Um brinde ao entrecruzamento de vozes

Eliete Hugueney de Figueiredo Costa Simone de Jesus Padilha Sobre os autores

RESUMO

Este estudo constitui um recorte de pesquisa doutoral que teve por objetivo compreender, na dimensão verbo-visual da revista cuiabana A Violeta (1916-1950), como se constitui discursivamente o entrecruzamento de vozes. Tomamos o enunciado Chronica, da edição de 31 de dezembro de 1937, a fim de desvelar as tensões discursivo-ideológicas por meio da análise de estratégias linguístico-discursivas e de mobilização do plano de expressão verbo-visual. Baseamo-nos na teoria de Bakhtin e o Círculo, quanto às questões que envolvem as relações dialógicas entre os enunciados, e em Brait, para discutir os aspectos relacionados à verbo-visualidade. Constatamos, pela análise, a presença de um entrecruzamento de vozes: uma voz que acata o discurso vigente, reproduzindo seus temas, como o nacionalismo e o patriotismo, e uma outra voz, perceptível na mobilização da dimensão verbo-visual, crítica à situação política da época.

PALAVRAS-CHAVE:
Revista A Violeta; Verbo-visualidade; Vozes; Estudos bakhtinianos

ABSTRACT

This study is part of a doctoral research in the field of Bakhtinian studies, which aimed to understand, in the verbal-visual dimension of a magazine from Cuiaba, A Violeta [The Violet] (1916-1950), how the intersection of voices is discursively constituted. We focus on the utterance Chronica, published on December 31, 1937, in order to unveil discursive-ideological tensions through the analysis of linguistic-discursive strategies and the mobilization of the verbal-visual plane of expression. This study is based on Bakhtin and the Circle’s theory related to issues involving the dialogical relations between utterances, and on Brait’s discussion about aspects related to verbal-visuality. The analysis showed the presence of an intersection of voices: one voice that complies with the current discourse, reproducing its themes as nationalism and patriotism, and another voice, perceptible in the mobilization of the verbal-visual dimension, that is critical to the political situation of the time.

KEYWORDS:
A Violeta magazine; Verbal-visuality; Voices; Bakhtinian studies

Introdução

Mesmo diante do cenário de primazia masculina nas diversas esferas da vida social, como a política, jornalística, governamental e religiosa, em 1916, na cidade de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, nasce a revista A Violeta, fundada por um grupo de mulheres participantes do Grêmio Literário Júlia Lopes, instituição cultural feminina fundada em 26 de novembro daquele ano. As finalidades do Grêmio eram voltadas para a publicação da revista e, também, para a organização de palestras literárias feitas pelas associadas ou por pessoas ilustres a convite, no intuito de impulsionar o movimento literário na cidade.

A respeito do contexto sócio histórico de surgimento do periódico cuiabano, o ano de 1916 foi o auge da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), período logo anterior à Revolução Russa e à adoção do regime socialista nos países do leste europeu. Além disso, viviam-se as consequências, na região de Mato Grosso, da Guerra do Paraguai, que introduziu graves epidemias na cidade, como, por exemplo, a varíola. Por outro lado, foi a época da modernização, com o surgimento e consolidação, ao longo do século XX, da sociedade urbana e industrial.

No período de circulação da revista, primeira metade do século XX, o capitalismo também se consolidou no Brasil e no mundo, oportunizando a inserção das mulheres nas linhas de produção das fábricas. Nessa época, surgiram os primeiros sindicatos, os partidos defensores dos trabalhadores, fatos que também beneficiaram a mulher, trazendo à tona uma reflexão sobre sua situação social e trabalhista, e sobre os seus direitos como cidadã, por exemplo, o direito ao voto.

Todas essas questões locais, nacionais e mesmo internacionais foram matéria de discussão nas páginas de A Violeta, e muitas delas compuseram os conteúdos dos enunciados, expressando o nível de politização das redatoras, em sua grande maioria, normalistas, entre as quais se destacaram as figuras de Maria Dimpina Lobo Duarte (MT, 1891-1966) e Maria de Arruda Müller (MT, 1898-2003). Podemos afirmar que essas redatoras liam e consultavam diversas fontes, jornalísticas ou literárias, o que as mantinha atualizadas com os acontecimentos de seu tempo. Prova disso são os textos veiculados que discutiam os aspectos relacionados à emancipação feminina.

A Revista A Violeta tornou-se, assim, um marco da participação feminina na sociedade local, tendo circulado durante três décadas (1916-1950) e apresentado, pelo que sabemos até o momento, um número de aproximadamente cento e noventa e quatro edições.

A publicação do periódico, inicialmente, apresentou certa irregularidade, até se firmar como publicação mensal. A distribuição das revistas ocorria por meio de assinatura, circulando também nas principais repartições públicas da cidade, nas residências e ainda sendo enviadas, via correio, para outras cidades de Mato Grosso e para outros Estados, principalmente o Rio de Janeiro.

Podemos afirmar que o destinatário suposto da revista (AMORIM, 2002), ou seja, seu público-alvo, era constituído por mulheres circunscritas a seus próprios lares, em busca de cultura, conhecimento ou apenas entretenimento. Já como destinatários reais, identificamos variados leitores, como homens da sociedade local, professoras, alunos, donas de casa, escritoras de outras cidades ou outros estados etc, assim como as próprias redatoras da revista.

Tratava-se de um impresso de dimensões reduzidas, contendo de oito a vinte e cinco páginas. Apesar das técnicas gráficas limitadas na época, apresentou-se, no decurso de sua existência, com um layout variável e rico em detalhes, contendo textos publicitários de diversas ordens, diagramações bem diversificadas e uma variedade de fontes e destaques tipográficos. A primeira página do seu projeto gráfico trazia uma composição constituída ora com ora sem imagem e, em algumas edições, com destaque para capas em cores sépia, em tom envelhecido.

O presente estudo propõe tomar a revista A Violeta como objeto de pesquisa, considerando-a uma rica fonte a ser explorada na área de Estudos da Linguagem. Partimos de uma base teórica bakhtiniana, em busca da compreensão das vozes presentes nos diversos enunciados que encarnam variados discursos e se apresentam sob diferentes formas, associadas às considerações sobre a verbo-visualidade.

