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Índice de massa corporal apresenta boa correlação com o perfil pró-aterosclerótico em crianças e adolescentes

Resumos

FUNDAMENTO: Recentemente, uma associação de diferentes fatores de risco foi descrita como a síndrome metabólica. Diferentes definições estão sendo utilizadas para a mesma síndrome. Independente do nome ou da classificação, estabeleceu-se que um agrupamento de fatores de risco cardiovasculares incluindo sobrepeso/obesidade, aumento da pressão arterial e anormalidade lipídicas e glicêmicas está associado com aumento do risco de aterosclerose em adultos. OBJETIVO: O objetivo desse estudo foi correlacionar os percentis do índice de massa corporal com a pressão arterial (PA), índice de resistência à insulina (HOMA-ir) e perfis lipídicos em crianças e adolescentes, os quais caracterizam um perfil pró-aterosclerótico. MÉTODOS: Agrupamentos de fatores de risco cardiovasculares foram avaliados em 118 crianças e adolescentes, divididos de acordo com os quartis do percentil de índice de massa corporal (PIMC): Q1 (n=23) com PIMC <50%, Q2 (n=30) com PIMC entre 50 e 85%, Q3 (n=31) com PIMC entre 85 e 93%, e Q4 (n=34) com PIMC > 93%. Estatisticamente, diferenças significantes não foram observadas para idade (F=2,1; p=0,10); sexo (teste Qui-quadrado=3,0; p=0,38), e etnia (teste do Qui-quadrado = 4,7; p=0,20) entre diferentes quartis. RESULTADOS: Uma diferença estatisticamente significante foi observada para PA sistólica (F=15,4; p<0,0001), PA diastólica (F=9,5; p<0,0001), glicemia (F=9,6; p<0,0001), insulina (F=12.9; p<0.0001), HOMA-ir (F=30,8; p<0,0001), e níveis de triglicérides (F=2,7; p=0,05) entre os diferentes quartis. CONCLUSÃO: O excesso de peso avaliado pelo PIMC foi associado ao aumento de PA, triglicérides, índice HOMA-ir, e HDL - colesterol baixo, o que configura um perfil pró-aterosclerótico em crianças e adolescentes.

Índice de massa corporal; criança; adolescente; fatores de risco


FUNDAMENTO: Recientemente, una asociación de diferentes factores de riesgo se describió como el síndrome metabólico. Se están utilizando diferentes definiciones para el mismo síndrome. Independientemente del nombre o de la clasificación, se estableció que un agrupamiento de factores de riesgo cardiovascular, incluyendo sobrepeso/obesidad, aumento de la presión arterial y anormalidades lipídicas y glicémicas está asociado al aumento de riesgo de aterosclerosis en adultos. OBJETIVO: El objetivo de este estudio fue correlacionar los percentiles del índice de masa corporal con la presión arterial (PA), índice de resistencia a la insulina (HOMA-ir) y perfiles lipídicos en niños y adolescentes, los cuales caracterizan un perfil proaterosclerótico. MÉTODOS: Se evaluaron agrupamientos de factores de riesgo cardiovascular en 118 niños y adolescentes, divididos de acuerdo con los cuartiles del percentil de índice de masa corporal (PIMC): Q1 (n=23) con PIMC <50%, Q2 (n=30) con PIMC entre 50 y 85%, Q3 (n=31) con PIMC entre 85 y 93%, y Q4 (n=34) con PIMC > 93%. Estadísticamente, no se observaron diferencias significativas para la edad (F=2,1; p=0,10); sexo (test Ji cuadrado=3,0; p=0,38), y origen étnico (test Ji cuadrado = 4,7; p=0,20) entre diferentes cuartiles. RESULTADOS: Una diferencia estadísticamente significativa se observó para PA sistólica (F=15,4; p<0,0001), PA diastólica (F=9,5; p<0,0001), glucemia (F=9,6; p<0,0001), insulina (F=12.9; p<0.0001), HOMA-ir (F=30,8; p<0,0001), y niveles de triglicéridos (F=2,7; p=0,05) entre los diferentes cuartiles. CONCLUSIÓN: El exceso de peso evaluado por el PIMC se asoció al aumento de PA, triglicéridos, índice HOMA-ir, y HDL - colesterol bajo, lo que configura un perfil proaterosclerótico en niños y adolescentes.

