Accessibility / Report Error

Bykova, M. F.; Forster, M. N. & Steiner, L. (eds.) The Palgrave Handbook of Russian Thought [O manual Palgrave do pensamento russo]. Springer Verlag, 2021. XXVII, 814 p.

Bykova, M. F.; Forster, M. N.; Steiner, L.. The Palgrave Handbook of Russian Thought. [O manual Palgrave do pensamento russo]. Springer Verlag, 2021. XXVII. 814 р

Uma resenha é sempre subjetiva, o que, no entanto, não nega a exigência natural de objetividade na avaliação de um livro resenhado. Em nosso caso particular, subjetividade é sinônimo de seletividade, uma vez que, por visão subjetiva, entendemos a escolha do ângulo a partir do qual analisaremos e avaliaremos esta publicação. Não há dúvida de que, para os leitores da Bakhtiniana, assim como para todos os pesquisadores do legado de Mikhail Bakhtin, interessa a maneira pela qual um dos maiores pensadores da Rússia se inscreve no contexto da evolução do pensamento russo, ou seja, no contexto da história intelectual de nossa nação. Ken Hirschkop (2021)HIRSCHKOP, K. The Cambridge Introduction to Mikhail Bakhtin (Cambridge Introductions to Literature). Cambridge: Cambridge University Press, 2021., em seu recente livro The Cambridge Introduction to Mikhail Bakhtin [A introdução de Cambridge a Mikhail Bakhtin], dedicou uma seção separada ao que ele chamou de “contextos”, com vistas a determinar como e a partir do que o círculo das ideias de Bakhtin cresce, em que base o pensamento de Bakhtin é formado e o que fertiliza a ciência e a cultura humanitária russa e mundial nas últimas seis décadas. Não se pode dizer que encontraremos uma resposta exaustiva a esta questão no livro em análise, mas é inegável o fato de que, entre os heróis presentes neste, Mikhail Bakhtin é uma das personagens principais. Afinal, foram dedicados dois capítulos somente a ele e a Leo Tolstoy.

Apesar do distinto interesse do público de língua inglesa pela literatura e cultura russas, comprovado pelo número incalculável de publicações sobre escritores, compositores, artistas, diretores e filósofos russos1 1 Veja em particular: EMERSON, C. (2019); Mikhail Epstein and Alyssa DeBlasio (eds.): https://filosofia.dickinson.edu/encyclopedia/bakhtin-mikhail/; MORSON, G.S. (2013). , nos últimos oitenta anos foram escritos muito poucos estudos de larga escala para o leitor em inglês sobre a história do pensamento intelectual russo. Aqui, é claro, cabe mencionar History of Russian Philosophy [História da Filosofia Russa] de Nikolai Lossky (1952)LOSSKY, N. O. History of Russian Philosophy. London: George Allen and Unwin, 1952. e Vasily Zenkovsky (2003)ZENKOVSKY, V. A History of Russian Philosophy, in 2 vols. Translated by George Kline. London and New York, NY: Routledge, 2003., livros que são legitimamente considerados clássicos, mas dirigidos sobretudo a um círculo estreito de filósofos profissionais ou pesquisadores do pensamento social.

Podemos acrescentar aqui o aluno de Sergei Hessen - o filósofo polonês posteriormente naturalizado americano - Andrzej Walitsky (1979 e 1987), com seus trabalhos sobre o liberalismo russo e sua influência no pensamento social e na história política da Rússia. Contudo, apenas com eles esta lista ficaria limitada.

O principal ponto de referência dos autores do livro de nossa análise e indicado pelos compiladores foi o Russian Thinkers [Pensadores russos], de Sir Isaiah Berlin.

Apesar de ter sido dedicado à história intelectual e social da Rússia entre as décadas de 1840-1860, ou seja, importante, mas restrito em termos de período de tempo da história russa, a abordagem proposta pelo reconhecido mestre da filosofia política Isaiah Berlin mostrou-se eficaz e totalmente funcional, mesmo 40 anos após sua publicação. Mostrar cada um dos personagens da história intelectual russa no contexto de sua relação com seus predecessores e contemporâneos, com toda a gama de influências filosóficas e sociais nos contextos ideológico, político, social e cultural: essa é a tarefa que os autores do livro em questão atingiram, no geral, e não de modo menos eficiente do que Berlin. Hoje é óbvio que um amplo público de língua inglesa precisa de novas abordagens para entender o que é o pensamento russo e qual sua real contribuição para a cultura intelectual mundial. Uma questão à parte é como a história intelectual russa dos séculos XIX e XX, com todas as mudanças pelas quais a Rússia passou, ao mesmo tempo que o restante do mundo e às vezes visivelmente o influenciando, deve ser apresentada ao leitor de hoje. Os autores do The Palgrave Handbook of Russian Thought tentaram responder a essas perguntas. Não é por acaso que Marina Bykova e Lina Steiner observam no prefácio:

Abrange a história intelectual da Rússia desde o final do século XVIII até a dissolução da União Soviética - desde o início de uma distinta tradição filosófica e literária russa através de seu desenvolvimento surpreendentemente rico no século XIX até o marxismo ortodoxo e o pensamento dissidente da era soviética e além. O período mais vivo e influente da longa história intelectual da Rússia, esse período notável produziu ideias filosóficas, literárias e religiosas que tiveram um impacto poderoso no desenvolvimento cultural, político e socioeconômico do país, bem como no desenvolvimento intelectual, cultural e político de todo o mundo (p.V)2 2 Em inglês: “It covers Russia’s intellectual history from the late eighteenth century to the dissolution of the Soviet Union - from the first inception of a distinctly Russian philosophical and literary tradition through its astonishingly rich development in the nineteenth century to the orthodox Marxism and dissident thought of the Soviet era and beyond. The most lively and influential period in Russia’s long intellectual history, this remarkable time produced philosophical, literary, and religious ideas that had a powerful impact on the country’s cultural, political, and socioeconomic development, as well as on the intellectual, cultural, and political development of the whole world” (p.V). .

