Distribuição temporal e espacial da raiva bovina em Minas Gerais, 1976 a 1997

Space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State, Brazil, from 1976 to 1997

Resumos

Realizou-se um estudo observacional retrospectivo com o objetivo de avaliar a distribuição espaço-temporal da raiva bovina em Minas Gerais. Foram analisadas 7.526 fichas de diagnóstico de raiva por imunofluorescência direta, de 1976 a 1997. Para distribuição espacial da raiva bovina foi utilizado o aplicativo de mapeamento MAP-INFO Professional 4.5. Foi observada tendência crescente anual não só de diagnósticos positivos de raiva (Y=23,588X), com predominância nos meses de abril a agosto, como também de municípios positivos (Y=0,0461X), caracterizando intensa expansão da raiva bovina em Minas Gerais.

Raiva bovina; epidemiologia; distribuição temporal; distribuição espacial


A retrospective observational study was performed for evaluating space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State, Brazil, from 1976 to 1997. A total of 7,526 records of bovine rabies diagnoses using direct immunofluorescence was analysed. The MAP-INFO professional 4.5 was used for examining space distribution of bovine rabies. An annual growth tendency of positive diagnoses of rabies (Y=23,586X) mainly from April to August and in the number of positive counties (Y=0,0461X) was observed, characterizing an intense expansion of bovine rabies in Minas Gerais.

Bovine rabies; epidemiology; time distribution; space distribution


Distribuição temporal e espacial da raiva bovina em Minas Gerais, 1976 a 1997

[Space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State, Brazil, from 1976 to 1997]

J.A. Silva¹, E.C. Moreira¹, J.P.A. Haddad¹, C.M. Modena¹, M.A.S. Tubaldini²

¹Escola de Veterinária da UFMG

Caixa Postal 567

30123-970 – Belo Horizonte, MG

²Instituto Geociências da UFMG

Recebido para publicação, após modificações, em 5 de março de 2001.

E-mail: jasilva@vet.ufmg.br

Trabalho realizado com auxílio financeiro da FAPEMIG – CAG 1585/95 e FEPMVZ

RESUMO

Realizou-se um estudo observacional retrospectivo com o objetivo de avaliar a distribuição espaço-temporal da raiva bovina em Minas Gerais. Foram analisadas 7.526 fichas de diagnóstico de raiva por imunofluorescência direta, de 1976 a 1997. Para distribuição espacial da raiva bovina foi utilizado o aplicativo de mapeamento MAP-INFO Professional 4.5. Foi observada tendência crescente anual não só de diagnósticos positivos de raiva (Y=23,588X), com predominância nos meses de abril a agosto, como também de municípios positivos (Y=0,0461X), caracterizando intensa expansão da raiva bovina em Minas Gerais.

Palavras–Chave: Raiva bovina, epidemiologia, distribuição temporal, distribuição espacial.

ABSTRACT

A retrospective observational study was performed for evaluating space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State, Brazil, from 1976 to 1997. A total of 7,526 records of bovine rabies diagnoses using direct immunofluorescence was analysed. The MAP-INFO professional 4.5 was used for examining space distribution of bovine rabies. An annual growth tendency of positive diagnoses of rabies (Y=23,586X) mainly from April to August and in the number of positive counties (Y=0,0461X) was observed, characterizing an intense expansion of bovine rabies in Minas Gerais.

Keywords: Bovine rabies, epidemiology, time distribution, space distribution

INTRODUÇÃO

A raiva bovina é descrita no país desde o inicio do século por Carini (1911). Historicamente teve sua distribuição e determinação influenciadas pelas modificações sofridas no espaço agrário devido às injunções do desenvolvimento econômico.

Tendo como referencial teórico a organização do espaço, a raiva bovina foi analisada por Silva (1999) em Minas Gerais, levando em consideração suas determinações bioecológicas e econômico-sociais. Essa pesquisa apontou para a escassez de informações sobre a doença e entendeu que a descrição de sua distribuição possibilita o conhecimento de sua dinâmica, fundamental na analise epidemiológica devido às conseqüentes relações que podem ser inferidas.

Diante disso, foi objetivo deste trabalho avaliar a distribuição temporal e espacial da raiva bovina com a finalidade de se repensar as ações de vigilância e controle da doença em Minas Gerais.

MATERIAL E MÉTODOS

A área do presente trabalho foi o Estado de Minas Gerais, com 853 municípios e 679 distritos (Instituto..., 1997). O Estado limita-se ao norte e nordeste com a Bahia, a leste com o Espírito Santo, a sudeste com o Rio de Janeiro, ao sul e sudeste com São Paulo, a oeste com Mato Grosso do Sul e a noroeste com Goiás e Distrito Federal (Anuário..., 1994).

