ALMANACK: DEZ ANOS E 29 NÚMEROS DEPOIS

Wilma Peres Costa André Roberto de Arruda Machado Sobre os autores

Completamos 10 anos da nossa revista Almanack (2011-2021), refundação do Almanack Braziliense (2005-2010), que a antecedeu e foi publicado pelo IEB-USP.3 3 As edições da Almanack Braziliense podem ser consultadas em: https://www.revistas.usp.br/alb/issue/view/852 É com alegria que vemos que a iniciativa que nasceu a partir do Projeto Temático A Formação do Estado e da Nação Brasileira (c. 1750- c. 1850), coordenado por István Jancsó e financiado da FAPESP, cumpriu seu ideal. Consolidou-se como uma revista interinstitucional, expressando a pertinência do recorte que estabeleceu - o estudo de um tempo (o “longo” século XIX, que se espicha da segunda metade do século XVIII ao início do século XX) e de um artefato - o estado nação.4 4 Para se ter ideia dos debates que originaram a própria construção do Projeto Temático e, consequentemente a própria Almanack, continuando sendo referências duas coletâneas: JANCSÓ, István (org.) Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec / Fapesp, 2005; JANCSÓ, István. Brasil: formação do Estado e da nação. São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2003. Com ele, tornou-se singular como revista acadêmica temática, publicada no Brasil, trazendo, a partir do olhar do mundo ibérico e latino-americano, a reflexão sobre esse período que tem sido perscrutado por revistas europeias como a francesa Revue du XIX éme siécle e a inglesa Nations and Nationalism.

Sabemos todos os que estamos engajados em sua feitura, que cada número é uma pequena vitória, em nossas difíceis circunstâncias acadêmicas, em que o imponderável se torna cada vez mais normal e planejar o longo prazo parece sempre uma utopia. Mas as comemorações não são feitas para tristezas e, sim, para fortalecermos nosso ânimo com o olhar sobre o caminho percorrido e recobrar o fôlego para prosseguir na caminhada.

Pensamos em jabuticabas. Pedimos desculpas aos parceiros do nosso conselho, que não são brasileiros e que nos engrandecem e orgulham nesse empreendimento comum, por mencionar essa maravilhosa e doce frutinha preta que acabou por ser um símbolo do nosso país e quase um sinônimo, em português, de “peculiaridade”. Um percurso pelo google pode sanar rapidamente esse eventual desconhecimento e trazer lindas imagens dessas floradas brancas anuais que, diferentemente de outras, se espalham por todo o tronco das árvores, antes dos frutos que virão depois, para a alegria das crianças e dos passarinhos.

No Brasil, dizemos que alguma coisa “é uma jabuticaba” para enfatizar que ela é típica ou exclusivamente brasileira. Certamente (e felizmente) esse não é o caso da nossa revista, que tem ampliado sua abrangência a partir da temática que lhe deu inicialmente um norte - a formação dos estados e das nações no “longo século XIX”, buscando ultrapassar as armadilhas da história nacional e da renitente historiografia do contraste que marcava as abordagens tradicionais, distinguindo o caso brasileiro de seus congêneres norte-americanos. Problematizando essa jabuticaba, portanto, e abrindo a agenda para a pesquisa do tempo compartilhado das experiências americanas e as múltiplas formas de politização das identidades coletivas ocorridas no continente.

A jabuticaba que evocamos aqui liga-se à árvore dessa fruta, conhecida pelo tempo enorme que ela leva para frutificar - entre 10 e vinte anos com métodos tradicionais - por isso poucas pessoas se animam a plantá-las.

István Jancsó era um homem que plantava jabuticabeiras, mas não era adepto dos modos tradicionais. Explicamos, para os mais jovens, e rememoramos, para os mais antigos, seu gesto no encontro do Centro de Estudos do Oitocentos, em 2008, ao propor a parceria entre duas iniciativas de pesquisa que corriam paralelas - a do Centro de Estudos do Oitocentos (CEO), coordenado por José Murilo de Carvalho e financiado pelo PRONEX / CNPq - FAPERJ sediado no Rio de Janeiro, com o concurso de pesquisadores de diversas partes do Brasil e o Temático que ele então coordenava, também atraindo historiadores do Brasil e do exterior. A proposta de junção de esforços e de parceria acadêmica envolvia também a reconfiguração da revista (então, Almanack Braziliense), que ganharia assim um perfil definitivamente interinstitucional. Nosso mestre, que nos deixou em 2010, não viveu para ver os resultados plenos dessa iniciativa, mas é importante registrar o seu caráter incomum em nosso meio acadêmico, sempre tão cioso de suas territorialidades. Dessa parceria surgiu o Almanack, viabilizado pela Unifesp, que acolheu a revista com o perfil interinstitucional proposto, deu-lhe importante suporte financeiro inicial e tudo tem feito para que ela se mantenha e amplie seu escopo.

Desde a sua criação, em 2011, a Almanack aprofundou o seu caráter interinstitucional e a sua internacionalização. Para além das nove universidades fundadoras e que nos tem viabilizado financeiramente - UNIFESP, USP, UFF, UNIRIO, UERJ, UFJF, UFOP, UFES e UFRRJ - ao longo dos dez anos assistimos a incorporação de membros do Conselho Editorial - órgão que toca o dia a dia da revista - de outras universidades brasileiras - como a PUC-RJ, UFS - e estrangeiras - como Yale, College of Willian and Mary (ambas dos EUA), Paris 1 (França), Universidade Nacional de Formosa (Argentina), Universidade de Valência (Espanha). Não apenas o Conselho Editorial, mas o próprio posto de Editores Chefes e Editor Executivo se diversificou e se internacionalizou: hoje ocupam esses cargos a professora Claudia Maria das Graças Chaves (Universidade Federal de Ouro Preto - Editora Chefe), Valentina Ayrolo (Universidad Nacional de Mar del Plata - Vice Editora Chefe) e André Roberto de Arruda Machado (Universidade Federal de São Paulo - Editor Executivo).

