Processamento auditivo (central) em escolares das séries iniciais de alfabetização

Adriana Aparecida Tahara Kemp Sartori Camila Ribas Delecrode Ana Claúdia Vieira Cardoso Sobre os autores

RESUMO

Objetivo

Caracterizar e comparar os testes comportamentais do processamento auditivo central de escolares das séries iniciais nas etapas, teste e reteste; e correlacionar as variáveis idade e gênero com os resultados destes testes.

Método

Estudo coorte, analítico, observacional, longitudinal e prospectivo; desenvolvido em uma escola da rede pública. Compuseram a amostra 36 escolares, subdivididos em dois grupos considerando a escolaridade: G1- 13 crianças do primeiro ano e G2- 23 crianças do segundo ano. Adotaram-se como critérios de inclusão: avaliação audiológica dentro dos padrões de normalidade e estar matriculado no primeiro ou segundo ano do ensino fundamental; e, como critérios de exclusão, presença de alterações neurológicas, cognitivas e comportamentais. A avaliação audiológica e a aplicação dos testes comportamentais do processamento auditivo central ocorreram em dois momentos distintos, com um intervalo de seis meses, denominados etapas teste e reteste.

Resultados

O teste com maior prevalência de alteração, em ambas as etapas e grupos, foi o Dicótico de Dígitos. Cabe ressaltar que nenhum escolar do G1 e alguns do G2 compreenderam o RGDT na etapa teste e que, mesmo após seis meses, esta dificuldade se manteve nos dois grupos. Na etapa reteste, notou-se melhora significante no desempenho dos escolares de ambos os grupos. Observou-se também, correlação entre a variável idade e o teste dicótico de dígitos na orelha esquerda, em ambas etapas.

Conclusão

Houve uma alta incidência de alteração nos testes e; se observou melhora no desempenho na etapa reteste, principalmente nos testes de localização sonora, dicótico de dígitos e RGDT.

Descritores
Audição; Percepção Auditiva; Testes Auditivos; Criança; Escolaridade

ABSTRACT

Purpose

To characterize and compare behavioral tests of central auditory processing of schoolers of initial grades in two stages, test and retest; and correlate the variables age and gender with the results of these tests.

Methods

Cohort, analytical, observational, longitudinal and prospective study; developed in a public school. The sample included 36 schoolers, divided into two groups considering the schooling: G1- Thirteen children of first grade and G2- Twenty-three children of second grade. The inclusion criteria were audiological assessment within normality patterns and being enrolled in the first or second year of elementary school and, as exclusion criteria, presence of neurological, cognitive and behavioral disorders. The audiological assessment and application of the behavioral tests of central auditory processing occurred in two different moments, with an interval of six months, called test and retest.

Results

The test with the highest prevalence of change, in both steps and groups, was Dichotic Digits. It is noteworthy that no schoolers from G1 and some from G2 understood RGDT at the test stage and that even after six months this difficulty remained in both groups. In the retest stage, a significant improvement was noticed in the schoolers’ performance of both groups. It was still noticed a correlation between the age variable and dichotic digits test in the left ear in both stages.

Conclusion

There was a high incidence of alteration in the tests and, a performance improvement was noticed in the retest stage, mainly in the tests of sound localization, dichotic digits and RGDT.

Keywords
Hearing; Auditory Perception; Hearing Tests; Child; Schooling

INTRODUÇÃO

Processamento auditivo central é o termo usado para descrever uma série de operações mentais que o indivíduo realiza ao lidar com informações recebidas via sentido da audição e que dependem de uma capacidade biológica inata, do processo de maturação e das experiências e estímulos no meio acústico(11 Pereira LD. Sistema auditivo e desenvolvimento das habilidades auditivas. In: Ferreira LP, editor. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca; 2004. p. 547-52. ).

Alterações neste processamento podem levar a prejuízos no desempenho acadêmico, atraso de linguagem, dificuldade para entender apropriadamente o que é dito e dificuldade de aprendizagem.

Nos últimos anos, houve crescente interesse em estudar as habilidades auditivas de crianças, pois existem evidências de que crianças que apresentam alterações nestas habilidades são mais suscetíveis a distúrbios de linguagem e aprendizagem(22 Toscano RDGP, Anastasio ART. Auditory abilities and acoustic immittance measures in children from 4 to 6 year old. Rev CEFAC. 2012;14(4):650-8. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462011005000080.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-1846201...

