A pesquisa em ciências humanas: uma leitura bakhtiniana

Solange Jobim e Souza Elaine Deccache Porto e Albuquerque Sobre os autores

Resumos

Este texto aborda, com base na teoria de Mikhail Bakhtin, questões relativas à especificidade do conhecimento produzido pelas ciências humanas e suas implicações para a tarefa do pesquisador. O objetivo é discutir momentos constitutivos do ato de pesquisar: o encontro do pesquisador e seu outro, durante o desenvolvimento da pesquisa de campo, e o compromisso que ele assume, posteriormente, com a escrita do texto, buscando dar forma e conteúdo, através da criação de conceitos, à realidade pesquisada. Em cada um desses momentos destaca-se o compromisso ético do pesquisador na produção do sólido entendimento humano no ato de pesquisar.

Epistemologia; Ciências humanas; Linguagem; Pesquisa; Ética


This text approaches, based on the theoretical work of Mikhail Bakhtin, questions related to the specificity of the knowledge produced by Human Sciences and their implications for the researcher's task. The text aims at discussing the constitutive moments of the act of researching, that is: the encounter between the researcher and his other, during the development of the field research, and the obligation which the researcher assumes later on, by writing his paper, in order to give form and content, through the creation of concepts, to the researched reality. In each one of these moments, what is pointed out is the ethical obligation of the researcher in the production of solid human understanding in the act of researching.

Epistemology; Human Sciences; Language; Research; Ethics


ARTIGOS

A pesquisa em ciências humanas: uma leitura bakhtiniana

Solange Jobim e SouzaI; Elaine Deccache Porto e AlbuquerqueII

IProfessora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUCRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; pesquisadora do CNPq e da FAPERJ; soljobim@uol.com.br IIProfessora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUCRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; elaine@infolink.com.br

RESUMO

Este texto aborda, com base na teoria de Mikhail Bakhtin, questões relativas à especificidade do conhecimento produzido pelas ciências humanas e suas implicações para a tarefa do pesquisador. O objetivo é discutir momentos constitutivos do ato de pesquisar: o encontro do pesquisador e seu outro, durante o desenvolvimento da pesquisa de campo, e o compromisso que ele assume, posteriormente, com a escrita do texto, buscando dar forma e conteúdo, através da criação de conceitos, à realidade pesquisada. Em cada um desses momentos destaca-se o compromisso ético do pesquisador na produção do sólido entendimento humano no ato de pesquisar.

Palavras-chave: Epistemologia; Ciências humanas; Linguagem; Pesquisa; Ética

ABSTRACT

This text approaches, based on the theoretical work of Mikhail Bakhtin, questions related to the specificity of the knowledge produced by Human Sciences and their implications for the researcher's task. The text aims at discussing the constitutive moments of the act of researching, that is: the encounter between the researcher and his other, during the development of the field research, and the obligation which the researcher assumes later on, by writing his paper, in order to give form and content, through the creation of concepts, to the researched reality. In each one of these moments, what is pointed out is the ethical obligation of the researcher in the production of solid human understanding in the act of researching.

Keywords: Epistemology; Human Sciences; Language; Research; Ethics

Por uma epistemologia das ciências humanas

Refletir sobre a construção de uma epistemologia das ciências humanas a partir da filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin exige do pesquisador desta área enfrentar um desafio inicial, ou seja, a caracterização do que é conhecer um objeto, e o que é conhecer um indivíduo, outro sujeito cognoscente. Para Bakhtin, esta distinção é fundamental, pois permite ao pesquisador caracterizar cada elemento, objeto e sujeito, em suas especificidades, nos seus próprios limites. Ao pensarmos no conhecimento que pode ser elaborado quando o sujeito se depara com um objeto, desprovido de interioridade, observa-se que tal objeto pode se revelar por um ato unilateral do sujeito cognoscente e, portanto, tal conhecimento é da ordem do interesse prático. Em contrapartida, quando um determinado sujeito se abre para o conhecimento de outro indivíduo, deve conservar certa distância, pois, abrir-se para o outro é, neste caso, permanecer também voltado para si. Esta duplicidade – ser sujeito e, ao mesmo tempo, objeto de conhecimento – exige que as ciências humanas se definam a partir de uma problemática que lhes seja própria e de um campo específico de exploração. O critério que orienta esse tipo de conhecimento é a preocupação com a densidade e a profundidade do que é revelado a partir do encontro do pesquisador e seu outro1 1 O termo outro tem, neste texto, o propósito de enfatizar a dimensão necessariamente dialógica, alteritária e polifônica da produção do conhecimento em ciências humanas, que pode, ou acontecer concretamente entre pessoas em uma pesquisa de campo, ou entre ideias reveladas em textos escritos através dos tempos. . O pesquisador do campo das ciências humanas está, portanto, transitando no terreno das descobertas, das revelações, das tomadas de conhecimento, das comunicações, das produções de sentido entre o eu e o outro. Neste âmbito, vale destacar a importância dos segredos, das mentiras, das indiscrições, das ofensas, dos confrontos de pontos de vistas que inevitavelmente acontecem nas relações entre humanos. Bakhtin problematiza a oposição entre "certo" e "errado", pois este critério pertence ao registro da verdade universal, validada a partir de critérios que buscam a exatidão. A exatidão pressupõe a coincidência de um objeto consigo mesmo, sendo necessária e possível em certas circunstâncias. Contudo, conhecer implica aceitar o abalo de nossas certezas, problematizando, sempre que possível, as explicações que não comportam réplicas. Bakhtin, quando distingue o conhecimento produzido no interior das ciências exatas do conhecimento no âmbito das ciências humanas, diz:

