Esculpindo a "Nova Mulher Negra": feminilidade e respeitabilidade nos escritos de algumas representantes da raça nos EUA(1895-1904)

Crafting the "New Negro Woman": femininity and respectability in the writings of African American activists

Giovana Xavier

Resumos

Na virada do século XIX, intelectuais afro-americanas assumiram a missão de construir uma nova face pública para sua raça. Com trajetórias excepcionais em relação à maioria da população negra, "mulheres da raça", como Anna Cooper e Fannie Williams, deixaram escritos que apontavam o melhor caminho para preparar as "massas negras" para o mundo livre. Devido ao poder econômico, à formação intelectual e à luta antiracista, elas personificavam a imagem da "nova mulher negra". O objetivo deste artigo é discutir quem era e o que se esperava dessa personagem, construída no pós-abolição dos EUA.

Mulher da raça"; Nova mulher negra"; Educação; Pós-abolição; Cidadania


At the turn of the twentieth century, African American intellectuals took on the mission of constructing a new public image for their people. Over the course of trajectories that were exceptional in comparison with the majority of the black population, "race women" such as Anna Cooper and Fannie Williams left writings indicating the best route to prepare the "black masses" for freedom. Due to their economic standing, their intellectual training and their struggle against racism, these women personified the "New Negro Woman." My objective is to describe the image of this "New Negro Woman" as it was constructed in the post-emancipation United States.

Race Woman"; Female Talent"; New Negro Woman"; Education; Post-emancipation; United States of America


ARTIGOS

Giovana Xavier

Pós-doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense. gixavier@yahoo.com.br

RESUMO

Na virada do século XIX, intelectuais afro-americanas assumiram a missão de construir uma nova face pública para sua raça. Com trajetórias excepcionais em relação à maioria da população negra, "mulheres da raça", como Anna Cooper e Fannie Williams, deixaram escritos que apontavam o melhor caminho para preparar as "massas negras" para o mundo livre. Devido ao poder econômico, à formação intelectual e à luta antiracista, elas personificavam a imagem da "nova mulher negra". O objetivo deste artigo é discutir quem era e o que se esperava dessa personagem, construída no pós-abolição dos EUA.

Palavras-chave: "Mulher da raça", "Nova mulher negra", Educação, Pós-abolição, Cidadania, EUA.

ABSTRACT

At the turn of the twentieth century, African American intellectuals took on the mission of constructing a new public image for their people. Over the course of trajectories that were exceptional in comparison with the majority of the black population, "race women" such as Anna Cooper and Fannie Williams left writings indicating the best route to prepare the "black masses" for freedom. Due to their economic standing, their intellectual training and their struggle against racism, these women personified the "New Negro Woman." My objective is to describe the image of this "New Negro Woman" as it was constructed in the post-emancipation United States.

Key Words: "Race Woman", "Female Talent", "New Negro Woman", Education, Post-emancipation, United States of America.

"Vamos esquecer o passado" (Anônimo, s/d).

Por um período de dois séculos e meio Afro-Americanas foram escravas das pessoas brancas nesse país (...) Embora descendentes de povos bárbaros, as mulheres Negras prontamente adaptaram-se aos requisitos da vida civilizada e a maioria delas desempenhou excelente trabalho feminino (...) O que nós podemos dizer do progresso delas para convencer amigos céticos, brancos e negros, de que elas são merecedoras de crédito? (Tillman, 1895:280)