3 Ghannoum MT, Shalaby AA, Dabbous AO, Abd-El-Raouf ER, Abd-El-Hady HS. Central auditory processing functions in learning disabled children assessed by behavioural tests. Hear Balance Commun. 2014;12(3):143-54. http://dx.doi.org/10.3109/21695717.2014.938908.
http://dx.doi.org/10.3109/21695717.2014...
-44 Buriti AKL, Rosa MRD. Percepção auditiva em escolares com dislexia: uma revisão sistemática. Rev. Psicopedag. 2014;31(94):82-8. ).

A literatura tem ressaltado a importância de se considerar a influência de comorbidades relacionadas ao neurodesenvolvimento, bem como dos fatores cognitivos na avaliação comportamental do processamento auditivo central(55 Ludwig AA, Fuchs M, Kruse E, Uhlig B, Kotz AS, Rübsamen R. Auditory processing disorders with and without central auditory discrimination deficits. J Assoc Res Otolaryngol. 2014;15(3):441-64. http://dx.doi.org/10.1007/s10162-014-0450-3. PMid:24658855.
http://dx.doi.org/10.1007/s10162-014-04...
,66 Ahmmed AU, Ahmmed AA, Bath JR, Ferguson MA, Plack CJ, Moore DR. Assessment of children with suspected auditory processing disorder: a factor analysis study. Ear Hear. 2014;35(3):295-305. http://dx.doi.org/10.1097/01.aud.0000441034.02052.0a. PMid:24496289.
http://dx.doi.org/10.1097/01.aud.000044...
), porém salienta-se a necessidade de um consenso entre os pesquisadores com o intuito de melhorar a confiabilidade dos testes ou encontrar abordagens alternativas para que o diagnóstico deste transtorno não seja influenciado por estes fatores (66 Ahmmed AU, Ahmmed AA, Bath JR, Ferguson MA, Plack CJ, Moore DR. Assessment of children with suspected auditory processing disorder: a factor analysis study. Ear Hear. 2014;35(3):295-305. http://dx.doi.org/10.1097/01.aud.0000441034.02052.0a. PMid:24496289.
http://dx.doi.org/10.1097/01.aud.000044...
).

Na revisão de literatura, não foram encontrados estudos epidemiológicos que tenham avaliado as habilidades auditivas em escolares na faixa etária de seis e sete anos. Além disso, ainda não existe consenso quanto à bateria de testes comportamentais padronizados que devem ser utilizados na avaliação do processamento auditivo central nesta população.

Autores relatam dúvidas quanto à confiabilidade dos testes que avaliam estas habilidades, pois o desempenho na avaliação pode ser influenciado pela idade (77 Tomlin D, Dillon H, Kelly AS. Allowing for asymmetric distributions when comparing auditory processing test percentage scores to normative data. J Am Acad Audiol. 2014;25(6):541-8. http://dx.doi.org/10.3766/jaaa.25.6.4. PMid:25313544.
http://dx.doi.org/10.3766/jaaa.25.6.4 ...
), experiência auditiva(88 Barry JG, Weiss B, Sabisch B. Psychophysical estimates of frequency discrimination: more than just limitations of auditory processing. Brain Sci. 2013;3(3):1023-42. http://dx.doi.org/10.3390/brainsci3031023. PMid:24961519.
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), ou pelas competências cognitivas necessárias para realização do processamento auditivo(99 Barry JG, Tomlin D, Moore DR, Dillon H. Use of questionnaire-based measures in the assessment of listening difficulties in school-aged children. Ear Hear. 2015;36(6):e300-13. http://dx.doi.org/10.1097/AUD.0000000000000180. PMid:26002277.
http://dx.doi.org/10.1097/AUD.000000000...
).

Considerando que as habilidades auditivas são fundamentais para compreensão da mensagem falada, fica evidente a necessidade de se conhecer o processamento auditivo central de crianças no início do processo de alfabetização, uma vez que a investigação e o acompanhamento das habilidades auditivas desta população podem auxiliar na escolha de condutas adequadas para eliminar ou minimizar alterações que possam interferir negativamente no processo de aprendizagem.

Sendo assim, os objetivos deste estudo foram: caracterizar e comparar o desempenho dos escolares das séries iniciais nos testes comportamentais utilizados para avaliação do processamento auditivo central nas etapas teste e reteste; e correlacionar as variáveis idade e gênero com os resultados dos testes.

MÉTODO

Este foi um estudo do tipo coorte, analítico, observacional, longitudinal e prospectivo.

