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Entre o Ó e o Tato

Resumos

O artigo busca traçar um diálogo entre o recente ensaio literário Ó, de Nuno Ramos, e o ensaio filosófico Tato, de Jean-Luc Nancy, tendo como horizonte de discussão a questão do corpo e da linguagem. Como pano de fundo, o artigo se consuma também enquanto esforço de leitura sobre as questões do sentido e do corpo em algumas obras do filósofo francês Jean-Luc Nancy.

corpo; linguagem; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos


L'article ici présentée pose la question du corps et du langage à partir d'une analyse détaillée de deux œuvres récentes: un essai littéraire écrit par le brésilien Nuno Ramos, intitulé Ó, et le texte déjà consacrée du philosophe français Jean-Luc Nancy, intitulé Toucher. L'effort sous-jacent à l'article est celui de la compréhension des notions de sens et de corps, présentées dans plusieurs textes de l'œuvre de Nancy.

corps; langage; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos


This article aims to sketch a dialogue between Nuno Ramos' recent literary essay Ó and Jean-Luc Nancy's philosophical essay Tato, having the issues of body and language as a frame of discussion. The background concern of this article is the effort of reading on meaning and body in some works of the French philosopher Jean-Luc Nancy.

body; language; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos


Entre o Ó e o Tato1 1 O livro intitulado Ó é um ensaio literário, prosa poética, escrito por Nuno Ramos e publicado em 2008. O texto intitulado "Tato" é um ensaio filosófico de Jean-Luc Nancy, que lemos na versão argentina, publicada no interior do livro El sentido del mundo (2003), tradução do livro francês, do mesmo autor, intitulado Le sens du monde de 1993. Os dois ensaios serão aqui pensados a partir das questões que evocam sobre as relações entre corpo e linguagem.

Ana Kiffer

RESUMO

O artigo busca traçar um diálogo entre o recente ensaio literário Ó, de Nuno Ramos, e o ensaio filosófico Tato, de Jean-Luc Nancy, tendo como horizonte de discussão a questão do corpo e da linguagem. Como pano de fundo, o artigo se consuma também enquanto esforço de leitura sobre as questões do sentido e do corpo em algumas obras do filósofo francês Jean-Luc Nancy.

Palavras-chave: corpo; linguagem; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos.

ABSTRACT

This article aims to sketch a dialogue between Nuno Ramos' recent literary essay Ó and Jean-Luc Nancy's philosophical essay Tato, having the issues of body and language as a frame of discussion. The background concern of this article is the effort of reading on meaning and body in some works of the French philosopher Jean-Luc Nancy.

Key words: body; language; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos.

RÉSUMÉ

L'article ici présentée pose la question du corps et du langage à partir d'une analyse détaillée de deux œuvres récentes: un essai littéraire écrit par le brésilien Nuno Ramos, intitulé Ó, et le texte déjà consacrée du philosophe français Jean-Luc Nancy, intitulé Toucher. L'effort sous-jacent à l'article est celui de la compréhension des notions de sens et de corps, présentées dans plusieurs textes de l'œuvre de Nancy.

Mots-clés: corps; langage; Jean-Luc Nancy; Nuno Ramos.

1. posso começar? vou começar já comecei (Ana C.César)

Eu não poderia (?) começar assim:

ao escorregar no estômago frutos e pedras (como o lobo da história) e caminhar sobre as cinzas dos pés feitos de cinza, as cinzas das solas, as cinzas do asfalto, as cinzas das folhas, ao provar do pó cinza pousado em tudo [...].

*1 *1 (RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008: 59. )

Tampouco continuar nesse tom:

[...] e ela, escutando cada palavra, captava[ando] o sentido exato: quero dizer com isto que ela via sem que ele[eu] precisasse dizer nada, a fosforescência das ondas, os icebergs que batiam entre si; ela via a Shel trepar até a ponta de um mastro em meio à tormenta; e lá refletir sobre o destino do homem; voltar a descer, beber uísque com soda; fazer escala; sucumbir aos encantos de uma negra; raciocinar; ler Pascal; decidir-se a escrever filosofia; comprar um macaco; discutir para si mesmo o verdadeiro sentido da vida; decidir a favor do Cabo de Hornos, e assim sucessivamente. Ela adivinhava tudo isto e mais outras mil coisas de imediato.

*2 *2 (WOOLF apud NANCy, Jean-Luc. "Dialogo II". In: El Sentido del Mundo. Buenos Aires: 2003: 238.)

2. entre corpo e linguagem: o sentido

Seria possível dizer que, em torno à problemática do sentido, do corpo e da linguagem, paira uma série inesgotável, e ao mesmo tempo urgente, de significados que nos conduzem à contemporaneidade. Identificar esse assunto ou problema como decorrente de uma crise do sentido, como já bem apontou Nancy,*3 *3 (NANCY, Jean-Luc. L'oubli de la philosophie. Paris: Galilée, 1986. ) pouco interesse provoca, além de corroborar os inevitáveis ditames cataclísmicos acerca da humanidade. No entanto, um esforço talvez ainda fosse válido para prenunciar, ao menos, aquilo que este artigo tangenciará. Enumerar uma série de significados retornantes é apenas um modo de situar um contexto para o problema do corpo e da linguagem.

