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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.8 no.2 Ribeirão Preto Apr. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692000000200009 

Artigo Original


 

A PESQUISA PARTICIPANTE NA FORMAÇÃO DIDÁTICO-PEDAGÓGICA DE PROFESSORES DE ENFERMAGEM

 

Maria Helena Dantas de Menezes Guariente1
Neusi Aparecida Navas Berbel2


Neste relato a Pesquisa Participante é o referencial metodológico impulsionador para o trabalho coletivo empreendido por um grupo de enfermeiras-professoras da disciplina de Fundamentos de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina. Das discussões provenientes do processo participativo, que foram alicerçadas no referencial teórico da Pedagogia Histórico-Crítica, selecionou-se as concepções e práticas pedagógicas mais relevantes, através da apresentação e discussão das categorias Objetivos, Conteúdos, Metodologia e Avaliação. Concluiu-se que as reflexões produzidas no e com o grupo participante sobre os aspectos pedagógicos repercutiram na concepção e no fazer das docentes envolvidas e que o processo coletivo deve ser contínuo para o aperfeiçoamento pedagógico destes profissionais, agentes educativos preocupados com a formação de futuros enfermeiros críticos e transformadores da realidade.

UNITERMOS: pesquisa, educação em enfermagem, docente de enfermagem


PARTICIPANT-RESEARCH IN THE DIDATIC-PEDAGOGICAL FORMATION OF FACULTY NURSES

Through the participant-research framework, this collective study was carried out by a group of faculty nurses responsible for the course of Nursing Fundamentals at Londrina State University. Considering the discussion that emerged from the participative process and based on the Historical-Critical Pedagogy, the most relevant concepts and pedagogic practices were selected, through the presentation and discussion of the following categories: Goals, Contents, Methodology and Evaluation. Authors concluded that the reflections emerged by and with the group about pedagogic aspects effected the performance of the involved faculty as well as that the collective process must be continuous in order to support the pedagogic development of these professionals, who are educational agents concerned with the improvement of nurses' formation.

KEY WORDS: research, nursing education, nursing faculty


LA INVESTIGACIÓN PARTICIPATIVA EN LA FORMACIÓN DIDÁCTICO-PEDAGÓGICA DE PROFESSORES DE ENFERMERÍA

En este relato la Investigación Participativa es la referencia metodológica impulsora para el trabajo colectivo emprendido por un grupo de enfermeras-profesoras de la asignatura de Fundamentos de Enfermería de la Universidad Estadual de Londrina. De las discusiones provenientes del proceso participativo, que se basaron en la referencia teórica de la Pedagogía Histórico-Crítica, se seleccionaron los conceptos y prácticas pedagógicas más importantes, a través de la presentación y discusión de las categorías Objetivos, Contenidos, Metodología y Evaluación, se llegó a concluir que las reflexiones producidas, en y con el grupo participante sobre los aspectos pedagógicos, repercutieron en la concepción y en el quehacer de las docentes comprometidas y que el proceso colectivo debe ser continuo para poder capacitar pedagógicamente estas profesionales, los agentes educacionales preocupados con la formación de futuros enfermeros críticos y transformadores de la realidad.

TÉRMINOS CLAVES: pesquisa, enseñanza enfermería, docente enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

A educação assume cada vez mais lugar de destaque na sociedade moderna. A formação de indivíduos com competência técnico-administrativa é somada à formação de cidadãos comprometidos com o seu momento histórico, social, econômico e político.

Já não se concebe mais o ensino apenas com a função de ensinar-aprender o já construído pelas civilizações. Ensinar hoje, sob a luz das tendências educacionais progressistas, anunciadas por vários autores como SNYDERS (1974); LIBÂNEO (1985); FREIRE (1987); SAVIANI (1989); LUCKESI (1994), abarca toda uma concepção que pretende levar o aluno à aquisição do já sabido, através de novas elaborações, fomentando a sua criticidade para uma ação-transformadora comprometida com a realidade social.

O avanço científico, tão veloz nestas últimas décadas, também aponta para uma educação que prepare indivíduos criativos, reflexivos e competentes. Para tanto a escola, o ensino superior, precisa preparar-se para contemplar a formação dos profissionais necessários à sociedade brasileira atual, com os olhos voltados para o futuro.

