Nesta última edição de 2024, gostaríamos de refletir sobre nossas pesquisas empíricas e ensaios teóricos e científicos como expressões da natureza humana e suas interações com o conhecimento. Não raramente, a academia é descrita como uma assembleia de indivíduos arrogantes, teóricos, distantes do “mundo real”. Por outro lado, os acadêmicos tendem a nutrir um certo desprezo pelo mundus communis. Arendt (2018) usou este conceito de “mundo comum” para descrever o espaço público onde os seres humanos interagem e constroem uma realidade compartilhada por meio do discurso e da ação.
Nesse espaço público, discursos rasos, equivocados e falsos são propositadamente produzidos, reproduzidos e consumidos sem que haja nenhuma reflexão crítica, pois há sujeitos ávidos por fatos e dados, mesmo que falsos, que atendam às suas necessidades racionais e cognitivas (Albright, 2017) e tenham saciada sua necessidade de autoafirmação (detentores de um conhecimento ou informação privilegiada), de pertencimento a um grupo, as chamadas “tribos”, e, por fim, de conexão emocional com um assunto ou personalidade específica (Girão et al., 2023). E quando os acadêmicos se deparam com esses (fragmentos de) discursos, não hesitam em afirmar: “A ignorância é atrevida.”
Todavia, a rigor, o que é ser atrevido? O que é ser ignorante? Responder a essas perguntas é o primeiro passo para (re)pensarmos nossos papéis sociais como professores e pesquisadores.
O atrevimento pode ser considerado falta de consciência das limitações e, nesse sentido, aqueles que têm pouco entendimento sobre determinado assunto superestimam sua compreensão, sobrevalorizam seu parco conhecimento e se posicionam com excesso de confiança. Na psicologia, esse comportamento é descrito como efeito Dunning (2005), ou seja, indivíduos com baixo nível de habilidades ou conhecimento sobre uma área específica não conseguem reconhecer as próprias limitações e, como resultado, acabam agindo com mais autoconfiança do que pessoas que possuem mais expertise. Esse atrevimento da ignorância pode levar a opiniões firmes e mal fundamentadas, julgamentos apressados e até ações imprudentes, muitas vezes sem considerar que a situação demanda mais conhecimento ou reflexão.
O atrevimento também pode ser caracterizado como rejeição ao conhecimento, isto é, resistência ao aprendizado ou ao reconhecimento da ignorância. Em muitos casos, as pessoas preferem manter suas crenças e preconceitos, mesmo quando confrontadas com evidências ou fatos que os contradigam. Esse atrevimento se manifesta na teimosia ou na recusa em considerar diferentes perspectivas ou aprender algo novo. A ignorância, nesse caso, é atrevida porque se recusa a ceder ao esclarecimento.
No limite, ao afirmarmos que a “ignorância é atrevida”, entendemos que essa “autoconfiança desinformada” está inserida num contexto social e político, em que indivíduos ou grupos com conhecimento limitado sobre questões complexas, como ciência, política ou economia, podem defender ideias com convicção sem estarem cientes das nuances ou implicações de seus posicionamentos. Esse atrevimento da ignorância pode gerar discussões superficiais, polarizações e até a disseminação de desinformação, em que a confiança desinformada passa a ser uma força impulsionadora.
A ignorância, por muito tempo considerada apenas ausência de conhecimento, tem sido amplamente revisitada nos estudos contemporâneos, o que revela sua natureza multifacetada e seu papel central nas dinâmicas sociais e científicas. Desde as primeiras discussões no início do século XX até abordagens mais recentes, o conceito de ignorância evoluiu para uma dimensão mais complexa, tornando-se um objeto de estudo em si e um fator essencial na geração e gestão do conhecimento.
Para Sócrates, reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento. Ele acreditava que muitos indivíduos viviam em um estado de ignorância sem saber que estavam ignorantes. O famoso ditado “só sei que nada sei” reflete esta noção: a sabedoria começa quando a pessoa reconhece os limites do próprio conhecimento. Sócrates promovia o questionamento constante e o diálogo (a maiêutica) como formas de combater essa ignorância, levando as pessoas a uma maior compreensão de si mesmas e do mundo.
Já na visão de Platão, a ignorância estava intimamente ligada à sua teoria das ideias (ou das formas). Ele acreditava que o mundo sensível, o mundo das aparências, enganava as pessoas e as mantinha em um estado de ignorância em relação à verdade. No Mito da Caverna, Platão descreve como os seres humanos, presos em uma caverna, confundem sombras com a realidade, sendo ignorantes da verdadeira natureza das coisas. A filosofia e o conhecimento, para Platão, eram os meios para sair dessa ignorância e alcançar o mundo das ideias, no qual a verdade e o bem são plenamente conhecidos.
Aristóteles também tratou da ignorância, mas com um enfoque mais prático e ético. Em sua ética a Nicômaco, ele discute a ignorância em relação às ações humanas e suas consequências. Para ele, a ignorância poderia ser classificada como ignorância culpável (quando alguém ignora algo que deveria saber) ou não culpável (quando a ignorância está além do controle da pessoa). A ética de Aristóteles está profundamente conectada ao conhecimento e à sabedoria prática (a phronesis), sugerindo que a virtude está em agir com base no conhecimento correto.
