Quimioprofilaxia da babesiose bovina com diidroxitetraciclina de longa duração

Chemoprophylaxis of bovine babesiosis with long-acting diidroxytetracycline

M.F.B. Ribeiro E.J. Facury Filho L.M.F. Passos H.M. Saturnino M. Malaco Sobre os autores

Resumos

A ação da diidroxitetraciclina de longa duração foi testada em bezerros experimentalmente inoculados com Babesia bigemina e em desafio natural em área endêmica. Em uma propriedade de gado de leite, 18 bezerros foram inoculados com 10(8) hemácias parasitadas por B. bigemina. Dez animais foram tratados com 20 mg/kg de diidroxitetraciclina de longa ação, sete dias após o inóculo, e oito foram deixados como controle. Todos os animais do grupo controle e apenas três dos tratados apresentaram parasitemia, sendo que dois já estavam infestados no dia do tratamento. Em um segundo experimento, dez bezerros receberam dois tratamentos de 20 mg/kg de diidroxitetraciclina de longa ação aos 15 e 36 dias após serem liberados em piquetes e oito bezerros foram deixados como testemunhas. Os animais do grupo tratado apresentaram aumento significativo do período pré-patente e menor redução do volume globular, em relação aos do grupo controle.

Bezerro; babesiose; Babesia bigemina; quimioprofilaxia; diidroxitetraciclina


The action of the long-acting diidroxytetracycline was tested in calves experimentally inoculated with Babesia bigemina and naturally challenged in an endemic area. In a dairy herd, 18 calves were inoculated with a dose of 10(8) infected erythrocytes. Ten animals were treated with long-acting diidroxytetracycline (20 mg/kg), seven days after the inoculum, and eight animals were kept as control. All control and only three treated animals presented parasitemia, from which two animals were already positive when the treatment started. In a second experiment, ten calves received two treatments of diidroxytetracycline (20mg/kg) on days 15 and 36 after being transferred to a small paddock, and eight calves were kept as control. The animals from the treated group presented a significant increase of the pre-patent period and a smaller reduction on packed cell volume in relation to those of the control group.

Calf; babesiosis; Babesia bigemina; chemoprophylaxis; diidroxitetracycline


Quimioprofilaxia da babesiose bovina com diidroxitetraciclina de longa duração

[Chemoprophylaxis of bovine babesiosis with long-acting diidroxytetracycline]

M.F.B. Ribeiro1, E.J. Facury Filho2, L.M.F. Passos2, H.M. Saturnino2, M. Malaco3

1Instituto de Ciências Biológicas da UFMG Caixa Postal 486

31270-910 - Belo Horizonte, MG.

2Escola de Veterinária da UFMG

3Médico Veterinário

E-mail: muciobr@icb.ufmg.br

RESUMO

A ação da diidroxitetraciclina de longa duração foi testada em bezerros experimentalmente inoculados com Babesia bigemina e em desafio natural em área endêmica. Em uma propriedade de gado de leite, 18 bezerros foram inoculados com 108 hemácias parasitadas por B. bigemina. Dez animais foram tratados com 20 mg/kg de diidroxitetraciclina de longa ação, sete dias após o inóculo, e oito foram deixados como controle. Todos os animais do grupo controle e apenas três dos tratados apresentaram parasitemia, sendo que dois já estavam infestados no dia do tratamento. Em um segundo experimento, dez bezerros receberam dois tratamentos de 20 mg/kg de diidroxitetraciclina de longa ação aos 15 e 36 dias após serem liberados em piquetes e oito bezerros foram deixados como testemunhas. Os animais do grupo tratado apresentaram aumento significativo do período pré-patente e menor redução do volume globular, em relação aos do grupo controle.

Palavras-chave: Bezerro, babesiose, Babesia bigemina, quimioprofilaxia, diidroxitetraciclina

ABSTRACT

The action of the long-acting diidroxytetracycline was tested in calves experimentally inoculated with Babesia bigemina and naturally challenged in an endemic area. In a dairy herd, 18 calves were inoculated with a dose of 108 infected erythrocytes. Ten animals were treated with long-acting diidroxytetracycline (20 mg/kg), seven days after the inoculum, and eight animals were kept as control. All control and only three treated animals presented parasitemia, from which two animals were already positive when the treatment started. In a second experiment, ten calves received two treatments of diidroxytetracycline (20mg/kg) on days 15 and 36 after being transferred to a small paddock, and eight calves were kept as control. The animals from the treated group presented a significant increase of the pre-patent period and a smaller reduction on packed cell volume in relation to those of the control group.

Keywords: Calf, babesiosis, Babesia bigemina, chemoprophylaxis, diidroxitetracycline

A babesiose é causada por protozoários do gênero Babesia, que parasitam animais domésticos e silvestre (Levine, 1988). A babesiose bovina é causada por Babesia bigemina e B. bovis, apresentando alta freqüência nas regiões fisiográficas compreendidas entre os paralelos 32ºS e 42ºN, coincidindo com a distribuição do carrapato vetor, Boophilus microplus (Ristic, 1968). A babesiose bovina tem sido apontada como um dos maiores problemas sanitários dos rebanhos bovinos dos países tropicais (McCosker, 1981), podendo provocar redução de 23 a 45% no ganho de peso dos animais (Solari et al., 1992).