Índice de masa corporal; niño; adolescente; factores de riesgo


BACKGROUND: More recently, the association of different risk factors has been described as the metabolic syndrome. Different definitions are being used for the same syndrome. Regardless of the name or classification, it has been well established that a cardiovascular cluster including overweight/obesity, increased blood pressure, and lipid and glucose abnormalities are associated with an increased risk of atherosclerosis in adults. OBJECTIVE: The aim of this study was to correlate body mass index percentiles with blood pressure, insulin resistance index, and lipid profiles in children and adolescents, which characterize a proatherosclerotic profile. METHODS: Cardiovascular risk factor clusters were evaluated in 118 children and adolescents divided according to body mass index percentile (BMIP) quartiles: Q1 (n=23) with BMIP <50%, Q2 (n=30) with BMIP between 50 and 85%, Q3 (n=31) with BMIP between 85 and 93%, and Q4 (n=34) with the BMIP > 93%. Statistically significant differences were not observed for age (F=2.1; p=0.10); sex (chi-square test=3.0; p=0.38), and ethnicity (chi-square test=4.7; p=0.20) between different quartiles. RESULTS: A statistically significant difference was observed for systolic BP (F=15.4; p<0.0001), diastolic BP (F=9.5; p<0.0001), glycemia (F=9.6; p<0.0001), insulin (F=12.9; p<0.0001), HOMAir (F=30.8; p<0.0001), and triglyceride levels (F=2.7; p=0.05) between the different quartiles. CONCLUSION: Excess weight evaluated by BMIP was associated with increased blood pressure, triglycerides, HOMAir index, and low HDL-cholesterol, a proatherosclerotic profile in children and adolescents.

Body mass índex; child; adolescent; risk factors


ARTIGO ORIGINAL

HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA

Índice de massa corporal apresenta boa correlação com o perfil pró-aterosclerótico em crianças e adolescentes

Geodete Batista CostaII, III; Naira HortaIII; Zulmira Freire ResendeIII; Graziela SouzaIII; Larissa Machado de Farias BarretoIII; Luis Henrique CorreiaIII; Thiago Augusto NascimentoIII; Clay Barreto RiosIII; José Augusto Barreto-FilhoIII; Heno Ferreira LopesI

IInstituto do Coração (InCor), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

IIHospital Escola da Universidade de Sergipe, Sergipe; Brasil

IIIUnidade Cardiotorácica de Sergipe, Sergipe, Brasil

Correspondência Correspondência: Heno Ferreira Lopes Av. Dr. Enéas de C. Aguiar, 44, Bloco II, 2ª andar, sala 8, Cerqueira César 05403-000, São Paulo, SP, Brasil E-mail: hipheno@incor.usp.br

RESUMO

FUNDAMENTO: Recentemente, uma associação de diferentes fatores de risco foi descrita como a síndrome metabólica. Diferentes definições estão sendo utilizadas para a mesma síndrome. Independente do nome ou da classificação, estabeleceu-se que um agrupamento de fatores de risco cardiovasculares incluindo sobrepeso/obesidade, aumento da pressão arterial e anormalidade lipídicas e glicêmicas está associado com aumento do risco de aterosclerose em adultos.

OBJETIVO: O objetivo desse estudo foi correlacionar os percentis do índice de massa corporal com a pressão arterial (PA), índice de resistência à insulina (HOMA-ir) e perfis lipídicos em crianças e adolescentes, os quais caracterizam um perfil pró-aterosclerótico.

MÉTODOS: Agrupamentos de fatores de risco cardiovasculares foram avaliados em 118 crianças e adolescentes, divididos de acordo com os quartis do percentil de índice de massa corporal (PIMC): Q1 (n=23) com PIMC <50%, Q2 (n=30) com PIMC entre 50 e 85%, Q3 (n=31) com PIMC entre 85 e 93%, e Q4 (n=34) com PIMC > 93%. Estatisticamente, diferenças significantes não foram observadas para idade (F=2,1; p=0,10); sexo (teste Qui-quadrado=3,0; p=0,38), e etnia (teste do Qui-quadrado = 4,7; p=0,20) entre diferentes quartis.