As ciências exatas são uma forma monológica de saber: o intelecto contempla uma coisa e emite um enunciado sobre ela. Aí só há um sujeito: o cognoscente (contemplador) e falante (enunciador). A ele só se contrapõe a coisa muda. Qualquer objeto do saber (incluindo o homem) pode ser percebido e conhecido como coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo; consequentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico (2003, p.400).

A epistemologia das ciências humanas de Bakhtin, pautada em sua filosofia da linguagem, tem como premissa problematizar a forte presença do positivismo no pensamento ocidental moderno, criando outra possibilidade de se produzir conhecimento no interior das ciências humanas. O argumento para isso é o de que o conhecimento que os homens podem ter do mundo natural é diferente do conhecimento que os homens podem ter de si mesmos, sobre sua natureza, suas criações e formas de vida. Ao levar em conta a particularidade do encontro do pesquisador com o seu outro e, consequentemente, a especificidade do conhecimento que pode ser gerado a partir dessa condição, o que se destaca é a produção de um conhecimento inevitavelmente dialógico e alteritário. Para Bakhtin, há que se considerar a complexidade do ato bilateral e da profundidade do conhecimento que se constitui e se revela na relação dialógica eu-outro. Dialogismo e alteridade, na obra de Bakhtin, são conceitos que não podem ser pensados separadamente. Alteridade, na sua concepção, não se limita à consciência da existência do outro, nem tampouco se reduz ao diferente, mas comporta também o estranhamento e o pertencimento. O outro é o lugar da busca de sentido, mas também, simultaneamente, da incompletude e da provisoriedade. Essa perspectiva apresenta a condição de inacabamento permanente do sujeito, o vir-a-ser da condição do homem no mundo, assim como também denuncia a precária condição das teorias que buscam, através de uma linguagem instrumental, representar a totalidade da experiência do homem no mundo. O mundo conhecido teoricamente não é o mundo inteiro (Bakhtin, 2010).

A partir desta tensão entre as pretensões da teoria e a singularidade da existência na vida, o filósofo elabora os conceitos fundamentais - dialogismo e alteridade - que nos permitem refletir sobre a relação do pesquisador e seu outro no âmbito da pesquisa. Com base nas premissas do pensamento de Bakhtin, faz-se necessário levar em conta que o ato de pesquisar é um momento marcado pela excepcionalidade, ou seja, é um acontecimento único, e que deve ser entendido no âmbito de tal dimensão singular. Nessa perspectiva o pesquisador rompe com a pretensa neutralidade na produção do conhecimento em ciências humanas, deixando-se afetar pelas circunstâncias e pelo contexto em que a cena da pesquisa se desenrola. Na medida em que este fato é inevitável, a questão para o pesquisador não é mais controlar a sua performance para minimizar ao máximo as consequências de suas atitudes no campo, mas, ao contrário, faz-se mister tornar explícito no seu relato o modo como as circunstâncias o afetam. Em outros termos, o pesquisador se indaga sobre a especificidade do conhecimento que é produzido de forma compartilhada, na tensão entre o eu e o outro, por meio de uma cumplicidade consentida entre ambos. Como veremos a seguir, é problematizando a compreensão que o sujeito constrói de si mesmo, na relação com os outros na vida, que Bakhtin lança as premissas que orientam nossa reflexão sobre a relação do pesquisador com os sujeitos no âmbito da pesquisa.

1 A construção da consciência de si através do olhar e da palavra alheia

A compreensão que o sujeito tem de si se constitui através do olhar e da palavra do outro. Cada um de nós ocupa um lugar espaço-temporal determinado, e deste lugar único revelamos o nosso modo de ver o outro e o mundo físico que nos envolve. Nesta perspectiva de análise, a ênfase está no lugar ocupado pelo olhar e pela palavra na constituição do sentido que conferimos à nossa experiência de estar no mundo, sentido este atravessado por valores que fazem parte da cultura de uma dada época. Ao observarmos as interações sociais e os enunciados que emergem na vida cotidiana, constatamos a nossa necessidade absoluta do outro. Nossa individualidade não teria existência se o outro não a criasse. O território interno de cada um não é soberano, como bem explicita Mikhail Bakhtin (2003, p.341), ser significa ser para o outro e, por meio do outro, para si próprio. É com o olhar do outro, impregnado de valores, que me comunico com o meu interior. Tudo o que diz respeito a mim chega a minha consciência através do olhar e da palavra do outro, ou seja, o despertar da minha consciência se realiza na interação com a consciência alheia, a qual está constituída por uma determinada dimensão axiológica:

Tudo o que me diz respeito, a começar pelo meu nome, chega do mundo exterior à minha consciência pela boca dos outros (da minha mãe, etc.), com a sua entonação, em sua tonalidade valorativa-emocional. A princípio eu tomo consciência de mim através dos outros: deles eu recebo as palavras, as formas e a tonalidade para a formação da primeira noção de mim mesmo (Bakhtin, 2003, p.373-374).

