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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000200023 

COMUNICAÇÕES BREVES/RELATOS DE CASOS

 

Estética dos odores: o sentido do olfato e a enfermagem

 

 

Antônio de Miranda WosnyI; Alacoque Lorenzini ErdmannII; Paulo Belli FilhoIII; Joséte Luzia LeiteIV

IEnfermeiro, Doutor em Enfermagem, Professor Adjunto
IIEnfermeira, Doutor em Filosofia da Enfermagem, Professor Titular; e-mail: alacoque@newsite.com.br
IIIEngenheiro Sanitário, Doutor em Química Industrial e Ambiental, Professor Adjunto. Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
IVEnfermeira, Professora Titular Emérita da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, e-mail: joluzia@gmail.com

 

 


RESUMO

Este estudo apresenta reflexões acerca do significado das percepções e sensações olfativas e sua pertinência como fenômeno presente na prática da Enfermagem. Destaca a importância da linguagem química dos odores no ambiente hospitalar, pontuando algumas deduções sobre a estética dos odores pela enfermagem. Conclui que a maior compreensão estético/filosófica e técnico/científica das emanações odorantes poderá contribuir para o cuidado humano, especialmente no diagnóstico e prescrição de Enfermagem, vigilância da qualidade ambiental e terapêutica.

Descritores: odores; olfato; enfermagem


 

 

AS EXPERIÊNCIAS OLFATIVAS…OS ODORES…A ENFERMAGEM…

"Sensações presentes evocam sensações ausentes"(1)

Nossa existência é determinada pelo que sentimos, as sensações. É possível que foram as experiências olfativas que mediaram nosso primeiro contato com o mundo, através do odor materno, afiançando-nos a sobrevivência e constituindo o início do nosso conhecimento. Em nossa vida seguimos acumulando experiências olfativas que com suas características e estímulos consolidam o imaginário olfativo dos fenômenos odorantes.

A atividade de Enfermagem se desenvolve em um cenário de múltiplos estímulos e requerente dos sentidos humanos. As percepções olfativas são fundamentais no espaço do cuidado hospitalar, considerado sua intensidade e constância no cotidiano. Florence Nightingale já nos inspira acerca do sentido do olfato(2) Se preocupou com o ambiente e a necessidade de ar fresco com técnicas para a instrumentação do cuidado(3).

Na contemporaneidade ambiental o espaço destinado aos odores foi extremamente restringido. A prevalência é do inodor; a cultura das fragâncias cede lugar a da nulidade odorífica nos espaços sociais. Não obstante, a tecnología disponível para o banimento de odores ambientais no hospital aporta novos odores próprios de produtos sépticos. Porém, estes odores podem ser emanações que acompanham o ser humano com sua particularidade odorante. Algumas situações apresentam-se desagradáveis ao sentido, com sensação de desconforto geral. Nestes casos, quando possível, as medidas adotadas são de contenção, dispersão o eliminação imediata dos mesmos. Ademais, estes odores individuais podem indicar múltiplos significados, tais como, sinais clínicos, caracteres étnicos e valores culturais importantes para quem cuida e para quem é cuidado.

Com a intenção de apresentar reflexões sobre este tema, destacam-se alguns estudos(4-7) da sensibilidade odorante, o sentido do olfato e os odores em sua dimensão histórica e sociocultural. Estes clarificam alguns dos legados que desqualificaram a olfação humana, extinguindo do processo evolutivo da especie e natureza do mundo desodorizado.

 

O SENTIDO DO OLFATO… CONHECIMENTOS PARA A ENFERMMAGEM…

Na Antigüidade clássica, os filósofos que estudaram as sensações apresentam os odores e sua natureza "semiformada", com uma estrutura "mais tenue do que a água e mais densa do que o ar"(7) e, pela complexidade de classificação por categoría, se limitam ao carater de agradabilidade e desagradabilidade(7). E, nos tempos modernos, a ciência e a tecnología denotam supremacía a visão e audição. A visão apresenta-se como o sentido eleito para qualificar a maioria dos reflexos de carater sensorial no pensamento ocidental. A sensação como representação de um objeto e impressão dos sentidos, diferencia-se da representação subjetiva. Todavía, Kant considera a sensação como uma qualificação ou subjetividade do objeto percebido ou o sentimento que as coisas evocam(8-11).

