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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.18 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692010000200010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sensibilidade nas relações e interações entre ensinar e aprender a ser e fazer enfermagem1

 

 

Marlene Gomes TerraI; Lucia Hisako Takase GonçalvesII; Evanguelia Kotzias Atherino dos SantosII; Alacoque Lorenzini ErdmannIII

IDoutor em Enfermagem, Professor Adjunto, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil. E-mail: martesm@terra.com.br
IIDoutor em Enfermagem, Professor, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil. E-mail: ltakase@brturbo.com.br, e-mail: gregos@matrix.com.br
IIIDoutor em Filosofia da Enfermagem, Professor Titular, Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil. E-mail: alacoque@newsite.com.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esta é uma pesquisa qualitativa, focando os sentimentos de proxemia, de distanciamento e de ambiguidade dos docentes-enfermeiros/as a partir do vivido. O objetivo é revelar os significados da sensibilidade para o ser-docente-enfermeiro/a no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. O suporte teórico-filosófico fundamentou-se na abordagem fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty e, como recurso metodológico, utilizou-se a hermenêutica-fenomenológica de Paul Ricoeur. Foram entrevistados dezenove docentes-enfermeiros/as de uma instituição de ensino superior público do Sul do país, nos meses de novembro e dezembro de 2006. A sensibilidade revelou-se como capacidade de observar os detalhes para intervir numa situação, da melhor forma possível, também como maneira de criar rupturas com modelos exclusivos da racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da técnica, porque é a base para desenvolver outras maneiras de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem.

Descritores: Filosofia; Pesquisa Qualitativa; Educação em Enfermagem.


 

 

Introdução

O ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem, por ser relação humana e também intersubjetiva, faz parte da singularidade do ser-docente-enfermeiro/a possibilitando, desse modo, que outras maneiras de ensinar possam ser desveladas.

Ao se refletir acerca do contexto experienciado pelo ser-docente-enfermeiro/a frente à complexidade das atividades nos Cursos de Graduação em Enfermagem, percebe-se o tempo e o esforço que se dedica à racionalidade técnica em detrimento da racionalidade estética. A racionalidade técnica está relacionada à concepção pedagógica tradicional, a qual está centrada num currículo onde os conteúdos são isolados, hierarquizados, desintegrados da realidade e centrados no docente. Já a racionalidade estética, por sua vez, está vinculada à concepção da pedagogia crítica, que está pautada nas ações e relações interativas entre docentes e estudantes. Os conteúdos partem da realidade na qual o estudante está inserido, o foco descentraliza-se do docente e o estudante é considerado como sujeito da aprendizagem. Assim, a formação do estudante passa a se referir aos fenômenos humanos(1).

Essa temática tem sido enfatizada por vários estudiosos comprometidos e preocupados com a mudança endereçada à área da enfermagem, que vem (re)avaliando e sinalizando, pela sua postura, o desejo de nova epistemologia, uma retomada da sensibilidade. Esses sinais de possíveis mudanças podem ser observados em dois estudos recentes(2-3), quando os autores assinalam o enfoque que precisa ser dado ao seu ensino.

O primeiro estudo revela que o ensino dos cursos de graduação em Enfermagem no país está, tradicionalmente, voltado às questões técnicas e aos estudos dos procedimentos físicos relacionados à doença. Em virtude disso, as relações interpessoais, a atenção dada aos sentimentos do ser humano, bem como a responsabilidade do cuidar passam a ser grande desafio, pois essas questões não são valorizadas como deveriam ser(2). O segundo, mostra que, apesar das mudanças curriculares da Enfermagem, no Brasil, nenhuma delas promoveu mudança significativa na prática dos profissionais(3). Os autores percebem que as tendências pedagógicas têm se pautado no modelo tradicional de educação e assinalam a necessidade de estudos mais direcionados à realidade vivida no cotidiano dos docentes.

