Resumo
Nas últimas décadas, a reestruturação do capitalismo impulsionou o avanço das tecnologias de comunicação, marcando a revolução digital. Nesse contexto, surgiram plataformas como o Airbnb, que transformaram mercados e aspectos da vida social. Este artigo investiga o impacto do Airbnb na regionalização do espaço vivido em Belo Horizonte, com base nas avaliações de usuários. Utiliza-se uma abordagem inovadora que combina extração de dados digitais, análise qualitativa e geoprocessamento. Os resultados mostram que as percepções dos usuários reforçam centralidades urbanas já existentes, ao mesmo tempo que ressignificam a regionalização e a experiência territorial nas cidades, indicando transformações simbólicas e funcionais no espaço urbano contemporâneo.
Palavras-chave:
Airbnb; urbanismo de plataforma; regionalização; espaço vivido; Belo Horizonte
Abstract
In recent decades, the restructuring of the capitalist system has driven the development of communication technologies, defining the digital revolution. Within this context, platforms like Airbnb emerged and have been reshaping markets and social life. This article analyzes Airbnb's impact on the regionalization of the lived space in Belo Horizonte, based on user reviews. The research employs an innovative approach that combines digital data extraction, qualitative analysis, and geoprocessing techniques. Results show that users' perceptions reinforce existing urban centralities while redefining regionalization and the territorial experience in the cities, reflecting symbolic and functional transformations in the contemporary urban landscape.
Keywords:
Airbnb; platform urbanism; regionalization; lived space; Belo Horizonte
Introdução
O modo de produção capitalista passou por profundas transformações nas últimas décadas do século XX, ligadas a um período contínuo de crises em seu regime de acumulação (Harvey, 1989). Essas mudanças culminaram na desregulamentação dos fluxos de capitais, na terceirização e redução nos custos de produção, na implementação de sistemas de gestão flexíveis, precarização das relações de trabalho e perda de poder da classe trabalhadora. Houve um impulsionamento no desenvolvimento de tecnologias de processamento de dados e de comunicação, que culminaram naquilo que foi denominado de “revolução digital”. Seu aspecto mais marcante foi a universalização do uso da internet, associada à expansão planetária da telefonia móvel e da utilização de aplicativos digitais.
Produto de investimentos visando acelerar a velocidade de circulação do capital, a revolução digital acabou criando novas modalidades de negócios, cujo aspecto mais marcante foi o surgimento de enormes conglomerados empresariais que se colocaram como plataformas monopolistas em novos espaços de geração de valor. As plataformas empresariais foram responsáveis pela reestruturação de diversos tipos de mercado e pela criação de muitos outros, impactando diversas dimensões da vida social (Van Dijck et al., 2018). No que tange às transformações do espaço urbano e a paisagem das cidades contemporâneas, duas dessas plataformas, a Uber e o Airbnb, reestruturaram os mercados de transporte e hospedagem, respectivamente, e vem reconfigurando a maneira com que atuamos e pensamos o espaço urbano atual (Barns, 2020).
No presente artigo, dedicamo-nos a estudar o impacto da disseminação do Airbnb na configuração do espaço urbano do município de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Nosso objetivo é entender como o uso contínuo dessa plataforma diferencia os espaços internos do município através de um processo de regionalização do espaço vivido (Lefebvre, 1991), delineada pelos próprios usuários que interagem de forma mediada pela e na plataforma. Pretende-se mostrar como as impressões deixadas pelos usuários nas avaliações das acomodações caracterizam os espaços onde elas estão localizadas, reforçando ou revertendo atributos que são utilizados como referências para classificação compartilhada das áreas. Assim, parte-se da premissa de que essas avaliações pautam as ações de outros usuários e reificam as características dos lugares, ao reforçarem seus atributos ao longo do tempo.
A estratégia analítica adotada para a realização de nosso estudo de caso foi o desenvolvimento de uma abordagem de pesquisa inovadora que mesclou o uso da extração de dados digitais, análise de dados qualitativos e técnicas de geoprocessamento. Nosso objetivo foi espacializar (geo) as percepções (quali) dos usuários das plataformas, acessíveis através da raspagem (data extraction) das avaliações de todas as acomodações listadas na plataforma Airbnb em Belo Horizonte no ano de 2024. A internet possibilita uma inovação em termos de pesquisa social, qual seja, a capacidade de coleta de dados em grandes quantidades, na forma de “rastros digitais” deixados pelos usuários da rede. Ao serem captados através de procedimentos de extração de dados (data extraction), na forma de web scraping, geram conjuntos de dados (big data) que podem ser “lidos” como atributos espaciais e comportamentais existentes nas plataformas. Proporcionam assim acesso a domínios anteriormente só possíveis via grandes surveys e permitem, na junção entre esses atributos, captar formas de regionalização do município a partir de atributos destacados pelos usuários.
Os achados da presente investigação indicam que, embora as percepções registradas no Airbnb reforcem centralidades urbanas preexistentes, também revelam dicotomias significativas na interpretação do espaço vivido. Além disso, observa-se uma redefinição nas escalas de regionalização do espaço urbano, sugerindo dinâmicas mais complexas e nuances na maneira como os territórios são percebidos e organizados. Essas mudanças, por sua vez, refletem a capacidade das plataformas digitais de reconfigurar simbolicamente os territórios, promovendo interpretações que desafiam concepções tradicionais de centralidade e atribuindo novos significados aos espaços urbanos no contexto contemporâneo.
Além de possibilitar a investigação da dinâmica urbana do município selecionado, o artigo busca trazer uma inovação metodológica decorrente dos próprios processos estudados. A disseminação do uso do Airbnb permite acessar atributos espacializados para quase todo o território do município. Além disso, a plataforma disponibiliza a seus usuários uma ferramenta para escreverem avaliações sobre os locais em que se hospedaram, avaliações que invariavelmente incluem impressões desses usuários sobre o entorno onde a propriedade se localiza. A aplicação de procedimentos de análise de dados qualitativos permite codificar essas avaliações e, com isso, acessar os padrões espaciais dos atributos das avaliações. Técnicas de análise geoespacial favorecem a regionalização desses atributos e compreensão da distribuição desses padrões espaciais de percepções sobre o município feitas por indivíduos que por ele circulam. Tal inovação metodológica tem elevado potencial acadêmico, dado que o método utilizado pode ser facilmente aplicado a qualquer município onde a plataforma está presente, o que hoje significa, por exemplo, quase a metade dos municípios do Brasil.
