Análise da qualidade de vida dos pacientes do grupo de quadril adulto operados com enxerto ósseo

Analysis of the quality of life of patients of the adult hip group operated with bone graft

Resumos

O Banco de Tecidos do IOT-HCFMUSP tem o objetivo de captar e processar tecido ósseo, cartilagem e ligamentos, com a finalidade de beneficiar o maior número possível de pacientes. Constituído por médicos, enfermeiros e assistente social, o programa visa ainda propiciar aos receptores a reabilitação física e social com a perspectiva de lhes oferecer uma melhor qualidade de vida. Realizou-se um estudo objetivando conhecer os benefícios e mudanças ocorridas com o tratamento cirúrgico e analisar se a expectativa bem como a melhoria na qualidade de vida dos pacientes foram atingidas. Os dados apontam que 37,5% da população pertence à classe C, 37,5% classe D e 25% classe E. O suporte familiar foi satisfatório para 81,25% da população, sendo que 37,5% apresentaram rendimento mensal regular ou insatisfatório para o tratamento. Das dificuldades apresentadas anterior à cirurgia 93,75% dos pacientes apresentaram dor, o que causava limitações físicas e dificuldades de locomoção nas Atividades da Vida Diária. 100% dos pacientes consideraram que a cirurgia trouxe benefícios para sua qualidade de vida e destes 56,25% aboliram os equipamentos ortopédicos que faziam uso, relatando ausência de dor. Concluímos que o tratamento proporcionado pela equipe tem trazido benefícios e resultados significativos para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Transplante ósseo; Qualidade de vida


The objective of the Tissue Bank of the IOT-HCFMUSP (Institute of Orthopedics and Traumatology, Clinics Hospital, Faculty of Medicine, University of Sao Paulo, SP-Brazil) is to collect and process bone tissue, cartilage and ligaments, with the purpose of providing benefits to the largest possible number of patients. The program is formed by physicians, nurses and assistant social worker, viewing to provide those who receive it with physical and social rehabilitation, with the perspective of providing them with a better quality of life. A study was performed with the objective of knowing the benefits and changes occurred regarding surgical treatments and analyze whether the expectation, as well as the improvement in the patients' quality of life, were achieved. The data indicate that 37.5% of the population is included in the C class; 37.5% in the D class and 25% in the E class. Family support was satisfactory in 81.25% of the population, and 37,5% had monthly incomes that were either regular or unsatisfactory to the treatment. As to the difficulties presented previous to the surgery, 93.75% of the patients had pain that caused physical limitations and locomotion problems in Daily Life Activities. One hundred percent of the patients considered that the surgery brought benefits to their quality of life; 56.25% of these patients abandoned the orthopedic equipment they were using, reporting absence of pain. Our conclusion is that the treatment provided by the team has brought significant benefits and results to the improvement of the quality of life of the patients.

Bone transplant; Quality of life


ARTIGO ORIGINAL

Análise da qualidade de vida dos pacientes do grupo de quadril adulto operados com enxerto ósseo

Vera Lucia Frazão de SousaI; Rosângela Suarti dos ReisII; Antonio Carlos BernabéIII

IAssistente Social

IIDiretora do Serviço Social Médico

IIIDoutor em Ortopedia Especialista em patologia do quadril. Médico Assistente chefe de equipe

Endereço para correspondência

RESUMO

O Banco de Tecidos do IOT-HCFMUSP tem o objetivo de captar e processar tecido ósseo, cartilagem e ligamentos, com a finalidade de beneficiar o maior número possível de pacientes. Constituído por médicos, enfermeiros e assistente social, o programa visa ainda propiciar aos receptores a reabilitação física e social com a perspectiva de lhes oferecer uma melhor qualidade de vida. Realizou-se um estudo objetivando conhecer os benefícios e mudanças ocorridas com o tratamento cirúrgico e analisar se a expectativa bem como a melhoria na qualidade de vida dos pacientes foram atingidas. Os dados apontam que 37,5% da população pertence à classe C, 37,5% classe D e 25% classe E. O suporte familiar foi satisfatório para 81,25% da população, sendo que 37,5% apresentaram rendimento mensal regular ou insatisfatório para o tratamento. Das dificuldades apresentadas anterior à cirurgia 93,75% dos pacientes apresentaram dor, o que causava limitações físicas e dificuldades de locomoção nas Atividades da Vida Diária. 100% dos pacientes consideraram que a cirurgia trouxe benefícios para sua qualidade de vida e destes 56,25% aboliram os equipamentos ortopédicos que faziam uso, relatando ausência de dor. Concluímos que o tratamento proporcionado pela equipe tem trazido benefícios e resultados significativos para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Descritores: Transplante ósseo; Qualidade de vida.