Este estudo foi desenvolvido na única escola da rede pública de ensino de uma cidade de pequeno porte do interior do Estado de São Paulo A avaliação audiológica e comportamental do processamento auditivo central foi realizada no anfiteatro da escola, após autorização da Secretaria da Educação do Município. Cabe ainda ressaltar que o local onde foram realizadas as avaliações era silencioso e que, durante os procedimentos, permaneciam no local apenas a avaliadora e a criança.

A amostra foi composta por 36 escolares e estes foram agrupados segundo a escolaridade em:

  1. Grupo 1 (G1): composta por 13 escolares que frequentavam o 1º ano do ensino fundamental, com idade variando de seis anos e seis anos e nove meses (média de seis anos e dois meses). Sendo, quatro escolares do gênero masculino e nove do feminino.

  2. Grupo 2 (G2): composta por 23 escolares que frequentavam o 2º ano do ensino fundamental com idade variando de seis anos e onze meses a sete anos e dez meses (média de sete anos e quatro meses). Sendo, oito escolares do gênero masculino e quinze do feminino.

Para a constituição da amostra, foram estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, estar regularmente matriculado no primeiro ou segundo ano do ensino fundamental e avaliação audiológica dentro dos padrões de normalidade nas etapas teste e reteste. Como critérios de exclusão, considerou-se a presença de alterações neurológicas, cognitivas e comportamentais com base na análise das respostas do questionário (Anexo A) enviado para os pais e/ou responsáveis e das informações obtidas em entrevista com os professores.

Cabe ressaltar que, apesar da presença de indícios de que algumas crianças apresentavam alterações de fala e/ou linguagem/dificuldades escolares, optou-se por não analisar estas variáveis devido ao fato de que estas encontravam-se em processo de aquisição, os pais não observavam nenhum processo patológico que necessitasse de intervenção e o objetivo deste estudo era conhecer o processamento auditivo central de escolares da rede pública.

A realização da avaliação audiológica consistiu dos seguintes procedimentos: inspeção do meato acústico externo; imitanciometria, audiometria tonal liminar; e avaliação comportamental do processamento auditivo central.

A avaliação audiológica foi realizada com o uso do audiômetro AC-33 da Interacoustics, com fones TDH-39 e calibrado de acordo com normas ANSI-69. Para avaliação do processamento auditivo central, foram utilizados compact discs (CDs) contendo os testes gravados, e estes foram apresentados por meio de um DVD player acoplado ao audiômetro. O equipamento utilizado para a realização da timpanometria foi o imitanciômetro AT-235 da Interacoustics, com tom sonda de 226 Hz.

Como critério de normalidade para a avaliação audiológica em ambas as etapas, teste e reteste, consideraram-se: limiares audiométricos iguais ou inferiores a 20 dBNA nas frequências de 250Hz a 8 kHz (padrão ANSI 69) bilateralmente, curva timpanométrica do tipo A bilateralmente e presença de reflexos acústicos ipsilaterais e contralaterais, nas frequências de 500, 1000 e 2000 Hz(1010 Gelfand SA, Piper N. Acoustic reflex thresholds: variability and distribution effects. Ear Hear. 1984;5(4):228-34. http://dx.doi.org/10.1097/00003446-198407000-00007. PMid:6468780.
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).

Para avaliação do processamento auditivo central, aplicaram-se os seguintes testes comportamentais: Localização Sonora, Memória Sequencial para Sons Verbais e não Verbais; Teste Dicótico de Dígitos (TDD), Teste de Logoaudiometria Pediátrica (PSI) com mensagem competitiva ipsilateral e o Randon Gap Detection Test (RGDT). A aplicação de cada teste e a análise dos resultados foi de acordo com a proposta da literatura especializada(1111 Pereira LD, Schochat E. Testes auditivos comportamentais para avaliação do processamento auditivo central. São Paulo: Pró Fono; 2011. 82 p. ,1212 Ziliotto K, Pereira LD. Random gap detection test in subjects with and without APD. In: 17th Annual Convention and Exposition; 2005; Washington. Reston: American Academy of Audiology; 2005. p. 30. ).

Considerando a faixa etária dos escolares avaliados, a análise da avaliação do processamento auditivo central baseou-se na descrição e no número de habilidades auditivas alteradas, uma vez que os escolares encontram-se em fase de desenvolvimento das habilidades auditivas e não existe consenso quanto à realização da avaliação e/ou diagnóstico em crianças com idade inferior a sete anos(1313 AAA: American Academy of Audiology. Clinical practice guidelines: diagnosis, treatment and management of children and adults with central auditory processing disorder. Reston: American Academy of Audiology; 2010. ).