- As coisas que não se explicam, ou tudo (que é muito) que já não entendemos mais, vêm induzindo um interesse cada vez maior em torno da potência performativa da linguagem2 2 Potência performativa da linguagem quer dizer, neste caso, uma valorização da força sobre o significado, da capacidade de uma efetuação "física" do sentido, o que certamente aponta para um cansaço da hermenêutica enquanto procedimento "interpretativo" do texto literário. nos ensaios, teses e livros literários contemporâneos. A adivinhação de Woolf assume aqui seu caráter peremptório.

- Mas também, e os "Ós" de Nuno Ramos e o trecho citado de Woolf indicam, a velocidade das coisas nos ultrapassa.

- Não entendemos, por um lado, por que a velocidade é maior do que a do entendimento e, necessariamente, por outro lado, por que o entendimento se esgota enquanto racionalidade/reflexividade3 3 Longe de esses termos fazerem alusão a um modo antigo e ultrapassado de abordagem, eles devem ser entendidos como condição mesma do pensamento, tal qual o Ocidente o concebeu e o concebe. sobre o mundo. Nesse sentido, a "onda performativa" pode, ou não, querer dar lugar a este mundo aqui. No sentido de reivindicar uma posição crítica não mais condizente com as exigências de um pensamento sobre algo dela distinto.

- Escolher este mundo aqui é também e, sobretudo, uma aposta política inerente ao gesto crítico. Posto que significa dissipar um mundo fora do mundo, que viesse representar ou dar conta deste mundo aqui. Escolher este mundo aqui significa ter que pensá-lo como ele acontece, na fome, na miséria, na guerra, na exploração ou no êxtase.

- O primeiro gesto decorrente de uma diferença entre uma abordagem crítica de algo a que se deve atribuir um sentido e uma abordagem crítica de algo que ainda não se começou a pensar aparece no desejo de uma escrita que possa passar com as coisas no mundo, num devir-fluxo, imperceptível, diriam Deleuze e Guattari.*4 *4 (DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mille Plateaux - capitalisme et schizophrénie 2. Paris: Minuit, 1989. )

- Aí localizamos lado a lado o ensaio literário de Nuno Ramos e o ensaio filosófico de Jean-Luc Nancy.

- Imperceptível ou in-significante, como sugere Nancy,*5 *5 (NANCY, Jean-Luc. El Sentido del Mundo. Buenos Aires: La Marca Editora, 2003. ) não deveria levar a confundir com uma superqualificação do cotidiano (ênfase contumaz de orientações discursivas do contemporâneo). Mas sim fazer do velho modelo Homem algo in-significante: aí "passaríamos com" todo o mundo in-significante.4 4 Toda a reflexão contemporânea sobre a comunidade daqueles que não têm comunidade se ubíqua com essa questão.

- Isso porque, mesmo dissipado o semblante de um mundo fora deste aqui, ainda se aposta no fato de que "o sentido do mundo" é uma atribuição do homem, ainda que o mundo já esteja dado, como lembra Nancy.*6 *6 (Ibidem.)

- Esse superinvestimento na figura do homem deixa escapar, justamente, a possibilidade de uma enunciação sem centro5 5 Tomo como referência conceitual de uma "enunciação sem centro" o ensaio de Maurice Blanchot sobre Beckett, intitulado "Où maintenant? Qui maintenant?", incluído no livro Le livre à venir (1995). que se aproxime mais da exposição do mundo, e em consequência, das coisas in-significantes deste mundo aqui.

- Como sabemos, até mesmo o in-significante vem sofrendo o controle desse centro emissor de sentido. In-significante, portanto, o faminto, a miséria, o migrante, entre outros.

- De certo modo, poderíamos tentar expressar, ainda rasteiramente, que por muito tempo o que falhou, nesse arcabouço "metafísico" do Ocidente, foi o contato com o mundo.

- O mundo conectado de hoje está muito distante de retomar o problema dessa falha.

- O contato nos forçaria à correnteza de ser apenas um fragmento in-significante do mundo? Possibilitaria ele uma compreensão mais próxima deste mundo aqui?

- Como a questão do sentido se colocaria a partir dessa "lógica" do contato? O sentido desaparecia como esgotamento, abismo (niilismo), e também como inexprimível (corpo exterior à linguagem)?

- Como contato, ele seria abertura, ex-posição, sempre anterior ou posterior à constituição de um sujeito e de um objeto, como sugere Nancy?*7 *7 (Ibidem.) Mais uma vez indicando a in-significância do significante Homem/Sujeito? Ou a exterioridade do homem mesmo, conforme sugerido por Nancy?*8 *8 (Ibidem.)