RESULTADOS: Uma diferença estatisticamente significante foi observada para PA sistólica (F=15,4; p<0,0001), PA diastólica (F=9,5; p<0,0001), glicemia (F=9,6; p<0,0001), insulina (F=12.9; p<0.0001), HOMA-ir (F=30,8; p<0,0001), e níveis de triglicérides (F=2,7; p=0,05) entre os diferentes quartis.

CONCLUSÃO: O excesso de peso avaliado pelo PIMC foi associado ao aumento de PA, triglicérides, índice HOMA-ir, e HDL – colesterol baixo, o que configura um perfil pró-aterosclerótico em crianças e adolescentes.

Palavras chave: Índice de massa corporal, criança, adolescente, fatores de risco.

Abreviações

PIMC - percentil do índice de massa corporal

PA – pressão arterial

HDL – lipoproteína de alta densidade

HOMA-ir - Modelo de Avaliação da Homeostase da resistência à insulina

LDL – lipoproteína de baixa densidade

SM – síndrome metabólica

Introdução

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)1, a obesidade está assumindo proporções epidêmicas em todo o mundo e é considerada uma doença pediátrica crônica, mais perigosa que a desnutrição, pelo fato de estar associada com um grande número de comorbidades. Os problemas associados com a obesidade incluem problemas psicossociais (baixa auto-estima, afetando a capacidade acadêmica e relacionamentos), problemas sociais (preconceito) e culminam na associação de obesidade central, resistência à insulina, hipertensão e dislipidemia, que caracterizam um agrupamento de fatores de risco cardiovasculares, também chamados de síndrome metabólica (SM). A síndrome metabólica está associada com um aumento na probabilidade de doença aterosclerótica, esteato-hepatite e calculose biliar, a qual está presente em indivíduos sedentários com nutrição exagerada e predisposição genética2.

A prevalência dessa situação está aumentando em crianças e adolescentes e o diabetes do tipo 2 está aparecendo nessa população com maior frequência3. Há outras situações clínicas associadas com esse agrupamento de fatores de risco cardiovasculares que requerem atenção: apnéia do sono associada à hipertensão pulmonar, hipertrofia do ventrículo esquerdo, pseudotumor cerebral e distúrbios ortopédicos4. Evidências científicas têm revelado que a hipertensão arterial e a aterosclerose têm início na infância, quando os hábitos relacionados à atividade física e nutrição são formados5.

Este estudo descreve o impacto do excesso de peso, avaliado através do percentil do índice de massa corporal (PIMC) e fornece os resultados dos níveis de PA, índice de resistência à insulina e perfil lipídico em crianças e adolescentes considerados clinicamente normais.

Nossa hipótese é que o aumento no PIMC resulta em uma maior probabilidade de agrupamento de fatores de risco cardiovasculares, independente da idade e das características clínicas.

Pacientes

Este é um estudo clínico controlado (estudo analítico transversal), que correlaciona o percentil do índice de massa corporal (PIMC) com o perfil cardiovascular e bioquímico em uma população de crianças e adolescentes recrutados sequencialmente entre Janeiro e Novembro de 2005 em clínicas cardio-pediátricas, endocrinológicas, centros ambulatoriais e clínicas particulares. Um total de 118 indivíduos foi incluído no estudo. Eles foram divididos em quartis de acordo com o percentil do índice de massa corporal (PIMC): Q1 (n = 23) com PIMC <50%; Q2 (n=30) com PIMC entre 50 e 85%; Q3 (n=31) com PIMC entre 85 e 93%, e finalmente, Q4 (n=34) com PIMC >93%. As características clínicas da população são mostradas na Tabela 1.