Na segunda etapa do estudo, denominada “reteste”, os participantes foram reavaliados após um período de seis meses, no início do segundo semestre letivo, nos meses de agosto e setembro. Cabe ressaltar que nenhum escolar apresentou alteração na avaliação audiológica no reteste; e, desta forma, aplicou-se a avaliação comportamental do PAC em todos os participantes da etapa teste.

O protocolo deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o protocolo de aprovação nº 957.964 e conforme resolução do Conselho Nacional de Saúde CNS 466/2012. Anteriormente ao início das avaliações, os responsáveis legais pelos participantes selecionados assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Na análise estatística, utilizou-se a Correlação de Spearman para verificar o grau de relacionamento entre as variáveis idade e gênero e os testes comportamentais de processamento auditivo central. Para comparar os resultados da avaliação do processamento auditivo central obtidos nas etapas teste e reteste, aplicou-se o Teste dos Postos Sinalizados de Wilcoxon. Os coeficientes de correlação foram classificados segundo sua magnitude em: fraca (< 0,4), moderada (≥ 0,4 a < 0,5) e forte (≥ 0,5) e adotou-se o nível de significância de 5% (p ≤ 0,05).

RESULTADOS

A análise dos testes comportamentais do processamento auditivo central aplicados nos escolares das séries iniciais, na etapa teste, mostrou que o teste com maior prevalência de alteração, em ambos os grupos, foi o teste Dicótico de Dígitos. Com relação ao RGDT, os escolares de ambos os grupos apresentaram dificuldade em compreendê-lo. No G1, nenhum escolar conseguiu realizá-lo e, no G2, apenas alguns escolares conseguiram realizá-lo. O único teste que não se mostrou alterado, em ambos os grupos, foi o teste de localização sonora ( Figuras 1 e 2 ).

Figura 1
Testes comportamentais do processamento auditivo central em escolares na etapa teste
Figura 2
Testes comportamentais do processamento auditivo central em escolares na etapa reteste

Na etapa reteste, observou-se que os escolares, de ambos os grupos, apresentaram melhora no desempenho no teste Dicótico de Dígitos, porém esta habilidade se manteve alterada principalmente nos escolares do G1. Com relação ao RGDT, observou-se que os escolares do G2 apresentaram um maior índice de alteração, porém vale ressaltar que este teste não foi aplicado na maioria dos escolares do G1 por estes não o compreenderem ( Figuras 1 e 2 ).

Ao comparar o desempenho dos escolares nos testes comportamentais do processamento auditivo central nas etapas teste e reteste, observou-se que, na etapa teste, o número médio de testes alterados foi de 2,00 e, na etapa reteste, foi de 1,61, ou seja, houve uma melhora no desempenho dos escolares na etapa reteste e esta foi estatisticamente significante.

Em relação à análise do desempenho do escolar, em cada um dos testes aplicados, observou-se uma melhora no desempenho na etapa reteste, porém foi estatisticamente significante apenas nos testes de localização sonora, dicótico de dígitos em ambas as orelhas e RGDT ( Tabela 1 ).

Tabela 1
Comparação do desempenho dos escolares do G1 e do G2, nas etapas teste e reteste, na avaliação comportamental do processamento auditivo central

Na correlação entre os testes comportamentais de processamento auditivo central e as variáveis idade e gênero, observou-se correlação positiva moderada significante entre a idade e o resultado do teste dicótico de dígitos na orelha esquerda na etapa teste e correlação positiva fraca significante no reteste ( Tabelas 2 e 3 ).

Tabela 2
Correlação entre os testes comportamentais do processamento auditivo central e a variável idade na etapa teste e reteste
Tabela 3
Correlação entre os testes comportamentais do processamento auditivo central e a variável gênero na etapa teste e reteste

DISCUSSÃO

As crianças, ao ingressarem na escola, estão susceptíveis a novas aprendizagens acadêmicas e a convívio social diferentes das vivências acústicas propiciadas no contexto familiar.

Mudanças morfológicas no cérebro, dependentes da idade, determinam em larga escala a habilidade da criança em desempenhar certas atividades auditivas. Estruturas do sistema nervoso central, embora presentes e em funcionamento ao nascimento continuam a formar novas conexões sinápticas e a aumentar a eficiência até a adolescência e, possivelmente, até o início da idade adulta (1414 Bellis TJ. Assessment and management of central auditory processing disorders: from science to practice. San Diego: Singular Publishing Group; 1996. ).