- Isso exigiria pensar no corpo não mais como aquilo que define a espessura do uno, ou que se apropria ou que é apropriado, mas sim como fragmento da arrealidade concreta que é a matéria do mundo,*9 *9 (Ibidem: 94-95.) ou, conforme o trecho de Virginia Woolf, como tudo isso assim, ao mesmo tempo, e sucessivamente, imediatamente?

A tarefa maior exigiria então rever (ou reabrir) o dualismo corpo-linguagem fora da onto-teologia, na qual um pertence ao mítico e a outra ao filosófico, um excede e a outra regra. Fora também da crença ingênua de que um monismo nos é possível. Rever esse dualismo é aqui querer tocar e ser tocado no mundo do pensamento. Transimanência do sentido ou arrealidade concreta (termos sugeridos por Nancy) seriam apenas modos de tentar conceituar aquilo que ainda não sabemos pensar, nem dizer: a adivinhação de Woolf, o Ó de Nuno Ramos, ou mais simplesmente: isso mesmo!

A tarefa menor deste artigo seria a de realizar um esforço de leitura desses dois ensaios, de Nuno Ramos e de Jean-Luc Nancy, buscando pensá-los sob o prisma da questão corpo-linguagem.

A palavra, no interior dessa problemática, e como buscaremos desenvolver a partir desses dois textos, não seria a vinda ao lugar daquilo que falta. Esse pensamento requer, de modo inusitado, um retorno diferenciado sobre o referente. Não mais o referente exterior à linguagem, mas a palavra que se consuma na existência (o imediatamente de Woolf?). Mais uma vez Nancy aponta: "dizer alguma coisa no sentido mais rasteiro de coisa."*10 *10 (ALFÉRI apud NANCY, Jean-Luc. El Sentido del Mundo. Op. cit.: 96.) Oposto da palavra monumento, eu digo: apenas, penosamente (à peine), dizer alguma coisa!

3

O livro Ó de Nuno Ramos apresenta 25 breves "capítulos" de uma narrativa que começa pelo relato de um "descobrimento" do corpo6 6 E mais especificamente do envelhecimento do corpo. No entanto, não nos parece que a tônica em torno ao envelhecimento deva ser aqui abordada como constituinte de uma "fase" na qual o sujeito se depara com a morte (mesmo que isso assim se suceda), senão, como parece também apontar o livro, enquanto constituinte do próprio corpo em sua relação sempre defasada ou falha com a linguagem. O envelhecimento é abertura dessa exposição do corpo no mundo, e é, por isso mesmo, aquilo que constitui o próprio corpo em sua inapreensibilidade, quer dizer: em seu movimento. Não há corpo dado, apenas corpo em devir. a partir de um dado insignificante:

Pois bem, quando fiquei alguns dias sem tomar banho e me olhei no espelho, percebi círculos calvos em meu queixo. Os pequenos pelos haviam caído em rigorosa geometria, como aqueles círculos de plantações de milho, ou de trigo, na Europa, Austrália e nos Estados Unidos.

*11 *11 (RAMOS, Nuno. Ó. Op. cit.: 12.)

Intitulado "Manchas na pele, linguagem", esse capítulo introdutório se mescla enquanto narrativa ficcional, já que apresenta a cena que desencadeará as voltas do personagem-narrador sobre o círculo dos pelos que caíram do queixo, que logo indicarão os círculos do corpo, da vida e da morte, e narrativa filosófica, posto que não deixará de tentar enunciar, e até responder, muitas das questões que se colocam entre corpo e linguagem. Observa-se que o círculo no queixo, o dado in-significante e desencadeador da crise do personagem diante do envelhecimento do corpo, se desdobrará em outros círculos, fazendo do Ó, que intitula o livro, uma figura anfíbia do corpo/linguagem. O Ò seria o primeiro grunhido diante da dor, como quer o autor através da construção mítico-ficcional de uma cena primeva da passagem do homem-mudo ao homem-falante, cena esta que permanecerá ativa, através das figuras interjetivas da linguagem (sendo o Ó uma dessas interjeições); e seria também o Ó do corpo, buraco e círculo que fecham a vida na morte.

Sob esse aspecto, um dos desafios do livro seria buscar, com e na própria escrita, torcer o fechado do Ó, no aberto e diferencial da espiral. Fazer da volta um retorno que se diferencia. Da vida que envelhece no corpo algo diferente do que seja só perda:

Entre as coisas que perdi não está o desejo de perder; entre as coisas que esqueci não está o desejo de esquecer. Estou pronto para sequer perder, como quem recolhe um jardim de troncos secos e chupa as uvas depois de passas, novo num envelhecimento renovado.

*12 *12 (Ibidem: 267.)

No interior do livro de Nuno Ramos sete capítulos intitulam-se "Ó", "Segundo Ó", e assim sucessivamente. Nesses trechos encontramos uma dicção distinta da outra, uma formatação em itálico do texto, a liberdade do compromisso com a cena narrativa e a entrega ao fluxo de uma prosa poética. Esses "Ós" acabam perfigurando um movimento espiralar do corpo e da linguagem, uma dicção que, buscando aproximar-se dos fluxos do corpo na linguagem, respondesse ao dualismo inevitável que a cena de estranhamento inicial causou: a separação entre um sujeito que apenas pode, no máximo, se parecer com seu próprio corpo - "Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes"*13 *13 (Ibidem: 11.) - como indica a primeira frase do livro.

