Uso da terra como determinante da distribuição da raiva bovina em Minas Gerais, Brasil

Use of the land as determinant of the distribution of the bovine rabies in Minas Gerais, Brazil

Resumos

Realizou-se um estudo observacional retrospectivo com o objetivo de avaliar variáveis do uso da terra como determinante da distribuição da raiva bovina em Minas Gerais. Foram analisadas 7.526 fichas de diagnóstico de raiva por imunofluorescência direta, de 1976 a 1997. Utilizaram-se os dados dos Censos Agropecuários de Minas Gerais- FIBGE, anos de 1970, 1985 e 1995-1996. Empregou-se o método da análise fatorial de componentes principais, com auxílio do programa Minitab versão 9.0. A raiva bovina apresentou-se mais associada às lavouras permanentes e temporárias, às pastagens naturais e plantadas e ao efetivo bovino, e menos associada às matas naturais e plantadas, às lavouras em descanso e às terras produtivas não utilizadas. Concluiu-se que as transformações antrópicas no espaço agrário, especialmente no uso da terra, influenciaram de modo determinante a distribuição espacial e temporal da raiva bovina em Minas Gerais.

Raiva bovina; uso da terra; epidemiologia; distribuição espacial


A retrospective observational study was performed to evaluate variables of the use of the land to determine space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State - Brazil, from 1976 to 1997. The analysis of 7526 records for bovine rabies diagnosis used direct immunofluorescence was performed. For analysis of the use of the land the data of the Agricultural Censuses of Minas Gerais - FIBGE, years of 1970, 1985 and 1995-1996 were studied. Factorial analysis of the main components, with the aid of the Minitab Program version 9.0, was used to investigate the behavior of rabies and variables of the use of the land. This disease was more associated to the permanent and temporary crops, natural and artificial pastures, and size of the bovine herds. On the other hand, it was less associated to the artificial and natural forests, resting crop areas or unused productive land. It was concluded that anthropics transformations in agrarian space, especially related to the use of the land had a determinant influence in the space and time distribution of the bovine rabies in Minas Gerais.

Epidemiology; bovine rabies; use of land; space distribution


Uso da terra como determinante da distribuição da raiva bovina em Minas Gerais, Brasil

[Use of the land as determinant of the distribution of the bovine rabies in Minas Gerais, Brazil]

J.A. Silva¹, E.C. Moreira¹, J.P.A. Haddad¹, I.B.M. Sampaio¹, C.M. Modena¹, M.A.S. Tubaldini²

¹Escola de Veterinária da UFMG

Caixa Postal, 567

30123-970 – Belo Horizonte, MG

²Instituto de Geociências da UFMG

Recebido para publicação, após modificações, em 15 de março de 2001.

E-mail: jasilva@vet.ufmg.br

Trabalho realizado com auxilio financeiro da FAPEMIG - CAG 1585/95 e FEPMVZ

RESUMO

Realizou-se um estudo observacional retrospectivo com o objetivo de avaliar variáveis do uso da terra como determinante da distribuição da raiva bovina em Minas Gerais. Foram analisadas 7.526 fichas de diagnóstico de raiva por imunofluorescência direta, de 1976 a 1997. Utilizaram-se os dados dos Censos Agropecuários de Minas Gerais- FIBGE, anos de 1970, 1985 e 1995-1996. Empregou-se o método da análise fatorial de componentes principais, com auxílio do programa Minitab versão 9.0. A raiva bovina apresentou-se mais associada às lavouras permanentes e temporárias, às pastagens naturais e plantadas e ao efetivo bovino, e menos associada às matas naturais e plantadas, às lavouras em descanso e às terras produtivas não utilizadas. Concluiu-se que as transformações antrópicas no espaço agrário, especialmente no uso da terra, influenciaram de modo determinante a distribuição espacial e temporal da raiva bovina em Minas Gerais.

Palavras-chave: Raiva bovina, uso da terra, epidemiologia, distribuição espacial.

ABSTRACT

A retrospective observational study was performed to evaluate variables of the use of the land to determine space and time distribution of bovine rabies in Minas Gerais State – Brazil, from 1976 to 1997. The analysis of 7526 records for bovine rabies diagnosis used direct immunofluorescence was performed. For analysis of the use of the land the data of the Agricultural Censuses of Minas Gerais – FIBGE, years of 1970, 1985 and 1995-1996 were studied. Factorial analysis of the main components, with the aid of the Minitab Program version 9.0, was used to investigate the behavior of rabies and variables of the use of the land. This disease was more associated to the permanent and temporary crops, natural and artificial pastures, and size of the bovine herds. On the other hand, it was less associated to the artificial and natural forests, resting crop areas or unused productive land. It was concluded that anthropics transformations in agrarian space, especially related to the use of the land had a determinant influence in the space and time distribution of the bovine rabies in Minas Gerais.

