Resumo
O objetivo deste artigo é compreender o que é ser colecionador e como são construídas as identidades e identificações com essa atividade a partir das memórias de colecionadores brasileiros. Partimos de um referencial teórico que trata do alinhamento entre identidade, identificação e memórias enquanto constituintes do ser colecionador, assim como da prática colecionista para realizarmos um estudo qualitativo a partir das narrativas de 29 colecionadores brasileiros. Os dados, oriundos de entrevistas semiestruturadas, foram triangulados com nossas anotações de caderno de campo, com a observação não-participante e foram analisados a partir da Análise de Narrativas. Os dados demonstram que a construção da categoria “colecionador” é fundamentalmente relacional e pautada na tríade “sujeito colecionador”, “objeto colecionado” e “o outro que os vê”. Consideramos, portanto, que a percepção identitária de si nunca é uma produção individual e isolada no tempo/espaço, mas interage com diferentes construções coletivas sobre quem é o sujeito que coleciona. Por fim, contribuímos para os Estudos Organizacionais ao propormos olhares para modos de vida não evidenciados no mainstream da Administração, assim como, a possibilidade de ressignificação do ser colecionador e do caráter dinâmico da memória, das identidades e das identificações.
Palavras-chave:
Identidades; Identificações; Colecionismo; Histórias. Memórias
Abstract
This article examines the meaning of being a collector and how identities and identifications associated with this activity are constructed through the memories of Brazilian collectors. The theoretical framework is grounded in the alignment of identity, identification, and memory as central elements of both the collector’s persona and the practice of collecting. A qualitative study was conducted based on the narratives of 29 Brazilian collectors. Data were generated through semi-structured interviews, triangulated with field notes and non-participant observation, and subsequently analyzed using narrative analysis. The findings indicate that the construction of the category “collector” is fundamentally relational, structured around a triad: the “collecting subject,” the “collected object,” and “the observing other.” Self-identity is not understood as an individual or isolated production in time and space, but rather as one that interacts with various collective constructions of the collector’s identity. Finally, this study contributes to organizational studies by proposing perspectives on lifestyles that remain underexplored in mainstream administration research. It highlights the potential for re-signifying the meaning of being a collector while emphasizing the dynamic nature of memory, identities, and identifications.
Keywords:
Identities; Identifications; Collecting; Narratives; Memories
Resumen
El objetivo de este artículo es comprender qué significa ser coleccionista y cómo se construyen las identidades e identificaciones con esta actividad a partir de las memorias de coleccionistas brasileños. Partimos de un marco teórico que aborda la alineación entre identidad, identificación y memorias como constituyentes del ser coleccionista, así como de la práctica coleccionista, para realizar un estudio cualitativo basado en las narrativas de 29 coleccionistas brasileños. Los datos, obtenidos de entrevistas semiestructuradas, fueron triangulados con nuestras anotaciones de cuaderno de campo, con observación no participante, y se analizaron mediante el análisis de narrativas. Los resultados demuestran que la construcción de la categoría “coleccionista” es fundamentalmente relacional y se basa en la tríada “sujeto coleccionista”, “objeto coleccionado” y “el otro que los observa”. Consideramos, por tanto, que la percepción identitaria de sí mismo nunca es una producción individual y aislada en el tiempo/espacio, sino que interactúa con diferentes construcciones colectivas sobre quién es el sujeto que colecciona. Finalmente, contribuimos a los Estudios Organizacionales al proponer miradas hacia modos de vida no evidenciados en el mainstream de la Administración, así como la posibilidad de resignificar el ser coleccionista y el carácter dinámico de la memoria, las identidades y las identificaciones.
Palabras clave:
Identidades; Identificaciones; Coleccionismo; Historias; Memorias
INTRODUÇÃO
Este artigo visa compreender o que significa ser colecionador e como as identidades e identificações com o ato de colecionar são construídas com base nas memórias de colecionadores brasileiros. Este trabalho deriva de uma pesquisa mais ampla voltada à compreensão das histórias e memórias da gestão de colecionadores brasileiros, com base no pressuposto de que o ato de colecionar objetos não apenas cria desafios de gestão em termos de tempo e espaço, mas também participa da construção das identidades e identificações dos indivíduos em um mesmo espaço-tempo.
O fenômeno do colecionismo é investigado aqui a partir da influência de Certeau (1984) no âmbito do trabalho do autor sobre organização cotidiana, ou seja, a partir da ideia de que o colecionismo torna visíveis formas de organizar para além de contextos formais, tais como aquisição, classificação, armazenamento, exibição, troca e cuidado. Tais tarefas práticas envolvem a gestão do tempo e do espaço e alocação de recursos e relações sociais, constituindo, portanto, modos de organizar. Buscamos contribuir para o debate ao relacionar processos de identificação a uma tríade sujeito-objeto-outro: quem os colecionadores entendem ser (e quem os outros consideram que eles sejam), as propriedades materiais e as trajetórias dos objetos colecionados e os públicos e interlocutores que reconhecem, valorizam ou contestam tais reivindicações identitárias. Além disso, o colecionismo oferece um terreno fértil em memórias, em que passados são selecionados, silenciados ou ressignificados no tempo presente, articulando identidade, memória e prática. Finalmente, os colecionadores brasileiros formam uma população heterogênea e ainda pouco estudada, que amplia os estudos organizacionais para além dos contextos dominantes e ilumina como os sujeitos constroem arquivos pessoais, se engajam com mercados e formam comunidades.
Nesse contexto, passamos das especificidades organizativas do colecionismo à premissa mais ampla de que as vidas e as identidades estão socialmente imbricadas; elas não são autocontidas. Se tomássemos um indivíduo como uma entidade isolada e seguíssemos seus passos ao longo da vida, perceberíamos rapidamente que as trajetórias humanas não se limitam a si mesmas (Capitão & Heloani, 2007). Nesse sentido, nenhuma pessoa existe isoladamente das demais, pois há inter-relações com as pessoas ao nosso redor em algum nível. Nossa relação com outros seres humanos nos é imposta desde o nascimento, uma vez que o modo como vivemos pode ser compreendido como uma vida social organizada (Carrieri, 2023; Saraiva, 2023).
Com efeito, Aguiar e Carrieri (2016) e Correia et al. (2024) discutem visões essencialistas que entendem a identidade como fixa e imutável, um debate que foge ao escopo deste artigo. No entanto, desde já afirmamos que consideramos as identidades, em sua forma plural, como desenvolvidas por meio de um processo histórico, social e cultural e, portanto, como fluidas e dinâmicas.
