa problemática.
Os objetivos deste estudo foram avaliar a ocorrência e a distribuição espacial de cardiopatias congênitas e descrever as características maternas, gestacionais e dos recém-nascidos em Santa Catarina no período entre 2011 e 2019. Dessa forma, o estudo pretende responder: Como se distribuem regionalmente as cardiopatias congênitas em Santa Catarina e quais as características individuais relacionadas aos casos identificados?
Métodos
Delineamento
Trata-se de estudo descritivo, com análise dos casos de cardiopatia congênita em Santa Catarina, diagnosticados ao nascimento, no período de 2011 a 2019, segundo a macrorregião de saúde e a descrição das características sociodemográficas e clínicas das mães e dos recém-nascidos.
Contexto
Os dados utilizados neste estudo são oriundos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), sistema gerido pelo Departamento de Análise de Situação de Saúde, da Secretaria de Vigilância em Saúde, em conjunto com as secretarias estaduais e municipais de Saúde. O documento base do sistema é a Declaração de Nascido Vivo, coletada pelas Secretarias de Saúde nos estabelecimentos de saúde e nos cartórios (para partos domiciliares). Considera-se, para consolidação dos dados, o local de residência da mãe, forma tradicional de apresentar os dados de nascidos vivos. As anomalias são codificadas de acordo com o Capítulo XVII da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, na sua décima revisão (CID-10) (12), que discorre sobre as malformações congênitas, deformidades e anomalias cromossômicas (Q00-Q99). Em 2011, houve uma mudança no conteúdo da Declaração de Nascidos Vivos, com maior detalhamento das informações coletadas 13.
Participantes
Foram analisados os registros de nascidos vivos de Santa Catarina no período compreendido entre janeiro de 2011 a dezembro de 2019, nos quais foram identificadas as notificações dos portadores de cardiopatia congênita a partir dos códigos correspondentes (Q20-Q26) da CID-10, registradas no Sinasc.
Variáveis
As categorias compreendidas nas cardiopatias congênitas são: Q20 - malformações congênitas das câmaras e das comunicações cardíacas; Q21 - malformações congênitas dos septos cardíacos; Q22 - malformações congênitas das valvas pulmonar e tricúspide; Q23 - malformações congênitas das valvas aórtica e mitral; Q24 - outras malformações congênitas do coração; Q25 - malformações congênitas das grandes artérias; Q26 - malformações congênitas das grandes veias. Os códigos Q27 e Q28, sugeridos na lista prioritária de vigilância 14, foram excluídos das nossas análises, pois se referem a anomalias vasculares periféricas (não cardíacas).
Foram descritas as características da mãe (idade, escolaridade, raça/cor da pele, estado civil), da gestação (duração, tipo de parto) e do recém-nascido (sexo, Apgar 1º minuto e 5º minuto, peso ao nascimento, tipo de anomalia). Foram considerados prematuros os nascimentos antes de completar 37 semanas gestacionais, e Apgar inadequado ou baixo quando ≤7. O baixo peso foi detectado para crianças com menos de 2.500 gramas, sendo também considerados os extremos, quando <1.500 gramas ou ≥4.000 gramas.
Fontes de dados e mensuração
Os dados relativos ao período de 2011 a 2019 foram extraídos do Sinasc, disponibilizados pela plataforma Tabnet, do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde. A coleta inicial de dados foi realizada de março a abril de 2022, e o banco foi revisado em dezembro de 2023. Para análise geográfica, foram consideradas as sete macrorregionais de saúde, segundo os limites geográficos definidos pelo Plano Diretor de Regionalização de 2018 15 e indicados no Tabnet.
O banco completo do período 2011-2019, contendo dados individualizados referentes à mãe e ao recém-nascido com cardiopatia congênita, fora disponibilizado em agosto de 2021, pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, mediante registro de compromisso dos pesquisadores e após aprovação ética do estudo.
Controle de viés
Foram excluídos os registros que não continham todas as variáveis abordadas no estudo ou percentuais relevantes de dados ignorados na notificação. As duplicidades também foram removidas para avaliação das características maternas e da criança.