A diversificação do corpo editorial da revista é apenas uma face da sua exogenia e internacionalização, algo também evidente na origem das contribuições da revista: segundo as métricas disponíveis no Scielo, dos 402 textos publicados nesses últimos dez anos, mais de 25% foram escritos por autores afiliados em universidades estrangeiras. Dessas contribuições internacionais, destaque-se 28 textos de pesquisadores da Argentina, 22 originados nos Estados Unidos e 14 vindos da Espanha. Com exceção da Oceânia, nesses últimos dez anos a Almanack teve o prazer de publicar ao menos um artigo de cada um dos continentes do globo. Quando observada as contribuições de origem nacional, a diversidade se mantém: tomando como exemplo o ano de 2020, os 31 textos de autores de universidades brasileiras tiveram origem em 18 instituições diferentes.

A diversidade e qualidade dos textos, logo renderam a Almanack o reconhecimento acadêmico. Em sua primeira avaliação, a revista já chegou ao estrato superior do Qualis da Capes (A2). Em 2016, a revista passou a integrar a Coleção Scielo, meta alcançada apenas para 13 revistas de História no Brasil. Seus editores também estiveram presentes no movimento que redundou na criação do Portal de Periódicos da UNIFESP, em 2019.Todos esses fatores somados levaram a uma maior circulação do periódico. Demonstra isso o recorde de acessos alcançado pela revista em novembro de 2020: quase 31 mil em apenas um mês. Considerando cada número isoladamente, o número 06 alcançou a incrível marca de mais de 140 mil downloads. Entre os artigos, os 10 mais acessados contam cada um com pelo menos 10 mil acessos.

Para além de divulgar os estudos sobre o século XIX e a formação dos Estados e Nações, a Almanack sempre se caracterizou pelo papel de organizar e impulsionar o debate na área. Os fóruns - secção que reúne grandes especializadas em torno de uma temática de fronteira do conhecimento - sempre foram a grande marca da revista, ao que se agregou nos últimos anos a organização de dossiês. Para além do universo da revista, em 2013, um grupo de historiadores do CEO e do antigo Temático - grande parte deles ligados a Almanack - decidiu criar a Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos (SEO), entidade que vem mantendo e alargando o campo de pesquisas sobre o século XIX, com encontros internacionais, seminários temáticos na Anpuh e encontros de pós graduandos nas várias regiões do país. A fundação da SEO estreitou as malhas da rede de estudiosos sobre o século XIX, além de abrigar em todos os seus seminários internacionais um dos fóruns da revista Almanack.

As circunstâncias difíceis da pandemia que atingem a todos, impedindo os eventos presenciais, convergiram com os preparativos da comemoração das efemérides das independências latino-americanas, para as quais a revista projetava um conjunto importante de novas iniciativas. Enfrentando o desafio com coragem e compromisso público, a revista vem passando por uma verdadeira reinvenção, ao investir em novas práticas, explorando os meios digitais e buscando intensificar o contato com o público. Assim, no último ano a revista tem se notabilizado por experimentar diversos formatos de eventos transmitidos pela internet.

Ainda buscando alcançar públicos mais amplos, a Almanack chega aos seus dez anos com mais dois projetos ousados: o primeiro deles em parceria com a ANPUH e com a SEO devem promover, entre dezembro de 2021 e setembro de 2022, a publicação semanal de textos de divulgação para público amplo voltados ao tema da independência do Brasil. Outro projeto em discussão, em parceria com o Profhistória da UNIFESP, pretende elaborar materiais para uso didático a partir de artigos da revista.

Sem dúvida, nossa Almanack é hoje uma árvore frondosa e produtiva. Ela existe por que existem (raras) pessoas que plantam jabuticabeiras mesmo sabendo que talvez não venham a provar seus frutos. E existem pessoas que as adubam, podam, cuidam delas, para que as crianças e passarinhos possam conhecer, provar seus frutos, descansar à sua sombra. E replantar. Não é esse (também) nosso ofício?

Bibliografia

  • JANCSO, Istvan (org.). Brasil: formacao do Estado e da nacao. Sao Paulo: Hucitec/Fapesp, 2003.
  • JANCSO, Istvan. (org.) Independencia: história e historiografia. Sao Paulo: Hucitec / Fapesp, 2005.

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    As edições da Almanack Braziliense podem ser consultadas em: https://www.revistas.usp.br/alb/issue/view/852
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    Para se ter ideia dos debates que originaram a própria construção do Projeto Temático e, consequentemente a própria Almanack, continuando sendo referências duas coletâneas: JANCSÓ, István (org.) Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec / Fapesp, 2005JANCSO, Istvan. (org.) Independencia: história e historiografia. Sao Paulo: Hucitec / Fapesp, 2005.; JANCSÓ, István. Brasil: formação do Estado e da nação. São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2003JANCSO, Istvan (org.). Brasil: formacao do Estado e da nacao. Sao Paulo: Hucitec/Fapesp, 2003..

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Dez 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    11 Nov 2021
  • Aceito
    12 Nov 2021
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