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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem v.16 n.spe Ribeirão Preto jul./ago. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000700016 

ARTIGO ORIGINAL

 

Representações sociais de professores sobre o uso de drogas em uma escola de ensino básico

 

 

Jussara Gue MartiniI; Antonia Regina Ferreira FuregatoII

IDoutora, Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e-mail: jussara@nfr.ufsc.br
IIProfessora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil, e-mail: furegato@eerp.usp.br

 

 


RESUMO

A preocupação com o abuso de drogas entre os jovens contribui para a criação de um espaço de prevenção dentro da escola. O objetivo desta investigação é conhecer as representações dos professores de uma escola de ensino básico de Florianópolis sobre o uso de drogas, envolvendo 16 professores de 5ª a 8ª séries do ensino básico. As informações foram obtidas através da rede de associações elaborada em resposta à expressão estímulo: USO/ABUSO DE DROGAS. As representações dos professores se organizam em torno de um núcleo central -o outro vulnerável - um adolescente, carente, que se torna usuário de drogas, destacando como fatores relacionados: a família, os enfrentamentos cotidianos e a (in)visibilidade da escola nas ações de prevenção. A complexidade dos fatores envolvidos na produção, distribuição e comercialização de drogas exigem ações que extrapolam o âmbito da educação ou da saúde, sendo necessários programas de prevenção inter-setoriais, envolvendo o estudo das situações locais.

Descritores: transtornos relacionados ao uso de substâncias; educação primária e secundária


 

 

INTRODUÇÃO

Os significados atribuídos à presença das drogas não se deve tanto às suas propriedades químicas peculiares, mas às suas propriedades simbólicas, ao imaginário social e ao seu efeito cultural. As drogas permitem que se delimite domínios sociais que se organize as diferentes realidades em torno de certas normas.

Os dados apresentados pelo Relatório Mundial sobre Drogas 2005, da ONU, apontam cerca de 200 milhões de usuários no mundo, com predomínio de consumo entre os jovens(1). A tendência de crescimento do consumo já aparecia nos resultados das pesquisas divulgados no livro "Drogas nas escolas", lançado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no final de 2002(2).

Uma investigação realizada em escolas públicas e privadas de ensino fundamental (5ª a 8ª série) e médio, em 14 capitais brasileiras e no Distrito Federal, através de questionários e entrevistas, buscou identificar como o jovem concebe a droga, o que o motiva e o que o inibe para o consumo(3).

As informações sobre o uso de drogas colocam os profissionais diante de um desafio: será possível evitar, através da educação escolar, que as pessoas, principalmente os jovens, se envolvam com drogas? Esta questão motiva a busca do conhecimento de outras fontes de informações, tais como, as representações dos professores sobre o uso de drogas, e suas relações com as práticas educativas de prevenção presentes na escola, esperando encontrar diferenças entre estratégias de total abstinência (nunca experimentar álcool, por exemplo) e estratégias de educação para o uso.

Uma representação social reúne o conceito (significado) e o objeto (o significante). A intimidade entre o sujeito e o objeto representado se expressa, ainda, na compreensão de que o sujeito fará do objeto a partir de suas experiências pessoais e interações sócio-grupais anteriores(4).

Deste modo, cada pessoa está cercada, tanto individual quanto coletivamente, por palavras, idéias e imagens que penetram seus olhos, ouvidos e mentes, e que as atingem mesmo sem saberem. Sempre existe certa quantidade, tanto de autonomia, como de condicionamento em cada ambiente, seja ele natural ou social e, neste caso em ambos, diz-se que as representações possuem duas funções: categorizar e prescrever.

É na perspectiva de construção de um saber que considere a intimidade entre o sujeito e o objeto da representação, mediados por uma ação comunicativa intersubjetiva, que a teoria das representações sociais se apresenta como um referencial importante para este estudo.

O objetivo deste estudo é investigar as representações de professores sobre o uso de drogas, em uma Escola Básica.

 

METODOLOGIA

Este estudo é do tipo qualitativo descritivo, envolvendo professores de uma escola básica. Foi desenvolvido em uma instituição educacional privada do município de Florianópolis, Santa Catarina, criada em 1959, que atualmente atende 1067 alunos.