Transformações no capitalismo e plataformas
As transformações no regime de acumulação capitalista observadas nas primeiras décadas do século XXI decorrem do desdobramento de tendências que já estavam presentes e podiam ser observadas nas últimas duas décadas do século passado. O resultado do processo provocou, segundo Castells (1999), a formação de uma nova estrutura social, que ele conceituou como “Sociedade em Rede” por ser constituída por redes em todas as dimensões fundamentais da organização e da prática social. Embora, segundo o autor, as redes sejam uma antiga forma de organização na experiência humana, as tecnologias digitais alimentaram e possibilitaram uma infinita expansão e reconfiguração desse tipo de estrutura relacional, superando as limitações tradicionais dos modelos organizacionais de formação de rede. A explicação para o impulsionamento da transformação tecnológica que culminou na Sociedade em Rede de Castells originou-se das pressões decorrentes da constituição de um mercado financeiro global e de reestruturações no processo de produção de mercadorias e oferta de serviços. Segundo o autor, essa estrutura de mercado reestruturou e reforçou os lugares, velhos e novos, de onde os fluxos globais de capital são geridos.
A revolução da tecnologia da informação foi essencial para a implementação de um importante processo de reestruturação do sistema capitalista a partir da década de 1980, reestruturando-o de forma a substituir o modelo keynesiano de crescimento capitalista, que levou à prosperidade do regime no período pós-guerras. Esse período, que vigorou durante quase três décadas após a Segunda Guerra Mundial, atingiu as próprias limitações no início da década de 1970. A partir de pressões inflacionárias e de superprodução advindas da dinâmica interna do próprio sistema capitalista, houve um esforço decisivo e uma série de reformas a favor da desregulamentação, da privatização e do desmantelamento do contrato social entre capital e trabalho, tanto no âmbito das instituições como do gerenciamento empresarial.
A inovação tecnológica e a transformação organizacional com enfoque na flexibilidade e na adaptabilidade foram absolutamente cruciais para garantir a velocidade e a eficiência da reestruturação do regime capitalista de produção (Castells, 1999). Segundo o autor, o informacionalismo está ligado ao rejuvenescimento do sistema, sendo sua marca distintiva do período anterior, marcado pelo industrialismo. Pelo lado do mercado de capitais, o radicalismo imposto pela predominância desse processo de acumulação, cuja centralidade é dada pela valorização do capital em sua forma financeira, tem levado autores a afirmar que hoje vivemos em uma espécie de Tecnofeudalismo, assentado sobre a dominância de um Capital Fictício (Duran, 2024). Pelo lado da produção de bens e da oferta de serviços, as tecnologias emergentes surgiram do desdobramento de tendências capitalistas mais profundas, inaugurando um novo regime de acumulação ou como continuação de regimes anteriores. Uma das características principais do capitalismo é que ele exige mudanças tecnológicas constantes. Desse modo, como o assim chamado “Fordismo” começou a desmoronar na década de 1970 em decorrência da produção global atingir um ponto de excesso de capacidade e superprodução que pressionou para baixo os preços dos bens manufaturados, essa crise de lucratividade, decorrente da concorrência internacional contínua, do excesso de capacidade produtiva e de pressões descendentes sobre os preços, impulsionou o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, o que permitiu que vários desses serviços fossem deslocalizados. Esse processo também acelerou a tendência de terceirização iniciada na década de 1970, quando os custos de coordenação foram drasticamente reduzidos à medida que a comunicação global e as cadeias de fornecimento se tornaram mais fáceis de construir e gerenciar.
Segundo Srnicek (2016), o capitalismo tende a ser reestruturado em períodos de crise. Novas tecnologias, novas formas organizacionais, novos modos de exploração, novos tipos de empregos e novos mercados emergem para criar uma nova forma de acumular capital. Com a crise de excesso de capacidade na década de 1970, a indústria transformadora tentou recuperar atacando o trabalho e voltando-se para modelos de negócio cada vez mais enxutos. Na sequência da crise da década de 1990, as empresas baseadas na internet mudaram para modelos de negócio que rentabilizam os recursos gratuitos disponíveis. A década seguinte viu as empresas tecnológicas progredirem significativamente em termos da quantidade de poder e capital à sua disposição.
A junção das transformações do regime de acumulação com a disseminação das tecnologias digitais propiciou o surgimento de um modelo de negócios e gestão do trabalho totalmente inovador. Segundo Srnicek (2016), após um longo declínio na rentabilidade da indústria transformadora, o capitalismo recorreu aos dados como uma forma de manter o crescimento econômico e a vitalidade do sistema. No século XXI, com base nas mudanças nas tecnologias digitais, os dados tornaram-se cada vez mais centrais para as empresas e para as suas relações com trabalhadores, clientes e outros capitalistas. Nesse processo, as “Plataformas Empresariais” surgiram como esse modelo de negócios.
Por caracterizar-se como uma tecnologia de propósito geral (Perez, 2002), a internet penetra em todas as esferas da atividade humana, transformando o tempo e o espaço na experiência humana. No livro Capitalismo de plataforma, Srnicek utiliza o conceito de “plataforma” para descrever uma nova forma de organização econômica e empresarial cujo modelo de negócios cria e gerencia um espaço digital onde diferentes grupos interagem, como produtores e consumidores. As plataformas colocam-se como intermediárias que facilitam trocas e transações, aproveitando a coleta e a análise de grandes volumes de dados para otimizar suas operações e gerar valor.
Van Dijck et al. (2018) estenderam o conceito da “economia de plataforma” para a ideia de uma sociedade propriamente plataformizada. A partir das considerações de Castells sobre a galáxia da internet, os autores sugerem que o desenvolvimento dessa fase do capitalismo levou a uma integração entre o digital e analógico a tal ponto que as esferas do público e privado também se misturam num novo amálgama de bens, fluxos e relações sociais, condicionando o avanço da economia plataformizada como uma mediadora “da atenção e do compartilhamento” entre indivíduos e comunidades. O resultado seria a consolidação de uma sociedade globalizada que opera segundo um ecossistema de plataformas (ibid.), com uma hierarquia organizacional distribuída entre diferentes agentes do mercado, estado e sociedade civil, e diferentes esferas da produção e consumo que demarcam os processos de reprodução social das identidades e das próprias comunidades.