Métodos

Todas as medidas antropométricas foram realizadas no início da manhã e os voluntários estavam em jejum: a) O peso foi medido em uma balança digital Tech Line, modelo Tec 10L (Techline Asia, China). Todos os indivíduos usavam roupas leves, estavam descalços e na posição ortostática. b) A altura foi medida através de um estadiômetro fixado na posição vertical. Os indivíduos eram colocados na posição ortostática, descalços, com as pernas juntas e as nádegas e ombros em contato com o eixo vertical do estadiômetro. Os braços eram mantidos próximos ao corpo e a medida era tomada no final da expiração. O peso e a altura foram registrados de acordo com as curvas de Tanner6. c) O Índice de Massa Corporal (IMC) ou Índice Quetelet = peso (kg) dividido pela altura (m2) foi calculado. Como essa é uma população de crianças e adolescentes, o percentil para o IMC foi usado de acordo com o National Center for Health Statistics7 e aplicado para agrupá-los em diferentes quartis.

A pressão arterial (PA) foi medida de acordo com o protocolo recomendado pelo Update on the Task Force Report (1987) on High Blood Pressure in Children and Adolescents: A Working Group Report from the High Blood Pressure Education Program8. Um esfigmomanômetro de mercúrio calibrado, com manguito adequado, foi utilizado para medir a PA. Os indivíduos permaneceram na posição sentada por pelo menos 10 minutos em condições de descanso. A Fase I de Korotkoff foi adotada para definir a pressão arterial sistólica e a Fase V de Korotkoff para pressão arterial diastólica. Houve um intervalo de 2 minutos entre as medidas. Os indivíduos foram instruídos a não ingerir café, chá, anti-inflamatórios não-esteróides, corticosteróides e vasoconstritores nasais por 12 horas antes da medida de pressão arterial. A média de três medidas consecutivas foi utilizada, Para ambos os sexos, a PA foi corrigida de acordo com o percentil da altura.

Para a análise bioquímica, amostras de sangue foram colhidas após um período de jejum de 12 horas. O plasma foi separado e armazenado a -10º C em um freezer. O nível de triglicérides foi determinado pelo método enzimático Trinder-reagente Labtest – colorimétrico (kit comercial). O HDL - colesterol foi determinado através do método COD-ANA Labtest Cat – 60 (kit comercial). A glicemia de jejum foi determinada pelo método colorimétrico enzimático - Glucox 500/glicose oxidase (Selectra II, Brasil). A insulina foi medida pelo método de quimiluminescência, usando um equipamento Immulite 2000 (DPC, EUA). A glicemia de jejum e a insulina foram utilizados para calcular o Índice do Modelo de Avaliação da Homeostase da Resistência à Insulina (HOMA-ir) (glicose mg/dl x insulina µU/ml/22,5)9. Os pais ou tutores de todos os pacientes incluídos no estudo assinaram o termo de consentimento livre e informado. O Comitê de Ética da Universidade Federal de Sergipe, Brasil, aprovou esta pesquisa.

Análise Estatística

O software SPSS versão 13.0 (SPSS, Chicago, IL) foi utilizado na análise estatística. Dados não-numéricos foram resumidos em proporções, com os respectivos intervalos de confiança de 95%. Os dados numéricos são mostrados em médias e desvios-padrão. Variáveis nominais são mostradas em frequências. A distribuição normal foi testada através do método de Shapiro-Wilkis. A análise de variância (ANOVA) foi utilizada para analisar a variação das variáveis associadas com a síndrome metabólica de acordo com o percentil do índice de massa corporal (PIMC). One-way ANOVA foi utilizada para comparar diferentes quartis do PIMC; Bonferroni (variância igual) e Tamhne (variância diferente) foram usados como pós-testes. A análise de tendência e a avaliação de tendências lineares, cúbicas e quadráticas para diferentes fatores em cada quartil foram medidas pelo método polinomial. O valor de P<0,05 foi adotado como estatisticamente significante.

Resultados

A população não diferiu em média de idade (F=2,1; p=0,10); distribuição de sexo (teste do Qui-quadrado =3,04; p=0,38), e etnia (teste de Qui-quadrado = 4,7; p=0,20) entre os diferentes quartis (Tabela 1).

