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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.1 Ribeirão Preto Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000100024 

COMUNICAÇÕES BREVES / RELATOS DE CASOS

 

Consulta coletiva de pré-natal: uma nova proposta para uma assistência integral

 

 

Lucia Helena Garcia PennaI; Joana Iabrudi CarinhanhaII; Raquel Fonseca RodriguesIII

IDoutor em Saúde da Crinça e da Mulher, Professor Adjunto,.e-mail: luciapenna@terra.com.br
IIMestranda, Professor Assistente da Universidade Severino Sombra, Brasil, e-mail: iabrudi@yahoo.com. Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
IIIEnfermeira do Instituto Fernandes Figueiras da Fundação Oswaldo Cruz, Brasil, e-mail: quel_fonseca@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este estudo consiste na descrição da Consulta Coletiva de Pré-Natal como nova metodologia assistencial, a qual é realizada seguindo os padrões governamentais, porém, coletivamente. Utilizou-se técnicas de relaxamento e de sensibilização e dinâmicas de grupo, incluindo o exame coletivo das gestantes em um espaço acolhedor, esclarecedor e socializador de experiências e informações, em que a gestante é protagonista. Na Consulta Coletiva, o profissional registra todos os parâmetros e condutas obstétricos no cartão e prontuário perinatal e prioriza o princípio da integralidade e cidadania, buscando romper com o paradigma assistencial-biomédico, favorecendo assistência humanizada e integral à mulher.

Descritores: cuidados integrais à saúde; enfermagem obstétrica; mulheres grávidas


 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O presente estudo consiste na descrição de inovação metodológica assistencial no trabalho com mulheres: a Consulta Coletiva no Pré-Natal.

Tradicionalmente, a maioria das consultas de pré-natal segue o modelo biomédico(1), entretanto, apesar da sua reconhecida contribuição, esse padrão carece de análises críticas quanto ao processo de transformação da realidade. Refletindo sobre a qualidade no Pré-Natal, o Ministério da Saúde aponta a ação educativa como a melhor forma de assistir a gestante e promover a saúde(2). Entretanto, depara-se com um serviço público de saúde abarrotado que obriga o profissional a reduzir o tempo disponível para desenvolver atividades educativas e que abordem a subjetividade das mulheres. Pesquisas convergem tanto na constatação das falhas na organização do atendimento quanto no pensamento de que se trata de situação “desumanizante”(3-5).

Nesse sentido, procurou-se, aqui, bases no pensamento de que o espaço coletivo é a mais rica oportunidade para se experimentar verdadeiramente a participação e a produção coletiva do conhecimento(6). Entende-se que, assim, é possível intervir com mais efetividade tanto nas questões individuais quanto no âmbito coletivo, considerando a saúde como processo histórico e social.

 

DESCREVENDO A CONSULTA COLETIVA

A proposta dessa nova metodologia é a realização de consulta de pré-natal baseada nos padrões de uma consulta individual(2), entretanto, possui como particularidade ser desenvolvida de forma coletiva e tem como objetivo principal auxiliar a mulher na construção de sua maternidade e no exercício de sua cidadania, rompendo com o paradigma assistencial biomédico.

No desenvolvimento da consulta coletiva, delineou-se algumas estratégias: a consulta ocorreu em uma sala especial com som ambiente, as atividades eram iniciadas com exercícios de relaxamento, realizavam-se dinâmicas com as mulheres acerca de suas representações sobre a gravidez e as modificações do organismo materno e a evolução do quadro do bebê, discutia-se os temas que emergiram, seja sobre as intercorrências desde a última consulta, as orientações para o parto, a questão dos acompanhantes, as relações conjugais ou qualquer outro assunto que elas desejassem esclarecer, conforme a necessidade e interesse do grupo e, finalmente, o exame coletivo das gestantes, onde elas mesmas se auto-examinavam e examinavam as outras mulheres. O exame restringiu-se, no coletivo, à palpação obstétrica, verificação da altura do fundo uterino e ausculta do batimento cardíaco fetal (BCF). Esse momento desperta grande euforia nas mulheres, pois dá a elas a apropriação sobre o seu corpo e o desenvolvimento de seu filho. Vale ressaltar que as mamas e genitália são examinadas na consulta individual. Essa consulta tem o mesmo valor de uma consulta individual, uma vez que é registrado no cartão e prontuário da gestante todos os parâmetros e condutas obstétricos (e quaisquer outros dados sobre a mulher), preconizados em uma assistência pré-natal.