Bakhtin recorre ao conceito de exotopia para explicitar o fato de uma consciência estar fora de outra, de uma consciência ver a outra como um todo, ou seja, o que ela, a consciência, não pode fazer consigo própria. Diz o autor que há uma limitação intransponível no meu olhar que só o outro pode preencher. Cada um de nós se encontra na fronteira do mundo que vê. Ao aproximar os conceitos de exotopia e dialogismo, ou seja, a experiência espaço-temporal com a experiência vivida na linguagem, Bakhtin dirá que do mesmo modo que a minha visão precisa do outro para eu me ver e me completar, minha palavra precisa do outro para significar:

Esse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha posse – excedente sempre presente em face de qualquer outro indivíduo – é condicionado pela singularidade e pela insubstitutibilidade do meu lugar no mundo: porque nesse momento e nesse lugar, em que sou o único a estar situado em dado conjunto de circunstâncias, todos os outros estão fora de mim (2003, p.21).

Podemos constatar, com base nessas premissas, que a visibilidade do sujeito em relação ao seu lugar espacial e temporal no mundo se revela, para ele, pelo olhar e pelo discurso do outro. Uma dada pessoa, do seu ângulo de visão, pode mediar, com o seu olhar e com a sua fala, aquilo que em mim não pode ser visto por mim. Portanto, a construção da consciência de si é fruto do modo como compartilhamos nosso olhar com o olhar do outro, criando, desta forma, uma linguagem que permite decifrar mutuamente a consciência de si e do outro no contexto das relações sociais, históricas e culturais. Essa dimensão alteritária vivida pelo sujeito no âmbito das interações sociais serve como um espelho daquilo que em mim se esconde, e que só se revela a mim na relação com o outro. Nessa perspectiva, o outro ocupa o lugar da revelação daquilo que desconheço em mim e este fato, concreto e objetivo, nos enlaça em um mútuo compromisso ético. Sinto-me responsável pela criação do meu semelhante, assim como dependo dele para dar forma e sentido a minha experiência interna. Podemos destacar três momentos da tomada de consciência do sujeito que se revelam no encontro na vida: o outro para mim; eu para o outro; eu para mim mesmo. Vale dizer que esses momentos não se evidenciam de forma estanque, mas são revelados simultaneamente no modo como o diálogo na vida vai se constituindo. Em síntese, o excedente de visão do outro em relação a mim e de mim em relação a ele cria uma cumplicidade responsável entre nós, uma vez que nem a minha existência nem a existência dele são soberanas, mas interdependentes.

Como dito anteriormente, o discurso na vida é atravessado por julgamentos de valor e a compreensão de qualquer ato de fala não pode descartar as avaliações que inevitavelmente estão presentes nas interações sociais. Pensar pesquisa em ciências humanas como um modo especial de acontecimento na vida implica levar em consideração que a compreensão dos temas que se quer investigar se dá a partir de confrontos de ideias e negociação de sentidos possíveis entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa. Esta abordagem, ao admitir a impossibilidade de qualquer compreensão sem julgamento de valor, coloca em questão o lugar de neutralidade do pesquisador. Deste modo, se o pesquisador busca compreender uma dada realidade, seu modo de compreender não se separa do seu modo de avaliar, pois ambos, compreensão e avaliação, se constituem como momentos simultâneos de um ato integral único. Entretanto, como o pesquisador não esta só na cena da pesquisa, o grande desafio diz respeito a sua disponibilidade de se deixar surpreender pelo encontro/confronto que acontece no campo com os sujeitos da pesquisa.

o sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade de mudança e até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato de compreensão desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento (Bakhtin, 2003, p.378).

Portanto, o lugar ocupado pelo pesquisador é marcado pela experiência singular, única e irrepetível do encontro do pesquisador e seu outro, na busca de produzir textos que revelem compreensões, ainda que provisórias, para dar sentido aos acontecimentos na vida. Bakhtin afirma (2003):

estamos interessados na especificidade do pensamento das ciências humanas, voltado para pensamentos, sentidos e significados dos outros, etc., realizados e dados ao pesquisador apenas sob a forma de texto. Independentemente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o texto pode ser o ponto de partida (p.308).

Onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento (p.307).

O texto é o dado (realidade) primário e o ponto de partida de qualquer disciplina nas ciências humanas (p.319).