Nesse ecossistema de plataformas, cada “unidade corporativa” está integrada na hierarquia do sistema global, tanto em função de fluxos transacionais com outras plataformas diversas presentes no mercado e agentes estatais e civis que integram as instituições sociais, quanto em função da integração analógico-digital que ocorre entre as dimensões macro e microssociológicas e que reforçam a reprodução de identidades individuais e coletivas. Nesse caso, fala-se também de uma Sociedade Pós-Materialista de Individualismo Conectado (Lee e Wellman, 2012; Papacharissi, 2010; Couldry e Hepp, 2016). O surgimento de um “novo mecanismo social” (como um sistema operacional social – sic [Lee e Wellman, 2012, p. 7]) em que o uso da tecnologia digital permite um intenso engajamento social, cognitivamente focado e compartilhado entre indivíduos e grupos nas redes sociais tecidas 24 horas por dia e em largas amplitudes territoriais, tanto virtual quanto materialmente. Srnicek (2016) identifica tipos de plataformas com base em suas formas de atuação, enquanto Van Dijck et al. (2018) destacam a centralidade da economia das plataformas na disputa pela atenção, influenciando diretamente os modelos de negócios do compartilhamento.
Plataformas digitais como o Airbnb, como discutido por Srnicek (2016) e Van Dijck et al. (2018), têm um impacto significativo na nossa percepção do espaço. Elas não apenas transformam a economia e o trabalho, mas também a maneira como interagimos com o espaço físico e digital. Especialmente porque vivemos uma vida midiatizada por tecnologias digitais que permitem um engajamento social simultaneamente intenso e expansivo do ponto de vista fenomenológico, como sugerem Couldry e Hepp (2016), em que passamos a desenvolver categorias de entendimento da realidade social (representações) transmateriais entre o digital e o analógico, o virtual e o real, o online e o offline (Cubitt, 2006), possibilitando o amálgama cognitivo experiencial e afetivo da percepção sobre o espaço-tempo no qual se desdobram as sociabilidades, tanto da relação face a face quanto da copresença analógica e digital. A interseção entre o digital e o físico redefine nosso entendimento de espaço e proximidade, alterando a maneira como vivemos, trabalhamos e interagimos com o mundo ao nosso redor.
A “interseção entre o digital e o físico” refere-se à crescente sobreposição e influência mútua entre esses mundos, cujas fronteiras tornam-se cada vez mais fluidas, transformando nossa percepção e modo de viver. Sob uma perspectiva interacionista e cognitivista, as transações entre o online e o offline, mediadas pelo ecossistema das plataformas, reforçam a constituição de um Self interconectado, monitorado por algoritmos e quantificado por big data. Esse Self midiatizado é central para compreender a sociedade plataformizada e seus desdobramentos na economia da atenção e do compartilhamento, exemplificados por modelos de negócios como o Airbnb. Pois, no contexto de novas sociabilidades digitalizadas do urbanismo presente, indivíduos e grupos com suas identidades interconectadas fenomenologicamente e transmaterialmente reelaboram as representações transacionadas sobre o espaço vivido e percebido, renovando a lógica social da regionalização (combinadas desde uma dimensão local das interações face a face a uma dimensão das distâncias virtualizadas e midiatizadas).
Na chamada dominação financeiro-informacional os fluxos de capital e informação penetram todas as dimensões da vida social, transformando espaços urbanos em ativos financeiros e impulsionando a financeirização do território (Sassen, 1991). Esse domínio, que ultrapassa fronteiras, redesenha o espaço urbano e condiciona a vida nas cidades, tornando-se o que Barns (2020) define como “urbanismo de plataforma”. Trata-se de um modelo em que as cidades são estruturadas e governadas por plataformas digitais que articulam fluxos de dados, capital e serviços. Essas plataformas, ao operarem como mediadoras das interações urbanas, potencializam a mercantilização de espaços e práticas, consolidando a lógica financeira no cotidiano das cidades.
A ideia de “cidade 4.0” insere-se no contexto mais amplo da chamada Quarta Revolução Industrial, em que a convergência entre tecnologias digitais, inteligência artificial, big data, Internet das Coisas (IoT) e automação cria novos regimes de organização econômica, social e urbana (Schwab, 2019; Ratti e Claudel, 2016). No campo urbano, esse projeto se manifesta através da intensificação da lógica datificada e gerencialista das cidades inteligentes, agora reconfiguradas sob os princípios da plataformização e do capitalismo de vigilância (Van Dijck et al., 2018). A cidade 4.0 não se refere apenas à aplicação de tecnologias inovadoras à gestão urbana, mas à constituição de uma nova racionalidade político-econômica, baseada em regimes de extração de dados, serviços sob demanda e intermediações algorítmicas, cujos efeitos se fazem sentir nas formas de circulação, consumo, habitação e controle dos territórios (Sadowski, 2020; Morozov e Bria, 2018). Nesse contexto, ao operar como infraestrutura sociotécnica que medeia relações urbanas por meio de sistemas digitais corporativos, as plataformas digitais tornam-se dispositivos centrais na produção contemporânea do espaço urbano (Barns, 2020). Por meio da intermediação de serviços como mobilidade, hospedagem, entregas e segurança, essas plataformas reconfiguram dinâmicas socioespaciais, consolidando formas específicas de acumulação e aprofundando desigualdades urbanas, em consonância com os princípios do capitalismo digital (Srnicek, 2016; Graham, 2005).
