Mortalidade de mineiros brasileiros por câncer entre 1979-2005

Cancer mortality among Brazilian miners during 1979-2005

Gesiele Veríssimo Raphael Mendonça Armando Meyer Sobre os autores

Resumos

Os mineiros estão expostos ocupacionalmente a muitos fatores de risco como as poeiras, gases tóxicos, falta de oxigênio, altas temperaturas, metais e radioatividade. A mineração contribui com cerca de 5% do produto interno bruto (PIB) brasileiro e mais de 70% de todas as minas estão localizadas entre as Regiões Sul e Sudeste. O objetivo deste estudo foi avaliar a mortalidade da população mineradora brasileira e das regiões Sul e Sudeste por todas as neoplasias e especificamente pelos cânceres de pulmão/brônquio/traqueia e estômago entre 1979-2005, comparando com a população geral do país e das regiões selecionadas. Os dados de morte foram obtidos através do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), de acordo com a CID-9 e CID-10. Em seguida, foi calculada a razão de chance de mortalidade (Mortality Odds Ratio - MOR), estratificada por idade (<60 e >60 anos) e por períodos de morte (1979-1987; 1988-1996; 1997-2005). Os mineradores brasileiros apresentaram um risco de morte elevado para as causas selecionadas e as maiores magnitudes foram encontradas entre os trabalhadores mais jovens. Além disso, houve tendências de aumento do risco ao longo dos três períodos estudados entre os grupos de mineiros de todas as idades (20+ anos). Mineiros das regiões Sul e Sudeste exibiram uma elevação no risco de morte por alguns cânceres, principalmente entre os mais jovens. Na região Sudeste, a população de mineiros chegou a apresentar um risco duas vezes maior de morte por câncer de estômago quando comparada aos trabalhadores não mineiros. Nossos resultados sugerem que mineiros brasileiros apresentam risco elevado de morte por câncer.

mortalidade; mineração; neoplasias


Miners are exposed to many risk factors related to their working environment, such as dusts, noxious gases, lack of oxygen, high temperature, metals, and radioactivity. Mining contributes with about 5% to the Brazilian Gross Domestic Product and more than 70% of all mines are located in the South and Southeast regions of the country. The aim of this study was to evaluate the mortality, by any neoplasms and specifically by lung/bronchial/tracheal and stomach cancers, among miners from Brazil, and from the South and Southeast regions between 1979-2005 and comparing it with that experienced by the general population of the country or the said regions. The data of the deaths of miners was obtained through Brazilian Mortality Information System (Sistema de Informação sobre Mortalidade - SIM) according to ICD-9 and ICD-10 from all the country and from the South and Southeast Brazilian regions. Then, the Mortality Odds Ratio (MOR) was calculated, stratified by age (<60 and 60+ years old) and periods of death (1979-1987; 1988-1996; 1997-2005). Brazilian miners showed an increased risk of dying from the herein studied causes, and the highest magnitudes were found among younger workers. Moreover, there were trends of increased risk throughout the three studied periods among the groups of miners of all ages (20+ years old). Miners from South and Southeast regions showed an increased risk of death from some cancers, especially among the younger ones. In the Southeast region, the miners' population showed double the risk of death from stomach cancer when compared to the reference population. Our results suggest that Brazilian miners are at increased risk to die from cancer.