Para descrever a distribuição da raiva bovina nos diferentes municípios de Minas Gerais foram utilizados os resultados de 1984 exames, realizados pelo Departamento de Controle de Zoonoses (DCZ), referentes ao período de janeiro de 1976 a dezembro de 1997, e de 5542 pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), no período de janeiro de 1987 a dezembro de 1997, perfazendo 7526 registros de diagnósticos, todos feitos por imunofluorescência direta.

O banco de dados foi criado e estruturado com recurso do programa EPIINFO, segundo Dean et al. (1995), para responder a questões ligadas à distribuição da raiva bovina no período de 1976-97. As informações trabalhadas nessa série temporal foram número de diagnósticos de raiva em bovinos por ano e mês e municípios atingidos pela doença.

Para consolidação das informações da raiva bovina em um único banco de dados, tomou-se 1970 como ano-base de estudo, utilizando-se a base cartográfica elaborada pelo Base... (1994), constituída de 723 municípios. Assim, utilizou-se a metodologia que consiste em acrescentar àqueles municípios todos os dados dos municípios que foram desmembrados, emancipados e que mudaram de nome após aquela data. Para isso utilizou-se como fonte de consulta Instituto...(1997).

O banco de dados foi organizado agrupando todos os municípios de Minas Gerais em colunas com os respectivos resultados positivo ou negativo de raiva, anualmente, de 1976 a 1997..

Para distribuição espacial da raiva bovina foram processados mapas utilizando-se o programa MAPINFO Professional versão acadêmica 4.5. Os mapas foram elaborados de acordo com as normas preconizadas por Santos & Le Sann (1985).

As estimativas de tendências, representadas pelo número de diagnósticos e de municípios positivos, em função do efeito temporal foram calculadas de acordo com Sampaio (1998), utilizando planilha eletrônica Excel versão 97.

RESULTADOS

O número de exames de raiva em bovinos de Minas Gerais, realizados pelo DCZ e pelo IMA entre 1976 e 1997 estão sumariados na Tab. 1. Verifica-se que houve aumento do número de exames, principalmente a partir de 1992.

De 7526 exames, 3802 foram positivos e 3724 negativos. Nesse período, houve anos em que o percentual de positivos foi menor do que o de negativos, e no total 50,5% dos diagnósticos foram positivos e 49,5% negativos para raiva bovina (Tab.2).

Houve crescente aumento de diagnósticos positivos, com maior ênfase a partir de 1993. Quanto à ocorrência por municípios, 543 (75%) dos 723 estudados foram positivos para raiva bovina (Tab.3). Conforme linha de tendência e equação da reta (Fig. 1), observa-se que houve acréscimo de 23,59 diagnósticos positivos de raiva bovina ao ano.

A reta de tendência mostra incorporação de 4,6% dos municípios com raiva bovina, ou seja, 33 deles aparecem com raiva a cada ano. Tal estimativa é consistente pois a reta de tendência demonstra ser altamente significativa com coeficiente linear R2 = 0,98, conforme Fig. 2.

Na Tab. 4 são apresentados os diagnósticos positivos de raiva bovina, mensalmente, no período de 1976-97. Verifica-se maior percentual de diagnósticos positivos nos meses de abril a agosto, observando-se em junho o pico no número de diagnósticos positivos.

Quanto à distribuição espacial da raiva bovina no período de 1976-97, observa-se pela Fig. 3 que a propagação da doença foi intensa. Em 1976 estava registrada em nove municípios e em 1997 em 174 municípios, tendo sido assinalada em 543 municípios em todo o período.

A distribuição espacial em agrupamentos por períodos, 1976-80, 1981-85, 1986-91 e 1992-97, facilita a análise e a discussão. Essa distribuição é a que melhor reflete as modificações ocorridas no período. Esses agrupamentos mostram padrões espaciais de deslocamento da doença no Estado de Minas Gerais.

Em 1976 a raiva estava presente em municípios das regiões do Alto Paranaíba, Sul de Minas, Zona da Mata e Metalúrgica. Em 1977, manteve-se nessas regiões e propagou-se para o Alto São Francisco e Centro/Sul de Minas. Em 1978 propagou-se para as regiões do Triângulo Mineiro, Noroeste de Minas e Vale do Rio Doce, e em 1980 aparece também na região Norte do Estado. Nesse período, 1976 a 1980, de modo geral observou-se pequeno número de municípios com raiva bovina, com predomínio de casos positivos na Zona da Mata, Alto São Francisco, Sul de Minas e Triângulo Mineiro.