Cabe salientar, ainda, que as Consultas Coletivas são realizadas após as mulheres terem sido assistidas, no mínimo, em uma Consulta Individual. Além disso, a prévia comunicação sobre a Consulta Coletiva lhes garante o direito de não desejar participar da mesma.

 

DISCUTINDO A CONSULTA COLETIVA

Nessa consulta, as mulheres têm a possibilidade de reforçar a auto-estima, desenvolver o autocuidado e conhecer melhor seu corpo e seus direitos trocar experiências, sentimentos, sentirem-se seguras, perceberem que os problemas são comuns e que não estão sozinhas(6-7).

Essa forma de pensar e agir a assistência à gestante reporta a um outro pensamento: “tudo o que se sabe aos poucos se adquire por viver muitas e diferentes situações de trocas entre pessoas, com o corpo, com a consciência, com o corpo-e-a-consciência. As pessoas convivem umas com as outras e o saber flui...”(8).

Entende-se que, com a Consulta Coletiva, será possível à mulher ter nova visão do seu papel social, da sua sexualidade como prazer e não só para a reprodução ou como objeto de consumo e sim como agente transformador da realidade. Concomitantemente, pretende contribuir para a humanização da assistência pré-natal, ao entendê-la como rico contexto de relacionamento interpessoal e não como simples procedimento técnico(4,9-10).

Caracteriza-se como inovação metodológica assistencial que pressupõe prática humanizada, calcada na valorização do saber da mulher, na socialização de conhecimentos (popular e científico) e experiências, na quebra da hierarquia social. É adotada, portanto, postura de igualdade para com o grupo, estimulando a igualdade e a solidariedade entre elas. Concomitantemente, há a preocupação de inculcar na mulher a posição de protagonista desse atendimento. Outro ponto a ser ressaltado, acerca da conduta do profissional de saúde, diz respeito à necessidade de se conhecer e se interessar pelo contexto e vivências de cada mulher, ajudando-a na construção de sua maternidade e sua saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, é possível considerar que a Consulta Coletiva está intimamente ligada ao princípio da integralidade, o qual, segundo o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), significa prática que atenda todas as necessidades de saúde do indivíduo ou do grupo em questão, favorecendo a prevenção e promoção da saúde em âmbito coletivo. Portanto, a Consulta Coletiva, em conjunto com a consulta individual, contribui para a expansão da cobertura pré-natal, bem como para o atendimento integral da mulher. Com essa inovação metodológica, acredita-se estar contribuindo para se caminhar no sentido da ruptura do paradigma assistencial-biomédico e concretizar assistência humanizada que valorize verdadeira e efetivamente a mulher em sua integralidade.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1. Penna LHG, Progianti JM, Correa LM. Enfermagem Obstétrica no Acompanhamento Pré-Natal. Rev Bras Enfermagem 1999 julho-setembro; 52(3):385-90.        [ Links ]

2. Ministério da Saúde (BR). Assistência Pré-Natal - Manual Técnico. 3ª ed. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2000.        [ Links ]

3. Oba MDV, Tavares MSG, Aspectos positivos e negativos da assistência pré-natal no município de Ribeirão Preto-SP. Rev Latino-am Enfermagem 2000 abril; 8(2):11-7.        [ Links ]

4. Casate JC, Corrêa AK. Humanização do atendimento em saúde: conhecimento veiculado na literatura de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2005 janeiro-fevereiro; 13(1):105-11.        [ Links ]

5. Serruya SJ, Lago TG, Cecatti JG. O panorama da atenção pré-natal no Brasil e o Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento. Rev Bras Saude Mater Infant 2004 julho-setembro, 4(3):269-79.        [ Links ]

6. Assis M. Educação e Saúde e Qualidade de Vida: para além dos modelos, a busca da comunicação. Rio de Janeiro (RJ): UERJ/IMS; 1998.        [ Links ]

7. Vasconcelos EM. Educação Popular nos Serviços de Saúde. São Paulo (SP): HUCITEC; 1989.        [ Links ]

8. Brandão CR. O que é Educação. 9ª ed. São Paulo (SP): Brasiliense; 1983.        [ Links ]

9. Silva MG. A consulta de enfermagem no contexto da comunicação interpessoal - a percepção do cliente. Rev Latino-am Enfermagem 1998 janeiro; 6(1):27-31.        [ Links ]

10. Deslandes SF, Ayres JRCM. Humanização e cuidado em saúde. Ciênc Saúde Coletiva 2005 julho-setembro, 10(3):510.        [ Links ]

 

 

Recebido em: 29.4.2007
Aprovado em: 7.11.2007