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Petrografia de cerâmicas da fase Bacabal (sambaqui Monte Castelo): um dos mais antigos usos de cauixi na Amazônia

Ceramic petrography of the Bacabal phase (sambaqui Monte Castelo): one of the oldest uses of freshwater sponge spicules in the Amazon

Resumo

Este artigo apresenta os resultados da análise petrográfica realizada em 22 fragmentos de cerâmicas provenientes da fase Bacabal, do sambaqui Monte Castelo (Rondônia), uma das cerâmicas mais antigas da Amazônia, datada de mais de 4.000 anos AP. A análise petrográfica confirmou a alta frequência de espículas de espongiários dulcícolas (cauixi) como antiplástico, com dados inéditos sobre a distribuição das espículas, que permitem inferir o processo de preparação da pasta cerâmica e de manufatura do vasilhame. A mesma proporção entre matriz argilosa e cauixi foi detectada ao longo de todas as camadas Bacabal, independente de variações individuais para cada elemento. Isso permite supor a existência de uma receita de cerâmica mantida ao longo da ocupação Bacabal do sítio. O mesmo tipo de cauixi descrito na pasta cerâmica foi identificado em sedimentos argilosos prospectados na região, embora em frequência menor. Assim, a fabricação das cerâmicas Bacabal poderia ter envolvido uma combinação entre: seleção de argilas naturalmente ricas em espículas e cauixi adicionado intencionalmente. O cauixi na fase Bacabal representa um caso excepcional para a investigação sobre o desenvolvimento de tecnologias cerâmicas, sustentadas pela utilização desses antiplásticos, que se tornaram populares durante o Holoceno Superior nas terras baixas da América do Sul.

Palavras-chave
Sudoeste amazônico; Tecnologia cerâmica; Antiplástico; Espículas de esponja; Arqueometria; Trempe

Abstract

This paper contains the results of petrographic analysis on 22 ceramic fragments from the Bacabal phase of the Monte Castelo shell mound (Rondônia), one of the oldest Amazonian potteries dating up to 4,000 years BP. The petrographic analysis confirmed the high frequency of freshwater sponge spicules (cauixi) as a non-plastic, with novel data on the distribution of spicules that allow us to infer the process of ceramic paste preparation and vessel manufacture. The same proportion between clay matrix and sponge spicules was maintained throughout all Bacabal layers, independent of individual variations for each element. This allows us to infer the existence of a pottery recipe maintained throughout the Bacabal occupation of the site. The same type of sponge spicule described in the ceramic paste was identified in clayey sediments surveyed in the region, although at a lower frequency. Thus, the manufacture of Bacabal ceramics could have involved a combination of: selection of spicule-rich clays; and intentionally added sponge spicules. Sponge spicules in the Bacabal pottery represent an exceptional case for research into the development of ceramic technologies supported by the use of these non-plastics, which became popular during the Upper Holocene in the lowlands of South America.

Keywords
Amazonian Southwest; Pottery technology; Non-plastic; Sponge spicules; Archaeometry; Pot stand

INTRODUÇÃO

Neste artigo, apresentam-se os resultados do primeiro estudo petrográfico de cerâmicas da fase Bacabal recuperadas no sambaqui Monte Castelo (Figura 1A). Estas cerâmicas estão entre as mais antigas da Amazônia, com mais de 4.000 anos de antiguidade (Tabela 1). O Sambaqui Monte Castelo se localiza no sudoeste amazônico1 1 As pesquisas arqueológicas no sudeste amazônico foram inauguradas por Eurico Miller, no âmbito do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (PRONAPABA), na década de 1970 (Miller, 1978, 1980, 1983, 1992, 2009, 2013). Ao percorrer boa parte do que era ainda o Território Federal de Rondônia, os trabalhos de Miller indicaram que a região foi um centro de inovações ligado às dinâmicas sociais do restante da Amazônia (Almeida & Mongeló, 2020). Em 2010, foram retomadas as pesquisas em diversos sítios registrados por Miller no trecho encachoeirado do rio Madeira (Almeida, 2013; Tizuka, 2013; A. Costa, 2016; Vassoler, 2016; Caldarelli & Kipnis, 2017; Watling et al., 2018; Kater, 2020; Mongeló, 2020; Neves et al., 2020; Pessoa et al., 2020; Zuse et al., 2020) e na bacia do médio rio Guaporé, um dos seus formadores (Betancourt, 2010; Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016; Pugliese Junior, 2018; Pugliese Junior et al., 2017). , uma das regiões mais ricas em diversidade cultural e linguística das terras baixas sul-americanas.

Figura 1
A) Localização do sítio Monte Castelo no sudoeste amazônico; B) perfil do sítio Monte Castelo com identificação de todas as camadas descritas pela equipe de pesquisa (A-U), com ênfase nas camadas A-D, que abrangem a fase Bacabal, de onde provêm as cerâmicas analisadas neste trabalho. Mapa: Marcelo da Costa (2020). Perfil estratigráfico: Francisco Pugliese (2020).
Tabela 1
Lista de datações disponíveis para as camadas da fase Bacabal do sambaqui Monte Castelo. A calibração das datas foi realizada pela Dra. Lorena Becerra-Valdívia, usando software OxCal 4.4, curva shcal20 em Hogg et al. (2020)Hogg, A., Heaton, T., Hua, Q., Palmer, J., Turney, C. S. M., Southon, J., . . . Wacker, L. (2020). SHCal20 southern hemisphere calibration, 0–55,000 years cal BP. Radiocarbon, 62(4), 759-778..

A ocupação humana do sudoeste amazônico foi contínua desde o início do Holoceno, a partir de 9.500 anos AP (Miller, 1978Miller, E. T. (1978). Relatório das pesquisas arqueológicas no território federal de Rondônia (Alto Rio Madeira, do Yata ao Cuniã). [Resultados preliminares, PRONAPABA - Programa Nacional Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica]., 1992; Mongeló, 2020Mongeló, G. (2020). Ocupações humanas do Holoceno inicial e médio no sudoeste amazônico. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0079; Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN.; Watling et al., 2018Watling, J., Shock, M., Mongeló, G., Almeida, F. O., Kater, T., Oliveira, P. E., & Neves, E. G. (2018). Direct archaeological evidence for Southwestern Amazonia as an early plant domestication and food production centre. PLoS ONE, 13(7). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0199868
https://doi.org/10.1371/journal.pone.019...
), embora as datações mais antigas na região cheguem até c. 12.000 anos AP (Neves, 2016Neves, E. G. (2016). Não existe Neolítico ao sul do Equador: As primeiras cerâmicas amazônicas e sua falta de relação com a agricultura. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 32-39). IPHAN.). Na região, foram identificadas cerâmicas de até 5.000 anos AP, possivelmente as mais antigas relacionadas ao tronco linguístico macro-Tupi (Miller, 2009Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins.; Zimpel Neto, 2009Zimpel Neto, C. A. (2009). Na direção das periferias extremas da Amazônia: Arqueologia na bacia do rio Jiparaná, Rondônia [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].), assim como uma profusão de estilos cerâmicos a partir do quarto milênio (Kater, 2020Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078; Zuse et al., 2020Zuse, S., Costa, A. F., Pessoa, C., & Kipnis, R. (2020). Tecnologias cerâmicas no alto rio Madeira: Síntese, cronologia e perspectivas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-26. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0082
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). No Holoceno final, estruturas geométricas de terra (i.e. geoglifos), interconectadas por caminhos e estradas, caracterizam a paisagem no Acre e em Rondônia (Saunaluoma & Schaan, 2012Saunaluoma, S., & Schaan, D. (2012). Monumentality in western Amazonian formative societies: Geometric ditched enclosures in the Brazilian state of Acre. Antiqua, 2(1), 1-11. https://doi.org/10.4081/antiqua.2012.e1
https://doi.org/10.4081/antiqua.2012.e1...
; Trindade, 2015Trindade, T. (2015). Geoglifos, zanjas ou earthworks? Levantamento geral dos sítios arqueológicos com estruturas de terra em vala no médio rio Guaporé (RO) e análise comparada com os demais sítios no Sudoeste da Bacia Amazônica [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Iriarte et al., 2020Iriarte, J., Robinson, M., Souza, J., Damasceno, A., Silva, F., Nakahara, F., . . . Aragão, L. (2020). Geometry by design: Contribution of lidar to the understanding of settlement patterns of the mound villages in SW Amazonia. Journal of Computer Applications in Archaeology, 3(1), 151–169. http://doi.org/10.5334/jcaa.45; Saunaluoma et al., 2020Saunaluoma, S., Moat, J., Pugliese, F., & Neves, E. G. (2020). Patterned villagescapes and road networks in ancient southwestern Amazonia. Latin American Antiquity, 32(1), 173-187.). Estruturas de terra também se observam nos Llanos de Moxos (Bolívia) (Prümers, 2017Prümers, H. (2017). Los monticulos artificiales de la Amazonia. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 47-72). Plural Editores.), com diques e canais de irrigação para plantio, locais de habitação e cemitério, cuja concentração aumenta a partir de 1.300 anos AP (Betancourt, 2010Betancourt, C. J. (2010). La cerámica de la Loma Salvatierra [Tese de doutorado, Universidade de Bonn]., 2016Betancourt, C. J. (2016). Continuidades y rupturas estilísticas em la cerâmica Casarabe de los Llanos de Mojos. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 448-461). IPHAN.). O sudoeste amazônico é caracterizado por possuir grande diversidade linguística, com dezenas de povos falantes de línguas das famílias Tupari, Arawak, Pano, Txapakura e de línguas isoladas (Moore & Storto, 2002Moore, D., & Storto, L. (2002). As Línguas indígenas e a pré-história. In D. J. Pena (Org.), Homo brasilis (pp. 63-82). FUNPEC.).

Pesquisas arqueobotânicas apontam o sudoeste da Amazônia como centro de domesticação da mandioca (Manihot esculenta), da pupunha (Bactris gasipaes) e do amendoim (Arachis hypogaea), além de outras espécies manejadas (Olsen & Schaal, 1999Olsen, K., & Schaal, B. (1999). Evidence on the origin of cassava: Phylogeography of manihot esculenta. Proceedings of the National Academy of Sciences, 96(10), 5586-5591.; Watling et al., 2015Watling, J., Saunaluoma, S., Pärssinen, M., & Schaan, D. (2015). Subsistence practices among earthwork builders: Phytolith evidence from archaeological sites in the southwest Amazonian interfluves. Journal of Archaeological Science: Reports, 4, 541-551. https://doi.org/10.1016/j.jasrep.2015.10.014
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; Clement et al., 2016Clement, C. R., Rodrigues, D. P., Alves-Pereira, A., Santos Mülhen, G., Cristo-Araújo, M., Moreira, P. A., . . . Reis, V. M. (2016). Crop domestication in the upper Madeira River basin. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 11(1), 193-205. https://doi.org/10.1590/1981.81222016000100010; Watling et al., 2018Watling, J., Shock, M., Mongeló, G., Almeida, F. O., Kater, T., Oliveira, P. E., & Neves, E. G. (2018). Direct archaeological evidence for Southwestern Amazonia as an early plant domestication and food production centre. PLoS ONE, 13(7). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0199868
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). As florestas da região apresentam evidências de antropização, com hiperdominância de espécies manejadas ou domesticadas (Levis et al., 2017Levis, C., Costa, F. R. C., Bongers, F., Peña-Claros, M., Clement, C. R., . . . & ter Steege, H. (2017). Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition. Science, 355(6328), 925–931. https://doi.org/10.1126/science.aal0157).