INTRODUÇÃO

A diretriz para reestruturação do Banco de Tecidos do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IOT-HCFMUSP), foi baseada na lei nº 9434, de 04 de fevereiro de 1997, regulamentada pelo decreto nº 2268, de 30 de junho de 1997, que "dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes e tratamento"(3,4). Esta reestruturação trouxe a possibilidade de atuação do Serviço Social junto à equipe interdisciplinar, que está constituída por: médicos ortopedistas, enfermeiros e assistente social. Após a indicação do enxerto ósseo, o Serviço Social tem se utilizado de instrumental específico para o conhecimento das seguintes variáveis: identificação do paciente, dados sócio demográficos, infra-estrutura socioeconômica e familiar, aspectos culturais e religiosos, nível de participação, aderência e mobilização do paciente e família frente ao tratamento, tendo em vista inseri-lo na fila única do Banco de Tecidos e o seguimento ambulatorial no pós-cirúrgico.

A indicação médica para o enxerto ósseo se faz necessária no tratamento das patologias que evoluem com perdas ósseas. Estas podem ser causadas por traumas, nas solturas de artroplastias do quadril ou nos tumores ósseos. O enxerto ósseo deverá repor o estoque ósseo perdido pelo paciente na evolução dessas patologias(1).

O programa do Banco de Tecidos visa propiciar aos receptores a reabilitação física e social com a perspectiva de lhes oferecer uma melhor qualidade de vida.

O conceito de qualidade de vida tem recebido atenção cada vez maior, não só na literatura científica, como também nos meios de comunicação, nas campanhas publicitárias e plataformas políticas, tornando-se um termo muito estudado na sociedade atual. Este é um fenômeno complexo, com uma grande variedade de significados, tendo diversas possibilidades de enfoque para sua abordagem e inúmeras controvérsias teóricas e metodológicas para a exploração do conceito(6) .

A qualidade de vida em sua essência, pode ser traduzida pela satisfação de viver. "O estado de satisfação ou de insatisfação constitui, na verdade, experiência de caráter pessoal e está ligado ao propósito de obtenção de melhores condições de vida. O grau de ajustamento às situações existentes, ou então o desejo de mudança, poderão servir para a presença ou ausência de satisfação"(5).

Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, qualidade de vida foi definida como "a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores, nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações"(7).

Apesar de várias abordagens, os estudiosos concordam que é muito difícil medir qualidade de vida, uma vez que é um conceito subjetivo e intrínseco(8) .

Diante destas considerações, o Serviço Social propôs-se a realizar um estudo objetivando conhecer os benefícios e mudanças ocorridas após o tratamento cirúrgico dos pacientes do Grupo de Quadril Adulto e analisar se a expectativa bem como a melhoria na qualidade de vida destes pacientes foram atingidas. Espera-se também com este estudo, identificar e oferecer subsídios do ponto de vista social, favorecendo a equipe em sua atuação junto ao paciente.

MATERIAL E MÉTODOS

A lista única do Banco de Tecidos é constituída por pacientes oriundos dos diversos grupos especializados do IOT-HCFMUSP. O assistente social realiza, como rotina, a Avaliação Social de todos os pacientes inseridos na referida lista e acompanha individualmente cada caso nas fases pré e pós-cirúrgico, visando auxiliar pacientes e familiares nas situações sociais que possam interferir no decorrer do tratamento médico.

Nosso interesse incidiu sobre a problemática social dos pacientes do Grupo de Quadril Adulto pois, estes são portadores de desconforto causados pela dor que os limita para o exercício de sua profissão e nas atividades da vida diária.

No período de agosto de 1998 a junho de 2000 foram inseridos na lista única do Banco de Tecidos 145 pacientes para cirurgia de transplante ósseo, dos quais 50 foram operados, alguns reabilitados e outros em reabilitação. Foram delimitados para a pesquisa 20 pacientes (40% do total operado), cuja cirurgia e reabilitação transcorreu um período superior a 12 meses. Este é um período considerado ideal para que o paciente do Grupo de Quadril Adulto, receptor de tecido ósseo, retorne às suas atividades da vida diária.