A qualidade do ensino vem como meta a ser alcançada para esta formação pretendida, sendo que a qualidade passa pela capacitação dos professores, ao visar para estes a competência para ensinar outros a aprenderem e a serem futuros profissionais promissores.

No meio universitário, a preocupação com a questão da capacitação de professores é uma realidade que vem sendo trabalhada. Já os Cursos de Pós-Graduação têm propiciado avanços consideráveis na área da competência técnica. O que questionamos é quanto a competência para ensinar, ou seja a competência pedagógica dos profissionais que tornaram-se professores universitários.

Motivados pelas questões do ensino na Enfermagem, focalizando o agente educador, procuramos neste texto, no contexto de descrição de um relato de experiência desenvolvida, discutir a formação didático-pedagógica de professores de Enfermagem, pela participação ativa destes profissionais, via Metodologia da Pesquisa Participante.

 

O ENSINO DE ENFERMAGEM - EM BUSCA DA QUALIDADE NO ENSINAR E NO APRENDER

O ensino na área de Enfermagem tem apresentado dificuldades para transpor a maneira tradicional e técnica de produzir e fazer conhecimento para alcançar um ensino mais crítico e emancipatório para o educando.

Considerando o conjunto das determinações do ensino de Enfermagem, CRISTÓFFARO (1992, p.35-36) analisa que "(...) a escola segue o seu caminho, conturbado apenas por programas mais tecnicistas ou mais escolanovistas ou mais tradicionais".

Esta autora ainda critica que os movimentos que buscam reorientar a formação na área de saúde (do âmbito técnico-pedagógico para o âmbito político) têm sido marginalizados.

Sabemos, contudo, que esta situação abrange de um modo geral a educação de nível superior, não sendo preocupação apenas da área da Saúde ou da Enfermagem.

A necessidade emergente de uma rigorosa articulação entre conteúdos e métodos, preconizada por LIBÂNEO (1985), através de sucessivas aproximações da prática da Enfermagem, como lembram BOEMER et al. (1992), isto é, das Técnicas de Enfermagem ao assistir o paciente, inseridas no dia a dia da profissão, tem sido muitas vezes manifestada também pelos professores da disciplina Fundamentos de Enfermagem da UEL. Estes professores questionam-se sobre: o que deve ser ensinado, quais os princípios científicos realmente relevantes a serem destacados e como ensinar de forma eficiente tais conteúdos?

Além disso, acrescentamos a preocupação com a formação dos alunos, no intuito de levá-los a uma consciência enquanto cidadãos e profissionais conhecedores de uma realidade mais ampla, que emerge do conhecimento histórico da Enfermagem e também das influências do sistema político, econômico e social sobre esta profissão. Tal questionamento converge para a reflexão: que tipo de formação é pretendida e com qual finalidade?

Frente a tais inquietações do ensino no Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina, em plena re-estruturação e implantação curricular, com a necessidade do trabalho coletivo do grupo de professoras da área de Fundamentos de Enfermagem, procuramos investigar o Problema: Como trabalhar os aspectos pedagógicos, numa construção participativa, visando a melhoria do ensino?

Confirmamos a relevância deste estudo ao verificarmos a escassa disseminação de trabalhos com o propósito de ressaltar o aspecto pedagógico em adição à técnica, na disciplina em questão.

Neste sentido, nosso intuito foi o de direcionar o ensino de Enfermagem para a formação de um profissional consciente de sua responsabilidade histórica, crítico da realidade sócio-educacional, como da prática da assistência à saúde e compromissado com o seu atuar transformador contextualizado, vindo ao encontro dos reais interesses da comunidade, como pode ser lido no texto do Currículo do Curso de Enfermagem (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA, 1995). Nos vimos, então, com a disposição de, juntamente com o grupo de professoras de Fundamentos de Enfermagem do Departamento de Enfermagem da UEL e Enfermeiros do Hospital Universitário Regional Norte do Paraná - HURNPr., diretamente relacionados com as atividades da disciplina, empenharmo-nos na busca de soluções para a atual necessidade profissional e educacional.

Entendíamos que, para alcançarmos as metas apontadas no Projeto Pedagógico do Currículo de Enfermagem da UEL, deveriam acontecer mudanças substanciais na postura do docente quanto ao seu fazer pedagógico, como TAKAHASHI et al. (1995, p.61) apontam:

"Para que determinadas mudanças pretendidas para o curso se concretizem na prática, deve-se dar atenção especial à fase pós-definição do currículo. No decorrer da implantação é fundamental o planejamento de atividades que sensibilizem docentes e discentes para enfrentar a situação".