O Airbnb e a produção do espaço urbano
A expansão das plataformas digitais intensifica a mercantilização das cidades ao promover a comercialização de bens e serviços. O Airbnb facilita aluguéis temporários variados, atraindo turistas em busca de experiências mais autênticas e menos comerciais que as do setor hoteleiro tradicional (Hamari, Sjöklint e Ukkonen, 2015). Sua atuação impacta significativamente o mercado imobiliário, elevando preços e impulsionando a gentrificação em áreas urbanas estratégicas, fenômeno descrito como “gentrificação digital” (Wachsmuth e Weisler, 2018). Em cidades como Barcelona e Lisboa, o Airbnb vem transformando bairros tradicionais e deslocando populações locais para periferias (Cocola-Gant e Gago, 2019). Em Paris, Cerqueira (2021) analisa a expansão da plataforma, mostrando como seu crescimento inicial em áreas já gentrificadas se expandiu para periferias, reforçando dinâmicas de transformação urbana. Esse cenário tem motivado debates sobre regulamentações para mitigar os impactos dos aluguéis de curta temporada (Falk e Scaglione, 2024).
Embora o Brasil figure como o mercado mais importante das plataformas digitais de aluguel de curto prazo da América Latina, os estudos sobre os impactos socioespaciais do Airbnb ainda permanecem escassos no contexto brasileiro. Os desafios residem na dificuldade em obter dados referentes à plataforma, uma vez que sites como o insideairbnb.com tendem a disponibilizar dados gratuitos notadamente para cidades turísticas do Norte Global. Dentre os estudos existentes no contexto brasileiro, destacam-se aqueles que ilustram os impactos da plataforma em grandes metrópoles no espaço urbano. Lima et al. (2023) demonstraram que os preços do Airbnb no Rio de Janeiro são influenciados pela proximidade de pontos turísticos, níveis de renda e experiências únicas oferecidas nas favelas, impactando o desenvolvimento urbano e a disponibilidade de moradias. Já López-Gay et al. (2019) apontam que, em São Paulo, o Airbnb permeou as zonas da cidade fortemente elitizadas, as quais já passaram por processos de melhoramentos.
Investigações recentes destacam como a expansão do Airbnb reforça as lógicas neoliberais na produção do espaço urbano, fenômeno observado em diversas localidades (Santos et al., 2021). Lima et al. (2023) mostram que, no Rio de Janeiro, os preços do Airbnb são influenciados pela proximidade de pontos turísticos, níveis de renda e experiências únicas nas favelas, afetando tanto o desenvolvimento urbano quanto a disponibilidade de moradias. Em São Paulo, López-Gay et al. (2019) indicam que a plataforma se concentra em áreas elitizadas, já transformadas por melhorias urbanas, enquanto Tambelli (2020) aponta que, em 2020, 14% dos anfitriões com múltiplos anúncios respondiam por quase um terço das hospedagens na cidade, evidenciando a concentração do mercado. Além das grandes metrópoles, estudos como os de De Souza (2021) e Martoni et al. (2023) exploram o impacto dos aluguéis de curto prazo em cidades turísticas menores, como Ouro Preto, Gramado e Capitólio, levantando debates acerca da regulamentação da plataforma no contexto brasileiro.
No entanto, até o presente momento, nenhum estudo dedicou-se à análise do Airbnb no contexto brasileiro sob uma perspectiva da percepção do espaço através das avaliações. Essa perspectiva é relevante porque as avaliações não são apenas registros de experiências individuais; elas constituem um discurso coletivo que molda e reflete a forma como os espaços urbanos são percebidos, representados e valorizados no ambiente digital.
Regionalização do espaço e sociologia cognitiva
Região é um dos conceitos mais difundidos e tradicionais tanto da Geografia como em disciplinas correlatas que tratam de processos de regionalização. Uma característica interessante nesse conceito é que, apesar de suas “mortes e ressurreições”, é um conceito dinâmico que reaparece sempre de forma distinta, buscando acompanhar as transformações percebidas no espaço social a que se dedica estudar. A essência do processo de regionalização reside, digamos assim, no processo cognitivo de diferenciação de áreas no espaço geográfico. A regionalização, como método intelectual, pode ser realizada de diferentes formas, a depender dos critérios, como, por exemplo, a escala, pertinentes à análise proposta. Além disso, em seu uso científico, a região, em algumas abordagens, pode ser vista como apenas um artifício ou instrumento analítico do pesquisador; em outras, pode ser encarada como algo factual, claramente expressão no terreno, onde nos cabe simplesmente reconhecer sua manifestação (Haesbaert, 2004).
Pode-se também perceber a prática de regionalizar não apenas como estratégia científica, para estudo do espaço, mas também como categoria da prática humana, amplamente difundida no âmbito do senso comum e no cotidiano das pessoas. O senso comum a região é tratada como sinônimo de porção do espaço delimitada por algum critério ou dotada de alguma característica própria. Partindo dessa premissa, busca-se desenvolver uma estratégia de regionalizar indutivamente, a partir do empírico, seguindo a segmentação do espaço vivido na forma em que é percebido por aqueles que o experimentam. De “matriz cultural fenomenológica” (Haesbaert, 2004), a região no espaço vivido vai aparecer associada às identidades regionais, às experiências e interpretações subjetivas do espaço. Nesse sentido, decorrem de ações concretas de sujeitos sociais que efetivamente constroem articulações regionais e segmentam, cognitiva e ativamente, o espaço social que habitam.
Esse foi o caminho analítico utilizado no presente artigo. A dinâmica do capitalismo pós-fordista e sua articulação espacialmente desigual têm tornado cada vez mais complexo o processo de regionalização, dada a instabilidade e fluidez dos limites que antes eram dados como certos (Massey, 2005). Novas possibilidades de regionalização surgem desse processo e as novas tecnologias digitais abrem possibilidades de tentar captar elementos antes inalcançáveis para os pesquisadores. Uma delas refere-se às percepções do espaço vivido e as novas formas de espacializar o ambiente urbano, através do uso das plataformas digitais.