A ocupação do sítio Monte Castelo, localizado na planície inundável do rio Guaporé, começa há c. 6.000 anos AP. A partir de c. 4.300 AP, aparecem as cerâmicas da fase Bacabal (Miller, 2009Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins.; Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN.; Pugliese Junior et al., 2017Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores., 2019Pugliese Junior, F., Zimpel Neto, C. A., & Neves, E. G. (2019). What do Amazonian Shellmounds Tell Us about the long-term indigenous history of south America? In C. Smith (Ed.), Encyclopedia of global archaeology (pp. 1-25). Springer.; Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].; Zimpel Neto, 2018Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].) analisadas aqui, que se destacam pela presença recorrente de cauixi (espículas de sílica microscópicas que formam o esqueleto de esponjas dulcícolas) na pasta e representam um dos mais antigos usos deste material em cerâmicas da Amazônia. Neste artigo2 2 Este artigo resulta do esforço coletivo de análise e discussão de cerâmicas arqueológicas promovido durante o curso de pós-graduação “Petrografia de materiais geológicos e arqueológicos”, ministrado na Universidade de São Paulo (USP), em 2018. Como atividade de avaliação do curso, os/as alunos/as analisaram fragmentos cerâmicos da fase Bacabal selecionados por C. A. Zimpel, provenientes do sambaqui Monte Castelo (Rondônia), sítio que vem sendo escavado desde 2014 pela equipe do Prof. Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. , realizamos a análise petrográfica de 22 fragmentos de cerâmica da fase Bacabal do sambaqui Monte Castelo, com o objetivo de: 1) caracterizar a pasta cerâmica ao longo de toda a ocupação associada à fase Bacabal no sítio, com amostras provenientes de todas as camadas assignadas a esta fase; 2) identificar e quantificar o aporte de cauixi na cerâmica, para contribuir com a discussão sobre sua adição intencional à pasta ou sobre a seleção de depósitos de argila naturalmente ricos em espículas; 3) investigar descontinuidades ou mudanças na tecnologia das cerâmicas Bacabal, com informação petrográfica sobre os processos de preparação e manufatura do vasilhame; 4) contribuir com dados que permitam o aprofundamento na história da utilização do cauixi nas primeiras cerâmicas da Amazônia.

PETROGRAFIA CERÂMICA

A análise petrográfica de fragmentos cerâmicos envolve a observação, em um microscópio petrográfico, de fatias de cerâmica, coladas em lâminas de vidro e polidas até a espessura de 30 µm (Reedy, 2008Reedy, C. L. (2008). Thin-section petrography of stone and ceramic cultural materials. Archetype.). A observação sob o microscópio permite identificar e quantificar os materiais minerais e orgânicos presentes na pasta cerâmica, suas formas, tamanhos e relações, além de quantidade, forma e tamanho dos poros, assim como da composição da matriz argilosa. Todas essas informações permitem conhecer a tecnologia de fabricação das cerâmicas e identificar os métodos e intenções das/os ceramistas (Middleton, 1997Middleton, A. (1997). Ceramic petrography. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo [Suplemento 2], 73-79.; Reedy, 2008Reedy, C. L. (2008). Thin-section petrography of stone and ceramic cultural materials. Archetype.; Quinn, 2013Quinn, P. S. (2013). Ceramic petrography: The interpretation of archaeological pottery & related artefacts in thin section. Archaeopress.), com dados sobre: 1) as técnicas de queima usadas na confecção das vasilhas; 2) as matérias-primas utilizadas na fabricação da pasta; e, em alguns casos, 3) as técnicas de ornamentação aplicadas (Velde & Druc, 1999Velde, B., & Druc, I. C. (1999). Archaeological ceramic materials, origin and utilization. Springer.). A petrografia de cerâmicas também oferece informação sobre a proveniência das fontes argilosas e/ou dos materiais orgânicos e minerais com os quais as cerâmicas foram confeccionadas. Esses dados são essenciais em estudos sobre mobilidade, contatos e trocas entre diferentes grupos (Whitbread, 1995Whitbread, I. K. (1995). Greek transport amphorae: A petrological and archaeological study. The British School of Athens.; Tite, 2008Tite, M. S. (2008). Ceramic production, provenance and use - a review. Archaeometry, 50(2), 216-231.; Montana et al., 2009Montana, G., Polito, A. M., & Iliopoulos, I. (2009). Indigenous tableware production during the archaic period during the western Sicily: New results from petrographic analysis. In P. S. Quinn (Ed.), Interpreting silent artefacts: Petrographic approaches to archaeological ceramics (pp. 47-63). Archaeopress.; Ixer & Vince, 2009Ixer, R., & Vince, A. (2009). The provenance potential of igneous glacial erratics in anglo-saxon ceramics from Northern England. In P. S. Quinn (Ed.), Interpreting silent artefacts: Petrographic approaches to archaeological ceramics (pp. 11-23). Archaeopress.; Braekmans et al., 2017Braekmans, D., Degryse, P., Neyt, B., Waelkens, M., & Poblome, J. (2017). Reconstructing regional trajectories: The provenance and distribution of archaic to hellenistic ceramics in Central Pisidia (South‐west Turkey). Archaeometry, 59(3), 472-492. https://doi.org/10.1111/arcm.12259).

A aplicação da petrografia a materiais cerâmicos data do começo do século, com os trabalhos de Shepard (1956)Shepard, A. (1956). Ceramics for the archaeologist. Carnegie Institution of Washington., nos Estados Unidos. Desde então, a técnica se popularizou e passou a ser utilizada de maneira sistemática em diferentes contextos. Nas terras baixas da América do Sul, o primeiro estudo de materiais cerâmicos a partir de lâminas petrográficas foi feito por Linné (1925Linné, S. (1925). The technique of South American ceramics. Göteborg., 1932)Linné, S. (1932). Contribuition à l’étude de la céramique sudaméricaine. Revista del Instituto de Etnologia, (7), 199-232., que analisou coleções da região dos Llanos de Moxos (Bolívia) e Santarém (Brasil), conservadas em museus europeus. Esse trabalho serviu para caracterizar antiplásticos típicos da Amazônia, com destaque para o cauixi e o caraipé (cinzas silicosas de casca de árvore).

No Brasil, as primeiras pesquisas com petrografia cerâmica foram feitas por M. A. Alves e Girardi (1989)Alves, M. A., & Girardi, V. A. V. (1989). Confecções de lâminas microscópicas e o estudo da pasta cerâmica. Revista de Pré-História, 7, 150-162., M. Costa et al. (1991)Costa, M., Kern, D., Souza, J., & Pinto, A. (1991). A mineralogia e a geoquímica na cerâmica arqueológica de Oriximiná, PA. Congresso Brasileiro de Geoquímica, São Paulo., Coelho et al. (1996)Coelho, S., Costa, M., & Kern, D. (1996). Mineralogia e composição química dos fragmentos cerâmicos arqueológicos do sítio Manduquinha em Caxiuanã (Portel-PA). Simpósio de Geologia da Amazônia, Belém. e M. A. Alves (1997)Alves, M. A. (1997). Estudo de cerâmica pré-histórica no Brasil: Das fontes de matéria-prima ao emprego de microscopia petrográfica, difratometria de raios X e microscopia eletrônica. Clio: Série Arqueológica, 1(12), 27-86.. Goulart (2004)Goulart, E. P. (2004). Técnicas Instrumentais para caracterização mineralógica e microestrutural de materiais cerâmicos arqueológicos. Canindé: Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, (4), 249-281. apresenta as potencialidades da ferramenta por meio de exemplos retirados de trabalhos prévios. Nas últimas duas décadas, diversos trabalhos aplicam a técnica para quantificar os antiplásticos e a matriz argilosa, como complemento às análises macroscópicas, ou para estudos sobre técnica de produção e proveniência das matérias-primas (M. Costa et al., 2004Costa, M. L., Kern, D. C., Pinto, A. H. E., & Souza, J. R. T. (2004). The ceramic artifacts in archaeological black earth (terra preta) from lower Amazon region, Brazil: Mineralogy. Acta Amazonica, 34(2), 165-178. https://doi.org/10.1590/S0044-59672004000200004, 2011Costa, M. L., Morcote-Rios, G., Silva, M. M., Silva, G. J., & Molano-Valdes, U. (2011). Mineralogy and chemistry of ceramic fragmens from arqueological dark earth from Colombian Amazonia. Revista Escola de Minas, 64(1), 17-23. https://doi.org/10.1590/S0370-44672011000100002; J. Machado, 2005Machado, J. S. (2005). Montículos artificiais na Amazônia central: Um estudo de caso do sítio Hatahara [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Goulart et al., 2006Goulart, E. P., Alves, M. A., Fernandes, S. C. G., Munita, C. S., & Paiva, R. P. (2006). Caracterização microestrutural e química de amostras de cerâmica pré-histórica do sítio Água Limpa, Monte Alto, São Paulo. Canindé: Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, (7), 187-196.; Bandeira, 2008Bandeira, A. (2008). Ocupações humanas pré-históricas no litoral maranhense: Um estudo arqueológico sobre o sambaqui do Bacanga na ilha de São Luís - Maranhão [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; H. Lima, 2008Lima, H. P. (2008). História das caretas: A tradição Borda Incisa na Amazônia Central [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].; Figueiredo, 2008Figueiredo, M. T. (2008). Estudo da cultura material lítica e cerâmica dos sítios Silva Serrote e Menezes: Análise das cadeias operatórias dos vestígios de culturas pré-coloniais do alto Paranaíba, Minas Gerais [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Zuse, 2009Zuse, S. (2009). Os Guarani e a Redução Jesuítica: Tradição e mudança técnica na cadeia operatória de confecção dos artefatos cerâmicos do sítio Pedra Grande e entorno [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Teixeira-Bastos, 2015Teixeira-Bastos, M. T. (2015). Arqueologia romana em Israel: O uso da petrografia cerâmica para análises de cultura material. Cadernos do LEPAARQ, 12(24), 223-250.; Magalhães, 2015Magalhães, W. (2015). O emprego da microscopia petrográfica no estudo da cerâmica arqueológica e de fontes de proveniência: Um exemplo prático. Arqueometria para Bens Culturais, 28(43), 77-87., 2019Magalhães, W. (2019). Continuidade e mudança dos povos Jê, um estudo acerca da paisagem arqueológica, cultura material e padrão de assentamento dos sítios arqueológicos Inhazinha/MG e Água Limpa/SP [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].; Carbonera et al., 2015Carbonera, M., Loponte, D., & Silvestre, R. (2015). Um contexto Itararé-Taquara no alto rio Uruguai: O sítio Otto Aigner 2. Cuadernos del Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano, 2(4), 135-153.; Moreira, 2019Moreira, M. (2019). Projeto Quebra-Anzol, Minas Gerais: Estudo de continuidade e mudança tecnológica intersítios na cultura material cerâmica [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Barreto & Lima, 2020Barreto, C., & Lima, H. (2020). Understanding the dispersion of ceramics styles in the lower Amazon: What is Koriabo? In C. Barreto, H. Lima, S. Rostain & C. Hofman, Koriabo: From Caribbean Sea to the Amazon River (pp. 183-202). Museu Paraense Emílio Goeldi.; Carbonera & Loponte, 2020Carbonera, M., & Loponte, D. (2020). Caracterização das pastas cerámicas das unidades arqueológicas Itararé-Taquara e Guarani de sítios da volta do Uvá, Alto rio Uruguai. Revista de Arqueolgia, 33(2), 2-20. https://doi.org/10.24885/sab.v33i2.708).

O SAMBAQUI MONTE CASTELO

O sambaqui Monte Castelo representa uma das ocupações humanas mais antigas das terras baixas da América do Sul, associada com as primeiras cerâmicas do continente (Pugliese Junior, 2018; Pugliese Junior et al., 2017Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores.). O sítio está localizado no município de São Francisco do Guaporé, Rondônia, próximo à fronteira entre Brasil e Bolívia, na área conhecida como Pantanal do Guaporé, extensão brasileira dos Llanos de Moxos bolivianos.

Eurico Miller foi o primeiro a escavar o sambaqui e a mapear outros sítios arqueológicos na bacia do rio Branco, no início da década de 1980 (Miller, 2009Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins.). O Laboratório de Arqueologia dos Trópicos do MAE/USP retomou as pesquisas na área e realizou nove etapas de campo na região, entre 2011 e 2020, coordenadas por Eduardo Góes Neves e Francisco Pugliese. Na etapa de campo de 2013, foram realizados o levantamento topográfico do sítio e o registro das suas atuais dimensões: c. 160 metros de comprimento no seu eixo maior e c. 6,30 metros de altura em relação à cota de inundação do banhado. Até o momento, sete indivíduos estão sendo exumados no sítio, sepultados em diversas posições e com rico material funerário (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].).