A equipe de autores do referido livro incluiu cientistas não apenas dos EUA e da Rússia, mas também do Canadá, Grã-Bretanha, Alemanha, Suíça, Holanda e Itália. Eles estavam unidos por um desejo comum de repensar o cânone da história intelectual russa, já estabelecido na consciência ocidental, expandir o leque tradicional de pensadores, complementando-o com novos nomes, e mostrar novas tendências. Nesse sentido, merece destaque a interpretação proposta do conceito de pensamento russo. Este não é apenas o mesmo pensamento intelectual do final dos séculos XVIII e XX, representado principalmente nas obras dos filósofos, mas também a própria literatura russa como resultado de formas de atividade intelectual (embora específicas, sem dúvida intelectuais). Tal combinação de filosofia e literatura tem suas próprias razões: esta é a forma de superação secular, pela Rússia, das ordens do velho mundo feudal - a chegada das ideias do Iluminismo europeu e a abertura às mudanças que ocorreram na cultura europeia, sua política e economia; enfim, na consciência europeia de modo geral.

Essa característica do pensamento russo está muito bem refletida no livro, e as reflexões sobre os escritores russos como porta-vozes do pensamento social ocupam grande parte desse impressionante volume. Outra tarefa é a de acabar com estereótipos estabelecidos e, às vezes, mitos. Os editores e autores insistem que é, no mínimo, um exagero afirmar que a cultura intelectual russa do século XIX e início do século XX era uma espécie de repetição do que já se passava na Europa, ou seja, uma reprodução da experiência europeia, que muitas vezes sequer levava em conta as realidades russas. Isso fica suficientemente óbvio ao longo das páginas do livro. E mais um ponto, talvez, não menos importante, é que, apesar da definição de seu gênero como Handbook [Manual], o livro publicado pela conceituada editora Palgrave Macmillan é, antes de tudo, um trabalho profissional, profundo e fundamental, que permite apresentar plenamente o retrato da evolução do pensamento russo no contexto da história ideológica, social e política do país nos últimos séculos. O livro é extremamente importante para um aluno que está começando a estudar a filosofia, literatura e cultura russas, mas não é menos interessante para um profissional já estabelecido na área.

O ponto mais importante a ser observado na análise do livro é que um projeto tão grande exigiu esforços especiais para coordenar um número vasto de autores e selecionar enredos realmente importantes para uma apresentação em grande escala de como o pensamento russo foi formado e desenvolvido por mais de dois séculos. É a isso que se dedica a introdução escrita por Marina Bykova e Lina Steiner.

A combinação entre a filosofia social e literária e o trabalho do pensamento filosófico profissional constitui o nervo central do pensamento russo e determina em grande parte a face desse pensamento como fenômeno cultural e social. Os autores traçam consistentemente as etapas da formação da compreensão russa da filosofia, ou seja, do diálogo entre os filósofos russos (em grande parte amadores e autodidatas) e a filosofia europeia em suas mais diversas versões. É impossível não notar que isso determina os principais vetores por meio dos quais se delineiam os movimentos de ensaios individuais, dedicados tanto aos representantes mais proeminentes do pensamento russo no período pré-soviético, soviético e, em certa medida, pós-soviético, quanto a algumas tendências gerais desse pensamento e, em seguida, ao filosofar profissional, especialmente do século XX.

De fato, a reinterpretação de esquemas e modelos históricos que já se tornaram familiares se reflete em uma mudança nas abordagens do fenômeno do Iluminismo russo. Para G. Hamburg, é óbvio que é preciso abandonar a interpretação estreita e puramente europeia desse fenômeno da história intelectual russa e oferecer uma versão ampla, na qual houve a necessidade de educar e reeducar as massas atrasadas, notadamente na época do czar Alexei Mikhailovich e especialmente implementada na política de Pedro, o Grande, ou Catarina II, o que levou a essas mudanças que afetam visivelmente a imagem intelectual do Estado russo no início do século XIX.

Como resultado, dentre os iluministas não estão apenas os associados (e tradicionalmente mencionados) de Catarina, a Grande, ou publicitários democráticos que se opõem a ela, como Nikolai Novikov e Alexander Radishchev, mas Semeon Polotsky e Stefan Yavorsky, que apareceram na cena intelectual russa tão logo se findou o século XVII.

A amplitude máxima de cobertura do material é outra característica do guia proposto. Os autores procuram apresentar visualmente ao leitor o processo de formação do pensamento russo, principalmente filosófico - daí os detalhados ensaios sobre o kantismo e o neokantismo russos, o hegelianismo russo, o marxismo e a crítica social.

As escolas filosóficas são apresentadas em uma ampla variedade de formas: do marxismo multipolar aos seus antagonistas. Muita atenção tem sido dada a Lenin, à filosofia marxista-leninista e à estética marxista-leninista. Se Marina Bykova reflete sobre a interpretação de Lenin da filosofia moderna em seu livro Matierialísm i empiériocrititzísm [Materialismo e Empiro-Criticismo] e seu subsequente impacto na filosofia soviética da era comunista, então Edward Svidersky considera o estágio inicial da formação da estética soviética por meio do apelo dos marxistas da década de 1930 às obras do jovem K. Marx.

Escolhendo entre as especificidades da factografia histórica e amplas generalizações nas tradições do ensaísmo filosófico, muitos autores preferem a última. Assim, Sergei Khoruzhy, ao chamar corretamente a filosofia religiosa de a realização mais importante do pensamento russo na virada do século XIX para o XX, explica sua abordagem da seguinte forma:

As tarefas deste texto não são históricas, pelo menos no sentido de descrever fatos ou fontes históricas. Hoje, na história factual da filosofia russa, não há grandes lacunas ou enigmas e, em todo caso, tal história não é o foco de meus estudos. Meu objetivo principal é conceitual: é a compreensão do fenômeno da filosofia religiosa russa tanto em sua diacronia quanto em sua sincronia. Uma observação metodológica: esses dois aspectos serão considerados não nacheinander, mas nebeneinander, ou seja, não em sucessão, mas em paralelo um com o outro. Isso significa que vou traçar o curso de eventos (filosóficos) tentando não tanto descrever detalhes factuais, mas expor lógicas e estruturas deste curso, os conceitos e ideias nele envolvidos (p.51)3 3 Em inglês: “The tasks of this text are not historical, at least in the sense of describing historical facts or sources. Today in the factual history of Russian philosophy, there are no great lacunae or enigmas, and in any case, such history is not the focus of my studies. My principal goal is conceptual: it is the comprehension of the phenomenon of Russian religious philosophy both in its diachrony and in its synchrony. A methodological remark: these two aspects will be considered not nacheinander, but nebeneinander, that is, not in succession, but in parallel to each other. This means that I shall trace the course of (philosophical) events trying not so much to describe factual details as to expose logics and structures of this course, the concepts and ideas involved in it” (p.51). .