mortality; mining; neoplasms


  • 1
    Enterline PE. Mortality rates among coal miners. Am J Public Health. 1964;54(5):758-68.
  • 2
    Donoghue AM. Occupational health hazards in mining: an overview. Occup Med. 2004;54(5):283-9.
  • 3
    Gómez MG, Boffetta P, Klink JD, Español S, Quintana JG, Colin D. Mortalidad por cáncer en los mineros del mercúrio. Gac Sanit. 2007;21(3):210-7.
  • 4
    Mitchell RJ, Driscoll TR, Harrison JE. Traumatic work-related fatalities involving mining in Australia. Safety Sci. 1998;29(2):107-23.
  • 5
    Skowronek J, Zemla B. Epidemiology of lung and larynx cancers in coal mines in upper Silesia - preliminary results. Health Phys. 2003;85(3):365-70.
  • 6
    Committee on Health Risks of Exposure to Radon, Board on Radiation Effects Research, Commission on Life Sciences, National Research Council. Health effects of exposure to radon: BEIR VI. Washington,D.C.: National Academy Press; 1999.
  • 7
    Klerk NH, Musk AW. Silica, compensated silicosis, and lung cancer in Western Australian goldminers. Occup Environ Med. 1998;55(4):243-8.
  • 8
    Armstrong BK, McNulty JC, Levitt LJ, Williams KA, Hobbs MS. Mortality in gold and coal miners in Western Australia with special reference to lung cancer. Br J Ind Med. 1979;36(3):199-205.
  • 9
    Chen R, Wei L, Huang H. Mortality from lung cancer among copper miners. Br J Ind Med. 1993;50(6):505-9.
  • 10
    Hughes JM, Weill H. Asbestosis as a precursor of asbestos related lung cancer: results of a prospective mortality study. Br J Ind Med. 1991;48(4):229-33.
  • 11
    World Health Organization. International Agency for Research on Cancer. Silica, some silicates, coal dust and para-aramid fibrils. Geneva: WHO; 1997. (IARC Monographs on the evaluation of carcinogenic risks to humans - Volume 68).
  • 12
    Goldsmith DF. Does occupational silica exposure or silicosis cause lung cancer? Ann Occup Hyg. 1997;41(Suppl 1):475-9.
  • 13
    González CA, Sanz M, Marcos G, Pita S, Brullet E, Vida F, Agudo A, Hsieh CC. Occupation and gastric cancer in Spain. Scand J Work Environ Health. 1991;17(4):240-7.
  • 14
    Algranti E, Buschinelli JT, Capitani EM. Occupational lung cancer. J Bras Pneumol. 2010;36(6):784-94.
  • 15
    Departamento Nacional de produção Mineral. Economia Mineral [Internet]. [cited 2010 Aug]. Available from: http://www.dnpm.gov.br/conteudo.asp?IDSecao=68
  • 16
    Instituto Brasileiro de Mineração. Informações e Análises da Economia Mineral Brasileira. 4ª ed [Internet]. 2009 [cited 2013 Aug 19]. Available from: http://www.ibram.org.br/sites/1300/1382/00000284.pdf
  • 17
    Koppe JC. A lavra e a indústria mineral no Brasil - Estado da arte e tendências tecnológicas. In: Fernandes FR, Matos GM, Castilhos ZC, Luz AB, editores. Tendências Tecnológicas Brasil 2015. Rio de Janeiro: CETEM/MTC; 2007. p. 81-102.
  • 18
    Lipsztein JL, da Cunha KM, Azeredo AM, Julião L, Santos M, Melo DR, Simões Filho FF. Exposure of workers in mineral processing industries in Brazil. J Environ Radioact. 2001;54(1):189-99.
  • 19
    Dantas AL, Dantas BM, Lipsztein JL, Spitz HB. In vivo measurements of 210Pb in skull and knee geometries as an indicator of cumulative 222Rn exposure in a underground coal mine in Brazil. Radiat Prot Dosimetry. 2007;125(1-4):568-71.
  • 20
    Veiga LH, Melo VP, Amaral EC, Koifman S. Feasibility study for a long-term follow-up in a historical cohort of Brazilian coal miners. J Radiol Prot. 2007;27(3):349-60.
  • 21
    Viacava F. Informações em saúde: a importância dos inquéritos populacionais. Ciên Saúde Coletiva. 2002;7(4):607-21.
  • 22
    Nascimento EM, Costa MC, Mota EL, Paim JS. Estudo de fatores de risco para óbitos de menores de um ano mediante compartilhamento de bancos de dados. Cad Saúde Pública. 2008;24(11):2593-602.
  • 23
    Fonseca LA, Eluf-Neto J, Wunsch Filho V. Cancer mortality trends in Brazilian state capitals, 1980-2004. Rev Assoc Med Bras. 2010;56(3):309-12.
  • 24
    Meyer A, Chrisman J, Moreira JC, Koifman S. Cancer mortality among agricultural workers from Serrana Region, state of Rio de Janeiro, Brazil. Environ Res. 2003;93(3):264-71.
  • 25