Em área endêmica com estabilidade para babesiose, os animais são expostos aos vetores nos primeiros dias de idade, quando ainda estão sob a proteção da imunidade passiva e de outros fatores responsáveis pela resistência natural contra o protozoário. Nessas condições, os animais geralmente apresentam alta morbidade com infecção subclínica, baixa parasitemia e curto período de patência, mas apresentam redução do volume globular, sendo comumente observados bezerros anêmicos e sujeitos a infecções intercorrentes. Entretanto, determinadas propriedades adotam sistema de criação nos quais os recém-nascidos têm pouco ou nenhum contato com os carrapatos nos primeiros meses de vida e, ao serem liberados nos pastos, podem apresentar sintomatologia clínica de babesiose.

Nesses casos, medidas de controle como a quimioprofilaxia, a premunição ou a vacinação com agentes atenuados são utilizadas para evitar perdas econômicas decorrentes dessa parasitose. Inóculos contendo amostras atenuadas de Babesia bigemina têm sido utilizados (Arteche, 1992) mas, por serem conservadas em nitrogênio liquido, há dificuldades de consegui-los em diversas regiões, dificultando sua utilização em larga escala. Além disso, animais inoculados com cepas atenuadas podem apresentar manifestações clínicas, sendo necessário tratamento químico para evitar perdas (Payne et al., 1990).

A quimioprofilaxia desponta como medida viável, entretanto sua aplicação exige conhecimento da epidemiologia da babesiose. Os produtos mais utilizados são à base de aceturato de diaminazina e imidocarb (FAO, 1988).

O emprego quimioprofilático da tetraciclina em B. bigemina foi descrito por Purnell (1984) ao observar que inoculações semanais, durante quatro semanas, protegiam bovinos submetidos a desafio de campo. Entretanto, esse esquema é pouco prático e antieconômico. Outros trabalhos que utilizaram tetraciclina contra Babesia foram descritos por Pipano et al. (1985), Taylor et al. (1986), Purnell et al. (1989), Markovics et al. (1991) e Frank et al. (1991).

Os objetivos deste trabalho foram verificar a eficiência do diidroxitetraciclina-LA (Tetradur LA-300, Merial) no tratamento de bezerros experimentalmente inoculados com Babesia bigemina e testar um esquema de quimioprofilaxia com esse produto, em uma propriedade com ocorrência de babesiose clínica com mortalidade.

No experimento 1 foram utilizados 18 bezerros da raça Holandesa, machos, provenientes de propriedade com estabilidade enzoótica para Babesia sp. Os animais foram mantidos em instalações com piso de cimento logo após o nascimento até o término do experimento. Eles receberam colostro nos dois primeiros dias de vida e posteriormente quatro litros diários de leite em pó dissolvidos em água a 37ºC (150g/l), mais ração e água à vontade. Todos os animais apresentavam no início do experimento títulos

B. bigemina

Entre 7 e 14 dias de vida eles foram infectados artificialmente com 5´108 hemácias parasitadas de B. bigemina (amostra UFV), por via intravenosa, criopreservadas em DMSO. Sete dias após a inoculação, 10 bezerros foram tratados com diidroxitetraciclina-LA, na dosagem de 20 mg/kg e oito foram mantidos como controle.

Os animais foram acompanhados diariamente e as seguintes características foram observadas: temperatura do corpo, pesquisa direta do parasita em esfregaços de sangue e determinação do volume globular (VG), até o 20o dia após a inoculação.

No experimento 2 foram utilizadas 18 bezerras da raça Holandesa, as quais permaneceram com as mães por dois dias sendo depois transferidas para bezerreiros individuais, onde permaneceram até 30 dias de idade. Os animais receberam quatro litros de leite por dia e ração à vontade. O desaleitamento foi realizado aos 30 dias. Posteriormente foram transferidas para bezerreiro coletivo, com acesso restrito a piquetes de Brachiaria decumbens, duas vezes por semana, onde permaneceram até 90 dias de idade. Nesse período recebiam ração, feno e água à vontade. Posteriormente foram soltos definitivamente em piquetes. Todos os animais apresentaram no início do experimento títulos

B. bigemina

Dez bezerros foram tratados com diidroxitetraciclina LA, na dosagem de 20 mg/kg aos 45 e 66 dias de idade e oito foram mantidos como controle.

Semanalmente foram colhidas amostras de sangue com anticoagulante para realizar a pesquisa direta do parasita em esfregaços de sangue corados e para determinação do VG até 210 dias de idade.

Utilizou-se o teste t de Student para comparar médias entre tratamentos nos dois experimentos, conforme descrito por Sampaio (1998).

No experimento 1, de infecção artificial, em ambos os grupos a parasitemia de B. bigemina foi detectada a partir do sétimo dia pós-inoculação (DPI) .