Por fim, os filósofos da escola cética, como Pirro, tinham uma visão diferente da ignorância. Eles argumentavam que a verdade absoluta era inacessível ao ser humano e, portanto, a postura mais sábia era suspender o julgamento sobre as coisas (a epoché). Para os céticos, a ignorância era inerente à condição humana, e reconhecer isso trazia tranquilidade e paz de espírito (a ataraxia).
Nesse caso, qual seria o papel dos educadores e pesquisadores no que tange à ignorância? Como instigar a busca pelo entendimento dos mais variados fenômenos?
A maiêutica socrática como método de ensino e a epoché como escolha ontológico-epistemológica parece-nos as escolhas mais apropriadas, pois a ignorância não é simplesmente a falta de conhecimento; a rigor, muitas vezes, envolve o autoengano ou a ilusão de saber. Combatê-la implica uma jornada filosófica em busca do conhecimento verdadeiro, seja sobre si mesmo (Sócrates) ou sobre o mundo das Ideias (Platão), seja sobre a ação correta (Aristóteles).
Já para os teóricos da Escola de Frankfurt, a ignorância é um conceito que está intrinsecamente ligado às ideias de alienação, dominação e manipulação social.
A associação entre ignorância e alienação jaz na crítica ao capitalismo e às sociedades industrializadas, uma vez que a alienação ocorre quando as pessoas se afastam de seu verdadeiro potencial humano, sendo absorvidas pelas forças do mercado e da produção (Marx, 1991). Esse processo aliena os indivíduos de sua capacidade crítica e do entendimento de sua situação real, levando à perpetuação de formas de dominação e desigualdade. A ignorância, nesse contexto, não é uma falha pessoal ou um simples desconhecimento de fatos, mas, sim, uma consequência da alienação social e econômica, em que os indivíduos estão desconectados da própria consciência crítica e do entendimento das forças que moldam suas vidas. Assim, Adorno, Horkheimer e Marcuse percebem a ignorância como um fenômeno que não é simplesmente a ausência de conhecimento, mas algo sistematicamente construído e mantido em sociedades capitalistas, especialmente por meio da indústria cultural, da racionalidade instrumental e de estruturas de poder opressivas.
A rigor, Adorno e Horkheimer (1985) argumentam que a indústria cultural (a produção em massa de entretenimento e cultura sob o capitalismo) desempenha um papel fundamental na produção e manutenção da ignorância. Por meio do cinema, da televisão, da música popular e de outras formas de cultura de massa, a indústria cultural oferece distração e conformismo, afastando as pessoas de uma reflexão crítica sobre sua condição social e política, espaço este que não é ocupado nem pelas escolas, nem pelas produções acadêmicas. No limite, o entretenimento se torna um meio de dominação em vez de emancipação, promovendo uma ignorância coletiva ao desviar a atenção de questões políticas e sociais importantes.
Cabe-nos, então, repensar nossos modelos e métodos de ensino, bem como os meios de divulgar nossas pesquisas, para que sejam percebidas como mais aplicáveis e inteligíveis, uma vez que a ignorância é fabricada ao longo do processo em que os indivíduos são expostos a uma cultura superficial, que reforça a passividade, a aceitação do status quo e a falta de questionamento sobre as estruturas de poder.
Sob esse olhar ontológico, a ignorância também está relacionada com a dominação ideológica. Aqui entende-se ideologia não apenas como um conjunto de crenças, mas uma forma de manipulação que distorce a realidade para manter o poder de certos grupos sociais (Williams, 2007). A ignorância é, assim, cultivada pela ideologia dominante, que oculta as verdadeiras condições de exploração e opressão. Esta seria não uma externalidade, mas um projeto da sociedade industrial, na qual se cria um estado de “falsa consciência”, em que as pessoas acreditam que estão livres, quando, na verdade, estão presas a um sistema que limita sua liberdade e criatividade (Marcuse, 2015). Essa falsa consciência é uma forma de ignorância, na qual o indivíduo é levado a acreditar que suas necessidades e desejos são satisfeitos pelo consumismo e pela conformidade, enquanto questões maiores, como justiça social, igualdade e emancipação, são negligenciadas.