A definição dos sujeitos iniciou com o convite aos 25 docentes em exercício nas turmas de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, no primeiro semestre de 2006, período no qual foi realizada coleta de dados, para uma reunião com a pesquisadora. No dia e horários agendados para a reunião, compareceram dezenove professores, dos quais três não aceitaram participar da investigação. Foi agendada, então, com os dezesseis (16) docentes que concordaram em participar do estudo a data e a hora da coleta de dados.

O instrumento principal para a busca de informações foi a rede de associações, que se constitui em um instrumento de coleta de dados próprio para a investigação da estrutura, conteúdo e polaridades do campo semântico, associadas à certa representação(5). A rede de associações prevê a inserção de uma ou mais palavras ou "expressões estímulo", escolhidas segundo os critérios de destaque e coerência com os objetivos da pesquisa, em uma folha em branco, preferentemente no centro da mesma, acompanhada das instruções para a construção das redes. Inicialmente, solicita-se à pessoa que associe todos os termos que lhe vêm ao pensamento em relação à expressão estímulo colocada no centro da página; em seguida, peço que assinale a ordem de surgimento das palavras associadas, numerando-as na ordem em que foram escritas; após, indique a valoração de cada palavra escrita, em relação à expressão estímulo, utilizando sinais: "+" positiva, "-" negativa e "0" neutras; e ao final, estabeleça uma ordem de prioridade das palavras que escreveu, em relação ao tema, estabelecendo as conexões que julgar existirem entre elas.

A realização do estudo foi precedida pela avaliação e aprovação do Projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina. Obteve-se o aceite da instituição educacional de um Termo de Adesão ao estudo, contemplando os aspectos relacionados aos modos de garantia do cumprimento da resolução 196, do Comitê Nacional de Ética em Pesquisa(6). No momento do encontro apresentou-se aos participantes a proposta investigativa e, logo após, realizou-se a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, aqueles que mantiveram sua decisão de participar do estudo, assinaram o termo.

 

REPRESENTAÇÕES DOS PROFESSORES SOBRE O USO/ABUSO DE DROGAS

Apresenta-se, a seguir, as representações dos professores de 5ª a 8ª série sobre o uso de drogas, buscando (des)velar os sentimentos, conflitos, comentários e ideologias presentes no discurso destes profissionais.

Utilizaram-se como indicadores para definição do núcleo central das representações dos docentes, nas redes de associações, o maior índice de preferência e a maior prioridade na ordem das associações, apontadas na elaboração das redes.

De acordo com tais indicadores, as representações construídas pelos professores estão organizadas em torno do conceito do "outro vulnerável": um sujeito, predominantemente adolescente, portador de inúmeras carências (familiares, sociais, pessoais, psicológicas e econômicas) que se torna usuário de drogas.

No que se refere aos núcleos periféricos, os docentes fizeram referências à família, à facilidade de aquisição das drogas e à falta de ações na área da segurança pública.

Assim, o núcleo das representações dos docentes sobre o uso de drogas coloca o consumo como algo que acontece com ou aos "outros": aos que não sabem se comportar de acordo com as normas sociais, aos que demonstram condutas inadequadas, aos carentes (e aqui as carências são múltiplas), mas não a si próprios ou aos que seguem os preceitos estabelecidos e legitimados pela sociedade.

Nas redes de associações elaboradas pelos docentes incluem-se, também, fatores que dizem respeito às dificuldades que os jovens apresentam de lidar com o elevado nível de frustrações, produzidas em uma sociedade que elege como um dos valores mais significativos o "ter" em detrimento do "ser". Ao buscar estratégias de enfrentamento de uma realidade com altos níveis de frustrações, com uma relação extremamente desigual entre o desejo e o real, com a conseqüente marginalização e exclusão, os jovens encontram no uso das drogas uma possibilidade de fuga da realidade, em busca do prazer.

Embora os professores que participaram da investigação tenham associado fortemente o uso de drogas com a marginalização, é importante destacar que alguns estudos já realizados constataram consumo menor em estudantes de escolas de periferias. Em um estudo publicado em 2004, que pesquisou o uso de drogas entre estudantes da rede de escolas públicas de Campinas (SP), a análise multivariada permitiu a constatação de que o uso de drogas foi menor nos estudantes de periferia onde, inclusive, se observa um tráfico maior e maior mortalidade por violência. Contrariamente ao esperado, o consumo foi maior entre os estudantes das escolas dos bairros centrais e entre os estudantes trabalhadores, o que levou os autores à associação entre o uso de drogas e a disponibilidade financeira. Relacionam, hipoteticamente, o maior consumo entre estudantes trabalhadores com o estresse decorrente das obrigações vinculadas ao trabalho, à maior disponibilidade financeira e aos padrões de socialização vinculados "ao mundo do trabalho" como, por exemplo, beber no final do expediente. Tais resultados colocam em evidência a necessidade de se refletir sobre algumas crenças, mais ou menos estabelecidas, de que o tempo livre seria um fator importante para o uso de drogas(7).