Key words: Epidemiology, bovine rabies, use of land, space distribution

INTRODUÇÃO

Nas décadas de 10 até 40 a raiva bovina esteve localizada principalmente no litoral brasileiro, possivelmente associada aos processos de ocupação do solo nessa região. A devastação da mata atlântica para aproveitamento de terras mais férteis, a introdução da pecuária bovina e a construção de ferrovias, rodovias, barragens, túneis, cisternas, canalizações de córregos e rios foram fatores que alteraram o nicho ecológico dos morcegos, em especial dos hematófagos. Posteriormente, surtos de raiva bovina ocorreram no interior dos Estados, seguindo, a princípio, a mesma lógica: parecem acompanhar as grandes transformações ambientais geradas pelas atividades mineradora, agrícola e pecuária, dentre outras.

No Brasil, e particularmente em Minas Gerais, nos últimos 30 anos têm-se verificado intensas transformações no ambiente natural, que abrem novas fronteiras agrícolas ou cedem lugar a outros projetos econômicos (Fundação...,1999; Silva, 1999). As transformações nesses espaços possivelmente podem ter provocado na população de morcegos deslocamentos na busca de novos locais de refúgio e contribuído para a sua dispersão em diversos ambientes urbanos e rurais e, conseqüentemente, na ampliação das áreas de risco da raiva bovina.

A epidemiologia da raiva bovina envolve fatores naturais, como o habitat favorável aos morcegos e à circulação do vírus rábico no ciclo silvestre, e fatores sociais, que estabelecem a forma com que o homem desempenha a atividade econômica na natureza. Desse modo, a epidemiologia da raiva bovina pode estar diretamente influenciada por fatores de ordem ambiental desencadeados pelo homem. Portanto, para conhecimento do modelo epidemiológico da raiva bovina, deve-se necessariamente compreender a organização do espaço.

O conhecimento de determinantes econômico-sociais de ocorrência, manutenção e evolução da raiva bovina é de fundamental importância tanto para esclarecer seu comportamento epidemiológico, como para estabelecer medidas mais eficazes de seu combate nas regiões endêmicas.

A literatura científica é escassa em publicações sobre questões sociais, econômicas e geográficas como fatores que estão associados à ocorrência da raiva bovina, fazendo-se necessário conhecer essa correlação em uma área espacial mais abrangente e levando em consideração as transformações ambientais ao longo do tempo (Silva, 1993).

Este trabalho teve como objetivo avaliar a forma de ocupação da terra como um dos fatores determinantes da distribuição espacial da raiva bovina em Minas Gerais.

MATERIAL E MÉTODOS

A área escolhida para a elaboração deste trabalho foi o Estado de Minas Gerais, com 853 municípios e 679 distritos, localizados em 12 mesorregiões e 66 microrregiões.

Os dados referentes à raiva bovina de janeiro de 1976 a dezembro de 1997 foram obtidos dos relatórios mensais dos laboratórios do Instituto Mineiro de Agropecuária-IMA e do Departamento de Controle de Zoonoses-DCZ da Prefeitura de Belo Horizonte, num total de 7526 registros de diagnósticos.

Para análise do uso da terra em Minas Gerais foi elaborado um banco de dados, utilizando-se a planilha eletrônica Excel – versão 97, com os dados agregados de cada município, obtidos nos Censos Agropecuários de Minas Gerais, realizados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística nos anos de 1970, 1985 e 1995-1996 (Censo..., 1970, 1985, 1995-1996). As variáveis trabalhadas por município foram lavouras permanentes e temporárias, pastagens naturais e plantadas, matas naturais e plantadas, lavouras em descanso, áreas de terras produtivas não utilizadas e efetivo bovino.

Para responder as questões ligadas à distribuição da raiva bovina no período de 1976-97 estruturou-se o banco de dados com recurso ao "software" EPIINFO, segundo Dean et al. (1995). As informações trabalhadas nessa série temporal foram número de diagnósticos de raiva em bovinos por ano e mês e municípios atingidos pela doença, conforme Silva (1999, 2001).

Para consolidação das informações da raiva bovina e variáveis do uso da terra e efetivo bovino em um único banco de dados tomou-se 1970 como ano base de estudo, utilizando-se a base cartográfica elaborada pelo Base... (1994), constituída de 723 municípios. Assim, adotou-se a metodologia que consiste em acrescentar àqueles municípios todos os dados dos que foram desmembrados, emancipados e que mudaram de nome após aquela data, conforme fonte de consulta Instituto... (1997).

