CONVERGÊNCIAS E TENSÕES ENTRE CURRÍCULO, NARRATIVA PESSOAL E FUTURO SOCIAL

Joelson de Sousa Morais Sobre o autor
Goodson, I. F.. 2019. Currículo, narrativa pessoal e futuro social. Calado, H. C.; Petrucci-Rosa, M. I.; Queiroz, J. P. de. Editora da Unicamp

De ideias brilhantes, pertinentes e atuais, o pensador inglês Ivor F. Goodson não economiza nas discussões que pontuam o poder da narrativa em contraste com outras esferas da vida, como a política, por exemplo.

Ivor F. Goodson trabalha na Guerrand-Hermès Foudation for Peace, em Brighton, Reino Unido. Há cerca de 40 anos, desenvolve pesquisas e estudos sobre questões importantes e cruciais do campo da educação, em termos de políticas educacionais, estudos históricos das disciplinas escolares, teorias narrativas, estudos de história de vida, profissionalismo e carreira docente.1 1 Para mais informações: www.ivorgoodson.com. Já trabalhou em instituições de pesquisa educacional em vários países além da Inglaterra, como Estados Univdos, Canadá, Estônia, entre outros.

Lançado pela editora da Unicamp, com tradução do inglês para o português aos cuidados de Henrique Carvalho Calado e revisão da tradução por Maria Inês Petrucci-Rosa e José Pereira de Queiroz, o livro apresenta uma linguagem de fácil compreensão e apreensão pelo leitor, além de trazer discussões que se aproximam da realidade brasileira quanto ao currículo, à narrativa sistêmica e às narrativas das histórias de vida em contextos de desenvolvimento profissional, tanto dos professores quanto de outros profissionais.

Assim, a obra Currículo, narrativa pessoal e futuro social (2019) traz uma perspectiva que legitima a voz do professor e de outros sujeitos em contextos de desenvolvimento profissional como dimensão constitutiva na construção de conhecimentos, no sentido de que as histórias narrativas possibilitam uma profícua forma de construção de um currículo narrativo como novo futuro social, representando potencialidades por meio das micropolíticas cotidianas que levam a mudanças plausíveis no desenvolvimento pessoal e profissional.

Constituído de 295 páginas, dividido em três partes e composto por dez capítulos, o livro, entre outras discussões, contempla: processos e tempos de mudança educacional com foco no currículo; a ascensão da narrativa de vida e o currículo como narrativa; o conhecimento profissional e as histórias de vida dos professores; o pesquisador educacional como intelectual público; e o que, de modo mais específico e focalizado, retrata as ideias da obra é aquilo acerca do conhecimento, narrativa pessoal e futuro social, com a defesa da aprendizagem narrativa em contraponto ao currículo como prescrição nas mudanças curriculares e no campo da aprendizagem docente e das questões atinentes ao currículo com outros vieses.

Com abordagens conceituais, históricas, políticas e fortemente críticas do conhecimento e dos estudos curriculares, o autor tece um esboço dos processos de escolarização - que, ao longo do tempo, sofreram mutações, avanços e recuos - quanto a legitimidade de determinados programas de governo e disciplinas no campo educacional em países emergentes.

O fato de tecer críticas de que “. . . o que acontece no nível das políticas é visto como algo que tem pouco ou nada a ver com as reais necessidades da escola” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 85) tem manifestado modos de resistências ou possibilidades de refração no currículo por professores e educadores, muitos dos quais têm se defrontado com imposições em seus territórios, trazendo afetações que emergem nas histórias narrativas que Goodson desvelou em seus processos de pesquisa e que, há mais de quatro décadas, tornam essa tônica fonte de seus estudos.

Assim, o livro tece discussões que clarificam as transformações historicamente impulsionadas pelas determinações do Estado e as especificidades com que questões educacionais tramadas no contexto curricular se perfilaram em alguns territórios de várias partes do mundo, como no Reino Unido - mais precisamente na Inglaterra, onde reside o autor - e nos Estados Unidos, mas também outros lugares, retratados de modo secundário.

Historicamente, os aspectos que designavam e direcionavam os estudos curriculares em diferentes estratificações sociais, faixa etária dos sujeitos e aspectos econômicos, políticos e culturais, determinavam, em muito, o crivo identificador e de diferenciação social das pessoas. Por essa razão, esses dois elementos estabeleceram um lugar decisivo na epistemologia da escolarização. O legado da história do currículo é, portanto, uma das tessituras do livro e aparece entrelaçado ao processo de formação e desenvolvimento profissional dos professores. Isso diante da supremacia do poder político e das reverberações que causam nos aspectos pessoais e no trabalho docente, que ganha visibilidade nas histórias narrativas desses profissionais da educação.

