Open-access Carcinoma lobular de mama após a COVID-19: o que mudou na prevalência e no perfil molecular?

RESUMO

Introdução:  Carcinoma lobular invasivo (CLI) é um tipo de câncer que se origina nas glândulas mamárias. Se distingue por apresentar múltiplos padrões histológicos e moleculares, sendo os principais subtipos o luminal (A e B) e o triplo negativo. A pandemia de COVID-19 impactou significativamente os serviços de saúde, com a suspensão de operações eletivas e a priorização do atendimento de casos graves.

Objetivo:  Avaliar as possíveis alterações na prevalência e características do CLI no período pós-pandêmico, com ênfase na distribuição por faixa etária, padrões histológicos e subtipos moleculares.

Método:  A prevalência do carcinoma foi identificada por core biopsy e/ou ressecção segmentar da mama, dentro dos padrões histológicos dos carcinomas lobulares, e a comparação dos achados histológicos baseou-se no perfil imuno-histoquímico dos tumores (classificação molecular).

Resultados:  A maior prevalência foi entre a quinta e sétima décadas, com pico na quinta (41-50 anos), semelhante aos dados pré-pandêmicos. O padrão histológico clássico do CLI foi o mais comum em todas as faixas etárias. Entre os CLIs clássicos, o subtipo molecular luminal A foi o mais prevalente. Não houve diferença estatisticamente significativa entre a prevalência de CLI luminal B e triplo negativo. Tumores triplo negativos exibiram predominantemente o padrão histiocitoide puro.

Conclusão:  Houve maior prevalência de CLI em mulheres na quinta década com predominância do padrão clássico e do subtipo luminal A no período pós-pandêmico.

PALAVRAS-CHAVE:
Carcinoma lobular de mama; Neoplasias da mama; COVID-19; Caracterização molecular; Biomarcadores tumorais

RESUMO VISUAL

ABSTRACT

Introduction:  Invasive lobular carcinoma (CLI) is a type of cancer that originates in the mammary glands. It is distinguished by presenting multiple histological and molecular patterns, with the main subtypes being luminal (A and B) and triple negative. The COVID-19 pandemic has significantly impacted health services, with the suspension of elective operations and the prioritization of care for severe cases.

Objective:  To evaluate the possible changes in the prevalence and characteristics of CLI in the post-pandemic period, with emphasis on the distribution by age group, histological patterns, and molecular subtypes.

Method:  The prevalence of carcinoma was identified by core biopsy and/or segmental resection of the breast, within the histological standards of lobular carcinomas, and the comparison of histological findings was based on the immunohistochemical profile of the tumors (molecular classification).

Results:  The highest prevalence was between the fifth and seventh decades, peaking in the fifth (41-50 years) similar to pre-pandemic data. The classic histological pattern of the CLI was the most common in all age groups. Among the classical CLIs, luminal molecular subtype A was the most prevalent. There was no statistically significant difference between the prevalence of luminal CLI B and triple negative. Triple-negative tumors predominantly exhibited the pure histiocytoid pattern.

Conclusion:  There was a higher prevalence of CLI in women in the fifth decade, with a predominance of the classic pattern and the luminal subtype A in the post-pandemic period.

KEYWORDS:
Lobular breast carcinoma; Breast neoplasms; COVID-19; Molecular characterization; Tumor biomarkers

VISUAL ABSTRACT

INTRODUÇÃO

O carcinoma lobular invasivo (CLI) configura-se como neoplasia mamária especial, ocupando o segundo lugar em prevalência entre todos os cânceres de mama, especialmente na faixa etária pós-menopausa.1 Origina-se nos lóbulos e ductos terminais da glândula mamária (unidade terminal ducto lobular), apresentando características biológicas e moleculares singulares, que são frutos de resultados da inativação do gene CDH1 e consequente ausência da proteína E-caderina, proporcionando a esta neoplasia um padrão multicêntrico/multifocal, quiçá bilateral, além de crescimento infiltrativo e difuso, contrastando com o padrão mais coeso das neoplasias mamárias de alta prevalência.2