Em 1981 o número de municípios com raiva bovina manteve-se baixo, com maior ocorrência positiva na Zona da Mata. Em 1982 a raiva foi diagnosticada também nas regiões Campo das Vertentes, Vale do Mucuri e Jequitinhonha. Visualiza-se a partir desse ano maior número de municípios positivos e definição de espaços contíguos marcantes da doença. Em 1982 predomina em municípios das regiões do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Alto São Francisco e Sul/Sudoeste de Minas. Em 1983 houve predomínio de municípios das regiões Metalúrgica, Vales do Rio Doce e Mucuri. Nesse ano chama a atenção a configuração espacial existente formando um verdadeiro corredor de municípios positivos, desde a região Metalúrgica até Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. A região Zona da Mata foi a única que não apresentou diagnóstico positivo de raiva. Em 1984 predominou em municípios das regiões Metalúrgica, Vale do Rio Doce, Vale do Mucuri e Jequitinhonha. Em 1985 os municípios das regiões do Vale do Mucuri e Jequitinhonha apresentam maior contigüidade espacial da raiva. Observou-se redução no número de municípios positivos, de 51 para 37, entre 1984 e 1985.

Em 1986 houve aumento de municípios positivos e expansão contígua nas áreas dos Vales do Mucuri e do Jequitinhonha. As demais regiões tornam-se negativas ou com presença de casos esporádicos. Em 1987 notou-se novo aumento de municípios positivos e a visualização de uma área espacialmente contígua desde o norte da Bacia do Manhuaçu, Governador Valadares, Teófilo Otoni e Baixo Jequitinhonha até o Alto do Rio Pardo e, também, na microrregião de Montes Claros no Norte de Minas. Nos anos de 1988 e 1989 reduzem-se as ocorrências positivas mas ainda apresentam-se áreas contíguas nas regiões dos Vales do Rio Doce e Mucuri, no Jequitinhonha e Norte, e ocorrências esporádicas de municípios positivos nas demais regiões. Em 1990 mantém-se a área contígua nos Vales do Rio Doce e Mucuri e expande-se na região Norte. As demais regiões apresentam municípios positivos distribuídos aleatoriamente e de forma esporádica. No ano de 1991 expande-se de forma contígua na região Norte. Pequenas áreas de contíguas aparecem nas regiões dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce e no Sul/Sudoeste.

Em 1992 a raiva aparece em pequenas áreas contíguas nas microrregiões de Furnas, Formiga, Campos da Mantiqueira e Alto Rio Grande e em áreas contíguas nas microrregiões do Médio Rio das Velhas, Montes Claros e Januária. De 1993 a 1997 verifica-se aumento significativo de municípios positivos e aparecimento de manchas bem mais intensas do que nos anos anteriores em diversas áreas do Estado. Em 1993 notam-se pequenas áreas contíguas no Centro/Sul de Minas, Zona da Mata e Vale do Mucuri e grandes áreas contíguas desde as microrregiões de Januária, Montes Claros, Médio Rio das Velhas até a região Metalúrgica. Em 1994 a área de ocorrências diminui nas microrregiões de Januária e Montes Claros, mas atinge o Alto Médio São Francisco e mantém-se na região Metalúrgica. Ainda nesse ano ocorre aumento de áreas contíguas nas regiões da Zona da Mata, Campo das Vertentes e Sul/Sudoeste do Estado. Em 1995 verifica-se significativa redução espacial da raiva na região Norte e aumento desde o Médio Rio das Velhas, Metalúrgica, Campos das Vertentes até o Sul/Sudoeste e Zona da Mata. Nos anos de 1996 e 1997 a difusão da raiva bovina ocorre em todas as regiões do Estado, com manchas bem mais intensas do que nos anos anteriores, desde o Sul/Sudoeste de Minas até a região Noroeste do Estado. Nesse período chama a atenção o baixo número de municípios positivos para raiva bovina no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.

Dessa análise pode-se notar difusão homogênea da raiva a partir de 1980 por quase todas as regiões do Estado em forma de mosaico. Ocorre também a presença da doença em extensas áreas, configurando-se quase como conglomerados espaciais da raiva, ou seja, incorporando-se, mantendo-se e propagando-se com maior intensidade, especialmente após o ano de 1993. Manchas contíguas em diversas áreas do Estado mostram esse aspecto.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

O aumento crescente de exames de raiva bovina realizados pelos órgãos oficiais do Estado desde 1976 deve-se, possivelmente, ao aumento de casos clínicos suspeitos da doença, ao maior contingente de veterinários em atividade no Estado e até mesmo pela facilidade do diagnóstico após ter sido implementado pelo Serviço de Saúde Animal (SANI), em 1987. Também teve interferência no aumento de exames o programa de controle desenvolvido a partir de 1992 pelo atual Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), com base no diagnóstico, na vacinação bovina e na captura e tratamento com pasta anticoagulante de morcegos hematófagos.