Os achados de um estudo sobre comportamentos de saúde entre jovens estudantes, das redes pública e privada da região metropolitana de São Paulo, mostraram que o consumo de substâncias é de 2 a 4 vezes maior entre os estudantes da rede privada do que entre os alunos da rede pública. Parece evidente que os estudantes da rede privada de ensino apresentam um consumo de substâncias maior do que os da rede pública, fato já constatado em 1989 no 2° Levantamento Nacional sobre o uso de psicotrópicos em estudantes de 1° e 2° graus(8).

As questões apontadas permitem refletir sobre a multicausalidade do uso de drogas por estudantes. O uso não pode ser visto como decorrência de um único fator, mas como resultado da combinação de vários elementos, desde os genéticos, passando pelos psicológicos, familiares, socioeconômicos, até os culturais. Isso possibilita o entendimento do uso e da dependência de drogas como fenômenos de alta complexidade, que não podem ser reduzidos a uma ou outra de suas dimensões, nem tampouco podem ser assumidos apenas pelo sistema de saúde, visto ser um problema social com conseqüências para a saúde dos sujeitos.

Os professores destacaram, também, a falta de controle com a propaganda, principalmente das bebidas alcoólicas, tanto pelo volume de publicidade, como pela abordagem "mentirosa" que, muitas vezes apresenta ao público uma série de "benefícios" da bebida, sem mencionar os problemas que podem ser a ela associados.

A lei brasileira permite a compra e o consumo de bebidas alcoólicas apenas para pessoas com mais de 18 anos. No entanto, a mídia atinge todas as faixas etárias, com propagandas como a da cerveja, que apresenta a bebida como alguma coisa "charmosa", sem mencionar que as pessoas alcoólatras são desprezadas e excluídas pela mesma sociedade que incentiva o consumo. Este tipo de comportamento social, segundo os professores, confunde os jovens e a própria família que, muitas vezes, não consegue identificar drogas como o álcool e o tabaco como prejudiciais, identificando como drogas, apenas aquelas ilícitas.

A racionalidade da condução da questão pela mídia pode estar vinculada, também, ao discurso neoliberal, que relaciona o fracasso ou sucesso de uma pessoa exclusivamente às suas decisões individuais. Assim, o uso ou não de drogas é de responsabilidade de cada um, a pessoas que fica dependente não tem competência ou maturidade para lidar com seu problema.

As relações que a sociedade estabelece com o uso de drogas estão longe de ser unívocas e monolíticas(9). Vive-se uma situação singular: à crescente e, em muitos casos, inédita repressão ao uso de drogas ilegais, soma-se a insidiosa incitação ao consumo de drogas legais, quer sob a forma de remédios prescritos por médicos visando à produção de corpos saudáveis, quer sob a forma de drogas auto-prescritas em virtude dos ideais de beleza, de habilidades ou de estados de espírito(9).

Fazer das drogas um problema médico-criminal não diz respeito apenas à repressão, mas também à incitação ao seu consumo. As disposições médico-legais que cercam a questão configuram uma espécie de "dispositivo da droga", em sentido muito próximo ao que Foucault estabeleceu para o dispositivo da sexualidade.

As sociedades atuais, mais do que se apropriar das experiências de uso de drogas, criaram, literalmente, o próprio fenômeno das drogas; e o fizeram por duas vias: a medicalização dos corpos e a criminalização da experiência de uso de substâncias que, até sua prescrição e penalização, não eram consideradas drogas(9). Este processo inclui a intervenção penal no mundo das drogas, caracterizada, por exemplo, por um esforço classificatório das drogas, pela criação de estabelecimentos especiais para a internação dos usuários, pela repressão policial ao tráfico ou ao comércio clandestino de drogas e, ainda, pela ampliação e especialização do campo de atuação e do poder de intervenção da polícia no referido "mundo das drogas", em espaços e dispositivos de controle e medicalização que vão muito além da compreensão abordada neste trabalho.