Assim, para o autor, a filosofia religiosa russa não termina no início da década de 1920, mas continua, às vezes aberta, às vezes veladamente, ao longo do século XX.

Essas tentativas de formular uma visão geral de certas tendências são o melhor complemento para os capítulos sobre autores específicos. A combinação do geral e do individual no quadro gradualmente emergente da evolução do pensamento russo pode ser considerada ótima.

Exemplos de práticas individuais às vezes formam as combinações mais incríveis. Assim, de acordo com Vladimir Kantor, em oposição à decadência pública da Rússia em meados do século XIX, discordantes como Fyodor Dostoevsky e Nikolai Chernyshevsky estão aproximados. Acrescentemos que Kantor não está sozinho em seu desejo de combinar o tradicionalmente incompatível. Em um artigo dedicado a como a literatura russa percebe o que está acontecendo durante os anos da Guerra Civil e da Rússia stalinista, Sergei Nikolsky coloca ao lado de um dos cantores oficiais da ideologia soviética, o escritor Mikhail Sholokhov, seus oponentes óbvios: Varlam Shalamov, que passou pelos campos stalinistas e dedicou a maior parte de sua prosa a esses campos, e o autor das conhecidas distopias Andrei Platonov.

O pensamento russo no ponto de virada da tradição social é apresentado em ensaios dedicados a Osip Mandelstam, Alexei Losev, Gustav Chpet, Evald Ilyenkov e muitos outros, em particular o movimento soviético dos anos sessenta. Foi o trabalho literário e o jornalismo filosófico dessas pessoas que repensaram amplamente a nova realidade soviética e tentaram estabelecer uma certa quantidade de valores não partidários e de classe, mas universais. Esses capítulos têm muito em comum com os capítulos dedicados às reflexões sobre o destino da Rússia nos escritos de Ilya Fondaminsky e Semyon Portugeys, assim como às utopias políticas de Ivan Ilyin.

Encontra lugar no livro o problema da profissionalização da filosofia soviética, que nas últimas décadas da URSS mudou marcadamente: junto com as tradicionais tarefas políticas, ideológicas e propagandísticas, passa a resolver problemas no campo do pensamento humanitário, oferecendo novas práticas. Entre os exemplos estão a abordagem da atividade, descrita em detalhes por Vladislav Lektorsky, o discurso epistemológico da filosofia soviética e pós-soviética e sua relação com as tradições do pensamento filosófico e cultural russo, apresentados com muita clareza no ensaio de Boris Pruzhinin e Tatyana Shchedrina.

Um lugar especial no livro é dado à literatura russa que, como já observado, não está apenas em constante diálogo com a filosofia da nação, mas também com as condições da Rússia totalitária e muitas vezes substituiu a última. Escritores que afirmam ser os governantes do pensamento e filósofos que vestem seus pensamentos em textos literários são um sinal característico da vida intelectual russa nos séculos XIX e XX. Nesse sentido, Gogol e Belinsky, influenciados pela filosofia moderna, tornam-se guias para o mundo das experiências literárias, mas não somente. Suas reflexões sobre a existência humana são bastante consonantes com as buscas filosóficas dos schellingianos e hegelianos russos e a participação nas atividades dos círculos filosóficos de São Petersburgo e Moscou determinam seu lugar de direito não apenas na história da literatura e cultura, mas na história da filosofia russa. Isso também é evidenciado pela experiência de Leo Tolstoy, a cujas grandiosas filosofia e estética da vida são dedicados os capítulos de Lina Steiner e Henry Pickford.

Não menos notável é o diálogo que Michael Forster trava no livro com o já citado Isaiah Berlin, tentando reavaliar todo o círculo dos anos sessenta do século XIX, o qual inclui Herzen, Bakunin e muitos outros pensadores que se tornaram oposição ao regime de Nikolai I, mas também aqueles pensadores que não concordavam com a versão de socialismo que o Ocidente esclarecido oferecia naquela época.

Este é precisamente o contexto, o pano de fundo mental contra o qual o leitor percebe os dois capítulos dedicados a Mikhail Bakhtin. Escritos por conhecidos especialistas no legado do pensador - o historiador da filosofia Vitaly Makhlin e o historiador e teórico literário Galin Tihanov - os capítulos personificam os dois polos da interpretação de Bakhtin, que podem ser condicionalmente chamados de russo e europeu.

O que Vitaly Makhlin propõe em seu ensaio sobre Bakhtin pode ser definido como a busca deste dentro do espaço multidimensional do pensamento russo e ocidental do século XX. A metáfora do “abismo” que separa Bakhtin e o leque de valores tradicionais do mundo anterior, a saber, as condições sociais e ideológicas da Rússia pósrevolucionária, torna-se uma ferramenta bastante eficaz para explicar as razões da “alteridade” de Bakhtin em relação ao que está acontecendo em seu entorno nas eras de Stalin e pós-Stalin. E, acrescentemos, a ponte lançada sobre esse abismo é o pensamento de Bakhtin e sua criatividade intelectual, que o ajuda a sobreviver a todos os golpes do destino e às agruras que recaem sobre ele. Vitaly Makhlin observa com muita precisão:

No caso de Bakhtin, eu argumento, o “abismo” acabou sendo muito mais amplo e profundo do que no caso de qualquer outro importante pensador russo de sua época. Neste momento, bastaria dizer que não sabemos ainda hoje “de onde veio Bakhtin” e como “localizar” seu pensamento e sua obra na história intelectual russa, assim como na ocidental. A literatura crítica sobre Bakhtin tornou-se extensa já no final do século anterior e continua a crescer hoje em dia, de modo que não se pode deixar de referir-se a ela (ver, por exemplo, Iurchenko 1995; Adlam e Shepherd 2000). No entanto, parece que a recepção ainda carece de uma abordagem metodologicamente adequada a uma dimensão específica do tempo e pensamento “próprios” de Bakhtin e sua “historicidade” (em contraste com o chamado historicismo). O próprio Bakhtin chamou tal dimensão, em seu texto programático de 1921/1922, de “toda a historicidade concreta”, ou “ser-como-evento” como uma pré-condição “ontologicamente aventurosa” de qualquer ato ou pensamento individual (Bakhtin, 1993, 3, 57, 10-11, 15-19, etc.)4 4 Mantivemos a referência original do texto publicado em língua inglesa, porque a referência faz parte da publicação. Colocamos aqui a referência equivalente do texto citado pelo autor: BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Organizado por Augusto Ponzio e Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2017, p.43; 118; 55-56; 61-62. . O que se entende por esses termos parece ser uma experiência historicamente comum ou comunal que Bakhtin sempre opôs a qualquer consciência e ideologia “oficiais”, bem como a qualquer “retórica na medida de sua falsidade”5 5 Nota dos Editores: Referência ao texto recentemente traduzido para o português “A violência da palavra e da imagem em ausência”. In: BAKHTIN, M. O homem ao espelho. Apontamentos dos anos 1940. Tradução do italiano de Cecília Macula Adum; Marisol Barenco de Mello; Maria Letícia Miranda. Supervisão da tradução de Guido Alberto Bonomini. São Carlos: Pedro e João Editores, 2020. p.37-50. (p.644)6 6 Em inglês: “In Bakhtin’s own case, I argue, the ‘abyss’ has turned out to be much wider and deeper than in the case of any other important Russian thinker of his age. Right now, it should be sufficient to say that we do not know even today ‘where Bakhtin came from’ and how to ‘locate’ his thought and work in Russian, as well as in Western, intellectual history. Critical literature on Bakhtin had become extensive already by the end of the previous century, and it continues to grow nowadays, so one cannot avoid referring to it (see, e.g., Iurchenko 1995; Adlam and Shepherd 2000). However, it seems that the reception still lacks a methodologically adequate approach to a specific dimension of Bakhtin’s ‘own’ time and thought, its ‘historicity’ (in contrast to so-called historicism). Bakhtin himself called such a dimension, in his 1921/1922 programmatic text, ‘the whole concrete historicalness,’ or ‘being-as-event’ as an ‘ontologically eventful’ pre-condition of any individual act or thought (Bakhtin 1993, 3, 57, 10-11, 15-19, etc.). What is meant by these terms seems to be a historically common or communal experience which Bakhtin is known to have always opposed to any ‘official’ consciousness and ideology, as well as to any ‘rhetoric to the extent of its mendacity’” (p.644). .

De fato, o pesquisador oferece uma espécie de cronotopo bakhtiniano da cultura e da filosofia russas, enfatizando a sofisticada tortuosidade do modo como Bakhtin e suas ideias chegam ao leitor durante o século passado. Ele cita dois pontos de partida. O primeiro é a permanência do pensador no espaço intelectual das décadas de 1960-1970, quando as obras de Dostoiévski e Rabelais, após uma longa pausa, vivenciam seu “renascimento após férias”, e assim chegam a seus compatriotas. A segunda é a recepção das ideias de Bakhtin na Rússia e no Ocidente, que é amplamente determinada por textos específicos, e a sequência em que a comunidade científica os recebe. Muito já foi escrito sobre essa discrepância entre a história cronológica da criação das obras de Bakhtin e sua história editorial e de recepção, mas talvez seja Vitaly Makhlin quem formule esse problema com mais clareza, convidando o leitor a projetar a situação bakhtiniana na história de outros filósofos:

Em primeiro lugar: ao contrário de seus famosos contemporâneos europeus, Bakhtin, como tantos de sua geração russa, não conseguiu desenvolver e publicar suas ideias normalmente, ou seja, institucional e rapidamente, e portanto, não possuía uma autêntica “biografia” (uma autoconstituição formal pública). Imagine, só por um momento, se as obras Ser e Tempo [Sein und Zeit] (1927), de Heidegger, ou Eu e Você [Ich und Du] (1923), de Buber, fossem publicadas e discutidas após oitenta anos; todavia, esse foi, de fato, o caso de Bakhtin (p.646)7 7 Em inglês: “First and foremost: in contrast to his famous European contemporaries, Bakhtin, like so many in his Russian generation, was unable to develop and publish his ideas normally, that is, institutionally and timely, he therefore did not have an authentic “biography” (a public form of self-accounting). Just imagine, for a moment, that Heidegger’s Sein und Zeit (1927), or Buber’s Ich und Du (1923), was to have been published and discussed fly or eighty years later; but that was, in fact, Bakhtin’s case” (p.646). .

O conceito chave para Makhlin, em sua interpretação da herança bakhtiniana e do processo de assimilação gradual dessa herança pelo pensamento humanitário das últimas décadas, é o conceito de historicidade. Ao mesmo tempo, no caso de Bakhtin, esse conceito adquire uma fórmula muito precisa, emprestada por Makhlin da gramática inglesa, e então adquire um conteúdo quase metafórico: Future-in-the-Past [Futuro-noPassado]. Ao mesmo tempo, porém, Bakhtin não se torna, como se poderia suspeitar, um filósofo que expressa a ideologia do conservadorismo radical. A busca do futuro no passado, que Makhlin atribui a Bakhtin, é em grande medida uma reacentuação de antigos significados e o preenchimento de novos conteúdos relevantes. E, nesse contexto, as ideias e conceitos propostos por Bakhtin acabam por ser muito maiores do que o seu tempo, de modo a passar para o grande tempo da cultura e do pensamento humano. É assim que devem ser percebidas as ideias mais famosas de Bakhtin, como a polifonia, o diálogo, o carnaval, o cronotopo, e aquelas que surgiram em conexão com a descoberta bastante tardia dos próprios textos filosóficos do “Bakhtin inicial” e ainda requerem reflexão e repensamento por parte dos paradigmas filosóficos dos séculos XX e XXI: ato responsável, pensamento empático, excedente de visão, inacabamento e outros.