Em outras palavras, compreendemos as identidades como construções formadas no interior de uma teia de relações no mundo, raramente redutíveis a categorias fixas. Nesse sentido, alinhamo-nos à perspectiva de Hall (2022), que entende a criação de identidades culturais como um processo de supressão forçada da diferença. A formação de identidades no Ocidente tem ocorrido por meio de violência e exclusão, os quais são mecanismos que buscam impor uma hegemonia cultural sobre culturas colonizadas (Hall, 2022). Por essa razão, evitamos generalizar a noção de “Sul Global” ou criar retratos estereotipados de processos de identificação fundamentados em experiências vividas no Sul Global. Em vez disso, sustentamos que tratar de identidades requer compreender os fios narrativos mobilizados pelos próprios sujeitos à medida em que estes buscam dar sentido às suas experiências no mundo.
Autores como Vogt e Lourenço (2017) e Correia et al. (2018) argumentam que as identidades podem ser caracterizadas como processos dialógicos expressos por meio de identificações e diferenciações, sendo múltiplas, dinâmicas e capazes de influenciar as relações sociais. Da mesma forma, Vuuren et al. (2012) já afirmavam que as identidades são mutáveis, constantemente avaliadas com base na época em que se vive e nos grupos sociais com os quais os indivíduos interagem, sendo, portanto, desenvolvidas por meio de processos sociais.
A formação humana também é desenvolvida a partir dos grupos com que o sujeito interage, em outras palavras, é a partir da alteridade que um outro humano que ele é humanizado (Faria et al., 2023). Portanto, como já apresentado por Zimmerman (1993) e Capitão e Heloani (2007), os grupos desempenham papéis fundamentais na formação das identidades individuais e podem ser considerados como células-base. Esses grupos tornam-se meios pelos quais os indivíduos adquirem necessidades, valores e comportamentos, além de internalizarem normas, em um processo dialético contínuo capaz de metabolizar constantemente intersubjetividades que, por sua vez, se transformam em elementos socioculturais, construindo tanto as identidades individuais quanto as grupais.
De acordo com Cabana e Ichikawa (2017), a identificação depende das relações e de seus modos de efetivação. Na prática, isso significa que as maneiras situadas pelas quais os colecionadores manejam, classificam e interpretam objetos - e as interações que essas práticas sustentam - reconfiguram ativamente quem eles entendem ser (e quem os outros consideram que eles sejam). Assim, ao acessarmos as memórias desses indivíduos, podemos acessar suas experiências, destacando suas percepções e os sentimentos individuais conectados aos acontecimentos (Correia et al., 2020).
É nesse ponto que a memória importa. Por memória, referimo-nos a um fenômeno social que compreende uma prática seletiva e situada de recordar, constituída nas e por meio das interações e de quadros compartilhados de significado, e não como um mero repositório de fatos (Alberti, 2012; Halbwachs, 1990; Pollak, 1992). Como tal, as memórias são contingentes, contestadas e orientadas por preocupações do presente, ou seja, aquilo que é recordado, silenciado ou ressignificado reflete negociações de identidade e pertencimento em curso (Bosi, 2015; Correia et al., 2024; Pollak, 1992). Atentar para a memória sob essa ótima coloca a temporalidade e a situacionalidade em primeiro plano, as quais, por sua vez, ancoram a forma como as identidades são compostas e recompostas na prática cotidiana.
Situados em um espaço-tempo específico, os grupos reproduzem modos distintos de ser e existir que, a depender de sua formação, podem se tornar mais ou menos suscetíveis a mudanças ao longo do tempo (Capitão & Heloani, 2007). Os autores argumentam que se cada grupo fosse estudado em sua especificidade, esse processo resultaria sempre inacabado. No entanto, mesmo que tomemos um único grupo como objeto de análise, concluir o estudo o tornaria estático, criando uma contradição social descrita pela dialética contínua do parágrafo anterior. Neste estudo, tratamos o colecionismo, os grupos de colecionadores, suas identidades e identificações como pontos de referência fluidos e dinâmicos (Correia et al., 2020; Woodward, 2009), que, além disso, resistem à generalização e à unificação.
No contexto do colecionismo, Arantes (2010) explora o potencial das coleções como sistemas de troca social e simbólica entre diferentes grupos sociais, afirmando que a coleção é influenciada e transformada por uma diversidade de práticas culturais e sociais que abrangem encontros, troca de informações, contextualização histórica da vida, aquisição e preservação de objetos, bem como a formação e a expressão de identidades. Para o autor, o ato de colecionar é um processo de construção identitária; uma celebração de si por meio da coleção e do papel de preservação da memória.
Por sua vez, Woodward (2007) e Oliveira (2017) afirmam que objetos e coleções mantêm sua relevância na vida das pessoas, influenciando a construção de suas identidades pessoais à medida que refletem seus pensamentos e opiniões. Melo (2018) acrescenta que as coleções auxiliam no processo de construção de identidades e propósitos por meio de um processo em que o objeto não é apenas afetado pelo colecionador, mas também o afeta.
Em termos práticos, refletir sobre o mundo real não deve se limitar a uma relação de causa e efeito, nem ser acompanhado por um começo, meio e fim, mas antes por múltiplos meios, múltiplos começos e alguns fins que dão origem a outros meios e, simultaneamente, contemplam novos começos que também são fins ao mesmo tempo. A partir da visão de Benjamin (2009), o processo investigativo do colecionismo deve ser acompanhado pela compreensão de um espaço-tempo específico, contribuindo para nossa perspectiva de uma gestão dialógica, cotidiana e, acima de tudo, inacabada. Por mais incompletas que sejam (Fontdevila, 2017), as coleções ajudam-nos a compreender a própria gestão em sua incompletude: um círculo que não se fecha nem se completa por meio dos estudos dominantes, ainda que haja insistência em apontar que os fenômenos podem ser estudados dentro de uma ordem delimitada de começo, meio e fim.
Este trabalho se justifica ao buscar ampliar as discussões sobre a pluralidade das identidades e identificações do ser colecionador no contexto da gestão. Ser colecionador pode ser compreendido no âmbito da relação entre indivíduo e sociedade e entre indivíduo e objeto. O colecionismo, como uma “obra em processo” (Cordova, 2017), demanda a gestão constante de objetos cotidianos que, uma vez adquiridos, passam a integrar as identidades dos indivíduos e as maneiras como eles se relacionam com a sociedade. Os colecionadores distinguem-se por sustentar relações afetivas e de longa duração com objetos que reordenam espaço, tempo e laços sociais, tornando visíveis práticas de organizar frequentemente negligenciadas pela teoria da gestão dominante. Assim, estudar esse grupo oferece uma lente privilegiada para compreender como identidade, memória e organização cotidiana são coproduzidas.
Este artigo está dividido em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda seção desenvolve pontos de referência sobre identidades, identificações e memórias a elas associadas. Em seguida, são revisadas as considerações sobre o colecionismo. Na sequência, é apresentado o percurso metodológico da pesquisa. A quinta seção avança a análise e as discussões sobre as identidades e identificações dos colecionadores. Por fim, a seção final apresenta algumas reflexões que concluem este trabalho.