O primeiro ponto a ser destacado em relação à percepção cognitiva do processo de regionalização é a diferença entre a experiência e percepção do espaço urbano e as práticas da regionalização no mundo “pré-digital” e aquelas que ocorrem contemporaneamente, na chamada sociedade plataformizada. Uma hipótese a ser considerada é a que postula que a difusão do Individualismo Conectado (Lee e Wellman, 2012), através das tecnologias digitais, garantiu o surgimento de novas sociabilidades que operam as interações sociais num vetor espaço-temporal integrado entre os mundos online e o offline. Essas interações ressignificam a materialidade do real junto ao virtual numa síntese concreta e combinada dialeticamente das ações individuais e coletivas que não mais se alienam em unidades espaço-temporais fixas, desconexas e imutáveis, mas renovam as categorias da paisagem urbana, aproximando-as da integração fenomênica do muito pequeno, local, e do muito grande, global (Couldry e Hepp, 2016). Em outras palavras, o desenvolvimento da sociedade plataformizada implica a facticidade do Indivíduo Interconectado, do Self superconectado, monitorado e quantificado (Papacharissi, 2010; Chayko, 2017; Lupton, 2016) em diferentes dimensões espaço-temporais. Nessa sociedade plataformizada, o senso de vida comunitária e a construção das identidades estão fortemente ancoradas na “economia da atenção”, que, por sua vez, excita os estados mentais de apreensão reflexiva para o conhecimento da realidade. Consequentemente, a superconectividade entre indivíduos e grupos em múltiplas escalas e formas de sociabilidade midiatizadas possibilitam experiências de conhecimento e percepção capazes de desenvolver novas interações e representações categoriais do espaço que se desdobram na experiência direta da paisagem.
Desse modo, a economia de plataforma setorial do Airbnb (Snircek, 2016; Guttentag, 2019) reforça sua lógica de produção e consumo através da distribuição cognitiva de estados mentais (intencionalidade e afetos) e espelhamentos que são incorporados por indivíduos integrados em diferentes grupos de referência. Estes convergem na experiência fenomênica do lugar, criam identificação com o espaço vivido que seleciona parâmetros espaciais e relacionais que compõem as paisagens. Através da plataforma de mediação digital, os atores sociais apreendem fenomenicamente os lugares e se conectam a experiências coletivas ou representações referenciadas nas avaliações deixadas nas plataformas. Como sugerem Wellman et al. (2006), os efeitos da ampliação tecnológica da comunicação integrada pela infraestrutura da internet possibilitaram uma maior integração de laços sociais em múltiplas escalas, entre vizinhanças locais e suas projeções globais (ibid.).
Assim, o Airbnb deve ser encarado como um “dispositivo” integrado ao sistema social plataformizado, que se fundamenta na economia da atenção. O foco empírico das ações associadas à plataformização da economia da hospitalidade se projeta necessariamente sobre um controle da lógica prática da experiência e percepção do espaço vivido segundo as transações mediatizadas pela plataforma e seus impactos transformadores do ambiente e paisagens. É nesse sentido que podemos entender por que investigações anteriores apontaram que as avaliações do Airbnb possuem um viés de positividade geral (Cavique et al., 2022). A literatura aponta que as avaliações em plataformas de economia compartilhada tendem a ser consideravelmente mais positivas do que as da economia tradicional, uma vez que as expectativas dos hóspedes tendem a ser mais realistas no caso de acomodações peer-to-peer, nas quais a descrição da propriedade é apresentada por anfitrião e não por uma estrutura de marketing corporativo (Santos et al., 2020; Melián-González, 2020).
Estratégia metodológica
O presente artigo é dedicado a estudar o impacto da disseminação do Airbnb na configuração do espaço urbano do município de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais. Visa-se entender como o uso contínuo dessa plataforma diferencia os espaços internos do município através de um processo de regionalização do espaço vivido, feita pelos próprios usuários que interagem de forma mediada pela e na plataforma. Busca-se mostrar como as impressões deixadas pelos usuários nas avaliações das acomodações caracterizam os espaços onde elas estão localizadas, reforçando ou revertendo atributos que são utilizados como referências para classificação compartilhada das áreas. Parte-se da premissa de que essas avaliações pautam as ações de outros usuários e reificam as características dos lugares, ao reforçarem seus atributos ao longo do tempo.
A estratégia analítica adotada para a realização do estudo de caso foi o desenvolvimento de uma abordagem de pesquisa inovadora que mesclou o uso da extração de dados digitais, análise de dados qualitativos e técnicas de geoprocessamento. Nosso objetivo foi espacializar (geo) as percepções (quali) dos usuários das plataformas, acessíveis através da raspagem (data extraction) das avaliações de todas as acomodações listadas na plataforma Airbnb em Belo Horizonte no ano de 2024. A internet possibilita uma inovação em termos de pesquisa social, qual seja, a capacidade de coleta de dados em grandes quantidades, na forma de “rastros digitais” deixados por seus usuários. Ao serem captados através de procedimentos de extração de dados (data extraction), na forma de web scraping, geram conjuntos de dados (o big data) que podem ser “lidos” como atributos espaciais e comportamentais existentes nas plataformas. Proporcionam assim acesso a domínios anteriormente só possíveis via grandes surveys e permitem, na junção entre esses atributos, captar formas de regionalização do município a partir de atributos destacados pelos usuários.
Dados gerados por plataformas digitais, como redes sociais, aplicativos de mobilidade e sistemas de geolocalização, permitem mapear padrões de comportamento e traçar redes de sociabilidade que revelam como os indivíduos e grupos interagem com o espaço. Essas novas formas de coleta e análise superam barreiras metodológicas anteriores, permitindo explorar processos dinâmicos como a segregação espacial, a gentrificação e os fluxos de populações em tempo real. O estudo das cidades a partir da análise espacial ganha novas camadas de complexidade e profundidade com extração de traços digitais (big data), permitindo compreender as dinâmicas urbanas em tempo real e em escalas diversas. As cidades, mais do que simples conjuntos de infraestrutura física, tornaram-se verdadeiros ecossistemas de produção de dados. As interações cotidianas, o deslocamento de pessoas, as práticas de consumo e os fluxos de informações são continuamente registrados por sensores, aplicativos e redes digitais.
