Percursos atuais da literatura neopolicial

Current trends of neopolicial fiction

Emilio J. Gallardo-Saborido Jesús Gómez-de-Tejada Sobre os autores

Em 10 de junho de 2015, o júri do Prêmio Princesa de Astúrias das Letras 2015 dava a conhecer em Oviedo (Espanha) sua decisão de reconhecer com esse galardão ao escritor cubano Leonardo Padura. Na ata, ressaltavam: “Na vasta obra de Leonardo Padura, que percorre todos os gêneros da prosa, destaca-se um recurso que caracteriza sua vontade literária: o interesse em escutar as vozes populares e as histórias perdidas dos outros. Desde a ficção, Padura mostra os desafios e os limites na busca da verdade”. Esse interesse pelas fronteiras da verdade e por contar as histórias dos olvidados resulta também ser um dos traços de identidade da literatura neopolicial latino-americana, da qual precisamente Padura é um dos representantes mais notáveis.

A noção de literatura neopolicial foi teorizada por diversos autores. Paula García Talaván revisa em seu artigo “La novela neopolicial latinoamericana” (2014GARCÍA TALAVÁN, Paula. La novela neopolicial latinoamericana: una revuelta ético-estética del género. Cuadernos Americanos, n. 148, 2014, p. 63-85.) a intra-história do termo neopolicial e recorda sua criação pelo narrador mexicano Paco Ignacio Taibo II, em 1990. Este em uma entrevista apontava como características da nova literatura policial mexicana: “A obsessão pelas cidades; uma incidência temática recorrente dos problemas do Estado como gerador do crime, da corrupção, da arbitrariedade policial e do abuso de poder; um senso de humor negro a la mexicana e um pouco de realismo kafkiano” (ARGÜELLES, 1990ARGÜELLES, Juan Domingo. El policiaco mexicano: un género hecho con un autor y terquedad (entrevista con Paco Ignacio Taibo II). Tierra Adentro, n. 49, 1990, p. 13-15., p. 14). Em outra entrevista, perguntado pela definição do gênero neopolicial frente ao gênero policial tradicional, respondia: “O que suponho que é a variante fundamental é que se abandonou um romance cujo eixo central era a anedota. O neopolicial rompeu com a tradição de um romance baseado fundamentalmente na anedota e abriu as portas experimentais até um romance cujo eixo central é a atmosfera. Essa seria a grande diferença” (RAMÍREZ & RODRÍGUEZ-SIFONTES, 1992RAMÍREZ, Juan C.; RODRÍGUEZ-SIFONTES, Verónica. Paco Ignacio Taibo II: La lógica de la terquedad o la variante mexicana de una locura. Mester, v. 21, n. 1, 1992, p. 41-50., p. 43).

Àlex Escribá e Javier Sánchez Zapatero, nesta linha, descrevem o neopolicial -focalizado nas figuras substanciais de Taibo II, Padura e Mempo Giardinelli- como “um discurso contracultural capaz de converter-se em testemunho da realidade” (2007, p. 49MARTÍN ESCRIBÁ, Àlex; SÁNCHEZ ZAPATERO, Javier. Una mirada al neopolicial latinoamericano: Mempo Giardinelli, Leonardo Padura y Paco Ignacio Taibo II. Anales de Literatura Hispanoamericana, n. 36, 2007, p. 49-58.). Estes autores destacam como o neopolicial se configura, nos textos teóricos e na ficção, como uma via de aprofundamento nas zonas mais críticas da sociedade e nas tramas mais corruptas do aparato governamental e policial.

Quanto às características do neopolicial, vários foram os autores que se ocuparam em demarcá-las. Uma interessante síntese a oferece a professora Francisca Noguerol (2006, s.pNOGUEROL JIMÉNEZ, Francisca. Neopolicial latinoamericano: el triunfo del asesino. Ciberletras: Revista de Crítica literaria y de cultura, n. 15, 2006..), que destaca como características definidoras desta etiqueta questões como: O enfraquecimento da trama policial em benefício do olhar social sobre o entorno; a expressão da corrupção das forças políticas e da ordem; a visão do criminoso ou da vítima em numerosas ocasiões toma protagonismo acima da perspectiva do detetive ou do policial; a presença da cultura popular através da música, dos quadrinhos ou do cinema; a intertextualidade, a metatextualidade e -acrescentamos- a autorreferencialidade, como forma de ludismo literário; bem como, ocasionalmente, a focalização da pesquisa em torno a tramas literárias.

