Inserção profissional, políticas e práticas sobre a iniciação à docência: avaliando a produção dos congressos internacionais sobre o professorado principiante

Professional integration, policies and practices on teaching initiation: what reveals the production of international congresses about the beginner teaching.

Maria Isabel da Cunha Marja Leão Braccini Nadiane Feldkercher Sobre os autores

Resumos

A reflexão que toma os docentes iniciantes como eixo de preocupação e análise de estudos e investigações vem se estabelecendo de forma crescente em muitos países, repercutindo em experiências distintas. Na universidade essa preocupação se apresenta particularmente de forma exponencial porque a preparação dos professores da educação superior baseia-se fundamentalmente nos saber da pesquisa e desconsidera os saberes próprios da docência. Mas em todos os níveis de ensino está presente a tensão que caracteriza a condição do professor principiante. Que desafios enfrentam em suas práticas? Como constroem sua profissionalidade? Que iniciativas institucionais e políticas estão voltadas para a inserção dos novos profissionais? Esses são alguns questionamentos que mobilizaram este estudo que tomou os trabalhos apresentados nas três edições do Congreso Internacional sobre Profesorado Principiante e Inserción Profesional a la Docencia para analisar temas e tendências que vêm marcando a pauta de discussão sobre tão importante tema. Utilizou-se a análise documental como fundamento metodológico que indicou a presença de nove enfoques analíticos para organizar a produção científica socializada no evento. As análises procuraram problematizar incidência e distribuição dos temas que podem servir como referente para um estado da arte.

Educação de professores; Professor iniciante; Saberes da docência


The reflection that takes beginner teachers as a central concern and analysis of studies and researches has been established in an increasingly way in many countries, reflecting in different experiences. At the university, this concern appears exponentially, because the preparation of higher education teachers is based primarily on the research knowledge and disregards the teaching specific knowledge. But in all levels of education, the tension that characterizes the novice teacher condition exists. What challenges do they fac in their practices? How do they build their professionalism? What institutional and policy initiatives are focused on the integration of new professionals? These are some questions that guided this study which took the papers presented in the three editions of the International Congress on Beginner Teaching and Professional Insertion into Teaching to analyze trends and themes that have marked the agenda for discussion on this important topic. The documental analysis used as the methodological foundation indicated the presence of nine analytical approaches to organize the scientific production socialized at these events. The analysis tried to discuss the incidence and the distribution of the themes that can be used as reference to a state of the art.

Educations teachers; Novice teacher; Research knowledge


1 Introdução


O tema dos professores iniciantes, no contexto da formação de professores para todos os níveis de ensino, tem se constituído numa preocupação crescente da qual decorrem muitos desdobramentos investigativos e políticos. Progressivamente se institui a compreensão das características próprias da fase de inserção profissional dos novos professores, compreendendo a complexidade de seus desafios. O ingresso na carreira implica nas primeiras experiências de aprendizagem do ofício e, também, em um momento importante de socialização profissional.


A literatura indica que essa preocupação vem ocupando a agenda de muitos países desenvolvidos, há mais de cinquenta anos. Flores (2009)FLORES, M. A. La investigación sobre los primeros años de enseñanza: lecturas e implicaciones. In: MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009. faz uma interessante investigação sobre o desenvolvimento dos estudos sobre a temática e destaca, já em 1975, as contribuições de Lortie (1975)LORTIE, D. School-teacher: a social study. University of Chicago: Press Chicago, 1975., sobre o processo de socialização profissional dos professores. Mayor Ruiz e Sanchez Moreno (2000)MAYOR RUIZ, Cristina; SANCHÉZ MORENO, Marita. El reto de los docentes universitários. Uma experiência com professores noveles. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2000. informam sobre a existência de programas de atenção ao docente iniciante da educação superior, em países como EEUU, Canadá desde os anos 50 e na Inglaterra e França, a partir dos anos 70 e 80 do século XX. Essas constatações poderiam ser acrescidas de muito outros dados, mas crê-se que sejam suficientes para compreendermos que o tema não é novo, mas se agudiza com os cenários das culturas escolares do século XXI.