A percepção referida pelos autores supracitados vem ao encontro da vivência da autoria deste trabalho como docente, pois se observa que ainda permanece a formação pautada na racionalidade técnica. Nesse sentido, refletindo sobre essas situações, observa–se que o ensino pode ser diferente levando a que se sinta a necessidade de tentar fazer de outra maneira, partindo do que pensa e sente o ser-docente-enfermeiro/a sobre a sensibilidade no ensinar e aprender a fazer Enfermagem. E, para melhor compreender esse fenômeno, optou-se, aqui, por esse momento para gerar reflexão por que os cursos de graduação em Enfermagem estão implementando o currículo solicitado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais(4).

Nessa perspectiva, pode-se dizer que, para se querer pensar no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem, é necessário mergulhar-se no passado por um motivo bem simples: a sensibilidade tem raiz milenar. É preciso despertá-la, porque a reflexão autoriza acreditar novamente no conviver e no diálogo no mundo. O projeto lógico racional, conferido à inteligência humana, restringiu a liberdade de pensar. A criatividade e a intuição passaram a ser controladas pelas normas e mecanismos empíricos do saber científico. Dessa forma, a sensibilidade do ser humano perdeu duas aliadas: a imaginação e a intuição. Essas é que possibilitam ao ser humano ser capaz de ultrapassar as fronteiras do imediato, do presente e do visual. Com elas o ser humano atinge o invisível e desenvolve a sensibilidade(5).

Os modelos lógicos e racionais acostumaram o ser humano a observar a natureza sob a ótica das medidas. As dimensões da estética e da poética ficaram fora do alcance do seu olhar. Nesse sentido, somente a restauração da sensibilidade humana possibilitará os reencontros desses valores poéticos. É preciso readmitir a imaginação e reintegrar a intuição como acessos legítimos válidos da realidade, pois esses valores constituem as capacidades humanas para a construção do saber. A atitude reflexiva da volta ao passado abre esperança para reencontrar o poético do ser humano com a natureza, mas isso só acontecerá pela reestruturação da sensibilidade humana(5).

A sensibilidade tomou diferentes conotações, no decorrer da história, desde a Grécia, até a atualidade. Ela está relacionada à capacidade de contemplar, criar a beleza e a harmonia através das artes; está vinculada à possibilidade de, por meio dos sentidos, obter sensações sensíveis diante da realidade; está relacionada a uma maneira de conhecer e está voltada para uma qualidade especificamente humana. Dessa forma, a sensibilidade torna-se expressão profunda da existência. Por isso, diz-se que é sensível quem se comove com os sentimentos de outras pessoas(6).

Com essa noção, o mundo passa a ter outros significados que não aqueles atribuídos pelas dimensões científicas, pois é preciso sentir a necessidade de se recuperar um ser humano que seja capaz de voltar a cultivar suas paixões, seus instintos e sua sensibilidade(7). Mas é preciso que isso aconteça em duas dimensões: enquanto conhecimento válido e enquanto vida afetiva, porque se trata de conciliar razão e sensibilidade, subjetividade e objetividade(8).

Nesse sentido, este artigo tem por objetivo revelar os significados da sensibilidade para o ser-docente-enfermeiro/a no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem.

 

Trajetória metodológica

Por se constituir em pesquisa envolvendo as falas, ações e expressões do docente, buscou-se atentar para a dimensão ética que permeia os estudos com seres humanos instituída pela Resolução nº. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde(9). O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Parecer nº 241/2006 do Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

A trajetória metodológica do estudo configurou-se como pesquisa qualitativa de natureza fenomenológica(10), que buscou salientar aspectos da experiência humana, tendo como intuito a investigação do vivido, descrevendo os fenômenos como são experienciados, preocupando-se em repor as essências na existência(11). Nessa perspectiva, a fenomenologia é “uma filosofia para qual o mundo está sempre ali, antes da reflexão, como uma presença inalienável e cujo esforço todo consiste em reencontrar esse contato ingênuo com o mundo”(11).

O estudo foi desenvolvido no departamento de enfermagem, de uma instituição de ensino superior do Sul do país, com dezenove docentes-enfermeiros/as do quadro efetivo, de ambos os sexos, envolvidos com estudantes em disciplinas teórico-práticas, em todos os semestres do curso de graduação em enfermagem que desejaram participar e assinaram o consentimento pós-informação.