O estudo das variáveis baseou-se na teoria de ecossistemas de doenças transmissíveis, modificações econômicas e modalidades de organização da produção pecuária, segundo Rosenberg (1986) e Astudillo et al. (1990). As variáveis consideradas foram selecionadas, em parte, com base nos autores citados e em Tubaldini (1992) e Silva (1993). Dessa forma, considerou-se a raiva bovina como a variável explicada e o efetivo bovino e a organização espacial do uso da terra como as variáveis explicativas.

Para análise do comportamento da raiva bovina e das variáveis do uso da terra e efetivo bovino em diferentes períodos considerados empregou-se o método da análise fatorial de componentes principais, descrita por Judez (1989) e utilizado por Sampaio (1993) e Haddad (1997), com auxilio do programa Minitab versão 9.0, Copyright Minitab, Inc. 1986 versão 1992. Essa técnica permite visualizar graficamente as variáveis no mesmo plano dimensional e estabelecer as eventuais relações entre elas.

Para percepção dos fatores estudados e suas eventuais modificações nos momentos históricos analisaram-se dois períodos distintos, censos de 1985 e 1995-1996, e o conjunto desses dois universos. Dessa forma, a análise fatorial de componentes principais compreendeu três universos de dados: primeiro a raiva bovina de 1976 a 1985 e os dados do censo de 1985 para as variáveis do uso da terra e efetivo bovino; segundo a raiva bovina de 1986 a 1997 e os dados do censo de 1995-1996 para as variáveis do uso da terra e efetivo bovino; e terceiro a raiva bovina de 1976 a 1997 e os dados dos censos de 1985 e 1995-1996 para as variáveis do uso da terra e efetivo bovino.

RESULTADOS

Na Tab. 1 são apresentados os valores de somatória, média e desvio-padrão das variáveis de uso da terra e efetivo bovino em Minas Gerais, em 1985 e 1995, que compõem a análise fatorial de componentes principais.

Nas Tab. 2, 3 e 4 são apresentados os resultados da análise fatorial de componentes principais para os distintos períodos. Verifica-se que nos três períodos obteve-se mais de 70% de inércia total nos três primeiros eixos, ou seja, à qual cada componente principal contribuiu aditivamente. Cada componente com todas as variáveis e respectivos percentuais mostram aquelas que assumem o seu poder explicativo.

As Fig. 1, 2 e 3 apresentam graficamente a raiva, as variáveis do uso da terra e o efetivo bovino nos eixos elegidos (dois a dois).

Na Fig. 1 observa-se, de modo geral, maior associação entre a raiva e as variáveis lavouras permanentes e temporárias, pastagens naturais e plantadas e efetivo bovino, e menor associação entre a raiva e matas naturais e plantadas, lavouras em descanso e terras produtivas não utilizadas. Observa-se ainda que lavoura permanente é a variável que está mais associada à raiva. Na Fig. 2 nota-se uma modificação da raiva em relação as variáveis. No entanto, de modo geral, continua o mesmo conjunto de variáveis associadas entre si e, ainda, permanece a lavoura permanente como principal associada à raiva, visualizada no eixo CP1 x CP2. Na Fig. 3 verifica-se o mesmo comportamento da raiva e das variáveis ocorrido no primeiro período. Também, estão as mesmas variáveis agrupadas entre si e a lavoura permanente continua sendo a principal variável correlacionada à raiva bovina.

DISCUSSÃO

Os resultados do período 1976-1985 demonstram que a raiva bovina esteve mais associada com as lavouras permanentes e temporárias, pastagens naturais e plantadas e efetivo bovino, e menos associada com matas naturais e plantadas, lavouras em descanso e terras produtivas não utilizadas. Isso se deu em decorrência das profundas alterações ambientais que se processaram neste período histórico. Trabalho realizado com o mesmo material deste estudo (Silva, 2001) mostrou que a raiva bovina caracterizou-se por ocorrências esporádicas e endêmicas de 1976 a 1982, em municípios de todas as regiões de Minas Gerais, e esporádicas, endêmicas e epidêmicas de 1983 a 1985, predominantemente em municípios positivos nas regiões Metalúrgica, Rio Doce, Mucuri e Jequitinhonha.