Para tanto, selecionamos o enunciado Chronica, da edição de 31 de dezembro de 1937, a fim de desvelar as tensões discursivo-ideológicas por meio da análise de estratégias linguístico-discursivas e da mobilização do plano de expressão verbo-visual. Assim, vislumbramos, por um lado, a possibilidade de contribuição para o estudo da verbo-visualidade, ao refletirmos sobre as estratégias discursivas utilizadas pela imprensa feminina cuiabana e, por outro, o fato de trazer um novo olhar para a revista A Violeta, através das lentes bakhtinianas.

Ao reunirmos a visão de Bakhtin concernente às vozes e os estudos de Brait sobre dimensão verbo-visual dos enunciados, também objetivamos contribuir para a área de Estudos Dialógicos do Discurso, oferecendo elementos para a análise da constituição dos sentidos dos enunciados na perspectiva da Linguística Aplicada e dos Estudos da Linguagem. Tal encaminhamento teórico permitiu que pudéssemos observar a revista A Violeta de um outro ponto de vista, revalorizá-la e ressignificá-la no conjunto das produções da imprensa brasileira da época.

Nessa linha de raciocínio, apresentaremos, primeiramente, uma síntese do construto teórico relativo à verbo-visualidade para, em seguida, explorarmos o enunciado Chronica, de 1937, através da análise dialógica da dimensão verbo-visual que, discursivamente, aponta para um entrecruzamento de vozes.

1 A verbo-visualidade como possibilidade investigativa

A dimensão verbo-visual dos enunciados, constitutiva do plano de expressão e do conteúdo, vem sendo pesquisada por Brait, na perspectiva bakhtiniana, em diferentes obras (BRAIT, 2005BRAIT, B. Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. 2. ed. rev. Campinas: Editora Unicamp, 2005., 2008BRAIT, B. Linguagem e identidade: um constante trabalho de estilo. Revista Trabalho, Educação e Saúde. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio - Unidade técnico-científica da Fundação Oswaldo Cruz, Manguinhos, Rio de Janeiro, RJ, v. 2, n. 1, p.185-201, 2004., 2008aBRAIT, B. O texto irônico: fundamentos teóricos para leitura e interpretação. Letras. Revista do Mestrado em Letras da UFSM (RS) [Propostas de Estudos Avançados em Linguística e Literatura], v. 15, p.11-28, jul. /dez. 1997., 2009aBRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010., 2012BRAIT, B. Problemas da poética de Dostoiévski e estudos da linguagem. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009a. p.45-72., 2013BRAIT, B. A palavra mandioca do verbal ao verbo-visual. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, v. 1, n. 1, p.142-160, jan./jul. 2009b., 2014BRAIT, B. Análise e teoria do discurso. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2008a., 2016BRAIT, B. Ironia em perspectiva polifônica. 2. ed. rev. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2008b.). Trata-se, sobretudo, da consideração de uma sintaxe verbo-visual, em que não podemos trabalhar apenas um dos elementos separadamente, o verbal ou o visual, e sim como um conjunto integrado para a produção de sentidos.

Em várias obras do Círculo, encontramos referências a enunciados não-verbais, como em Problemas da poética de Dostoiévski (2010, p.211), O autor e a personagem na atividade estética (2011, p.23-25) e O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas (2011, p.307), e em O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica (2012, p.48-49), o que nos autoriza a utilizar, também, os conceitos bakhtinianos no processo de análise dos planos de expressão visual e verbo-visual.

Em todas essas obras, o Círculo confirma esses traços de consideração ideológica do material verbal e não-verbal, fato que será mais amplamente explorado em Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. Nessa obra, Volóchinov vai argumentar sobre a relação entre o discurso interior e os signos não-verbais:

Os processos de compreensão de qualquer fenômeno ideológico (um quadro, música, rito, ato) não podem ser realizados sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica, isto é, todos os outros signos não-verbais são envolvidos pelo universo verbal, emergem nele e não podem ser nem isolados, nem separados dele por completo (VOLÓCHINOV, 2017VOLÓCHINOV, V. (Círculo de Bakhtin). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório Sheila Grillo. São Paulo: Editora 34, 2017., p.100-101).

Os primeiros trabalhos de Brait que integram o termo verbo-visual datam de 1996, ano da primeira edição da obra Ironia em Perspectiva Polifônica. Nela, a autora desenvolve todo um estudo sobre a ironia, utilizando como objeto de análise as primeiras páginas de jornais de circulação nacional.

Nesse estudo, ela considera que o conjunto de elementos dos diferentes planos de expressão, verbal e visual, uma espécie de colagem verbo-visual, contribui para apreensão dos efeitos de sentido. Por exemplo, numa análise da primeira página do jornal Folha de S. Paulo, do dia 7 de janeiro de 1991, Brait destaca que:

Entretanto, é a diagramação - o projeto gráfico da página, a maneira de colocar as informações verbais e visuais nesse espaço - que propõe o conjunto, a possibilidade de leitura e interpretação dos dois acontecimentos como se a foto fizesse referência à manchete e vice-versa. A foto está emoldurada pelas sequências verbais e as sequências verbais têm como centro catalisador a foto (BRAIT, 2008aBRAIT, B. Análise e teoria do discurso. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2008a., p.45).

Brait (2010, p.194)BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010., em texto posterior, conceitua a verbo-visualidade, ao afirmar que “[...] a linguagem verbo-visual será aqui considerada uma enunciação, um enunciado concreto articulado por um projeto discursivo do qual participam, com a mesma força e importância, a linguagem verbal e a linguagem visual”.