A abordagem utilizada foi quanti-qualitativa. O instrumento de pesquisa foi um Formulário de Entrevista estruturado com questões fechadas e abertas, buscando analisar dados objetivos e subjetivos sobre a infra estrutura socioeconômica e familiar, aspectos do suporte para o tratamento, bem como da vida anterior e posterior ao enxerto ósseo. Foram construídos a partir da experiência do serviço social, considerando a participação dos familiares e de colaterais, no que se refere a: presença e disponibilidade para acompanhamento e cuidados no domicílio, colaboração entre os membros, mobilização de recursos materiais e de transporte para o tratamento e infra-estrutura habitacional. Também foi enfocada a percepção dos pacientes sobre sua qualidade de vida e analisada a classificação socioeconômica a partir do critério de Classificação Econômica Brasil, reformulado em 1997(2).

A amostra do estudo foi abordada nos retornos ambulatoriais e convocada através de contatos telefônicos, quando esclarecemos o objetivo da pesquisa e solicitamos o consentimento para sua participação. Os dados foram coletados em entrevistas individuais, sendo que apenas 16 pacientes compareceram, em razão de óbito (2) e residirem em outro Estado (2).

APRESENTAÇÃO DOS DADOS







RESULTADOS

Dos 16 pacientes pesquisados, constatamos que não houve predominância quanto ao sexo pois, 8 (50%) eram do sexo feminino e 8 (50%) do sexo masculino. A faixa etária revelou que 9 (56,25%) pacientes tinham idade entre 21 a 50 anos, sendo que apenas 4 (25%), a idade era superior a 60 anos, ou seja, considerados do grupo de pessoas idosas (Gráfico 1). Doze pacientes (75%) eram católicos, não houve predominância quanto à cor, sendo 8 (50%) brancos e 8 (50%) da raça negra e destes 5 (31,25%) eram pardos e 3 (18,75%) eram negros. 7(43,75%) pacientes eram solteiros , 8 (50%) casados e apenas 1 (6,25%) divorciado.

Quanto a procedência, a grande maioria, 10 (62,50%) residia na capital, sendo que destes, 1 paciente residia em outro Estado anteriormente à cirurgia, mudando-se definitivamente para capital em virtude do tratamento. Os demais,5 (31,25%) procediam da Grande São Paulo e apenas 1 (6,25%) era do interior do Estado.

O grau de instrução mostrou que 1 (6,25%) dos pacientes nunca freqüentou escola e 1 (6,25%) possuía o curso superior completo. Dos demais, 8 (50%) efetivaram o Ensino Fundamental . Com relação a classificação socioeconômica, a pesquisa revelou que 37,5% pertencem à classe C, outros 37,5% à classe D e 25% são pacientes da classe E, segundo o critério de Classificação Econômica Brasil.

Dos 16 pacientes pesquisados, 12 (75%) eram vinculados ao sistema previdenciário anteriormente ao tratamento, sendo que destes apenas 3 (18,75%) estavam inseridos formalmente no mercado de trabalho. Os 9 (56,25%) restantes estavam em benefício previdenciário conforme Gráfico 2. Posterior ao tratamento, 1 (6,25%) paciente passou a ser contribuinte da previdência social, estando vinculado formalmente ao mercado de trabalho.

Com relação a atividade ocupacional, verificou-se que 11 (68,75%) pacientes estavam inativos antes do transplante ósseo. Após o transplante e decorridos 12 meses de reabilitação, constatou-se que 14 (87,50%) pacientes retornaram, com alguns cuidados e moderações, às atividades ocupacionais (Gráfico 3).

Conforme Gráfico 4, no que se refere ao tipo de cirurgia, verificou-se que a grande maioria, 13 (81,25%) pacientes, foi submetida à Revisão de Artroplastia Total de Quadril Unilateral com enxerto ósseo, 2 (12,50%) pacientes Revisão de Artroplastia Total de Quadril Unilateral com transplante de fêmur e 1 (6,25%) Revisão de Artroplastia Total de Quadril bilateral com enxerto ósseo. Há uma predominância de pacientes com estatura baixa e média baixa, pois 11 (68,75%) pacientes encontram-se na faixa de 1,50m a 1,65m de estatura.