Chama-se a atenção para o fato de que, na vida quotidiana, em nome da saúde dos corpos, o consumo não medicamentoso é combatido; também em nome da saúde dos corpos, o consumo medicamentoso de drogas é incitado, legitimando um consumo autorizado e um não autorizado, um consumo moralmente qualificado e um desqualificado(9).

Desse modo, parece possível afirmar que a posição dos professores na presente investigação, mencionando apenas as drogas ilegais, relacionando-as com carências pessoais, com dificuldades para o enfretamento dos conflitos quotidianos dos sujeitos que usam drogas ilegais, confirmam a compreensão de que as experiências do uso de substâncias convencionalmente definidas como "drogas" são, enquanto processo de distribuição e consumo, uma invenção da sociedade ocidental moderna. Estão intimamente relacionadas com as formas de poder em sociedades como a nossa; onde as relações que a Medicina mantém com o uso de drogas são bastante ambíguas, prescrevendo e regulando algumas drogas, tidas como positivas para a saúde, e desqualificando outras que não são prescritas, nem reguladas. Assim, os médicos se vêem frente a duas categorias de toxicômanos: a uma eles prescrevem drogas que criam hábitos; a outra dispensam cuidados para tratar pessoas que se intoxicam por conta própria.

Atenta-se, também, para o fato de que esta é uma boa explicação, mas não dá conta de tudo, é fundamental não superestimar o papel destes elementos na sociedade. Nesse sentido importa considerar, ao analisar o uso de drogas, os modos como se dá a produção social, tanto material como simbólica, dos corpos humanos, bem como das concepções e experiências de vida e de morte nela implicadas(9).

Talvez a indicação das relações entre os enfrentamentos quotidianos e o uso de drogas, presente nas representações dos docentes, possa ser compreendida no âmbito da aproximação entre as condições primitivas e ocidentais modernas de consumo de drogas.

A discussão de um amplo espectro de questões explicativas sobre o fenômeno das drogas tem o propósito de destacar os desafios com vistas a contribuir para a compreensão da problemática, possibilitando a realização de ações que reforcem a responsabilidade coletiva, bem como a complexidade da temática.

A combinação das relações emocionais e de poder é outro elemento importante na compreensão dos professores é a forma como a sociedade tem construído e consolidado as relações de poder e os diferentes modos de valorizar as emoções, os sentimentos e a própria vida. Assim, o sistema de valores estabelecido gera frustrações, insatisfações e infelicidade nas pessoas, especialmente nos jovens, que se vêem marginalizados e excluídos das diferentes redes de consumo, com dificuldades para perceber que há outras formas de inserção e de auto-afirmação, até porque a busca do poder pelo consumo é a mais enfatizada. É como se a cidadania dependesse de categorização dos "consumidores", ou seja, para a maior capacidade de consumir, correspondem os melhores cidadãos.

Ao apontarem a questão de "degradação" dos valores humanos ou "desumanização" da sociedade como elementos relacionados ao uso de drogas, os professores estão se referindo à perspectiva de que o trabalho de prevenção deve ser pautado no conhecimento interdisciplinar e intersetorial.

Entretanto, as ações preventivas precisam construir espaços onde os adolescentes possam pensar e refletir de maneira crítica e consciente sobre as suas vidas, suas escolhas, desejos, frustrações, enfim, sobre o seu futuro. O trabalho preventivo ao uso de drogas precisa romper com a visão simplista da mera proibição.

Apenas dois docentes que participaram da investigação mencionaram o papel da escola na prevenção ao uso de drogas. Esta é uma situação preocupante, uma vez que, em estudo realizado nas escolas de ensino básico em quatorze capitais brasileiras, envolvendo estudantes, professores e pais, observou-se que 23,1% dos estudantes, 10,8% dos membros do corpo técnico-pedagógico e 3,4% dos pais, afirmaram ter presenciado o uso de drogas na escola(3).

Historicamente, as escolas têm sido apontadas pela sociedade como espaços privilegiados de prevenção ao uso de drogas. Mais recentemente, observa-se alguma mudança nas práticas de prevenção. Há um processo de evolução que envolve uma estratégia muito mais abrangente, e de uma base muito mais ampla, para prevenir as drogas e a violência. Mas para que sejam bem sucedidos estes esforços no combate ao uso de drogas, no país, é preciso envolver a família, a comunidade, e as escolas.