Tamanho do estudo
Foram captados dados de todos os registros de nascimentos ocorridos em Santa Catarina no período de 2011 a 2019, totalizando 848.140 mil registros de nascidos vivos.
Métodos estatísticos
A prevalência ao nascimento de cardiopatias congênitas foi estimada pelo número de casos notificados, dividido pelo número de nascimentos ocorridos em cada ano, no período 2011-2019, em cada macrorregião de Santa Catarina, a partir do município de residência da mãe. Os dados foram apresentados por 10 mil nascimentos. Estabeleceram-se a prevalência média acumulada no período e os intervalos de confiança de 95% (IC95%), permitindo a comparação entre as categorias de análise. O IC95% foi calculado através do método de Clopper-Pearson 16 (binomial exato de 95%). A avaliação de regiões geográficas com associação espacial significativa foi realizada em linguagem R (R v.4.1.1), a partir do município de residência registrado no Sinasc, com auxílio dos pacotes geobr, ggplot2, leaflet, sf e spdep.
Para avaliar a presença de associação espacial entre a prevalência dos municípios, foi calculado o índice de Moran global 17. Essa estatística assume valores no intervalo -1 a 1, em que o zero indica a hipótese nula de que não há associação espacial entre as áreas, e valores positivos sugerem que áreas próximas tendem a ser semelhantes. Se o índice de Moran global for positivo, espera-se que municípios possuam valores similares de alguma forma, podendo estar acima ou abaixo da média da região estudada. Para identificar esses municípios com valores similares, utilizou-se o indicador local de associação espacial, que determina a contribuição individual de cada área para o cálculo do índice de Moran global, em que a diferença entre a média global e o valor em cada município é dividida pelo desvio-padrão, de forma que a unidade do indicador passa a ser unidades de desvio-padrão de afastamento da média, permitindo localizar agrupamentos espaciais por tipo de associação: alto-alto (valores positivos, médias positivas) e baixo-baixo (valores negativos, médias negativas) indicam pontos de associação espacial positiva, no sentido de que uma área possui vizinhos com valores semelhantes (aglomerados); já alto-baixo (valores positivos, médias negativas) e baixo-alto (valores negativos, médias positivas) indicam pontos de associação espacial negativa, no sentido de que uma área possui vizinhos com valores distintos (discrepantes). Em todas as análises, utilizou-se um nível de significância fixo de 5%.
Acesso aos dados e métodos de limpeza
Os dados agregados foram acessados pela plataforma Tabnet, e os dados individualizados foram obtidos diretamente da Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina. Para avaliação das características maternas e do recém-nascido com cardiopatia, casos com mais de uma anomalia registrada foram contabilizados uma única vez. A limpeza do banco incluiu a remoção de duplicidades para análise das características maternas.
Resultados
A partir de 842 registros com CID Q20-Q26 em Santa Catarina no período de 2011 a 2019, após remoção de duplicidades, foram identificados 754 casos de cardiopatias congênitas, representando uma taxa de prevalência de 8,9 (IC95% 8,3; 9,6) casos a cada 10 mil nascimentos, com pequenas variações no período (Tabela 1). Maiores variações anuais no período foram verificadas na Grande Florianópolis, variando de 9,9 em 2012 a 19,3 em 2013, e na Grande Oeste, passando de 4,1 em 2011 para 8,6 em 2019. Entre as macrorregiões, destacaram-se que regiões da Grande Florianópolis (14,3/10 mil; IC95% 12,4; 16,5) e do Sul (11,0/10 mil; IC95% 9,2; 13,1) com as maiores taxas de prevalência, as quais estão acima da média estadual. Em contrapartida, o Grande Oeste 5,9 e as regiões de Itajaí, especialmente Foz do Rio Itajaí 5,3, apresentaram as menores taxas (Figura 1).