Mesmo com o aumento substancial de exames enviados para diagnóstico, não se pode deixar de considerar que esse número ainda é pequeno, pois é rotina o envio de amostras de apenas alguns espécimes para diagnóstico e não a remessa de amostras de todos os bovinos mortos nas propriedades e que apresentavam sintomas semelhantes aos dos já diagnosticados. Isto já foi assinalado por Luz (1988) e Silva (1993). Dessa forma, a subnotificação tornou-se institucionalizada, o que dificulta uma análise mais precisa da situação epidemiológica da doença, especialmente quanto às perdas do número de bovinos.

Segundo Valente & Amaral (1972), cada caso com diagnóstico de raiva implica na existência, em média, de seis animais mortos pela doença. Considerando-se essa relação infere-se que em Minas Gerais, no ano de 1997, o número real de casos seria de 4000 bovinos com raiva, conforme dados da Tab. 2, o que representaria prejuízos da ordem de dois milhões de reais/ano, levando-se em conta apenas o valor de abate.

A quase equivalência de diagnósticos positivos e negativos, 50,5% e 49,5%, indica que outras doenças de sinais clínicos semelhantes estão ocorrendo no Estado, o que remete à necessidade de melhor infra-estrutura nos laboratórios para elucidar diagnósticos diferenciais de outras encefalites por intoxicações, viroses, bacterioses e protozooses.

A tendência crescente do número de diagnósticos e de municípios positivos reflete uma expansão temporal e espacial da raiva bovina no Estado, sem desconhecer que esses aumentos podem, também, ser creditados provavelmente à estruturação de programas institucionais de combate à doença, bem como a melhoria das notificações concomitantes à alocação de veterinários junto aos centros regionais de saúde, com maior integração de trabalho junto ao IMA e ao DCZ, ao longo do período em estudo.

Essa tendência crescente é superior a encontrada por Luz (1988) em Minas Gerais, e difere de Arellano-Sota (1988) e de Tadei et al. (1991) que relatam importante redução do número de casos de raiva bovina no Brasil e no Estado de São Paulo, respectivamente, devida às medidas de controle implementadas. Entretanto, deve ser levado em conta os períodos temporais de análise e os recursos humanos e financeiros alocados por conta do erário de cada estado.

Com relação a sazonalidade da raiva bovina, observou-se alta de diagnósticos positivos nos meses de abril a agosto e baixa nos meses de setembro a março. Essa concentração estacional de diagnóstico também foi constatado por Luz (1988) em Minas Gerais, e por Tadei et al. (1991) em São Paulo.

Delpietro & Russo (1996), na Argentina, relatam que a raiva bovina se apresenta ao longo de todo o ano sem evidenciar estacionalidade nem relação com o regime de chuvas. Isto se deve a que o morcego hematófago se mantém ativo sexualmente em seu habitat. Alencar (1977) apontou a reprodução de morcegos hematófagos durante todo o ano no nordeste do Brasil.

O maior número de diagnósticos positivos de raiva na estação seca sugere a necessidade de estudos mais aprofundados entre clima e ocorrência de raiva no Estado de Minas Gerais.

O mapeamento da presença/ausência da doença no município reflete o fenômeno raiva em função da rotina de serem enviados ao laboratório apenas alguns espécimes para diagnóstico e da existência pouco provável de surtos não registrados, pois devido à alta mortalidade da doença, os pecuaristas notificam-na o quanto antes para que se iniciem as medidas de controle.

O pequeno número de municípios nos quais registraram-se casos positivos até 1981, embora distribuídos em quase todas as regiões, possivelmente se deve à ocorrência da doença em forma esporádica ou até mesmo desmotivação dos veterinários em encaminhar material para exame devido a falta de uma estrutura de diagnóstico laboratorial. Isto ocorria porque naquele período o combate à febre aftosa era a prioridade maior do Instituto Estadual de Saúde Animal.

Em 1982 a raiva aparece em municípios de regiões ainda não positivas e, assim, expande-se por todo o Estado. O aumento de municípios com a presença de raiva a partir de 1982, bem como o aparecimento de áreas positivas mais bem definidas, coincidem com os surtos de raiva em bovinos nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e com a estruturação do IESA para o controle da raiva dos herbívoros. Nesse período houve treinamento específico de seus veterinários e auxiliares, e o uso do Centro de Profilaxia da Raiva da Prefeitura de Belo Horizonte para seu diagnóstico, conforme relatos do Instituto... (1986) e de Lobato (1986), até a implantação do laboratório de saúde animal pelo SANI em 1987.