Embora os sujeitos que participaram deste estudo não tenham mencionado as relações da escola com o uso de drogas parece que os professores, de um modo geral, estão se tornando mais conscientes no que diz respeito a essas questões, mais ciente da relação entre o consumo de drogas e a educação, o ensino e o aprendizado. Trata-se de uma questão importante para a saúde.

Na tentativa de contribuir com maior clareza sobre as relações de pais e filhos, reproduzem-se aqui as orientações do Dr. Robert Du Pont, ex-diretor do Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos para os pais(10):

1. Estabelecer um consenso familiar sobre o uso de substâncias;

2. Estabelecer penalidades pelo não-cumprimento das regras;

3. Dedicar algum tempo diário para conversar com os filhos a respeito do que está se passando em suas vidas, como se sentem e o que pensam;

4. Ajudar os filhos a definirem objetivos pessoais;

5. Conhecer os amigos dos filhos;

6. Ajudar os filhos a sentirem-se bem com suas próprias qualidades e com seus pequenos ou grandes êxitos;

7. Deve haver um sistema estabelecido para a resolução de conflitos;

8. Falar freqüentemente e muito cedo com os filhos a respeito de seu futuro;

9. Deve-se desfrutar dos filhos;

10. Ser um pai/mãe "intrometido/a".

O papel da escola é reforçar as orientações supra mencionadas. Há coisas que as escolas podem e devem fazer, sendo importante estabelecer ações com conectividade. Conectividade significa uma conexão melhor entre os jovens e os adultos, seja por meio de programas de orientação com número menor de alunos em sala de aula, para que os professores possam reconhecer, com clareza, todos os alunos da sua sala, ou, quem sabe escolas menores, onde ninguém passe despercebido e onde as crianças ou adolescentes tenham a oportunidade de falar e viver seus sentimentos e emoções, praticar esportes, de se envolver com as artes e com o lado acadêmico das coisas. Ou a solução seria pensarmos em professores que sejam profissionalmente capacitados para perceber os sinais de que os alunos estão confusos e/ou consumindo drogas para interagir com essa situação.

Prevenção não significa apenas colocar um programa em uma escola, uma hora por semana, com um palestrante convidado, durante 15 ou 20 semanas, prevenção é estilo de vida, é um processo permanente e estratégico. A prevenção deve começar cedo e permear tudo o que se faz no decorrer do ano escolar.

Examinando algumas possibilidades de articulação entre a escola e a comunidade na prevenção ao uso de drogas, verifica-se que seria importante pensar em, pelo menos, quatro princípios:

- As escolas precisam desenvolver avaliações contínuas dos seus problemas;

- Construir metas e objetivos com participação dos alunos e da comunidade;

- Usar programas de prevenção articulados (intersetoriais) com as universidades, os órgãos estatais de educação e empresas privadas;

- Conduzir avaliações do processo que possibilitem aperfeiçoar as atividades desenvolvidas e propor novas modalidades de intervenção.

A prevenção ao uso de drogas não é uma questão "mágica", que um ou outro setor ou instituição da sociedade seja capaz de resolver independentemente. É fundamental que se veja o problema como "nosso problema" e não como um "problema deles", por isso, a ausência da escola e dos professores na rede de associações, elaborada pelos docentes neste estudo, causa apreensão. Mas, mesmo assim, há perspectivas otimistas em relação ao futuro.

Destaca-se que há um número cada vez maior de redes de ensino examinando a questão, sob o ponto de vista da escola/comunidade e há interesse, basicamente, em enfrentar esse problema, adotando uma perspectiva abrangente, com uma base bem ampla. Um exemplo desta preocupação é o programa elaborado e divulgado pela Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas (CICAD) denominado "Lineamientos Hemisféricos de la CICAD en Prevención Escolar", incluindo investigações, criação de materiais educativos, capacitação de docentes, execução e avaliação de programas de prevenção nacionais, regionais e internacionais, envolvendo os Estados americanos(11).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo das representações sociais dos professores de uma escola básica sobre o uso de drogas, desenvolvido em uma escola particular de Florianópolis, em condições culturais e históricas determinadas, mostrou que o uso de drogas é visto pelos docentes como um problema de adolescentes sujeitos a determinadas vulnerabilidades.

Estas vulnerabilidades foram pontuadas pelos docentes como questões negativas e, na ordem de surgimento dos conceitos, este tipo de relação foi construído em primeiro lugar pelos participantes. As formas como tais questões aparecem nas redes de associações colocam o uso de drogas como uma espécie de "culpa" do próprio usuário, em um processo que tenho nomeado como "culpabilização da própria vítima", onde se remete ao sujeito, individualmente, toda a responsabilidade pela sua situação de vida.