O filósofo Montaigne defende um mundo inodoro. Para ele, a melhor qualidade que o ser humano pode ter é não possuir odor, e que, o hálito mais puro é tanto mais doce quanto sem odor nenhum, como no caso das crianças sadias(12). Además, das emanações provenientes dos perfumes agregados ao corpo pode sinalizar algum defeito odorante natural, o que originou aforismos poéticos tais como os de Marcial y Horácio, sugerindo que é sinal de mal odor um bom odor ou quem sempre cheira bem, póstumo, cheira mal(12).

Hábitos desodorizantes encontram-se em relatos da cultura ocidental, a greco-romana, e foram adaptados em importantes culturas atuais(7), promovendo uma verdaderia assepsia ambiental e corporal. Com isso o olfato perdeu espaço em muitas atividades, mantendo-se na química na manipulação de essências ou produtos aromáticos.

A Gestalt e a Fenomenología de Husserl, contrariando os conceitos empiristas e racionalistas, definem a sensação indistinta da percepção, isto é, sentimos e percebemos formas em sua totalidade, dotadas de sentido ou de significação(13). Para os empiristas o conhecimento tem origem na experiência sensível, nos sentidos, sensação e percepção; dependem de estímulos externos e, "todas as idéias derivam da sensação ou reflexo"(14).

Condillac aprofunda as idéias de Locke para explicar como a linguagem da ação analiza o pensamento(15). A linguagem contribui para a compreensão dos sentidos: senso, sensação, sensismo, sensibilidade, sensitivo, sensível, sentimento, sensual, são as mais conhecidas, porém, com suas múltiplas possibilidades semânticas podem confundir nosso intelecto(13). Para os percepcionistas o sensível existe fora dos sentidos, nos próprios corpos ou entre os corpos e os sentidos ou, ao menos, nos órgãos dos sentidos. Há relação entre consciência e pertencimento ao mundo, fato e sentido. Na linguagem encontra-se a noção de sensação, que é uma qualidade e qualidade não é elemento da consciência, é uma propriedade do objeto(1).

O olfato é o mais direto dos nossos sentidos(5) A "invisibilidade" dos odores despertou interesse para estudos na filosofía. Dificuldades na categorização, mensuração, recriação, manipulação e percepção subjetiva indicaram a olfação como um estímulo de difícil manejo empírico. Todavía, com o avanço tecnológico e empenho multiprofissional, a olfação ganha novos espaços em diversos campos do conhecimento, notadamente nos laboratórios de neurociência. As sensações olfativas pelas reações de carater afetivo e terapêutico (humor, depressão, euforia, irritação, repulsa ou sedução) de acordo com a percepção subjetiva e a interpretação da memória olfativa do indivíduo pode o mesmo odor ser agradável ou desagradável. Hoje, se pode avaliar odores com parâmetros como concentração, intensidade e características, com equipamentos complexos para análises e medidas físico-químicas de emissões odorantes, como olfatômetros, espectrômetros de azota, cromatógrafos de gases, narizes eletrônicos, entre outros. Entretanto, estes não podem definir caracteres subjetivos como a tonalidade hedônica de um odor, suas características estéticas, a exemplo do agrado ou desagrado olfativo. Uma tentativa para isto é a "Roda de Odores" que identifica categorías pelos significados subjetivos(16). O Serviço de Enfermagem do Hospital Universitario/UFSC, tem em sua metodología assistencial, uma taxonomía qualificativa para possíveis fenômenos odorantes percebidos no cuidado de enfermagem, a qual coincide, em sua maioria, com os odores da categoría "ofensivo"(16-17).

Foram os maus odores que despertaram maior interesse da ciência do sentido do olfato(4). As substâncias aromáticas foram desqualificadas científicamente no final do século XIX, sendo máscara para os maus odores. Com as descobertas de Pasteur, os cientístas sustentaram que os maus odores eram subprodutos de agentes patológicos e a medicina se dirigiu ao mundo dos micróbios e não mais para a análise dos odores (miasmas).

