Inovulações não cirúrgicas e taxa de gestação de receptoras de embrião

Non-surgical inovulations and gestation rate from embryo recipients

Resumos

O presente trabalho foi conduzido no sentido de classificar, quanto a facilidade, inovulações não cirúrgicas, e correlacionar os níveis de classificação com a taxa de gestação das receptoras. Foram usadas 23 vacas e novilhas da raça Limousin como doadoras e 172 novilhas mestiças como receptoras. A classificação foi feita em três níveis, considerando-se a duração, a facilidade de transposição cervical e a manipulação uterina e o local de deposição do embrião. Os resultados mostram que as receptoras que tiveram as inovulações classificadas como "boas" apresentaram melhor taxa de gestação (59%) que aquelas que tiveram seu procedimento classificado como "ruim" (31%). Conclui-se que a dificuldade em se transferir o embrião pelo método não cirúrgico pode afetar a taxa de gestação das receptoras.

Bovino; embrião; inovulação não cirúrgica


This work was developed to classify the feasibility of non-surgical inovulations and to establish the relationship between that classification and the gestation rate of the recipients. Twenty three heifers and cows of Limousin breed were used as donors and 172 crossbreed heifers were used as recipients. Three classification levels were determined, according to the time of procedure, ease of cervix transposition and uterine manipulation facility and the site of embryo deposition. The recipients that have their inovulations classified as "good" showed better gestation rate (59%) than the ones classified as "poor" (31%). It is concluded that the difficulty on embryo inovulation by non-surgical method can decrease the pregnancy rate of recipients.

Bovine; embryo; non-surgical inovulation


Inovulações não cirúrgicas e taxa de gestação de receptoras de embrião

(Non-surgical inovulations and gestation rate from embryo recipients)

C.A.C. Fernandes

Instituto de Ciências Agrárias e Medicina Veterinária – Universidade Federal de Alfenas

Rod. MG 179 km 0

371300-000 – Alfenas, MG

Recebido para publicação, após modificação, em 26 de janeiro de 1999.

RESUMO

O presente trabalho foi conduzido no sentido de classificar, quanto a facilidade, inovulações não cirúrgicas, e correlacionar os níveis de classificação com a taxa de gestação das receptoras. Foram usadas 23 vacas e novilhas da raça Limousin como doadoras e 172 novilhas mestiças como receptoras. A classificação foi feita em três níveis, considerando-se a duração, a facilidade de transposição cervical e a manipulação uterina e o local de deposição do embrião. Os resultados mostram que as receptoras que tiveram as inovulações classificadas como "boas" apresentaram melhor taxa de gestação (59%) que aquelas que tiveram seu procedimento classificado como "ruim" (31%). Conclui-se que a dificuldade em se transferir o embrião pelo método não cirúrgico pode afetar a taxa de gestação das receptoras.

Palavras-Chave: Bovino, embrião, inovulação não cirúrgica

ABSTRACT

This work was developed to classify the feasibility of non-surgical inovulations and to establish the relationship between that classification and the gestation rate of the recipients. Twenty three heifers and cows of Limousin breed were used as donors and 172 crossbreed heifers were used as recipients. Three classification levels were determined, according to the time of procedure, ease of cervix transposition and uterine manipulation facility and the site of embryo deposition. The recipients that have their inovulations classified as "good" showed better gestation rate (59%) than the ones classified as "poor" (31%). It is concluded that the difficulty on embryo inovulation by non-surgical method can decrease the pregnancy rate of recipients.

Keywords: Bovine, embryo, non–surgical inovulation

INTRODUÇÃO

A técnica de transferência de embriões (TE) em bovinos vem se desenvolvendo rapidamente e com ela surgem novas perspectivas para reprodução e do melhoramento animal. Num programa de TE, geralmente, tem-se um cuidado extremado com as doadoras e relega-se as receptoras a um segundo plano (Fernandes, 1994). Porém, um dos principais pontos de estrangulamento na difusão dessa tecnologia diz respeito à taxa de gestação das receptoras. Após a transferência de embriões classificados como morfologicamente viáveis, ou seja, que apresentam apenas pequenas anormalidades estruturais, e que teoricamente teriam condições de continuar o seu desenvolvimento no útero da receptora, a taxa de gestação situa-se em torno dos 55% (Coelho, 1986; Elington et al., 1991; Fernandes & Viana, 1995; Viana, 1996). Com isso, tem-se uma perda de aproximadamente metade dos embriões coletados, o que representa uma elevação substancial no custo de cada produto, influenciando negativamente o produtor no momento de decidir em adotar essa técnica. Além dos aspectos inerentes ao embrião, à mãe e ao ambiente, as variáveis relacionadas ao método de inovulação também são de decisiva importância na taxa de gestação das receptoras (Sreenan & Diskin, 1987).

A taxa de gestação de receptoras após inovulações não cirúrgicas é geralmente inferior quando comparada a inovulações cirúrgicas pelo flanco (Diaz, 1988). A despeito dessa afirmação, a técnica de inovulação não cirúrgica vem ganhando espaço devido à sua rapidez, sua facilidade e ao menor custo, o que pode compensar uma taxa de gestação ligeiramente inferior das receptoras. Segundo Sreenan & Diskin (1987), uma das variáveis que mais interfere nessa diferença é a habilidade do operador. Em inovulações não cirúrgicas, variáveis como tempo necessário para transpor a cérvix, possibilidade de inoculação de microorganismos no lúmen uterino, local de deposição do embrião e grau de lesão interna do útero afetam a taxa de gestação. Além da experiência do operador, essas variáveis podem ser influenciadas pelas características morfológicas da cérvix, pelos cuidados com higiene, pela contenção da receptora no momento da inovulação e pela possibilidade de manipulação uterina durante o processo.