A cronoestratigrafia do sambaqui envolve três períodos de ocupação: 1) fase Cupim (ca. 6.000 a 5.800 anos cal AP); 2) fase Sinimbu (ca. 5.800 a 5.000 anos cal AP); 3) e fase Bacabal (ca. 4.300 a 700 anos cal AP) (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].)3 3 As datas publicadas por Miller (2009) e Pugliese Junior et al. (2017) consideradas como marcos para o início e o final de cada período de ocupação de Monte Castelo são: fase Cupim = 6.397 ± 202 (SI-6853) e 5.837 ± 91 (CEZ-32117); fase Sinimbu = 5.867 ± 119 (CEZ-32116) e 5.182 ± 137 (B-408414); fase Bacabal = 4.012 ± 130 (B-408413) e 680 ± 1.160 (B-103185). Idades 14C calibradas segundo a SHCAL20 (Hogg et al., 2020). . Estes pacotes arqueológicos estão compostos principalmente por camadas ocupacionais intercaladas com camadas construtivas, onde predominam as conchas de gastrópodes inteiras e fragmentadas a partir do final do Holoceno médio (Figura 1B).

Análises arqueobotânicas mostraram diferentes estratégias de manejo de plantas ao longo da ocupação do sambaqui. Na fase Sinimbu, L. Hilbert et al. (2017)Hilbert, L., Neves, E. G., Pugliese, F., Whitney, B. S., Shock, M., Veasey, E., . . . Iriarte, J. (2017). Evidence for mid-Holocene rice domestication in the Americas. Nature Ecology & Evolution, 1, 1693-1698. indicam cultivo de milho e abóbora desde 5.416-5.060 anos cal AP. Furquim et al. (2021)Furquim, L. P., Watling, J., Hilbert, L. M., Shock, M. P., Prestes-Carneiro, G., Calo, C. M., . . . Neves, E. G. (2021). Facing change through diversity: Resilience and diversification of plant management strategies during the mid to late holocene transition at the Monte Castelo Shellmound, SW Amazonia. Quaternary, 4(1), 2-26. https://doi.org/10.3390/quat4010008 demonstram o manejo de espécies de áreas alagadas e terra firme, além de uma dieta que contava com plantas silvestres, manejadas e domesticadas. Na fase Bacabal, L. Hilbert et al. (2017)Hilbert, L., Neves, E. G., Pugliese, F., Whitney, B. S., Shock, M., Veasey, E., . . . Iriarte, J. (2017). Evidence for mid-Holocene rice domestication in the Americas. Nature Ecology & Evolution, 1, 1693-1698. encontram as evidências mais antigas de domesticação e cultivo de arroz, a partir de 4.000 anos cal AP (4.012 ± 130, B-8408413), e Furquim et al. (2021)Furquim, L. P., Watling, J., Hilbert, L. M., Shock, M. P., Prestes-Carneiro, G., Calo, C. M., . . . Neves, E. G. (2021). Facing change through diversity: Resilience and diversification of plant management strategies during the mid to late holocene transition at the Monte Castelo Shellmound, SW Amazonia. Quaternary, 4(1), 2-26. https://doi.org/10.3390/quat4010008 reportam o uso e o consumo de uma maior variabilidade de espécies de plantas.

Estudos zooarqueológicos realizados por Prestes-Carneiro et al. (2020)Prestes-Carneiro, G., Bèarez, P., Pugliese, F., Shock, M. P., Zimpel, C. A., Poully, M., & Neves, E. G. (2020). Archaeological history of Middle Holocene environmental change from fish proxies at the Monte Castelo archaeological shell mound, Southwestern Amazonia. The Holocene, 30(11), 1606-1621. mostram que a ocupação do sambaqui acontecia em momentos em que o nível freático estava baixo, informando que o sítio não teria sido utilizado como estrutura para proteção nos períodos de cheia. Há 4.000 anos, os/as autores/as observam aumento na diversidade de espécies de peixes no sítio, com inclusão de novas estratégias e nichos de pesca e ocupações mais contínuas. Esta mudança coincide também com a passagem de condições relativamente secas até uma situação de maior umidade na região (Prestes-Carneiro et al., 2020Prestes-Carneiro, G., Bèarez, P., Pugliese, F., Shock, M. P., Zimpel, C. A., Poully, M., & Neves, E. G. (2020). Archaeological history of Middle Holocene environmental change from fish proxies at the Monte Castelo archaeological shell mound, Southwestern Amazonia. The Holocene, 30(11), 1606-1621.).

Na fase Cupim, há pequenos blocos, bolotas e placas de argila queimadas, que apresentam, predominantemente, antiplástico mineral (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].). No entanto, as cerâmicas da fase Sinimbu representam os vestígios mais antigos de vasilhas no sítio. Na fase Sinimbu, no que se interpreta como as primeiras camadas construtivas em conchas de Monte Castelo, há pequenas tigelas cerâmicas com contorno simples. Análises destes fragmentos indicam queima em temperatura baixa e uso de areia como antiplástico, embora tenha sido registrada presença de cauixi e de conchas trituradas na pasta de alguns artefatos, entre outros microvestígios zooarqueológicos (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].). No tópico a seguir, serão descritas as características das cerâmicas Bacabal analisadas neste artigo.

A FASE BACABAL

A fase Bacabal foi definida na década de 1980 por Miller (2009, 2013). Trata-se de uma cultura arqueológica com datações de até 4.300 anos cal AP cuja cerâmica se assemelha a outras mais antigas, como a cerâmica Valdívia, no Equador. Esta cerâmica teria influenciado outras mais recentes do sudoeste amazônico, como as das fases Corumbiara, Pimenteiras e Jasiaquiri (Miller, 2009Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins., 2013Miller, E. T. (2013). Algumas culturas ceramistas, do noroeste do Pantanal do Guaporé à Encosta e Altiplano Sudoeste do Chapadão dos Parecis: Origem, difusão/migração e adaptação – do noroeste da América do Sul ao Brasil. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, 5(2), 335-386.; Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN.; Zimpel Neto, 2018Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].). As semelhanças entre a fase Bacabal e outras fases do Guaporé e dos Llanos de Moxos envolvem a decoração da cerâmica, a variabilidade dos conjuntos, em termos de características das pastas, e o padrão de assentamento (Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN.; Zimpel Neto, 2018Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].). Pugliese Junior et al. (2017) relacionam a presença da cerâmica Bacabal a uma longa história de ocupação regional, marcada pela construção de grandes monumentos em terra e conchas, elaborados pelos povos indígenas que sepultaram seus mortos no sítio Monte Castelo.

A análise macroscópica realizada por Zimpel Neto (2018)Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. permitiu caracterizar a pasta, a técnica de manufatura, a morfologia, a decoração e as marcas de uso da cerâmica Bacabal. Trata-se de uma cerâmica produzida por roletado/acordelado, com apliques (alças e apêndices zoomorfos) e suporte de panelas modelados (ou trempes). A decoração é caracterizada por motivos excisos em zigue-zague e incisões paralelas com ângulos. A maioria das formas reconstituídas é rasa, com abertura irrestrita (tigelas), ou mais profunda, com abertura irrestrita, muitas dessas com fuligem (i.e. panelas). Algumas das vasilhas com decoração mais elaborada, possivelmente utilizadas para o consumo de bebidas, apresentam abertura restrita. Todas as bases são planas, o que pode estar relacionado à grande incidência de suportes de panelas (i.e. trempes) (Zimpel Neto, 2018Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].).

O estudo das pastas com lupa binocular identificou presença de cauixi, frequentemente associado a minerais (quartzo, óxido de ferro e carbonato de cálcio), e poros relacionados a elementos vegetais carbonizados. Em menor frequência, aparecem fragmentos de conchas. Zimpel Neto (2018)Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. também notou que, diferentemente dos fragmentos de pote, a pasta das trempes apresenta menos espículas e nenhum tipo de vazio. Assim, a análise petrográfica pode contribuir para a caracterização da matriz argilosa, das inclusões (sua frequência e distribuição), além de verificar a diferença reportada entre a pasta de vasilhas e de suportes de panela.

MATERIAIS E MÉTODOS

Neste artigo, foram analisados 22 fragmentos de cerâmica provenientes do sambaqui Monte Castelo e pertencentes à fase Bacabal (Tabela 2; Figuras 2, 3 e 4). Todas as amostras são vestígios de paredes de potes, com exceção de um fragmento de trempe (MC5). Para confecção das lâminas delgadas, os fragmentos cerâmicos foram cortados ao longo do eixo perpendicular à parede do pote. Desta maneira, foi possível observar variações nas condições de queima (e.g. redutora, oxidante ou ambos) para cada fragmento, desde a face externa até a interna. Para confecção das seções delgadas, também conhecidas como lâminas delgadas ou lâminas petrográficas, os fragmentos cerâmicos foram serrados em um tablete retangular, com dimensões máximas de 46 x 28 x 10 mm, utilizando uma serra diamantada Dinser. A face maior do tablete foi polida com abrasivos de granulometria decrescente em politriz giratória, também da marca Dinser. Esta mesma face foi fixada com resina epóxi, importada em uma lâmina de vidro incolor fosqueada. A outra face, não desbastada, foi serrada para diminuir a espessura até, aproximadamente, 1 mm, sendo, então, desbastada até atingir 0,2 mm de espessura. Em seguida, essa face também foi polida em politriz automática de alta precisão, Logitech, até atingir 0,03 mm (30 µm), espessura padrão para a análise petrográfica. Quando necessário, o polimento final foi feito manualmente em placa de vidro, com abrasivos mais finos. Por último, a lamínula foi colada na amostra com elantano.

Tabela 2
Lista de amostras analisadas da fase Bacabal, do sambaqui Monte Castelo, com descrição da coloração externa, interna e do núcleo (quando mais de duas cores eram visíveis) de cada fragmento e interpretação do tipo de queima das vasilhas. Legendas: NP = código da amostra; Prof. = profundidade; C = camada; Ox. = oxidante; Red. = redutora.
Figura 2
Scan das lâminas e fotografias de oito dos 22 fragmentos analisados neste estudo, provenientes das camadas A (MC1 a MC5) e B (MC6 a MC8) do sambaqui Monte Castelo. Fotos: Ader Gotardo (MAE/USP). Montagem da figura: Thiago Kater (2020)Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078.
Figura 3
Scan das lâminas e fotografias de oito dos 22 fragmentos analisados neste estudo, provenientes das camadas B (MC9 a MC11), C (MC12 a MC15) e D3 (MC16) do sambaqui Monte Castelo. Fotos: Ader Gotardo (MAE/USP). Montagem da figura: Thiago Kater (2020)Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078.
Figura 4
Scan das lâminas e fotografias de seis dos 22 fragmentos analisados neste estudo, provenientes das camadas D3 (MC17 a MC19) e D2 (MC20 a MC22) do sambaqui Monte Castelo. Fotos: Ader Gotardo (MAE/USP). Montagem da figura: Thiago Kater (2020)Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078.

As amostras foram laminadas no Laboratório de Laminação do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc/USP). As seções delgadas foram analisadas com microscópio petrográfico Leica 2700P, em luz plana polarizada (PPL) e luz polarizada cruzada (XPL), com aumentos de dez a 50 vezes, no Laboratório de Microarqueologia do MAE/USP.

A descrição das amostras seguiu uma ficha de análise padrão, elaborada a partir de Bullock et al. (1985)Bullock, P., Fedoroff, N., Jongerius, A., Stoops, G., & Tursina, T. (1985). Handbook for soil thin section description. Waine Research Publications., Stoops (2003)Stoops, G. (2003). Guidelines for analysis and description of soil and regolith thin sections. Soil Science Society of America., Reedy (2008)Reedy, C. L. (2008). Thin-section petrography of stone and ceramic cultural materials. Archetype. e Quinn (2013)Quinn, P. S. (2013). Ceramic petrography: The interpretation of archaeological pottery & related artefacts in thin section. Archaeopress.. NA FICHA, FOI REGISTRADA a coloração macroscópica das faces externa e interna dos fragmentos, para estimar a atmosfera de queima; e das características microscópicas da pasta cerâmica (ou fábrica), composta por três elementos: 1) matriz argilosa (todos os materiais menores a 63 µm); 2) inclusões; 3) e vazios.