É digno de nota que, apesar de toda a sua solidão na cultura e nas humanidades soviéticas do pós-guerra, Bakhtin não se sente isolado. Como enfatiza Makhlin, ele está no mesmo espaço intelectual dos principais filósofos europeus, dos neokantianos tardios a Sartre e Camus. Esse sentimento é facilmente detectado em suas notas posteriores. Isso também é evidenciado pela avaliação de Bakhtin de “toda a filosofia”, que é dada no esboço do prefácio fracassado da coletânea Questões de literatura e de estética8 8 BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). Equipe de tradução (do russo) composto por Aurora Foroni Moisés, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena Spryndis Nazário, Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Hucitec, 1990. . Essa obra, lembramos, abriu o mundo para um novo Bakhtin: o teórico da literatura e o filósofo do romance.

Como explica Makhlin,

Por “toda filosofia” <…> o pensador russo insinua, nesse contexto, um movimento ou tendência particular da filosofia europeia iniciada, a seu ver, principalmente por Kierkegaard e Husserl, Dilthey e Scheier, para não falar de Nietzsche e dos outros que constituíram a constelação histórica dos problemas que impulsionaram o pensamento de Bakhtin. É por isso que, acredito, Bakhtin pôde desenvolver sua fenomenologia existencial e ontologia social iniciais sem “ler” projetos semelhantes de seus contemporâneos que representavam a mesma linha de pensamento, que combinava a ideia de “ciência estrita” com a ideia de “experiência” (Alemão: Erleben) em um mundo histórico concreto. Dito de outra forma: durante a “década de cem anos” Bakhtin desenvolveu, de forma bastante original, um novo paradigma de pensamento semelhante ao representado por seus contemporâneos europeus (Jaspers e Heidegger, Buber e Rosenzweig, Marcel e Rosenstock-Huessy, Ferdinand Ebner e Romano Guardini, assim como muitos outros mais ou menos conhecidos hoje), sem sequer conhecer a maioria deles. Pois a condição histórica, a constelação de problemas e as “fontes” eram mais ou menos comunais ou comuns naquela época à Rússia e ao Ocidente (p.649650)9 9 Em inglês: “By ‘all philosophy’ (…) the Russian thinker implies, in this context, a particular movement or trend in European philosophy initiated, in his view, mostly by Kierkegaard and Husserl, Dilthey and Scheier, not to mention Nietzsche and the others who constituted the historical constellation of problems that spurred Bakhtin’s thought. That is why, I believe, Bakhtin could develop his early existential phenomenology and social ontology without ‘reading’ similar projects of his contemporaries who represented the same line of thought, which combined the idea of ‘strict science’ with the idea of ‘experience’ (German Erleben) in a concrete historical world. To put it differently: during the ‘decade of one hundred years’ Bakhtin developed, quite originally, a new paradigm of thinking similar to that represented by his European contemporaries (Jaspers and Heidegger, Buber and Rosenzweig, Marcel and Rosenstock-Huessy, Ferdinand Ebner and Romano Guardini, as well as many others more or less well known today), without even knowing most of them. For, the historical condition, the constellation of problems, and the ‘sources’ were more or less common or communal at that time, in-between Russia and the West.” (p.649-650) .

Se a tarefa definida por Vitaly Makhlin é resolvida por meio da criação de uma imagem mais ampla possível da atividade intelectual, no centro da qual está Bakhtin, então Galin Tihanov tem um objetivo ligeiramente diferente. Faz parte de sua convicção que, em textos (formalmente) filológicos, Bakhtin permanece primordialmente um filósofo, e esse fundamento filosófico de sua teoria constitui a principal contribuição deste ao pensamento intelectual mundial. Como explica Tihanov:

Quero examinar as principais trajetórias de apropriação de Bakhtin no Ocidente desde os anos 1960; isso me permitirá revisitar a questão de sua longevidade e o potencial de sua obra para ganhar força nos debates atuais sobre a literatura mundial. A obra de Bakhtin pode servir como um teste decisivo de apropriação que envolve uma meta-reflexão constante sobre o que constitui a tradução em diferentes zonas culturais. Minha abordagem de seu legado é sustentada por uma teoria mais ampla da tradução, que a compreende tanto mais globalmente, quanto mais historicamente… (p.659)10 10 Em inglês: “I want to examine the principal trajectories of appropriating Bakhtin in the West since the 1960s; this will allow me to revisit the question of Bakhtin’s longevity, and the potential of his work to gain traction in current debates on world literature. Bakhtin’s work can serve as a litmus test of appropriation that involves constant meta-reflexion on what constitutes translation in different cultural zones. My approach to Bakhtin’s legacy is sustained by a wider theory of translation which comprehends translation both more globally and more historically…” (p.659). .

Voltando-se para os fenômenos da tradução e da literatura mundial e construindo uma configuração complexa de sua relação, Tihanov não aborda de forma alguma questões particulares que não sejam fundamentais para os Estudos Bakhtinianos. Em primeiro lugar, ele responde à questão de como o grande tempo de Bakhtin, que formula seu cânone de “grandes autores” e “grande literatura”, se correlaciona com o processo histórico de tradução na Europa graças ao qual aquela série de “grandes escritores” que personificam as realizações da literatura europeia é formada e formulada desde a Antiguidade até o século XIX.

Nesse contexto, a tradução, entendida pelo pesquisador da forma mais ampla possível, desempenha um papel importante no processo de assimilação pelo público europeu das conquistas de escritores que escreveram em línguas não acessíveis aos leitores. Mortos há muito tempo, esses autores reapareceram apenas graças ao esforço dos tradutores e, muitas vezes, seus textos começaram a soar completamente diferentes em novas condições culturais e sociais. Como confirmação desse pensamento, Tihanov relembrou a piada favorita de Bakhtin sobre pensadores russos, que ele reproduz em sua resposta à revista Novy Mir: “em nossa escola havia um chiste, o de que os gregos antigos desconheciam o mais importante sobre si mesmos: não sabiam que eram gregos antigos, e assim nunca se chamaram”11 11 BAKHTIN, M. A ciência da literatura hoje (Resposta a uma pergunta da revista Novi Mir). In: Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. Notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017. p.17. .