Também com a preocupação de que a elaboração do Projeto Pedagógico para o Curso de Enfermagem não fosse apenas carta de intenções, proposta encomendada, constatação de problemas sem compromisso de solução, concordamos com DEMO (1996, p.135-136) quando afirma que "(...) para tanto é indispensável um grupo de professores comprometidos, ao mesmo tempo competentes e engajados", para as transformações no ensino.

A melhoria do ensino foi discutida e buscada pelo grupo participante, como ponto crucial e emergente, apontada por DEMO (1996, p.148) como desafio clarividente para o ensino superior,

"(...) ao passar da mera aprendizagem para o aprender a aprender, ao fazer da escola lugar privilegiado de educação e do conhecimento, não da cópia da cópia, unir saber e mudar".

Reconhecendo o desafio de toda a situação exposta, tivemos, enquanto grupo de professoras envolvidas pela Pesquisa Participante, o Objetivo de vivenciar coletivamente, através desta metodologia científica, um processo de estudo e aprimoramento dos aspectos pedagógicos, tendo em vista a melhoria do ensino da disciplina Fundamentos de Enfermagem.

 

AS CARACTERÍSTICAS DO NOVO CAMINHO

Num primeiro contato com a realidade na qual se processa a disciplina de Fundamentos de Enfermagem, percebemos a necessidade de propiciar um processo de capacitação pedagógica e de criação de uma consciência reflexiva por parte das professoras.

Esta necessidade é citada por ALMEIDA & ROCHA (1986) ao abordarem que o Enfermeiro, e neste ponto generalizamos o professor de Enfermagem, teve sua educação baseada na aquisição passiva de conhecimentos, com decisões sempre tomadas por outros. Sendo assim, ele precisa reorientar e refletir sobre seu papel como agente de mudanças.

MADEIRA (1985) argumenta que a reorientação do papel do Enfermeiro estaria intrinsecamente ligada ao papel que a Universidade desempenha frente à sociedade, às funções de ensino, pesquisa e serviço. E que no campo da saúde, especificamente, ela deve ser criadora de desafios para o desvendamento da realidade, levando as pessoas a despertarem para uma consciência mais crítica, como também deve se empenhar para que todos os povos obtenham um nível de saúde que lhes permita uma vida social e economicamente digna.

Na área da saúde, um dos caminhos para atender a estas necessidades é a pesquisa de abordagem qualitativa, que segundo MADEIRA (1985); PIERIN et al. (1989); GUALDA et al. (1995) entre outros, emerge na Enfermagem criando novos caminhos e ampliando horizontes.

Entendemos que a procura por caminhos novos na pesquisa não é tarefa fácil pois o pesquisador deve lutar para vencer dificuldades de diferentes naturezas, assim como as que dizem respeito à sua própria formação tradicional, no seio positivista e estrutural-funcionalista, não sendo das mais fáceis de superar (Wanderley apud TRIVIÑOS, 1987). Mesmo assim aceitamos o desafio de experimentar um novo caminho.

Tivemos o respaldo de vários autores, enfermeiros-pesquisadores, para esta empreitada. Entre eles, PIERIN et al. (1989) enfatizam que a adoção de métodos qualitativos de pesquisa pode levar à descoberta do real significado do cuidado, atividade central da Enfermagem, pela utilização de observação detalhada, documentação e exploração de informantes. Estes autores afirmam também que a "(...) a pesquisa em Enfermagem não só é importante para inovar a assistência, mas também para aprimorar o ensino e a organização dos serviços" (PIERIN et al., 1989, p.89).

Buscamos então compreender e vivenciar as características da Pesquisa Participante, caminho adotado para o trabalho coletivo de professores de Enfermagem.

A Pesquisa Participante é um método que proporciona ao pesquisador o conhecimento da realidade alvo, como também possibilita integrar, através de uma contínua Ação-Reflexão-Ação da situação definida, os participantes-pesquisadores, pela conscientização e entendimento para tomada de decisão, visando a transformação.

Consultamos vários autores como MADEIRA (1985); HAGUETTE (1987); MONTEIRO (1991); GUALDA et al. (1995); PRADA (1996) e THIOLLENT (1996), que ressaltam os diferentes aspectos que esta Metodolgia proporciona e enriquece o processo de pesquisar, transformar e construir conhecimento coletivo.