Para a matriz argilosa, foi descrita a cor (oferece informação sobre o tipo de argila e a atmosfera de queima), a limpidez (permite caracterizar e/ou diferenciar argilas em base mediante à presença de partículas finas), a birrefringência (caracteriza o tipo de argilomineral usado) e a composição da matriz argilosa (interpretada a partir das características anteriores). Para as inclusões, foi descrita a composição (minerais ou materiais orgânicos constituintes, como quartzo, fragmentos de rocha, concha, osso, microfósseis, tecidos de plantas etc.), a abundância (definida em porcentagem, usando diagramas de estimação visual), o arredondamento e a seleção (para determinar o grau e o tipo de transporte), o empacotamento (se as inclusões estão em contato direto ou não, para determinar a densidade do material na pasta), a distribuição básica e a orientação. A distribuição básica refere-se à presença, ou não, de um padrão de distribuição nas inclusões. Já a orientação refere-se ao ângulo de distribuição das inclusões, quando a distribuição básica não é aleatória, em relação a um elemento de referência na amostra, que geralmente é a parede. No caso dos poros, foi descrita a forma (definida com base nos mesmos critérios usados na micromorfologia de solos, por exemplo, vesículas, canais, cavidades etc.), a abundância (em porcentagem, mediante o uso de diagramas de estimação visual), o empacotamento (se os vazios estão próximos ou não), a distribuição básica e a orientação. Todas as características permitem inferir informações sobre o processo de elaboração e queima dos potes. A ficha de análise utilizada está disponível no material suplementar4 4 O material suplementar pode ser acessado em http://editora.museu-goeldi.br/bh/artigos/chv17n1_2022/Fichas_Mat_Supl.pdf. .

RESULTADOS

COMPONENTES DA PASTA CERÂMICA

Todas as amostras analisadas compartilham a composição da matriz argilosa e o tipo de inclusões presentes, com exceção da amostra MC5 (fragmento de trempe), que evidenciou diferenças composicionais as quais impedem o seu agrupamento com as demais (Tabela 3; Figura 5).

Tabela 3
Descrição geral das seções delgadas analisadas, com estimativa visual de porcentagem em lâmina da matriz argilosa, inclusões e vazios, bem como frequência relativa para cada categoria de inclusões por amostra. Legendas: C = camada; %T = porcentagem total para cada categoria (matriz, inclusões e vazios); Obs. = observações. Em vermelho-escuro, são destacadas as quantificações para o fragmento de trempe. Em negrito, é dado destaque para as maiores porcentagens totais de matriz e inclusões detectadas no conjunto de amostras analisadas.
Figura 5
Fotomicrografias das cerâmicas analisadas (PPL): A) pasta da amostra MC2 com argila castanha e cauixi; B) seção transversal de cauixi na pasta da amostra MC22; C) feixe de cauixi na pasta da amostra MC1; D) feixe de cauixi na pasta da amostra MC7; E) pasta da amostra MC5, fragmento de trempe, com maior frequência de grãos de quartzo, arredondados, e cauixi de espécie diferente da observada nos potes; F) fragmento de osso de peixe queimado na amostra MC1; G) seção transversal de um fragmento de osso na amostra MC10; H) resto de tecido vegetal na amostra MC4; I) agregado de argila na pasta da amostra MC14. Crédito da imagem: Ximena S. Villagran (2020).
Figura 6
Variação na proporção de cada elemento constituinte da pasta cerâmica. O total de inclusões é a soma da proporção das inclusões de cauixi e de quartzo. O tamanho amostral, a média e o desvio padrão estão indicados por n, µ e σ, respectivamente. Crédito da imagem: André Strauss (2021).

A análise petrográfica indica que a pasta é composta majoritariamente por matriz argilosa (µ = 45%) e inclusões de cauixi (µ = 39%), com inclusões de quartzo em menor proporção (µ = 11%) e vazios de forma minoritária (µ = 4%) (Tabela 3; Figuras 5 e 6). A matriz argilosa pode constituir desde um mínimo de 20% até um máximo de 80% da pasta cerâmica (entre 13% a 70%, com intervalo de 95% de variância). As inclusões de cauixi representam o mínimo de 18% até o máximo de 65% da pasta cerâmica (entre 18% a 60%, com intervalo de 95% de variância). A proporção máxima e mínima de inclusões de quartzo na pasta cerâmica é de 1% e 34%, respectivamente (com intervalo de 95% de variância de 0% a 27%). Ou seja, existem diversos fragmentos cerâmicos no sítio Monte Castelo nos quais a presença de quartzo é muito baixa ou praticamente nula.

A proporção de ambos os constituintes majoritários, matriz argilosa e inclusões de cauixi, varia entre as amostras analisadas, sem diferença estatisticamente significativa entre as suas médias (teste-T para proporção ≥ p = 0,24). O mesmo é verdade quando se compara a proporção média de matriz argilosa com a proporção média do total de inclusões (i.e. cauixi + quartzo; teste-T para proporção ≥ p = 0,36).

Em 64% das amostras, a matriz argilosa apresenta coloração castanho-escuro, tanto na amostra de mão, quanto no microscópio a PPL, indicando queima em ambiente redutor. As demais amostras apresentam coloração castanho-claro-avermelhado, indicando queima oxidante (Tabela 3).

Em todas as 22 amostras analisadas, as inclusões de cauixi são visíveis não apenas ao microscópio, como também a olho nu. As inclusões de cauixi apresentam empacotamento fechado e distribuição aleatória (µ = 74%) e linear (µ = 22%) (Tabela 4). A distribuição linear, presente em 82% das amostras, é visível na seção longitudinal das espículas, cuja orientação é sempre paralela às paredes e de tipo bimodal (tanto paralela, quanto inclinada – com ângulo de até 60°) (Tabela 4; Figura 7). Esta avaliação indica que, quando o cauixi está orientado, a posição do eixo maior das espículas é sempre paralela às faces externa e interna dos fragmentos (Figura 7). Em 50% das amostras, o cauixi aparece na forma de pequenos feixes ou agrupamentos (µ = 4%) (Tabela 4; Figuras 5C e 5D).

Tabela 4
Descrição das características do cauixi nas seções delgadas analisadas, com estimativa visual de porcentagem para cada tipo de distribuição básica e frequência estimada de orientação para as espículas de distribuição linear. Legendas: xxx = >60%; xx = 40-60%; x = <40%.
Figura 7
Fotomicrografias que exemplificam as diferentes distribuições das espículas do cauixi no conjunto de amostras estudado (PPL): A, B, D, E e F) seção longitudinal de espículas paralelas à parede do pote no primeiro milímetro, com passagem abrupta para espículas em seção transversal no núcleo do fragmento; C) seção transversal de espículas na parede do fragmento, com passagem abrupta para espículas em corte longitudinal no núcleo. Crédito da imagem: Ximena S. Villagran (2020).

Os grãos de quartzo são subarredondados e subangulosos, com distribuição aleatória e seleção moderada (Figuras 5A e 5B). Dentre os componentes minoritários das inclusões (frequência inferior a 1%), encontraram-se fragmentos de ossos (Figuras 5F e 5G), conchas, microcarvões, restos de tecido vegetal (Figura 5H), agregados de argila na fração areia fina (Figura 5I) e grãos minerais (muscovita, biotita e granada) (Tabela 3). Meso e macrovazios aparecem na forma de vesículas, cavidades, fissuras e canais. A baixa presença de vazios no conjunto analisado (µ = 4%) indica que a pasta foi intensamente homogeneizada antes da modelagem (Quinn, 2013Quinn, P. S. (2013). Ceramic petrography: The interpretation of archaeological pottery & related artefacts in thin section. Archaeopress.).

As análises petrográficas da amostra MC5, único fragmento de trempe incluído neste estudo, indicam a especificidade da sua constituição. As espículas de cauixi da amostra MC5 são mais finas (com 18-21 µm de largura) do que as das amostras de vasilhas (com 20-28 µm de largura) e apresentam um canal longitudinal no seu centro, feição ausente nas demais amostras analisadas (Figuras 5E e 8). Os grãos de quartzo da amostra MC5 são mais finos (65-100 µm de comprimento, fração areia muito fina), arredondados e melhor selecionados do que os grãos de quartzo com bordas subangulosas das demais amostras analisadas (100-150 µm de comprimento, fração areia fina) (Figura 8). A amostra MC5 também é distinta, pois apresenta maior porosidade (10% de vazios), com mais do que o dobro da média das demais amostras (µ = 4%), e quantidade elevada de inclusões de quartzo, sendo a amostra com a menor razão cauixi/quartzo (razão = 1) incluída neste estudo (a média da razão cauixi/quartzo é de 6,07) (Tabela 3; Figura 8).

Figura 8
Fotomicrografias que ilustram a diferença nas espículas observada nos fragmentos de vasilhas (MC1), fragmento de trempe (MC5) e em dois depósitos de argila naturalmente ricos em cauixi, localizados a 30 e 150 km a nordeste do sambaqui Monte Castelo, prospectados por Pugliese Junior (2018) (códigos CS02 PN04 e CS04 PN06). Crédito da imagem: Ximena S. Villagran (2020).

PROPORÇÃO ENTRE COMPONENTES

O cálculo das razões da proporção dos principais elementos constituintes permite avaliar a existência de padrões composicionais na pasta cerâmica (Tabela 5; Figura 9). A proporção de matriz argilosa em cada amostra é, em média, apenas 0,38 vezes maior do que a proporção de inclusões de cauixi, com valores variando de -2,75 a 4,44 vezes. O valor de 4,44 vezes é um outlier estatístico e, quando ele é desconsiderado, a diferença média cai para 0,18 vezes, com máximo de 2,07 vezes. Ainda que na média haja um ligeiro excesso de matriz argilosa em relação às inclusões de cauixi, em 41% das amostras o oposto é verdadeiro, existindo, de forma geral, um equilíbrio entre a proporção destes elementos na pasta cerâmica. Em comparação com a relação entre os demais elementos constituintes da pasta, conforme descrito a seguir, a razão entre matriz e cauixi varia relativamente pouco.

Tabela 5
Razões entre as proporções dos diferentes elementos constituintes da pasta cerâmica do sítio Monte Castelo.
Figura 9
Variação na razão entre os principais elementos constituintes da pasta cerâmica. No gráfico de cima, estão plotados os valores brutos da razão entre os elementos matriz, cauixi e quartzo, conforme indicado na abscissa. No gráfico de baixo, os valores foram transformados para expressarem de forma simétrica a relação entre os elementos indicados na abscissa (i.e. razões entre 0 e 1 são transformadas conforme ‘- 1/razão’). O tamanho amostral, a média e o desvio padrão estão indicados por n, µ e σ, respectivamente. As amostras MC10 e MC20 não estão representadas nas dispersões com n = 20. Crédito da imagem: André Strauss (2021).

A proporção de matriz argilosa na pasta cerâmica é, em média, 9,54 vezes maior do que a proporção de inclusões de quartzo, com valores variando de -1,24 até 80,00 vezes (Tabela 5; Figura 9). Entretanto, as duas amostras com as razões mais elevadas entre matriz argilosa e inclusões de quartzo (MC12 = 0,80 e MC2 = 0,30) são outliers estatísticos, refletindo a quantidade quase nula de inclusões de quartzo e seu impacto exponencial no cálculo das razões. Quando os dois outliers são excluídos, o valor máximo e a média para a razão argila/quartzo caem para 10,20 e 4,99, respectivamente. Apesar do predomínio geral da matriz argilosa em relação às inclusões de quartzo, existem duas amostras (MC10 e MC20) onde há predomínio do quartzo em relação à matriz argilosa (Tabela 3).