Da mesma forma, Shakespeare e Calderón aparecem na grande literatura da Europa, e Tihanov os vê como os exemplos mais representativos desse retorno. Mas a tradução também é um caso interessante no contexto da teoria de Bakhtin: como a palavra do outro é transmitida, como ela se transforma de palavra alheia em nossa própria e quais são as atitudes, princípios e pontos de aplicação das forças do tradutor que tornam a palavra de um autor estrangeiro acessível a um leitor não falante da língua original? E Bakhtin dá a resposta a essas questões não apenas do ponto de vista da história da linguística e da tradução, mas sobretudo dentro dos limites da filosofia da cultura. Ao mesmo tempo, o mais importante para Tihanov é o livro sobre Rabelais, onde Bakhtin, o filósofo da cultura, é apresentado da forma mais óbvia possível.

A inclusão da camada bakhtiniana na teoria literária moderna, acredita Tihanov, permite avaliar a herança dessa camada do ponto de vista dos “regimes de relevância” (J. Derrida), que, aliás, é o tema de seu recém-publicado livro sobre o destino da teoria literária russa (TIHANOV, 2019TIHANOV, G. The Birth and Death of Literary Theory: Regimes of Relevance in Russia and Beyond. Stanford, California: Stanford University Press, 2019.).

Destacando três períodos na obra de Bakhtin, Tihanov enfatiza o significado especial do último:

A última etapa da carreira intelectual de Bakhtin começa já no início da década de 1940; este é o momento em que sua atenção é gradualmente reivindicada pela metodologia das humanidades. O aparecimento tardio do livro de Rabelais e a republicação do livro retrabalhado de Dostoiévski distorceram nossa perspectiva sobre aquele que é o período mais longo da obra de Bakhtin, dos anos 1940 até o início dos anos 1970. O que genuinamente lhe interessa aqui é uma série de novas questões de uma metadimensão: o que é um enunciado; o que é o significado, como é produzido e comunicado e qual é o papel do diálogo na forma como entendemos o mundo no qual estamos imersos? (p.663)12 12 Em inglês: “The last stage in Bakhtin’s intellectual career begins already in the early 1940s; this is the time when his attention is gradually claimed by the methodology of the humanities. The late appearance of the Rabelais book and the republication of the reworked Dostoevsky book have skewed our perspective on what is the longest period in Bakhtin’s work, from the 1940s through to the early 1970s. What genuinely interests him here is a range of new questions that have a metadimension: what is an utterance; what is meaning and how is it produced and communicated; what is the role of dialogue in how we understand the world we are immersed in?” (p.663). .

Respondendo a essas questões fundamentais para os estudos de Bakhtin, Tihanov inevitavelmente chega à ideia da unidade interna de vários aspectos do pensamento deste, que até agora parece ser no mínimo contraditório e insuficientemente estruturado entre os adversários de Bakhtin. Nesta posição, Tihanov coincide completamente com os argumentos e conclusões de publicações recentes de V. Makhlin (2021)MAKHLIN, V. L. Creating Consciousness, or Mikhail Bakhtin Between Past and Future. Literaturovedcheskii zhurnal, no. 4(54), 2021, pp.9-27. (In Russ.) e N. Nikolaev (2021)NIKOLAEV, N. I. M. M. Bakhtin in 1910-1920-s: The Unityof the Path. Literaturovedcheskii zhurnal, no. 4(54), 2021, pp.45-59. (In Russ.), de modo a sugerir que os pesquisadores estão formando uma visão comum sobre esse problema. E ele afirma, com razão:

No entanto, por mais diferentes que esses três períodos possam ser, eles têm algo muito importante em comum: a maneira como Bakhtin lida com a linguagem em sua própria escrita. Seja preocupado com a filosofia da cultura, seja com o nexo da filosofia moral e da estética (que ele procura resolver na versão adequada do livro de Dostoiévski ao propor e valorizar uma escrita polifônica não finalizadora e não objetivante), o domínio próprio de Bakhtin como pensador era o território intermediário que não se limita a nenhuma disciplina particular e que ele habitava com soberania inegociável. É nesse espaço entre as disciplinas que ele elaborou suas próprias metáforas, as quais lhe permitiram transitar livremente entre diferentes níveis de argumentação e abordar questões situadas acima e além de determinados campos do conhecimento. Muitas vezes de forma elusiva, mas sempre extremamente estimulante, Bakhtin eleva as categorias que emprega acima das restrições conceituais de suas disciplinas de origem e instila nelas uma nova vida, obliterando sua identidade conceitual anterior (p.663)13 13 Em inglês: “Yet different as these three periods might arguably be, they have something very important in common: the way in which Bakhtin handles language in his own writing. Whether preoccupied with philosophy of culture, or with the nexus of moral philosophy and aesthetics (which he seeks to resolve in the fit version of the Dostoevsky book by putting forward and valorizing a non-finalizing and nonobjectifying polyphonic writing), Bakhtin’s proper realm as thinker was the in-between territory that is confined to no particular discipline and that he inhabited with such non-negotiable sovereignty. It is in this space between the disciplines that he crafted his own metaphors that enabled him to move freely between different levels of argumentation and address issues located above and beyond particular fields of knowledge. Often elusively, but always extremely stimulatingly, Bakhtin lifts the categories he employs above the conceptual constraints of their home disciplines and instils in them new life by obliterating their previous conceptual identity” (p.663). .

O interesse atual que a teoria literária ocidental manifesta pelo fenômeno da literatura mundial em geral se correlaciona perfeitamente com a compreensão desta última, que Bakhtin apresenta não apenas em seu livro sobre Rabelais, mas também em seus esboços e notas dos anos 1960 e 1970. Todavia, também aqui Bakhtin atua não como filólogo, mas como representante daquela tradição filosófica e cultural que determina em grande parte a natureza de seu pensamento e suas aspirações de pesquisa. Assim, atua como herdeiro e sucessor tanto do pensamento filosófico e cultural europeu das décadas anteriores, quanto do russo.