A corrente teórica que embasa a Pesquisa Participante é a Filosofia da Práxis, que segundo MADEIRA (1985, p.16), "(...) procura ver o homem em sua totalidade, acreditando em sua potencialidade e em sua capacidade, para criar e transformar sua própria história".

Com relação ao conhecer o outro em sua realidade, destacamos como ponto central desta metodologia a preocupação com o processo em si e não com o produto. Para tanto, torna-se essencial a interação entre o pesquisador e o grupo pesquisado, proporcionando espaço, onde as pessoas falem por si mesmas, desvelando a sua realidade, interagindo e ensinando-se mutuamente.

Neste sentido, a população envolvida na Pesquisa Participante tem parte em todo o processo. População e pesquisador tornam-se partícipes do processo em construção para a transformação.

Já a Pesquisa Participante na Enfermagem vem sendo trabalhada e divulgada em pesquisas na área assistencial e de ensino, por enfermeiras-professoras tais como CADETE (1985); MADEIRA (1985) e EGRY (1985).

Contudo, a aplicação desta Metodologia no nosso estudo teve como população alvo docentes do Curso de Enfermagem em sua formação didático-pedagógica.

Enfatizamos que os aspectos metodológicos adotados para esta pesquisa seguem a preconização de HAGUETTE (1987) e o processo de construção de conhecimentos segundo a visão de PRADA (1996).

Para tanto foram perseguidas as etapas formais da Pesquisa Participante, quais sejam: 1- aproximação da população alvo, com apresentação e aceitação da proposta da Pesquisa Participante; 2- delimitação do objetivo da pesquisa pela população envolvida, mediante assessora da área educacional; 3- levantamento de dados para maior conhecimento dos participantes, através de entrevista; 4- delimitação dos objetivos da investigação pelo grupo participante a partir do seu interesse; 5- construção de conhecimento coletivo, através da análise dos dados emitidos pelos participantes, da identificação e priorização dos objetivos de estudo, com classificação das situações pelas explicações e relações surgidas entre o contraste do conhecimento cotidiano e o sistematizado universalmente. Ainda na etapa final da pesquisa, a elaboração de proposições de ações transformadoras para as situações levantadas.

 

AS PARTICIPANTES DO PROCESSO PARTICIPATIVO

Para o desenvolvimento deste processo, com a metodologia escolhida, o grupo foi formado a partir das professoras da disciplina Fundamentos de Enfermagem, lotadas no Departamento de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Londrina.

Participaram também Enfermeiras diretamente relacionadas com as atividades da disciplina, profissionais do Hospital Universitário, instituição de ensino da UEL.

O grupo foi constituído por 11 Enfermeiras, sendo 9 professoras de Enfermagem e 2 Enfermeiras do HU.

Os alunos do Curso de Enfermagem se constituíra em outro grupo que também participou, sendo ouvidos em dois momentos distintos, antes do início do processo coletivo das professoras e enfermeiras, e logo ao término deste processo.

Contamos ainda com a assessoria de uma pedagoga, nos momentos que as participantes do grupo manifestaram esta necessidade para aprofundamento de algumas questões didático-pedagógicas.

Não fechamos a possibilidade de inclusão de outros participantes ao grupo das professoras-enfermeiras, como professores das demais disciplinas do ciclo profissionalizante de Enfermagem e de médicos especialistas em diferentes áreas, quando assim se expressou o grupo, ao sentir a necessidade de complementar questões pertinentes ao estudo, como também numa possível ampliação de conhecimentos teórico-práticos da profissão e da realidade em si.

Consideramos importante relatar algumas características das participantes do grupo tais como: o tempo de formação na área de Enfermagem variava de 7 a 24 anos entre as participantes, sendo ainda a atividade docente exercida em diferentes extremos de tempo, isto é, de 1 ano e meio até 19 anos. Todas as participantes tinham ao menos um Curso de Especialização concluído. O regime de trabalho também variava entre as participantes, indo de 20 horas a 40 horas com Dedicação Exclusiva. Interessante que neste grupo algumas participantes tinham sido alunas de outras, sendo registrado o fato de termos no grupo três gerações formadas pelo Curso de Enfermagem da UEL. Sintetizando, formávamos um grupo heterogêneo mas que tinha em comum a disposição em participar, colaborar e crescer.