A proporção de inclusões de cauixi é, em média, 6,07 vezes mais frequente do que a proporção de inclusões de quartzo, com valores variando de 1,00 até 17,50 vezes (Tabela 5; Figura 9). As amostras MC20 e MC5 (trempe), com razões de 17,50 e 18,00, constituem outliers estatísticos, e a variação da razão cauixi/quartzo, quando estas amostras são desconsideradas, vai de 1,00 a 9,29, com média de 4,91. A distribuição das razões cauixi/quartzo é bimodal (p < 0,0001; análises sem os outliers), o que não foi observado para nenhum outro parâmetro avaliado neste estudo. As amostras se dividem num grupo (n = 13) cuja proporção de cauixi na pasta cerâmica é, em média, apenas 2,95 vezes maior do que a proporção de quartzo e em outro grupo (n = 7) cuja proporção de cauixi na pasta cerâmica é, em média, 8,54 vezes maior do que a proporção de quartzo. Salienta-se que existe um hiato entre valores de razões cauixi/quartzo entre 4,14 e 8,20, com uma única ocorrência neste intervalo (MC6 = 5,43). De todas as formas, na pasta cerâmica sempre há maior quantia de cauixi do que de quartzo, sem exceções.

A razão entre a quantidade de matriz argilosa e inclusões de cauixi é uma função linear alométrica positiva da proporção total de matriz argilosa na pasta cerâmica (r = 0,88; p < 0,001). Para cada incremento de 10% na proporção de matriz argilosa na pasta cerâmica, há aumento médio de 0,37 vezes na proporção de matriz argilosa, em detrimento da proporção de inclusões de cauixi (Figura 10). Esses resultados mostram que a razão entre matriz e cauixi é mais estritamente controlada do que a razão entre quaisquer outros dois elementos constituintes da pasta cerâmica.

Figura 10
Gráficos mostrando a correlação entre as proporções na pasta cerâmica da matriz argilosa, inclusões de cauixi e inclusões de quartzo. O valor de ‘r’ e ‘p’ indica a correlação de Spearman entre as variáveis e sua respectiva significância estatística. Crédito da imagem: André Strauss (2021).

A razão entre a quantidade de matriz argilosa e inclusões de quartzo é uma função linear alométrica positiva (r = 0,69; p < 0,001) da proporção total de matriz argilosa na pasta cerâmica (Figura 10). Para cada incremento de 10% na proporção de matriz argilosa na pasta cerâmica, há um aumento médio de duas vezes na proporção de matriz argilosa, em detrimento da proporção de inclusões de quartzo. Portanto, o aumento na proporção de argila leva a uma redução muito mais intensa na proporção das inclusões de quartzo do que das inclusões de cauixi.

A razão entre a quantidade de inclusões de cauixi e de inclusões de quartzo é uma função linear alométrica positiva (r = 0,57; p = 0,005) da proporção total de inclusões de cauixi na pasta cerâmica, ainda que a intensidade dessa associação/determinação seja menor do que aquela observada entre matriz e inclusões. Para cada incremento de 10% na proporção de inclusões de cauixi na pasta cerâmica, há aumento médio de 1,7 vezes na proporção relativa de inclusões de cauixi, em detrimento da proporção de inclusões de quartzo. Essa taxa de incremento é semelhante àquela observada para a relação entre matriz argilosa e inclusões de quartzo.

Os elementos constituintes da pasta cerâmica das amostras analisadas apresentam distintos padrões de correlação (Figura 10). As proporções de matriz argilosa e de inclusões de cauixi apresentam correlação negativa moderada (r = -0,72; p < 0,0001), mesmo padrão, ainda que ligeiramente menos intenso, observado entre a proporção de matriz argilosa e inclusões de quartzo (r = -0,62; p < 0,0001). Já as proporções das inclusões de cauixi e de quartzo não estão correlacionadas (r = -0,02; p = 0,93). As correlações negativas decorrem, pelo menos em parte, do reduzido grau de liberdade inerente a variáveis que expressam proporções de uma mesma totalidade. Para se aumentar a proporção de um elemento constituinte, obrigatoriamente há que se reduzir a proporção de um ou mais elementos. Assim, é notória a completa independência das proporções dos dois tipos de inclusões na pasta cerâmica, indicando possíveis processos ou origens distintos de incorporação na pasta cerâmica.

As porcentagens de matriz e cauixi são as mais variáveis no conjunto de amostras, ainda que suas proporções estejam mais fortemente associadas entre si do que as demais variáveis. O cauixi pode ser incorporado naturalmente ao sedimento, por degradação das esponjas in situ, ou incorporado intencionalmente na pasta como tempero. Se a variabilidade detectada para o cauixi tem uma origem natural, então nossos resultados refletem a variabilidade natural na quantidade de cauixi na fonte de argila. Ao mesmo tempo, eles podem indicar baixa seleção por parte das oleiras (i.e. qualquer argila que tivesse cauixi era utilizada). Se a variabilidade é resultado do uso do cauixi como tempero, então nossa análise indica que não havia quantidade preferencial de cauixi na elaboração da pasta cerâmica, sempre e quando se mantivesse uma certa proporção com a quantidade de argila. Seja qual for a alternativa (natural versus intencional ou uma combinação de ambos), fica evidente, a partir desta análise, que não existe padrão para a concentração de cauixi nas cerâmicas e que, apesar da variabilidade detectada, a pasta cerâmica resultante sempre funcionava, já que a proporção entre cauixi e argila era mais ou menos mantida.

ANÁLISE DA VARIABILIDADE DE COMPONENTES POR CAMADA ARQUEOLÓGICA

As 22 amostras de cerâmica analisadas pertencem a cinco camadas estratigráficas, distribuídas ao longo de 1,5 metros de profundidade, em um período que vai de c. 4.000 a 700 anos AP. As cerâmicas das camadas B e D2 apresentam menor proporção média de matriz argilosa (37% e 33%) do que as cerâmicas das camadas A, C e D3 (50%, 53% e 50%) (Figura 11). A menor proporção média de matriz argilosa é compensada por uma maior proporção média de inclusões de cauixi nas cerâmicas da camada B (47%) e uma maior proporção média de inclusões de quartzo nas cerâmicas da camada D2 (22%). As cerâmicas da camada A são as que apresentam a menor proporção média de inclusões de cauixi (33%). A proporção média de vazios não apresenta variações maiores do que 1% entre as distintas camadas arqueológicas. Assim, não existe padrão linear de incremento ou redução da proporção média dos distintos elementos constituintes da pasta cerâmica (matriz, inclusões e vazios) ao longo de camadas arqueológicas subsequentes (Figura 11).

Figura 11
Comparação por camada estratigráfica da variação da proporção dos diferentes elementos constituintes da pasta cerâmica. O tamanho amostral, a média e o desvio padrão estão indicados por n, µ e σ, respectivamente. Crédito da imagem: André Strauss (2021).

Análises de variância (ANOVA) indicam que as diferenças nas proporções médias relatadas entre as camadas B e D2, e as camadas A, C e D3, não apresentam significância estatística. Entretanto, há que se considerar que o reduzido tamanho amostral intracamada resulta num baixo poder estatístico e que algumas diferenças entre as camadas podem ser reais. Particularmente, a alta proporção média de inclusões de cauixi e a baixa proporção média de matriz argilosa para as cerâmicas da Camada B poderão ser confirmadas com maior número de amostras em estudos futuros. Ainda assim, é importante enfatizar que as diferenças entre os constituintes majoritários da pasta cerâmica (e.g. matriz e cauixi) entre camadas estratigráficas são sutis (ca. 10%) e que os dados petrográficos caracterizam uma diversidade composicional, tanto dentro como entre as distintas camadas arqueológicas.

DISCUSSÃO

A análise petrográfica indicou a onipresença do cauixi como inclusão na pasta das cerâmicas da fase Bacabal, do sambaqui Monte Castelo. O cauixi aparece em frequência até oito vezes maior do que os grãos de quartzo, o segundo componente mineral descrito como inclusão no conjunto.

A presença de espículas de esponja de água doce na cerâmica Bacabal suscita três questões sobre as práticas oleiras: 1) Houve uma adição intencional de espículas à pasta cerâmica?; 2) Qual o papel das espículas na produção e no uso da cerâmica?; 3) Considerando as datações disponíveis, seria a cerâmica Bacabal uma das mais antigas com esse tipo de antiplástico na Amazônia?

Nos tópicos a seguir, iremos elaborar estas questões a partir dos resultados obtidos e da bibliografia disponível.

ADIÇÃO DE CAUIXI OU SELEÇÃO DE ARGILAS RICAS EM CAUIXI?

Esponjas dulcícolas são encontradas em áreas de inundação sazonal, presas a rochas e à vegetação da margem de lagos e rios. Pela sua composição de sílica amorfa, as espículas não se decompõem depois da morte do organismo, acumulando-se também nos sedimentos5 5 As espículas de espongiários em depósitos sedimentares (espongilitos) são, inclusive, utilizadas na investigação sobre mudanças climáticas no passado (Kalinovski et al., 2016). . Em cerâmicas arqueológicas, a presença de espículas na pasta pode resultar da: 1) adição humana e seu uso como tempero; 2) seleção de argilas naturalmente ricas em espículas; 3) ou de uma combinação entre seleção e adição.

As espículas de cauixi na cerâmica amazônica são comumente consideradas como resultado da adição intencional à pasta (e.g. temperos), o que é reforçado pelas etnografias. Uma alta quantidade de espículas na pasta cerâmica foi interpretada por Stampanoni (2016)Stampanoni, F. B. (2016). A maloca Saracá: uma fronteira cultural no médio Amazonas pré-colonial, vista da perspectiva de uma casa [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. como indicador da adição de cauixi. No entanto, Panachuk et al. (2019)Panachuk, L., Prous, A., & Mendes, T. (2019). Os gestos de produção da pintura em cerâmica nos sítios da Baixada Maranhense: Apontamentos preliminares. In A. G. Navarro (Org.), A civilização lacustre e a Baixada Maranhense: Da pré-história dos campos inundáveis aos dias atuais (pp. 389-432). Café & Lápis. sugerem o contrário, que a alta frequência de espículas indica seleção de argilas naturalmente ricas em cauixi. Na cerâmica Wauja do alto Xingu, com adição intencional de espículas, existe uma alta frequência de cauixi (M. L. Alves, 2019Alves, M. L. (2019). Objetos distribuídos do Baixo Amazonas: Um estudo da cerâmica Konduri [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].), assim como na cerâmica Aratu de Lagoa Santa (Minas Gerais), produzida a partir da mineração de espongilitos (Rodrigues et al., 2017Rodrigues, I. M. M., Volkmer-Ribeiro, C., & Machado, V. S. (2017). Cauixi em cerâmica arqueológica da região de Lagoa Santa, Minas Gerais: Inclusão de esponjas processadas ou exploração de depósitos sedimentares com espículas?. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 12(1), 85-100. https://doi.org/10.1590/1981.81222017000100005
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). Portanto, uma alta abundância de espículas na cerâmica não permite, por si só, diferenciar adição de cauixi ou seleção de depósitos ricos em espículas.

Em diversas regiões da Amazônia, existem depósitos de argila com alta concentração natural de espículas, que poderiam ter sido usados para fabricação de cerâmicas (Kern & Costa, 1997Kern, D. C., & Costa, M. L. (1997). Cerâmica arqueológica (Sítio PA-GU-05: Manduquinha) e cabocla na região de Caxiuanã - PA. Revista de Arqueologia, 10(1), 107-125.; Toney, 2012Toney, J. R. (2012). The product of labor: Pottery technology in the Upper Xingu, Southern Amazon, Brazil, A.D. 700-1770 [Tese de doutorado, Universidade da Flórida].). Em Juruti (Pará), por exemplo, as oleiras não adicionam cauixi à pasta, já que reconhecem a sua presença nas argilas, ao coletá-las (Panachuk, 2016Panachuk, L. (2016). A ciência do barro e os sentidos: Percepções sobre experimentos cerâmicos arqueológicos em Juruti, Pará, Baixo amazonas. Teoria e Sociedade, 24(2), 31-54.). No entanto, as oleiras adicionam grande quantidade de caraipé à pasta cerâmica, o que sugere que a argila, mesmo rica em cauixi, não seria naturalmente adequada para confeccionar vasilhas. Mendieta (2019)Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College]., a partir da prospecção de fontes de argila próximas a sítios arqueológicos no médio rio Orinoco (Venezuela), identificou um depósito rico em espículas de esponja. Porém, a quantidade de espículas era muito baixa, se comparada com a encontrada nas cerâmicas estudadas pela autora.