Em conclusão, notamos que a leitura do legado de Mikhail Bakhtin no contexto da história do pensamento russo nos séculos XIX e XX contra o pano de fundo das conquistas europeias oferece muitos novos entendimentos ao leitor. Ao adentrarmos o período de sua criatividade intelectual durante o período do “século de prata” (como o início do século XX é tradicionalmente chamado na história da literatura e cultura russas), Bakhtin se torna simultaneamente testemunha e participante dos eventos do “século de ouro” da filosofia russa. Esse fundo intelectual, evidenciado não apenas pelos textos de Bakhtin como também por suas famosas conversas com Viktor Duvakin (2019)14 14 BAKHTIN, M. & DUVAKIN, V. Mikhail Bakhtin em diálogo. Conversas de 1973 com Victor Duvakin. Tradução para o português por Daniela Miotello Mondardo, a partir da edição italiana. São Carlos: Pedro & João Editores, 2008. , acompanhou o pensador ao longo de sua vida. Não há dúvida de que, sem levar em conta o diálogo do primeiro com o pensamento intelectual russo-europeu de sua época, não se pode falar em leitura adequada de seus textos e compreensão de suas ideias; e o conhecimento de The Palgrave Handbook of Russian Thought fornecerá ao leitor uma ajuda inestimável nisso.

  • 1
    Veja em particular: EMERSON, C. (2019)EMERSON, C. Essays on Russian Literary and Musical Culture. Selected Essays and Reviews 1988-2019, with Preface. Academic Studies Press, Boston, 2019.; Mikhail Epstein and Alyssa DeBlasioEPSTEIN, M. & DeBLASIO, A. (eds.). Filosofia: An Encyclopedia of Russian Thought. Available at https://filosofia.dickinson.edu/encyclopedia/bakhtin-mikhail/. Accessed 7 June 2022.
    https://filosofia.dickinson.edu/encyclop...
    (eds.): https://filosofia.dickinson.edu/encyclopedia/bakhtin-mikhail/; MORSON, G.S. (2013)MORSON, G. S. Prosaics and Other Provocations: Empathy, Open Time, and the Novel. Boston: Academic Studies Press, 2013..
  • 2
    Em inglês: “It covers Russia’s intellectual history from the late eighteenth century to the dissolution of the Soviet Union - from the first inception of a distinctly Russian philosophical and literary tradition through its astonishingly rich development in the nineteenth century to the orthodox Marxism and dissident thought of the Soviet era and beyond. The most lively and influential period in Russia’s long intellectual history, this remarkable time produced philosophical, literary, and religious ideas that had a powerful impact on the country’s cultural, political, and socioeconomic development, as well as on the intellectual, cultural, and political development of the whole world” (p.V).
  • 3
    Em inglês: “The tasks of this text are not historical, at least in the sense of describing historical facts or sources. Today in the factual history of Russian philosophy, there are no great lacunae or enigmas, and in any case, such history is not the focus of my studies. My principal goal is conceptual: it is the comprehension of the phenomenon of Russian religious philosophy both in its diachrony and in its synchrony. A methodological remark: these two aspects will be considered not nacheinander, but nebeneinander, that is, not in succession, but in parallel to each other. This means that I shall trace the course of (philosophical) events trying not so much to describe factual details as to expose logics and structures of this course, the concepts and ideas involved in it” (p.51).
  • 4
    Mantivemos a referência original do texto publicado em língua inglesa, porque a referência faz parte da publicação. Colocamos aqui a referência equivalente do texto citado pelo autor: BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Organizado por Augusto Ponzio e Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2017, p.43; 118; 55-56; 61-62.
  • 5
    Nota dos Editores: Referência ao texto recentemente traduzido para o português “A violência da palavra e da imagem em ausência”. In: BAKHTIN, M. O homem ao espelho. Apontamentos dos anos 1940. Tradução do italiano de Cecília Macula Adum; Marisol Barenco de Mello; Maria Letícia Miranda. Supervisão da tradução de Guido Alberto Bonomini. São Carlos: Pedro e João Editores, 2020. p.37-50.
  • 6
    Em inglês: “In Bakhtin’s own case, I argue, the ‘abyss’ has turned out to be much wider and deeper than in the case of any other important Russian thinker of his age. Right now, it should be sufficient to say that we do not know even today ‘where Bakhtin came from’ and how to ‘locate’ his thought and work in Russian, as well as in Western, intellectual history. Critical literature on Bakhtin had become extensive already by the end of the previous century, and it continues to grow nowadays, so one cannot avoid referring to it (see, e.g., Iurchenko 1995; Adlam and Shepherd 2000). However, it seems that the reception still lacks a methodologically adequate approach to a specific dimension of Bakhtin’s ‘own’ time and thought, its ‘historicity’ (in contrast to so-called historicism). Bakhtin himself called such a dimension, in his 1921/1922 programmatic text, ‘the whole concrete historicalness,’ or ‘being-as-event’ as an ‘ontologically eventful’ pre-condition of any individual act or thought (Bakhtin 1993, 3, 57, 10-11, 15-19, etc.). What is meant by these terms seems to be a historically common or communal experience which Bakhtin is known to have always opposed to any ‘official’ consciousness and ideology, as well as to any ‘rhetoric to the extent of its mendacity’” (p.644).
  • 7
    Em inglês: “First and foremost: in contrast to his famous European contemporaries, Bakhtin, like so many in his Russian generation, was unable to develop and publish his ideas normally, that is, institutionally and timely, he therefore did not have an authentic “biography” (a public form of self-accounting). Just imagine, for a moment, that Heidegger’s Sein und Zeit (1927), or Buber’s Ich und Du (1923), was to have been published and discussed fly or eighty years later; but that was, in fact, Bakhtin’s case” (p.646).
  • 8
    BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética (A teoria do romance). Equipe de tradução (do russo) composto por Aurora Foroni Moisés, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena Spryndis Nazário, Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Hucitec, 1990.
  • 9
    Em inglês: “By ‘all philosophy’ (…) the Russian thinker implies, in this context, a particular movement or trend in European philosophy initiated, in his view, mostly by Kierkegaard and Husserl, Dilthey and Scheier, not to mention Nietzsche and the others who constituted the historical constellation of problems that spurred Bakhtin’s thought. That is why, I believe, Bakhtin could develop his early existential phenomenology and social ontology without ‘reading’ similar projects of his contemporaries who represented the same line of thought, which combined the idea of ‘strict science’ with the idea of ‘experience’ (German Erleben) in a concrete historical world. To put it differently: during the ‘decade of one hundred years’ Bakhtin developed, quite originally, a new paradigm of thinking similar to that represented by his European contemporaries (Jaspers and Heidegger, Buber and Rosenzweig, Marcel and Rosenstock-Huessy, Ferdinand Ebner and Romano Guardini, as well as many others more or less well known today), without even knowing most of them. For, the historical condition, the constellation of problems, and the ‘sources’ were more or less common or communal at that time, in-between Russia and the West.” (p.649-650)
  • 10
    Em inglês: “I want to examine the principal trajectories of appropriating Bakhtin in the West since the 1960s; this will allow me to revisit the question of Bakhtin’s longevity, and the potential of his work to gain traction in current debates on world literature. Bakhtin’s work can serve as a litmus test of appropriation that involves constant meta-reflexion on what constitutes translation in different cultural zones. My approach to Bakhtin’s legacy is sustained by a wider theory of translation which comprehends translation both more globally and more historically…” (p.659).
  • 11
    BAKHTIN, M. A ciência da literatura hoje (Resposta a uma pergunta da revista Novi Mir). In: Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. Notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017. p.17.
  • 12
    Em inglês: “The last stage in Bakhtin’s intellectual career begins already in the early 1940s; this is the time when his attention is gradually claimed by the methodology of the humanities. The late appearance of the Rabelais book and the republication of the reworked Dostoevsky book have skewed our perspective on what is the longest period in Bakhtin’s work, from the 1940s through to the early 1970s. What genuinely interests him here is a range of new questions that have a metadimension: what is an utterance; what is meaning and how is it produced and communicated; what is the role of dialogue in how we understand the world we are immersed in?” (p.663).
  • 13
    Em inglês: “Yet different as these three periods might arguably be, they have something very important in common: the way in which Bakhtin handles language in his own writing. Whether preoccupied with philosophy of culture, or with the nexus of moral philosophy and aesthetics (which he seeks to resolve in the fit version of the Dostoevsky book by putting forward and valorizing a non-finalizing and nonobjectifying polyphonic writing), Bakhtin’s proper realm as thinker was the in-between territory that is confined to no particular discipline and that he inhabited with such non-negotiable sovereignty. It is in this space between the disciplines that he crafted his own metaphors that enabled him to move freely between different levels of argumentation and address issues located above and beyond particular fields of knowledge. Often elusively, but always extremely stimulatingly, Bakhtin lifts the categories he employs above the conceptual constraints of their home disciplines and instils in them new life by obliterating their previous conceptual identity” (p.663).
  • 14
    BAKHTIN, M. & DUVAKIN, V. Mikhail Bakhtin em diálogo. Conversas de 1973 com Victor Duvakin. Tradução para o português por Daniela Miotello Mondardo, a partir da edição italiana. São Carlos: Pedro & João Editores, 2008.
  • Pareceres
    Tendo em vista o compromisso assumido pela Bakhtinina. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa e outros materiais
    Os conteúdos já estão disponíveis.
  • Traduzido por Maria Glushkova - maria.glushkova@yahoo.com