Uma delas diz respeito à significativa deserção dos professores iniciantes da carreira docente, com importantes prejuízos para muitas nações. Este abandono é particularmente notado em escolas de zonas desfavorecidas, pressupondo um alto custo social e pessoal, como analisa Marcelo Garcia (2009)MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009.. A reação a esta problemática vem sendo percebida, tanto pelos esforços institucionais de implantação e desenvolvimento de programas de acompanhamento dos docentes principiantes, como pela incidência de pesquisas que produzem conhecimento sobre esse campo. Ambos os movimentos têm a intenção de melhorar a retenção e a qualidade docente, com vistas a uma otimização dos recursos humanos e materiais que são investidos nessa direção.


Em pesquisa recentemente realizada no contexto acadêmico (CUNHA, 2010)CUNHA, Maria Isabel da. Trajetórias e lugares de formação da docência universitária: da perspectiva individual ao espaço institucional. Araraquara: JM Editora, 2010. foi possível perceber um interesse significativo dos professores iniciantes em discutir suas práticas, repartir dificuldades e diferenças, compartilhar frustrações e sucessos. Parece ser um período em que os docentes universitário estão buscando o seu estilo profissional, onde estabelecem os valores que vão se constituindo numa marcante cultura. Entretanto as representações e as ideologias profissionais sugerem o individualismo e os joga numa condição de ambigüidade. Por um lado são cada vez mais responsabilizados pelo sucesso da aprendizagem de seus alunos, bem como pelos produtos de sua condição investigativa. Por outro, a preparação que tiveram não responde às exigências da docência e não foram para ela preparados. Mesmo assumindo que a formação inicial não dá respostas lineares aos desafios da prática, a inexistência de qualquer teorização sobre a dimensão pedagógica os torna profissionalmente frágeis, assumindo um papel para o qual não possuem saberes sistematizados. Esta condição se reflete na organização do tempo e no discurso da insuficiência que, se não analisado nas suas causas e conseqüências, leva ao conhecido “mal estar docente”. Como afirmam Correia e Matos (2001, p. 159)CORREIA, José Alberto; MATOS, Manuel. Solidões e solidariedades nos quotidianos dos professores. Porto: ASA, 2001.:


os professores debatem-se hoje com o agravamento desta espécie de fatalidade profissional onde o tempo que lhes falta não lhes permite lidar nem com a diversificação das suas missões nem com a heterogeneidade das temporalidades que habitam a universidade.

Se essa condição afeta aos professores experientes, mas ainda impacta os recém iniciados. Tê-los como tema de investigação e investimento pode ser uma forma de dar visibilidade aos seus desafios. Pode, ainda, significar uma possibilidade de alcançar a proposta que faz Rios (2000)RIOS, Terezinha Azeredo. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. 2000. 182 p. Tese de (Doutorado) em Educação. Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000., para o termo qualidade da educação: aquilo que fazemos bem e que faz bem à gente. É esse o intuito de quem coloca energias nos professores iniciantes.


Tendências dos estudos sobre os professores iniciantes

O tema dos docentes iniciantes, entretanto, dada a sua polissemia, pode ser desdobrado em distintos enfoques. Analisando os estudos que foram apresentados nas três edições do Congreso Internacional sobre Profesorado Principiante e Inserción Profesional a la Docencia promovido pelo Grupo IDEA da Universidade de Sevilha, com a parceria de outras Universidades e Instituições latino-americanas, foi possível perceber esta dinâmica. Esses eventos foram realizados, respectivamente, em Sevilha, em junho de 2008, em Buenos Aires em fevereiro de 2010 e em Santiago do Chile, em fevereiro\março de 2012.


Como processo metodológico, examinamos os textos apresentados nos eventos, publicados nos CDs que foram distribuídos aos participantes. Inicialmente organizamos os materiais pelos títulos e resumos e organizamos dimensões de análise. Num segundo momento fizemos a leitura dos textos para reafirmar sua condição de pertença à dimensão que inicialmente o abrigou. Sem uma definição prévia para a organização das dimensões, tomamos a liberdade de defini-las a partir do critério que adveio de nossas análises. 