IDENTIDADES, IDENTIFICAÇÕES E DISCURSOS SOBRE A MEMÓRIA
Partimos de perspectivas construtivistas que atestam a natureza processual, dinâmica e não determinística das identidades (Figueredo & Cavazotte, 2023; Menezes, 2014; Silva & Santos, 2023; Villar et al., 2020). Em vez de constituírem uma essência humana inerente, as identidades devem ser consideradas como o resultado de processos históricos, sociais e culturais. Em outras palavras, a formação das identidades ocorre nas relações entre o “eu” e a sociedade. Nesse sentido, as noções de identidade identificação são centrais para a constituição do sujeito diante de uma série de elementos (tanto materiais quanto simbólicos) com os quais ele se depara diariamente. Identificar-se com algo ou alguém faz parte de um processo mais amplo de reconhecimento social, por meio do qual somos recompensados (e/ou sancionados) com base nos signos inscritos em nossos corpos. Assim, a identificação envolve o alinhamento a elementos de uma ordem simbólica que nos precede, mas que constitui os caminhos para o nosso reconhecimento enquanto sujeitos (Souza, 2017).
Grimell (2023) discute a possibilidade de compreender as identidades por meio da narrativa de “quem sou eu”, observando que isso pode abarcar uma multiplicidade de identidades, como pai, mãe, colecionador, cônjuge, entre outras. Nesse contexto, considerar o “eu” envolve enxergar o indivíduo como portador de reivindicações narrativas identitárias; consequentemente, o “eu” permanece presente ao longo da narrativa das identidades, as quais podem contrastar entre si. Segundo o autor, essa concepção facilita a compreensão das identidades a partir de um ponto de vista empírico e metodológico.
As identidades são permeadas por dimensões inconscientes, mas também intersubjetivas, o que significa que existem significados socialmente compartilhados apropriados individualmente por meio de processos de socialização primária e secundária (Berger & Luckmann, 2002). Portanto, é importante lembrar que as identidades nunca são produções inteiramente autênticas nem instrumentais (Souza & Carrieri, 2012), uma vez que os sujeitos negociam com elementos simbólicos que circulam culturalmente. A esse respeito, Faria et al. (2023) afirmam que compreender o fenômeno da socialização é crucial para a formação das identidades, já que traços culturais, econômicos e tradições da sociedade na qual os indivíduos estão inseridos são assimilados e reproduzidos de forma acrítica.
Souza e Carrieri (2012) destacam que as identidades são produções contínuas, e não meramente elementos descritivos. Além disso, os processos de construção identitária produzem efeitos sociais e psicológicos que moldam a concepção de si e os projetos de vida (Menezes, 2014). Cabana e Ichikawa (2017) associam as identidades a teorias discursivas e imagéticas de natureza fragmentada e transitória, conectadas à vida cotidiana, às relações de poder, à história e à memória. Assim, não as assumimos como rótulos fixos para o sujeito, mas como noções rígidas de pertencimento a partir das quais se delineiam as condições para a ação, seja para reforçar, seja para romper com determinadas identidades sociais (Correia et al., 2018).
De acordo com Zhong et al. (2023), o desenvolvimento da identidade também abrange as expectativas da pessoa em relação a uma atividade específica. Tais expectativas baseiam-se em objetivos, crenças e padrões, de modo que, quando determinados eventos ocorrem, a avaliação que a pessoa faz deste mesmo evento e dos demais sujeitos envolvidos determina sua resposta emocional e, consequentemente, sua atribuição à própria identidade. Por meio desse processo, a identidade é continuamente desenvolvida por meio das atividades.
Ao abordar a dimensão processual das identidades, adentramos o campo daquilo que se entende por “identificações”. Silva e Santos (2023, p. 8) associam esse conceito à ideia de afinidade, atração e o reconhecimento de si mesmo. Identificar-se com uma pessoa, grupo ou objeto envolve a capacidade de conexão íntima, pela qual o “eu” pode assumir a realidade do “outro” como sua própria (Silva & Santos, 2023, p. 8). Dewi e Fajri (2023) explicam que a capacidade dos indivíduos de verem a si mesmos pode influenciar a identidade que estão negociando. Visando evitar tradições essencialistas do conceito de identificação, recorremos a perspectivas sociológicas que abordam o fenômeno a partir de uma perspectiva múltipla. Assim, é necessário compreender que as identidades são constituídas no interior das múltiplas possibilidades de relação entre o eu e o outro.
Essa dinâmica dos processos de identificação está inscrita em redes de inclusão e exclusão social (Menezes, 2014), uma vez que as identidades estabelecem aquilo que alguém é e, concomitantemente, aquilo que não se é. Como já observado por Souza e Carrieri (2012), mesmo à luz de perspectivas construcionistas e interpretativistas, é essencial reconhecer que o pertencimento identitário não é meramente uma forma de classificação, mas uma prática social (Souza & Carrieri, 2012) responsável por atribuir posições desiguais a determinados sujeitos. Assim, as identidades não são ingenuamente compreendidas como marcadores individuais, mas como modos de se relacionar no mundo que mobilizam o sujeito em seu devir histórico. Em outras palavras, as identidades são ao mesmo tempo produtos e produtoras da materialidade do sujeito, de sua contínua criação e recriação imersas em sistemas simbólicos e discursivos (Correia et al., 2020; Monteiro et al., 2017), assim como as memórias, conforme já indicado por Pollak (1992) e posteriormente por Bosi (2015) e Bom Meihy e Seawright (2020).
Para Pollak (1992, p. 5), “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva, na medida em que também é um fator extremamente importante no sentido de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”. Halbwachs (1990) e Alberti (2012) argumentam que as memórias devem ser compreendidas e analisadas como um fenômeno coletivo e social, construído coletivamente e sujeito a constantes flutuações, transformações e mudanças. Em outras palavras, as memórias dos indivíduos não surgem por acaso, mas a partir de interações sociais, abarcando agenciamentos coletivos (Araújo & Santos, 2007).
Na concepção memorialística, é essencial destacar que recordar o passado não resulta de uma relação linear e causal, mas de uma diversidade de perspectivas, experiências, contatos sociais, tensões, conflitos, disputas, afinidades, imitações e conformidades com grupos sociais. Portanto, esses autores entendem que a reconstrução do passado por meio das memórias não é um processo estático, natural e involuntário, assim como tampouco o é o processo de construção identitária.
A memória é uma construção social e seletiva. “O que a memória individual grava, recalca, exclui, relembra é evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organização” (Pollak, 1992, p. 5). Além disso, ao acessarmos memórias e, consequentemente, experiências e sentimentos individuais em relação aos acontecimentos, destacamos os sujeitos diante de uma história dominante e identificamos os diferentes objetivos impressos no ato de recordar em cada época (Bosi, 2015).
