A NAÇÃO CONTADA POR IMAGENS: ARTE, CULTURA VISUAL E ESCRITA DA HISTÓRIA

Cecilia Helena L. de Salles Oliveira Maraliz de Castro Vieira Christo Sobre os autores

Os registros visuais e audiovisuais de eventos, personagens e processos históricos relacionados às Independências e à formação de identidades nacionais nas Américas, vem merecendo o estudo e questionamento de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

As imagens, para além das representações e sentidos que lhes são atribuídos por seus autores, possuem enorme capacidade de gerar efeitos, de promover e propor intervenções sociais, o que alarga os circuitos de produção, circulação e atualização em que geralmente são inseridas. É fundamental, então, reconstituir e contextualizar historicamente não só as práticas artísticas e formais de que são o resultado mais aparente como, sobretudo, sua dimensão narrativa e o peso por ela desempenhado na construção e introjeção de conceitos e interpretações sobre as “comunidades imaginárias nacionais”, como as denominou Benedict Anderson, forjadas no Brasil e na América, desde o século XIX5 5 ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Trad. D. Bottmann. 2ª. reimpressão.São Paulo, Companhia das Letras, 2008. .

As fontes visuais vêm sendo exploradas pela disciplina da História há muito tempo, mas, desde a década de 1980, em particular, acentuou-se a preocupação em conceituar e delimitar um campo específico denominado “cultura visual”, voltado sobretudo para a relevância e amplitude que a visualidade adquiriu com o desenvolvimento de tecnologias de reprodutibilidade de pinturas, gravuras e fotografias e com a expansão das relações de mercado mundiais, a partir do Oitocentos6 6 Ver sobre o assunto: KNAUSS, Paulo. O desafio de fazer história com imagens: arte e cultura visual. ArtCultura. Uberlância, v. 8, n.12, jan/jun, 2006, p. 97-115, www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/1406; MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. Fontes visuais, cultura visual, História visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH, v. 23, n. 45, 2003, p. 11-36, https//: Doi.org 10.1590/S0102-01882003000100002. . A cultura visual extrapola manifestações tradicionalmente associadas à arte, em suas diferentes vertentes, como a escultura e a pintura, por exemplo, abrangendo, também, fotografias, espaços expositivos, museus e representações visuais em movimento, como filmes e audiovisuais. Um dos focos de análise desse campo é o estudo dos modos culturais de ver, das relações entre o ver e o não-ver, dos filtros pelos quais aprende-se a olhar a natureza e a sociedade, discutindo-se, igualmente, os nexos entre ver e conhecer, bem como procedimentos culturais de observação/ação que podem obliterar ao invés de esclarecer7 7 Conferir: OLIVEIRA, Cecilia Helena L. de Salles. Museus de História em debate: controvérsias e interfaces entre memória e conhecimento histórico. In: HERNANDEZ, F; CURSINO, A et al (org). Museologia e Património. Leiria (Portugal), Instituto Politécnico, 2019, p. 146-175; CHRISTO, Maraliz; PICCOLI, V; PITTA, f (Org). Coleções em diálogo: Museu Mariano Procópio e Pinacoteca de São Paulo. São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2015. . Como observou Manuel Luís Salgado Guimarães:

“...Tornou-se lugar comum a afirmação de que vivemos em um tempo marcado pela força das imagens - e da visão como um dos sentidos fundamentais para a apreensão e decodificação do mundo que nos cerca...O que ver, quando parece que podemos tudo ver em virtude dos meios postos a serviço da escrita da História? Como refletir acerca dessa complexa relação entre o visível e o invisível, que está na raiz mesma do trabalho do historiador, quando os meios de visibilidade do passado parecem infinitamente alargados pela capacidade técnica de arquivamento do passado?...” 8 8 GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Vendo o passado: representação e escrita da história. Anais do Museu Paulista da USP, vol. 15, n. 2, jul/dez, 2007, p. 11-30, https//: Doi.org/10.1590/S0101-47142007000200002.

Roger Chartier, entre outros autores, lembrou, por outro lado, como a produção de imagens, em suportes os mais diferenciados, está imbricada à produção e veiculação de discursos sobre o poder, sobre as relações sociais, as hierarquias e formas de dominação9 9 CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados, São Paulo, USP, vol.5, n. 11, 1991, p. 173-191, https//: Doi.org 10.1590/S0103-40141991000100010. . Para ele, a partir das revoluções liberais de fins do século XVIII, as lutas políticas engendraram, simultaneamente, lutas simbólicas e de representação. Compreende-se, desse modo, o peso de monumentos, pinturas históricas, panteões, esculturas, arcos do triunfo, bandeiras, flâmulas, gravuras e demais formas de representação visual na configuração do universo da política, em concomitância à construção de memórias e de narrativas históricas que cristalizaram, na escrita e em imagens, interpretações sobre episódios, personagens e cronologias10 10 ANDERSON, Benedict. Op.. cit; e HOBSBAWM, Eric & RANGER, Terence (org). A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984. .