Utilizou-se, na busca dos depoimentos dos docentes, a entrevista aberta, característica do método fenomenológico, individual, sem delimitação do tempo. As entrevistas foram gravadas, de novembro a dezembro de 2006, como instrumento que permitiu apreender as experiências do ser. A garantia da confidencialidade da identidade dos depoentes deu-se pelo anonimato, que foi assegurado com o uso da letra D (D1, D2, D3...) por ser a inicial da palavra docente. O número de docentes entrevistados não foi pré-determinado. A coleta dos depoimentos cessou quando, por meio da leitura e interpretação dos discursos obtidos, percebeu-se que o fenômeno é, em sua essência, aquilo que anuncia o desvelamento do sentido(12). A entrevista iniciava com a questão norteadora: “o que significa para você a sensibilidade no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem?”.

Algumas informações também foram obtidas por meio da leitura das observações das ações e expressões dos entrevistados, quando eram feitos os registros no diário de campo, logo após as entrevistas, com a finalidade de captar, de maneira direta, as percepções das experiências dos docentes, o que propiciou o resgate de sua emoção corporal, como situações vividas no passado, projetadas no presente. Para o docente, ao se voltar para o fenômeno da experiência vivida, significa “reaprender a olhar para o mundo” como se nada se soubesse (11).

A análise dos discursos dos docentes foi compreendida e interpretada segundo a fenomenologia-hermenêutica, porque se fundamenta no vivido do ser humano, na vida científica e no reflexivo(13). O filósofo busca a verdade polissêmica do fenômeno nos níveis em que o compreender acontece(14) e procura esclarecer o sentido oculto no sentido aparente da existência humana(13).

A hermenêutica é um discurso dialogado entre o texto em sua progressão, o significado e a referência contextual da pesquisa. Consiste em desvelar qual a mensagem que está implícita no discurso, que é um acontecimento a ocorrer no tempo, quando alguém se expressa ao falar, na tentativa de descrever ou representar seu mundo, sua vida. Assim, “ela só é viável após um aprofundamento da semântica, ou seja, do sentido das palavras”(15).

A hermenêutica estabelece a frase como unidade de análise. Logo, começa-se “a leitura pela frase seguida do parágrafo e, após, o texto como um todo. O significado é constituído em unidades de sentença” (segmentos explicativos dos discursos, que formam uma unidade de sentido)(15). Examinou-se inteiramente as entidades distintas, as unidades, com a finalidade de explicar aquilo que o discurso estava dizendo, sublinhando as ideias que estavam ligadas de certa forma à fundamentação teórica existencial(11). A opção aqui, nesta pesquisa, foi o referencial existencial de Maurice Merleau-Ponty, o qual compreende o corpo como meio pelo qual o sujeito está no mundo. O corpo dá sentido e constitui o sujeito como ser-no-mundo. Ele é expressão, gesto, linguagem; é natureza, cultura. Essa concepção de corpo expressa que ele tem uma relação com o mundo, uma experiência de mundo vivido.

Desvelando os significados

Neste texto, focalizou-se a categoria temática sentimentos, que emergiu do discurso escrito dos/as docentes-enfermeiros/as, a respeito da sensibilidade nas relações e interações de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. A referida categoria foi organizada em três subcategorias: sentimentos de proxemia, sentimentos de distanciamento e sentimentos de ambiguidade, que trouxe respostas à questão norteadora da pesquisa.

Os sentimentos são capazes de sensibilizar, aproximar, distanciar o docente-enfermeiro/a nas relações e interações com o outro no cotidiano de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. O docente trabalha a partir da realidade vivida e as suas vivências são únicas. O corpo vivido é expressivo, é a chave da sensibilidade, que está no tempo e no espaço como ser humano. As suas experiências são descritas nos discursos e se encontram discutidas a seguir.