Houve uma diferença estatisticamente significante em relação à PA sistólica entre os diferentes quartis (F=15,4; p<0,0001): Q4 versus Q1 (32,8±4,1; p<0,0001); Q4 versus Q2 (23,0±4,0; p<0,0001); Q3 versus Q1 (13,5±3,9; p=0,002); Q3 versus Q2 (12,2±4,0; p=0,02). Não houve diferença entre Q1 e Q2 (Figura 1). Uma diferença estatisticamente significante foi observada para PA diastólica entre os quartis (F=9,5; p<0,0001): Q4 versus Q1 (12,9±2,7; p<0,01); Q4 versus Q2 (10,8±2,5; p<0,0002) e Q4 versus Q3 (7,0±2,5; p=0,04) (Figura 2).



Em relação ao metabolismo de carboidratos, uma diferença estatisticamente significante foi observada entre os diferentes quartis para a glicemia (F=9,6; p<0,0001); insulina (F=12,9; p<0,0001), e HOMA-ir (F=30,8; p<0,0001). Para a glicemia, uma diferença foi observada entre os quartis: Q4 versus Q1 (12,2±2,6; p<0,001); Q4 versus Q2 (10,3±2,4; p=0,0002), e Q4 versus Q3 (7,2±2,4; p=0,02) (Figura 3). Uma diferença estatisticamente significante foi observada para a insulina entre os quartis: Q4 versus Q1 (7,4±1,4; p<0,0001); Q4 versus Q2 (6,9±1,4; p<0,0001); Q3 versus Q1 (3,5±1,1; p=0,01), e Q3 versus Q2 (3,0±1,1; p=0,01) (Figura 4). O índice HOMA-ir diferiu significantemente entre os quartis: Q4 versus Q1 (46,3±6,0; p<0,0001); Q4 versus Q2 (45,6±6,0; p<0,0001); Q4 versus Q3 (21,5±7,2; p=0,02); Q3 versus Q1 (24,8±3,9; p<0,0001) e Q3 versus Q2 (24,2±3,9; p<0,0001) (Figura 5).




Uma diferença estatisticamente significante foi observada nos perfis lipídicos entre os quartis Q4 versus Q1 (38,6±13,3; p=0,03) para triglicérides (F=2,7; p=0,05) (Figura 6). Uma redução nos níveis de HDL - colesterol foi observada entre quartis; entretanto, essa diferença não foi estatisticamente significante (F=1,9; p=0,14) (Figura 7). Uma análise de tendências foi executada e um aumento linear e significante foi observado para a PA sistólica (F=39,3; p<0,0001); PA diastólica (F=24,7; p<0,0001); glicemia (F=26,5; p<0,0001); insulina (F=32,5; p<0,0001); triglicérides (F=7,9; p=0,006), e HDL - colesterol (F=5,3; p=0,03), entre os quartis. Uma tendência também foi observada na variação quadrática para o índice HOMA-ir (F=6,5; p=0,01), entre os quartis.



Discussão

Há vários estudos relacionados a fatores de risco cardiovasculares em adultos. Entretanto, há poucos estudos relacionados ao agrupamento de fatores de risco cardiovasculares em crianças e adolescentes. Entre os estudos que já avaliaram os fatores de risco cardiovasculares associados em crianças e adolescentes, estão o Bogalusa Heart Study10, o Muscatine Study11, e o PDAY12. Esses estudos mostram a associação entre múltiplos fatores de risco e aterosclerose em crianças e jovens adultos. Em nosso estudo, observamos a associação entre o PIMC e um agrupamento de fatores de risco cardiovasculares, tais como aumento da pressão arterial, HDL-colesterol baixo, aumento dos níveis de triglicérides, aumento dos níveis de glicemia e insulina e aumento da resistência à insulina avaliada através do índice HOMA-ir em crianças e adolescentes. Sabe-se que esse agrupamento de fatores de risco cardiovasculares que aparece no início da vida irá persistir e piorar se a prevenção primária não for adotada precocemente. Consequentemente, esse agrupamento de fatores de risco cardiovasculares irá resultar em morbidade e mortalidade cardiovasculares em jovens adultos. A antropometria é considerada um método útil para identificar excesso de peso, pois é um método acessível e aplicável universalmente.