A comparação dos testes comportamentais utilizados na avaliação do processamento auditivo central de escolares das séries iniciais, em ambas as etapas, mostrou que o teste com maior prevalência de alteração foi o dicótico de dígitos. Além disso, merece ênfase a dificuldade de compreensão do RGDT, principalmente nas crianças mais novas, o que inviabilizou a aplicação do teste na maioria destas crianças.

A correlação destes achados com a literatura ficou prejudicada, uma vez que os estudos epidemiológicos enfocando o perfil de processamento auditivo central nesta faixa etária são escassos. A maioria dos estudos realizados tem por objetivo diferenciar o processamento auditivo central de crianças com ou sem a presença de outras patologias associadas.

Em consonância com estes resultados, autores confirmaram que os testes com maior número de resultados alterados na avaliação comportamental foram os que avaliaram o processamento temporal e a escuta dicótica(1515 Fridlin SL, Pereira LD, Perez AP. Relation between data collected during the interview and auditory processing disorder. Rev CEFAC. 2014;16(2):405-12. http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201416312.
http://dx.doi.org/10.1590/1982-02162014...
,1616 Santos TS, Mancini PC, Sancio LP, Castro AR, Labanca L, Resende LM. Findings in behavioral and electrophysiological assessment of auditory processing. Audiol Commun Res. 2015;20(3):225-32. http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2015-1589.
http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-201...
). A autora afirmou que testes para avaliar o mecanismo de escuta dicótica, teste dicótico de dígitos e de processamento temporal são reconhecidos como ferramentas importantes para definir alterações de processamento auditivo central(1717 Bellis TJ. Assessment and management of central auditory processing disorders in the educational setting: from science to practice. Canada: Thomson Deliviar Learning; 2003. Neuromaturation and neuroplasticity of the auditory system; p. 103-39. ).

Em um estudo realizado com crianças, nascidas a termo e pré-termo, com idade entre quatro e sete anos, os autores aplicaram uma bateria de testes para avaliação do processamento auditivo central composta por: ASPA, fala com ruído branco, PSI e dicótico de dígitos. Nas crianças pré-termo, as habilidades de ordenação temporal, fechamento auditivo e figura-fundo para sons verbais foram as mais prejudicadas e, nas crianças a termo, as habilidades mais alteradas foram as de figura-fundo e fechamento auditivo(1818 Gallo J, Dias KZ, Pereira LD, Azevedo MF, Sousa EC. Avaliação do processamento auditivo em crianças nascidas pré-termo. J Soc Bras Fonoaudiol. 2011;23(2):95-101. http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912011000200003. PMid:21829922.
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). Em outro estudo, foi acrescentado o SSW (Stanggered Spondaic Words - versão português) na bateria de testes o objetivo do estudo foi avaliar o processamento auditivo central de crianças entre cinco e sete anos com e sem desvio fonológico; os autores observaram que as habilidades auditivas de figura-fundo com associação auditivo-visual e de fechamento auditivo não foram sensíveis para diferenciar os grupos(1919 Attoni TM, Quintas VG, Mota HB. Processamento auditivo, reflexo acústico e expressão fonológica. Rev Bras Otorrinolaringol. 2010;76(6):753-61. ).

Com relação à aplicação do RGDT, existem controvérsias na literatura, um dos estudos verificou que mais de 80% das crianças na faixa etária de cinco e seis anos apresentaram resultados alterados e sugeriu que ele não deve ser administrado em crianças com idade inferior a sete anos devido ao fato de outras capacidades reduzidas influenciaram seu desempenho, dentre elas a atenção(1818 Gallo J, Dias KZ, Pereira LD, Azevedo MF, Sousa EC. Avaliação do processamento auditivo em crianças nascidas pré-termo. J Soc Bras Fonoaudiol. 2011;23(2):95-101. http://dx.doi.org/10.1590/S2179-64912011000200003. PMid:21829922.
http://dx.doi.org/10.1590/S2179-6491201...
). Em contrapartida, autores relataram a viabilidade da aplicação deste teste em crianças com idade inferior a sete anos(2020 Muniz LF, Roazzi A, Schochat E, Teixeira CF, Lucena JA. Avaliação da habilidade de resolução temporal, com uso do tom puro, em crianças com e sem desvio fonológico. Rev CEFAC. 2007;9(4):550-62. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400016.
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,2121 Fortes AB, Pereira LD, Azevedo MF. Resolução temporal: análise em pré-escolares nascidos a termo e pré-termo. Pró-Fono R. Atual. Cient. 2007;19(1):87-96. ).