Os objetivos deste trabalho foram analisar e classificar quanto ao grau de facilidade as inovulações não cirúrgicas e verificar a influência das diferentes classes de dificuldade na taxa de gestação das receptoras

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido na empresa Associl Agropecuária Ltda, localizada no município de Platina, SP, no período de janeiro de 1996 a junho de 1997. Foram utilizadas 23 vacas e 172 novilhas da raça Limousin como doadoras e novilhas mestiças holandês-zebu como receptoras. Esses animais foram mantidos em piquetes de capim coast cross, recebendo diariamente suplementação de silagem de milho e ração concentrada. Durante todo o experimento foram feitas pelo menos duas observações diárias de estro, com duração de 30 minutos cada, com o auxílio de um rufião. Todas as receptoras utilizadas apresentavam escore corporal pelo menos regular (escore >3,0 numa escala de 1 a 5), conforme descrito por Fernandes (1994). Com relação à sincronia de estro entre doadora e receptoras, houve a preocupação de descartar as receptoras com assincronia superior a 36 horas.

Os embriões foram colhidos pelo método convencional, sete a oito dias após o estro das doadoras. As estruturas coletadas foram rastreadas com o auxílio de um microscópio estereoscópico, aumento de 10X e, uma vez localizados, transportados para uma solução com phosphate buffer saline (PBS) adicionado de 20% de soro fetal bovino (SFB). Posteriormente, as estruturas obtidas foram classificadas no aumento de 80X quanto a seu estádio de desenvolvimento e qualidade, segundo Lindner & Wright (1983).

Os embriões foram transferidos frescos, por um mesmo operador, pelo método não cirúrgico, utilizando-se de um inovulador modelo francês e de camisa sanitária no momento da transferência, para o corno uterino ipsilateral ao ovário que possuía o corpo lúteo. Foram transferidos embriões com qualidade de 1 a 3 (ótimo a regular), distribuídos aleatoriamente entre as receptoras. No momento da inovulação foi feita anestesia epidural baixa, aplicando-se 6ml de xilocaína a 2% sem vasoconstritor como descrito por Fernandes (1994).

As inovulações foram classificadas em boas, regulares e ruins, levando em consideração as variáveis expressas na Tab. 1.

Não receberam embrião somente aquelas receptoras nas quais não foi possível transpor a cérvix. O diagnóstico de gestação foi feito por palpação retal, 45 dias após a transferência.

As análises estatísticas foram feitas pelo método de c2 (Zar, 1984), sendo comparadas as taxas de gestação dos animais nos diferentes grupos de classificação.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As receptoras que tiveram as inovulações classificadas como "boas" apresentaram melhor taxa de gestação (P<0,05) em relação àquelas classificadas como "ruins" (Tab. 2). Inovulações mais difíceis, nas quais o operador demora mais tempo para realizar o processo de transferência e há mais dificuldade na manipulação do genital devido ao esforço muscular, explicam esse resultado pelo fato de existirem maiores riscos de veiculação de microorganismos ao interior uterino e maior possibilidade de lesão da cérvix e do endométrio, conforme descrito por Sreenan & Diskin (1987).

A taxa de gestação geral ficou abaixo da citada por Seidel & Seidel (1981), Takahashi (1981), Markette et al. (1985), Coelho (1986) e Viana (1996) em inovulações frescas. Porém, na maioria desses trabalhos não foram utilizados embriões de qualidade ‘3’, que estão relacionados a menor taxa de gestação das receptoras (Fernandes & Maestri, 1996).

Nos animais que apresentaram útero de difícil manipulação (maior tônus muscular) podem ter ocorrido dois fatores que influenciaram negativamente os resultados: maior ocorrência de lesões internas (endométrio) pelo aplicador, devido ao relativo enovelamento dos cornos, e maior dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de inovulação no local adequado, o terço final do corno uterino, segundo Diaz (1988).

Além das características inerentes às receptoras, a dificuldade de manipulação uterina e a deposição do embrião no local mais adequado podem ser influenciadas por outras variáveis, como a habilidade do técnico que faz a transferência e a dificuldade de contenção do animal.

Segundo Seidel (1981), o problema de contaminação uterina é maior na inovulação do que na inseminação artificial porque no momento da inovulação o útero está mais susceptível devido aos altos níveis séricos de progesterona, o que não ocorre no momento da inseminação, quando o predomínio é do estradiol. Em inovulações mais demoradas e com maior dificuldade de manipulação o risco de contaminação uterina é maior, o que pode ter contribuído para reduzir a taxa de gestação, devido a proliferação de agentes infecciosos que prejudicam o desenvolvimento embrionário.

A classificação proposta por este trabalho poderia ser utilizada como mais um instrumento de triagem das candidatas a receber embrião. Animais com maior dificuldade de manipulação uterina e de transposição da cérvix deveriam ser preteridos, para que não houvesse interferência na taxa de gestação das receptoras.

CONCLUSÕES

Dificuldades para realizar inovulações não cirúrgicas, representadas pelas dificuldades de transposição da cérvix, de manipulação do útero e de posição do embrião na porção final do corno devem ser consideradas quando da escolha de receptoras. Portanto, recomenda-se selecionar aquelas com melhores condições de transferência com a finalidade de aumentar a taxa de gestação.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Abr 2001
  • Data do Fascículo
    Jun 1999

Histórico

  • Recebido
    26 Jan 1999
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