O estudo da dimensão verbo-visual, na visão da autora, concebe o fenômeno em que se articulam os elementos verbais e visuais, de maneira indissociável, em um processo de construção de sentidos a partir das esferas de produção dos enunciados, como é o caso da esfera jornalística. Brait esclarece:

Ainda com relação à esfera jornalística compõem o projeto discursivo verbo-visual desenhos, ilustrações, gráficos e infográficos, sempre articulados a textos verbais com os quais estão constitutivamente sintonizados a partir da disposição das matérias numa dada página, da organização das páginas em cadernos, do forte diálogo mantido entre os cadernos e as formas diferenciadas de organizar verbal e visualmente os assuntos. Um mesmo assunto poderá fazer parte de diferentes cadernos e, como consequência, produzir diferentes sentidos e efeitos de sentidos. E o leitor do jornal, incluído no projeto jornalístico, alfabetizado, por assim dizer, nessa maneira de organizar a linguagem, participa ativamente da produção dos sentidos. Considerando essa e outras esferas, fazem parte das produções de caráter verbo-visual charges, propagandas, capas e páginas de veículos informativos, as formas de apresentação dos jornais televisivos (apresentadores, textos orais, vídeos), poemas articulados a desenhos, comunicação pela internet, textos ficcionais ilustrados, livros didáticos, outdoors, placas de trânsito etc. (BRAIT, 2010BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010., p.194-195).

Portanto, para captar as relações dialógicas existentes entre enunciados, é necessário considerar tanto o material verbal quanto o verbo-visual, numa dupla orientação, interna e externa. Esse movimento exige do pesquisador um olhar treinado, para que, a partir do auxílio das lentes dialógicas, possa enxergar a totalidade do enunciado e os sentidos ali advindos desse todo, bem como as relações entre seus elementos constitutivos e, da mesma forma, com outros enunciados. Essa perspectiva analítica contribui para a compreensão do enunciado da revista A Violeta, que pode revelar criações dialógicas verbo-visuais, mobilizadas pelos projetos discursivos das redatoras.

Percebemos, ainda, que alguns enunciados podem trazer uma forma diferenciada de apresentação da verbo-visualidade, não utilizando imagens, fotos, ilustrações, mas sim criando imagens a partir da própria materialidade verbal. Brait (2010)BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. vai se referir a este fenômeno, como uma verbo-visualidade que se dá apenas por palavras. Iremos considerar, na análise do enunciado em questão, também essa ocorrência de verbo-visualidade por meio de utilização de palavras e criação de campos semânticos específicos, suscitando imagens e diversos efeitos de sentido.

Em nossa análise, a seguir, apresentaremos os procedimentos metodológicos a partir dos quais exploramos o enunciado Chronica. Direcionamos nosso olhar analítico para os seguintes tópicos: a dimensão verbal e as dimensões visual e verbo-visual. Cabe esclarecer que tal divisão tem apenas um propósito organizacional, já que concebemos as dimensões verbal, visual e verbo-visual como um conjunto enunciativo indissociável, compondo um todo de sentido. A verbo-visualidade, portanto, em nossa compreensão, abrange também a dimensão verbal, por exemplo, no tocante à presença de recursos da escrita como a pontuação. Consideramos que o emprego de aspas, travessões, parênteses, e mesmo sinais como vírgulas e pontos de interrogação e exclamação ultrapassam a dimensão estrutural e gramatical dos textos, modificando a sua configuração visual, ao encaminhar o leitor para diversas produções de sentido.

Assim, a respeito da dimensão verbal dos enunciados, consideraremos, se houver, os seguintes aspectos para análise: presença de recursos da escrita como uso de reticências, ponto de exclamação, pontos de interrogação, travessão, dois pontos, aspas, parênteses, colchetes; uso de expressões latinas ou estrangeiras; emprego recorrente de certos adjetivos, qualificadores e advérbios, operadores argumentativos, tempos, modos e aspectos verbais, pronomes de tratamento; uso de figuras de linguagem; utilização de sequências textuais descritivas, narrativas etc.

No tocante às dimensões visual e verbo-visual que, como um todo, constituem o projeto gráfico-editorial da revista, focaremos, se houver, os seguintes aspectos: emprego de marcas tipográficas como bordas, esperluettes, molduras, linhas, pontos; diagramação dos textos na página: posicionamento em colunas ou não; inserção de um texto em outro; descontinuidade da extensão dos textos ao longo das páginas; variados espacejamentos entre linhas e entre letras; presença e posicionamento na página de imagens, fotos, ou ilustrações, desenhos, pinturas, gravuras, mapas, gráficos, infográficos, emblemas, siglas; uso de cores; utilização de diferentes tipos e tamanhos de fontes, serifadas ou não serifadas; utilização de negrito e itálico; maiúsculas e minúsculas; letra capitular; presença de cabeçalho, títulos, subtítulos e assinaturas.

2 Um brinde ao entrecruzamento de vozes

O enunciado Chronica, que abre a edição de 31 de dezembro de 1937, apresenta cabeçalho indicador da publicação com o título da revista destacado na parte superior, em preto e branco, centralizado, em letras serifadas, negritadas. Logo abaixo, traz a referência ao órgão ao qual está vinculado, o Grêmio Literário Júlia Lopes. Em seguida, podemos ler informações sobre a periodicidade da publicação - mensal - e a indicação da direção: Mariana Póvoas e Benilde Moura. A seguir, podemos observar uma composição visual retangular, composta de linhas duplas, em que se destacam o ano da publicação, o local, a data e os números correspondentes à edição da revista.

Abaixo do cabeçalho, visualizamos o título Chronica, centralizado, com espaçamento entre as letras, fonte grande, maiúscula, em negrito. De cada lado do título, há um conjunto de linhas triplas, em que a linha central é mais longa que as outras duas, constituindo um destaque tipográfico que acrescenta um detalhe visual, atraindo o olhar do leitor para o texto que segue, na forma de taça. A impressão sugerida é que o título estilizado dessa forma retrata o líquido continente na taça ou algo que emerge dela. Visualmente, a centralização do título também se harmoniza com a parte superior da taça, conforme podemos observar na figura 1.

Fig. 1
Chronica de A Violeta, n. 236-237, 31 de dezembro de 1937.

De cada lado da taça, ainda, podemos visualizar duas figuras retangulares, contendo, em cada uma delas, um texto em fontes pequenas. A figura do lado esquerdo traz uma expressão de votos de ano novo: “As altas autoridades, ás nossas devotadas companheiras, á imprensa e ao povo da nossa terra, os melhores votos de felicidades no ANNO NOVO”. Já o retângulo do lado direito traz uma saudação: “Ao penetrar no 22º anno da sua existência, A VIOLETA abre as suas pequeninas petalas para render á sociedade cuiabana as homenagens sinceras da sua gratidão pela fidalguia com que tem sido distinguida”. Tal composição gráfica é de grande importância, pois vem acrescentar um significado ao plano visual, conforme já observamos anteriormente pelas considerações de Brait (2008); propositadamente tais pequenos fragmentos relacionam-se com a disposição gráfica do texto principal e também com a temática de avaliação do ano que se encerra e comemoração do ano vindouro.