O seu diagnóstico é baseado no padrão de crescimento característico e no fenótipo das células neoplásicas com os respectivos subtipos: clássico, alveolar, sólido, túbulo-lobular, pleomórfico e tipo lobular misto.3,4 Apesar das particularidades histológicas, o tratamento do CLI é baseado principalmente no estadiamento clínico e TNM, que depende do tamanho do tumor primário, da presença de metástases de linfonodos regionais e seu número, bem como da presença de metástases de órgãos distantes.3

É relevante ressaltar que existem diferenças no prognóstico entre dois tumores do mesmo estágio clínico e das mesmas características histopatológicas. É por isso que a prioridade é dada à terapia individualizada, que depende das características moleculares do câncer de mama, individualizados por genotipagem, enfatizando que diferentes subtipos moleculares têm prognósticos variados. Os fatores prognósticos padrão dependem da idade, estágio da doença, grau do tumor, tipo histológico, estado das margens de ressecção e presença de invasão linfovascular.5 Marcadores preditivos de resposta terapêutica, são os receptores ER e HER2, razão pela qual determinar o estado dos receptores hormonais ER, PR e HER2 é considerado fator imprescindível para tomar decisões adicionais sobre a terapia desse câncer.6,7

É importante reconhecer que a pandemia de COVID-19 impactou significativamente os serviços de saúde em todo o mundo, com a suspensão de operações eletivas e a priorização do atendimento de casos graves. Nesse contexto, é plausível aventar a hipótese de que a epidemiologia do CLI possa ter sofrido alterações, com possível aumento na incidência de casos diagnosticados em estágios mais avançados devido à interrupção do rastreamento e tratamento oportuno.8

Dentro desta semântica, o presente estudo teve como objetivo analisar a prevalência e as características clínico-patológicas de casos de CLI, com ênfase na distribuição por faixa etária, padrões histológicos e subtipos moleculares, diagnosticados em hospital de alta complexidade do sul do Brasil, entre os anos de 2020 e 2024, o que marca o período trans e pós- pandemia COVID-19.

MÉTODO

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, Curitiba, PR, Brasil - CAAE no. 81810124.4.0000.0103. Foi conduzida em conformidade com os princípios éticos aplicáveis. Foi garantido o anonimato dos pacientes e a confidencialidade dos dados coletados. Foi observacional, analítico e retrospectivo e realizado no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, Curitiba, PR, Brasil. A prevalência do carcinoma foi identificada por core biopsy e/ou ressecção segmentar da mama, dentro dos padrões histológicos dos carcinomas lobulares e a comparação dos achados histológicos baseou-se no perfil imuno-histoquímico dos tumores (classificação molecular).

Foram incluídos todos os casos de CLI diagnosticados no hospital no período de 1o de janeiro de 2020 a 31 de dezembro de 2024.

Os dados foram coletados dos prontuários, incluindo informações demográficas (idade, sexo), dados do diagnóstico laudo histopatológico e imuno-histoquímica.

As lâminas histopatológicas foram revisadas por um patologista especialista em mama para confirmar o diagnóstico e classificar os tumores de acordo com os padrões histológicos (clássico, alveolar, sólido, trabecular, pleomórfico, histiocitoide e com células em anel de sinete).

Imuno-histoquímica

Foram realizados estudos imuno-histoquímicos para determinar o perfil de expressão dos seguintes marcadores: receptores hormonais (estrogênio e progesterona), HER2/NEU, Ki67 e E-caderina. Os resultados foram utilizados para classificar os tumores em subtipos moleculares (Luminal A, Luminal B, HER2-enriquecido e Triplo Negativo) e para analisar a expressão de E-caderina nos diferentes padrões histológicos de CLI.

Análise estatística

Foram utilizados métodos estatísticos descritivos (frequências absolutas e relativas, médias, medianas, desvios-padrão) para apresentar os resultados. Para comparar as características histológicas e imuno-histoquímicas dos tumores, foram utilizados testes estatísticos apropriados, como qui-quadrado ou de Fisher para variáveis categóricas, e teste t de Student ou de Mann-Whitney para variáveis contínuas. O nível de significância estatística adotado foi de 5% (p < 0,05).

RESULTADOS

Epidemiologia dos dados

Foram 53 casos de CLI diagnosticados entre 1o de janeiro de 2020 a 31 de dezembro de 2024. Desses carcinomas lobulares, todos os casos encontrados (100%) acometiam o gênero feminino com média de idade de 57,7 anos.