Na população deste estudo, a análise dos resultados do teste dicótico de dígitos e do RGDT permite inferir que as habilidades auditivas que se mostraram mais alteradas foram as de figura-fundo para sons linguísticos e de resolução temporal. A literatura relata que déficits nestas habilidades podem interferir no processamento adequado das informações e, em consequência, afetar o desenvolvimento normal do escolar(2222 Pinheiro FH, Oliveira AM, Cardoso ACV, Capellini AS. Testes de escuta dicótica em escolares com distúrbio de aprendizagem. Rev Bras Otorrinolaringol. 2010;76(2):257-62. ).

Desta forma, pode-se afirmar que o teste dicótico de dígitos foi o teste mais sensível para detectar alterações de processamento auditivo central nesta faixa etária e se mostrou o mais indicado para rastreio de crianças que devem ser encaminhadas para avaliação completa.

Verificou-se, também, melhora estatisticamente significante no desempenho das habilidades auditivas de localização sonora, figura-fundo para sons linguísticos e de resolução temporal, após seis meses, que pode ser justificada tanto pela influência do processo desenvolvimental como também pela plasticidade relacionada à aprendizagem(2323 Musiek FE, Shinn J, Hare C. Plasticity, auditory training, and auditory processing disorders. Semin Hear. 2002;23(4):263-75. http://dx.doi.org/10.1055/s-2002-35862.
http://dx.doi.org/10.1055/s-2002-35862 ...
).

Todos os escolares, de ambos os grupos, não apresentaram alteração no teste de localização sonora, tanto na etapa teste quanto no reteste. Observou-se, porém, um aumento no número de acertos na etapa reteste, ou seja, os escolares localizaram corretamente todas as direções.

As habilidades auditivas dependem da função neural e, portanto, consideram o processo neuromaturacional, que se encontra intimamente relacionado com a idade da criança (2424 Neves I, Schochat E. Maturação do processamento auditivo em crianças com e sem dificuldades escolares. Pró-Fono R. Atual. Cient. 2005;17(3):311-20. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-56872005000300005. PMid:16389788.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-5687200...
).

Durante a pré-alfabetização, deve-se atentar a um desempenho inferior para habilidades auditivas esperadas para cada faixa etária, pois alterações nessas habilidades podem indicar baixo desempenho escolar em longo prazo(22 Toscano RDGP, Anastasio ART. Auditory abilities and acoustic immittance measures in children from 4 to 6 year old. Rev CEFAC. 2012;14(4):650-8. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462011005000080.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-1846201...
).

A análise da correlação entre os testes comportamentais do processamento auditivo central e a variável idade mostrou correlação positiva, em ambas as etapas, apenas para o teste dicótico de dígitos na orelha esquerda; o que permite inferir que o aumento da idade das crianças está relacionado ao melhor desempenho na orelha esquerda neste teste. Os achados deste estudo corroboram os da literatura (1515 Fridlin SL, Pereira LD, Perez AP. Relation between data collected during the interview and auditory processing disorder. Rev CEFAC. 2014;16(2):405-12. http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201416312.
http://dx.doi.org/10.1590/1982-02162014...
,1616 Santos TS, Mancini PC, Sancio LP, Castro AR, Labanca L, Resende LM. Findings in behavioral and electrophysiological assessment of auditory processing. Audiol Commun Res. 2015;20(3):225-32. http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2015-1589.
http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-201...
,2525 Iliadou V, Bamiou DE, Kaprinis S, Kandylis D, Kaprinis G. Auditory processing disorders in children suspected of learning disabilities: a need for screening? Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2009;73(7):1029-34. http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2009.04.004. PMid:19427040.
http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2009...
).

Um estudo relatou que a sensibilidade dos resultados no teste dicótico de dígitos da orelha direita foi de 34,54% e da orelha esquerda de 60% e concluiu que os resultados da orelha esquerda neste teste apresentam uma tendência maior de alteração em crianças com dificuldades de aprendizagem(2525 Iliadou V, Bamiou DE, Kaprinis S, Kandylis D, Kaprinis G. Auditory processing disorders in children suspected of learning disabilities: a need for screening? Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2009;73(7):1029-34. http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2009.04.004. PMid:19427040.
http://dx.doi.org/10.1016/j.ijporl.2009...
).