Em todo o primeiro capítulo do livro encena-se não apenas o fator desencadeador do livro, que é a mutação e a crise do corpo diante da vida/morte, mas também a problemática subjacente entre o corpo e a linguagem: como escrever o corpo que muda? O corpo que morre? Como fazer da linguagem uma linguagem outra que não fixe os significados do corpo ou sobre ele? Todas essas questões partem, obviamente, do dualismo clássico entre corpo e alma, ou como diz o autor:

Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases [...], como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?

*14 *14 (Ibidem: 18.)

Sob esse aspecto, a escrita de Ramos parece aderir ingenuamente a duas grandes concepções incontornáveis: (a) o corpo estará sempre velado, oculto sob o véu das vestimentas/ferramentas humanas. A humanidade aqui se encerra como ápice da racionalidade produtiva porque falante e falante porque produtiva. (b) A linguagem seria, desse modo, um acontecimento exterior ao corpo, uma ferramenta necessária, porém inútil diante da grande verdade oculta que encerra o corpo em sua dor, em sua própria morte. Poder-se-ia dizer que Ramos re-encena aqui, através do dualismo que encerra as concepções ocidentais de corpo, a hipótese de um corpo profundo situado no exterior ou no limite da própria linguagem.

Até agora poderia apontar duas concepções que engendram a problemática corpo/linguagem. Em uma delas, o corpo é um corpo-pele, cuja função residiria na estabilização identitária ("Meu corpo se parece muito comigo"). Essa estabilidade estaria sempre ameaçada pela elasticidade ou porosidade da própria pele. Nesse ponto, o corpo-pele torna-se detonador de sua própria estranheza ("embora eu o estranhe às vezes"). E através da estranheza perfaz-se um outro corpo, distinto daquele em que "eu me reconheço". Freud já apontara que o "eu é antes de tudo um eu corporal". Com isso indicava a relação de dependência entre a constituição de uma identidade e uma organização/unificação do corpo. Também se sabe como o lugar dessa constituição tornou-se frágil, como essa identidade/unidade parece cada vez mais porosa. A estranheza, que em Freud já apontava para a formação da angústia, deveria ser pensada, ao menos aqui, cada vez menos como excesso e cada vez mais como invasão dessa matéria amorfa do corpo. O estranho é o sem forma, o estranho, nesse momento, é aquilo que não se nomeia. Corpo estranho à linguagem, inominável ou corpo profundo, como sugeriu posteriormente Deleuze na Lógica do sentido.*15 *15 (DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998. ) O corpo profundo funcionaria como esse limiar - fora da linguagem -, mas doador de sentido. Nos termos postulados por Deleuze, um corpo produtor de infra-sentidos.7 7 Não é objeto deste artigo uma discussão sobre a formulação de Deleuze na Lógica do sentido. No entanto, valeria ao menos apontar duas questões que tocam tanto o livro de Ramos quanto o ensaio de Nancy. No que diz respeito ao primeiro, deve ser pontuada a coincidência terminológica de um "corpo profundo". No livro de Ramos, tal noção aparecerá como constituinte de um acesso distinto à linguagem. Será através do corpo-profundo que o autor desestabilizará as séries opositivas do corpo e da linguagem. Esse caminho aproxima-se da formulação de Deleuze, que vê, nesse momento da Lógica do sentido, o corpo-profundo ou corpo sem órgãos como doador de sentido. Ligado a um estrato de infra-sentido, esse corpo é trabalhado pelo filósofo a partir das palavras-gritos ou palavras-sopro do escritor francês Antonin Artaud. No que diz respeito ao ensaio de Nancy, a alusão a Deleuze é apenas inferida, na medida em que Nancy reivindica o valor do espaçamento material como qualidade da superfície. A lógica do contato é, nesse sentido, uma lógica da superfície na forma de espacialidade, extensão, multiplicidade, lógica da diferença, que poderia, com maior cuidado, ser interrogada a partir das assertivas de Deleuze sobre os paradoxos de Lewis Carroll na Lógica do sentido. Toda a relação do múltiplo na qualidade de singular em Nancy também parece indicar essa referência ao pensamento de Deleuze e/ou de Deleuze e Guattari. Fica aqui apenas o registro para desenvolvimento futuro da hipótese. Nos termos de Ramos:

Ele grunhiu e este grunhido virou o nome da desaparecida. Ele lhe deu um nome, ele grunhiu seu nome, como um coágulo, uma retenção daquilo que passava, confuso, por ele, um poente paralelo ao poente diante dele.

**

Mas um terceiro corpo, distinto do corpo-pele e do corpo-profundo (o do grunhido), se insinua entre as linhas de Ó. Ele é efeito da cena primitiva que o autor construiu para tentar dar conta da separação radical entre o corpo e a linguagem, ele é efeito daquilo que o autor chama de pistas ou sinais "fora da linguagem" [grifo do autor]:*16 *16 (Ibidem: 23.)