A grafia das palavras ANNO NOVO e A VIOLETA, em letras maiúsculas, confere um destaque provocativo, chamando a atenção do leitor para o foco temático do enunciado e a avaliação da editoria sobre os futuros acontecimentos.

O restante do texto, não organizado em colunas, ocupa mais três páginas, dividindo-se em seções cujas fronteiras são marcadas por uma figura composta de três pequenos asteriscos que, em alguns exemplos, remete ao símbolo matemático donde, indicador da conclusão de um raciocínio, mas que, na revista, apresentado muitas vezes em posição invertida, tem a função ornamental apenas de separação de seções com assuntos diferentes. Podemos inferir, ainda, que se tratava de uma prática gráfica comum à época, utilizada em revistas1 1 Localizamos essa recorrência ao símbolo, por exemplo, na Revista de Estudos Livres, periódico de divulgação da filosofia positivista, publicada em Portugal e no Brasil entre 1883 e 1886. e obras consagradas que compunham o acervo de leituras das redatoras.

O referido enunciado não vem assinado. O projeto discursivo da editoria objetiva homenagear o ano vindouro (1938) e fazer um retrospecto dos diversos acontecimentos históricos marcantes que envolveram o ano de 1937, expressando um retrato das situações políticas que constituíram o Estado de Mato Grosso e o Brasil da época.

O texto encontra-se dividido em quatro partes, todas relacionadas a acontecimentos marcantes ocorridos no mês de novembro, como a Proclamação da República, em 1889, a instalação da ditadura branca, que remete ao início da Era Vargas, em 1930, o centenário de nascimento de Couto de Magalhães (1837-1898), e o dia da Bandeira, comemorado em 19 de novembro.

Notamos que o final do enunciado, na página 4, está posicionado na parte inferior da página, pois na parte superior encontra-se uma homenagem, em fonte diferenciada, à data natalícia de D. Maria de A. Müller. Essa diagramação sugere que tratar desse assunto é mais importante que a finalização do enunciado de capa da edição, obrigando o leitor a ler a referida homenagem. Novamente, as observações de Brait (2010)BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010. sobre a verbo-visualidade estar a serviço do projeto discursivo do autor nos são válidas para esta ocorrência.

Prosseguindo a descrição da dimensão visual, o que nos chama mais a atenção, logo à primeira vista, é a diagramação do texto em forma de taça. A disposição gráfica faz alusão ao conteúdo tratado no enunciado, publicado no mês de dezembro, e sugere um brinde comemorativo às festas de passagem de ano. A forma escolhida aponta, ainda, para a celebração da vitória em certas situações políticas, tentando fazer parecer uma concordância da revista com os fatos vivenciados no ano que finda, 1937, ao reproduzir o discurso nacionalista e louvar personagens protagonistas da história, como D. Pedro II.

No início do texto, há uma referência aos acontecimentos ocorridos no mês de novembro, o que ocupa a parte superior da taça, pois, pela diagramação da página, não é possível identificar a divisão dos parágrafos:

Novembro é nas gestas republicanas do Brasil, fadado para possuir grandes datas e theatro de decisivos acontecimentos. Sendo o mês da “Bandeira” e “Republica” é também o da posse na suprema direcção dos negocios publicos do eminente dr. Getúlio Vargas. Nelle deu-se a transformação repentina em 89, da face política do Paiz - collocado quasi sem preparo previo, ante problemas gigantescos gerados pela implantação de novo regime - sem derramamento do sangue generoso do povo, graças a magnanimidade e patriotismo de Pedro II (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.1).

Observamos, na sequência inicial, a seleção lexical de adjetivos e substantivos que conferem uma aura elevada à linguagem, um estilo peculiar que busca compor um cenário narrativo de fatos históricos: fadado; theatro; suprema; transformação repentina; problemas gigantescos; sangue generoso; magnanimidade. O efeito de sentido produzido é o de intensificação, aumento da relevância dos fatos ocorridos.

Visualizamos, ainda, o uso do travessão separando a sequência collocado quasi sem preparo previo, ante problemas gigantescos gerados pela implantação de novo regime. Sobre o emprego do travessão duplo (DAHLET, 2006DAHLET, V. As (man)obras da pontuação: usos e significações. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. ), o efeito de sentido criado foi de ressalva, ao enfatizar o fato de que a instauração da República no Brasil foi algo repentino e sem tumultos.

O texto prossegue com a diagramação seguindo o desenho da taça, ilustrando a parte mais estreita, onde a taça pode ser segurada: “Também nelle, iniciou-se a ‘dictadura branca’ em 1930, após o embate victorioso da Nação em armas, que reivindicava um B r a s i l melhor”. (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.1). Nesse trecho, um detalhe aponta para a inserção de outra voz: a imagem criada pela diagramação, ao retratar a figura de uma taça e o afunilamento no plano visual, pois a parte inferior da taça se estreita. Quanto ao plano verbal, há inserção de uma sequência textual neste espaço de estrangulamento, pois podemos ler, nessa pequena área do texto, conforme mostra a figura, um fragmento que se refere à dictadura branca, sugerindo, através do plano verbo-visual, uma fase política de estreitamento, fechamento, cerceamento da liberdade de imprensa.

Observamos, além disso, um espaçamento diferenciado na palavra Brasil, compondo a expressão B r a s i l melhor, seguida de ponto final, recurso tipográfico que aponta para uma ideia da necessidade de alargamento, de ocupação de espaço ou até mesmo de libertação/liberdade. Tal disposição gráfica em uma única linha, acompanhada do adjetivo superlativo melhor, pode produzir um efeito de sentido que sugere uma apreciação valorativa da revista sobre o país, naquele momento, e sobre o que se desejava para a nação: um país livre, melhor e ponto final.