A capacidade de explorar fluxos contínuos de dados espaciais em tempo real está transformando profundamente o conceito de espaço vivido, conforme definido por Lefebvre (1991), como uma dimensão subjetiva e experiencial do espaço que emerge das práticas cotidianas e das interações sociais. Nesse contexto, Lee e Kang (2015) destacam como a utilização de tecnologias digitais possibilita novas formas de regionalização e sociabilidade, expandindo os limites tradicionais de análise espacial. Ao integrar dados em tempo real, torna-se possível capturar dinâmicas que anteriormente eram invisíveis, revelando as dimensões simbólicas e relacionais do espaço urbano. Essa perspectiva permite observar como as práticas mediadas digitalmente influenciam as percepções e representações espaciais dos indivíduos, configurando um espaço vivido que é continuamente reconfigurado pelas interações humanas e tecnológicas. Sob essa ótica, as tecnologias digitais não apenas oferecem ferramentas para mensurar o espaço, mas também atuam como mediadoras na redefinição dos significados e usos do espaço urbano, contribuindo para um entendimento mais complexo das dinâmicas contemporâneas de regionalização e sociabilidade.
No presente artigo realizamos a coleta de dados georreferenciados do Airbnb através do método de web scraping (raspagem de dados), mediado pela plataforma Apify. A base obtida, contendo cerca de 3.500 unidades, forneceu uma pluralidade de informações como a localização geográfica das unidades Airbnb, preço, tipo, avaliação e comentários. A principal metodologia proposta alicerça-se na análise qualitativa de 17.163 avaliações dos hóspedes de Airbnb na capital mineira. O método de coleta utilizado limita-se à raspagem de apenas as 10 primeiras avaliações de cada acomodação. Em um primeiro momento, a codificação foi realizada de maneira automática no software R, através da utilização de palavras e expressões-chave referentes ao espaço urbano e características da acomodação.
Em seguida, foi realizada a codificação dos textos das avaliações. Isso foi feito através da seleção de indicadores empíricos presentes nas avaliações, conforme metodologia proposta por Adu (2019). Esses indicadores são os segmentos dos textos (sentenças) cujo significado está associado à caracterização do entorno da acomodação. Em seguida, os indicadores empíricos foram codificados através de uma codificação aberta. Essa técnica atribui rótulos textuais aos indicadores empíricos utilizando uma palavra ou frase curta que descreva o significado do assunto abordado (Saldanha, 2009).
A análise permitiu delinear duas categorias principais. A primeira versa sobre a localização da acomodação, incluindo aspectos como a proximidade de serviços cotidianos, proximidade de serviços noturnos (como bares e restaurantes), assim como pontos turísticos. Além disso, avaliou-se como critério de localização a facilidade de acesso a pontos de interesse a partir de três modos de transporte: caminhada, transporte público e Uber. A segunda categoria abarcou a exploração de quatro características dicotômicas percebidas do entorno das acomodações: segurança/insegurança e tranquilidade/barulho.
Sob essa perspectiva, realizou-se uma análise espacial baseada nas avaliações da plataforma Airbnb, com o objetivo de delinear a regionalização do espaço a partir das percepções registradas pelos usuários. Para analisar as características relacionadas à localização, foi utilizada uma distribuição simples de pontos, em que cada avaliação foi representada de forma georreferenciada por um ponto correspondente à localização da acomodação. Cada critério destacado nas avaliações (como a proximidade de serviços cotidianos, por exemplo) foi representado por uma cor específica, permitindo diferenciar visualmente as categorias.
Para compreender espacialmente características de natureza dicotômica, aplicou-se uma grade dasimétrica com células de 200x200 metros sobre o território de Belo Horizonte. Nesse contexto, utilizou-se uma categorização binária: à presença de uma avaliação que mencionasse uma característica específica em uma célula era atribuído o valor 1, enquanto sua ausência correspondia ao valor 0. Por exemplo, se uma unidade da simétrica continha ao menos uma avaliação mencionando segurança no entorno, atribuía-se o valor 1 àquela unidade. Também foi avaliado se uma mesma unidade continha avaliações que enfatizavam características contraditórias, como segurança e insegurança simultaneamente. O mapeamento final engloba, dessa forma, unidades consideradas seguras, unidades consideradas inseguras e unidades consideradas seguras e inseguras ao mesmo tempo, segundo as avaliações no Airbnb.
Resultados
Segundo o site Airdna.com, o número de unidades do Airbnb em Belo Horizonte correspondia a 4.803 acomodações em dezembro de 2024, sendo aproximadamente 65% das unidades oferecidas apartamentos inteiros e 33% no formato de quartos individuais. A distribuição espacial das hospedagens está apresentada na Figura 1, utilizando um mapa de densidade Kernel. Tal técnica é amplamente utilizada na análise espacial para identificar padrões de concentração. O método Kernel cria uma superfície contínua que representa a densidade de pontos em uma área, calculando a intensidade de ocorrências (no caso, hospedagens) em cada local. Utilizou-se uma largura de banda de 750 metros, parâmetro que define a área de influência ao redor de cada ponto no cálculo da densidade. Ou seja, cada hospedagem contribui para a densidade em um raio de até 750 metros, com influência decrescente à medida que a distância aumenta.
Observa-se que as hospedagens estão localizadas no entorno de lugares em que há oferta de serviços e centralidades em termos de lazer e negócios no município. A maior quantidade de hospedagens está localizada na região central e na região da Savassi, uma área badalada e movimentada da cidade, conhecida por sua vida cultural, gastronômica e noturna. Também há concentrações de hospedagem na região da Pampulha, região turística da cidade e onde está presente a maior universidade do estado de Minas Gerais. Por fim, uma terceira concentração, ainda que menor, aparece próximo aos bairros Buritis e Belvedere, áreas nobres e sofisticadas, com comércio e serviço de luxo.
As avaliações dos usuários mostram que a localização é um dos elementos altamente valorizados para a escolha da hospedagem e também um aspecto capital para relatar sua experiência. Tentando entender como relatam esse processo, as avaliações que destacavam a localização foram decompostas em três categorias: proximidade aos serviços cotidianos (como padaria, supermercados, farmácia, etc.), proximidade aos serviços noturnos (bares e restaurantes) e proximidade aos pontos turísticos. A Figura 2 ilustra a decomposição das três categorias avançadas, demonstrando que uma parte significativa dos comentários analisados é pautada pela demanda dos hóspedes, no que concerne à proximidade de serviços cotidianos, como padarias, farmácias e supermercados, especialmente na região central e pericentral da cidade. Esses recursos essenciais reforçam a atratividade dessas regiões, atendendo às necessidades práticas de moradores e turistas.