O resultado do exercício redundou na organização de oito dimensões. Assumimos que a definição dessas dimensões foram arbitrárias, isto é, poderiam ser organizadas a partir de diferentes critérios. Entretanto a escolha destes descritores emergiu da leitura das comunicações apresentadas nos Congressos e da localização dos focos temáticos explorados. No quadro abaixo procuramos expressar a natureza e intensidade destes estudos.


Quadro
- Dimensões de estudos sobre a temática dos professores iniciantes

Vale uma reflexão sobre os temas e suas incidências. Chama a atenção que as experiências de acompanhamento e formação dos professores iniciantes estivessem entre os primeiro lugares entre os trabalhos apresentados. Teve um especial destaque no II Congresso, onde se constituía como a maior concentração. Talvez porque nesta edição do evento, o tema central de chamada se constituía nessa direção. Se considerarmos todas as três edições, esta categoria assume o terceiro lugar, mas não com grande diferença percentual dos dois eixos mais concorridos.


Essa condição revela a existência de iniciativas institucionais, evidenciando que o processo de inserção profissional dos professores precisa ser compreendido como não sendo uma responsabilidade individual dos mesmos, mas um desafio das políticas públicas. Marcelo Garcia (2009, p. 20)MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009., afirma que “os primeiros anos de docência são fundamentais para assegurar um professorado motivado, implicado e comprometido com a sua profissão”. O investimento institucional vem sendo reconhecido em muitos países e em grupos acadêmicos como de rara importância. Uma das estratégias mais utilizadas e legitimadas lança mão dos chamados docentes mentores ou tutores. Trata-se de uma modalidade que potencializa os saberes de professores mais experientes colando-os a serviço dos docentes principiantes. Certamente há orientações e exigências para a escolha e para a ação dos mentores/tutores. Mas eles se convertem em formadores da iniciação de seus colegas e acabam reciclando a própria formação. Essa estratégia vem sendo usada em sistemas educativos de diferentes níveis, desde a universidade até a educação básica e infantil e se manifestam nos trabalhos apresentados nos Congressos. Inclui-se nesse contexto a modalidade de supervisão clínica que vem se constituindo numa especial estratégia de formação. Mayor Ruiz e Sanchez Moreno (2000)MAYOR RUIZ, Cristina; SANCHÉZ MORENO, Marita. El reto de los docentes universitários. Uma experiência com professores noveles. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2000. entendem que a supervisão clinica se institui como uma estratégia centrada na melhoria da capacidade de ensinar, usando ciclos contínuos de planejamento, observação e substantiva análise intelectual sobre as práticas docentes. Esse conceito parte de “uma compreensão positiva do termo supervisão de forma a favorecer o desenvolvimento profissional que conduza formar professores livres, capazes de enfrentar-se com situações diversas” (p. 80)MAYOR RUIZ, Cristina; SANCHÉZ MORENO, Marita. El reto de los docentes universitários. Uma experiência com professores noveles. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2000.. A supervisão clínica, especialmente lançando mão de professores experientes que assumem a posição de tutores, aparece com muita frequência nos relatos analisados. Mas, também, registram-se outras alternativas de formação. Entre elas estão as oficinas e os cursos oferecidos aos docentes em fase inicial de carreira e o uso de reuniões pedagógicas para relatos de experiências acompanhados de processos reflexivos. Grupos operativos também se mostram como alternativas viáveis usando o espaço de trabalho como referente da formação, diminuído possibilidades de frustrações e problematizando a condição profissional dos principiantes.


O que fica evidente é que a atenção à problemática do professor iniciante vem se constituindo como um foco de interesse quer de pesquisas e intervenções, quer de políticas e ações institucionais. Alguns países já reconheceram que há consequências em desatender os problemas específicos dos docentes iniciantes e elas podem trazer sérios prejuízos, inclusive econômicos, tanto pela deserção dos mesmos como pelo impacto de suas ações no sistema educativo. Percebe-se, então, que o movimento extrapola o campo pedagógico e assume uma posição estratégica nas políticas públicas das diferentes nações.