A massa corpórea foi analisada anterior e posteriormente ao tratamento e verificou-se que após a cirurgia 9 (56,25%) pacientes tiveram aumento de peso.

Com relação ao suporte social no decorrer do tratamento, verificou-se que a participação da família foi satisfatória para 13 (81,25%) pacientes. Todos residiam em casa, porém 5 (31,25%) pacientes possuíam casas desprovidas de infra-estrutura total, localizadas em terrenos acidentados. Cerca de 10 (62,50%) pacientes apresentaram renda satisfatória no decorrer do tratamento.

No que se refere à expectativa dos pacientes com relação ao tratamento, o resultado revelou que a grande maioria 15 (93,75%), esperava obter um ou mais benefícios, sendo que apenas 1 (6,25%), por acreditar que sua situação era irreversível, esperava pela diminuição da dor.

Foram analisados alguns aspectos da vida pessoal dos pacientes e verificou-se que enfrentavam as seguintes dificuldades:

Físico: 100% dos pacientes tiveram dificuldades para dormir, andar, sentar, dirigir, higienizar-se ou permanecer muito tempo na mesma posição devido a dor, perda da mobilidade e claudicação.

Locomoção: 93,75% dos pacientes referiram dificuldades, acentuadas pela dor, para subir em ônibus e andar, sendo que destes 12 (75%) evitavam andar e só saiam de casa para ir ao médico e 3 (18,75%) referiram que, por receio de perder o emprego, vergonha e complexo de inferioridade, não usavam o equipamento ortopédico prescrito pelo médico. Apenas 1 paciente referiu não ter dor, no entanto era acometido pela perda de mobilidade.

Profissional: as atividades profissionais eram exercidas, em geral, com muita dificuldade devido a dor e limitação física. Houve adequações como: mudança no horário de trabalho para evitar o trânsito, cadeiras mais altas e ao nível da mesa e da pia da cozinha.

Social: o isolamento social esteve presente em 15 (93,75%) dos casos, salientando-se que para 6(37,50%) pacientes o isolamento foi total em razão da dor e limitação física.

Lazer: apenas 1(6,25%) referiu ter vida normal neste aspecto. Os demais, 10 (62,50%) praticavam com dificuldades, futebol, vôlei, freqüentavam igreja, estádios de futebol, festas, shopping e cinemas e 5(31,25%) não praticavam nenhum tipo de lazer devido a dor, limitação física, depressão, preconceito e dificuldades financeiras.

Com relação aos benefícios obtidos após a cirurgia, os 16 pacientes pesquisados (100%) consideram que a cirurgia trouxe algum tipo de benefício que tenha contribuído para a melhoria de sua qualidade de vida. Na avaliação feita pelos pacientes com relação aos benefícios obtidos com a cirurgia, verificou-se que 9 (56,25%) consideraram os resultados excelentes e 7(43,75%) satisfatórios, porém com significativa melhoria da qualidade de vida.

Foram analisados os mesmos aspectos em que os pacientes apresentavam dificuldades antes da cirurgia e verificou-se que ocorreram as seguintes mudanças posteriormente ao tratamento cirúrgico:

Físico: a ausência total da dor e da limitação física proporcionou melhor conforto para sentar e dormir a 13 (81,25%) pacientes, dos quais 9 (56,25%) referiram insegurança para dormir do lado operado, dobrar o quadril para higienizar os pés, ficar de pé por muito tempo e praticar algum tipo de atividade que exija esforço físico.

Locomoção: Apenas 3 (18,75%) pacientes referiram que, dor e claudicação, mesmo não sendo significativa, ainda os incomoda na locomoção. Apenas 6 (37,50%) pacientes, se utilizam de bengala para algumas situações como: atravessar ruas e avenidas e ficar em fila de agências bancárias. Alegam que o uso deste equipamento lhes proporciona maior segurança e proteção.

Profissional: Verificamos a inclusão de 1 paciente no mercado trabalho, sendo este seu primeiro emprego, somando portanto 4 (25%) pacientes inseridos no mercado formal de trabalho. 9(56,25%) pacientes passaram a exercer atividades moderadas, com cautela, no lar, ou no próprio estabelecimento comercial e atividades de costuras.