Partindo do problema delimitado para a pesquisa, tivemos a intenção de trabalhar no grupo, com o consentimento deste, as Categorias: Conteúdos, Objetivos, Metodologia e Avaliação, bem como outras categorias que fossem surgindo durante o processo de investigação e construção coletiva.

A coleta de dados junto aos alunos, ao responderem um instrumento em que eram solicitados a se posicionarem em relação a disciplina e seus professores, no início e ao término das atividades da Pesquisa Participante, teve o intuito de proceder a uma análise comparativa deste dois momentos.

Também realizamos a análise de discurso, quando pretendemos desvelar as representações que os professores tinham de sua prática cotidiana de ensinar, como as repensadas e as adquiridas no trabalho participativo.

Desta maneira procuramos realizar uma descrição reflexiva do processo vivido pelas participantes através de três momentos assim planejados: o primeiro momento - período pré-processo participativo, com levantamento de dados junto as professoras e alunos; o segundo momento - período do processo participativo, com transcrição, categorização e análise dos discursos emitidos nas reuniões do grupo participante; e o terceiro momento - período pós-processo participativo, com novo levantamento de dados junto as professoras e alunos.

 

O CAMINHO TRILHADO

Antes de iniciarmos propriamente a Pesquisa Participante, fomos nos aproximando do grupo de professoras da disciplina Fundamentos de Enfermagem de uma maneira diferente da habitual convivência entre colegas da mesma área.

Primeiramente formamos um grupo de estudo sobre o conteúdo central da disciplina - as técnicas de Enfermagem. Realizamos então 14 reuniões, semanais, com o objetivo de unir as participantes em torno desta discussão, atualizando os conhecimentos teóricos e práticos.

Uma segunda forma de aproximação ao grupo aconteceu durante as atividades de uma Oficina de Trabalho, que teve a finalidade de discutir a proposta pedagógica do novo Currículo do Curso de Enfermagem e vivenciar, nessa discussão, a Metodologia da Problematização (GUARIENTE, 1996).

Neste evento foi possível perceber com as professoras o desejo de participação em outras Oficinas Pedagógicas, com o intuito de irmos tratando, passo a passo, dos elementos referentes ao processo ensino-aprendizagem.

Caracterizamos estes momentos junto às professoras como sendo atividades preparatórias às etapas metodológicas da Pesquisa Participante, e que nos auxiliaram, de forma bastante produtiva, na aproximação do cotidiano didático das professoras.

As reuniões do grupo participante foram então iniciadas com o esclarecimento de que a participação de todas era fator essencial para o processo e que neste tipo de pesquisa estaríamos, pelas discussões, aprendendo umas com as outras, com a possibilidade de juntas construirmos conhecimentos para o nosso fazer didático e assistencial no ensino de Enfermagem.

Quanto ao entendimento da proposta e a disposição de participação, evidenciamos a concordância para a caminhada participativa como pode ser observado pela seguinte fala de uma das professoras:

"A proposta visa a melhoria da disciplina em termos do processo ensino-aprendizagem, que eu creio ser a preocupação do grupo, pois nos sentimos um tanto perdidas com esta nova proposta do currículo".

A esta primeira reunião seguiram-se mais vinte e oito, que aconteceram geralmente às quintas-feiras, durando em média três horas, no período de agosto a dezembro de 1996 e de fevereiro a abril de 1997. As reuniões foram gravadas e imediatamente transcritas para auxiliar na continuidade dos trabalhos.

Os encontros eram, de maneira geral, divididos em duas etapas. Na primeira, dispunhamos de um tempo breve para as colocações pessoais sobre a disciplina e em algumas situações, utilizamos algumas dinâmicas de grupo. Este momento tinha a intenção de propiciar às professoras um espaço para desabafos, descontração e ir preparando o grupo para as etapas seguintes. Em seguida, passávamos para discussão do tema didático-pedagógico planejado. Na segunda etapa da reunião fazíamos então a discussão da técnica de Enfermagem designada para a reunião.

O processo participativo foi posteriormente organizado e desenvolvido, com a discussão dos elementos pedagógicos : Conteúdos, Objetivos, Metodologia e Avaliação.

Procedemos a discussão destas Categorias, pela análise do discurso das participantes, que foram ainda organizados em sub-categorias para uma descrição e discussão mais detalhada, respondendo ao rigor científico da metodologia.