O segundo eixo de comunicações apresentadas articulou-se em torno da construção dos saberes dos docentes dos iniciantes. Foram estudos que tomaram mais intensamente a dimensão individual ou de grupos, centrando-se nas trajetórias que os novos docentes percorrem nos primeiros anos de profissão. Partem do pressuposto de que há um “rito de passagem” entre a formação acadêmica, - incluindo as práticas acompanhadas -, e a “vida real”. Nesta, o professor precisa integrar conhecimentos a partir de diferentes contextos para ir construindo sua forma própria de agir, sua teoria pessoal em relação à gestão da aula, com implicações cognitivas, éticas e afetivas.


Dado que a formação acadêmica dos cursos de formação privilegia os saberes das matérias de ensino, os professores iniciantes se instituem a partir de uma perspectiva conteudista, acreditando, inicialmente, que o domínio do conteúdo é a chave de sua docência. Logo, porém, percebem que as exigências são muito maiores e vivem o que Tardif (2002)TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. e outros autores denominam como choque de realidade. Os saberes, que exigem uma inserção mais intensa na prática, se constituem, então, em objeto de pesquisa e reflexão na trajetória dos professores novos. Nesse contexto, variáveis como nível de ensino e campo científico interferem nos processos construtivos que realizam os docentes, dadas as suas culturas e peculiaridades. Mas vale ressaltar que a incidência de trabalhos classificados nesse eixo diminui a cada edição do Evento, mesmo considerando a sua importância estratégica. Pode que essa constatação, seja desencadeadora de reflexões da área da formação, em especial com foco nos professores iniciantes, pois o uso das trajetórias como metodologia investigativa tem se constituído numa metodologia expressivamente válida, no contexto das pesquisas em educação.


A dimensão com maior presença entre os estudos apresentados refere-se aos saberes de professores/alunos na formação inicial/estágios. Nesse caso, focando os Cursos de Formação de Professores, toma-se o que se pode chamar de “pré-iniciantes”, ou seja, as primeiras experiências dos estudantes vivenciadas no espaço escolar. Chama a atenção o impacto desses estudos, evidenciando que as propostas de formação inicial vivem uma permanente tensão entre os pólos da teoria e da prática e do ensino e da pesquisa. Os estudos centram no currículo muitas das suas preocupações e analisam as progressivas legislações que incidem sobre a formação inicial de professores. Também explicitam práticas alternativas que vêm sendo realizadas nos espaços do currículo ou de disciplinas integradas. Ainda aparece em menor escala as relações entre universidade e escola, reafirmando as dificuldades havidas para encurtar esse caminho. Essas dificuldades são, segundo os estudos, de ordem epistemológica, administrativas e de estrutura de poder. O fato é que ainda há um fosso significativo na relação teoria-prática na formação inicial. Conceitos como da escola aprendente e da escola ensinante ainda não foram suficientemente incorporados nas representações dos formadores e dos gestores institucionais, dificultando uma trajetória de formação inicial que precisa contar com a parceria entre os espaços acadêmicos e escolares.


Entretanto é alvissareira a constatação de que a temática dos saberes dos professores/alunos na formação inicial continue a suscitar tantos estudos e experiências. Evidencia a sua importância e a necessidade de avançar em práticas formativas mais integradas, inclusive instituindo políticas. É o caso recente do Brasil, onde o Ministério de Educação instituiu o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), que tem esse o objetivo. Inclusive, no III Congresso ocorrido em Santiago do Chile, foi proposto um Simpósio em torno desse Programa que vem envolvendo uma grande numero de universidades brasileiras. São iniciativas que reconhecem a qualidade da formação inicial como agente de repercussão, no rito de passagem vivido pelo professor iniciante, favorecendo ou não a sua inserção profissional.


Com bastante intensidade, ficando com a segunda incidência, povoaram as discussões nos eventos aqui tomados como referentes, os temas da inserção profissional, políticas publicas e trabalho docente. Foi possível identificar um expressivo aumento de trabalhos nessa categoria, no decorrer das edições do Congresso. Estes três descritores foram aglutinados porque os mesmos se entrelaçam e produzem processos na mesma direção.