Sobre a ditadura branca, expressão atribuída a Rui Barbosa, compreendemos tratar-se de uma gestão governamental não totalitária, que se apresenta como uma democracia aparente, porém cerceia a liberdade através de alguns mecanismos coercitivos sutis. Evidenciamos que o enunciado em pauta data de 1937, ano que marca o início do Estado Novo, período de imposição e controle do Estado. Exemplo disso é o fato de Vargas ter criado os chamados DIPs (Departamento de Imprensa e Propaganda) e suas respectivas representações estaduais denominadas DEIPs (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda), além dos DASPs (Departamento Administrativo do Serviço Público) que, segundo Silva (2015, p.41-42)SILVA, G. C. A revista A Violeta e a educação feminina em Cuiabá. Caderno de publicações, Várzea Grande, n. 2, p.39-51, 2015. , “[...] serviam como instrumentos de moralização administrativa [...] cujos prefeitos e interventores estavam a ele submetidos”.

Ao pé da taça, a autoria atualiza informações sobre os acontecimentos políticos do momento: “Nessa phase de transição, a patria foi trabalhada por violentas forças contrarias, saindo-se de cada entrechoque mais fortalecida e mais capaz de ascender ao seu formoso destino”. (A VIOLETA, n. 236-237, 1937, p.1).

O emprego de adjetivos e substantivos que enfocam a intensidade dos acontecimentos vivenciados desvela a apreciação valorativa da autoria sobre os fatos: violentas forças contrárias; entrechoque; fortalecida; formoso destino. Ao expressar um otimismo sobre o futuro da pátria na base da taça, que então será capaz de ascender ao seu formoso destino, um possível efeito de sentido criado é de que havia uma base política estabelecida, segura, que sustentava a nação.

Além disso, a primeira linha desse bloco, cujo conteúdo verbal traz a expressão phase de transição, localiza-se, justamente, num espaço de transição entre a parte da taça estreita e a parte de alargamento da base, ou seja, o plano verbo-visual reproduz e reforça a ideia de mudança de um estado político para outro, quer seja o ocorrido na história, com a Proclamação da República, quer seja o vivenciado à época, com o governo Vargas.

A figura metafórica da navegação surge em seguida, criando a imagem de um barco em meio à forte ventania, mas que é seguro pelo timoneiro. Interpretamos que essa tempestade se refere à Revolta Constitucionalista, que é superada pela proclamação de um novo regime, que altera a Constituição de 1930 e conserva no poder a figura de Getúlio Vargas. Essas considerações começam a ser descritas apenas na segunda página, e não mais aproveitando a diagramação em forma de taça. No início do enunciado, a redação utiliza um recurso verbo-visual que convoca o leitor à alegria, satisfação, agradecimento, comemoração, o que não acontece no restante do texto. Ou seja, o efeito de sentido sugerido é de que pouco havia para se comemorar naquele momento político retratado nas páginas seguintes. Segue o excerto em questão:

Si a borrasca era forte e a nau, não muito firme, o timoneiro era capaz e tinha as mãos seguras... Durante sete annos de prática ininterrupta a visão mais aguçada penetra e devassa o nevoeiro, as antenas da intelligencia mais sensíveis e o tacto mais subtilizado, percebem as mínimas oscillações da singradura... mas, a cerração é cada vez maior: Poderia ir outro para a direção do leme??

Sentindo o perigo iminente, as forças armadas de terra e mar, acabam de proclamar novo regimen, alterando a Constituição de 1930, conservando na suprema magistratura o experimentado e sereno ditador... (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.1-2).

A alusão aos sete annos de prática ininterrupta exige do leitor o entendimento que a autoria está realizando uma demarcação do tempo passado desde o ano da Revolução Constitucionalista, 1930, até o ano de publicação do enunciado, nessa edição, em 1937. O texto prossegue criando cenário próprio de uma navegação conturbada, utilizando um campo lexical expressivo: nevoeiro; cerração; oscillações da singradura; direção do leme. Tal campo lexical remete àquele tipo peculiar de verbo-visualidade sugerido por Brait (2010)BRAIT, B. Literatura e outras linguagens. São Paulo: Contexto, 2010., o qual já assinalamos, que se dá apenas por palavras, compondo um cenário pictórico gerado por um trabalho dentro de um campo semântico específico. Reconhecemos, nesse processo, uma aproximação com a figura de retórica hipotipose:

[...] uma descrição que apresenta uma saliência perceptiva, o que significa que ela é tingida pela subjetividade daquele que descreve, o que lhe dá uma intensidade muito grande. [...] Daí a importância que têm nela os termos ligados à visão. Ela aproxima a linguagem verbal da pintura: ‘ut pictura poesis’ (a poesia é como um quadro) (FIORIN, 2014FIORIN, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014., p.155).

Perelman; Tyteca (2014, p.190)PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. Tradução Maria Ermantina G. G. Pereira. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014. retomam a definição da hipotipose tal como encontrada na Rhetorica ad Herennium: “[...] como figura que expõe as coisas de uma maneira tal que a ação parece desenrolar-se e a coisa acontecer ante nossos olhos. Portanto, é uma forma de descrever os acontecimentos que os torna presentes à nossa consciência”. Observamos que o tempo verbal predominante, no trecho em questão, é o presente, o que provoca, no leitor, o efeito de sentido de o fato estar ocorrendo no exato momento da sua leitura.

Em seguida, há uma referência à forte presença das Forças Armadas, que atuam nesse período histórico em defesa do governo da época, apoiando Vargas até a década de 1940. No entanto, evidenciamos algumas marcas no texto, recursos da escrita que podem revelar outro posicionamento político da redação da revista, que talvez não pudesse ser explicitado naquele momento.

Observamos a presença de reticências em três lugares, após as sequências: o timoneiro era capaz e tinha as mãos seguras...; percebem as mínimas oscillações da singradura...; e experimentado e sereno ditador... Tal emprego pode revelar uma incompletude de pensamento, certa vaguidão a ser preenchida pelo leitor, criando, segundo Dahlet (2006, p.208)DAHLET, V. As (man)obras da pontuação: usos e significações. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. , espaços de interpretação, ou seja, cabe ao interlocutor cooperar na construção dos sentidos, preenchendo esses espaços.