No grupo controle 87,5% dos bezerros apresentaram parasitemia de B. bigemina no período de 7 a 12 DPI (=7,17

Fig. 1
Fig. 1

Nos animais do grupo tratado com diidroxitetraciclina -LA apenas 30,0% (3 em 10) dos animais apresentaram parasitemia por B. bigemina, sendo que dois deles apresentaram hemácias parasitadas no sétimo DPI, quando foram medicados. A parasitemia variou de 0,10 a 0,50% (=0,20

Durante o experimento, quatro animais do grupo controle (50,0%) e um (10%) do grupo tratado apresentaram diarréia.

No experimento 2, os animais do grupo controle apresentaram parasitemia de B. bigemina entre 30 e 150 dias de idade (=77,0± 31,6). Dos 10 bezerros que receberam dois tratamentos de oxitetraciclina, sete (70%) apresentaram parasitemia entre 90 e 150 dias, com período de pré-patência médio de 132,3± 44,1 dias (Fig.2). O período de pré-patência nos animais tratados foi significativamente maior (P<0,05) que o dos animais do grupo controle.


O VG médio dos bezerros do grupo controle mostrou redução significativa (P<0,05) aos 42 dias de idade, retornando aos níveis normais aos 77 dias. Os animais, em geral, apresentaram VG abaixo dos níveis normais durante três semanas. Quanto ao VG médio dos bezerros tratados com oxitetraciclina, houve redução aos 147 dias de idade, entretanto os valores retornaram ao normal em uma semana (Fig. 3).


O experimento 1 foi realizado em condições semelhantes às que ocorrem em área endêmica estável para babesiose bovina, onde os animais se infectam nos primeiros dias de vida. O inóculo foi eficiente, provocando infecção em 87,5% dos animais do grupo controle. Como nos casos naturais, a parasitemia foi baixa, mas com acentuada redução do VG. No grupo tratado constatou-se que a oxitetraciclina-LA exerceu forte atividade babesicida, pois ao ser aplicada no período pré-patente foi capaz de suprimir a parasitemia de B. bigemina nos animais. Como conseqüência, apenas moderadas alterações de temperatura e VG foram observadas. Ação semelhante da oxitetraciclina já foi descrita para B. bigemina (Markovics et al., 1991), B. bovis (Pipano et al., 1988), B. divergens (Taylor et al., 1986). Kuttler (1981) observou que bezerros tratados pela via oral com clortetraciclina eram refratários à inoculação de B. bigemina mas a droga não teve efeito na infecção já estabelecida. Neste experimento, entretanto, dois bezerros experimentalmente infectados receberam tratamento quando já apresentavam parasitemia patente, e apresentaram redução do período de patência, indicando ação da diidroxitetraciclina sobre o protozoário. O modo de ação da tetraciclina em Babesia não está totalmente conhecido, mas presume-se que seja por inibição da função ribosomal e subseqüentemente depressão da síntese de proteínas (Pestka, 1971).

Quando se utiliza quimioprofilaxia, é importante garantir aos animais a exposição à Babesia durante o período profilático para que ocorra infecção e desenvolvimento de imunidade (Kuttler & Johnson, 1986). Teoricamente haverá um ponto em que os níveis plasmáticos da droga serão suficientemente baixos para permitir que ocorra infecção, porém ainda elevados o suficiente para prevenir infecção aguda fatal (Day & Kuttler, 1975).

Os animais com 30 a 90 dias de idade foram expostos apenas duas vezes por semana a baixa população de B. microplus. Nessas condições, os animais do grupo controle apresentaram infecção por B. bigemina após período de pré-patência médio de 77 + 44 dias. Os animais que receberam as duas doses de 20 mg de oxitetraciclina, aos 45 e 66 dias, provavelmente estavam no período pré-patente da infecção, pois o efeito do medicamento provocou aumento significativo do período de pré-patência (P

Purnell et al. (1989) descrevem que tratamentos com oxitetraciclina aos 7 e 14 dias após os animais terem sido expostos ao desafio pelo carrapato são insuficientes para controlar a infecção por Babesia e que tratamentos aos 7, 14 e 21 dias apenas reduzem a ocorrência de casos clínicos quando da introdução de animais sensíveis em zonas endêmicas Os tratamentos feitos antes da infecção não influenciam o curso da doença, e se aplicados simultaneamente à infecção somente prolongam o período pré-patente; após a infecção ou 24 horas após a primeira parasitemia reduzem a severidade da infecção (Frank et al., 1991; Markovics et al., 1991).

Os resultados do presente estudo confirmam a atividade babesicida da diidroxitetraciclina quando aplicada no período pré-patente da infecção. O esquema de quimioprofilaxia testado neste trabalho obteve resultados satisfatórios, podendo ser utilizado em propriedades em área endêmica estável, nas quais os animais estão expostos gradualmente ao B. microplus.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2001
  • Data do Fascículo
    Fev 2001

Histórico

  • Recebido
    26 Set 2000
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