Pelo estudo da Fundação... (1999) e segundo Silva (1999), as alterações que ocorreram no uso da terra e efetivo bovino de 1970 a 1985, em termos de aumento de lavouras permanentes nos municípios das regiões Sul/Sudoeste, Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Zona da Mata, Rio Doce e Jequitinhonha, de aumento de lavouras temporárias nos municípios das regiões Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Sul/Sudoeste, Campo das Vertentes, Zona da Mata, Rio Doce, Jequitinhonha, Norte e Noroeste de Minas e, também, de diminuição da área de pastagens naturais em decorrência da ampliação de lavouras, pela incorporação de áreas do cerrado pelos programas implementados, de aumento de pastagens plantadas nos municípios das regiões do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Sul/Sudoeste, Noroeste, Norte e Jequitinhonha, e de aumento significativo do efetivo bovino, podem explicar a maior associação com a raiva bovina.

A configuração espacial da raiva bovina, em forma de frente epidêmica a partir de 1983, nos municípios das regiões Metalúrgica, Rio Doce, Mucuri e Jequitinhonha pode ser explicada pelas grandes alterações ambientais no espaço agrário, pela incorporação de áreas pelos projetos ali implantados, tais como o PRRC, Pró-Álcool, Fiset-Reflorestamento e BID-205 (Fundação..., 1999).

Para o período 1986-1997, modifica-se a relação entre a raiva e as variáveis, mas continua o mesmo conjunto de variáveis até 1985 associadas entre si, ou seja, o de dois grupos um mais associado à raiva e o outro menos. Nesse período, com características mais intensas, segundo Silva (1999), a raiva bovina continua com a configuração espacial em forma de frente epidêmica, que se expande aos municípios das regiões Metalúrgica, Rio Doce, Mucuri e Jequitinhonha para os da região Norte, onde avança, mantém-se por longo período e atinge a região Noroeste e, novamente, a Metalúrgica até encontrar-se com outra frente epidêmica oriunda dos municípios das regiões Sul/Sudoeste e Zona da Mata. Ainda neste período, concomitante às frentes epidêmicas, visualizam-se ocorrências esporádicas e endêmicas e até mesmo diminuição e desaparecimento da raiva bovina em determinadas áreas do espaço mineiro.

Segundo Silva (1999), essa modificação da raiva pode ser devido às alterações que se verificaram no uso da terra de 1985 para 1995, mas com significativa alteração espacial, concentrando-se nas áreas contíguas desde as regiões Zona da Mata, Campo das Vertentes, Sul/Sudoeste, Triângulo/Alto Paranaíba até a região Noroeste de Minas, que se consolidaram como as principais regiões produtoras de "commodities", com características tipicamente empresarial, em função dos programas e projetos de ocupação do cerrado, tais como POLOCENTRO, PRODECER, PADAP, PLANOROESTE, PCI, PDRI, PRODEMATA e PROVARZEAS (Nabuco & Lemos, 1988; Banco..., 1989; Fundação..., 1999). A modificação da raiva deve-se, também, à diminuição significativa de pastagens naturais e à intensa expansão de pastagens plantadas naquelas mesmas regiões do período de 1985, fruto dos planos implantados que propiciaram a capitalização dessas determinadas regiões. Essas alterações, efetuadas pela incorporação de novas áreas e uso de mecanização, da manutenção do efetivo bovino, além da ampliação e dos caminhos percorridos pela frente epidêmica da raiva bovina, explicam a modificação da doença no período de 1986 a 1997.

Com relação a raiva bovina de 1976 a 1997, uso da terra e efetivo bovino em 1985 e 1995, os resultados mostram o mesmo comportamento da raiva bovina de 1976 a 1985, e as variáveis do uso da terra e efetivo bovino em 1985.

Ao considerar os três momentos distintos observa-se que no primeiro período ocorreram modificações no uso da terra e menor ocorrência da raiva e no segundo período, a questão do aumento da propagação da raiva praticamente mascara as relações das variáveis, pois 2/3 dos municípios são positivos quanto à presença/ausência da raiva (Silva, 2001), visto que a simples medida qualitativa (sim/não) não foi capaz de modificar tais relações. Necessita-se, assim, de não só uma variável qualitativa mas de algum fator que mensurasse a raiva no município como, por exemplo, o número de casos e a taxa de incidência; no período completo, os dois momentos juntos conseguem explicar bem melhor a correlação da raiva bovina com as variáveis de uso da terra e efetivo bovino, porque não é acobertado pelo excesso de municípios com presença de raiva.

Dessa forma, a constatação de que a raiva bovina em Minas Gerais está associada às transformações ambientais está de acordo com as observações de Luz (1988), Germano et al. (1992) e Silva (1993).