Ao mesmo tempo, vários efeitos de sentido podem advir desse preenchimento, como, por exemplo, a compreensão de que o timoneiro seria muito capaz e com mãos seguras, por conseguinte, teria outras qualidades. Ou o contrário, de que ter mãos seguras poderia ser atributo de um ditador. Da mesma forma, no trecho mínimas oscillações da singradura..., as reticências podem sugerir muitos preenchimentos para o signo oscillações, como protestos, contestações do novo regime, revoltas, insegurança econômica etc. No último exemplo, as reticências são colocadas após a expressão experimentado e sereno ditador, com referência ao presidente Getúlio Vargas. Uma possibilidade de leitura é a de que esse acréscimo provoca um efeito de sentido irônico, deixando o senso crítico do leitor decidir pela legitimidade ou não dos adjetivos experimentado e sereno, atribuídos ao substantivo ditador, já que esses adjetivos não são trazidos, comumente, para qualificar tal figura.

Outra leitura possível, que advém do emprego do termo conservar, em conservando na suprema magistratura o experimentado e sereno ditador..., é a de que as reticências funcionam como uma espécie de suspensão, criando um efeito de sentido de prolongamento ad eternum da permanência experimentada e serena de Vargas no poder.

Nesse excerto, ainda vemos o emprego do ponto de interrogação de forma duplamente destacada, sugerindo mais que uma mera interrogação, um grito interrogativo, uma entoação avaliativa grafada na escrita, reafirmando a voz questionadora da revista, a despeito da ascensão de Vargas ao poder: Poderia ir outro para a direção do leme??. Sugere-se, com tal recurso, uma participação do leitor, nesse jogo discursivo, para refletir sobre a possibilidade da assunção de outra pessoa ao poder. Outra leitura possível seria a de que não haveria, de fato, outra pessoa melhor do que Vargas para governar. Dessa forma, a pergunta com dupla interrogação seria apenas um recurso retórico, como assinalam Dahlet (2006)DAHLET, V. As (man)obras da pontuação: usos e significações. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. e Perelman; Tyteca (2014)PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. Tradução Maria Ermantina G. G. Pereira. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014..

No parágrafo final da primeira parte do texto, a autoria faz referência à data 10 de novembro, dia que marca a implantação do Estado Novo: “Essa transformação também repentina occorreu pacificamente e sem choques, a 10 de Novembro o mês predestinado”. (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.2). Tal afirmação refere-se especificamente à Constituição de 1930, quando Vargas ascendeu ao poder. Assim, a possível tensão criada ao longo dos parágrafos anteriores, circunscrita no trabalho discursivo com o campo lexical da navegação, é quebrada quando a autoria confere a essa data uma transformação sem entraves.

A segunda parte do enunciado vai tratar do centenário de nascimento de Couto de Magalhães2 2 Couto de Magalhães é considerado o iniciador dos estudos folclóricos no Brasil, tendo escrito diversas obras. Além disso, foi político e militar, tendo sido Presidente de Mato Grosso e Presidente das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo. Foi, ainda, secretário do Governo de Minas Gerais entre 1860 e 1861. Disponível em: www.e-biografias.net/couto_magalhaes/. Acesso em: 22 ago. 2014. . Nesse trecho, é apresentada a figura de José de Mesquita3 3 José de Mesquita (1892-1961), frequente colaborador de A Violeta, foi jurista e escritor, desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Foi, ainda, um dos principais incentivadores da fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, em 1919, e da Academia Mato-grossense de Letras, em 1921, da qual foi membro fundador e Presidente desde a sua fundação até o seu falecimento, em 1961. Nela, ocupou a cadeira n. 19, cujo patrono foi justamente o ilustre homenageado: José Vieira Couto de Magalhães. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Mesquita Acesso em: 22 ago. 2019. , que, juntamente com as associações culturais da época, realizou uma homenagem ao conhecido escritor. A autoria do texto enfatiza a importância do trabalho de Mesquita por seu nacionalismo, em defesa do país de possíveis ameaças:

Seu formoso e magistral estudo acadêmico, daquela imponente figura do segundo Império, revelou pelo prisma que no momento occupa a attenção dos dirigentes da República, ameaçada de ser envolvida no rodamoinho das theorias bolschevistas - a feição nacionalista do seu espírito e das suas obras (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.2).

A referência às theorias bolschevistas deve-se à influência das ideias originárias da Revolução Russa na política brasileira. Os bolcheviques4 4 Bolch é uma palavra da língua russa e significa “maioritário”. Com essa expressão foram denominados os integrantes da facção do Partido Operário Social-Democrata Russo, liderado por Vladimir Lênin. propunham uma mudança radical de política para o povo, defendendo uma revolução socialista armada, caso fosse necessário.

A autoria, através do uso do travessão simples, faz um corte na sintaxe do período, separando o objeto direto a feição nacionalista do seu espírito e das suas obras do verbo revelou. Esse procedimento cria um efeito de destaque (DAHLET, 2006DAHLET, V. As (man)obras da pontuação: usos e significações. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006. ), colocando em evidência o nacionalismo de Couto de Magalhães.

O enunciado prossegue trazendo a figura do folclorista, e também deixa transparecer uma apreciação valorativa não muito otimista do momento sócio-histórico, marcado pelo início do Estado Novo: “[...] nesse culto intteligente e efficaz que a Nação está prestando aos seus pró homens, no momento difficil e angustioso que vivemos” (A VIOLETA, n. 236-237, 1937, p.2). Ao utilizar a primeira pessoa do plural do verbo viver, a autoria se insere no complicado contexto a que está se referindo, criando um cenário para afirmar que todas as pessoas estão vivenciando as dificuldades oriundas da repressão da ditadura varguista.

Perelman; Tyteca (2014, p. 202)PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. Tradução Maria Ermantina G. G. Pereira. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014. consideram essa troca como uma figura retórica de presença e comunhão, denominada enálage do número de pessoas, a permutação do eu, do tu, pelo nós. Fiorin (2014, p.97-98)FIORIN, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014. apresenta-nos também essa figura e a define como: “[...] uso de uma categoria gramatical por outra (um número por outro, um gênero por outro, uma pessoa por outra, um tempo por outro, um modo por outro, uma voz por outra, uma classe por outra, etc.)”.