Social: para 14(87,50%) pacientes a vida social passou a ter outro significado proporcionando-lhes participação ativa nas atividades sociais.

Lazer: 14(87,50%) pacientes passaram a praticar algum tipo de lazer sem dificuldades. Apenas 6(37,50%) destes, referem ainda moderação e cautela neste aspecto. 2 (12,50%) pacientes referem pouca participação na vida social e lazer em virtude da ausência de companhia e dificuldades financeiras, ressaltando que suas residências são desprovidas de infra estrutura, possuem escadas e são localizadas em terreno acidentado, o que dificulta a sua locomoção. Salienta-se ainda que estes 2 pacientes aguardam cirurgia no outro membro.

DISCUSSÃO

Os resultados evidenciam que anteriormente à cirurgia de enxerto ósseo, os pacientes do Grupo de Quadril Adulto apresentam dor, o que lhes causa limitação física e dificuldade de locomoção nas mais simples atividades da vida diária. Estes pacientes convivem com outros problemas, entre eles o isolamento social, a limitação na participação em atividades de lazer e necessidade de adaptações com relação ao exercício de atividades profissionais.

A pesquisa nos possibilitou uma maior reflexão sobre as condições em que vivem os pacientes que necessitam de enxerto ósseo e das dificuldades por eles vivenciadas.

A análise da vinculação ao sistema previdenciário anteriormente ao tratamento nos proporcionou importantes informações à este respeito, pois verificou-se que a grande maioria ,12 (75%) possuía algum vínculo previdenciário, porém apenas 3 (18,75%) estavam inseridos formalmente no mercado de trabalho. Os demais estavam afastados por aposentadoria ou auxílio doença. Posterior ao tratamento, 1 (6,25%) paciente passou a ser contribuinte da previdência social, estando vinculado formalmente ao mercado de trabalho.

Na análise da atividade ocupacional, verificou-se que, após a instalação da doença e enquanto o paciente aguardava a convocação para o transplante ósseo, 11 (68,75%) pacientes estavam inativos. Após o transplante ósseo e decorridos 12 meses de reabilitação, constatou-se que 14 (87,50%) pacientes retornaram, com alguns cuidados e moderações, às atividades ocupacionais (Gráfico 3). Se compararmos este dado à situação previdenciária, verifica-se que apenas 1 inseriu-se no mercado formal de trabalho, porém o número de pacientes que passou a exercer algum tipo de atividade ocupacional, mesmo estando em benefício previdenciário, foi significativo.

Com relação ao tipo de cirurgia, verificou-se que apesar da grande maioria ter sido submetida à Revisão de Artroplastia Total de Quadril Unilateral com enxerto ósseo, observou-se que os 2 (12,50%) pacientes que se submeteram à Revisão de Artroplastia Total de Quadril Unilateral com transplante de fêmur e 1 (6,25%) paciente que fez Revisão de Artroplastia Total de Quadril bilateral com enxerto ósseo, é que enfrentaram maiores dificuldades no período de reabilitação em função da dependência física por um período maior.Para estes 3 (18,75%) o suporte familiar foi prejudicado pois, se referiam a pacientes cujas famílias eram compostas por menor número de membros e apresentaram dificuldades para oferecer o suporte necessário na reabilitação pós cirúrgica . Estes casos são os que necessitam maior atenção da equipe interprofissional, bem como da intervenção do Serviço Social.

A avaliação da moradia dimensionou as dificuldades enfrentadas por 5 pacientes que residiam em casas desprovidas de infra estrutura total e localizadas em terrenos acidentados, o que dificultou o acesso destes pacientes na residência e para os retornos ambulatoriais. Neste sentido 1 paciente necessitou recuperar-se em hospital de retaguarda, não podendo retornar para sua residência (Gráfico 5). Cerca de 10 (62,50%) pacientes apresentaram renda satisfatória no decorrer do tratamento. Observou-se que, devido a cirurgia, o paciente necessita de cuidados especiais na remoção do Hospital para residência e vice-versa, sendo que a mobilização dos familiares evidenciou-se de forma bastante participativa, conforme verifica-se no Gráfico 6.