Os textos são múltiplos e variados, daí a necessária contribuição de uma teoria da linguagem que discuta os gêneros discursivos2 2 Para Bakhtin, as formas de uso da língua são tão múltiplas como as esferas da atividade humana. Assim, para ele, o uso da língua se mostra na forma de enunciados, que podem ser orais ou escritos, concretos e singulares, que pertencem a sujeitos que participam de vários contextos da práxis social humana. Se, por um lado, cada enunciado tomado isoladamente é individual, por outro, cada esfera de uso da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais Bakhtin dá o nome de gêneros discursivos. e suas funções. Porém, como nos diz Geraldi (2010), a exigência em relação à produção de um discurso (ou texto) vai muito além do conhecimento das formas relativamente estáveis dos gêneros discursivos: é preciso assumir o papel de sujeito discursivo, ou seja, constituir-se como locutor, o que implica necessariamente uma relação com a alteridade, com o outro. E uma relação com o outro não se constrói sem sua participação, sem sua presença, sem que ambos saiam modificados desta relação.

Os discursos na vida se apresentam em sua forma ordinária, ininterrupta e única. Os discursos nas teorias promovem pausas e ganham mais estabilidade com a manifesta pretensão de alcançar generalizações e elaborar verdades que constituem os conhecimentos filosófico, científico ou estético, ainda que estas permaneçam provisórias.

2 Dialogismo e alteridade na pesquisa em ciências humanas

Ao assumirmos a teoria da linguagem que nos propõe Bakhtin como fundamento de nossas preocupações metodológicas para a pesquisa em ciências humanas, a interlocução entre o pesquisador e seu outro ganha uma especificidade que precisa ser caracterizada. Aqui, o foco não está na fala do sujeito da pesquisa tomada isoladamente, mas a cena dialógica que se estabelece entre o pesquisador e seu outro, produzindo sentidos, acordos e negociações sobre o que pensam sobre um determinado assunto, em um contexto definido por atos de falas recíprocas. Na perspectiva bakhtiniana, a verdade não se encontra no interior de uma única pessoa, mas está na interação dialógica entre pessoas que a procuram coletivamente. O mundo em que vivemos fala de diversas maneiras, e essas vozes formam o cenário onde contracenam a ambiguidade e a contradição, certezas e incertezas. Somente a tensão entre as múltiplas vozes que participam do diálogo da vida pode dar conta da integridade e da complexidade do real.

Vale enfatizar que nesta abordagem teórica o outro, para o pesquisador, não é uma realidade abstrata, um objeto de pesquisa, mas é visto como alguém, cuja palavra confronta-se com a do pesquisador, refratando-a e exigindo-lhe resposta. Em contrapartida, a palavra do pesquisador recusa-se a assumir a aura de neutralidade imposta por uma determinada concepção de método científico e integra-se à vida, participando das relações e das experiências, muitas vezes contraditórias, que o encontro com o outro proporciona. Assim, vale destacar que entendemos, com base nesta abordagem, que qualquer pesquisa que envolva um encontro entre pessoas, que buscam produzir conhecimento sobre uma dada realidade, se dá em um contexto marcado por um processo de alteridade mútua, em que o pesquisador e seus outros negociam modos como cada um define, por assim dizer, suas experiências na busca de dar sentido à vida.

No diálogo entre o pesquisador e seu outro, a alternância de perguntas e respostas, a perplexidade diante dos atos e discursos alheios, assim como os pontos de vista e valores em jogo, fazem da pesquisa um processo vivo de produção de sentidos sobre os modos de perceber e significar os acontecimentos na vida. O pesquisador, nesse contexto, não apenas pergunta para obter respostas que atendam aos objetivos definidos de antemão, mas, ao perguntar e também responder, se posiciona como um sujeito, que, do lugar de pesquisador, traz perspectivas e valores diversos sobre as experiências compartilhadas com os sujeitos da pesquisa. Mas a pesquisa não se esgota no encontro entre o pesquisador e seu outro. É necessário dar forma e conteúdo ao acontecimento vivido no campo da pesquisa, e é neste momento que o texto escrito entra em cena. A escrita do pesquisador consolida a criação de conceitos cuja pretensão é criar zonas provisoriamente estáveis de pensamento sobre uma dada realidade.

Como caracterizar a especificidade deste momento em que o pesquisador se retira do campo, onde se deu o diálogo vivo com o sujeito da pesquisa, para o momento do relato escrito deste acontecimento? Em outras palavras, estamos nos interrogando sobre as consequências epistemológicas da pesquisa em ciências humanas, a partir desse enfoque, em seus dois momentos constitutivos: o encontro do pesquisador e seu outro, e o encontro do pesquisador e o texto. Em cada um destes momentos, de produção de conhecimento no âmbito das ciências humanas, o que se coloca em destaque é o compromisso ético de construir o sólido entendimento humano da experiência vivida.