“Converter-se em professor se constitui num processo complexo, que se caracteriza por sua natureza multidimensional, idiossincrática e contextual”, diz (MARCELO GARCIA, 2009, p. 86)MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009., recorrendo a autores como Braga (2001)BRAGA, F. Formação de professores e identidade profissional. Coimbra: Quarteto Editora, 2001 e Flores (2000)FLORES, M. A. A indução no ensino: desafios e constrangimentos. Lisboa: Editora do Instituto de Inovação Educacional, 2000. entre outros. O inicio de uma profissão inclui o reconhecimento de sua cultura, do estatuto que ocupa na pirâmide social e do trabalho e das peculiaridades sócio-políticas que a caracterizam. 


O tema da inserção aparece com forte incidência entre os trabalhos apresentados e amplia a compreensão para além dos aspectos pedagógicos, abordando as condições de trabalho dos novos professores que ingressam numa carreira em crescente desprestígio e enfrentam situações de complexidade crescente. No caso dos docentes universitários, - ainda que mais prestigiados profissionalmente do que seus colegas dos outros níveis de ensino -, cada vez mais encontram ambientes exigentes, onde a lógica da produtividade escalona e hierarquiza, fomentando uma maratona acadêmica sem precedentes. Os estudos sobre o trabalho docente trazem matrizes interpretativas da sociologia e da psicologia social, principalmente. Mas inscrevem-se, também, no plano das políticas e da história da profissão. O conceito de identidade profissional é recorrente nos trabalhos apresentados e indica a busca de um princípio organizativo da vida dos professores. Alguns enfocam os impactos vivenciados pelos professores, quando alteram suas identidades de aluno para docente. São recorrentes, nas pesquisas, as afirmações que comprovam os desafios dessa transição.


Para alguns professores novos – especialmente os que atuam na educação superior - o desafio está em ser reconhecido e legitimado pelos pares num contexto de competição acadêmica cada vez mais acirrada. Para outros, a preocupação maior é o domínio de classe, mantendo o equilíbrio entre o afeto e a necessária disciplina dos alunos nos espaços de aula. Certamente esse é um “contexto de lutas e conflitos e um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão e não uma condição adquirida” (NÓVOA, 1992, p. 16.)NÓVOA, António. Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.. Isso significa que são temas que requerem aprofundamento e discussão, fazendo avançar o campo da inserção na docência. 


Com menor incidência frente ao total de trabalhos apresentados, - mas com uma relevância crescente entre os temas tradicionais -, aparecem os estudos sobre os professores principiantes em contextos desfavoráveis. Certamente esta temática é um sinal dos tempos recentes e indica uma realidade que não pode mais ser ocultada. Não é surpreendente que tenha aumentado, no III Congresso, os estudos que enfocam esse tema. 


Ao contrário de outras profissões, ao docente principiante, muitas vezes, cabe o exercício profissional em contextos complexos e exigentes na sua dimensão político-social e pedagógica(1 1 Marcelo Garcia chama a atenção para a relação entre o grau de estruturação das profissões e os cuidados com a incorporação de novos membros. Fazendo analogias exemplifica que não é comum um médico recém formado realizar transplantes de coração, nem um arquiteto assinar a planta de um edifício de muitas vivendas. Muito menos que um piloto com poucas horas de vôo possa comandar um Airbus 340. Que se poderá pensar de uma profissão que deixa para os novos membros as situações mais conflitantes e difíceis? Pois algo assim ocorre com a docência (2009, p. 19). ). O abandono da profissão é particularmente alto em escolas interiorizadas e de zonas desfavorecidas, pois os docentes principiantes esmorecem frente às dificuldades e as inseguranças próprias de sua condição. Os ambientes de trabalho são precários e a valorização profissional muito relativa. Muitas vezes exige-se uma maturidade profissional que os novos ainda não alcançaram e esse fato reduz a confiança que colocam no seu desenvolvimento profissional. 


Os países desenvolvidos já despertaram para o problema e estão investindo na diminuição do impacto desse fenômeno. Entretanto a incidência dos estudos apresentados no evento em análise evidencia a necessidade de abordar com maior ênfase essa dimensão. Não apenas os ambientes social e culturalmente desfavorecidos impactam os novos professores mais intensamente, como também os desafios das políticas de inclusão, das culturas digitais e tantas outras que vêm exigindo dos docentes a construção de saberes que, para muitos, não fizeram parte de sua história enquanto alunos e que requerem a construção de saberes no contexto da prática profissional.