Além de Paco Ignacio Taibo II, outros escritores de literatura policial latino-americana contemporânea se preocuparam em teorizar sobre o gênero. Destacam-se assim nomes como o de Ricardo Piglia (1976PIGLIA, Ricardo. “Sobre el género policial”. Encuesta de Jorge Lafforge y Jorge B. Rivera. Crisis, n. 30, janeiro de 1976. In: PIGLIA, Ricardo. Crítica y ficción. Barcelona: Anagrama, 2001, p. 59-62. ), Mempo Giardinelli (El género negro: orígenes y evolución de la literatura policial y su influencia en Latinoamérica, 1984 [2013]), ou Leonardo Padura (Modernidad, posmodernidad y novela policial1 1 NT: novela policial (espanhol) = romance policial (português). , 2000). Se Piglia se limita a diferenciar o romance enigma do romance duro e compara a importância de “Os crimes da Rua Morgue”, de Poe, à de “Os assassinos”, de Hemingway, nas respectivas irrupções de ambas as tradições, Padura vai mais adiante: explicita e detalhadamente se ocupa, após traçar os precedentes europeus e estadunidenses do gênero, do “neopolicial ibero-americano”. Para o criador de Mario Conde, a modalidade policial é sempre um gênero à contracorrente das principais tendências literárias e vê na nova narrativa policial iniciada em meados dos setenta, especialmente no México, Argentina e Chile - continuada em Cuba nos noventa -, o cruzamento de características próprias da modernidade e da pós-modernidade. Deste modo, para Padura, a ampla preocupação política do neopolicial, para a qual o autor pós-moderno volta as costas, enlaça-se com uma série de características formais próprias da época vinculadas à cultura de massas, à paródia, à hibridez genérica e ao pastiche (PADURA FUENTES, 2000, p. 136-137PADURA FUENTES, Leonardo. Modernidad, posmodernidad y novela policial. La Habana: Ediciones Unión, 2000.).

Mempo Giardinelli presta especial atenção ao estabelecimento das semelhanças e das diferenças entre o romance policial estadunidense e o latino-americano. Aponta que o individualismo patente nos textos do romance noir estadunidense não se compara ao peso do coletivo que se aprecia em seu par latino-americano. Da mesma forma, e para citar tão somente duas mais de suas ideias sobre o contraste entre ambas as literaturas, assinala a importância que o político e o social têm para estas últimas narrações: “É evidente que um dos caracteres diferenciais mais claros do gênero, entre norte-americanos e latino-americanos, radica em que estes quase sempre põem em seus argumentos um pouco de sal e pimenta políticos” (GIARDINELLI, 2013, p. 229GIARDINELLI, Mempo. El género negro: orígenes y evolución de la literatura policial y su influencia en Latinoamérica. Buenos Aires: Capital Intelectual, 2013. ). Ademais, a falta de confiança na polícia ou, para ir mais além, um olhar pessimista sobre o sistema nacional seria outra pedra de toque que separaria a ambos os conjuntos de produções: “A imensa maioria das instituições policiais da América Latina não só não são confiáveis para a literatura policial, bem como são questionadas desde o mais profundo do corpus social” (GIARDINELLI, 2013, p. 236GIARDINELLI, Mempo. El género negro: orígenes y evolución de la literatura policial y su influencia en Latinoamérica. Buenos Aires: Capital Intelectual, 2013. ).

Junto com esse labor teorizador, outra das características destacadas pela crítica é a forte implicação de alguns destes escritores na promoção do gênero através de coleções editoriais, revistas, festivais, prêmios e oficinas. Neste marco, o labor de Taibo II na Semana Negra de Gijón o converteu durante anos em porta-voz da difusão do neopolicial em ambas as margens do Atlântico. Piglia, comenta Noguerol, dedicou parte de sua crítica literária a enfocar a produção do momento e incorporou a edição da coleção Série Negra, onde recopilou alguns dos autores clássicos do noir estadunidense (2006, s.p.). Um labor de impulsão contínua foi o realizado por Lorenzo Lunar em Cuba através de oficinas de escritura - aplicadas junto a Rebeca Murga, com quem também editou a antologia Confesiones (Nuevos cuentos policiales cubanos) em 2011 -, da organização do prêmio Fantoches de conto policial e da gestão da livraria La Piedra Lunar.