As redes elaboradas pelos docentes repetem uma compreensão dualista sobre a questão das drogas: o bem e o mal, o certo e o errado. O que preocupa nesta concepção é a sua simplicidade, frente a uma problemática tão complexa quanto o uso/abuso de drogas. A complexidade dos fatores envolvidos na produção, distribuição e comercialização das drogas exige a implementação de ações que extrapolam o âmbito da educação ou da saúde, isoladamente. É necessária a execução de programas de prevenção intersetoriais.

O objetivo da prática educativa, talvez, deva ser o de fazer com os jovens uma reflexão crítica sobre sua vida. Vale lembrar que não existem modelos, fórmulas ou metodologias "únicas" para abordar as questões do uso de drogas na escola, pelo contrário, é necessário considerar as características de cada comunidade escolar; a diversidade dos jovens e de usuários; os tipos de drogas de maior disponibilidade na região e o contexto local. Portanto, práticas preventivas precisam desenvolver na sala de aula a discussão de suas particularidades, de sua realidade, criando formas de abordagem próprias, mais duradouras para obter melhores resultados.

Este é um recorte inicial, parcial e limitado aos professores envolvidos neste estudo, todavia é indicativo da necessidade de desenvolvimento de competências dos professores da escola básica na abordagem das questões de uso/abuso de drogas e reforça o importante papel da escola na sua prevenção.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas/CICAD da Subsecretaria de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos/OEA, a Secretaria Nacional Antidrogas/SENAD, aos docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, a população da amostra dos estudos e aos representantes dos oito países Latinoamericanos que participaram do I e II Programa de Especialização On-line de Capacitação e Investigação sobre o Fenômeno das Drogas - PREINVEST oferecido no biênio 2005/2006 pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, na modalidade de ensino a distância.

 

REFERÊNCIAS

1. Organização das Nações Unidas. Relatório Mundial sobre Drogas 2005. [ acesso em 2006 Maio 07]. Disponível em www.onu.org        [ Links ]

2. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Pesquisa sobre drogas e Juventude [acesso em 2005 Jul 29]. Disponível em: http://observatorio.ucb.unesco.org.br/publicacoes/drogas        [ Links ]

3. Abramovay M, Castro MG. Drogas nas escolas. Brasília: UNESCO; 2002.         [ Links ]

4. Rangel Mary. A representação social como opção teórico-metodológica para a produção do conhecimento em didática. Caxambu: ANPED; 1993.         [ Links ]

5. Rosa AS. Le "réseau d'associations" comme méthode d'étude dans la recherché sur les representations socials: structure, contenus et polarité du champ sémantique. Cahiers Internat. Psychol. Soc. 1995; 4(28):95-122.         [ Links ]

6. Ministério da Saúde (BR). Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa com seres humanos. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 1997.         [ Links ]

7. Soldera M, Dalgalarrondo HRCF, Silva CAM. Uso de drogas psicotrópicas por estudantes: prevalência e fatores associados. Rev. Saúde Públ. 2004; 38(2):277-83.         [ Links ]

8. Carlini-Cotrim B, Gazal-Carvalho C, Gouveia N. Comportamentos de saúde entre jovens estudantes das redes pública e privada da área metropolitana do Estado de São Paulo. Rev. Saúde Pub. 2000; 34(6):636-45 [acesso em 2006 Maio 05]. Disponível em www.usp.br/rps.         [ Links ]

9. Vargas EV. Os corpos intensivos: sobre o estatuto social do consumo de drogas legais e ilegais. In: Duarte LFD, Leal OF, organização. Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1998. p. 121-36.         [ Links ]

10. Silber TJ, Souza RP. Uso e abuso de drogas na adolescência: o que se deve e o que se pode fazer. Adolesc. Latinoam. 1998 1 (3): [acesso em 2006 Maio 05]. Disponível em: www.ral-adolesc.bvs.br/scielo        [ Links ]

11. Organización de los Estados Americanos, Comisión Interamericana para el Control del Abuso de Drogas. Lineamentos Hemisféricos de la CICAD en prevención escolar. Washington; 2005. [acesso em 2006 Maio 05]. Disponible em http:// www.cicad.oea.org.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 30.3.2007
Aprovado em: 16.1.2008