Pois se circula em toda a natureza um halo de inexpressividade - por exemplo, nas feições impassíveis com que o sapo é devorado pela cobra, como se levemente espantado (e por isso arregala os olhos) com o que está lhe acontecendo, ou quando o louva-a-deus devora calmamente a cabeça de seu macho, como um pequeno galho de bambu, enquanto copula com ele - é porque nada ali precisa ser comunicado, arrastado que está pela própria e intensa atividade.

*17 *17 (Ibidem: 20-21.)

Mas esse outro corpo, ou essa linguagem outra, não se deixará senão entrever, tal qual o imediato de Virginia Woolf. Posto que ele é o desdobramento ao infinito da oposição mesma entre o corpo e a linguagem. Por isso, em quase todo o primeiro capítulo do livro, Nuno Ramos continuará opondo à expressão da dor - origem de toda linguagem - um halo de inexpressividade, pois esse halo só é identificado como acontecimento do mundo físico, fora do humano: "feições impassíveis com que o sapo é devorado pela cobra." Essa impassibilidade ou inexpressividade se deve, para o autor, ao fato de que "nada ali precisa ser comunicado, arrastado que está pela própria e intensa atividade" - essa inexpressividade é puro fluxo. O passar com as coisas impede ou torna desnecessário que delas se fale? Mas não haveria também o acontecimento dessa linguagem inexpressiva (Beckett), dessa linguagem-adivinhação (Woolf)? É certo que o halo inexpressivo não deixa de afetar o humano, eu diria mesmo de desfazer o humano. Algo dessa inexpressividade reside ainda na linguagem. Mesmo que o autor precise nomeá-las como pistas ou "sinais fora da linguagem".

Mas por que necessitamos, diante do sem palavra, voltar à linguagem? O autor constrói para tentar dar conta dessa pergunta uma cena de origem. A linguagem, tal qual a conhecemos, tem origem na dor de um povo. Um povo que adoeceu e precisou grunhir sua dor. Tal grunhido coloca-se em contraste com a mudez reinante, e terá como última consequência a expulsão do homem são e mudo do seio do povo doente. Mas por que se criou nesse povo, mesmo após a conquista da saúde, a impossibilidade de retorno à mudez? Porque, segundo Ramos, se criou um temor diante daqueles heróis mudos que foram expulsos. Esses heróis foram vitimizados, criando, a partir de seus próprios exílios, o anel que circunda o povo falante. No entanto, o fantasma da mudez é a própria maldição do povo falante: maldição esta que deve ter se abrigado em nosso próprio corpo. Aqui o corpo re-encena o dualismo e é mesmo o inexprimível, o indizível. Mais uma vez o corpo profundo - "a dor que não se duplica", "o sem signo da doença", o inexplorado e mudo.*18 *18 (Ibidem: 26.)

Mas ele volta sobre o paradoxo que é carregar o corpo na linguagem e a linguagem no corpo, através da seguinte interrogação: como fizemos isso, que foi construir uma ferramenta tão potente quanto a linguagem, mas não conseguimos fazer com que essa duplicação não nos poupasse da dor física?*19 *19 (Ibidem: 27.) Como criamos uma linguagem que se antecipa às coisas e nos impede de passar com as coisas? Como criamos uma linguagem "que se dirige à parte livre e não linguística de nossa relação com o mundo poupando a parte pânica, corpórea, dolorida - ali não há linguagem e é justamente quando mais precisamos dela"?*20 *20 (Ibidem: 27.) Mais uma vez o autor re-encena o que se exclui na relação corpo-linguagem. O próprio ao corpo, os afetos. No entanto, aqui ele não volta ao dualismo para encenar um corpo profundo, fora ou no limiar da linguagem. É certo que ao halo inexpressivo da linguagem-vida o autor opõe "a labuta das expressões faciais e dos gestos". Mas dessa repetição, dessa volta incessante, da multiplicação ao infinito da oposição é que se transfiguram as séries em separado dos corpos e da linguagem:

Para terminar, há uma última hipótese que quero examinar. Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres linguísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. [...] Talvez ao contrário do que vimos postulando, fossem seres radicalmente linguísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. [...] A única restrição desse texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível.

*21 *21 (Ibidem: 28-29.)

Aos heróis mudos não faltava linguagem, ao contrário, tudo neles era linguagem, uma linguagem, no entanto, feita de uma matéria metamórfica, mutável e perecível: o livro mundo, a escrita das coisas, o texto sem fim. Como inventar uma linguagem que não fixe, que não dependa apenas da voz e do sopro (únicos laços mais óbvios do corpo na linguagem tal qual nos pertence)? Como reinventar uma linguagem calcinada, escrita com pedaços e destroços?