Num contraponto a esses teóricos críticos, os pós-modernos entendem que a ignorância é simplesmente a ausência de conhecimento ou um estado a ser superado por meio da razão e está associada a uma crítica das ideias de verdade absoluta, objetividade e conhecimento universal. Os pós-modernos, por sua vez, questionam os pressupostos que sustentam as narrativas tradicionais sobre o conhecimento, a ciência e o progresso. Aqui estão alguns pontos centrais sobre como a ignorância é vista na filosofia pós-moderna. De fato, para Lyotard (2021), a ignorância está ligada à crítica das “grandes narrativas” (ou metanarrativas), que são as explicações abrangentes e totalizantes sobre a verdade, a história e o progresso. A modernidade, com sua ênfase na ciência e na razão, criou essas grandes narrativas, como o Iluminismo, o marxismo ou o capitalismo, que pretendem oferecer uma visão universal da realidade. Com base em uma perspectiva pós-moderna, a ignorância pode ser vista como uma rejeição da ideia de que exista uma verdade única e universal. Em vez disso, o conhecimento é fragmentado, plural e localizado. Portanto, o que pode ser visto como ignorância em um contexto pode ser visto como uma forma válida de conhecimento em outro, dependendo das condições culturais, históricas e sociais.
Foucault (2014), por sua vez, oferece uma visão complexa da ignorância, especialmente em relação à sua teoria do poder e do conhecimento, uma vez que ele entende que o conhecimento está sempre relacionado com o poder - aqueles que detêm o poder também controlam o que é considerado conhecimento válido. A ignorância, portanto, não é apenas a falta de conhecimento, mas algo que pode ser deliberadamente produzido para manter as estruturas de poder. Foucault debruça-se sobre a produção de ignorância por meio de discursos que excluem certos saberes ou experiências. Por exemplo, a exclusão de certas formas de conhecimento ou a marginalização de grupos sociais contribuem para a manutenção da ignorância. Portanto, a ignorância pode ser um efeito da maneira como o poder molda e restringe o conhecimento em uma sociedade. A produção da ignorância pode ser usada para controlar populações, limitar a crítica social e sustentar sistemas de dominação.
Os pós-modernos ainda vão discutir a ignorância sob uma ótica relativista (Rorty), como uma forma de se questionar a racionalidade moderna (Derrida) ou, ainda, como um elemento da pluralidade de saberes (Lyotard). Em comum, esses diferentes entendimentos levam a uma crítica das noções de ignorância que são baseadas em critérios universais de verdade. A rigor, sugerem que devemos aceitar a multiplicidade de perspectivas e compreender que o conhecimento é sempre situado em contextos culturais e históricos específicos.
Há ainda a proposta de Scott (2013), que apreende a ignorância como uma forma de resistência. Em suas análises sobre as formas de resistência ao poder, a ignorância (ou o que é visto como ignorância pelas elites) pode ser uma maneira de desafiar as formas hegemônicas de conhecimento e poder. Grupos subalternos podem optar por não se engajarem nos modos dominantes de conhecimento e criar as próprias formas de saber, que são vistas como ignorantes pelas elites, mas que, na verdade, servem como ferramentas de resistência.
A ignorância é um conceito que não pode ser facilmente reduzido à falta de conhecimento. Ela está profundamente ligada às relações de poder, às condições culturais e à linguagem; pode ser tanto um produto de sistemas de dominação quanto uma forma de resistência a esses sistemas. A rigor, a chamada “ignorância individual”, frequentemente interpretada como um déficit que poderia ser corrigido com a aquisição de mais informações, tem uma função social (Simmel, 1908), uma vez que a falta de conhecimento não só estabiliza as relações sociais, mas pode ser intencionalmente mantida para proteger as normas estabelecidas ou evitar conflitos sociais (Merton, 1936).
A partir da década de 1970, a ignorância passou a ser vista como algo socialmente construído (Schütz & Luckmann, 1979), e não apenas um estado passivo, pois ela é moldada por fatores sociais e políticos, sendo uma ferramenta deliberadamente usada para influenciar o poder e o controle de informações: a “ignorância cultivada” (Foerster, 2003). Esse conceito construtivista enfatiza que o desconhecimento não é apenas resultado de uma lacuna, mas também pode ser manipulado para proteger interesses específicos.
Nos últimos anos, as pesquisas sobre a ignorância estrutural (Luhmann, 1992; Ravetz, 2004) têm proposto que quanto mais a ciência avança, mais ignorância ela produz. Esse paradoxo desafia a visão tradicional de que o conhecimento é o antídoto para a ignorância. Pelo contrário, a geração de conhecimento inevitavelmente produz novas formas de ignorância, que, por sua vez, impulsionam novas questões científicas.
Essa nova visão exige que não apenas aceitemos a ignorância como uma parte inevitável do processo de descoberta científica, mas que também a utilizemos de maneira produtiva. Cabe-nos, como professores e pesquisadores, usar a ignorância como um motor para a formulação de novas perguntas e para a criação de processos investigativos que ampliem a capacidade reflexiva dos indivíduos, bem como a compreensão dos fenômenos. Dessa forma, a ignorância não é um obstáculo que deva ser sempre superado, mas uma dimensão inerente ao processo de construção de conhecimento. Ao reconhecermos sua complexidade e seu papel estrutural, passamos a lidar, de forma mais consciente, com suas implicações tanto na ciência quanto na sociedade. A gestão da ignorância, assim como a do conhecimento, é um desafio permanente, e entender essa dialética nos ajuda a avançar com maior clareza e propósito no campo da pesquisa científica.
REFERÊNCIAS
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