As avaliações indicam que a interação social e o consumo de serviços noturnos são fatores determinantes na escolha da hospedagem, e que bairros com uma intensa vida noturna e variedade gastronômica aparecem como centralidades construídas a partir da busca dos turistas por experiências culturais e de lazer. Já na dimensão da proximidade de pontos turísticos, a concentração também ocorre na região central, especialmente em áreas com infraestrutura urbana consolidada e locais de interesse cultural. Esses bairros são amplamente frequentados por turistas que desejam explorar a cidade e suas principais atrações, reforçando o papel do centro-sul como uma zona de convergência turística. A análise dos três elementos evidencia uma sobreposição de centralidades na região centro-sul de Belo Horizonte, sugerindo uma multifuncionalidade que combina serviços cotidianos, lazer e turismo. Em contraste, as áreas periféricas apresentam pouca ou nenhuma avaliação, destacando a desigualdade na distribuição da atratividade e no uso do espaço urbano.
Destarte, o julgamento de uma localização como positiva pelos visitantes parece ser amplamente influenciado pelas centralidades urbanas já consolidadas, que estruturam as dinâmicas do espaço. O conceito de centralidade refere-se a áreas que desempenham um papel crucial na organização urbana, concentrando atividades econômicas, culturais, institucionais ou de lazer, além de oferecer maior acessibilidade e infraestrutura (Christaller, 1966; Merlin e Choay, 1988). Embora Belo Horizonte se destaque por sua estrutura historicamente monocêntrica, as avaliações Airbnb convergem também com a emergência de centralidades secundárias de interesse no espaço urbano. Esses espaços, muitas vezes associados à expansão de serviços e ao fortalecimento de polos culturais ou gastronômicos, começam a atrair visitantes e a competir com o centro histórico, refletindo transformações contemporâneas no uso e na valorização do território urbano. Assim, as avaliações ajudam a mapear não apenas as preferências dos usuários, mas também as mudanças nas dinâmicas espaciais da cidade.
Nota-se que as avaliações realizadas por usuários da plataforma não apenas refletem a percepção dos visitantes, mas também reafirmam e fortalecem as centralidades urbanas já consolidadas. Os visitantes, ao relatarem suas experiências, reconhecem e destacam características que são historicamente e funcionalmente associadas a essas regiões. Expressões como “excelente localização” ou “próximo a tudo” são recorrentes nessas avaliações, reafirmando o papel das centralidades.
Além disso, fez-se pertinente um segundo desdobramento da localização em categorias referentes ao transporte e acessibilidade do espaço, frequentemente mencionadas nas avaliações dos hóspedes Airbnb (Figura 3). Observou-se a predominância de comentários destacando a facilidade de acesso a serviços através de modos de transportes específicos, julgados como importantes pelos hóspedes no que diz respeito à escolha de estadia. A possibilidade de acessar serviços cotidianos e pontos turísticos a pé é destacada em diversos comentários. Já outros modos de transporte como transporte público e o transporte por aplicativo aparecem de forma menos expressiva e geograficamente mais dispersa.
O conteúdo das avaliações permite aprofundar ainda mais nas percepções dos usuários, destacando aspectos mais subjetivos da experiência do local onde a hospedagem estava situada, para além de percepções práticas como acesso e localização. Nesse sentido, é possível compreender como avaliaram a região em termos de segurança, tranquilidade e nível de ruído. (barulho). No intuito de mapear as avaliações, destacando as características mencionadas, dividiu-se o território belorizontino em uma grade dasimétrica de 200x200, identificando a presença (ou não) de pelo menos um dos aspectos avaliados (Figuras 4 e 5).
Como a distribuição espacial desses atributos era relativamente parecida, embora a frequência das avaliações que se referiam a cada uma delas diferisse significativamente, optamos por plotar, numa mesma figura, os pontos referentes às avaliações que afirmavam que a hospedagem se localizava em um lugar tranquilo ou barulhento. Como muitos pontos recebiam os dois tipos de avaliação, plotamos também os pontos que foram avaliados, por múltiplos usuários, ao mesmo tempo como barulhentos e tranquilos (Figura 4). Embora possa parecer paradoxal, esse tipo de situação é comum em dados de natureza qualitativa, quando a avaliação envolve um elevado grau de subjetividade da experiência do usuário. Aspectos contingentes ao momento da hospedagem também podem fazer com que determinado local, que em um dia não apresentava nenhum tipo de ruído, seja avaliado como barulhento por um hóspede que lá esteve em outro momento. É o caso das obras, eventos culturais ou mesmo alternância das hospedagens em diferentes dias da semana e épocas do ano.
A tranquilidade é valorizada em uma ampla gama de localizações, incluindo áreas centrais, pericentrais e na região da Pampulha, indicando a relevância de ambientes silenciosos para o conforto dos hóspedes. Purves e Wartmann (2023) demonstram que, nos estudos geográficos, a noção de tranquilidade é complexa e diversa e envolve a articulação entre o ambiente físico e a percepção individual, sendo um exemplo de serviço ecossistêmico cultural. Para os autores, tranquilidade pode ser definida como um estado de paz e contemplação, promovido por estímulos visuais e auditivos e a ausência de fatores perturbadores, como barulhos mecânicos e aglomeração de pessoas.
Em contrapartida, muitos visitantes descrevem a região central como barulhenta, especialmente devido ao tráfego intenso, comércio ativo e vida noturna, o que sugere uma percepção ambígua da centralidade: ao mesmo tempo funcional e incômoda. Essa tensão revela nuances na experiência urbana mediada pelo Airbnb, onde os hóspedes avaliam não apenas a acessibilidade, mas também o impacto sensorial e emocional do espaço. Enquanto a tranquilidade parece ser um atributo desejado em áreas residenciais ou de lazer, o barulho é frequentemente associado a ambientes vibrantes, mas potencialmente desconfortáveis para estadias mais longas. Assim, a dicotomia entre tranquilidade e barulho também reflete os usos sociais e simbólicos do espaço, bem como as expectativas e necessidades de diferentes perfis de usuários.