A presença natural de espículas nas fontes de argila é um indicador importante para discutir a seleção de argilas ricas em cauixi. Para avançar nesta questão, outros dados também precisam ser considerados, tais como: as variações ambientais nos últimos milênios e sua relação com a formação de depósitos ricos em espículas; a proporção e o tipo de espículas nos depósitos naturais das proximidades dos sítios; a proporção e o tipo de espículas na pasta cerâmica e sua relação com os demais componentes (matriz argilosa e outras inclusões).

Fontes de argila nos arredores do sítio Monte Castelo apresentam naturalmente grande quantidade de espículas. Pugliese Junior (2018) prospectou sete depósitos de argila na região do Guaporé e identificou concentrações naturais de espículas em pelo menos dois deles. Por esse motivo, Pugliese Junior et al. (2017)Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores. e Pugliese Junior (2018)Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo]. defendem que a seleção de depósitos argilosos ricos em espículas nos terrenos pantanosos do baixo rio Branco e da confluência com o rio Guaporé estaria na origem do uso de cauixi em cerâmicas da Amazônia. Na Figura 8, apresentam-se duas imagens, obtidas em microscópio de luz incidente, de sedimentos argilosos prospectados por Pugliese Junior (2018) e localizados a aproximadamente 25 e 140 km a nordeste do sítio Monte Castelo. Nestes sedimentos, observam-se espículas na argila com morfologia e espessura semelhantes ao que é observado na cerâmica Bacabal (entre 20-25 µm), mas em proporção aparentemente menor do que na cerâmica.

A análise geoquímica isotópica (87Sr, 143Nd) e de elementos totais (por fluorescência de raios-x) em amostras de cerâmica Bacabal indica que as argilas teriam sido coletadas de depósitos holocênicos, diferentes daqueles explorados na fabricação das cerâmicas de fases anteriores (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].). A aplicação do método de ativação neutrônica a uma amostra de 84 fragmentos da cerâmica Bacabal permitiu diferenciar três grupos químicos no conjunto, de diferente cronologia (determinada pelo método da termoluminescência): 1) um grupo para os fragmentos mais antigos, datados a partir de 3.220 ± 238; 2) outro para os fragmentos intermediários; 3) e outro grupo para os mais recentes, de até 1.446 ± 69 (Carvalho et al., 2019Carvalho, P. R., Munita, C. S., Neves, E. G., & Zimpel, C. A. (2019). Chemical characterization of ancient pottery from the south-west Amazonia using Instrumental Neutron Activation Analysis. Brazilian Journal of Radiation Science 7(2A), 1–14. https://doi.org/10.15392/bjrs.v7i2A.619).

As diferenças reportadas pelas análises químicas das cerâmicas Bacabal, que poderiam ser associadas a distintas fontes de argila, não se manifestam na análise petrográfica. A petrografia indica uma consistência, ao longo de toda a fase Bacabal, no tipo de inclusões (cauixi e quartzo), na frequência, na granulometria e no arredondamento dos grãos de quartzo, assim como na composição da matriz argilosa. Os dados petrográficos permitiram identificar equilíbrio entre a proporção de matriz e cauixi na pasta, independente da cronologia da camada analisada. Isso significa que, apesar da mudança na química das argilas reportada por Carvalho et al. (2019)Carvalho, P. R., Munita, C. S., Neves, E. G., & Zimpel, C. A. (2019). Chemical characterization of ancient pottery from the south-west Amazonia using Instrumental Neutron Activation Analysis. Brazilian Journal of Radiation Science 7(2A), 1–14. https://doi.org/10.15392/bjrs.v7i2A.619, a ‘receita’ da pasta cerâmica sempre se manteve constante ao longo dos milênios, com proporção semelhante de matriz e cauixi, além do domínio do mesmo tipo de cauixi como antiplástico. A presença de raros fragmentos de concha e de ossos de peixe nas inclusões (< 1%) sugere a produção cerâmica dentro ou nas proximidades do sambaqui, já que esses elementos compõem o substrato do sítio.

A fraca correlação observada entre a frequência de cauixi e quartzo pode ser tomada como evidência da adição deliberada das espículas à pasta. Ou seja, se todo o cauixi existia no depósito argiloso, então, seria esperada uma forte correlação entre cauixi e quartzo (que também está associado às fontes de argila). Porém, a mesma falta de correlação pode ser explicada pela origem distinta do cauixi, depositado in situ pela degradação das esponjas e do quartzo, depositado junto com a argila por processos de transporte.

A presença de feixes de espículas em 50% das amostras de cerâmica Bacabal (em frequência média de 4%) pode ser indicador de adição como tempero. Gomes (2002)Gomes, D. M. C. (2002). Cerâmica arqueológica da Amazônia: Vasilhas da coleção Tapajônica MAE-USP. FAPESP. e Volkmer-Ribeiro e Gomes (2006)Volkmer-Ribeiro, C., & Gomes, D. M. C. (2006). Ferraz Egreja: Implicações zooarqueológicas no estudo do antiplástico cerâmico. In A. V. Vialou (Org.), Préhistória do Mato Grosso: Cidade de pedra (pp. 203-206). EDUSP. sugerem que a presença de feixes de espículas articuladas é diagnóstica de adição intencional, uma vez que a matéria orgânica que liga as espículas tenderia a se desfazer nos depósitos naturais. Feixes também aparecem na cerâmica etnográfica alto-xinguana, feita com cauixi adicionado (M. L. Alves, 2019Alves, M. L. (2019). Objetos distribuídos do Baixo Amazonas: Um estudo da cerâmica Konduri [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].). No estudo experimental realizado por Mendieta (2019)Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College]., a autora observou alta frequência de feixes de espículas em lâmina delgada, especialmente quando a mistura de argila e espículas foi feita com a argila ainda seca.

Outro critério elencado pelos experimentos de Mendieta (2019)Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College]. para adição intencional de cauixi é a mistura incompleta das espículas na pasta, com formação de áreas compostas apenas por argila. Essa associação resulta da adição de cauixi em argila seca, algo que a autora consegue identificar nas amostras do médio Orinoco. Porém, esses domínios de argila sem espículas não foram identificados nas cerâmicas Bacabal, aqui estudadas.

Assim, a abundância de cauixi na pasta das cerâmicas Bacabal, junto com a presença de alguns feixes, a proporção constante entre matriz argilosa e cauixi ao longo de todas as camadas e a presença de argilas naturalmente ricas em cauixi na região do Guaporé podem indicar combinação entre seleção de fontes de argilas naturalmente ricas em espículas e adição do cauixi como tempero. A combinação entre cauixi adicionado e uso de depósitos naturalmente ricos em cauixi já foi sugerida por Viana et al. (2011)Viana, S. A., Volkmer-Ribeiro, C., & Oliveira, S. D. (2011). Cauixi em cerâmica arqueológica: Uma questão de escolhas culturais. Revista de Arqueologia, 24(1), 32-51. https://doi.org/10.24885/sab.v24i1.313
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para cerâmicas da região Centro-Oeste (rio Manso e alto Araguaia). A constatação da existência de uma ‘receita’ de pasta Bacabal, que garantia a mesma proporção entre matriz e cauixi ao longo de milênios, poderia ter sido mantida mediante à adição intencional de cauixi em argilas que não tinham espículas em quantidade suficiente. No entanto, é ainda necessária uma prospecção minuciosa das fontes de argila da região, complementada com a datação dos depósitos, quantificação da frequência real de cauixi e identificação das espécies, para poder comparar com os fragmentos cerâmicos.

A FUNÇÃO DO CAUIXI NA PASTA CERÂMICA

A abundância de cauixi nas cerâmicas da fase Bacabal certamente impactou a trabalhabilidade da pasta, a contração durante a secagem e queima, assim como a sua performance (Schiffer & Skibo, 1997Schiffer, M. B., & Skibo, J. M. (1997). The explanation of artifact variability. American Antiquity, 62(1), 27-50.). Em um estudo pioneiro, Linné (1925Linné, S. (1925). The technique of South American ceramics. Göteborg., 1932)Linné, S. (1932). Contribuition à l’étude de la céramique sudaméricaine. Revista del Instituto de Etnologia, (7), 199-232. sugeriu que as cerâmicas com cauixi seriam como “miniaturas de nossas construções modernas” (Linné, 1932Linné, S. (1932). Contribuition à l’étude de la céramique sudaméricaine. Revista del Instituto de Etnologia, (7), 199-232., p. 212), em que as espículas funcionariam como colunas de ferro nas estruturas de concreto. Além disso, mostrou que o alisamento das superfícies, aplicando pressão sobre a pasta, produz a orientação preferencial das espículas na parede das cerâmicas. Esse fenômeno foi também descrito em outras cerâmicas com espículas (M. Costa et al., 2004Costa, M. L., Kern, D. C., Pinto, A. H. E., & Souza, J. R. T. (2004). The ceramic artifacts in archaeological black earth (terra preta) from lower Amazon region, Brazil: Mineralogy. Acta Amazonica, 34(2), 165-178. https://doi.org/10.1590/S0044-59672004000200004, 2009Costa, M. L., Carmo, M. S., Oliveira, E. C., Lima, H., Kern, D. C., & Goeske, J. (2009). A mineralogia e composição química de fragmentos de cerâmicas arqueológicas em sítios de terra preta de índio. In W. G. Teixeira, D. C. Kern, B. E. Madari, H. N. Lima & W. Woods (Eds.), As terras pretas de índio da Amazônia: Sua caracterização e uso deste conhecimento na criação de novas áreas (pp. 225-241). Embrapa Amazônia Ocidental.; Felicissimo et al., 2010Felicissimo, M. P., Peixoto, J. L., Bittencourt, C., Tomasi, R., Houssiau, L., Pireaux, J. J., & Rodrigues-Filho, U. (2010). SEM, EPR and ToF-SIMS analyses applied to unravel the technology employed for pottery-making by pre-colonial Indian tribes from Pantanal, Brazil. Journal of Archaeological Science, 37(9), 2179-2187.; Rodrigues et al., 2017Rodrigues, I. M. M., Volkmer-Ribeiro, C., & Machado, V. S. (2017). Cauixi em cerâmica arqueológica da região de Lagoa Santa, Minas Gerais: Inclusão de esponjas processadas ou exploração de depósitos sedimentares com espículas?. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 12(1), 85-100. https://doi.org/10.1590/1981.81222017000100005
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), como resultado da técnica do roletado.

Em 82% das cerâmicas analisadas neste artigo, foram descritas espículas de cauixi orientadas paralelamente às faces externas e internas das vasilhas, com espículas de distribuição aleatória, principalmente no núcleo dos fragmentos. Em alguns fragmentos, também se observaram bandamentos de espículas nos núcleos, com distribuição paralela e perpendicular às paredes (Figura 6). Esta distribuição resulta da construção das vasilhas com roletes e do alisamento da superfície. A distribuição aleatória pode se relacionar aos procedimentos de junção dos roletes, com pressão e espalhamento local da massa (Felicissimo et al., 2010Felicissimo, M. P., Peixoto, J. L., Bittencourt, C., Tomasi, R., Houssiau, L., Pireaux, J. J., & Rodrigues-Filho, U. (2010). SEM, EPR and ToF-SIMS analyses applied to unravel the technology employed for pottery-making by pre-colonial Indian tribes from Pantanal, Brazil. Journal of Archaeological Science, 37(9), 2179-2187.).