Neste número da Alea dedicado ao neopolicial e seus caminhos na contemporaneidade, decidimos incluir dois artigos dedicados à literatura brasileira e um conjunto de artigos que indagam a produção de autores do universo hispano-americano.

O professor Jaime Ginzburg abre o número com seu artigo “Contos brasileiros contemporâneos: notas sobre a narrativa noir”. Ali leva a cabo uma detalhada análise da coleção de contos São Paulo noir (2016), revisando o uso da etiqueta noir nesta antologia. Em seguida, em “Violência e refinamento discursivo em A grande arte, de Rubem Fonseca”, Murilo Eduardo dos Reis e Maria Célia de Moraes Leonel se aproximam da figura chave deste autor brasileiro, interessando-se particularmente por sua plasmação, através de diversas técnicas narrativas, da violência vinculada às desigualdades sociais em A grande arte (1983).

A literatura cubana está especialmente bem representada no número, dado que os três artigos seguintes se ocupam dela. Em “La mirada crítica de Mario Conde: del desencanto a la herejía”, Paula García Talaván leva a cabo um esclarecedor exercício de análise e síntese da produção de Padura dedicada a seu melhor personagem: o policial Mario Conde. Por sua vez, Jesús Gómez-de-Tejada se ocupa, em “Alacranes en La Habana: el cuento policial cubano de Lino Novás Calvo”, de um dos autores fundacionais do gênero policial em Cuba, prestando-lhe também especial atenção a sua vinculação com o conto curto. Por último, encontramos o texto de Carlos Uxó González “El neopolicial cubano desciende a los infiernos: la pentalogía de Amir Valle”, indagando com perspicácia a narrativa de um dos escritores cubanos do gênero policial que maior reconhecimento teve internacionalmente, a partir de seu polêmico Habana Babilonia. La cara oculta de las jineteras (2008; Jineteras, 2006).

Como não podia deixar de ser, dada a sua transcendência histórica e atual para o gênero policial, a literatura do Cone Sul também está presente. Dois dos escritores mais reconhecidos neste sentido são trabalhados nos textos de Mónica Bueno (“El comisario Croce: la forma del policial de Ricardo Piglia”) e de Julia González-Calderón (“The irrelevant mystery, the involuntary detective, the melting clue: notes on La pista de hielo, a neopolicial by Roberto Bolaño”). Bueno analisa a figura do investigador Croce, criado por Piglia como expressão prática de sua concepção do policial, na novela Blanco nocturno (2010) e no conto “La música” (2013). Por sua vez, González-Calderón se acerca de La pista de hielo (1983) para revisar como Bolaño confronta e reconfigura neste texto algumas das engrenagens chaves da narrativa policial clássica, tais como o enigma e o detetive. Por sua parte, Román Pablo Setton se ocupa, em “El otro hermano, animalidad, razón utilitaria y política como pilares constructivos del noir en la actualidad”, do diálogo entre cine e literatura policial, abordando especificamente o filme El otro hermano (2017), de Adrián Caetano, baseado no romance Bajo este sol tremendo de Carlos Busqued.

Por fim, a literatura policial escrita na América Central é tratada em um artigo sobre um dos autores mais relevantes desta área geográfica, o guatemalteco Dante Liano. Víctor Manuel Sanchis Amat se aproxima de um de seus romances mais destacados, em “El hombre de Montserrat: Writings on Violence in the Latin American Crime Fiction”.

Na seção Entrevista, incluímos um diálogo com o escritor cubano Rodolfo Pérez Valero. No texto, intitulado “Lo crudo, lo cocido y lo policiaco: entrevista a Rodolfo Pérez Valero”, Emilio J. Gallardo-Saborido tem a oportunidade de perguntar ao romancista sobre um dos períodos essenciais para o desenvolvimento do gênero policial em Cuba: as décadas de 1970 e 1980.

Encerram o número duas resenhas. Hernán Morales apresenta o livro de Miriam Gárate, professora da Universidade de Campinas e valiosa pesquisadora da literatura e do cinema latino-americanos, Entre a letra e a tela. Literatura, imprensa e cinema na América Latina (1896-1932), e Nora Rodríguez Martínez realiza uma resenha de um dos textos mais recentes de dois dos maiores especialistas atuais sobre o gênero policial, os professores da Universidade de Salamanca Javier Sánchez Zapatero e Àlex Martín Escribà.