O significativo aumento de municípios com presença de raiva e suas respectivas manchas mais definidas em diversas áreas do Estado, principalmente a partir de 1993, provavelmente se deve à expansão da doença e da implementação de ações contra a raiva dos herbívoros pelo recém-estruturado Instituto Mineiro de Agropecuária, através da melhoria das condições para diagnóstico.

A expansão da raiva bovina, com 75% dos municípios já atingidos pela doença, mostra a existência da atividade viral praticamente em quase todo o Estado. Isto representa perigo constante de manifestação da doença, considerando-se a população de bovinos, suínos e eqüídeos do Estado, as quais propiciam a presença de morcegos hematófagos em todas as regiões.

Os espaços em que a raiva se difunde em forma de mosaico e/ou de manchas contíguas como conglomerados ocorrem ao longo do período analisado, configurando-se como modalidades epidemiológicas diferenciadas de raiva, caracterizando-se em áreas esporádicas, endêmicas e até epidêmicas. Essas características da doença coincidem com as observações de Delpietro & Russo (1996) na Argentina.

Assim, a visualização espaço-temporal pode indicar se a raiva aparece de forma esporádica ou como frente epidêmica, em decorrência de estar presente em áreas definidas e de pequena extensão ou em áreas em forma contígua ou sucessiva, cobrindo uma ampla extensão geográfica, fato também assinalado por Delpietro & Russo (1996).

Os registros anteriores da raiva bovina em Minas Gerais (Melo et al., 1948; Boletim..., 1972a,b; 1975) não mostraram ampla difusão. Neste trabalho, verifica-se que em seis anos, a partir de 1976, a doença difunde-se rapidamente, aparecendo em vários municípios contíguos, formando uma frente epidêmica que continua avançando no Estado. Essa configuração espacial parece com as características de frente epidêmica relatada por Delpietro & Russo (1996) na Argentina.

Pela análise da distribuição espacial consegue-se notar a regularidade da presença da raiva nos municípios de Minas Gerais, com maior ou menor intensidade nas diferentes regiões. As condições climáticas favoráveis, a existência de abrigos naturais e artificiais e o efetivo bovino distribuído em todas as regiões propiciam nichos ecológicos adequados ao Desmodus rotundus, o principal morcego hematófago transmissor da doença. Essas condições podem explicar a extensão e a estabilidade endêmica da raiva bovina no Estado.

Deve-se levar em consideração, também, o importante papel que desempenham as espécies de morcegos não hematófagos, as quais freqüentemente coabitam os mesmos abrigos dos hematófagos, como reservatórios do vírus rábico, conforme demonstrado por Delpietro et al. (1969) e Moreira et al. (1996), e por outros autores citados por Silva (1996).

Os momentos observados de redução ou de expansão espacial da raiva bovina possivelmente devem-se às medidas de controle utilizadas e à descontinuidade do ecossistema freqüentemente modificado por ações antrópicas que possibilitam a coexistência de situações epidemiológicas diversas na população de morcegos. Isso pode explicar a evolução intermitente e o alto endemismo da raiva durante o período de 1976-97.

O órgão responsável pela saúde animal em Minas Gerais tentou em vários momentos conter a raiva bovina nas áreas onde se constataram os primeiros focos. Exemplo disso foi o IESA no início da década de 80, com o aparecimento da doença no nordeste do Estado, quando as medidas de vacinação bovina e o combate aos morcegos hematófagos não foram suficientes para impedir que outros municípios fossem atingidos, conforme relatado por Lobato (1986) e comprovado pelo mapeamento do presente estudo. Deve-se levar em conta que as medidas de combate apresentaram solução de continuidade e pouca persistência.

A estratégia de ação centrada no foco e áreas periféricas demonstra ser necessário estender o combate a outras partes dos municípios atingidos, pois a presença do morcego constitui perigo potencial para a difusão da doença, o que pode ser constatado nos trabalhos de Fornes et al. (1974) e Tadei et al. (1991), que verificaram que a migração de uma epidemia pode seguir o fluxo de rios e estradas, e que o vírus encontra-se 20km à frente do último caso notificado.

Assim, entende-se que limitando o combate apenas quando ocorre a raiva bovina não é possível contê-la nos limites dos focos e evitar sua expansão no Estado de Minas Gerais

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Jun 2002
  • Data do Fascículo
    Jun 2001

Histórico

  • Recebido
    05 Mar 2001
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