Um fator componente do currículo que é caracterizado como conflituoso, situando, de um lado, as perspectivas e práticas curriculares dos professores concebidas por eles mesmos a partir de seus contextos reais e, por outro lado, a imposição curricular pela ideologia dominante, que destitui as possibilidades criativas e criadoras do professor de legitimar as experiências plausíveis que considera pertinente no aprender e ensinar cotidiano, pode ser retratado com a seguinte citação do autor:

O conflito e os acordos ao redor do currículo escolar, e dentro das disciplinas escolares, representam, ao mesmo tempo, uma fragmentação e uma internalização das dificuldades acerca da escolarização. Fragmentação, porque os conflitos se sucedem agora em um conjunto de disciplinas compartimentadas; internalização, porque ocorrem dentro dos limites das escolas e das disciplinas. (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., pp. 60-61).

Portanto a ideia e a prática de currículo que vem se consolidando e se alicerçando no cenário educacional tratam de uma dimensão que se corporifica por meio de lutas e embates entre “aqueles que ensinam”, no caso dos professores, e “aqueles que ditam as regras do jogo”, no caso dos poderes políticos hegemônicos do Estado.

Para situar essas duas esferas sociais - a do Estado em contraponto a outros agrupamentos da sociedade civil, como a escola, por exemplo -, vale ressaltar que o lado da hegemonia dominante busca implementar reformas educativas com base em seus ideais, nos princípios mercadológicos e forjado no âmbito do capital, mesmo que isso nem sempre atenda as necessidades e represente o mundo daqueles que habitam as escolas.

O pensador inglês declara que, “. . . de fato, estamos entrando em um período de tipos particulares de narrativa: narrativas de vida e narrativas em pequena escala” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 120). Prova disso é o fato de que, por meio do mundo micro e pessoal, é possível apreender uma realidade macroscópica e que retrata as diferentes questões pulsantes do meio circundante. Isso porque testemunhamos no século XX, na visão do autor, o colapso das grandes narrativas, incapazes de captar o potencial de implicações e reflexões que pudessem ser concebidas em dimensões preponderantes para a compreensão da vida e de transformações substanciais nos planos econômico, político, social e cultural.

A forma como o conhecimento vem se estruturando e sendo organizado no desenvolvimento da educação e da sociedade tem uma perspectiva alicerçada pelo poder hegemônico, que delimita o que deve ser ensinado no lugar do que não deve, assim como quais sujeitos podem aprender o quê, em quais contextos, circunstâncias e a quais classes sociais esses sujeitos pertencem. Isso pode ser atestado pelo fato de “. . . as disciplinas escolares são definidas não de maneira desinteressada e escolástica, mas sim em uma relação próxima com o poder e os interesses de grupos sociais. Quanto mais poderoso o grupo social, mais ele é capaz de exercer poder sobre o conhecimento escolar” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 97). Daí o poder de classificar e criar determinados aspectos no âmbito do conhecimento que situam os que são “mais capazes” e os que são “menos capazes”, gerando desigualdades e contribuindo para reforçar as disparidades socioeconômicas, políticas e culturais de um povo que, historicamente, vem se ampliando ao longo do tempo na história da educação e das humanidades.

Goodson toca em assuntos caros e sensíveis à educação, particularmente no processo de transição entre a formação inicial e os primeiros anos no exercício da docência. Os professores iniciantes passam, portanto, a se afirmar na profissão, muitas vezes se defrontando com inúmeros desafios e incertezas sobre a prática, configurando-se as dimensões da constituição de suas identidades e a inserção/socialização profissional como lugar de pertencimento que os preocupa. Assim, ouvir suas vozes é uma maneira outra, potente e fundamental para a elaboração de bons modelos de desenvolvimento profissional na carreira docente.

As histórias narrativas de vida representam um dispositivo metodológico em que os professores revelam os contextos micropolíticos de suas experiências e itinerários formativos, em que o lado pessoal constitui-se de um teor fortemente implicado de reflexões e gera inúmeras outras questões em um plano mais amplo, situado nos aspectos políticos, pedagógicos e sociais aos quais pertencem, atravessando o seu cotidiano e a sua subjetividade.

No pensamento do autor britânico, há uma articulação bem implicada entre os aspectos históricos, políticos e sociais nos modos como a narrativa se configura no campo da experiência de professores e de outros profissionais. A pesquisa é entretecida pelas questões curriculares, pelas práticas exercidas por eles e pelas possibilidades de refração com que se defrontam e são possíveis de tecer. Assim, as narrativas que emergem dos sujeitos e as histórias que muitas vezes são constituídas de sentidos, valores e crenças representam uma potencialidade formativa, de transformação e emancipação, pois partem do sentido e da vida pessoal que cada um tem para uma dimensão mais ampla, que envolve os contextos políticos, econômicos, culturais e sociais.