Os índices antropométricos são obtidos a partir de duas ou mais combinações básicas (peso, sexo, idade e altura)1. O IMC é calculado de acordo com o peso e altura e é amplamente utilizado e aceito para identificar indivíduos com sobrepeso e obesos. Mas o uso do IMC para crianças e adolescentes começou após o estudo de Must e cols.13, o qual relatou valores de referencia para percentis de acordo com a idade e o sexo, e estes são atualmente considerados os valores de referencia pela OMS. De acordo com este estudo, indivíduos com percentis de IMC >85 e <95 são considerados como tendo sobrepeso e indivíduos com percentis de IMC >95 são considerados obesos. Embora o IMC tenha sido usado para caracterizar obesidade em crianças e adolescentes, ele apresenta limitações. Uma limitação apontada por Luukkaa e cols.14 é que o IMC não diferencia a massa magra da massa gorda e não permite a separação de indivíduos com aumento de massa muscular daqueles com aumento de massa gorda. Entretanto, mesmo o quartil inferior (Q1) da distribuição da prega cutânea subescapular, comparado ao quartil superior (Q4), está relacionado ao aumento do risco de níveis elevados de colesterol total em crianças e adolescentes15.

Atualmente, é importante conhecer não apenas a massa gorda, mas também a distribuição da gordura. Em relação à distribuição da gordura, Fujioka e cols.16 mostraram que a gordura abdominal está associada com um alto risco de morbidade e mortalidade, principalmente devido a doença cardiovascular. Lapidus e cols.17 demonstraram que o aumento da gordura abdominal está associada com aumento dos níveis de insulina no plasma (hiperinsulinemia) e esse aumento é preditivo de hipertensão e dislipidemia futuras. Em outro estudo18, os autores concluíram que a gordura abdominal é um importante preditor de um aumento dos níveis de triglicérides, uma diminuição nos níveis de HDL-colesterol, e um aumento da massa ventricular esquerda em crianças e adolescentes.

Sabe-se que a PA sistólica aumenta progressivamente a partir de 1 ano de idade até a adolescência e que a PA diastólica aumenta após 5 ou 6 anos de idade, proporcionalmente à PA sistólica. Em crianças pequenas, a hipertensão secundária é mais frequente e após os 10 anos de idade, principalmente no adolescente, é a forma primária da hipertensão a mais observada19. Em uma revisão relacionada à hipertensão em crianças obesas20, três possíveis mecanismos foram discutidos: desequilíbrio da função autonômica (hiperatividade do sistema nervoso simpático e/ou desequilíbrio entre o sistema nervoso simpático e o parassimpático); resistência à insulina; e anormalidades na estrutura e função vascular (diminuição da complacência vascular). Possivelmente, a interação entre esses diferentes mecanismos poderia resultar em hipertensão em crianças e adolescentes obesos. Dessa forma, como demonstrado no estudo realizado no Rio de Janeiro, o nível de PA inicial é um marco de agregação familiar de fatores de risco cardiovasculares metabólicos21. Muito embora o presente estudo não tenha utilizado a obesidade central ou, especificamente, a massa gorda para classificar a população de crianças e adolescentes, a PA aumentou progressivamente com o aumento do percentil do IMC, reforçando a importância da relação da obesidade ou aumento do IMC com a hipertensão.

Podemos supor que o aumento da atividade simpática, resistência à insulina e anormalidades vasculares, citadas como mecanismos plausíveis para a hipertensão em indivíduos obesos, está relacionado ao aparecimento de agrupamentos de fatores de risco cardiovasculares, observados na síndrome metabólica. Becque e cols.22 avaliaram a incidência de fatores de risco para doença arterial coronariana em adolescentes obesos e mostraram que 80% apresentavam hipertensão sistólica, hipertensão diastólica ou ambas. Também demonstraram que 97% dessa população apresentava 4 ou mais fatores de risco agrupados (hipertrigliceridemia, HDL-colesterol baixo, hipercolesterolemia e hipertensão). Nossa população de crianças e adolescentes apresentava uma associação significante de aumentos no PIMC com aumento da PA e também com aumento de triglicérides e diminuição do HDL-colesterol.