Ressaltamos que no processo empreendido utilizamos como referencial teórico para o embasamento das discussões do grupo a Tendência Histórico-Crítica da Educação que, no nosso entender, respondia às necessidades de transformação didático-pedagógicas pretendidas pela reformulação curricular do Curso.

A Tendência Histórico-Crítica pressupõe a libertação por uma construção sóciocultural, onde o saber transmitido e assimilado na escola deve garantir o domínio e a reinterpretação crítica da realidade.

Sendo assim, a aprendizagem é o resultado das apropriações, reelaboradas, dos modos de interpretar a realidade e o mundo a partir da assimilação crítica dos conhecimentos já produzidos historicamente.

Através deste fio condutor lemos, discutimos e elaboramos possíveis alterações do nosso fazer didático à luz de autores-educadores como LIBÂNEO (1994); LUCKESI (1994); BERBEL (1994); HOFFMAN (1994); DE SORDI (1995) e BRAGA (1996), entre outros.

 

AVALIANDO O PROCESSO VIVENCIADO

O processo vivenciado proporcionou-nos um aprendizado contínuo, no qual pudemos experimentar com as professoras desde o como relacionar-se com o outro, como é importante valorizá-lo e, principalmente, possibilitar o emergir dos potenciais de cada um, que estão apenas aguardando situações que lhe dêem chance de desabrochar, refletir, criar e construir.

Podemos destacar que a associação dos aspectos pedagógicos, nossa figura central do trabalho participativo com o grupo, propiciou como pano de fundo a capacitação pedagógica das envolvidas no processo participativo. Vivenciamos assim o que HAGUETTE (1987); MADEIRA (1985) e PRADA (1996) apontam sobre a ação educativa no processo coletivo e a construção de conhecimentos produzidos pelo grupo.

Tal apoio coletivo, muitas vezes pode se tornar mais eficiente que muitos cursos formais realizados, que não conseguem resgatar o potencial criativo e o pensamento crítico dos professores, fundamental para transpor a prática ritualista no cotidiano do ensino, superando o trabalho solitário pelo trabalho coletivo do grupo.

Através dos relatos das professoras, como membros efetivos do processo coletivo, pudemos observar que ultrapassamos o pensar tradicional e alcançamos mudanças na ação de ensinar e aprender, como descreveu uma professora:

"Na minha opinião os alunos deste semestre se empenharam muito para o alcance dos objetivos propostos, e o grupo de docentes também colaborou para que a metodologia e o sistema de avaliação estabelecidos fossem concretizados. Confesso que mudar de atitude perante os alunos não foi tarefa fácil, pois ainda temos muito do ensino tradicional".

Acreditamos, portanto, que conseguimos atingir na Disciplina um processo ensino-aprendizagem intencional e organizado, através da construção do conhecimento individual e coletivo, propiciado com as discussões ocorridas no grupo participante. Para essa concretização entendemos que o esforço das professoras em participar nas reuniões foi aspecto essencial para os desdobramentos que se seguiram. Analisamos este comportamento positivo das participantes como conseqüência do compromisso pessoal assumido com o grupo e a pesquisa.

Momentos significativos para nós foram aqueles em que vimos e ouvimos pelos depoimentos das professoras sobre o seu "despertar" para (re)elaborações de conceitos, comportamentos e ações docentes.

O conviver e compartilhar com outros nossas dúvidas, desejos e aspirações ocorreu numa inconstância marcante durante o processo. As alegrias, as amarguras emergiam naturalmente e, para tanto, foi preciso aprender a calar para ouvir, parar para que outros participassem, enfim estar atenta para, com habilidade, conduzir um grupo visando a sua autonomia e crescimento.

Evidenciamos pelos relatos das envolvidas, como pela nossa percepção do todo vivenciado, que devemos estar "eternamente" aprendendo a ser professores-educadores.

Finalizando, reforçamos nossa crença no trabalho participativo de professores para uma educação com qualidade, ao citarmos as palavras de um poeta:

"Sonho que se sonha só
é só um sonho
mas sonho que se sonha junto
pode tornar-se realidade"
.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em: 12.1.1999
Aprovado em: 7.12.1999

 

 

1 Docente do Departamento de Enfermagem/CCS/UEL; 2 Docente do Departamento de Pedagogia/CECA/UEL