3 O texto na vida e a escrita do texto: ajustes do pesquisador com a ética

No encontro do pesquisador e seu outro o desafio maior é o de assumir o compromisso ético com a produção de um conhecimento desinteressado3 3 Ponzio (2008) propõe um estudo comparativo das posições filosóficas de Bakhtin e Lévinas por considerar que este, como autor comprometido no âmbito da filosofia, leva a compreender mais profundamente a consistência teórica da reflexão bakhtiniana. O conceito de des-interesse (dés-inter-essement) torna-se muito importante na obra de Lévinas, pois coloca o indivíduo em uma situação de compromisso ilimitado, de responsabilidade absoluta como indivíduo, como único, um indivíduo ao qual o outro não pode substituir em sua responsabilidade. Também Bakhtin, desde seus primeiros ensaios, estabelece uma relação de recíproco compromisso entre unidade, singularidade, não intercambialidade e responsabilidade, entendida como absoluta, como "sem álibis". Assim, o que de fato organiza o que está em volta de modo unitário e único não é uma consciência que tematiza, ou seja, não se encontra na relação cognoscitiva sujeito-objeto, mas dá-se, para Bakhtin, na individualidade de minha responsabilidade, pela qual nenhum outro pode ocupar meu lugar, e determina que eu não tenha álibis para viver. . Bakhtin, ao apontar para esta necessária condição de produção de conhecimento nas ciências humanas, traz à tona o tema da ética na pesquisa.

É importante sublinhar que o filósofo mostra, em sua obra, sua crença na singularidade da experiência subjetiva e nos convida a perceber que ela se nutre no campo da vida, dos acontecimentos, em que somos habitados pelas vozes de muitos outros. É aí que ele convoca o Ser a viver sua existência sem escapar da responsabilidade que lhe cabe na unicidade de sua vida. A intenção, assim, é pensar a ética na pesquisa centrada na responsabilidade do pesquisador, uma vez que o ato de pesquisar pode ser entendido como um acontecimento único: inicialmente a partir do ato singular entre o pesquisador e seu outro e, em seguida, consolidando-se no ato da escrita do texto. Nesses dois momentos o que está em jogo é a responsabilidade do pesquisador por aquilo que pensa em um dado momento, ou seja, a assinatura do seu ato de pensar. Aqui, nossa intenção é problematizar o próprio ato de pesquisar, ao entender que o acontecimento da pesquisa abarca, simultaneamente, um "pensamento sobre o mundo" e um "pensamento no mundo", na medida em que admitimos esses momentos diferenciados na produção do conhecimento. Por um lado, temos o pensamento que procura abarcar o mundo – o pensamento teórico -, por outro, o pensamento que sente a si mesmo no mundo (como parte dele). Com isso, a pesquisa pode ser tomada em sua dupla contribuição: quer seja como acontecimento com a pretensão de abarcar o mundo, através da elaboração de conceitos, ou como criação de um determinado modo de participação no mundo, o qual, por sua vez, se transforma ao incorporar novos conceitos, compreensões e formas de agir.

Em Para uma Filosofia do Ato4 4 Este é um escrito da juventude de Bakhtin, desconhecido quase até o fim de sua longa vida. Tendo nascido na Rússia, em 1895 e morrido em 1975, o filósofo viveu sob o regime soviético e sofreu o choque de sua prisão durante o regime de terror de Stalin. Nos anos trinta, chegou a viver exilado na fronteira da Sibéria e do Cazaquistão. É impressionante constatar o fato de que o nome de Bakhtin desapareceu da imprensa russa por quase um quarto de século, até, mais ou menos, 1963. Só quase no fim da vida, mais livre da extrema cautela que sempre precisou ter, ele confessou a alguns amigos e admiradores a existência de um esconderijo em que guardava seus escritos (Albuquerque, 2008). , Bakhtin constata uma cisão entre o pensamento teórico discursivo (das ciências, da filosofia e da arte) e a experiência histórica do ser humano no acontecimento real de sua existência, expressa num conjunto de atos ou ações no campo da vida. No entendimento do filósofo, a vida de alguém, como um conjunto singular de pensamentos e atos realizados, compõe uma experiência que escapa à pretensão de um juízo universalmente válido5 5 Segundo Holquist, no prefácio de Para uma filosofia do ato (1993), por esse tempo, enquanto Bakhtin escrevia , ele lia Kant em profundidade, bem como debatia e dava aulas sobre o filósofo. Assim, talvez possamos considerar que esse texto foi uma espécie de réplica à mobilização que o pensamento de Kant operou no próprio Bakhtin, ou seja, uma expressão do dialogismo na construção do conhecimento, uma ideia que Bakhtin veio a desenvolver mais tarde. , pois este, em sua imaterialidade, é completamente impenetrável à materialidade da existência situada e responsável de alguém. Nesse sentido, o pensamento de Bakhtin postula a existência de dois mundos que se confrontam: o mundo da vida, sendo o único em que nós criamos, conhecemos, contemplamos, vivemos e morremos, é também o mundo que oferece um lugar para os nossos atos, os quais são realizados uma única vez no decorrer singular e irrepetível da nossa vida realmente vivida e experimentada; e o mundo da cultura, aquele no qual os atos da nossa atividade são objetivados ou representados.