Natalio et al. (2015)Natalio, F., Corrales, T. P., Wanka, S., Zaslanski, P., Kappl, M., Lima, H. P., . . . Tremel, W. (2015). Siliceous spicules enhance fracture-resistance and stiffness of pre-colonial Amazonian ceramics. Scientific Reports, 5(13303)., a partir de amostras experimentais e arqueológicas, demonstraram que as espículas aumentam a resistência mecânica da cerâmica e evitam a contração da argila e a propagação de fissuras durante a secagem e a queima. Segundo Natalio et al. (2015)Natalio, F., Corrales, T. P., Wanka, S., Zaslanski, P., Kappl, M., Lima, H. P., . . . Tremel, W. (2015). Siliceous spicules enhance fracture-resistance and stiffness of pre-colonial Amazonian ceramics. Scientific Reports, 5(13303)., as espículas, pela sua composição (sílica opalina) e sua morfologia, atuam como finas fibras de vidro dentro da pasta cerâmica, sendo que suas propriedades mecânicas são aumentadas na queima a mais de 500 °C.

Em levantamento bibliográfico realizado por Rodrigues et al. (2017)Rodrigues, I. M. M., Volkmer-Ribeiro, C., & Machado, V. S. (2017). Cauixi em cerâmica arqueológica da região de Lagoa Santa, Minas Gerais: Inclusão de esponjas processadas ou exploração de depósitos sedimentares com espículas?. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 12(1), 85-100. https://doi.org/10.1590/1981.81222017000100005
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, os autores recolheram diversas informações etnográficas sobre o conhecimento das ceramistas sobre o papel do cauixi no processo de elaboração das vasilhas e a sua performance. Por exemplo, Barcelos Neto (2005-2006)Barcelos Neto, A. (2005-2006). A cerâmica wauja: Etnoclassificação, matérias-primas e processos técnicos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (15-16), 357-370. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2006.89727 menciona que as ceramistas Wauja conhecem as consequências possíveis de se adicionar muito ou pouco cauixi na produção das vasilhas (i.e. rachaduras ou vasilhas sem a resistência necessária, respectivamente). P. Hilbert (1955)Hilbert, P. P. (1955). A cerâmica arqueológica da região de Oriximiná (Publicação, No. 9). Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará. menciona que os grupos da região dos rios Trombetas e Nhamundá (a norte de Santarém, no Pará), apesar de não usarem cauixi como tempero, sabem que com ele a queima da cerâmica seria de melhor qualidade.

Em Monte Castelo, a técnica de produção de potes Bacabal sempre incluiu o uso de cauixi como antiplástico, desde as camadas mais antigas, datadas de c. 4.300 AP, até as mais recentes, de c. 730 AP. Isso demonstra a transmissão, ao longo de gerações, do conhecimento adquirido há mais de 4.000 anos sobre os efeitos positivos do cauixi na performance das cerâmicas.

O CAUIXI EM CERÂMICAS DA AMAZÔNIA: A PERSISTÊNCIA DE UM SABER MILENAR

A presença do cauixi como antiplástico foi documentada em complexos cerâmicos de toda a Amazônia pré-colonial e na região do Orinoco, com cronologias que envolvem os últimos 2.000 anos (Gomes, 2002Gomes, D. M. C. (2002). Cerâmica arqueológica da Amazônia: Vasilhas da coleção Tapajônica MAE-USP. FAPESP.; M. Costa et al., 2004Costa, M. L., Kern, D. C., Pinto, A. H. E., & Souza, J. R. T. (2004). The ceramic artifacts in archaeological black earth (terra preta) from lower Amazon region, Brazil: Mineralogy. Acta Amazonica, 34(2), 165-178. https://doi.org/10.1590/S0044-59672004000200004, 2009; H. Lima & Neves, 2011Lima, H. P., & Neves, E. G. (2011). Cerâmicas da Tradição Borda Incisa/Barrancóide na Amazônia Central. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (21), 205-230. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2011.89974; Mendieta, 2019Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College].). Nas cerâmicas mais antigas da Amazônia, recuperadas em sambaquis do Holoceno médio, como Taperinha, e em sambaquis da tradição Mina, o antiplástico é composto de conchas trituradas ou areia (Bandeira, 2008Bandeira, A. (2008). Ocupações humanas pré-históricas no litoral maranhense: Um estudo arqueológico sobre o sambaqui do Bacanga na ilha de São Luís - Maranhão [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].; Oliveira & Silveira, 2016Oliveira, E. R., & Silveira, M. I. (2016). A cerâmica Mina no estado do Pará: Oleiras das águas salobras da Amazônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 125-146). IPHAN.). O único dos sambaquis amazônicos com cerâmicas com cauixi, além do Monte Castelo, é o sambaqui Ponta do Jauari (Alenquer, Pará), cuja cerâmica foi classificada dentro da tradição Hachurado-Zonado, mas ainda sem datações (P. Hilbert, 1959Hilbert, P. P. (1959). Achados arqueológicos num sambaqui do baixo Amazonas (Publicação, No. 10). Publicação do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará.).

Entre as cerâmicas mais antigas da Amazônia com cauixi, além da própria Bacabal, destaca-se a cerâmica da tradição Pocó-Açutuba, a primeira a ter uma ampla dispersão geográfica, possivelmente relacionada às cerâmicas Saladoide e Barrancoide do Orinoco (Neves et al., 2014Neves, E. G., Guapindaia, V., Lima, H. P., Costa, B., & Gomes, J. (2014). Tradição Pocó-Açutuba e os primeiros sinais visíveis de modificações de paisagens na Calha do Amazonas. In S. Rostain (Ed.), Amazonía: Memorias de las Conferencias Magistrales del 3er Encuentro Internacional de Arqueología Amazónica (pp. 137-158). IKIAM.). A presença de cauixi na tradição Pocó-Açutuba é restrita à região do médio/baixo curso do rio Amazonas. No alto curso do rio Madeira, região vizinha do vale do rio Guaporé, a cerâmica da tradição Pocó-Açutuba, um pouco mais antiga ou contemporânea à da calha do rio Amazonas, praticamente não apresenta cauixi (A. Costa, 2016Costa, A. F. (2016). A multifuncionalidade da cerâmica no sítio Ilha Dionísio, alto rio Madeira [Dissertação de mestrado, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro].; Kater, 2020Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078; Zuse et al., 2020Zuse, S., Costa, A. F., Pessoa, C., & Kipnis, R. (2020). Tecnologias cerâmicas no alto rio Madeira: Síntese, cronologia e perspectivas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-26. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0082
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).

Em contraste com a quase ubiquidade do cauixi nas cerâmicas pré-coloniais mais recentes da Amazônia, são poucas as populações indígenas atuais, ou do século passado, que processam e adicionam esponjas como tempero. Na bacia amazônica, até onde se sabe, não há nenhuma população atual que utilize argilas naturalmente ricas em espículas, como ocorre nas olarias de tijolos no Triângulo Mineiro e no sudoeste do estado de Goiás (Moraes, 1944Moraes, L. J. (1944). Espongilitos no triângulo mineiro e no estado de São Paulo. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (Geologia), (1), 14-21. https://doi.org/10.11606/issn.2526-3862.bffcluspgeologia.1944.121760; Ramos et al., 2015Ramos, I. M., Nunes, L. R., & Sousa, T. A. (2015). Caracterização do Espongilito e Impactos Ambientais em Olarias do Município de Gouvelândia – GO. Anais do VII Congresso Nacional de Geomorfologia, Universidade de Brasília. http://lsie.unb.br/ugb/sinageo/7/0231.pdf
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). Esse cenário resulta de um processo histórico ainda pouco compreendido de abandono de tal prática (M. L. Alves, 2019Alves, M. L. (2019). Objetos distribuídos do Baixo Amazonas: Um estudo da cerâmica Konduri [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].).

O caso etnográfico melhor documentado do uso de cauixi como tempero é o dos Wauja, no alto Xingu, que usam cinzas de esponjas queimadas para preparar a pasta cerâmica (P. Lima, 1950Lima, P. E. (1950). Os índios Waurá: Observações gerais. Boletim do Museu Nacional. Nova Série - Antropologia, (9), 1-25.; Barcelos Neto, 2005-2006)Barcelos Neto, A. (2005-2006). A cerâmica wauja: Etnoclassificação, matérias-primas e processos técnicos. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (15-16), 357-370. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2006.89727. Os Karajá, na região do rio Araguaia, utilizavam cauixi na cerâmica (Krause, 1911Krause, F (1911). In den Wildnissen Brasiliens: Bericht und Ergebnisse der Leipziger Araguaya_Expedition. R. Voigtländer’s Verlag. citado em Linné, 1932Linné, S. (1932). Contribuition à l’étude de la céramique sudaméricaine. Revista del Instituto de Etnologia, (7), 199-232.; O. Machado, 1947Machado, O. X. B. (1947). Os Carajás (Inan-son-uéra) (Confederação Nacional de Proteção aos Índios, No. 104). Imprensa Nacional.), mas substituíram seu uso pelo caraipé (Wüst, 1981-1982)Wüst, I. (1981-1982). Observações sobre a tecnologia cerâmica Karajá em Aruanã. Arquivos do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais, 6-7, 311-322.. A região alagadiça entre os Llanos de Moxos e o vale do rio Guaporé, onde se situa o sambaqui Monte Castelo, concentra o maior número de populações indígenas que usam cauixi. No começo do século XX, os Canichana, da região do Beni (Bolívia), e os Moré e Huaynam, do médio Guaporé, utilizavam cauixi na sua cerâmica (Linné, 1925Linné, S. (1925). The technique of South American ceramics. Göteborg.; Métraux, 1948Métraux, A. (1948). Tribes of eastern Bolivia and the Madeira headwater. In J. H. Steward (Ed.), Handbook of South American Indians (Vol. 3, pp. 381-454). Smithsonian Institution, Bureau of American Ethnology.). Mais recentemente, o uso de cauixi foi relatado tanto por uma oleira Wajuru, em Alta Floresta d’Oeste, quanto por uma quilombola em Costa Marques, no vale do rio Guaporé (Cruz, 2012Cruz, T. A. (2012). Um estudo comparado das relações ambientais de mulheres da floresta do vale do Guaporé (Brasil) e do Mayombe (Angola) 1980 – 2010 [Tese de doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina].). Considerando as informações etnográficas disponíveis, é possível que haja persistência da mesma prática para além da fase Bacabal, no vale do rio Guaporé.

Pela grande profundidade temporal do uso de cauixi em cerâmicas pré-coloniais da Amazônia, Zimpel Neto e Pugliese Junior (2016)Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN., Pugliese Junior et al. (2017)Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores., Zimpel Neto (2018)Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. e Pugliese Junior (2018)Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo]. chegam, inclusive, a associar o uso sistemático de cauixi como antiplástico com o desenvolvimento da tecnologia cerâmica no sudoeste da Amazônia. Assim, as cerâmicas da fase Bacabal representam não somente um dos mais antigos usos do cauixi em cerâmicas da Amazônia, mas também expressam a permanência e a continuidade dessa tecnologia cerâmica no sudoeste amazônico por mais de 3.000 anos.

CONCLUSÕES

Este artigo exemplifica o potencial da petrografia para a completa caracterização das cerâmicas pré-coloniais da Amazônia. O registro microscópico dos componentes da pasta cerâmica, sua abundância, a distribuição e a relação abrem novas possibilidades para investigar a produção de cerâmicas arqueológicas, com informações inéditas que dificilmente são atingíveis por outros métodos de análise.

Os resultados da petrografia cerâmica permitiram identificar a abundância e a permanência do mesmo tipo de cauixi nas cerâmicas da fase Bacabal do sambaqui Monte Castelo, desde a base daquela ocupação (camada D) até os pacotes superiores do sítio (camada A). Além disso, este estudo identificou uma constância na proporção entre argila e cauixi nas cerâmicas, independente da camada e de variações individuais na abundância de cada componente. A proporção de quartzo é sempre minoritária nas cerâmicas (às vezes, nula) e a baixa porosidade do conjunto indica uma boa homogeneização da pasta. Isso sugere a manutenção de uma ‘receita’ de cerâmica Bacabal que teria durado mais de 3.000 anos. Esta análise também permitiu identificar a orientação diferencial do cauixi dentro dos fragmentos, com evidências de alisamento da superfície das vasilhas e de uso da técnica de roletado.