Mesmo com expressão numérica menos impactante no contexto geral das produções, houve trabalhos com um aprofundamento especial na temática dos professores iniciantes, tecnologias e educação digital. Provavelmente nesse quesito, os docentes novos possam ter vantagem frente aos veteranos já que, sendo mais jovens, provêm de uma geração em que há convivência com a tecnologia desde muito cedo. De qualquer forma cremos que o registro é importante, pois se trata de uma demanda inevitável para todos os docentes no contexto atual. Certamente se constitui numa temática a ser melhor explorada entre os saberes docentes dos principiantes, pois quem sabe se constitua potencialmente em uma contribuição capaz de renovar as práticas de ensinar e aprender que ainda seguem parâmetros tradicionais. Essa pode ser uma das situações em que, numa sistemática de tutoria, os docentes experientes que exercem essa função, aprenderiam com os iniciantes, aportando significativas contribuições para os processos de aprender e ensinar. Foram apresentadas experiências relacionadas ao uso de recursos proporcionados pela informática bem como pelos vídeos, fotografias, tecnologias digitais e ambientes de aprendizagem.


Também nessa categoria, apareceram os estudos que discutiam os resultados do uso das tecnologias digitais na formação dos professores, explorando a modalidade da Educação à Distância como uma possiblidade de alcance, em maior escala, de populações docentes. São cada vez mais recorrentes experiên­cias e seu acompanhamento com pesquisas é de significativa importância para qualificar os processos vividos pelos docentes em formação. No caso do Brasil, onde a amplitude geográfica é reconhecida, o uso da Educação à Distância para a formação inicial e continuada de professores tem integrado Projetos de iniciativa ministerial, sem prejuízo de outras instâncias devidamente reconhecidas. Mas outros países investem nessa modalidade e possuem uma base de conhecimentos consolidados sobre a questão.


Continuando a análise dos trabalhos apresentados nas três edições do Congreso Internacional sobre Profesorado Principiante e Inserción Profesional a la Docencia foram encontrados quinze trabalhos que se instituíam na categoria aqui denominada formação de formadores dos iniciantes, com especificidades muito próprias dessa ação. Alguns tratavam das narrativas de professores formadores em cotejamento com as teorias e as práticas dos novos professores e outros abordavam a importância da formação dos docentes tutores/mentores para a realização desse trabalho. Configura-se como um processo de acompanhamento reflexivo e colaborativo, realizado em situações de relações horizontais, onde a intervenção deve ter um papel qualificativo e não avaliativo. É fundamental “a criação de um espaço e um clima relacional adequado à reflexão colaborativa transformadora.” (MARCELO GARCIA, 2009, p. 126)MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009., que estimule os atores à reflexão de suas próprias práticas. Em geral se mobilizam saberes situados, que têm o contexto de atuação dos docentes como referência e respeitam os estilos próprios dos iniciantes. Alguns estudos põem em pauta a análise das predisposições dos docentes formadores, incluindo as mobilizações que vivem em direção à formação de jovens professores. Este é um tema de alta complexidade, pois o docente formador assume a formação dos novos profissionais pelo que diz, mas também pelo que faz e pelo que é. Assim, constantemente pode ser colocado em questão. Portanto e função educativa do formador requer dimensões técnicas e éticas. Isso o responsabiliza de forma contundente. O formador precisa compreender-se como um “eterno aprendiz”, mas também como alguém que tem uma trajetória de formação marcada por contextos históricos, políticos e culturais. Certamente essa é uma temática muito instigante e necessária e o Congresso pode ser um catalizador dessas discussões.