Escritas no século XIX, as epígrafes acima se remetem a apelos de escritores que conclamavam a população negra a reconstruir sua imagem com dois objetivos: esquecer os tempos da escravidão e produzir uma "face pública da raça" em sintonia com educação, refinamento e civilidade (Gates, 1988:129). Esse projeto tomou fôlego durante os anos da Reconstrução, quando começaram a ser publicadas dezenas de narrativas de ex-escravos e "mulheres de cor" como Anna Julia Cooper1 1 Filha de uma escrava com seu senhor branco, Anna Julia Haywood Cooper (1858-1964) nasceu em Raleigh na Carolina do Norte. Ela iniciou sua educação formal em 1867, dois anos após a Guerra Civil, na Saint Augustine's Normal School and Collegiate Institute, instituição direcionada à formação de ex-escravos. Em 1887, ela adquiriu o título de mestre em Matemática no Oberlein College em Ohio. Dentre outros, ela lecionou na Wilberforce University e na Washington Colored High School. Em 1892, seu primeiro livro - A Voice from the South by a Black Woman of the South - foi publicado. Após isso, Cooper iniciou uma jornada pelo país fazendo palestras sobre educação, direitos civis e status da mulher negra. Em 1925, aos setenta e cinco anos, ela se tornou doutora em Filosofia pela Universidade de Paris, sagrando-se como a quarta afro-americana a atingir tal feito. Entre 1930 e 1950, ela assumiu a presidência da Frelinghuysen University, uma escola para estudantes negros. A filósofa morreu em Washington D. C. aos 105 anos. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/cooper-anna-julia-haywood-1858-1964> Acesso: 09/08/2011. e Soujourner Truth2 2 Sojourner Truth/Isabella Baumfree (1791-1883) nasceu escrava. Sendo emancipada apenas em 1827, Sojourner (que adotou esse nome apenas em 1843) foi abolicionista e ativista dos direitos da mulher, tornando-se a afro-americana mais conhecida do século XIX. Evangélica, ela defendeu a criação de uma comunidade própria de ex-escravos visando seu sustento e auto-determinação. Em 1851, Truth ficou famosa por seu célebre discurso - Ain't I a Woman - proferido na Conferência dos Direitos da Mulher. Em 1875, sua biografia - Narrative of Sojourner Truth; A Bondswoman of Olden Time, Emancipated by the New York Legislature in the Early Part of the Present Century; with a History of her Labors and Correspondence Drawn from her "Book of Life" - foi publicada por Olive Gilbert e France Titon . Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/truth-sojourner-isabella-baumfree-ca-1791-1883> Acesso em: 09/08/2011. Para trajetórias de outras abolicionistas negras como Anna Murray Douglass, Mary Ann Shad Cary, Sarah Parker Remond, Frances Harper, Sarah Mapps Douglass, Eliza Dixon Day, Sarah Forten e suas interações com raça, sexo e classe ver também Yee (1992). , donas de trajetórias excepcionais em relação à grande maioria dos afro-americanos, foram aclamadas como representantes da raça.

Desde os anos 1890, milhares de afro-americanos do Sul iniciaram uma verdadeira "jornada para o Norte". Conhecido como The Great Migration, esse fenômeno teve seu ápice entre 1910 e 1930, quando aproximadamente 1.500.000 negros decidiram recomeçar suas vidas em cidades grandes como Nova York, Chicago e Filadélfia em busca de melhores condições de trabalho, saúde, educação, moradia, etc. (Scott, 1920; Marks, 1989; Drake e Cayton, 1993, DeSantis, 1998). Experimentando uma liberdade em construção, essa população teve que produzir outros "sensos de representação" que atuassem como "contenções" aos estereótipos atribuídos ao "velho negro" - o escravo desembarcado no país desde o século XVII e seus descendentes (Gates, 1988:129).

Esse processo de reconstrução identitária que envolveu diversos segmentos da intelectualidade negra (jornalistas, escritores, empresários, artistas, professores, etc.) culminou na produção da imagem daquele que foi chamado de "Novo Negro".3 3 Nas três primeiras décadas do século XX, a questão do Novo Negro ganhou cada vez mais força na imprensa e demais escritos de intelectuais afro-americanos. Diversos autores criaram definições próprias para o que seria esse personagem em construção. Um dos maiores ápices de tal processo foi a criação, nos anos 1920, daquilo que ficou conhecido como Harlem Renaissence. Tendo como panos de fundo, a Grande Migração, a industrialização e a I Guerra Mundial, o HR foi um movimento literário e cultural voltado para mostrar o talento de romancistas, poetas e músicos negros. Um de seus principais líderes foi o filósofo Alain Locke, que, em 1925, batizou essa efervescência cultural como o "Movimento do Novo Negro". Concentrado no bairro negro do Harlem em Nova York, o MNN pregava o orgulho e a integração raciais combatendo o racismo e os estereótipos que os marginalizavam. (Cf. Locke: "suas sombras têm sido maiores que sua personalidade" [...] Para muitas gerações na América o Negro tem sido "mais uma fórmula do que um ser humano", alguma coisa para ser "investigada, condenada ou defendida" [...] "mas o tempo das "tias", "tios" e mammies já se foi"). Sobre a centralidade do Harlem comenta Locke: "Tome o Harlem como exemplo. Manhattan não é simplesmente a maior comunidade negra do mundo, mas a primeira concentração de elementos tão diversos da vida Negra. O bairro atrai o Africano, o West Indian, o Negro Americano (do Sul e do Norte). Os homens da cidade, os camponeses, os homens de negócios, os homens profissionais, os artistas, os poetas, os músicos, os aventureiros, os trabalhadores, os religiosos, os criminosos, os exploradores e outras castas sociais. Cada grupo veio por motivações particulares (...) mas suas experiências compartilhadas tem determinado uma fusão de experiências e sentimentos". De forma geral, os intelectuais do movimento preocupavam-se com o processo de urbanização dos afro-americanos no Norte ressaltando a formação de uma nova consciência racial através do processo de "reorientação da visão" que estava em curso: "Na última década, alguma coisa além do controle das estatísticas tem acontecido na vida do Negro Americano. Três figuras que tradicionalmente presidem o problema do Negro crescem nos seus próprios braços: o Filósofo, o Filantrópo e o líder da Raça. Eles não são o inconsciente do Novo Negro, mas a justificativa para sua existência" (Locke, 1925:3). Segundo Locke, o "Novo Negro representava o 'guru' de uma 'nova democracia na cultura Americana'" e por isso sua identidade renovada deveria ser incluída na história americana como um todo (id.ib.:9). Com a Grande Depressão de 1929, o movimento entra em declínio. Além de Locke, que ficou conhecido como "pai do Novo Negro", destacaram-se entre seus participantes os escritores Zora Neale Hurston, Langston Hughes, James Weldson, Counteen Cullen, Jessie Rednom Fauset. Sobre o Harlem Renaissence, ver Lewis (1997). Seja como alvo de olhares atentos ou como produtora de ideias e representações, a mulher de cor, assim como sua aparência e seu comportamento, serão temas de excelência numa longa conversa sobre o que seria a versão feminina desse novo negro.