A incidência foi entre a quarta (entre 31-40 anos) e décima década de vida (entre 90-100 anos). Quantificação entre as faixas etárias foram heterogêneas e são demonstradas na Tabela 1.

TABELA 1
Incidência de carcinomas lobulares diagnosticados entre 2020 e 2024

Na 4a década (entre 31-40 anos), foram diagnosticados apenas dois casos. Dentre os padrões histológicos encontrados um foi de carcinoma lobular clássico e outro de carcinoma lobular pleomórfico e histiocitoide. A Tabela 2 revela as características dos tumores encontrados nessa faixa etária, bem como sua classificação molecular.

TABELA 2
Padrão histológico, número de casos e classificação molecular de tumores lobulares diagnosticados na 4a década de vida entre 2020 e 2024.

Na 5a, 6a e 7a décadas de vida, os padrões foram heterogêneos, tanto quanto a classificação histológica e à classificação molecular. As Tabelas 3, 4 e 5 revelam os padrões para estas faixas etárias.

Interessante que houve alguns tumores, em especial de padrão clássico, que foram classificados como Luminal B; contudo, todos os tumores desta classificação molecular revelaram mesmo perfil imuno-histoquímico, i.e. estrogênico e progesterona positivos, sem hiperexpressão de HER2/NEU.

TABELA 3
Demonstração do padrão histológico, número de casos e classificação molecular de tumores lobulares diagnosticados na 5a década de vida entre 2020 e 2024
TABELA 4
Demonstração do padrão histológico, número de casos e classificação molecular de tumores lobulares diagnosticados na 6a década de vida entre 2020 e 2024
TABELA 5
Demonstração do padrão histológico, número de casos e classificação molecular de tumores lobulares diagnosticados na 7a década de vida entre 2020 e 2024.
TABELA 6
Demonstra o padrão histológico, número de casos e classificação molecular de tumores lobulares diagnosticados na 8a década de vida entre 2020 e 2024

Nenhum caso foi encontrado na 9a década de vida. Na 10a houve apenas um caso diagnosticado como carcinoma lobular em anel de sinete, com classificação molecular de Luminal B.

DISCUSSÃO

No presente estudo avaliou-se a prevalência dos carcinomas lobulares e seus respectivos padrões moleculares de acordo com faixa etária, nos casos diagnosticados no período de estudo.

Os resultados encontrados corroboram a literatura científica em períodos pré-pandemia, demonstrando que o carcinoma lobular da variante clássica ainda é o tipo histológico mais frequente entre os carcinomas lobulares da mama, correspondendo a 58,4% dos casos.9 Esse achado está de acordo com diversos estudos que apontam a variante clássica como a mais prevalente, representando até cerca de 80% dos carcinomas lobulares em algumas faixas geográficas do globo terrestre, em especial os Estados Unidos da América.10

A análise da distribuição etária dos pacientes revelou maior prevalência de carcinomas lobulares na quinta década de vida (41- 50 anos), com 32,07% dos casos diagnosticados nessa faixa. Este período corresponde ao momento de transição menopausal, no qual ocorrem diversas alterações hormonais que podem influenciar o desenvolvimento do câncer de mama.

Embora a quinta década de vida tenha se destacado como a mais prevalente observou-se também incidência significativa de carcinomas lobulares na sexta (51-60 anos) e sétima (61-70 anos) décadas de vida, com porcentagens idênticas de 24,53%. Apesar dessas diferenças, não houve significância estatística entre a quinta, sexta e sétima décadas, sugerindo que a idade avançada, e alteração cumulativa da epigenética também possa ser fator de risco para o desenvolvimento desse tipo de câncer de mama lobular invasivo.11

Estes resultados indicam que a maioria dos carcinomas lobulares clássicos (41,50%) apresenta o padrão luminal A, caracterizado pela expressão de receptores hormonais (estrogênio e progesterona) e ausência da expressão do receptor HER2. Esse perfil molecular está associado a melhor prognóstico e maior sensibilidade à terapia hormonal. Esses resultados corroboram com dados da literatura que por vezes mostra até percentual maior, chegando a 55-70% quanto a prevalência desses tumores entre outras instituições.12