No que se refere à discussão entre cauixi adicionado e à seleção de argilas naturalmente ricas em espículas, este trabalho indica que, na fase Bacabal, pode haver combinação dos dois. Prospecções realizadas em fontes de argila próximas ao sítio identificaram a presença natural de cauixi, que poderiam ter sido selecionadas para elaboração da pasta cerâmica (Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].). A observação microscópica das espículas achadas nos depósitos de argila da região revela que se trata do mesmo tipo de espícula observado nas cerâmicas Bacabal, embora exista em menor abundância do que na cerâmica. Ao mesmo tempo, em 50% das cerâmicas analisadas foram descritos alguns feixes de cauixi que, conforme dados de Gomes (2002)Gomes, D. M. C. (2002). Cerâmica arqueológica da Amazônia: Vasilhas da coleção Tapajônica MAE-USP. FAPESP., Volkmer-Ribeiro e Gomes (2006)Volkmer-Ribeiro, C., & Gomes, D. M. C. (2006). Ferraz Egreja: Implicações zooarqueológicas no estudo do antiplástico cerâmico. In A. V. Vialou (Org.), Préhistória do Mato Grosso: Cidade de pedra (pp. 203-206). EDUSP., M. L. Alves (2019)Alves, M. L. (2019). Objetos distribuídos do Baixo Amazonas: Um estudo da cerâmica Konduri [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo]. e Mendieta (2019)Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College]., seriam evidência da adição intencional. Assim, os dados disponíveis para a fase Bacabal indicam, conjuntamente, a possibilidade de exploração dos depósitos de argila naturalmente ricos em espículas que existem na região, assim como a adição intencional de cauixi, provavelmente para manter a mesma proporção entre cauixi e argila que garanta a boa performance das vasilhas.

Entretanto, para corroborar essa hipótese, será necessário fazer um mapeamento dos depósitos de argila associados aos lagos e às áreas pantanosas da bacia do médio rio Guaporé, além de datar e quantificar a frequência e os tipos de espículas naturalmente disponíveis. Estudos de arqueologia experimental, ampliando as variáveis consideradas por Mendieta (2019)Mendieta, N. (2019). Ancient pots and potters of the Atures Rapids region: Occupation and interaction processes in Pre-Colonial Middle Orinoco, Venezuela [Tese de doutorado, University College]., bem como pesquisas etnoarqueológicas com ceramistas que utilizam cauixi, também poderão contribuir para a compreensão das diferenças entre materiais adicionados intencionalmente ou sobre os aspectos funcionais da presença de espículas na pasta cerâmica.

Para obter maiores informações sobre a tecnologia de produção das vasilhas e para corroborar ou refutar as inferências realizadas nesta análise, será necessário também analisar seções delgadas das bordas, e não somente das paredes dos potes, assim como trabalhar com uma amostragem maior, que cubra todas as variações tipológicas e cronológicas da fase. A diferença substancial observada entre os fragmentos de potes e o único fragmento de trempe estudado, com inclusões (cauixi e quartzo) diferentes do que aparece nas vasilhas, permitiu interpretar que os locais de coleta de argilas para vasilhas e trempes eram distintos.

A presença conspícua de cauixi nas cerâmicas Bacabal, de c. 4300 anos AP, sugere a possibilidade do desenvolvimento local da tecnologia cerâmica com uso de cauixi, conforme sugerido em Zimpel Neto e Pugliese Junior (2016)Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN., Pugliese Junior et al. (2017)Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores., Zimpel Neto (2018)Zimpel Neto, C. A. (2018). A fase Bacabal e seus correlatos arqueológicos na Amazônia [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. e Pugliese Junior (2018)Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].. Este uso tornar-se-ia comum em vários contextos tardios, mas teria seu início no sudoeste amazônico, a mesma região onde a manipulação das esponjas persiste até o presente.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), através dos processos 2015/19405-6 (X. Villagran), 2017/11817-9 e 2019/07794-9 (E. G. Neves), 2017/16451-2 (A. Strauss) e 2019/26285 (F. Pugliese). Agradecemos também o apoio do Conselho Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processos 301839/2015-0 (X. Villagran), 301816/2017-4 (E. G. Neves), 152582/2018-5 (F. Pugliese) e 304207/2019-5 (A. Strauss). Agradecemos os comentários de dois revisores anônimos, que contribuíram para melhorar a qualidade deste trabalho.

  • Villagran, X. S., Alves, M. L., Kater, T., Silva, K. B. V., Batalla, N., Costa, M., . . . Pugliese, F. (2022). Petrografia de cerâmicas da fase Bacabal (sambaqui Monte Castelo): um dos mais antigos usos de cauixi na Amazônia. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 17(1), e20200120. doi: 10.1590/2178-2547-BGOELDI-2020-0120
  • 1
    As pesquisas arqueológicas no sudeste amazônico foram inauguradas por Eurico Miller, no âmbito do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (PRONAPABA), na década de 1970 (Miller, 1978Miller, E. T. (1978). Relatório das pesquisas arqueológicas no território federal de Rondônia (Alto Rio Madeira, do Yata ao Cuniã). [Resultados preliminares, PRONAPABA - Programa Nacional Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica]., 1980Miller, E. T. (1980). Pesquisas arqueológicas no território federal de Rondônia. [Relatório preliminar]., 1983Miller, E. T. (1983). História da cultura indígena do Alto-Médio Guaporé (Rondônia e Mato Grosso) [Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica, do Rio Grande do Sul]., 1992Miller, E. T. (1992). Adaptação agrícola pré-histórica no Alto Rio Madeira. In B. J. Meggers (Ed.), Prehistoria sudamericana: Nuevas perspectivas (pp. 219-229). Taraxacum., 2009Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins., 2013Miller, E. T. (2013). Algumas culturas ceramistas, do noroeste do Pantanal do Guaporé à Encosta e Altiplano Sudoeste do Chapadão dos Parecis: Origem, difusão/migração e adaptação – do noroeste da América do Sul ao Brasil. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, 5(2), 335-386.). Ao percorrer boa parte do que era ainda o Território Federal de Rondônia, os trabalhos de Miller indicaram que a região foi um centro de inovações ligado às dinâmicas sociais do restante da Amazônia (Almeida & Mongeló, 2020Almeida, F. O., & Mongeló, G. (2020). Introdução: Arqueologia dos ‘pioneiros’ e da diversidade do alto rio Madeira. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências humanas, 15(2), 1-16. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0080). Em 2010, foram retomadas as pesquisas em diversos sítios registrados por Miller no trecho encachoeirado do rio Madeira (Almeida, 2013Almeida, F. O. (2013). A Tradição Polícroma no alto rio Madeira [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo].; Tizuka, 2013Tizuka, M. M. (2013). Geoarqueologia e paleoidrologia da planicie aluvial holocênica do alto Rio Madeira entre Porto Velho e Abunã-RO [Dissertação de mestrado, Universidade Estadual Paulista].; A. Costa, 2016Costa, A. F. (2016). A multifuncionalidade da cerâmica no sítio Ilha Dionísio, alto rio Madeira [Dissertação de mestrado, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro].; Vassoler, 2016Vassoler, O. J. P. (2016). Do lago de leite ao rio dos cedros: Análise da iconografia cerâmica em vasilhas da Tradição Polícroma Amazônica no alto rio Madeira [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Rondônia].; Caldarelli & Kipnis, 2017Caldarelli, S. B., & Kipnis, R. (2017). A ocupação pré-colonial da Bacia do Rio Madeira: Novos dados e problemáticas associadas. Especiaria. Cadernos de Ciências Humanas, 17(30), 229-289.; Watling et al., 2018Watling, J., Shock, M., Mongeló, G., Almeida, F. O., Kater, T., Oliveira, P. E., & Neves, E. G. (2018). Direct archaeological evidence for Southwestern Amazonia as an early plant domestication and food production centre. PLoS ONE, 13(7). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0199868
    https://doi.org/10.1371/journal.pone.019...
    ; Kater, 2020Kater, T. (2020). A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0078; Mongeló, 2020Mongeló, G. (2020). Ocupações humanas do Holoceno inicial e médio no sudoeste amazônico. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0079; Neves et al., 2020Neves, E. G., Watling, J., & Almeida, F. O. (2020). A arqueologia do alto Madeira no contexto arqueológico da Amazônia. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-20. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0081; Pessoa et al., 2020Pessoa, C., Zuse, S., Costa, A. F., Kipnis, R., & Neves, E. G. (2020). Aldeia circular e os correlatos da ocupação indígena na margem esquerda da Cachoeira de Santo Antônio. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-24. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0083; Zuse et al., 2020Zuse, S., Costa, A. F., Pessoa, C., & Kipnis, R. (2020). Tecnologias cerâmicas no alto rio Madeira: Síntese, cronologia e perspectivas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 15(2), 1-26. https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0082
    https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELD...
    ) e na bacia do médio rio Guaporé, um dos seus formadores (Betancourt, 2010Betancourt, C. J. (2010). La cerámica de la Loma Salvatierra [Tese de doutorado, Universidade de Bonn].; Zimpel Neto & Pugliese Junior, 2016Zimpel Neto, C. A., & Pugliese Junior, F. A. (2016). A fase Bacabal e suas implicações para a interpretação do registro arqueológico no médio rio Guaporé, Rondônia. In C. Barreto, H. P. Lima & C. J. Betancourt (Orgs.), Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: Rumo a uma nova síntese (pp. 420-434). IPHAN.; Pugliese Junior, 2018Pugliese Junior, F. A. (2018). A história indígena profunda do Sambaqui Monte Castelo [Tese de doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo].; Pugliese Junior et al., 2017Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores.).
  • 2
    Este artigo resulta do esforço coletivo de análise e discussão de cerâmicas arqueológicas promovido durante o curso de pós-graduação “Petrografia de materiais geológicos e arqueológicos”, ministrado na Universidade de São Paulo (USP), em 2018. Como atividade de avaliação do curso, os/as alunos/as analisaram fragmentos cerâmicos da fase Bacabal selecionados por C. A. Zimpel, provenientes do sambaqui Monte Castelo (Rondônia), sítio que vem sendo escavado desde 2014 pela equipe do Prof. Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.
  • 3
    As datas publicadas por Miller (2009)Miller, E. T. (2009). Pesquisas arqueológicas no Pantanal do Guaporé-RO, Brasil. In B. J. Meggers (Org.), Arqueologia interpretativa: O método quantitativo para estabelecimento de sequências cerâmicas - estudos de caso (pp. 103-117). Unitins. e Pugliese Junior et al. (2017)Pugliese Junior, F. A., Zimpel, C. A., & Neves, E. G. (2017). Los concheros de la Amazonía y la historia indígena profunda de América del Sur. In S. Rostain & C. J. Betancourt (Orgs.), Las siete maravillas de la Amazonia precolombina (pp. 27-46). Plural Editores. consideradas como marcos para o início e o final de cada período de ocupação de Monte Castelo são: fase Cupim = 6.397 ± 202 (SI-6853) e 5.837 ± 91 (CEZ-32117); fase Sinimbu = 5.867 ± 119 (CEZ-32116) e 5.182 ± 137 (B-408414); fase Bacabal = 4.012 ± 130 (B-408413) e 680 ± 1.160 (B-103185). Idades 14C calibradas segundo a SHCAL20 (Hogg et al., 2020Hogg, A., Heaton, T., Hua, Q., Palmer, J., Turney, C. S. M., Southon, J., . . . Wacker, L. (2020). SHCal20 southern hemisphere calibration, 0–55,000 years cal BP. Radiocarbon, 62(4), 759-778.).
  • 4
  • 5
    As espículas de espongiários em depósitos sedimentares (espongilitos) são, inclusive, utilizadas na investigação sobre mudanças climáticas no passado (Kalinovski et al., 2016Kalinovski, E. C. Z., Parolin, M., & Souza Filho, E. E. (2016). Esponjas de água doce na América do Sul: O estado da arte da produção científica no Brasil. Terrae Didatica, 12(1), 4–18. https://doi.org/10.20396/td.v12i1.8645963).

REFERÊNCIAS

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Editado por

Responsabilidade editorial: Fernando Ozório de Almeida

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    27 Out 2020
  • Aceito
    28 Jul 2021
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