Para Correia et al. (2020), as memórias que envolvem identidades operam com um passado que chega ao presente e encontra os interesses deste tempo. Portanto, o passado nunca será lembrado da mesma maneira, pois é possível silenciar, recontar e alterar histórias. Essa fluidez torna importante o trabalho com memórias, pois permite a ressignificação do tempo, algo que escapa aos documentos e às grandes narrativas, afirmando e reafirmando as memórias como fontes cruciais para a construção do conhecimento.
COLECIONISMO, COLEÇÕES E COLECIONADORES
Como assinala Benjamin (2009), um aspecto fundamental do colecionismo consiste em compreender os objetos para além de suas funcionalidades; trata-se da capacidade subversiva de atribuir-lhes sentido e de se relacionar com eles. Assim, como acrescenta Almeida (2012), um colecionador é aquele que consegue inventar sua coleção para além da mera acumulação de objetos. Para Cravo (2017, p. 3), o colecionismo pode ser percebido como uma prática de selecionar, manter e agrupar objetos de valor subjetivo, isto é, um fator emocional que transcende o valor comercial ou a utilidade. Desse modo, a aquisição de objetos envolve um engajamento apaixonado, traduzido na aquisição de objetos que “comovem” o sujeito. Oliveira (2017) mostra que os objetos emergem de acontecimentos e, assim, deslocam o ato de colecionar para um ato de criação constante de coleções (Fontdevila, 2017), como um artista que preserva registros temporais. Para Rosa (2020), o colecionismo não deve se limitar à quantidade, à autoria ou aos valores de mercado, mas deve destacar o papel social do colecionador.
De acordo com Dohmann (2017), o colecionismo pode ser compreendido como uma prática com características complexas e criativas que ocorre em meio às relações do mundo material, implicando a busca, a posse e a organização de objetos de maneira apaixonada e seletiva. O autor destaca a função sociológica das coleções ao tornar as memórias tangíveis, possibilitando sua transmissão ao longo da história. Além disso, o agrupamento de objetos em exibição facilita trocas sociais e simbólicas, revelando o que é significativo para uma determinada sociedade e quais comportamentos os objetos impõem aos colecionadores. Para Dohmann, grande parte da história é marcada pelos objetos que foram criados, artefatos que exigem habilidade, incorporam finalidades, moldam identidades dos usuários e se enraízam na cultura material.
Outro tema importante na literatura é a compreensão dos objetivos dos colecionadores e de seus modos de ação. É neste ponto que emergem problemas de gestão, uma vez que os colecionadores consideram suas coleções sempre incompletas, em um estado constante de incompletude (Correia et al., 2024). A ausência de uma única peça pode causar “desordem produtiva” (Benjamin, 2009, p. 246) e a percepção de que o todo não passa de uma obra fragmentada. Assim, Benjamin ajuda-nos a refletir sobre o fato de que o colecionador deve acolher a incompletude, como observa Cordova (2017).
Rosa (2020), por sua vez, destaca o desejo dos colecionadores de dar continuidade às suas coleções, seja por meio de familiares, seja por meio de museus, demonstrando a transcendência do espaço-tempo pessoal. Tais observações reafirmam a assertiva de Dohmann (2017) de que as coleções constituem um patrimônio da cultura material e alinham-se a Krtalić et al. (2021) ao enfatizarem os sentimentos, valores e papéis representacionais dos objetos na documentação da história e da identidade dos indivíduos por meio de coleções familiares. Sob a perspectiva do mundo moderno, Pedrão e Bizello (2016, p. 835) argumentam que os objetos produzidos em massa se tornaram os membros mais populares das coleções, transformando-se em “pequenos santuários de diferentes passados, de fugas do presente e pequenas afirmações de individualidades” e, assim, em formas de expressar-se como colecionador definido pela identificação com sua atividade. Sanches e Silva (2018) afirmam que os objetos assumem novo significado quando retirados de circulação e de sua função original, de modo a redefinir a existência do material. Além disso, a permanência desses objetos ao longo do tempo na vida cotidiana das pessoas marca suas trajetórias, evoca sentimentos, ideias, memórias e sensações, gerando vínculos afetivos e memórias (Moraes, 2021).
Ao examinar o ato de colecionar, Oliveira (2017) argumenta que essa prática favorece um sentimento de bem-estar e pertencimento. Ela cria um mundo simbólico, possibilitando conexões com comunidades de colecionadores que compartilham objetos semelhantes. Assim, o colecionismo torna-se uma forma de identificação social com grupos que compartilham interesses comuns, realizando, como sugere Bloom (2003), uma dimensão fundamental do ser humano.
ASPECTOS METODOLÓGICOS
Com base em Yates (2014) e Üsdiken e Kipping (2022), adotamos uma abordagem qualitativo-histórica nos Estudos Organizacionais. As abordagens históricas tratam da temporalidade ao conectar perspectivas de passado, presente e futuro. Nossa metodologia prioriza observação não participante, entrevistas, fotografias e análise documental (Sá-Silva, 2009), favorecendo a triangulação de dados e um exame crítico enriquecido (Tarrow, 2019; Üsdiken & Kipping, 2022).
Trabalhamos com as fotografias a partir de Passos (2013) e Pinheiro (2024), sem tratá-las como registros ilustrativos, mas como elementos analíticos que permitem acessar camadas de significado inscritas nas práticas dos colecionadores, em suas formas de organizar, cuidar, classificar e apresentar objetos. Nesse sentido, as fotografias nos ajudaram a estimular nossa percepção da realidade vivida pelos participantes, permitindo uma reflexão mais profunda sobre suas experiências, histórias, memórias e relações com o mundo vivido. Consideradas em conjunto com documentos históricos, as fotografias foram incorporadas à análise levando em conta tanto aquilo que foi registrado quanto a forma pela qual o registro ocorreu, bem como pela qual ele foi apresentado aos pesquisadores em momentos narrativos específicos.
Quanto aos documentos, estes incluíram registros escritos, catálogos, publicações em mídias sociais e outros materiais produzidos ou utilizados pelos participantes. A análise do material coletado foi conduzida de acordo com os princípios da análise documental (Pimentel, 2001; Sá-Silva, 2009), com ênfase nas narrativas, categorias e temporalidades que emergiram dos materiais.
Ao priorizar múltiplas fontes, como fizemos nesta pesquisa, esse processo permitiu-nos evitar reducionismos e generalizações que poderiam limitar as dinâmicas complexas da pesquisa em busca de uma suposta totalidade. Essa leitura interpretativa de imagens e documentos buscou compreender os significados atribuídos pelos participantes às suas práticas, em vez de reduzir as representações visuais a meras evidências empíricas.