    Mendes AC, Silva Junior JB, Medeiros KR, Lyra TM, Melo Filho DA, Sá DA. Avaliação do Sistema de Informações Hospitalares - SIH/SUS como fonte complementar na vigilância e monitoramento de doenças de notificação compulsória. Inf Epidemiol SUS. 2000;9(2):67-86.
  • 26
    Cocco PL, Carta P, Belli S, Picchiri GF, Flore MV. Mortality of Sardinian lead and zinc miners: 1960-88. Occup Environ Med. 1994;51(10):674-82.
  • 27
    Sluis-Cremer GK, Liddell FD, Logan WP, Bezuidenhout BN. The mortality of amphibole miners in South Africa, 1946-80. Br J Ind Med. 1992;49(8):566-75.
  • 28
    Taeger D, Krahn U, Wiethege T, Ickstadt K, Johnen G, Eisenmenger A, Wesch H, Pesch B, Bruning T. A study on lung cancer mortality related to radon, quartz, and arsenic exposures in German uranium miners. J Toxicol Environ Health A. 2008;71(13-14):859-65.
  • 29
    Grosche B, Kreuzer M, Kreisheimer M, Schnelzer M, Tschense A. Lung cancer risk among German male uranium miners: a cohort study, 1946-1998. Br J Cancer. 2006;95:1280-7.
  • 30
    Wakeford R. Occupational exposure, epidemiology and compensation. Occup Med. 2006;56(3):173-9.
  • 31
    Cunha KD, Lipsztein JL, Azeredo AM, Melo D, Julião LM, Lamego FF, Santos M, Leite CVB. Study of Worker's Exposure to Thorium, Uranium and Niobium Mineral Dust. Water Air Soil Pollut. 2002;137(1-4):45-61.
  • 32
    Julião LM, Melo DR, Sousa WO, Santos MS, Fernandes PC, Godoy ML. Exposure of workers in a Mineral Processing Industry in Brazil. Radiat Prot Dosimetry. 2007;125(1-4):513-5.
  • 33
    Veiga LH, Melo V, Koifman S, Amaral EC. High radon exposure in a Brazilian underground coal mine. J Radiol Prot. 2004;24(3):295-305.
  • 34
    Doll R, Peto R. The causes of cancer: quantitative estimates of avoidable risks of cancer in the United States today. J Natl Cancer Inst. 1981;66(6):1191-308.
  • 35
    Pearce N, Boffetta P, Kogevinas M. Cancer Introduction. In: Stellman JM, editor. ILO Encyclopedia of Occupational Health & Safety. 4th ed. Geneva: International Labor Organization; 1998.
  • 36
    Kogevinas M, Boffetta P, Pearce N. Occupational exposure to carcinogens in developing countries. IARC Sci Publ. 1994;(129):63-95.
  • 37
    Ribeiro FSN, Wünsch Filho V. Avaliação retrospectiva da exposição ocupacional a cancerígenos: abordagem epidemiológica e aplicação em vigilância em Saúde. Cad Saúde Pública. 2004;20(4):881-90.
  • 38
    Bardin-Mikolajczak A, Lissowska J, Zaridze D, Szeszenia-Dabrowska N, Rudnai P, Fabianova E. Occupation and risk of lung cancer in Central and Eastern Europe: the IARC multi-center case-control study. Cancer Causes Control. 2007;18(6):645-54.
  • 39
    MacArthur AC, Le ND, Fang R, Band PR. Identification of occupational cancer risk in British Columbia: a population-based case-control study of 2,998 lung cancers by histopathological subtype. Am J Ind Med. 2009;52(3):221-32.
  • 40
    Kusiak RA, Ritchie AC, Muller J, Springer J. Mortality from lung cancer in Ontario uranium miners. Br J Ind Med. 1993;50(10):920-8.
  • 41
    Morfeld P, Lampert K, Ziegler H, Stegmaier C, Dhom G, Piekarski C. Overall mortality and cancer mortality of coal miners: Attempts to adjust for healthy worker selection effects. Ann Occup Hyg. 1997;41(Suppl 1):346-51.
  • 42
    Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Perfis de Saúde e de Mortalidade no Brasil: uma análise de seus condicionantes em grupos populacionais específicos. [Internet]. 2002 [cited 2013 Aug 22]. Available from: http://www.liminar.net/direito/pdffiles/med/Perfis%20de%20Saúde%20e%20de%20Mortalidade%20no%20Brasil.pdf
  • 43
    Andrade CL, Szwarcwald CL. Desigualdades sócio-espaciais da adequação das informações de nascimentos e óbitos do Ministério da Saúde, Brasil, 2000-2002. Cad Saúde Pública. 2007;23(5):1207-16.
  • 44
    Jorge MH, Laurenti R, Gotlieb SL. Análise da qualidade das estatísticas vitais brasileiras: a experiência de implantação do SIM e do SINASC. Ciênc Saúde Coletiva. 2007;12(3):643-54.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jul 2015
  • Data do Fascículo
    Set 2013

Histórico

  • Recebido
    12 Abr 2012
  • Aceito
    04 Jun 2012
Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro Avenida Horácio Macedo, S/N, CEP: 21941-598, Tel.: (55 21) 3938 9494 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@iesc.ufrj.br