REFERENCES

  • BAKHTIN, M. M. Response to a Question from the Novy Mir Editorial Staff. In: Speech Genres and Other Late Essays Austin: University of Texas Press1, 1987. pp.1-9.
  • EMERSON, C. The Cambridge Introduction to Russian Literature. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
  • EMERSON, C. Essays on Russian Literary and Musical Culture Selected Essays and Reviews 1988-2019, with Preface. Academic Studies Press, Boston, 2019.
  • EPSTEIN, M. & DeBLASIO, A. (eds.). Filosofia: An Encyclopedia of Russian Thought Available at https://filosofia.dickinson.edu/encyclopedia/bakhtin-mikhail/ Accessed 7 June 2022.
    » https://filosofia.dickinson.edu/encyclopedia/bakhtin-mikhail/
  • GRATCHEV, S. N.; MARINOVA, M. (eds.). Mikhail Bakhtin: The Duvakin Interviews, 1973. Translated by Margarita Marinova. Lewisburg: Bucknell University Press, 2019.
  • HIRSCHKOP, K. The Cambridge Introduction to Mikhail Bakhtin (Cambridge Introductions to Literature). Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
  • LOSSKY, N. O. History of Russian Philosophy London: George Allen and Unwin, 1952.
  • MAKHLIN, V. L. Creating Consciousness, or Mikhail Bakhtin Between Past and Future. Literaturovedcheskii zhurnal, no. 4(54), 2021, pp.9-27. (In Russ.)
  • MORSON, G. S. Prosaics and Other Provocations: Empathy, Open Time, and the Novel. Boston: Academic Studies Press, 2013.
  • NIKOLAEV, N. I. M. M. Bakhtin in 1910-1920-s: The Unityof the Path. Literaturovedcheskii zhurnal, no. 4(54), 2021, pp.45-59. (In Russ.)
  • TIHANOV, G. The Birth and Death of Literary Theory: Regimes of Relevance in Russia and Beyond. Stanford, California: Stanford University Press, 2019.
  • WALICKI, A. A History of Russian Thought from the Enlightenment to Marxism. Stanford: Stanford University Press, 1979.
  • WALICKI, A. Legal Philosophies of Russian Liberalism Oxford: Oxford University Press, 1987.
  • ZENKOVSKY, V. A History of Russian Philosophy, in 2 vols. Translated by George Kline. London and New York, NY: Routledge, 2003.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Out 2022
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2022

Histórico

  • Recebido
    30 Jun 2022
  • Aceito
    07 Set 2022
LAEL/PUC-SP (Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rua Monte Alegre, 984 , 05014-901 São Paulo - SP, Tel.: (55 11) 3258-4383 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: bakhtinianarevista@gmail.com