Na continuidade da análise foram identificados dez trabalhos que tiveram como eixo principal a iniciação à docência e a pesquisa. Reunimos nesse eixo estruturante as produções que exploravam metodologias investigativas como favorecedoras de processos de intervenção na educação dos professores iniciantes. As narrativas e as histórias de vida foram particularmente nomeadas, seguindo uma tendência dominante no campo das ciências da educação. Alguns estudos se guiaram pela bibliografia que aponta os ciclos da carreira docente e registraram os resultados sobre a importância das representações sociais e da etnografia como ferramenta de formação. Alguns autores tomaram a investigação dos diários de classe como metodologia, envolvendo diferentes áreas disciplinares nas pesquisas. Outros defendiam a produção e a análise do discurso como metodologia de formação e pesquisa. Estudos de gênero e de culturas – como iniciação em ambientes especiais em escolas rurais e Colégios de Aplicação, por exemplo, – também constituíram o constructo analítico. Dão conta, estes estudos, da interlocução da temática dos docentes iniciantes com outras dimensões que impactam a docência e provocam questões de pesquisa Muitas reflexões são oriundas de pesquisa-ação, combinadas com atividades de extensão. 


Foram, também, significativos os relatos de resultados de pesquisa que procuravam explicitar os desafios dos docentes iniciantes, suas expectativas e possibilidades de êxito na inserção profissional. Em geral essas investigações usaram o recurso da entrevista semi-estruturada. Também foi possível registrar estudos conhecidos como “estado da arte”, localizando os levantamentos documentais e bibliográficos em contextos acadêmicos específicos.


Por fim, foi delineado o eixo denominado Avaliação, com quatorze estudos divulgados no Congresso, nas suas três edições. Foram incluídos, nessa categoria, relatos de processos avaliativos de experiências formativas com docentes iniciantes, incluindo programas institucionais já com consistente trajetória. Certamente essa se constitui numa importante contribuição, pois pode consolidar conhecimentos e práticas na direção de uma produção científica abalizada sobre o tema da iniciação à docência e as experiências de formação. 


Também foram incluídos nesse grupo, trabalhos que avaliavam a complexidade contemporânea da docência, frente às demanda sociais e cognitivas que afetam à educação escolarizada. Outros estudos trouxeram resultados de avaliações realizadas pelos professores iniciantes a respeito de sua formação acadêmica inicial. O diálogo entre os diferentes atores da formação – universidade, escola, poder público – pode trazer importante benefícios para os processos de formação. Nesse particular, os estudos avaliativos têm a intenção de impactar os currículos de formação inicial e as propostas de formação continuada.


Com isso, concluiu-se a análise e a categorização dos trabalhos apresentados sobre Professores Principiantes, nas três edições do Congresso já mencionado. O objetivo foi explicitar tendências, dentro de um campo ainda novo, em termos de preocupações acadêmicas e institucionais, com a intenção foi compreender a pujança e diversidade de abordagens que compõem o mosaico de interesses e preocupações em torno do tema. 


Retornando ao tema da docência e sua formação


É fundamental que se retome a dimensão da formação do professor para enfrentar velhos e novos dilemas. Entre os amplamente explicitados, no caso da educação superior, está a complexa relação de integração da pesquisa e do ensino nos cursos de graduação. Certamente essa complexidade não se apresenta apenas para os professores iniciantes, mas se amplia para a totalidade dos que atuam na educação superior.


O foco no inicio da carreira docente decorre da preocupação crescente com a universidade em tempos de expansão. No caso do Brasil, considerando a rede de universidades acadêmica federais, a renovação de quadros tem sido significativa e acompanha uma política de interiorização e/ou de atendimento de classes sociais menos favorecidas. Essas condições requerem a mobilização de saberes docentes muito especializados para favorecer o sucesso da aprendizagem dos estudantes. Especialmente quando se têm como horizonte a formação de um estudante cidadão, crítico, que demonstre capacidades complexas de pensamento, como anunciam os Projetos Políticos Pedagógicos dos Cursos e Instituições. 


Portanto, é fundamental uma reflexão sistemática sobre os impasses que o tema apresenta, sob pena de fazer abortar o empenho das políticas de democratização da educação superior que se gestam no país. Se elas não forem acompanhadas de ações pedagógicas sistemáticas de apoio e acompanhamento de professores e estudantes, correm o risco de não alcançarem o sucesso esperado.


Flores (2005)MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009. em seus estudos, afirma que os professores aprendem continuamente. Entre as formas mais efetivas de sua aprendizagem estão:


  • a reflexão sobre a própria prática;


  • a análise da reação dos seus alunos;


  • o ensaio de novas estratégias;


  • a partilha de experiências com seus colegas;


  • a freqüência em cursos, oficinas e conferências;


  • a leitura de livros.