Com base na técnica de amostragem em bola de neve (Audemard, 2020), identificamos participantes por meio de recomendações de pares, chegando, ao final, ao estudo de 29 coleções diversas (por exemplo, carros, obras de arte, moedas [numismática], selos [filatelia], antiguidades, etc.) (Tabela 1). Por meio de 29 entrevistas semiestruturadas (cinco mulheres; 24 homens; entre 22 e 80 anos), os participantes refletiram sobre suas práticas de colecionismo. O tamanho das coleções em número de itens colecionáveis variou de 30 a 100.000 itens, ao passo que seu valor oscilou desde R$ 40 até milhões de reais.
Todos os nomes apresentados são fictícios, impedindo a identificação dos participantes e de seus respectivos grupos. Em alguns casos, os sujeitos colecionam mais de um tipo de objeto, mas optamos por associar os participantes às coleções que melhor os representam. Complementarmente, os dados do caderno de campo foram triangulados com a observação não participante, permitindo ampliar a visão crítica sobre os fenômenos (Tarrow, 2019; Üsdiken & Kipping, 2022). Ao longo desse processo, pudemos observar as práticas de alguns participantes da pesquisa no interior de cada uma das dinâmicas do colecionismo. Entre os colecionadores de camisas, tênis e carros, acompanhamos as etapas de idealização e concepção do objeto colecionável a ser adquirido. Entre os participantes que colecionavam carros, moedas, miniaturas e minerais, observamos o processo de seleção, negociação e aquisição dos objetos, que ocorreu principalmente em feiras dedicadas a esses itens, nas quais estivemos presentes durante a pesquisa. Também observamos, por meio do método de observação não participante, a classificação e a manutenção dos itens colecionáveis, especialmente entre os colecionadores de camisas e antiguidades, que realizaram a gestão de suas coleções e nos apresentaram, in loco, o processo de classificação e cuidado com seus objetos.
Uma vez estabelecido o corpus da pesquisa, passamos à fase de análise e interpretação dos dados, seguindo as contribuições de Barreto (2018), com foco no conteúdo que emerge das narrativas acerca das identidades e identificações dos colecionadores. Nos voltamos para os trabalhos de Clandinin e Connelly (2015) e Silva et al. (2021) e adotamos a técnica de Análise Narrativa. Essa abordagem permite destacar de forma abrangente as experiências dos participantes, conectando suas narrativas ao contexto temporal em que ocorreram, ao mesmo tempo que explora o espaço tridimensional da pesquisa narrativa (Clandinin & Connelly, 2015). Durante esse processo, delineamos elementos que abrangem a situação (localização), a interação (pessoal e/ou social) e a continuidade (passado, presente e futuro). Em nossa pesquisa, dedicamos especial atenção a este último aspecto, considerando nossa visão da análise da memória como parte de um continuum que inclui passado, presente e futuro como um fenômeno unificado (Carvalho et al., 2021; Lyra et al., 2019).
Ao optar pela Análise Narrativa, fundamentamos nossa abordagem nas contribuições de Pentland (1999), Reuter (2007) e Santos et al. (2019), o que nos permitiu estruturar narrativas históricas com base em seis pressupostos orientadores, incluindo a reflexão sobre a intenção e a linguagem da narrativa: (1) o tema de pesquisa proposto; (2) o tempo narrativo; (3) a linguagem verbal e não verbal; (4) os personagens; (5) as vozes narrativas; e (6) os pontos de referência da ação. Uma vez definidos esses aspectos e partindo de nossa escolha de trabalhar com as narrativas de sujeitos que vivenciaram, vivenciam e pretendem vivenciar o colecionismo no futuro, consideramos “a intenção e a linguagem, como e por que os incidentes são narrados, e não simplesmente o conteúdo ao qual a linguagem se refere” (Riessman, 2008, p. 11). Dessa forma, a técnica adotada nos permitiu analisar como a linguagem é utilizada para transmitir as identidades significadas, bem como o sequenciamento dos acontecimentos atribuído a determinado tema. Depois disso, visando operacionalizar a etapa de armazenamento, categorização e codificação dos dados, contamos com o suporte do software Atlas.TI Cloud. No início da análise, chegamos a categorias que giravam em torno do continuum entre passado, presente e futuro. O passado foi vinculado (i) às formas pelas quais o colecionismo começou nas trajetórias dos sujeitos, (ii) ao significado do passado evocado pelos objetos e (iii) ao ato de colecionar como salvaguarda da história. Em seguida, a segunda categoria girou em torno do tempo presente, envolvendo (iv) a forma como esses sujeitos se expressam e se identificam por meio da atividade, foco principal deste trabalho, assim como (v) a organização em coletivos de colecionadores; (vi) a gestão da busca, aquisição, compra, transporte, catalogação, armazenamento, gestão dos espaços (e da falta deles), manutenção e possível venda de objetos colecionáveis; (vii) os aspectos financeiros vinculados à atividade como negócio; e, por fim, (viii) o futuro postulado com a realização das atividades, em um futuro que nunca se encerra. Esses procedimentos nos permitiram alinhar o foco deste recorte, analisar e discutir as várias narrativas identitárias presentes nas coleções dos participantes, conforme apresentado na próxima seção.
AS NARRATIVAS PLURAIS DOS SUJEITOS COLECIONADORES
Entre a posse, o ser e o prazer na experiência do colecionismo
Esta seção retoma elementos representativos das entrevistas que fornecem pistas sobre os processos de identificação dos colecionadores participantes. Em vez de extrair resultados conclusivos, apresentamos pontos de entrada para compreender o fenômeno do colecionismo com base no pressuposto teórico de que as coleções não são meramente formas de acumulação material, mas modos de inventar (Almeida, 2012), ver e apropriar-se do objeto (Benjamin, 2009), extrair prazer (Oliveira, 2017) ou expressar-se como ser humano (Bloom, 2003). Assim, o movimento dialético entre ter (a acumulação material) e ser (a reinvenção de si) abre um campo de possibilidades de identificação, incluindo algumas que permeiam a experiência do colecionismo, como procuraremos demonstrar a seguir.
Comecei a adquirir modelos e a entender mais aos poucos [...] Você descobre isso e cria uma vontade. Quando me dei conta, pensei: “Caramba, eu tenho uma quantidade considerável de tênis”. Percebi que eles eram muito específicos [...] e passei a me ver como colecionador (Thomas, tênis e sneakers).
A narrativa de Thomas reflete a natureza processual e inacabada das coleções, iniciadas tanto pela aquisição de objetos (ter) quanto pela autopercepção de um sujeito como colecionador (ser). As expressões “você descobre” e “isso cria uma vontade” demonstram como um desejo particular emerge na esteira da descoberta do colecionismo como prática potencial. Assim, mesmo antes de um indivíduo se considerar um colecionador, o desejo de colecionar estabelece a base para suas ações futuras. Esse sujeito, ainda não plenamente formado, mas que aspira tornar-se, encarna o processo histórico e contraditório do devir. Embora o processo de Thomas tenha começado com a aquisição de numerosos tênis, foi a especificidade dos objetos que lhe permitiu reconhecer o processo de identificação que o constituía como colecionador. Portanto, a formação do sujeito não pode ser dissociada dos significados socialmente construídos dessas ações.