As fontes narrativas se configuram, então, como um dispositivo de pertinência, por dar legitimidade a profícuas experiências e conhecimentos que emergem do próprio cotidiano do sujeito e de si próprio. Tanto é relevante, que o autor declara:

Narrativas propiciam e criam espaço para “momentos pedagógicos” nos quais as pessoas podem se conectar consigo mesmas, umas com as outras, com suas próprias cultura e tradição, com suas esperanças e aspirações e, em última instância, como uma construção de conhecimento intencional e orientada, que serve a suas trajetórias pessoais e públicas. (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 114)

A narrativa, portanto, é o modo privilegiado de emergir os contextos de vida do sujeito e se tece em meio aos inúmeros aspectos da vida cotidiana que constroem suas concepções, experiências, reflexões e saberes de várias dimensões no plano da subjetividade. Por isso, emerge uma potencialidade formadora e reflexiva, capaz de gerar transformações acerca de si, da formação e da experiência profissional.

O livro apresenta um conjunto de histórias narrativas, das vidas de professores, enfermeiros e outros profissionais, distribuído em alguns capítulos, que são evocações em situação de aprendizagem da profissão e em múltiplos outros contextos em que eles se situam nas relações com o trabalho, com as políticas e reformas curriculares e com outros profissionais e pares no cotidiano de suas realidades. Essas narrativas e histórias refletem e refratam as políticas, os currículos e os modos de se constituir como pessoa e profissional, além de tantas outras conexões em que os sujeitos conseguem se entrelaçar nos grupos em que participam, na vida e na profissão. Afinal de contas, “. . . o modo como os professores constroem as suas realidades profissionais e a forma como levam as suas vidas nas salas de aula são um contínuo processo de interpretação pessoal e contextual” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 148), muitas vezes evocado em suas narrativas, refletindo esses aspectos.

Ideias como o caráter excludente de algumas disciplinas escolares em prol de outras, que promovem a inclusão, a justiça social e o aprendizado na perspectiva da ascensão e mobilidade dos sujeitos das classes populares, são refletidas no texto, trazendo de forma crítica a centralidade do currículo como prescrição que ganha força pelas políticas exercidas no cenário britânico. Se apagam, assim, quaisquer possibilidades de construção de conhecimentos que levem em consideração os saberes e experiências de mundo dos professores em suas práticas cotidianas e também dos alunos na formação e constituição de sua história de vida e acadêmica, assim como eram concebidas no passado e que se modificaram ao longo do tempo, tanto quanto são apresentadas hoje, em disciplinas “dadas”, “aceitas” e “tradicionais”, sendo reforçadas, portanto, como dispositivos excludentes nas escolas e na formação dos sujeitos.

O currículo como narrativa, que se centra no que o intelectual inglês chama de currículo como aprendizagem narrativa, consiste “. . . na elaboração e manutenção continuada de uma narrativa de vida ou de identidade” (p. 282). Eis, portanto, o que defende Goodson (2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp.) em suas ideias há mais de quatro décadas e é reforçado nesse livro. As pesquisas em que está envolvido, entre as quais estão aquelas produzidas em parceria com o seu notável colega Andy Hargreaves, que o autor cita no livro, perfilam-se nessa perspectiva. Entre elas está um estudo longitudinal de quatro anos que ele vem desenvolvendo, que visa a aprofundar entendimentos sobre o significado e a importância da aprendizagem informal na vida de adultos, além de identificar formas de apoio e aprimoramento da aprendizagem.

Enfim, o livro é concluído com a proposição de algumas premissas básicas e fundamentais amparadas numa crítica do currículo escolar estandardizado e com a defesa do autor de uma perspectiva outra para potencializar os processos formativos e da aprendizagem profissional dos professores como mudança legítima e crucial para um novo futuro social. Assim, reitera que “. . . a inércia contextual de um currículo prescritivo baseado em conteúdo não resistirá às rápidas transformações do mundo globalizado” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 286).

Portanto, para romper com esse modelo impositivo do currículo como prescrição, urge a necessidade de mudanças que deem visibilidade aos atores sociais que fazem da educação o cenário de micromudanças, embora não sejam consideradas, vistas e legitimadas pelo poder hegemônico, ou seja, “. . . no novo futuro social, devemos esperar que o currículo se envolva com as missões de vida, com as paixões e com os propósitos que as pessoas articulam em suas vidas. Esse seria, verdadeiramente, um currículo para o empoderamento” (Goodson, 2019Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp., p. 287).

Currículo, narrativa pessoal e futuro social é, portanto, uma obra em que Ivor Goodson brilhantemente nos presenteia com potentes reflexões e contribuições que servem para educadores, professores, pesquisadores e profissionais que se interessam e desenvolvem estudos e pesquisas no campo da formação de professores, currículo, aprendizagem profissional da docência, abordagem narrativa (auto)biográfica e histórias de vida, entre outros assuntos, tendo valor inestimável e sensível no campo da formação humana e da educação como um todo.

Referências

  • Goodson, I. F. (2019). Currículo, narrativa pessoal e futuro social (H. C. Calado, Trad., M. I. Petrucci-Rosa, & J. P. de Queiroz, Rev. Trad.). Editora da Unicamp.

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    Para mais informações: www.ivorgoodson.com.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jul 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    27 Jul 2020
  • Aceito
    04 Dez 2020
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