Sentimentos de proxemia

A proxemia é compreendida como um processo social, ser relacional, em que a individualidade dissolve-se nas relações e interações dos docentes com o outro no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. Nessa vivência, o sujeito deixa de ser indivíduo e passa a ser pessoa que desempenha um papel na teatralidade das representações no grupo do qual participa. Então, é o ser relacional da vida social com o outro e com o meio(16), estabelecido pela proximidade no cotidiano da aprendizagem. O docente assume sua função em ambiente que possibilita união e permite a todos expressar e viver as suas potencialidades como ser-no-mundo. É um encontro que acontece pela presença, gesto, diálogo, estar junto através da experiência perceptiva, mediada pelo corpo, que revela os significados do dito e do não dito, os quais são sentidos e percebidos entre os docentes. Nos discursos, percebeu-se os sentimentos que aproximam, mostrados a seguir.

Era estágio de manhã, levantando às 5h45 e vinha para casa ao meio-dia. Mas sem nenhum pingo de energia física, mas mentalmente realizada, emocionalmente muito bem realizada assim, de ter estado com aquelas pessoas, de ter estimulado o lado dos estudantes [...] a gente vive mais próximo com eles (D1).

A temporalidade no discurso mostra a relevância de D1 como circularidade de trajetória em busca de vir-a-ser-no-mundo, o qual desvelou que a emoção e a confiança nas relações e interações aproximam docente e estudante. Estar com as pessoas implica presença e atenção oferecidas, quando existem sensibilidade e disponibilidade pessoal. D1 aproxima-se do estudante numa atitude existencial que implica abertura para conhecer e ajudar o outro a ser um outro eu mesmo(11). Nesse sentido, D2 revela que:

Você não coloca ele no colo e dá para o lugar certo. Não, você ajuda ele, vai segurando para ele ir andando. [...] formas de o aluno ir pegando confiança e sabendo os limites da gente [...] (olhar sério) (D2).

Percebe-se que o respeito, o reconhecimento e a confiança aproximam do outro. Existe outra maneira de ensinar e aprender a fazer Enfermagem que surte um efeito de confiança nas relações com o outro. Por isso, D2 revela o caminho ao estudante, para que ele possa ir fazendo o seu próprio, mas com apoio. A sua vivência leva a expressar seus sentimentos em relação ao significado do outro. Os sentimentos são elementos fundamentais nas relações, pois é uma maneira de dar segurança ao outro. Com isso, o outro sente e observa que está participando e construindo efetivamente o processo. Para tanto, o diálogo, o gesto e as ações do docente são imprescindíveis nas relações e interações.

No discurso, a seguir, D3 descreve como compreende os sentimentos que aproximam do outro.

O grupo de Aprendizagem Vivencial, ele tem uma característica muito especial que é muito mais de ligação mesmo, de ajuda, de diálogo, de ajudá-los a iniciar este momento na Universidade com todas essas questões. Então, é uma relação muito próxima com o grupo. [...] eu os conheço muito desde saber os nomes de todos eles, onde moram, que são daqui, quem são de fora... (D3).

O discurso desvela o diálogo, advindo da aproximação do outro, e somente quem vivencia essa realidade sabe o seu significado. Nessa aproximação está presente um sentimento de pertencimento que une o coletivo que é percebido no discurso como gesto. Esse não é oferecido deliberadamente ao outro como algo a ser assimilado, mas o gesto é retomado por uma ação de compreensão de reciprocidade entre as intenções do docente e os gestos dos estudantes. Nessa perspectiva, o docente e os estudantes estão mutuamente envolvidos em uma relação de intenções e gestos como possibilidade de eles realizarem escolhas e ser um outro eu mesmo(11).

Os significados, a seguir, revelam os sentimentos de D4 em relação ao outro no cotidiano da Enfermagem com o estudante.

Depois que ele melhorou que ele saiu da ventilação mecânica e ele ficou lúcido, gerou uma outra dificuldade, que era: como vou lidar com uma pessoa que está nessa situação! As alunas mesmo me diziam. Eu percebia. Elas entravam no quarto e saíam (olhar sério). E aí perguntava pra elas: por que você já saiu de lá? Ah! Professora eu não sei o que eu vou dizer pra ele! O que você está conversando com ele? O exercício taí. Ir lá trocar um curativo, trocar um... Isto é muito fácil! Agora a diferença taí. Vamos lá. Vamos resgatar isto (ênfase na voz) (D4).