Buscando uma aproximação com a pesquisa, podemos dizer que o campo da investigação é também um espaço onde há lugar para a singularidade, onde as trocas entre o pesquisador e seu outro se realizam de maneira ímpar e irrepetível. Contudo, mais adiante, no momento em que os acontecimentos do campo precisam ser registrados, objetivados em forma de texto, passa-se para o momento de sistematização da existência vivida no mundo da cultura. Bakhtin deixa claro que não há um plano unitário e único que possa determinar, entre esses dois mundos, o mundo da vida e o mundo da cultura, uma relação de unidade: pelo contrário, o mundo da vida e o mundo da cultura são impenetráveis.

De acordo com o filósofo, o mundo conhecido teoricamente é um mundo autônomo que tem leis próprias, pois refere-se ao universo das generalizações e abstrações. Na medida em que ele permanece em seus próprios limites, a autonomia do mundo abstratamente teórico é justificável e inviolável. Em contrapartida, dirá Bakhtin, o mundo teórico está suscetível de ser indiferente à singularidade da vida de cada um, ou seja, as teorizações são incapazes de apreender a eventicidade do Ser e o devir.

Carregado de tensão, o argumento de Bakhtin avança na direção de re-colocar a questão da ética na pesquisa, pois é neste preciso momento que a tensão entre os dois mundos encontra uma solução possível com a autoria de pensamento do pesquisador. Deste modo, argumentamos junto com o filósofo que o ato responsável do pesquisador instaura um plano unitário e singular que se abre em duas direções: na construção de seu sentido ou conteúdo e na construção do seu próprio Ser como evento único. Na singularidade do seu ato de pensar se unificam o mundo da cultura e o mundo da vida, sendo, assim, a responsabilidade desse ato de pensamento, a única via pela qual a perniciosa divisão entre a cultura e a vida poderia ser superada (Bakhtin, 1993, p.20).

Para situar-se no debate literário e estético de seu tempo, Bakhtin precisou situar-se, por exemplo, em relação aos formalistas, para quem a arte e a literatura se definem por não servirem a fins externos, encontrando, nelas mesmas, sua justificação. O filósofo faz sua censura aos formalistas por encontrar traços comuns entre estes e os positivistas, que acreditam estar fazendo ciência e buscando a verdade sem considerar a base arbitrária de seus pressupostos. Ele vai explicitá-la, ao dizer que a doutrina formalista é uma estética do material, pois reduz os problemas da criação literária a questões da língua, considerando-a na relação de seus próprios elementos constitutivos entre si. No entanto, essa doutrina menospreza os outros componentes do ato de criação, quais sejam, o conteúdo ou a relação com o mundo, e a forma, compreendida como a construção do autor que expressa sua singularidade na escolha que faz entre os elementos impessoais e genéricos da linguagem. Desse modo, para Bakhtin, o material não deve guiar a pesquisa estética, mas sim, a arquitetônica, sua construção, entendida como ponto de encontro entre material, forma e conteúdo.

Será que, nessa crítica, as ideias do filósofo não tocam em questões que aproximam a autoria da criação artística com a autoria da criação do texto do pesquisador no campo das ciências humanas? Poderíamos, então, ousadamente, a partir do pressuposto da arquitetônica, assumir a singularidade da autoria do pesquisador na construção de sua metodologia de pesquisa?

O conhecimento que se revela a partir do encontro do pesquisador com o outro não pode, ele mesmo, ser forçado a um enquadramento que o limite, mas deve manter-se livre. As ciências exatas, em contrapartida, buscam explicar o que permanece imutável em todas as mudanças. Em síntese, buscam encontrar um acabamento, ou seja, finalizar uma determinada análise em um dado texto. Mas a formação do Ser não pode ser engessada, capturada por um ato de conhecimento que transforme o Ser em um único texto. A formação do Ser deve estar livre para correlacionar um dado texto com outros textos possíveis. Cabe às ciências humanas encontrar as estratégias metodológicas que deem conta dessa dimensão de liberdade que deve ser a principal garantia para nos mantermos, como pesquisadores, fiéis à especificidade das ciências que estudam o homem e seu permanente vir-a-ser.

De forma singular, Bakhtin, como um autor que se interessou pela arte, particularmente pela literatura, mostra, em sua compreensão da experiência estética, a força de uma proposta ética no que se refere ao possível conhecimento que podemos ter de nós mesmos e à construção de um modo de nos relacionarmos com os outros. Em Estética da criação verbal, Bakhtin menciona o princípio da distância para falar da complexa relação entre os sujeitos interpretados e o sujeito interpretador, este, criativamente renovador. Nesse sentido, nas ciências humanas a precisão é a superação da alteridade do alheio, sem que este se transforme no que pertence ao pesquisador. Dito de outro modo, a palavra do outro convida o indivíduo à tarefa especial de compreendê-la⁄aceitá-la. (Em relação às próprias palavras essa tarefa não é necessária).