A influência da variável orelha apenas no teste dicótico de dígitos permite hipotetizar que o fato de os escolares apresentarem maior dificuldade nos testes dicóticos pode ser justificado pela maturação tardia das estruturas responsáveis pela transferência inter-hemisférica. Vale ressaltar que as crianças deste estudo se encontravam em uma faixa etária inferior aos sete anos. Tal fato pode ter interferido no desempenho delas, pois as estruturas cerebrais encontravam-se em desenvolvimento.

A autora refere que o baixo desempenho na avaliação do processamento auditivo central pode estar associado a uma possível maturação tardia do corpo caloso que, segundo a literatura, tem sua maturação completa somente após os sete anos de idade. Durante a estimulação dicótica, as vias auditivas ipsilaterais são suprimidas favorecendo as vias contralaterais, que apresentam maior número de fibras. A desvantagem da orelha esquerda é o resultado do maior tempo de transmissão da informação verbal apresentada nesse ouvido, uma vez que deve ser transportada do hemisfério direito para seu processamento no hemisfério esquerdo, através do corpo caloso. Portanto, a orelha esquerda necessita de maior participação do corpo caloso para que seja eficiente no processamento da informação linguística (1717 Bellis TJ. Assessment and management of central auditory processing disorders in the educational setting: from science to practice. Canada: Thomson Deliviar Learning; 2003. Neuromaturation and neuroplasticity of the auditory system; p. 103-39. ).

O processo de mielinização nas diferentes áreas do córtex não é homogêneo. Regiões corticais de mielinização precoce controlam movimentos relativamente simples ou análises sensoriais, enquanto as áreas com mielinização tardia controlam as funções mentais superiores. Pode-se afirmar, portanto, que a mielinização funciona como um índice aproximado da maturação cerebral(2626 Kolb B, Whishaw IQ. Neurociência do comportamento. São Paulo: Manole; 2002. ).

A mielinização do corpo caloso é crítica para a transferência de informação entre os dois hemisférios e continua até a adolescência. O fato de diversas áreas do cérebro iniciarem a mielinização em diferentes épocas têm implicações profundas no processamento auditivo(2727 Bellis TJ. Assessment and management of central auditory processing disorders: from science to practice. San Diego: Singular Publishing Group; 1996. ).

Autores sugerem que os testes de escuta dicótica são o melhor método para avaliar a transferência inter-hemisférica da informação e da maturidade do sistema nervoso auditivo. Isto ocorre porque, neste processo, a via contralateral tem prioridade de funcionamento(2828 Keith RW, Anderson J. Dichotic listening tests. In: Musiek FE, Chermak GD, editores. Handbook of central auditory processing disorder: auditory neuroscience and diagnosis. San Diego: Plural Publishing; 2006. p. 130-207. ).

A dominância do hemisfério esquerdo para o processamento da fala e linguagem e a escuta dicótica poderiam explicar os achados(2929 Burguetti FA, Carvallo RM. Efferent auditory system: its effect on auditory processing. Braz J Otorhinolaryngol. 2008;74(5):737-45. http://dx.doi.org/10.1016/S1808-8694(15)31385-9. PMid:19082357.
http://dx.doi.org/10.1016/S1808-8694(15...
). Sabe-se que, em testes de escuta dicótica, a via contralateral é a grande responsável pelo processamento das informações. Assim, para a orelha esquerda, é necessário um tempo maior de processamento já que a informação, após a chegada ao hemisfério direito, deverá atravessar o hemisfério oposto através do corpo caloso(3030 Murphy CF, La Torre R, Schochat E. Association between top-down skills and auditory processing tests. Braz J Otorhinolaryngol. 2013;79(6):753-9. http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.20130137. PMid:24474489.
http://dx.doi.org/10.5935/1808-8694.201...
).

Em contrapartida à variável idade, não houve correlação entre a variável gênero e os testes comportamentais que avaliaram o processamento auditivo central, resultados estes corroborados pela literatura(1616 Santos TS, Mancini PC, Sancio LP, Castro AR, Labanca L, Resende LM. Findings in behavioral and electrophysiological assessment of auditory processing. Audiol Commun Res. 2015;20(3):225-32. http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-2015-1589.
http://dx.doi.org/10.1590/2317-6431-201...
,2020 Muniz LF, Roazzi A, Schochat E, Teixeira CF, Lucena JA. Avaliação da habilidade de resolução temporal, com uso do tom puro, em crianças com e sem desvio fonológico. Rev CEFAC. 2007;9(4):550-62. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000400016.
http://dx.doi.org/10.1590/S1516-1846200...
).