Prevalências (%) anuais de cardiopatias congênitas e média acumulada no período, com intervalo de confiança de 95% (IC95%). Santa Catarina e suas macrorregiões, 2011-2019 (n=754)
Prevalência de cardiopatias congênitas por macrorregião no estado. Santa Catarina, 2011-2019 (n=754)
A autocorrelação espacial, determinada pelo índice de Moran global para proporções de cardiopatias, foi 0,08, com p-valor 0,010, no período entre 2011 e 2019, indicando que pode existir associação espacial entre municípios. Considerando-se os anos separadamente, o índice de Moran global foi significativo apenas para o ano de 2015 (0,14; p-valor 0,003). A análise do indicador local de associação espacial mostrou a existência de áreas com associação espacial significativa nas proximidades da macrorregião da Grande Florianópolis, entre São Bonifácio, Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Anitápolis, Alfredo Wagner e Vidal Ramos, que apresentaram altas proporções de cardiopatias no total do período; em Laguna, localizado na macrorregião Sul, e entre os municípios de Concórdia, Arabutã e Lindóia do Sul, no Meio Oeste (Figura 2A). Em 2015, apareceu uma significância alto-alto em Xaxim, no Meio-Oeste, e permaneceu a relação entre São Bonifácio, Santo Amaro da Imperatriz e Anitápolis (Figura 2B). A listagem dos municípios pertencentes a essa análise está apresentada em material suplementar (Tabelas Suplementares) tabela 1 e tabela 2.
Em relação aos dados individualizados, dos 754 casos registrados, 72 (8,7%) recém-nascidos possuíam mais de uma cardiopatia registrada ao nascimento. As características gestacionais e maternas estão demonstradas na Tabela 2. A maior parte das mães tinha entre 20-39 anos (84,0%), com média de idade de 29,5 (desvio-padrão 6,9) anos, era casada (48,8%) ou com união estável (22,4%), com escolaridade entre 8 e 11 anos de estudo (45,4%), 19,2% tinham registro de abortos prévios e 28,9% realizaram menos de sete consultas de pré-natal. Observou-se ainda que 84,2% dos partos foram do tipo cesárea, a gestação foi única em 95,4% dos casos e durou menos de 37 semanas (partos prematuros) em 25,9% dos casos relatados.
Os dados relacionados aos recém-nascidos registrados com cardiopatia congênita estão apresentados na Tabela 3. Os principais tipos de anomalias registradas foram malformação não especificada do coração (34,9% dos casos) e outras malformações congênitas do coração (10,2%). Baixo peso (menor do que 2.500 gramas) foi registrado em 30,1% dos casos, 8,0% se encontravam nas faixas de extremidade de peso, 52,1% eram do sexo masculino, 39,8% tiveram o Apgar de 1° minuto baixo e 18,8% apresentaram o Apgar de 5° minuto inadequado.
Indicadores locais de associação espacial (local indicator of spatial association - LISA) da prevalência de cardiopatias congênitas nos municípios do estado. Santa Catarina, 2011-2019 (A) e 2015 (B)
Variáveis gestacionais e maternas dos casos relatados de cardiopatias congênitas. Santa Catarina, 2011-2019 (n=754)
Características dos recém-nascidos registrados como casos de cardiopatias congênitas. Santa Catarina, 2011-2019 (n=754)
Discussão
As cardiopatias constituem a segunda mais frequente entre as anomalias congênitas monitoradas em Santa Catarina. A taxa de prevalência de cardiopatias congênitas no período de 2011 a 2019 foi 8,9/10 mil nascidos vivos, com pequenas variações no intervalo de tempo avaliado, as quais podem estar relacionadas a pequeno número de casos.