O objetivo deste artigo é apresentar quem era, como se definia e o que se esperava de uma Nova Mulher Negra, leitora por excelência das publicações da sua raça no começo do século XX. Para tal panorama, selecionei como documentos um texto de 1895 da afro-americana Katherine Tillman, sete outros também escritos por mulheres de cor e publicados na edição de julho de 1904 da The Voice of the Negro4 4 Daqui por diante TVN. e um artigo sobre essa nova mulher, assinado por John Henry Adams Jr. e que apareceu no mês seguinte na mesma revista.

Monumentos esculpidos pelas mãos de novas mulheres negras, seus escritos revelarão um intrincado processo de racialização do gênero que lhes reservava o papel missionário de civilizar sua raça. Para um mergulho mais denso nessas imagens pelas quais as classes mais instruídas da raça desejavam que suas mulheres fossem publicamente vistas, dialogarei com os conceitos de "políticas de respeitabilidade" (Higginbotham, 1993), "imagens controladas" (Collins, 2009) e "feminilidade reconstruída" (Carby, 1987), partes essenciais do Feminismo Negro.5 5 Em termos acadêmicos, pode-se dizer que os anos 1980 testemunharam a emergência de um feminismo negro que questionava aquele clássico por ignorar a contribuição das mulheres negras para sua existência. Nesse momento, intelectuais afro-americanas como Barbara Smith, Audre Lorde e bell hooks fizeram tal questionamento produzindo pesquisas inovadoras que articulavam gênero, raça e classe e denunciavam a inevitabilidade de se reconhecer as diversas formas de se conceitualizar o feminino. Essas autoras e suas inúmeras sucessoras são reconhecidas por produzirem narrativas sobre sonhos, dores e esperanças de mulheres negras. No feminismo negro, as experiências pessoais são abertamente consideradas como determinantes para a construção do conhecimento acadêmico e por isso a escrita na primeira pessoa é uma de suas mais importantes características. As interseções entre subjetividade, pensamento e produção intelectuais são bem explicitadas pela fala de Sheila Radford-Hill: "as posições do feminismo negro definem politicamente a mim e as questões e preocupações que guiam minha vida e meu trabalho. Na minha visão, o feminismo merece sobreviver apenas se ele fortalecer os esforços de mulheres negras por mudanças sociais que desafiam aquilo que nós acreditamos (...) restaurar a força do gênero, da cultura e da comunidade é a única contribuição que o feminismo negro pode oferecer" (Radford-Hill, 2000:5). Elas aparecem também na afirmação de Patricia Collins sobre a importância de resgatar as experiências de nossas antepassadas, marcadas por uma "fusão intelectual entre trabalho e ativismo (...), ação e teoria" como parte da tradição de um Pensamento Feminista Negro (Collins, 2000:29). Ver ainda: Smith, 1983 ; Lorde, 1984; hooks, 1989. Ao final da seção, apresento três fotografias de representantes femininas da raça que apareceram no A New Negro for a New Century, um livro de 1900 de Booker T. Washington, além de quatro protótipos de novas mulheres negras apresentados por Adams Jr.