A análise quanto à percepção de segurança/insegurança indica um padrão descentralizado de locais exclusivamente avaliados como inseguros (Figura 5). Já a segurança aparece em avaliações por todo o município, inclusive em sua região central. Interessante notar a sobreposição de segurança e insegurança em uma área concentrada no centro da cidade. As avaliações destacam, sobretudo, o período noturno como o momento mais crítico, associado a ruas mal iluminadas e menos movimentadas. Ademais, um elemento frequentemente mencionado nesse contexto é a presença de pessoas em situação de rua, que, em algumas avaliações, é associada a percepções negativas sobre segurança. Além disso, o sentimento de insegurança está alinhado com o conceito de paisagens de medo (Tuan, 2006), no qual a percepção de insegurança é moldada por elementos físicos e sociais do espaço, como a qualidade da infraestrutura e o perfil socioeconômico das pessoas que o ocupam.
A distribuição dos atributos mostra-se complexa e desafia as caracterizações da cidade presentes no senso comum. Há locais centrais tranquilos e regiões de baixa densidade tidas como barulhentas. Mais interessante ainda, do ponto de vista analítico, é a sobreposição de locais que são tranquilos e barulhentos ao mesmo tempo. Embora espalhem-se por todo o município, tem sua concentração no entorno das áreas centrais, assim como as áreas avaliadas ao mesmo tempo como seguras e inseguras. As áreas de sobreposição apontam para a necessidade de buscarmos entender as avaliações num nível escalar menor do que normalmente aquele percebido na caracterização da cidade segundo bairros ou ruas “tranquilas”, “barulhentas” ou “seguras”. As percepções dos usuários indicam inclusive que um mesmo ponto pode alternar-se entre esses dois estados. Isso indica que os processos de regionalização são dinâmicos e acompanham o ritmo ou as sucessões temporais de um espaço urbano em contínua transformação.
Discussão
Os resultados evidenciam como dinâmicas econômicas impulsionadas por plataformas digitais se entrelaçam com as percepções e vivências cotidianas, reconfigurando territórios e centralidades. Essa abordagem possibilitou compreender como o espaço urbano é reorganizado tanto material quanto simbolicamente. A regionalização do espaço, entendida aqui como um processo em que áreas urbanas ganham características específicas em função de práticas, fluxos e narrativas, foi observada não apenas por meio da concentração de unidades de Airbnb em locais estratégicos, mas também pela percepção coletiva desses lugares. As percepções de visitantes revelam como o espaço vivido é impactado por tensões entre a apropriação cotidiana e os interesses econômicos que moldam o espaço concebido por investidores e plataformas digitais. Essas percepções são fundamentais para entender como certos espaços passam a ser vistos como “destinos globais” ou símbolos de status, enquanto outros permanecem marginalizados e estigmatizados. A regionalização, nesse sentido, não é apenas um fenômeno geográfico, mas também simbólico, guiado pela interação entre narrativas globais e locais.
O acesso aos dados das avaliações do Airbnb possibilita percebermos os processos de regionalização espontânea (percepção do espaço vivido) de forma inovadora. As análises realizadas mostram, num primeiro nível, que a localização das hospedagens confirma e reforça as centralidades urbanas. Contudo, o detalhamento das impressões deixadas pelos usuários na plataforma indica que a avaliação do espaço urbano destaca a sobreposição de dicotomias em espaços coincidentes, vizinhos de também espaços exclusivos em termos de atributos como tranquilidade e segurança. Tal exercício desafia as percepções do espaço urbano cristalizadas no imaginário social. Indicam também que a escala tradicional de pensar a cidade (bairros, regiões) precisa ser discutida, pois os indivíduos regionalizam também em escala da percepção diminuta (micro) e temporalmente dinâmica.
Os processos de reestruturação do regime de acumulação capitalista, fortemente ancorados na estrutura sociotécnica da revolução digital têm levado a uma fragmentação do espaço urbano, na linha que defendem Graham e Marvin (2001). Segundo os autores, os poderes das novas tecnologias da informação apoiam a reestruturação complexa das formas, estilos de vida e paisagens urbanas. Essa reestruturação baseia-se em processos paralelos de fragmentação e recombinação de utilizações e funções urbanas. As tecnologias da informação apoiam a renucleação de espaços e atividades que foram separadas em zonas de utilização única durante o desenvolvimento da cidade industrial e funcional.
Graham (2005) destaca o papel que os softwares e seus algoritmos desempenham nesse processo, quando ambientes tecnologizados baseados em códigos classificam, normalizam e demarcam, de forma contínua e invisível, domínios vastos e distanciados. Segundo o autor, as novas tecnologias estão intimamente envolvidas nas transformações finas e sutis dos mundos sociais baseados no lugar e no espaço. Com a sua tendência para exagerar e reificar perfis de vizinhança de “tipo ideal” homogeneamente construídos, e assim ossificar as classificações espaciais e sociais, essas técnicas têm demonstrado amplamente que estão na base do redesenho da localização.
Por fim, em relação à contribuição acadêmica do artigo, a pesquisa apresentada reforça a relevância de adotar abordagens metodológicas híbridas para compreender as complexas relações entre transformações urbanas, plataformas digitais e experiências socioespaciais. A metodologia proposta articula dados provenientes de plataformas digitais como o Airbnb, que permitem análises quantitativas de larga escala, com a percepção do espaço vivido, oferecendo uma perspectiva multifacetada sobre os impactos dessas plataformas no ambiente urbano. O modelo metodológico desenvolvido é replicável em outros contextos urbanos, proporcionando ferramentas para estudos comparativos que articulem a análise de big data e metodologias qualitativas. Essa replicabilidade é especialmente importante em cenários marcados pela crescente influência de plataformas digitais sobre os espaços urbanos e os modos de vida, fortalecendo a conexão entre análises de larga escala e a riqueza das vivências locais, indispensáveis para a formulação de políticas públicas que promovam cidades mais inclusivas e equilibradas.
Nota de agradecimento
Esta pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - processo número APQ-01640-24.
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Editores:
Lucia Bógus e Luiz César de Queiroz Ribeiro






Fonte: elaboração própria, dados do Airbnb.
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