Essas transformações antrópicas modificam profundamente o ecossistema e ocasionam sérios problemas à sobrevivência de várias espécies nativas. Dentre essas espécies, os quirópteros tiveram o comportamento alterado por alteração do ecossistema, dispersando e apresentando grande adaptação aos abrigos artificiais e à alimentação. No caso dos morcegos hematófagos, devido à diminuição de animais silvestres, eles adaptaram-se a novos hospedeiros, em especial aos bovinos .

O aparecimento da raiva em bovinos vem sendo citado em trabalhos de Málaga Alba (1954), Constantine (1962), Greenhall (1965) e Silva (1993) como reflexos das alterações ambientais promovidas pelo homem na América Latina, a partir de sua colonização. Exemplos desse fato foram os surtos de raiva bovina registrados por Carini (1911), em Santa Catarina, e por Carneiro & Freitas Lima (1927), no Paraná, influenciados pelo desbravamento da Mata Atlântica, e por Souza (1929), no Mato Grosso, influenciado pelo extrativismo do ouro em Poconé, Santo Antônio do Leverger e Cuiabá.

Em Minas Gerais, a concentração de bovinos associado à substituição de matas naturais, em especial à de cerrado, por grandes extensões de pastagens, propicia alimentação às colônias de morcegos hematófagos, abundante e de fácil acesso, conseqüentemente favorecendo a transmissão da raiva entre as diversas espécies de quirópteros. Também, essas profundas alterações do ambiente, como devastação do cerrado, implicam no deslocamento dos morcegos não hematófagos em decorrência da destruição dos abrigos naturais e dos alimentos e, provavelmente, eles passam a coabitar os mesmos abrigos dos hematófagos, em busca de alimentos nas áreas incorporadas, a exemplo das lavouras e pastagens, onde ocorrem maior presença de insetos, frutos e pequenos roedores. Essa hipótese é referendada pela maior associação da raiva bovina e lavouras permanentes em todos os períodos analisados neste trabalho. Isso pode ser explicado pela maior freqüência dos morcegos não hematófagos, que ampliam a área de risco para a raiva bovina, pois desempenham papel fundamental na manutenção do vírus rábico na natureza (Rosatte, 1988; Germano et al., 1992; Silva, 1996; Moreira et al., 1996).

A substituição das matas naturais por lavouras e pastagens e a construção de uma grande diversidade de estruturas como habitações, túneis, minas, fornos para carvão, pontes e bueiros sob rodovias, que são proporcionadas, também, pelos projetos de desenvolvimento agropecuário, imprimem profundas mudanças ecológicas e sócio-econômicas. Essas mudanças propiciam o aumento progressivo na oferta de abrigos, o que favorece o estabelecimento, reprodução e dispersão dos quirópteros. Isso, possivelmente, interfere para uma maior expansão da raiva bovina no espaço mineiro, o que está de acordo com as afirmações de Laurell (1976, 1982) e Pessoa (1978).

A menor associação da raiva bovina com matas naturais, matas plantadas, lavouras em descanso e terras produtivas não utilizadas pode ser, no caso das matas naturais devido a manutenção do nicho ecológico dos quirópteros, devida à presença de espécies nativas, que proporcionam abrigos e alimentos, evitando, assim, maior deslocamento e ataque dos morcegos hematófagos aos bovinos. Quanto às matas plantadas, pode ser explicada pela própria organização desse espaço, constituído de árvores, principalmente de Eucalyptus sp e de Pinnus sp, pouco adequadas à existência de animais tropicais diminuindo a oferta de alimento e abrigo. A menor associação da raiva bovina com as lavouras em descanso e terras produtivas não utilizadas, provavelmente deve-se a menor intervenção antrópica nessas áreas, como a introdução temporária de bovinos, onde o rompimento da harmonia biológica se dá em menor grau, dando tempo para a própria natureza corrigir os desequilíbrios ecológicos, mantendo o nicho ecológico dos morcegos.

CONCLUSÕES

O uso da terra é um fator determinante da distribuição temporal e espacial da raiva bovina em Minas Gerais. Existe maior associação entre a ocorrência da raiva bovina em Minas Gerais com o efetivo bovino, áreas de lavouras permanentes e temporárias e pastagens naturais e plantadas. As áreas de matas naturais e plantadas, lavouras em descanso e terras produtivas não utilizadas apresentam menor associação com a ocorrência e distribuição espacial da raiva bovina em Minas Gerais. Assim, há necessidade de elaboração de um programa de combate que considere essas áreas diferenciadas de risco.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Jun 2002
  • Data do Fascículo
    Jun 2001

Histórico

  • Recebido
    15 Mar 2001
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