Poderíamos acrescentar as formas virtuais como cinema, vídeos, internet e etc. Sem desconsiderar nenhuma das alternativas, fica expresso nesses achados a importância da formação do professor em serviço nos espaços do trabalho e na relação com seus alunos e com os outros docentes. Ao sistematizar o que faz para compartilhar numa comunidade de prática, o docente reflete e refaz formas culturais enraizadas que, muitas vezes, estavam a dificultar a mudança.


Se essa condição significativa para todos os professores, mais se intensifica nos iniciantes, que estão na fase de construção de seus repertórios de saberes ligados às atividades de ensinar e aprender.


Pereceu importante de chamar a atenção para a condição dos professores iniciantes. Pensar em programas de inserção/formação parece imprescindível. Devemos ter em conta que para os professores principiantes da educação superior “é necessário um processo de adequação profissional, como uma forma de socialização, com características e conotações que exigem atenção, para poder apresentar resultados efetivos.” (MAYOR RUIZ, 2009, p. 190)MAYOR RUIZ, Cristina. El desafio de los profesores principiantes universitarios ante su formación. In: MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009.

É possível reconhecer que o exercício aqui apresentado pode estar revelando apenas uma alternativa analítica. Não havia a pretensão de que ele fosse exaustivo, sem deixar possibilidades de outras interpretações. O objetivo foi, a partir de uma leitura das produções, identificar tendências e favorecer novos estudos. Muitos trabalhos apresentaram características polissêmicas, podendo ter múltiplas classificações. Mesmo assim espera-se que as energias dispensadas para levar a cabo esse exercício tenham sentido para aqueles que se interessem pelas questões que envolvem os Professores Principiantes.


Referências

  • BRAGA, F. Formação de professores e identidade profissional. Coimbra: Quarteto Editora, 2001
  • CORREIA, José Alberto; MATOS, Manuel. Solidões e solidariedades nos quotidianos dos professores. Porto: ASA, 2001.
  • CUNHA, Maria Isabel da. Trajetórias e lugares de formação da docência universitária: da perspectiva individual ao espaço institucional. Araraquara: JM Editora, 2010.
  • FLORES, M. A. A indução no ensino: desafios e constrangimentos. Lisboa: Editora do Instituto de Inovação Educacional, 2000.
  • FLORES, M. A. La investigación sobre los primeros años de enseñanza: lecturas e implicaciones. In: MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009.
  • LORTIE, D. School-teacher: a social study. University of Chicago: Press Chicago, 1975.
  • MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009.
  • MAYOR RUIZ, Cristina. El desafio de los profesores principiantes universitarios ante su formación. In: MARCELO GARCIA, Carlos (Org.). El profesorado principiante. Inserción a la docencia. Barcelona: Ediciones Octaedro, 2009.
  • MAYOR RUIZ, Cristina (Org.). El asesoramiento pedagógico para la formación docente del profesorado universitario. Sevilha: Ed. Universidad de Sevilha, 2007.
  • MAYOR RUIZ, Cristina; SANCHÉZ MORENO, Marita. El reto de los docentes universitários. Uma experiência com professores noveles. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2000.
  • NÓVOA, António. Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.
  • RIOS, Terezinha Azeredo. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. 2000. 182 p. Tese de (Doutorado) em Educação. Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.
  • TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

  • 1
    Marcelo Garcia chama a atenção para a relação entre o grau de estruturação das profissões e os cuidados com a incorporação de novos membros. Fazendo analogias exemplifica que não é comum um médico recém formado realizar transplantes de coração, nem um arquiteto assinar a planta de um edifício de muitas vivendas. Muito menos que um piloto com poucas horas de vôo possa comandar um Airbus 340. Que se poderá pensar de uma profissão que deixa para os novos membros as situações mais conflitantes e difíceis? Pois algo assim ocorre com a docência (2009, p. 19).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Mar 2015

Histórico

  • Recebido
    23 Nov 2012
  • Aceito
    27 Maio 2013
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