4. O sentido da pedra, o tato

É a partir de uma citação de Heidegger, nos Conceitos fundamentais da metafísica, que o filósofo Jean-Luc Nancy inicia seu ensaio Tato. Tudo começa com a observação de que a pedra, mesmo que toque a terra, está alijada do tato. Isso porque a pedra não visa a "alcançar" nem a "possuir" a terra. A interrogação de Nancy, longe da ingenuidade de querer atribuir sentido à existência da pedra, se faz exatamente sobre o arcabouço de negatividade que vem definindo os limites do não sentido (não existência). A série interrogativa do texto pressupõe questionar, em primeira instância, a razão pela qual o tato estaria submetido à identificação (alcance) e à apropriação (posse) de alguma outra coisa. Indo ainda mais longe, o filósofo francês interroga por que o acesso é o modo de fazer ou de estar no mundo. Decerto que, no mundo de Heidegger, os personagens de Beckett, os "Ós" de Ramos, ou a figura informe de Bartleby (para citar apenas alguns) se igualariam à pedra, sem acesso ao mundo. E, de fato, esses personagens não deixam de encenar o trágico de sua inacessibilidade ao mundo, de sua "falta de tato"!

O tato, para Nancy, pressupõe um gesto paradoxal do pensamento, posto que ele indica conceber o acesso quiçá como distanciamento, ou mesmo como impenetrabilidade. Um não sentido ou um fora do sentido seria necessário à própria formação do sentido. Mas a reflexão de Nancy não se esgota nesse rumo. A anterioridade ou o dialético não definem a lógica do tato, do contato.

Para entender o tato seria necessário compreender a crítica do filósofo aos dois arcabouços fundamentais do pensamento ocidental, reunidos pela arquitese filosófica que o autor identifica através dos conceitos de agathon (Platão) e de espaçamento originário enquanto materialidade, versão de Nancy para o conceito de queda no vazio da tese atomista de Demócrito, Epicuro e Lucrécio.

Sobre o conceito de agathon, o Bem de Platão, sempre mais além do ser e da essência, seria preciso entender que ele só poderia existir se destituído de conteúdo. Ele indica sempre o ato de ser tocado pela vinda do ser.*22 *22 (NANCY, Jean-Luc. El Sentido del Mundo. Op. cit: 83.) Essa anterioridade ao ser faz do Bem um conceito que não deveria se personificar nem se possuir. Como aponta Nancy, sua semântica não é o Bom, mas sim a Grandeza - agan: muito, demasiado.*23 *23 (Ibidem: 84.) No entanto, e é esse o grande equívoco que o conceito introduziu, essa anterioridade ao ser, esse ser tocado por esse dom/agathon, abre um jogo em que o dom vem antes do desejo (ser tocado por) e um desejo se dirige ao dom (tocar o excesso da excelência). Um jogo que deixa de se efetuar enquanto movimento recíproco entre o dom e o desejo para se efetuar num já dado do dom que faz falta ao desejo, num já dado enquanto passado sujeito à lei da inacessibilidade.*24 *24 (Ibidem: 85-86.) Tal operação, segundo Nancy, efetua uma apropriação do dom e uma doação do inapropriável, que constituirá o desejo. O equívoco residiu na medida em que um sujeito passou a ser tocado pelo dom através de um objeto sempre desejável (e inacessível).

Toda a discussão de Nancy em torno do sentido quer reabrir a relação entre dom e desejo numa nova cena em que o agente ou o ator não seja nem doador, nem desejante, mas, segundo seu termo, existente.*25 *25 (Ibidem: 87.)

Será em torno à constituição do existente que Nancy se interessará pelas teses atomistas da filosofia. Os atomistas, para Nancy, não serão lidos enquanto propiciadores de uma tese materialista em contraposição ao idealismo reinante na filosofia ocidental. Justamente o que interessará a Nancy nessa tese não se centra na formulação materialista dos átomos que se chocam uns contra os outros e de onde o mundo deriva, mas justamente na percepção inusitada acerca do vazio que os atomistas introduziram no seio da filosofia. Isso porque, e pela primeira vez, o vazio não foi entendido como o não ser do ser, mas como espaçamento material, e, enquanto matéria, constituinte do próprio ser. É só por isso que, para os atomistas, todo o conhecimento, sensível ou intelectivo, só pode se dar por contato. Contato dos átomos com a matéria do vazio! É isso que Nancy quer retomar dos atomistas, a matéria não como "a espessura de algo fechado sobre si", mas sim como espaçamento através do qual alguma coisa é possível - o vazio enquanto ser!

A anterioridade desse espaçamento material o indica enquanto extensão, superfície, pluralidade. É esse espaçamento que vai permitir o uno, o fechado sobre si do átomo (entendo o átomo como unidade mínima do corpo). No entanto, e Nancy é obrigado a admitir, esse espaçamento que é material, que é ser da multiplicidade, não se deixa tocar posto que não se apresenta como algo palpável.*26 *26 (Ibidem: 102.) Impalpável, porém material, esta é a condição de todo tato, de todo contato.