O relato de Thomas alinha-se à narrativa dominante que posiciona o colecionismo como uma modalidade de acumulação intencional (Dohmann, 2017), mas simultaneamente complexifica essa noção por meio do desejo. Com efeito, ao longo das 29 narrativas da pesquisa, o desejo de colecionar emergiu como o princípio organizador central.
Eu coleciono tanto por prazer quanto por memória. Quando você completa alguma coisa, a sensação é muito boa [...] embora isso não seja inteiramente racional. O prazer vem [...] de valorizar tanto a sua coleção que alcançar seus objetivos traz satisfação (Givanildo, camisas de futebol).
Ser colecionador é uma satisfação pessoal. Diferente do meu filho, que foca em ter todas as camisas do ano [...] eu prefiro objetos antigos que me lembram minha família (Arnaldo, antiguidades).
As escolhas lexicais “prazer” e “satisfação pessoal” demonstram a coleção como um canal do desejo, embora suas manifestações variem entre os participantes. Para Givanildo, o prazer opera como uma forma de recompensa simbólica ao completar uma coleção (Dohmann, 2017), operando dentro de uma lógica de realização: as coleções são totalidades (sejam completas ou parciais), nas quais um prazer aparentemente irracional é racionalizado a partir do alcance de certos objetivos. Em contraste, Arnaldo dissocia o desejo de objetivos quantificáveis (por exemplo, “ter todas as camisas do ano”), ancorando-o, em vez disso, na memória afetiva familiar. Onde Givanildo dicotomiza prazer e memória, Arnaldo os sintetiza: colecionar torna-se um ato de rememoração.
Quanto ao papel da memória na constituição das identidades de colecionador (Moraes, 2021; Oliveira, 2017), os objetos evocam um passado inacabado. Para Arnaldo, as antiguidades materializam o tempo vivido, forjando vínculos emocionais com a história familiar (Moraes, 2021). Esses objetos condensam autoimagens, laços familiares e contextos espaço-temporais reinterpretados como prazer. Assim, o colecionismo emerge tanto como prática narrativa quanto como mecanismo de reordenação do mundo, ampliando a transformação do objeto (Dohmann, 2015; Sanches & Silva, 2018).
Ser colecionador é uma expressão da subjetividade... preservar, cultivar memória [...] A camisa traz aquela imagem de uma época, é um objeto ligado à história. Mas colecionar também é voltar no tempo [...] para a praça da minha infância, comprar camisas com a minha mãe (Volpi, camisas de futebol).
A coleção é um modo de ser, uma terapia... não para fugir da realidade, mas para lembrar o que ele viveu [...] Isso está no sangue dele, viver essa coisa. Ele passou por grandes momentos e quer guardar isso pela vida toda na forma de um objeto (Dionísio, miniaturas).
Os relatos de Arnaldo, Volpi e Dionísio corroboram a afirmação de Pedrão e Bizello (2016) de que os objetos colecionados servem como registros históricos do colecionador. Essas coleções materializam memórias persistentes (Dohmann, 2015, 2017), construindo uma ponte temporal entre passado e presente (Bosi, 2015; Bom Meihy & Seawright, 2020). Essa dinâmica transcende dicotomias convencionais entre sujeito e objeto, na medida em que os objetos se tornam lugares de (re)conhecimento contínuo que excedem a categorização científica (Sanches & Silva, 2018), ao mesmo tempo que possibilitam a retomada e a reconfiguração do passado (Benjamin, 2009).
Para além de sua função memorial, as coleções facilitam a expressão subjetiva (Volpi) e chegam mesmo a constituir modos de ser (Dionísio). Isso sugere que as identidades de colecionador não emergem por meio da internalização passiva de códigos sociais (Oliveira, 2017; Souza, 2017), mas por meio de processos ativos nos quais as identidades moldam ações e ambientes, reposicionando os sujeitos no interior de suas narrativas de vida. O caso de Volpi demonstra de forma particularmente clara como o colecionismo possibilita a expressão subjetiva por meio de práticas transformadas:
Eu uso as camisas para incorporar o que elas representam [...] Tirar para olhar é legal, mas usar é melhor. Ela está ali no seu corpo, incontestável. Isso faz você planejar sua vida na cidade, seguir seu caminho. Eu gosto de incorporar o estado de espírito que a camisa carrega (Volpi, camisas de futebol).
Usar uma camisa de coleção opera dialeticamente: ao mesmo tempo em que o objeto é utilizado, ele também é elevado como ponto focal da expressão corporal. Na prática de Volpi, seu corpo torna-se mediador do conteúdo simbólico da camisa (“o que elas representam”). Enquanto uma peça de vestuário convencional encobre o corpo, suas camisas curadas constroem uma corporeidade deliberada. Essa interface corpo-objeto-desejo acaba por reconfigurar a própria experiência urbana, demonstrando que o colecionismo excede funções memoriais para gerar ativamente modos de ser no presente. Assim, sob a aparência de estabilidade identitária (Cabana & Ichikawa, 2017), encontra-se uma reconstrução somática em curso, um processo no qual os objetos colecionados se tornam próteses do “self”, ou do “eu”.
O sujeito colecionador, o objeto colecionado e o outro que os enxerga
Para desenvolver as análises dos processos de construção de uma identidade de colecionador, é fundamental lembrar que a identificação envolve o reconhecimento, pelo sujeito, de um “eu” enunciado (Butler, 2020). Nas recordações, esse “eu” enunciado em primeira pessoa reconstrói sua imagem diante de um “outro” (o pesquisador) com base em memórias, afetos e expectativas que por vezes permanecem inconscientes. O momento da entrevista é apenas um fragmento que, embora essencial para seu registro, não constitui uma mera representação do sujeito enunciador. Portanto, não pretendemos dizer “quem” são os participantes da pesquisa, embora haja elementos biográficos que a atravessem. Assim, destacamos a construção da categoria “colecionador”, que é fundamentalmente relacional.
De repente, as pessoas começam a te chamar de colecionador (risos) [...] Foi através dos outros. A vida é sobre os outros, você não acha? [...] Me chamaram de colecionador de arte e isso pegou. Hoje, eu sou um colecionador de arte [...] Mas eu também me sinto assim (Cândido, obras de arte).
O caso de Cândido demonstra como as identidades de colecionador emergem de forma relacional, em que o autorreconhecimento (“eu sou”) e a validação externa (“as pessoas”) são processos mutuamente constitutivos. Sua narrativa revela que tornar-se colecionador não envolve meramente internalizar as percepções dos outros, mas incorporar o peso material-semiótico dos rótulos que lhe são atribuídos, em uma autoconstrução intersubjetiva (Menezes, 2014; Pollak, 1992).