Nesse discurso, D4 relata uma experiência com estudantes que estavam em aulas práticas, na unidade de terapia intensiva em uma situação de cuidado com um rapaz. Os gestos dos estudantes comunicam ambiguidades de sentimentos, pois, nesse momento da vida, eles despertaram sentimentos ditos e não ditos. Os gestos comunicavam, a todo instante, o sofrimento ao observar o outro. Nesse sentido, o docente mostra que percebe os estudantes pelos seus gestos, os quais são extensões do corpo. Esse é o veículo do ser-no-mundo. O corpo é aquele que é sensível, exerce a comunicação vital e a relação com o outro e com o mundo. O docente só consegue compreender a intencionalidade dos estudantes e suas atitudes para com o outro porque, por meio do corpo, ele as torna suas(11).

As ações e expressões do docente são próprias do seu mundo. Elas são significativas e plausíveis de reflexão, pois o crescimento só acontecerá se houver o olhar atento, a solidariedade e o diálogo com o outro. O docente contribui para o desenvolvimento das potencialidades, possibilitando despertar a sensibilidade dos estudantes. Dessa maneira, compreende-se que o ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem envolve intencionalidade e conhecimento como experiência vivida com o outro e como fonte de conhecimento fundamentado nos fenômenos compartilhados no cotidiano de cuidado.

Sentimentos de distanciamento

Aqui, apresenta-se alguns sentimentos que estabeleceram distanciamento nas relações com o outro no cotidiano de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. É ilustrativo o trecho do discurso transcrito a seguir.

[...] eu tenho dificuldade assim, de ter uma interação, de ter uma relação mais próxima quando é um grupo muito grande. [...] um grupo menor eu acho que facilita. Por isso, que a minha relação na prática é muito mais fácil (sorri) (D5).

Os espaços de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem são aqueles da expressão corpórea do ser docente. Chama atenção o fato de que a interação com o estudante só acontece quando existe relação mais próxima. Enquanto ser-docente, como um ser tocante, que tem o poder de tocar e de ser tocado, que é capaz de tocar-se, que deseja tocar e, dependendo do toque, deseja e não deseja ser tocado(11). A expressão é fenômeno que não depende do que eu penso do docente, mas do que eu posso. O dito e o não dito do docente revelam uma intenção significativa na sua relação com os estudantes. Durante as aulas práticas, a intenção significativa no docente, como no estudante que a reencontra, ao escutá-lo, requer espaços de experiências, de afetos e de emoções, tão necessários à estruturação da identidade e ao reforço da autoestima(17). Na elucidação da experiência de outrem, o corpo se mostra como essencial, a compreensão, a intersubjetividade adquirem dimensão vital na teoria merleau-pontyana da expressão. A presença do estudante para o docente, por meio do corpo, é que vai sinalizar as suas intenções, as condições concretas sobre as quais um desenho existencial se realiza.

A seguir, o discurso de D6 esteve acompanhado pelo sorriso, o qual revelou as suas expressões.

Nesse semestre mudou a modalidade vai pra campo de estágio e aí são os professores substitutos que vão com o grupo lá no campo. Estou estranhando ainda! Porque eu gosto quando a gente vai pra comunidade junto com os alunos. Eu gosto da comunidade (sorri) (D6).

Para o docente vivenciar, existencialmente, com o outro o ensinar e aprender a ser e fazer e Enfermagem é necessário conhecer a sua historicidade no seu espaço vivido(11). A abertura para as relações só acontece quando há disponibilidade e expressividade do docente frente à presença do estudante. O docente percebe que estar afastado do campo de estágio com o estudante traz um sentimento de estranheza, pois compreende a sensibilidade como compromisso e responsabilidade com a formação do futuro profissional de enfermagem.

Sentimentos de ambiguidade

A ambiguidade mostra o caráter fundador da linguagem. O significado emerge da palavra, mas não se reduz a ela, mas ao conjunto das expressões inseridas no corpo. É por isso que a palavra tem o sentido sem, contudo, contê-lo. A expressão não esgota o mistério do dito, que nos remete para observar o não dito(11).