Esperamos que este número satisfaça o interesse de pesquisadores, professores e leitores em geral pelo tema da literatura neopolicial e sua permanente reconfiguração na literatura ibero-americana desde a segunda metade do século XX até hoje. E que sirva também, extensivamente, a todos aqueles interessados em pensar os caminhos contemporâneos da narrativa em nossas literaturas.

Tradução de Luciano Prado da Silva

UFRJ, Rio de Janeiro

Referências bibliográficas

  • ARGÜELLES, Juan Domingo. El policiaco mexicano: un género hecho con un autor y terquedad (entrevista con Paco Ignacio Taibo II). Tierra Adentro, n. 49, 1990, p. 13-15.
  • GARCÍA TALAVÁN, Paula. La novela neopolicial latinoamericana: una revuelta ético-estética del género. Cuadernos Americanos, n. 148, 2014, p. 63-85.
  • GIARDINELLI, Mempo. El género negro: orígenes y evolución de la literatura policial y su influencia en Latinoamérica Buenos Aires: Capital Intelectual, 2013.
  • MARTÍN ESCRIBÁ, Àlex; SÁNCHEZ ZAPATERO, Javier. Una mirada al neopolicial latinoamericano: Mempo Giardinelli, Leonardo Padura y Paco Ignacio Taibo II. Anales de Literatura Hispanoamericana, n. 36, 2007, p. 49-58.
  • NOGUEROL JIMÉNEZ, Francisca. Neopolicial latinoamericano: el triunfo del asesino. Ciberletras: Revista de Crítica literaria y de cultura, n. 15, 2006.
  • PADURA FUENTES, Leonardo. Modernidad, posmodernidad y novela policial La Habana: Ediciones Unión, 2000.
  • PIGLIA, Ricardo. “Sobre el género policial”. Encuesta de Jorge Lafforge y Jorge B. Rivera. Crisis, n. 30, janeiro de 1976. In: PIGLIA, Ricardo. Crítica y ficción Barcelona: Anagrama, 2001, p. 59-62.
  • RAMÍREZ, Juan C.; RODRÍGUEZ-SIFONTES, Verónica. Paco Ignacio Taibo II: La lógica de la terquedad o la variante mexicana de una locura. Mester, v. 21, n. 1, 1992, p. 41-50.

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    Emilio J. Gallardo-Saborido. Professor na Faculdade de Educação da Universidade de Sevilha. Doutor pela mesma instituição. Autor das obras: El martillo y el espejo: directrices de la política cultural cubana (1959-1976) (2009); Gitana tenías que ser: las Andalucías imaginadas por las coproducciones fílmicas iberoamericanas (2010); e Diseccionar los laureles: los premios dramáticos de la Revolución cubana (1959-1976) (2015). Com outros colegas editou Investigaciones sobre la enseñanza del español y su cultura en contextos de inmigración (2014); Presumes que eres la ciencia. Estudios sobre flamenco (2015); Escribir en las disciplinas: intervenciones para desarrollar los géneros académicos y profesionales en la Educación Superior (2017); e Asedios al caimán letrado: literatura y poder en la Revolución cubana (2018). Também publicou artigos, resenhas e entrevistas em periódicos acadêmicos, como o Hispanic Research Journal, Bulletin of Spanish Studies, Hispanófila, Latin American Theater Review, Confluencia e Anuario de Estudios Americanos, entre outros. E-mail: egallardo2@us.es
  • Jesús Gómez-de-Tejada. Professor e investigador na Universidad Autónoma de Chile. Coordena o projeto “Calibre corto: sendas del cuento policial cubano” (CONICYT, Chile). Autor de El negrero de Lino Novás Calvo y la biografía moderna (2013) e editor de Erotismo, transgresión y exilio: las voces de Cristina Peri Rossi (2017) e de Vidas extraordinarias. Crónicas biográficas y autobiográficas (1933-1936) (2014). Em colaboração com outros colegas editou Asedios al caimán letrado: literatura y poder en la Revolución cubana (2018). Tem publicado artigos, resenhas e entrevistas em periódicos acadêmicos, como Bulletin of Hispanic Studies, Revista Chilena de Literatura, Hispamérica ou Atenea, entre outros. E-mail: jgomezdetejada@us.es
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    NT: novela policial (espanhol) = romance policial (português).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan 2018
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