O próprio objeto colecionado serve como outro eixo crucial. Como identifica Cravo (2017), o colecionismo de arte normalmente segue três motivações: paixão, status ou investimento. No contexto brasileiro, o colecionador de arte ocupa uma posição social imaginada como figura erudita, em que as obras de arte funcionam como marcadores duplos de capital econômico e distinção cultural. O ato de ser nomeado “colecionador de arte” (em vez de simplesmente “colecionador”) legitima uma posição social privilegiada diante do outro que nomeia. De modo significativo, mesmo no caso de objetos menos valorizados culturalmente, a designação “colecionador” tende a gerar uma autorrepresentação positiva, reforçando ainda mais o caráter fundamentalmente relacional e socialmente imbricado dessas formações identitárias.
Todo colecionador tem suas vaidades [...] ele quer mostrar sua coleção. “Eu tenho, eu consegui, só eu consegui [...] olha como isso está impecável, isso é raro, eu paguei tanto.” Com certeza existe esse lado da vaidade (Bernardo, discos de vinil).
A narrativa de Bernardo coloca o desejo em primeiro plano como constitutivo da formação da identidade de colecionador. Sua autoapresentação se centra naquilo que ele reflexivamente denomina “vaidade”, uma busca por reconhecimento mediada pela dialética entre ver e ser visto da coleção (Almeida, 2012; Dohmann, 2017). Embora não aspire à fama, suas práticas cotidianas revelam como o colecionismo funciona ao mesmo tempo como enunciado autobiográfico e reivindicação social: o agrupamento visível confere visibilidade ao seu curador, ainda que em circuitos limitados.
De modo significativo, o desejo de Bernardo manifesta-se por meio de lógicas capitalistas de posse (“eu tenho/eu paguei”) e de autossuperação (“eu consegui”). Seu relato exemplifica o que Benjamin (2009) teorizou como a dupla subjetividade capitalista do colecionador, simultaneamente proprietário e conquistador autodeterminado dos desafios da aquisição. No entanto, é preciso advertir o leitor contra a universalização dessa “vaidade” como essencial à subjetividade do colecionador. Como demonstra a narrativa contrastante de Cândido (e como o caso de Lucca iluminará ainda mais), essas articulações do desejo operam em imaginários sociais específicos. O “eu” do colecionador emerge por meio de olhares plurais e contingentes, jamais como uma formação singular.
Poucos gostam de se exibir. Eles preferem conversar com outros colecionadores, é uma linguagem especial [...] Porque nós somos considerados loucos. É assim que os outros nos veem: como loucos ou extravagantes por gastar dinheiro com essas coisas (Lucca, antiguidades).
A narrativa de Lucca desestabiliza a premissa de Bernardo sobre a exibição da coleção. As caracterizações atribuídas aos colecionadores como “loucos” ou “extravagantes” revelam identidades de colecionador que subvertem o prestígio social do colecionador de arte, apontando para uma ininteligibilidade fundamental. Aqui, a operação de nomeação confere ao “eu” (colecionador) um estigma, ou mesmo uma identidade negativamente percebida pelo “outro”. Diferentemente de Cândido, Lucca coleciona objetos socialmente desvalorizados, itens díspares sem organização temática ou funcional. Essa prática desafia a racionalidade instrumental e gera estigmas na sociedade e nas relações pessoais.
No contexto da sociedade moderna, esses objetos são discursivamente construídos como dotados de menor valor, enquadrando o colecionador como “louco” por rejeitar a racionalidade instrumental ou “extravagante” por gastar dinheiro visando acumular objetos de baixo valor de uso. No entanto, Lucca demonstra que a identidade do colecionador transcende as percepções do outro. Ao evocar a afinidade entre colecionadores, sua narrativa revela como o colecionismo cria experiências compartilhadas e pertencimento. Com efeito, tais dinâmicas identitárias são fluidas: o mesmo ato que gera leituras negativas (por parte de não colecionadores) pode produzir reconhecimento positivo entre pares. Não se trata de binários fixos (colecionador = autopercepção positiva; não colecionador = percepção negativa do outro), mas de processos dinâmicos e contraditórios.
A singularidade da identificação emerge por meio das relações entre o colecionador, o objeto colecionado e os observadores. O colecionador não é redutível aos discursos externos, pois pode contestar as narrativas que o definem. Assim, a agência individual torna-se fundamental para analisar posições subversivas que transformam a identificação em constante ressignificação de si, como argumenta Menezes (2014). Ao examinarmos colecionadores de objetos socialmente desvalorizados, vemos que a identidade de “colecionador” nem sempre confere prazer. Para explorar como significados negativos (por exemplo, “loucura”, “extravagância”) podem ser superados, precisamos analisar a relação colecionador-objeto.
Eu já tinha um olhar para os objetos [...] Eu olho para eles em 360 graus, não apenas na posição original. Eu os vejo de cabeça para baixo; às vezes eles me levam a criar novos objetos [...] Você viu coisas aqui que eu transformei, como as bicicletas no teto (Reginaldo, objetos cotidianos).
Segundo Benjamin (2009), o ato de colecionar só se torna possível quando a funcionalidade do objeto é retirada, isto é, sua função primitiva. Ao fazer isso, o colecionador reaproxima-se do objeto sob outras condições, investindo-o de outros simbolismos que permitem o encantamento. Por meio das memórias de Reginaldo, os objetos oferecem um horizonte de possibilidades de significação muito além daquelas estabelecidas pela ortodoxia de sua função. Mudar a maneira de olhar para as coisas também muda o próprio objeto, que aparece como um outro transformado. Nesse sentido, a coleção oferece ao colecionador uma abertura para criar.
Com a permissão de Reginaldo, fizemos esse registro durante uma de nossas visitas a um de seus nove galpões de objetos cotidianos. As bicicletas no teto desafiam nossa própria apreensão do que é uma bicicleta, pois ela perde sua funcionalidade inicial como um meio de transporte sobre o qual se pedala. Ao retirá-la desse eixo de significação, ela pode tornar-se outra coisa em um lugar que causa estranhamento (o teto). De modo geral, o galpão de Reginaldo desafia a racionalidade instrumental ao exibir objetos empilhados e aparentemente desorganizados. No entanto, quando questionado, ele afirma que estes estão organizados em uma “desordem cronológica” e organizados em seções de acordo com seus interesses. Assim, a desorganização oculta outras formas de organização que não são apreensíveis por aqueles que buscam, de antemão, uma ordenação segundo a função.