O filósofo nos alerta para a questão de que:

A metodologia da explicação e da interpretação se reduz com muita frequência a essa descoberta do repetível, ao conhecimento do já conhecido, e se percebe o novo o faz apenas de forma extremamente empobrecida e abstrata. Neste caso, evidentemente, desaparece por completo a personalidade individual do criador (falante). Todo o repetível e reconhecido se dissolve completamente e é assimilado pela consciência de um sujeito da compreensão; na consciência do outro ele é capaz de ver e compreender apenas a sua própria consciência. (Bakhtin, 2003, p.378-379).

Ao problematizar o modelo de razão absoluta e atemporal, Bakhtin nos libertou dos discursos que "correm" na frente das particularidades possíveis e desejáveis da nossa própria experiência. Como já dissemos, neste debate se explicita o compromisso ético do pesquisador com a sua tarefa, na qual pensar se transforma numa extraordinária atenção para o mundo que se encontra diante de nós. Também requer despojamento, disponibilidade, além da recusa a esquemas interpretativos preparados a priori.

A veracidade é o dever do pensamento, e a tarefa do pesquisador é obrigar-se a persegui-la, mesmo sabendo da impossibilidade de alcançá-la em sua plenitude. O compromisso do pesquisador é com a densidade e a profundidade do que é possível ser revelado com a pesquisa, e para dar conta dessa tarefa é necessária a cumplicidade dos sujeitos da pesquisa como coautores na incessante busca de sentidos para a condição humana.

REFERÊNCIAS

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EMERSON, C. Os cem primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Tradução de Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003.

GERALDI, J. W. Ancoragens - estudos bakhtinianos. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

JOBIM e SOUZA, S. Mikahil Bakhtin e Walter Benjamin: polifonia, alegoria e o conceito de verdade no discurso da ciência contemporânea. In: Brait, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora Unicamp, 1997.

PONZIO, A. A revolução bakhtinana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. Tradução coordenada por Valdemir Miotello. São Paulo: Contexto, 2008.

Recebido em 04/01/2012

Aprovado em 19/05/2012

  • 1
    O termo
    outro tem, neste texto, o propósito de enfatizar a dimensão necessariamente dialógica, alteritária e polifônica da produção do conhecimento em ciências humanas, que pode, ou acontecer concretamente entre pessoas em uma pesquisa de campo, ou entre ideias reveladas em textos escritos através dos tempos.
  • 2
    Para Bakhtin, as formas de uso da língua são tão múltiplas como as esferas da atividade humana. Assim, para ele, o uso da língua se mostra na forma de enunciados, que podem ser orais ou escritos, concretos e singulares, que pertencem a sujeitos que participam de vários contextos da práxis social humana. Se, por um lado, cada enunciado tomado isoladamente é individual, por outro, cada esfera de uso da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais Bakhtin dá o nome de gêneros discursivos.
  • 3
    Ponzio (2008) propõe um estudo comparativo das posições filosóficas de Bakhtin e Lévinas por considerar que este, como autor comprometido no âmbito da filosofia, leva a compreender mais profundamente a consistência teórica da reflexão bakhtiniana. O conceito de des-interesse (dés-inter-essement) torna-se muito importante na obra de Lévinas, pois coloca o indivíduo em uma situação de compromisso ilimitado, de responsabilidade absoluta como indivíduo, como único, um indivíduo ao qual o outro não pode substituir em sua responsabilidade. Também Bakhtin, desde seus primeiros ensaios, estabelece uma relação de recíproco compromisso entre unidade, singularidade, não intercambialidade e responsabilidade, entendida como absoluta, como "sem álibis". Assim, o que de fato organiza o que está em volta de modo unitário e único não é uma consciência que tematiza, ou seja, não se encontra na relação cognoscitiva sujeito-objeto, mas dá-se, para Bakhtin, na individualidade de minha responsabilidade, pela qual nenhum outro pode ocupar meu lugar, e determina que eu não tenha álibis para viver.
  • 4
    Este é um escrito da juventude de Bakhtin, desconhecido quase até o fim de sua longa vida. Tendo nascido na Rússia, em 1895 e morrido em 1975, o filósofo viveu sob o regime soviético e sofreu o choque de sua prisão durante o regime de terror de Stalin. Nos anos trinta, chegou a viver exilado na fronteira da Sibéria e do Cazaquistão. É impressionante constatar o fato de que o nome de Bakhtin desapareceu da imprensa russa por quase um quarto de século, até, mais ou menos, 1963. Só quase no fim da vida, mais livre da extrema cautela que sempre precisou ter, ele confessou a alguns amigos e admiradores a existência de um esconderijo em que guardava seus escritos (Albuquerque, 2008).
  • 5
    Segundo Holquist, no prefácio de
    Para uma filosofia do ato (1993), por esse tempo, enquanto Bakhtin escrevia
    , ele lia Kant em profundidade, bem como debatia e dava aulas sobre o filósofo. Assim, talvez possamos considerar que esse texto foi uma espécie de réplica à mobilização que o pensamento de Kant operou no próprio Bakhtin, ou seja, uma expressão do dialogismo na construção do conhecimento, uma ideia que Bakhtin veio a desenvolver mais tarde.
    • ALBUQUERQUE, E. Linguagem e experiência: a singularidade do olhar para o contexto da escola a partir das contribuições de Wittgenstein e Bakhtin. 2008. 225f. Tese. (Doutorado em Psicologia) Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro.
    • AMORIM, M. Ato versus objetivação e outras fundamentais no pensamento bakhtiniano. In: FARACO, C.; TEZZA, C.; CASTRO, G. (Org.). Vinte ensaios sobre Mikhail Bakhtin Petrópolis: Vozes, 2006, p.17-24.
    • BAKHTIN, M. O autor e a personagem na atividade estética' In: Bakhtin, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.3-192.
    • _______. O problema do texto na linguística, filologia e em outras ciências humanas. In: Bakhtin, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.307-336.
    • _______. Reformulação do livro sobre Dostoiévski. In: Bakhtin, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.337-358.
    • _______. Metodologia das ciências humanas. In: Bakhtin, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.393-410.
    • _______. Apontamentos de 1970-1971 In: Bakhtin, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.359-362.
    • _______. Para uma filosofia do ato. Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza da edição americana Toward a philosophy of the act Austin: University of Texas press, 1993. (Tradução destinada exclusivamente para uso didático e acadêmico)
    • _______. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.
    • EMERSON, C. Os cem primeiros anos de Mikhail Bakhtin. Tradução de Pedro Jorgensen Jr. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003.
    • GERALDI, J. W. Ancoragens - estudos bakhtinianos. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.
    • JOBIM e SOUZA, S. Mikahil Bakhtin e Walter Benjamin: polifonia, alegoria e o conceito de verdade no discurso da ciência contemporânea. In: Brait, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido Campinas: Editora Unicamp, 1997.
    • PONZIO, A. A revolução bakhtinana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. Tradução coordenada por Valdemir Miotello. São Paulo: Contexto, 2008.