No último parágrafo da segunda parte, há um destaque para Couto como um imperterrito defensor de Mato Grosso, cujo centenário se comemorou no dia 7 de novembro. A autoria apresenta ainda um discurso citado por ele, que é uma tradução da língua tupi, esculpido na laje de uma cachoeira do Araguaia: “Sob os auspícios do Snr. D. Pedro II, passou um vapor da bacia do Prata para a do Amazonas, e veio chamar á civilisação e ao commercio os esplendidos sertões do Araguaya com mais de 20 tribus selvagens, no anno de 1869”. Com o olhar da época, a presença do discurso citado encerrando essa parte marca a apreciação valorativa positiva que se tinha sobre o domínio do branco em terras de ocupação indígena, como um sinal de defesa do território mato-grossense.

A terceira parte do enunciado é dedicada ao dia da Bandeira: “O culto à ‘Bandeira’ - esse pendão auriverde que tanto nos falla á sensibilidade patriotica, - mereceu também destaque, nas commemorações deste anno”. (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.3). O emprego do travessão duplo cria, mais uma vez, um efeito de destaque, inserindo um aposto que enfatiza o patriotismo, forte voz que perpassa todo o enunciado. O texto prossegue expressando de forma contundente tal aspecto:

Em todos os rincões do Brasil flammulou de maneira desusada a 19 de novembro, de todos os tamanhos, em toda a pujança de suas bellas cores nas residencias, particulares, nos edificios publicos, nas mãos das crianças, fallando-nos num aceno amigo: “a Patria está em perigo. E’ preciso reaccender em cada coração, a chamma votiva de amor, dedicação e heroismo que nas horas extremas, diante o inimigo extrangeiro, á simples vista eu faço borbulhar no peito forte de cada brasileiro (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.3).

Reconhecemos, nesse excerto, a figura retórica identificada como personificação ou prosopopeia, pois a bandeira fala num aceno amigo, alertando sobre um provável perigo diante do inimigo estrangeiro. Para Fiorin (2014, p.51)FIORIN, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014., na personificação “[...] há um alargamento do alcance semântico de termos designativos de entes abstratos ou concretos não humanos pela atribuição a eles de traços próprios do ser humano”. Tal imagem encarna a voz do discurso nacionalista, do heroísmo, do patriotismo. O perigo a que a autoria se refere pode ser relacionado às turbulências envolvendo a política interna da Era Vargas ou aos prenúncios de questões internacionais que culminaram, em 1939, com a Segunda Guerra Mundial.

Na quarta e última parte do texto, há um chamamento para a época do final do ano. Vários acontecimentos religiosos são enumerados para evidenciar o mês de dezembro e o final do ano: Festa da Nossa Senhora Conceição, do Natal e noite de S. Sylvestre.

Mais adiante, no parágrafo seguinte, a autoria demonstra não ter muitas expectativas positivas sobre o ano que se inicia, ao trazer as situações desfavoráveis, conforme podemos observar no emprego de adjetivos e expressões qualificadoras na sequência: “Recebe-se com regosijos o anno que vem, trazendo, nas dobras mysteriosas da sua clamyde, surpresas boas e más, chimeras loucas e enganosas, realidades cruas e frias desillusões...” (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.3; grifo nosso).

Notamos que, novamente, o fragmento termina com o emprego de reticências, o que parece criar o efeito de sentido de que, em determinados momentos do texto, reflete-se sobre a data comemorativa de passagem de ano, deixando transparecer que, mesmo ciente do contexto governamental e da questão nacionalista, tão presente à época, há muita descrença quanto ao rumo dos encaminhamentos da política nacional.

Apesar disso, o enunciado prossegue com uma apreciação valorativa favorável aos acontecimentos vivenciados no ano de 1937: “Foi dentre poucos um Anno Bom. Rememorando as suas etapas concluimos que para o Brasil e para Matto Grosso ele foi excellente. Trouxe-nos a Paz e já é muito; mas trouxe-nos também a Esperança, infiltrando-nos a coragem de viver e a certeza de melhores dias” (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.4).

Recorrendo novamente ao campo lexical da navegação, a autoria aponta para os altos e baixos dos processos políticos da época, apreciando satisfatoriamente os fatos ocorridos: “Nas oscillações do preamar e baixamar administrativos, soubemos aproveitar a maré montante, para a acção efficaz e oportuna” (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.4).

Desde a primeira parte do texto, verificamos a utilização de metáforas para se referir indiretamente aos eventos políticos e às figuras centrais desses fatos, articulando o emprego lexical ao campo semântico da navegação, pictoricamente, como, por exemplo, na presença das palavras nau, timoneiro, nevoeiro, singradura, borrasca, cerração, leme, terra, mar, rodamoinho, vapor, preamar, baixamar, maré montante.

A parte final contém mais uma apreciação valorativa favorável às comemorações de fim de ano: “Justos pois os festejos que se preparam in memoriam. Honra a 1937 Salve! 1938”. (A Violeta, n. 236-237, 1937, p.4). O uso da expressão latina in memoriam, em itálico e fonte menor que a usada no texto, termo atribuído a pessoas falecidas, é significativo. O efeito de sentido gerado por esse deslocamento na referência ao “ano” que se finda é de personificação de um período de tempo. Além da dimensão estilística que faz alusão à tradição clássica, a autoria também relaciona a questão vida e morte, com os rituais próprios da vida social, à temporalidade do ano que termina e do ano que se inicia.

Conclusão

O uso de marcas lexicográficas - aspas e reticências (elementos da dimensão verbal) - empregadas no enunciado, pela redação, permite a inserção de vozes atuando em direção contrária, embora a presença dessas vozes seja bastante sutil e possa ser percebida apenas em uma leitura atenta que revele um olhar aguçado sobre os enunciados e sobre os detalhes verbo-visuais.