Nos comentários dos pacientes e na avaliação feita por eles a respeito dos benefícios obtidos após a cirurgia, observamos que o grupo que considerou o resultado Excelente, 9 (56,25%), os aspectos como a ausência total de dor, o desuso de órtese ou do equipamento ortopédico e a ausência da limitação física, proporcionaram um novo sentido às suas vidas. Para os demais, 7(43,75%), apesar de sentirem dor pouco relevante, com os movimentos físicos limitados e usando equipamento ortopédico, a melhoria da qualidade de vida também foi bastante significativa. Acreditamos que para este grupo o sucesso ainda não foi excelente pois, aqui incluem-se pacientes portadores de outras patologias associadas, com cirurgias mais complexas e, portanto, necessitando de um tempo maior para se avaliar o resultado final do tratamento.

A procedência é um dado relevante para a equipe do Banco de Tecidos, em função do suporte social e familiar necessários no pós-cirúrgico e seguimento ambulatorial.

Conforme afirma Forattini(5) a qualidade de vida em sua essência, pode ser traduzida pela satisfação de viver e o estado de satisfação está ligado ao propósito de obtenção de melhores condições de vida. Acreditando no propósito de oferecer melhores condições de vida aos pacientes que necessitam de enxerto ósseo, é que o Grupo de Quadril deste Instituto considera que programas desta natureza devem ser incentivados pelas equipes que atuam com pacientes portadores desta patologia e pelas autoridades da área da saúde.

CONCLUSÃO

Embora as mudanças sejam gradativas, conclui-se que a diminuição da dor e da limitação física após a cirurgia, são aspectos que proporcionam conforto ao paciente, facilitando sua locomoção, garantindo-lhes uma participação mais ativa nas atividades sociais, de lazer e no trabalho.

Verificou-se que a participação da família, é de fundamental importância, pois os dados apontam que a colaboração, presença e disponibilidade dos familiares favorecem o resultado final do tratamento proporcionado pela equipe.

Neste processo, tão complexo, é necessário uma efetiva assistência individualizada por parte dos profissionais junto aos pacientes desde a captação, processamento, distribuição e utilização dos tecidos. A atuação conjunta da equipe interprofissional é de fundamental importância para obtenção de benefícios ao paciente e sua família.

  • Endereço para correspondência
    Rua Dr. Ovidio Pires de Campos, 333
    Cerqueira Cesar - Cep 05403-010
    E-mail:
  • Trabalho recebido em 20/02/2003

    Aprovado em 20/05/2003

    Trabalho realizado no CAPPesq – HC FMUSP – Protocolo 704/00

    Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IOT-HC FMUSP

    • 1. Bernabé AC. Revisão de Artroplastia do Quadril. Reavaliação Clínica e Radiológica de 40 casos. [Tese]. São Paulo:Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de São Paulo; 1996.
    • 2. CRITÉRIO DE CLASSIFICAÇÃO ECONÔMICA BRASIL - ABA, ANEP, ABIPEME, 1997. Reformulação do Critério anterior, (ABA ABIPEM). Disponível em: < http://www.anep.org.br/mura1/anep/ >. Acesso em:4 dez.1997.
    • 3. DIÁRIO OFICIAL DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. LEI N.º 9434, de 4 de Fevereiro de 1997. Dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes e tratamento e de outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 05 de fev. 1997, seção 01, n.º 25, p. 2191.
    • 4. DIÁRIO OFICIAL DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. DECRETO N.º 2268 de 30 de junho de 1997. Regulamenta a lei n.º 9434, de 04 de Fevereiro de 1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes e tratamento e de outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 01 de jul. 1997, n.º 123.
    • 5. Forattini OP. Qualidade de vida e meio urbano: a cidade de São Paulo. Rev. Saúde Pública 25:75-86, 1991.
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    • 8. Silva EB, Ciampone MHT. "Ser/estar amputado deficiência/qualidade de vida percepção da clientela inserida em programa de reabilitação". Rev. Enferm. HCFMUSP 2:13-19, 1998.

    Endereço para correspondência Rua Dr. Ovidio Pires de Campos, 333 Cerqueira Cesar - Cep 05403-010 E-mail: s.social.iot@hcnet.usp.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      16 Fev 2004
    • Data do Fascículo
      Ago 2003

    Histórico

    • Recebido
      20 Fev 2003
    • Aceito
      20 Maio 2003
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