    1 O termo outro tem, neste texto, o propósito de enfatizar a dimensão necessariamente dialógica, alteritária e polifônica da produção do conhecimento em ciências humanas, que pode, ou acontecer concretamente entre pessoas em uma pesquisa de campo, ou entre ideias reveladas em textos escritos através dos tempos. 2 Para Bakhtin, as formas de uso da língua são tão múltiplas como as esferas da atividade humana. Assim, para ele, o uso da língua se mostra na forma de enunciados, que podem ser orais ou escritos, concretos e singulares, que pertencem a sujeitos que participam de vários contextos da práxis social humana. Se, por um lado, cada enunciado tomado isoladamente é individual, por outro, cada esfera de uso da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, aos quais Bakhtin dá o nome de gêneros discursivos. 3 Ponzio (2008) propõe um estudo comparativo das posições filosóficas de Bakhtin e Lévinas por considerar que este, como autor comprometido no âmbito da filosofia, leva a compreender mais profundamente a consistência teórica da reflexão bakhtiniana. O conceito de des-interesse (dés-inter-essement) torna-se muito importante na obra de Lévinas, pois coloca o indivíduo em uma situação de compromisso ilimitado, de responsabilidade absoluta como indivíduo, como único, um indivíduo ao qual o outro não pode substituir em sua responsabilidade. Também Bakhtin, desde seus primeiros ensaios, estabelece uma relação de recíproco compromisso entre unidade, singularidade, não intercambialidade e responsabilidade, entendida como absoluta, como "sem álibis". Assim, o que de fato organiza o que está em volta de modo unitário e único não é uma consciência que tematiza, ou seja, não se encontra na relação cognoscitiva sujeito-objeto, mas dá-se, para Bakhtin, na individualidade de minha responsabilidade, pela qual nenhum outro pode ocupar meu lugar, e determina que eu não tenha álibis para viver. 4 Este é um escrito da juventude de Bakhtin, desconhecido quase até o fim de sua longa vida. Tendo nascido na Rússia, em 1895 e morrido em 1975, o filósofo viveu sob o regime soviético e sofreu o choque de sua prisão durante o regime de terror de Stalin. Nos anos trinta, chegou a viver exilado na fronteira da Sibéria e do Cazaquistão. É impressionante constatar o fato de que o nome de Bakhtin desapareceu da imprensa russa por quase um quarto de século, até, mais ou menos, 1963. Só quase no fim da vida, mais livre da extrema cautela que sempre precisou ter, ele confessou a alguns amigos e admiradores a existência de um esconderijo em que guardava seus escritos (Albuquerque, 2008). 5 Segundo Holquist, no prefácio de Para uma filosofia do ato (1993), por esse tempo, enquanto Bakhtin escrevia , ele lia Kant em profundidade, bem como debatia e dava aulas sobre o filósofo. Assim, talvez possamos considerar que esse texto foi uma espécie de réplica à mobilização que o pensamento de Kant operou no próprio Bakhtin, ou seja, uma expressão do dialogismo na construção do conhecimento, uma ideia que Bakhtin veio a desenvolver mais tarde.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      11 Dez 2012
    • Data do Fascículo
      Dez 2012

    Histórico

    • Recebido
      04 Jan 2012
    • Aceito
      19 Maio 2012
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