Nos dois últimos séculos os odores ganham espaço de investigação e a cultura do corpo desodorizado, motiva a produção imensurável de produtos que mascaram os odores do corpo: desodorantes, cremes, sabões, pós e pomadas(7). Surge uma nova apropriação do sentido do olfato pelo mercado, através da comercializaçaõ dos odores, com produtos médico/sanitários amplamente utilizados pela enfermagem. Incluso ao controle dos odores do corpo, se promovem o diagnóstico, tratamento e vigilância dos odores ambientais em todos os espaços da atividade humana, públicos ou privados.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS…ALGUMAS DEDUÇÕES...

Estes aspectos apresentados e outros descritos por Wosny(17) nos inspiram a pontuar algumas deduções sobre a estética dos odores e o cuidado de enfermagem.

- As percepções e sensações olfativas têm pertinência e significado como fenômeno presente na prática da Enfermagem em ambiente hospitalar.

- O sentido do olfato é vital ao ser humano, essencial para a vida, proporciona interação com a natureza, segurança, reprodução da espécie, prazer em ser e viver. O ser humano é olfativo por natureza, interactua com seu ambiente, percebendo e interpretando sensações odorantes de acordo com suas características estéticas, as quais poderão ser agradáveis, desagradáveis, confortáveis ou incômodas. As sensações olfativas, possíveis por interpretações estéticas subjetivas, possibilitam a expressão de sentimentos e conforto ou desconforto físico ou psicológico.

- A consideração meritória para as sensações olfativas e ao sentido do olfato no cuidado de Enfermagem ainda apresenta-se restringida. Porém, a maior compreensão estético/filosófica e técnico/científica das emanações odorantes poderá favorecer no diagnóstico e na prescrição de Enfermagem, vigilância da qualidade ambiental e terapêutica.

- O ambiente hospitalar tem emanações odorantes que podem designar múltiplos significados como a presença de um agente biológico ou condição de risco ou ainda pouca higiene ambiental. Estudos acerca das percepções olfativas presentes no ambiente do cuidado, suas origens e fatores desencadeantes poderão contribuir para a qualidade da Enfermagem e maior conforto e segurança para as pessoas deste espaço ou contexto.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes; 1996.         [ Links ]

2. Ninghtingale F. Notas de enfermagem: o que é e o que não é. São Paulo: Cortez; 1989.         [ Links ]

3. Alcântara LM, Leite JL, Erdmann AL, Trevisan MA, Dantas CC. Enfermería operativa: una nueva perspectiva para el cuidado en situaciones de "crash". Rev Latino-am Enfermagem 2005 maio-junho: 13(3):322-31.         [ Links ]

4. Corbin A. Saberes e odores: o olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX. São Paulo: Cia. das Letras; 1987.         [ Links ]

5. Ackerman D. Uma história natural dos sentidos. São Paulo: Bertrand; 1992.         [ Links ]

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11. Jovilet R. Tratado de Filosofia II: psicologia. São Paulo: AGIR; 1967.         [ Links ]

12. Montaigne ME. Ensaios. 2a ed. São Paulo: Abril Cultural; 1980.         [ Links ]

13. Chaui M. Um convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática; 1998.         [ Links ]

14. Locke J. Carta acerca da tolerância. 2a ed. São Paulo: Abril Cultural; 1978.         [ Links ]

15. Condillac EB. Resumo do tratado das sensações. In: Labrune M, Jaffro L, coordenadores. Gradus Philosophicus: a construção da filosofia ocidental. São Paulo: Mandarim; 1996.         [ Links ]

16. McGuinley C, McGuinley M, McGuinley D. Odor Basics, understanding and using odor testing. The 22nd Annual Hawaii Water Environment Association Conference; 2000 june 6-7; Honolulu; Hawaii; 2000        [ Links ]

17. Wosny AM. A estética dos odores: o sentido do olfato no cuidado de enfermagem hospitalar. [tese]. Florianópolis (SC): Programa de Pós-Graduação de Enfermagem/UFSC; 2001.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 20.9.2006
Aprovado em: 7.1.2008