Dentre as limitações deste estudo, destaca-se a utilização de dados secundários, dependentes da qualidade de informação obtida, baseados em grande parte nos bancos de dados públicos, não sendo possível o controle dos dados primários e das lacunas encontradas. Além disso, os dados podem ser subestimados, já que nem todos os casos de cardiopatias congênitas podem ter sido notificados, especialmente ao nascimento. O diagnóstico dessas patologias pode ser realizado durante a vida adulta, visto que, em alguns casos, a doença permanece silenciosa, não apresentando manifestações clínicas durante os primeiros anos de vida. Mesmo assim, ressalta-se que este estudo é uma análise estadual, com uma retrospectiva de nove anos, elaborado a partir das notificações feitas a órgãos governamentais, o que favorece a representatividade dos achados. A literatura referente às anomalias congênitas em Santa Catarina é escassa, com poucos estudos atuais sobre a ocorrência e a distribuição das cardiopatias no estado. As prevalências de cardiopatias foram parcialmente apresentadas em estudo que avaliou temporalmente a ocorrência de 11 grupos de anomalias congênitas em Santa Catarina 18.
A prevalência média nacional foi 11/10 mil nascidos vivos entre 2010-2021, tendo a região Sul apresentado a segunda maior taxa do país, 12,6/10 mil nascidos vivos 19. Dessa forma, observam-se valores intermediários em Santa Catarina em relação à média nacional e em comparação à sua região geográfica.
A prevalência global das cardiopatias é de 94/10 mil nascidos vivos (IC95% 86; 104), sendo ela suscetível a grandes variações geográficas 20. Dentre as macrorregiões do estado, encontramos variações na prevalência, de 14,3/10 mil nascidos vivos na região da Grande Florianópolis a 5,9/10 mil nascidos vivos no Grande Oeste. Mesmo avaliando separadamente as regiões com maior prevalência, ainda se encontram taxas muito abaixo da média global. Isso pode ser reflexo da dificuldade diagnóstica desse grupo de doenças e da falta de fomentação de dados nos bancos de saúde nacionais, uma vez que se encontra o problema da subnotificação dessas patologias no país 21.
Os municípios catarinenses que apresentaram concentração de casos de cardiopatias (prevalência alto-alto) pertenciam, em geral, a uma região específica da macrorregião da Grande Florianópolis, incluindo São Bonifácio, Anitápolis, Santo Amaro da Imperatriz e Caldas Novas. Segundo o censo demográfico publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas em 2010, esses municípios possuem o índice de desenvolvimento humano considerado alto, acima de 0,700, são considerados de pequeno porte, não chegando a 3 mil habitantes e suas economias se baseiam na agricultura e no turismo. Nota-se, então, um padrão de características municipais associadas à alta prevalência das cardiopatias congênitas, surgindo duas hipóteses principais para esses achados: de um lado, a ruralização da população tende a demonstrar alta na prevalência das cardiopatias, uma vez que a literatura associa a exposição gestacional a produtos químicos ao risco de anomalias congênitas 6,22. Por outro lado, a maior capacidade diagnóstica pode estar relacionada a um menor porte dos municípios, logo, de mais fácil monitoramento da população, ou ao atendimento referenciado a centros especializados na capital do estado, inclusive para a realização do parto.
As cardiopatias são responsáveis por uma parcela significativa de óbitos infantis no Brasil e no mundo 23,24. Por possuírem alta morbimortalidade, o Plano Nacional de Assistência à Criança com Cardiopatia Congênita tornou obrigatório que as instituições de saúde realizem o teste do coraçãozinho 24, no entanto a empregabilidade do teste varia de acordo com a infraestrutura à disposição de cada local. Dessa forma, a falta de infraestrutura adequada e a escassa disponibilidade de profissionais capacitados e habituados ao manejo de recém-nascidos com cardiopatias podem indicar interferência não só na capacidade diagnóstica, mas também no desfecho da doença, já que a identificação precoce da anomalia e o início de medidas terapêuticas antecipadamente melhoram o prognóstico desses pacientes 25,26.