O HDL-colesterol é um fator de proteção e apresenta uma relação inversa com risco cardiovascular, como demonstrado por Barter e Rye23. Esses autores mostraram um aumento de 2 a 3% no risco cardiovascular para cada 1% de redução nos níveis de HDL-colesterol. Eles também mostraram que o perfil lipídico relacionado com a resistência à insulina é o baixo nível de HDL-colesterol, frequentemente associado com a hipertrigliceridemia, e aumento das partículas de lipoproteína de baixa densidade (consideradas aterogênicas). De acordo com Weiss e cols.24, há uma associação positiva entre a obesidade e a dislipidemia em crianças e adolescentes. Uma prevalência de dislipidemia de até 50% foi encontrada em crianças com PIMC > 99. Neste estudo, os autores usaram o excesso de peso para classificar o perfil lipídico. Um possível mecanismo para explicar essa associação é a ativação da quinase dependente de AMPc que é induzida pelo aumento nos níveis de insulina e leptina e pela redução nos níveis de adiponectina. A adiponectina, isoladamente, aumenta a oxidação dos ácidos graxos e também apresenta uma associação positiva com a sensibilidade à insulina, HDL-colesterol e uma associação negativa com os níveis de triglicérides. Por outro lado, a dislipidemia em bebês pode estar associada com a obesidade na vida adulta, especialmente em indivíduos do sexo feminino. A hiperinsulinemia é indicada como um mecanismo causal comum para anormalidades metabólicas, incluindo hipertrigliceridemia, baixo nível de HDL-colesterol, aumento da PA e diabetes do tipo 2. Sinha e cols.25 encontraram uma alta prevalência de intolerância à glicose em crianças obesas: 25% de 55 crianças obesas entre 4 10 anos de idade e em 21% de 112 adolescentes obesos entre 11 e 18 anos. Em nosso estudo, encontramos uma associação positiva entre o aumento no PIMC e o aumento do índice HOMA-ir, um índice de resistência à insulina que comumente aponta em direção à hiperinsulinemia e, consequentemente, à hipertrigliceridemia, HDL-colesterol baixo e aumento na PA, também encontrados no percentil mais alto de IMC de nossa população.

Limitação do estudo: a população do estudo foi selecionada a partir de indivíduos que vieram à clinica para serem submetidos à um exame de saúde, não sendo necessariamente uma amostra representativa da população geral da mesma faixa etária.

Em conclusão, este estudo caracterizou um perfil pró-aterosclerótico em crianças e adolescentes de acordo com excesso de peso, embora na ausência de sintomas cardiovasculares.

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer ao Instituto do Coração (InCor), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e aos Professores José Antonio Franchini Ramires e Eduardo Moacyr Krieger pela sua ajuda no desenvolvimento deste estudo.

O que já é conhecido sobre esse tópico:

- Sabe-se que a gordura abdominal e o estilo de vida sedentário estão relacionados à resistência à insulina.

- Embora os critérios diagnósticos da síndrome metabólica já sejam conhecidos, estes são confusos, mesmo para indivíduos adultos. Os melhores critérios são: circunferência abdominal, IMC, razão quadril/ circunferência abdominal?

- IMC e resistência à insulina estão associados ao aumento do risco de DCV em adolescentes.

O que este estudo acrescenta:

- Que seja de nosso conhecimento, nenhum estudo havia analisado as características da síndrome metabólica em crianças e adolescentes, incluindo diferentes medidas antropométricas.

- Nossos dados foram analisados de acordo com os quartis, sugerindo um aumento no numero de características da síndrome metabólica de acordo com o aumento no percentil do IMC.

- Todos os componentes da síndrome metabólica mostraram a mesma tendência de acordo com o aumento nos percentis do IMC, demonstrando uma boa correlação desses componentes com o percentil do IMC.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de Doutorado de Geodete Batista Costa pelo Instituto do Coração, Universidade Federal de Sergipe, Unidade Cardiotorácica de Sergipe.

Artigo recebido 20/08/08; revisado recebido 02/10/08; aceito em 21/10/08.

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  • Correspondência:

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  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Out 2009
    • Data do Fascículo
      Set 2009

    Histórico

    • Recebido
      20 Ago 2008
    • Aceito
      21 Out 2008
    • Revisado
      02 Out 2008
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