Poderíamos dizer que, para Nancy, a matéria guarda uma dupla vertente. Por um lado, como comumente a entendemos, ela é forma, articulação, significação, unidade. Por outro lado, ela é fragmento do mundo, vazio, abertura para o mundo, queda no vazio dos átomos. O corpo deixa de ser o oculto e passa a constituir o ser. O ser (e é essa toda sua discussão e "homenagem" a Heidegger) o é enquanto mais-além de si mesmo. Para Nancy, no entanto, esse mais-além do ser é material e mundano (deste mundo aqui), enquanto abertura ou contato com o próprio mundo. Sua acepção de sentido vai, por isso mesmo, se opor à de significação. O sentido será sempre uma multiplicidade de acontecimentos (qualidade do vazio, do espaçamento, da abertura) versus a unicidade da significação.

Voltemos à pedra de Heidegger: "a terra não está dada para a pedra", disse o filósofo. O contato pedra/terra é da ordem da superfície. É o que, para Nancy, Heidegger quis omitir. O rosto é antes de tudo superfície.8 8 A referência ao rosto é importante porque no trecho em que Heidegger aponta o "não tato" da pedra, ele exemplifica como cena própria ao tato uma mão que acaricia uma cabeça recostada. Mesmo que o mundo da pedra não tenha sentido, só há sentido porque a pedra está no mundo. Sua arrealidade, caracterizada pela sua ausência de sentido articulado, deve ser entendida enquanto uma arrealidade concreta, posto que a pedra está no mundo. Assim como o vazio para os atomistas era também um ser material mesmo que não palpável.

É nesse sentido que Nancy propõe que pensemos num dom sem doação enquanto o próprio do sentido. A pedra sobre a terra, a terra enquanto ruptura, abertura, ele diz, via rupta, que vai distribuir posteriormente os lugares.*27 *27 (Ibidem: 101.)

A consequência maior de todo esse percurso residiria na descentralização do sentido enquanto algo dependente da relação sujeito (doador) e objeto (mundo). Seu convite, embora tortuoso e hermético, residiria no desafio de entrever que todo sentido é tato ou contato porque é o ser aqui de todos aqueles seres que nos ultrapassam sucessivamente, imediatamente, numa estranha realidade abstrata, ou numa ainda mais estranha arrealidade concreta.

5

Esta é a minha hipótese: a de que um tubo triturasse e parisse todo o torpor e a algaravia; a dissolução dos tecidos expelidos é sua expressão perfeita. Busco agasalho dentro dela, mas tenho medo e caio, quedo, porque sou apenas mais um e entrarei também no grande tubo. Então vejo a taça de betume, de tutano e de sebo. Bebo (sem soda nem gelo) sua alegria destilada. Nenhum mal podem fazer, saídos como eu do mesmo tubo - e a própria transparência, que amo mais que a sombra tátil, saiu também dessa sequência de banhos ácidos e compressões tubulares. [...]. Escrevo odes aos excrementos. [...] Isto é um canto, não um destroço posto ao lado de outro, não a pelanca de um velho mas o murmúrio amortecido da vontade de dar nome-amor aos bichos e carniças,

e à hora em que ambos mordem uma polpa única

. [grifo meu].

*28 *28 (RAMOS, Nuno. Ó. Op. cit.: 177.)

Esta é a minha hipótese: aos bichos e carniças uma polpa única. Matéria arreal, concreta, amorfa. Corpo já não seria seu nome. Nem palavra.

Recebido em 28/02/2010

Aprovado em 15/03/2010

Ana Kiffer

Professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC-Rio. Diretora de Programa no Colégio Internacional de Filosofia em Paris. Vem trabalhando sobre a questão do corpo e da escrita desde seu mestrado, concluído em 1995. Publicou em 2003, na Espanha, o livro intitulado Antonin Artaud - uma poética do pensamento.

* (RAMOS, Nuno. Ó. Op. cit.: 20.)