Já Paulo Knauss, ao discutir o delineamento do campo de estudos que se convencionou denominar “cultura visual”, salienta não apenas diferentes modos de abordar imagens e representações ao longo do tempo como sublinha questões que ajudaram a balizar este Dossiê. A primeira delas diz respeito aos vínculos entre narrativas visuais, produção de sentidos e processos sociais. “Os significados não são tomados como dados, mas como construção cultural”, o que para o autor conduz a uma segunda ordem de questionamentos: “a sociedade também se organiza a partir do confronto de discursos” e é “nesse terreno que se estabelecem as disputas simbólicas como disputas sociais”11 11 KNAUSS, Paulo. Op. cit;. Ver, também, MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. Op.cit. . Os processos de produção e atualização de sentidos no âmbito de lutas políticas e de representações levam à compreensão de que, tal como as palavras, mas em uma dimensão diversa e específica em relação ao texto escrito, as imagens não são manifestações destinadas à contemplação ou mera manipulação, constituindo-se em agentes ativos de mobilização e ação política bem como de configuração da memória12 12 Consultar a esse respeito: VESENTINI, Carlos Alberto. A teia do fato. Proposta de estudo sobre a memória histórica. São Paulo, PPG História Social/HUCITEC, 1997. .

Representações visuais produzidas durante os movimentos independentistas e ao longo dos processos conflituosos de construção das nacionalidades em antigas áreas coloniais, nos séculos XIX e XX, vem sendo intencionalmente replicadas por seu possível valor estético e, notadamente, porque projetam uma “realidade” experimental e presencial de um passado, continuadamente reformulado e reconstituído como recurso para o exercício do poder. Imagens e figuras repetidas a exaustão, mas deslocadas das intenções e das circunstâncias históricas em que foram forjadas, não só canalizam o olhar, treinam a visão a reconhecer ali uma biblioteca de símbolos relacionados a identificação nacional, como alimentam versões sobre a nação e suas características, buscando coletivizar e mobilizar comunidades para formas de visualizar e reconhecer positivamente uma cultura que naturaliza em nome da liberdade e da igualdade, hierarquias e desigualdades.

As contribuições aqui reunidas, ao mesmo tempo em que aprofundam a análise sobre os conjuntos documentais específicos, lançam questionamentos sobre os nexos indissolúveis entre cultura e política, entre escrita da História nacional e imagens, concretizadas na forma da pintura histórica, do cinema e de monumentos públicos. Em um momento tão complexo como o que vivemos no qual, em função de interesses mercadológicos e políticos mesquinhos, um turbilhão de imagens nos agride cotidianamente, espalhando a ficção de realidades paralelas e destruidoras da dimensão humana e coletiva da vida, nada mais oportuno do que as reflexões propostas por Ana Carolina, Armelle, Carlos Rogério e Yobenj. Cada um deles, no âmbito de suas perspectivas metodológicas e documentais, nos convida a mergulhar no universo da cultura visual, mas levando conosco o crivo da crítica, das vinculações entre o passado e o presente nacionais e, notadamente, da possibilidade de ressignificar patrimônios que se tornaram familiares, mas que são igualmente documentos de dominação política, do mercado soberano e da exclusão dos que não conseguem sobreviver aos processos competitivos.

Referências bibliográficas

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  • 5
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  • 6
    Ver sobre o assunto: KNAUSS, Paulo. O desafio de fazer história com imagens: arte e cultura visual. ArtCultura. Uberlância, v. 8, n.12, jan/jun, 2006, p. 97-115, www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/1406; MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. Fontes visuais, cultura visual, História visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH, v. 23, n. 45, 2003, p. 11-36, https//: Doi.org 10.1590/S0102-01882003000100002.
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    Conferir: OLIVEIRA, Cecilia Helena L. de Salles. Museus de História em debate: controvérsias e interfaces entre memória e conhecimento histórico. In: HERNANDEZ, F; CURSINO, A et al (org). Museologia e Património. Leiria (Portugal), Instituto Politécnico, 2019, p. 146-175; CHRISTO, Maraliz; PICCOLI, V; PITTA, f (Org). Coleções em diálogo: Museu Mariano Procópio e Pinacoteca de São Paulo. São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2015.
  • 8
    GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Vendo o passado: representação e escrita da história. Anais do Museu Paulista da USP, vol. 15, n. 2, jul/dez, 2007, p. 11-30, https//: Doi.org/10.1590/S0101-47142007000200002.
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    Consultar a esse respeito: VESENTINI, Carlos Alberto. A teia do fato. Proposta de estudo sobre a memória histórica. São Paulo, PPG História Social/HUCITEC, 1997.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Dez 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    20 Out 2021
  • Aceito
    22 Out 2021
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