Ao relacionarmos a dimensão visual, que se apresenta no enunciado, com os aspectos tipográficos utilizados ao longo do texto e a seleção lexicográfica, na dimensão verbal, identificamos, portanto, um entrecruzamento de vozes: uma voz explícita que, ao brindar o governo varguista, acata o discurso vigente, reproduzindo seus temas como o nacionalismo e o patriotismo, e uma outra voz, velada, porém perceptível na mobilização da dimensão verbo-visual, que é crítica à situação política da época. Lembremos que o próprio texto expressa o entrecruzamento dessas vozes, ao apresentar, na página 3, o descontentamento e insegurança da autoria face à expectativa do ano vindouro.

Apesar de a análise ter evidenciado a presença de duas vozes, alguns estudiosos reafirmam a interferência do Estado Novo no feminismo emergente. Segundo Pinto (2003), com o Estado Novo há um aumento do controle do Estado na imprensa, afetando as manifestações em favor da emancipação feminina. Mas, segundo Silva (2015 p.42)SILVA, G. C. A revista A Violeta e a educação feminina em Cuiabá. Caderno de publicações, Várzea Grande, n. 2, p.39-51, 2015. , “[...] as redatoras da revista não tiveram problemas com esse tipo de fiscalização, uma vez que reproduziam um discurso firmado pelo Estado Novo. Pelo contrário, eram elogiadas pela circulação do periódico e pelos seus afazeres solidários em prol da sociedade cuiabana”.

O esforço analítico na leitura do enunciado Chronica procurou evidenciar algumas vozes ali presentes e seu entrecruzamento. Por ser uma pesquisa pautada pela Análise Dialógica do Discurso, é importante considerar em quais coordenadas temporais e espaciais os discursos e as vozes tiveram a sua realização, e como isso se realizou por meio da materialidade linguística, enunciativa e discursiva.

Salientamos, na observação das formas de constituição material, o plano de expressão verbo-visual, atentando para os aspectos da diagramação, da tipografia, do emprego de sinais de pontuação e convenções da escrita, além das imagens, quando presentes. Incluímos as contribuições da Nova Retórica, por força de aspectos evidenciados no enunciado, muito próprios dos estilos das redatoras. Essa atitude analítica, que leva em conta os aspectos da materialidade linguística e da verbo-visualidade apoia-se nas considerações de Medviédev (2012, p.48-49)MEDVIÉDEV, P. N. (Círculo de Bakhtin). O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. Tradução, a partir do russo, e Nota das tradutoras Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Apresentação Beth Brait. Prefácio Sheila Camargo Grillo. São Paulo: Contexto, 2012., ao treinarmos o nosso olhar para os produtos ideológicos como parte de uma realidade social e material ao redor do ser humano. Também buscamos, a partir das contribuições de Brait, brevemente apresentadas na primeira seção, desdobrar os processos linguísticos e gráficos, além das variadas convenções e elementos da escrita, os quais podem constituir um conjunto de procedimentos que apontam para a verbo-visualidade, possibilitando vislumbrar as evidências de sua materialidade.

Destacamos a composição textual em forma de taça, e um trabalho que alia conteúdo do texto à parte específica da taça, ou seja, quando a taça se estreita o conteúdo inserido refere-se à ditadura branca, sugerindo uma fase política de estreitamento. Podemos aliar, no mesmo texto, os aspectos tipográficos aos recursos da escrita e ao conjunto lexical, apontando para um entrecruzamento de vozes com duas orientações: uma voz que acata o discurso vigente, perpetuando as temáticas do nacionalismo e patriotismo e outra voz velada, apenas perceptível nos pequenos detalhes da dimensão verbo-visual, que é contrária à situação política da época.

Há, ainda, no enunciado analisado, outros aspectos que contribuem para a constituição de diversas vozes que encarnam diferentes discursos e posicionamentos ideológicos, como as diferentes estratégias retóricas utilizadas, o emprego do discurso citado, a criação de campos semânticos que apontam para diferentes esferas, a utilização frequente de recursos da escrita, como aspas, reticências, travessão e sinais de pontuação.

O caminho metodológico trilhado permitiu-nos compreender a materialidade verbo-visual que envolveu o jornalismo impresso feminino da primeira metade do século XX em Cuiabá. De forma conjunta, o arcabouço teórico mobilizado guiou o nosso olhar em direção ao cumprimento dos objetivos de nosso estudo, os quais, acreditamos, terem sido alcançados.

  • Declaração de contribuição de autores
    A autora teve acesso ao corpus da pesquisa, participou ativamente da discussão dos resultados e procedeu à revisão e à aprovação da versão final do trabalho. A coautora Simone Padilha teve acesso a parte dos dados, precisamente sobre o conceito de Vozes que o trabalho foca e que o Grupo Rebak discutia na época. Foi convidada a publicar o artigo em coautoria, auxiliando no melhor recorte da tese que poderia servir para a publicação na revista e na revisão do texto.
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    Localizamos essa recorrência ao símbolo, por exemplo, na Revista de Estudos Livres, periódico de divulgação da filosofia positivista, publicada em Portugal e no Brasil entre 1883 e 1886.
  • 2
    Couto de Magalhães é considerado o iniciador dos estudos folclóricos no Brasil, tendo escrito diversas obras. Além disso, foi político e militar, tendo sido Presidente de Mato Grosso e Presidente das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo. Foi, ainda, secretário do Governo de Minas Gerais entre 1860 e 1861. Disponível em: www.e-biografias.net/couto_magalhaes/. Acesso em: 22 ago. 2014.
  • 3
    José de Mesquita (1892-1961), frequente colaborador de A Violeta, foi jurista e escritor, desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Foi, ainda, um dos principais incentivadores da fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, em 1919, e da Academia Mato-grossense de Letras, em 1921, da qual foi membro fundador e Presidente desde a sua fundação até o seu falecimento, em 1961. Nela, ocupou a cadeira n. 19, cujo patrono foi justamente o ilustre homenageado: José Vieira Couto de Magalhães. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Mesquita Acesso em: 22 ago. 2019.
  • 4
    Bolch é uma palavra da língua russa e significa “maioritário”. Com essa expressão foram denominados os integrantes da facção do Partido Operário Social-Democrata Russo, liderado por Vladimir Lênin.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2020
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2020

Histórico

  • Recebido
    20 Maio 2019
  • Aceito
    31 Jan 2020
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