  • *1 (RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008: 59.
  • *3 (NANCY, Jean-Luc. L'oubli de la philosophie. Paris: Galilée, 1986.
  • *4 (DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mille Plateaux - capitalisme et schizophrénie 2. Paris: Minuit, 1989.
  • *5 (NANCY, Jean-Luc. El Sentido del Mundo. Buenos Aires: La Marca Editora, 2003.
  • *15 (DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.
  • *1
    (RAMOS, Nuno.
    Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008: 59. )
  • *2
    (WOOLF apud NANCy, Jean-Luc. "Dialogo II". In: El Sentido del Mundo. Buenos Aires: 2003: 238.)
  • *3
    (NANCY, Jean-Luc. L'oubli de la philosophie. Paris: Galilée, 1986. )
  • *4
    (DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mille Plateaux - capitalisme et schizophrénie 2. Paris: Minuit, 1989. )
  • *5
    (NANCY, Jean-Luc.
    El Sentido del Mundo. Buenos Aires: La Marca Editora, 2003. )
  • *6
    (Ibidem.)
  • *7
    (Ibidem.)
  • *8
    (Ibidem.)
  • *9
    (Ibidem: 94-95.)
  • *10
    (ALFÉRI apud NANCY, Jean-Luc.
    El Sentido del Mundo. Op. cit.: 96.)
  • *11
    (RAMOS, Nuno.
    Ó. Op. cit.: 12.)
  • *12
    (Ibidem: 267.)
  • *13
    (Ibidem: 11.)
  • *14
    (Ibidem: 18.)
  • *15
    (DELEUZE, Gilles.
    Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998. )
  • *16
    (Ibidem: 23.)
  • *17
    (Ibidem: 20-21.)
  • *18
    (Ibidem: 26.)
  • *19
    (Ibidem: 27.)
  • *20
    (Ibidem: 27.)
  • *21
    (Ibidem: 28-29.)
  • *22
    (NANCY, Jean-Luc. El Sentido del Mundo. Op. cit: 83.)
  • *23
    (Ibidem: 84.)
  • *24
    (Ibidem: 85-86.)
  • *25
    (Ibidem: 87.)
  • *26
    (Ibidem: 102.)
  • *27
    (Ibidem: 101.)
  • *28
    (RAMOS, Nuno.
    Ó. Op. cit.: 177.)
  • 1
    O livro intitulado
    Ó é um ensaio literário, prosa poética, escrito por Nuno Ramos e publicado em 2008. O texto intitulado "Tato" é um ensaio filosófico de Jean-Luc Nancy, que lemos na versão argentina, publicada no interior do livro
    El sentido del mundo (2003), tradução do livro francês, do mesmo autor, intitulado
    Le sens du monde de 1993. Os dois ensaios serão aqui pensados a partir das questões que evocam sobre as relações entre corpo e linguagem.
  • 2
    Potência performativa da linguagem quer dizer, neste caso, uma valorização da força sobre o significado, da capacidade de uma efetuação "física" do sentido, o que certamente aponta para um cansaço da hermenêutica enquanto procedimento "interpretativo" do texto literário.
  • 3
    Longe de esses termos fazerem alusão a um modo antigo e ultrapassado de abordagem, eles devem ser entendidos como condição mesma do pensamento, tal qual o Ocidente o concebeu e o concebe.
  • 4
    Toda a reflexão contemporânea sobre a comunidade daqueles que não têm comunidade se ubíqua com essa questão.
  • 5
    Tomo como referência conceitual de uma "enunciação sem centro" o ensaio de Maurice Blanchot sobre Beckett, intitulado "Où maintenant? Qui maintenant?", incluído no livro
    Le livre à venir (1995).
  • 6
    E mais especificamente do envelhecimento do corpo. No entanto, não nos parece que a tônica em torno ao envelhecimento deva ser aqui abordada como constituinte de uma "fase" na qual o sujeito se depara com a morte (mesmo que isso assim se suceda), senão, como parece também apontar o livro, enquanto constituinte do próprio corpo em sua relação sempre defasada ou falha com a linguagem. O envelhecimento é abertura dessa exposição do corpo no mundo, e é, por isso mesmo, aquilo que constitui o próprio corpo em sua inapreensibilidade, quer dizer: em seu movimento. Não há corpo dado, apenas corpo em devir.
  • 7
    Não é objeto deste artigo uma discussão sobre a formulação de Deleuze na
    Lógica do sentido. No entanto, valeria ao menos apontar duas questões que tocam tanto o livro de Ramos quanto o ensaio de Nancy. No que diz respeito ao primeiro, deve ser pontuada a coincidência terminológica de um "corpo profundo". No livro de Ramos, tal noção aparecerá como constituinte de um acesso distinto à linguagem. Será através do corpo-profundo que o autor desestabilizará as séries opositivas do corpo e da linguagem. Esse caminho aproxima-se da formulação de Deleuze, que vê, nesse momento da
    Lógica do sentido, o corpo-profundo ou corpo sem órgãos como doador de sentido. Ligado a um estrato de infra-sentido, esse corpo é trabalhado pelo filósofo a partir das palavras-gritos ou palavras-sopro do escritor francês Antonin Artaud. No que diz respeito ao ensaio de Nancy, a alusão a Deleuze é apenas inferida, na medida em que Nancy reivindica o valor do espaçamento material como qualidade da superfície. A lógica do contato é, nesse sentido, uma lógica da superfície na forma de espacialidade, extensão, multiplicidade, lógica da diferença, que poderia, com maior cuidado, ser interrogada a partir das assertivas de Deleuze sobre os paradoxos de Lewis Carroll na
    Lógica do sentido. Toda a relação do múltiplo na qualidade de singular em Nancy também parece indicar essa referência ao pensamento de Deleuze e/ou de Deleuze e Guattari. Fica aqui apenas o registro para desenvolvimento futuro da hipótese.
  • 8
    A referência ao rosto é importante porque no trecho em que Heidegger aponta o "não tato" da pedra, ele exemplifica como cena própria ao tato uma mão que acaricia uma cabeça recostada.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Out 2010
    • Data do Fascículo
      Jun 2010

    Histórico

    • Recebido
      28 Fev 2010
    • Aceito
      15 Mar 2010
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