A análise da expressão de receptores hormonais e HER2/NEU em todas as subclasses histológicas de carcinomas lobulares revelou que a maioria deles apresenta o padrão luminal A, independentemente da variante histológica. Esse achado sugere que o perfil molecular luminal A é fator comum na maioria dos carcinomas lobulares, independentemente de sua aparência microscópica.13

Nos casos em que o padrão pleomórfico foi identificado, observou-se que a maioria deles (seis casos entre 8-75%) estava associada a carcinomas mistos, ou seja, tumores que apresentam características de diferentes padrões histológicos. Os carcinomas lobulares, nos quais o padrão pleomórfico puro é predominante, foram menos comuns (2-8 casos - 25%).11

Em relação aos carcinomas triplo negativos, nos quais não há expressão de receptores hormonais e HER2, RE e RP concomitantemente, observou-se que todos os casos (100%) exibiam único padrão histológico, o qual apresentou-se histiocitoide puro.14 Este padrão é variante rara do CLI, caracterizada pela presença de células tumorais com morfologia semelhante a histiócitos, i.e, citoplasma abundante e eosinofílico. Esse padrão histológico tem sido associado a comportamento mais agressivo do CLI, com maior risco de metástase extranodal e recorrência local. Esse perfil molecular está associado a pior prognóstico em comparação com outros subtipos de CLI, devido à falta de terapias-alvo específicas e à maior agressividade do tumor. Curiosamente nem todos que apresentam o perfil histiocitoide misto apresentam heterogeneidade de perfil molecular, variando desde Luminal A ou B. Contudo, pela escassez do número destes padrões tumorais, a literatura falha em estabelecer padrão molecular estabelecendo padrão prevalente global, sendo este estudo um iniciador nesta perspectiva.14,15

Os resultados do presente estudo são valiosos sobre o perfil clínico e histopatológico dos CLI decorrente cinco anos pós pandemia de COVID-19, contribuindo para melhor entendimento dessa doença e para o desenvolvimento de estratégias de diagnóstico e tratamento mais eficazes.

LImitações

É importante ressaltar que este estudo apresenta algumas limitações, como o tamanho da amostra e a natureza retrospectiva da análise. Estudos futuros com amostras maiores e delineamento prospectivo são necessários para confirmar nossos achados e aprofundar o conhecimento sobre o carcinoma lobular da mama.

CONCLUSÃO

A identificação de padrões histológicos e moleculares específicos em diferentes faixas etárias pode contribuir para melhor entendimento da biologia do CLI e otimizar as estratégias de tratamento, especialmente no contexto das possíveis alterações decorrentes da pandemia de COVID-19.

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  • Mensagem Central
    A pandemia de COVID-19 impactou significativamente os serviços de saúde em todo o mundo, com a suspensão de operações eletivas e a priorização do atendimento de casos graves. Nesse contexto, é plausível aventar a hipótese de que a epidemiologia do carcinoma lobular invasivo da mama possa ter sofrido alterações, com possível aumento na incidência de casos diagnosticados em estágios mais avançados, devido talvez à interrupção do rastreamento e tratamento oportuno.
  • Perspectiva
    É oportuno avaliar possíveis alterações na prevalência e características do carcinoma lobular invasivo da mama no período pós-pandêmico, com ênfase na distribuição por faixa etária, padrões histológicos e subtipos moleculares. Assim, poder-se-á avaliar o quanto a pandemia pode ter influenciado na prevalência e características nesse carcinoma no período pós-pandêmico, com ênfase na distribuição por faixa etária, padrões histológicos e subtipos moleculares.
  • Como citar este artigo
    de Souza VV, Ribas CAPM, Collaço LM, Chaves LCL, Beltrame B, Rossoni C, Giovanini AF. Carcinoma lobular de mama após a COVID-19: o que mudou na prevalência e no perfil molecular? BioSCIENCE. 2026;84:e00006. https://doi.org/10.55684/2026.84.en.e00006
  • Financiamento:
    Em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de financiamento 001
  • Disponibilidade de dados:
    Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada

Editado por

Disponibilidade de dados

Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Fev 2026
  • Aceito
    22 Fev 2026
  • Publicado
    13 Mar 2026
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