Apresenta-se, a seguir, a compreensão do docente nas relações e interações com o outro no cotidiano do ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem, que está relacionada às ações subjetivas. A sensibilidade, neste estudo, privilegia o afetivo na sociabilidade. Essa revela olhar o presente, o vivido, o estar com. No entanto, implica reconhecer e respeitar as diferenças na convivência com o outro(16). O docente vê a si e ao outro como ser humano na ambiguidade(11). Ele experimenta sentimentos de humanidade, ternura, simpatia, compaixão, que advêm das situações existenciais próprias do seu cotidiano. O discurso, a seguir, revela a ambiguidade, na qual se pode observar a compreensão da sensibilidade de outra maneira.

É algo que tem que ser nutrido e buscar (olhar sério). [...] na questão da humildade, na questão do estar com, do sentar com, de escutar, de sentir não só com estes sentidos, mas é aquela coisa da alma, do coração. [...] é me envolver, é interagir e ter a sensibilidade como condição do trabalho, do trabalhador que está lá. [...] a sensibilidade é: o envolvimento! É o amor! O carinho! Aquela compaixão, é ter paixão com o outro. Não aquela compaixão de otimizar (sorri) (D7).

No discurso de D7, pode-se compreender a sensibilidade como intersubjetiva, portanto, dependente de abertura, interação e envolvimento. A sensibilidade é processo que busca a contextualização e a multidimensionalidade do humano para ser capaz de enfrentar e superar os desafios de ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem, para além dos sentidos. O docente como um ser-no-mundo necessita coexistir com o outro, relacionar-se e fortalecer sentimentos. E é nesse processo que é superada a separação entre a objetividade e a subjetividade.

 

Considerações finais

Com a realização desta pesquisa, foi possível compreender os significados da sensibilidade para o ser-docente-enfermeiro/a no ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. A fenomenologia como abordagem metodológica mostrou-se mais adequada, pois levou a aprender a observar o outro, permitindo percorrer um caminho com inúmeras descobertas. Ela auxiliou a realização de questionamentos e abrir nosso mundo para novas aprendizagens. A fenomenologia-hermenêutica possibilita compreender os significados que o ser-docente-enfermeiro/a atribui à sua existência no mundo da enfermagem e, por meio do seu discurso, chegar à compreensão de suas ações com os estudantes.

O fenômeno da sensibilidade para o ser-docente-enfermeiro/a revela-se para além da racionalidade técnica. Os relatos mostraram que ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem pode estar pautado em outra dimensão, como uma troca entre ser-docente e estudantes, sendo essa compreendida e expressa pela sensibilidade. Sendo assim, o ser-docente propicia espaços ao conhecimento objetivo sem negar espaços ao conhecimento subjetivo. O conhecimento científico precisa do conhecimento sensível.

Os achados deste estudo mostraram que não há univocidade da compreensão dos sentidos da sensibilidade pelo ser-docente, assim como as ideias acentuaram a polissemia de sentidos no conjunto da hermenêutica dos discursos dos docentes. É necessário que o ser-docente-enfermeiro/a restaure a sensibilidade, por meio do diálogo com o outro para ensinar e aprender a ser e fazer Enfermagem. Ele precisa mediar as situações que envolvem a racionalidade técnica e, nesse sentido, o docente está sendo, constantemente, desafiado a transformar os espaços de aprendizagem em experiências significativas para os estudantes, a partir da sua própria realidade, auxiliando-os a não serem, meramente, executores e aguçando-lhes a capacidade de perceberem a sensibilidade, a intuição, a imaginação e a criatividade.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Marlene Gomes Terra
Departamento de Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria
Av. Roraima, 1000 Cidade Universitária - CCS (prédio 26, 3º andar)
Camobi
CEP: 97105-900 Santa Maria, RS, Brasil
E-mail: martesm@terra.com.br

 

 

Recebido: 9.2.2009
Aceito: 3.9.2009

 

 

1 Artigo extraído da Tese de Doutorado “Significados da sensibilidade para o ser-docente-enfermeiro/a no ensinar e aprender a ser e fazer enfermagem à luz da fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty”, apresentada à Universidade Federal de Santa Catarina, SC, Brasil. Apoio financeiro PQI/CAPES.