Esta pesquisa aponta que é possível realizar a avaliação do processamento auditivo central na faixa etária entre seis e sete anos, porém sugere-se que o RGDT seja aplicado somente a partir dos sete anos de idade, considerando que nenhuma criança do GI (idade variando entre seis anos e seis anos e nove meses) conseguiu compreender o teste.

A detecção de alterações nas habilidades auditivas na avaliação do processamento auditivo central em crianças em idade escolar possibilitará ao fonoaudiólogo orientar os professores no planejamento de atividades didáticas que envolvam a estimulação das habilidades auditivas, pois poderá minimizar os efeitos nocivos da persistência desse transtorno e melhorar o desempenho escolar dessas crianças.

Novos estudos se fazem necessários para que estes achados sejam confirmados em amostras maiores e, assim, auxiliar o processo de diagnóstico nesta faixa etária, com o intuito de evitar e/ou minimizar dificuldades acadêmicas.

CONCLUSÃO

A comparação dos testes comportamentais (teste e reteste) para avaliação do processamento auditivo central de escolares das séries iniciais mostrou que o teste com maior sensibilidade para detectar alterações nas habilidades auditivas foi o Dicótico de Dígitos. De forma diversa, o RGDT mostrou-se inviável em crianças com idade inferior a sete anos devido à dificuldade de compreensão destas crianças. A análise do desempenho dos escolares mostrou que, após seis meses, houve melhora em todas as habilidades auditivas avaliadas, em especial na habilidade de localização sonora, figura-fundo auditivo e resolução temporal.

Observou-se também que não houve correlação entre a variável gênero e os resultados dos testes, contudo a variável idade se correlacionou apenas com os resultados da orelha esquerda no teste dicótico de dígitos.

Anexo A. Anamnese

AVALIAÇÃO DO PROCESSAMENTO AUDITIVO

1. Identificação

2. Anamnese

Escuta bem em ambiente silencioso? sim ◻ não ◻ É desatento? sim ◻ não ◻

Escuta bem em ambiente ruidoso? sim ◻ não ◻ É muito quieto? sim ◻ não ◻

Localiza o som? sim ◻ não ◻ É agitado ? sim ◻ não ◻

Compreende bem a conversação? sim ◻ não ◻

Em que situação a conversação é mais difícil?

Ambiente silencioso? Em grupo ◻ Com um interlocutor ◻

Ambiente ruidoso? Em grupo ◻ Com um interlocutor ◻

Oscila independentemente do ambiente? ◻

Apresenta alguma dificuldade em:

Fala? sim ◻ não ◻ Qual:____________________________________________________

Leitura/escrita? sim ◻ não ◻ Qual: ______________________________________________

Outras? sim ◻ não ◻ Qual: ______________________________________________

Demorou p/ aprender a falar? sim ◻ não ◻ Iniciou com: _____________________

Demorou p/ aprender a andar? sim ◻ não ◻ Iniciou com: _____________________

Teve dificuldade p/ aprender a ler? sim ◻ não ◻ E a escrever ? sim ◻ não ◻

Teve outras dificuldades escolares? sim ◻ não ◻ Quais? ____________________________________________________________________________

Apresentou repetência escolar? Sim ◻ não ◻ Quantas vezes e em que série? __________________________________________________________________________

Tem boa memória? sim ◻ não ◻ Descreva: ______________________________________

Está sendo medicado? sim ◻ não ◻ Descreva: ___________________________________

Teve episódio de otite, dor de ouvido, principalmente nos primeiros anos de vida?

sim ◻ não ◻ Descreva:_______________________________________________________

Teve outras doenças? sim ◻ não ◻ Quais e quando ? _____________________________

Está em acompanhamento médico? sim ◻ não ◻ Início e motivo: _____________________

Está em acompanhamento fonoaudiológico? sim ◻ não ◻ Início e motivo: ______________

Está em acompanhamento psicológico? sim ◻ não ◻ Início e motivo: __________________

Está em acompanhamento psicopedagógico? sim ◻ não ◻ Início e motivo:______________

  • Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia, Faculdade de Filosofia e Ciências – FFC, Universidade Estadual Paulista – UNESP - Marília (SP), Brasil.
  • Fonte de financiamento: Bolsista CAPES.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Fev 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    25 Jan 2018
  • Aceito
    27 Jul 2018
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