A análise deste estudo demonstrou um quadro de aproximada unanimidade de partos realizados em ambiente hospitalar. Desses, 84,2% foram do tipo cesárea, evidenciando o alto índice de hospitalização já relatado na literatura 27. Dentre todas as notificações, as gestações foram únicas em 95,4% dos casos e tiveram duração entre 37 e 41 semanas na maioria das vezes. O número de consultas de pré-natal foi maior que sete em 69,9% dos casos. Levanta-se a questão de o número de notificações ser subestimado, uma vez que o diagnóstico realizado durante a gestação é suscetível a lacunas humano-dependentes. A idade materna se encontrava em extremidades 16% das vezes, sendo 7,4% das mães com idade a partir de 40 anos, o que corrobora estudos que evidenciam como potencial fator de risco para cardiopatias congênitas a idade materna acima de 40 anos 28. O perfil de raça/cor da pele branca adicionado à alta escolaridade reflete a realidade estadual de Santa Catarina, não podendo essas variáveis serem consideradas fatores de risco para as cardiopatias. Em 19% das vezes, houve relatos de pelo menos um aborto prévio, concernente com a literatura que associa abortos espontâneos ou natimortos passados a um aumento de 16% no risco de desenvolver algum tipo de malformação cardíaca em futuras gestações 29.
Em relação às características fetais ao nascimento, o Apgar de 1° minuto e o de 5° estavam inadequados em boa parte das notificações, e o peso ao nascimento se encontrava insuficiente ou inadequado. Essas variáveis são conhecidas como fatores de agravo e potenciais indicadores de mal prognóstico em recém-nascidos, já que grande parte necessita de intervenções cirúrgicas de emergência ou de suporte ventilatório invasivo 30. Tornam-se indispensáveis a vigilância rigorosa e a tomada de conduta baseadas nesses fatores de alarme. O estudo demonstrou que a categoria mais notificada das cardiopatias no estado foi a malformação não especificada do coração. Inclusive, a sua ausência de exatidão diagnóstica pode influenciar a designação adequada nos casos relatados.
As cardiopatias congênitas possuem alta prevalência e morbimortalidade entre as anomalias congênitas de recém-nascidos em Santa Catarina. Embora a prevalência tenha se mostrado similar aos dados nacionais (8,9 casos a cada 10 mil nascidos vivos), está aquém das taxas globais, enfatizando-se a necessidade de fortalecimento da notificação e de investigação de casos no estado através da melhora no rastreio, na capacitação da equipe multiprofissional e na infraestrutura em centros de saúde. Verificaram-se pequenas variações ao longo do período avaliado, além de discrepâncias regionais, com associação espacial significativa na macrorregião da Grande Florianópolis.
Sugere-se a implementação de vigilância ativa na busca e na identificação de casos, além do acompanhamento de desfechos em pacientes já conhecidos com alguma anomalia, indicando a necessidade de políticas de saúde estaduais que visem à prevenção e à melhoria na qualidade de vida dos afetados. Espera-se que este estudo, que detalha uma ocorrência específica de cardiopatias, contribua para um melhor entendimento e a elucidação de questões relacionadas a esse grupo de afecção à saúde, guiando e orientando políticas de fortalecimento diagnóstico e de suporte.
MATERIAL SUPLEMENTAR
(Tabelas Suplementares) tabela 1 e tabela 2
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Disponibilidade dos dados do artigo
O banco de dados e os códigos de análise utilizados na pesquisa estão disponíveis em: https://doi.org/10.5281/zenodo.14443557.
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Uso de inteligência artificial generativa
Não empregada.
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Financiamento
As autoras Betine Pinto Moehlecke Iser e Lavínia Schuler-Faccini recebem bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo: 312216/2022-0). Laysa Kariny Krieck recebe bolsa de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo: 142450/2020-0).
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Gestora de pareceristas:
Izabela Fulone -https://orcid.org/0000-0002-3211-6951
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Parecerista:
Tania Vignuda de Souza - https://orcid.org/0000-0003-1893-893X
- Parecer:
Editado por
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Editor-chefe:
Jorge Otávio Maia Barreto - https://orcid.org/0000-0002-7648-0472
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Editor científico:
Everton Nunes da Silva -https://orcid.org/0000-0001-8747-4185
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Editora associada:
Elisângela Aparecida da Silva Lizzi - https://orcid.org/0000-0001-7064-263X
O banco de dados e os códigos de análise utilizados na pesquisa estão disponíveis em: https://doi.org/10.5281/zenodo.14443557.