Ao chamar a si mesmo de “objeteiro”, Reginaldo transforma sua relação com os objetos em uma atividade cotidiana. Aqui, nos valemos da figura do “objeteiro” como sinônimo de “colecionador”, uma vez que nenhum dos dois termos se encaixa em formas preconcebidas de relação com os objetos. Cada objeto passa por um circuito particular de identificações que exige de Reginaldo uma postura de “objeteiro”; isto é, de alguém disposto a mergulhar nessa relação e nas múltiplas formas de recriação do ser (Correia et al., 2020; Monteiro et al., 2017), neste caso, um colecionador.
Além disso, propomos que os processos de subjetivação são compostos por relações complexas entre o sujeito colecionador, o objeto colecionado e o “outro” que os enxerga. Apesar das múltiplas possibilidades de significação de si abertas nessas relações, há condições mais amplas que atravessam o ato de colecionar. Diferentemente de Reginaldo, que reconfigurou sua vida para dedicar-se à coleção, a maioria dos participantes enfrenta um limite da coleção e, simultaneamente, os limites de sua própria identidade de colecionador. Com efeito, o fragmento narrativo abaixo é representativo nesse sentido:
Todo colecionador é obcecado com a própria coleção [...] você perde completamente o limite [...] é uma questão de desejo, de sempre perpetuar. Aí [...] esse desejo deixa de fazer sentido. Então você passa para outro desejo [...] Se você não tiver controle, é como se você se tornasse um refém. Você vai virar um refém. E um refém economicamente também (Bernardo, discos de vinil).
Para além de estabelecer que a identidade de colecionador não é fixa, mas dialética (Vuuren et al., 2012), argumentamos que ela também não é singular, coexistindo com outras posições identitárias (Woodward, 2009). A narrativa de Bernardo ilustra essa fluidez por meio de um momento de ruptura: sua identidade como colecionador entra em tensão diante de limites simbólicos (angústia, perda de sentido) e constrangimentos materiais (custo). Essa crise interroga sua concepção de si: colecionar se reduz a “querer ter mais”? Quando os objetos perdem o sentido, a identidade persiste apenas por meio de novos desejos? Quem domina quem, o sujeito ou o objeto?
Essas questões revelam que nosso foco não está na permanência da coleção, mas no sujeito para além da identidade de colecionador. As coleções funcionam como dispositivos de subjetivação, criando condições para novos modos de ser por meio das relações entre o eu, o outro e o objeto. O investimento simbólico e material no colecionismo reconfigura perspectivas, modos de existir e a própria vida, em um processo que persiste mesmo que as coleções cheguem ao fim.
Sustentamos, assim, que as coleções geram novas condições para a emergência subjetiva. A tríade eu/outro/objeto abre possibilidades para novos modos de ser. Investir no colecionismo é transformar olhares, reconfigurar a própria visibilidade e alterar a vida de forma holística. Mesmo as coleções encerradas deixam para trás transformações duradouras, em um processo que excede a intenção subjetiva. Embora reconheçamos contradições na relação entre colecionadores e posse de objetos (o que pode torná-los reféns do desejo), rejeitamos seu enquadramento como mera resignação passiva. Em vez disso, o colecionismo revela agência: os sujeitos recriam simultaneamente a si mesmos e seus objetos por meio de práticas de identificação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das narrativas de colecionadores brasileiros, examinamos como identidades e identificações são compostas por meio da memória, da materialidade e da organização cotidiana. Com base em nosso posicionamento introdutório, conceituamos a memória como um fenômeno social, seletivo e situado e tratamos o colecionismo como uma janela empírica para modos mundanos de organizar que costumam ser negligenciados pela teoria da gestão dominante. Nossa análise demonstra que o colecionismo não pode ser reduzido à acumulação material: ele opera como uma forma de inventar, ver e apropriar-se dos objetos, bem como fonte de prazer e reinvenção de si. Nesse sentido, o ato de colecionar reordena as relações entre sujeito, objeto e sociedade, abrindo vias de identificação que excedem a lógica simples da posse.
Empiricamente, os relatos iluminam como desejo, prazer e memória estruturam o trabalho de identificação. Ao longo dos casos, tornar-se colecionador é narrado como um processo - descobrir, aspirar, ser nomeado e reconhecer-se - e não como um estado fixo. Os objetos mediam esse processo ao condensarem o tempo vivido, possibilitarem ressignificações e, por vezes, serem usados ou exibidos para efetivar identidades no presente. O reconhecimento por parte de outrem molda ainda essas trajetórias: a mesma prática pode atrair prestígio, indiferença ou estigma, e tais leituras oscilam entre públicos e situações. Essas dinâmicas mostram que as identidades de colecionador são plurais, negociadas e historicamente situadas.
Teoricamente, contribuímos ao especificar uma lente analítica que relaciona a identificação a uma tríade sujeito-objeto-outros. Essa lente esclarece como as identidades dependem de (i) posições de sujeito narradas e efetivadas ao longo do tempo; (ii) das propriedades, trajetórias e transformações dos objetos colecionados; e (iii) dos públicos e interlocutores que reconhecem, valorizam ou contestam reivindicações identitárias. Ela também coloca em primeiro plano a memória como uma força ativa, orientada ao presente, que conforma essas relações, trazendo para os estudos organizacionais o trabalho de organizar inscrito no colecionismo como um espaço em que a legitimidade é negociada e os “eus” são compostos.
Essa lente triádica convida a pesquisas futuras atentas aos processos de identificação. Estudos posteriores podem comparar configurações entre diferentes domínios do colecionismo e contextos organizacionais (clubes, feiras, mercados e plataformas on-line), acompanhar longitudinalmente como mudanças nos objetos e nos públicos reorientam a identificação e examinar como práticas de cuidado, classificação e exibição estabilizam ou desestabilizam o reconhecimento ao longo do tempo. Ao tratar o colecionismo como um terreno privilegiado no qual identidade, memória e organização cotidiana se encontram, nosso estudo oferece um caminho claro para investigar como sujeitos, objetos e outros coproduzem quem as pessoas são - e como passam a ser vistas - no fluxo da vida ordinária.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo financiamento do projeto APQ-00845-22, coordenado por Alexandre de Pádua Carrieri, em que o autor Gabriel Farias Alves Correia atuou como bolsista. Agradecem também ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa e pelo apoio concedidos ao autor Alexandre de Pádua Carrieri.
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[Versão traduzida]
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
O conjunto completo de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente, Gabriel Farias Alves Correia. Este conjunto não está disponível publicamente pois contém informações que podem comprometer a privacidade dos participantes da pesquisa.
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PARECERISTAS
Carlos Eduardo Lima (Fundação Getulio Vargas, São Paulo / SP - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7518-499X
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PARECERISTAS
Dois pareceristas não autorizaram a divulgação de suas identidades.
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RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO POR PARES
O relatório de avaliação por pares está disponível no link a seguir: URL. https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/97420
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