Lançada na cidade de Geórgia, Atlanta, em janeiro de 1904, a TVN era dirigida aos debates sobre direito ao voto e à alta educação dos afro-americanos além de tratar de temas como religião, movimentos trabalhistas, arte e cultura aos moldes do que faziam títulos de grande circulação como, por exemplo, a famosa McClure's Magazine (Urgo, 2000). Nesse ano, as "cópias individuais" da TVN foram vendidas a $0,10 e sua circulação estimada em 15.000 exemplares (Patterson, 2008:169). A referida edição de julho é um número especial, recheado com diversos textos assinados por mulheres, dentre eles: "Não Cor Mas Caráter", "Feminilidade Negra Defendida"; "A Associação Nacional das Mulheres de Cor"; "O Status Social da Mulher Negra"; "Melhoramento Social para as Mulheres Agricultoras"6 6 ] Embora apareça no índice com esse título, o artigo é renomeado como "Melhoramento Social para as Mulheres da Plantation" na parte em que ele aparece. ; "O Progresso das Mulheres de Cor"; "O que a educação está fazendo pela Mulher de Cor?" (TVN, jul. 1904:capa).

As excessivas pompas e predicados pelas quais as escritoras são introduzidas aos leitores dimensionam o investimento em construir representações sobre as "mulheres da raça": "Mrs. Josephine Silone-Yates7 7 ] Josephine Silone Yates (1852-1912) nasceu em Long Island, Nova York. Ela ajudou a fundar a Kansas City Women's League e, em 1893, foi eleita sua primeira presidenta. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/yates-josephine-silone-1852-1912> Acesso em: 09/08/2011. - presidente da Associação Nacional de Mulheres de Cor, professora de Inglês e História no Lincoln Institute, mais importante professora da escola para Negros no oeste do rio Mississipi". A genialidade de Yates era tamanha que sua biografia chegou a ser publicada no Indiana World, um jornal de ampla circulação:

Mrs. Josephine Silone-Yates é uma das mais importantes mulheres da sua raça (...) Graduou-se com honras na New Port High Schooll - sendo oradora de sua classe. Foi a única aluna de cor a receber habilitação para ensinar nas escolas públicas de New Port (TVN, jul. 1904:2).

Educada, inteligente, organizada e enaltecida até mesmo entre os brancos como um poço de talentos, a nobre senhora cumpria todos os requisitos de uma mulher respeitável. Outra que não ficava atrás era Mrs. Booker T. Washington.8 8 ] Margaret James Murray Washington (1865-1925) era filha de um descendente de irlandês com uma afro-americana. Ela graduou-se em Fisk University em 1889. Casou-se com Booker T. Washington em 1892. Além de escrever diversos discursos para o marido, Mrs. Washington foi uma de suas principais apoiadoras no Tuskegee Institute, onde criou um programa de alfabetização e higiene voltado para as mulheres pobres do Alabama. Em 1896, a educadora foi eleita presidenta da Federação Nacional de Mulheres Afro-Americanas. Já em 1914, passou a presidir a Associação Nacional de Mulheres de Cor. Ela morreu em 1925 defendendo a educação industrial e a cooperação interracial no Sul dos EUA. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/washington-margaret-murray-1865-1925> Acesso: 10/08/2011. Graduada em 1891 na Fisk University, ela trabalhou como professora no Tuskegee Institute, a famosa escola técnica criada por seu marido, o "Dr. Booker T. Washington" no Alabama. "Decana do Departamento de Mulheres, professora de Literatura e diretora de Indústrias para Garotas", a educadora "quase tão famosa quanto seu ilustre esposo" era reconhecida como alguém que lutava pelo "melhoramento das mulheres" e por isso merecia ser reverenciada pela revista como uma "mulher pública" ainda que seja a única das colaboradoras que não tenha seu primeiro nome mencionado (TVN, jul. 1904:2).

Embora a seção restrinja-se a falar apenas das duas professoras9 9 Ao final da seção, os editores advertiam que tinham pedido a todas as colaboradoras para enviar um "resumo biográfico", mas apenas Yates e Washington atenderam a solicitação. , suas apresentações (inclusive com fotografias) e ideias contribuem para entender melhor as noções que a imprensa negra criava sobre uma feminilidade negra respeitável. Dito isso, é hora de ouvir nossas heroínas.

Em "Feminilidade Negra Defendida", Addie Hunton10 10 Nascida em Nortfolk na Virginia, Addie Waites Hunton (1866-1943) foi a primeira mulher negra a graduar-se no Spencerian College of Commerce, na Filadélfia. Em 1907, ela passou a secretariar o trabalho social da Young Women's Christian Association (YWCA) com pessoas negras. Entre 1906 e 1910, Hunton foi secretária da Associação Nacional de Mulheres de Cor. Além disso, teve participação destacada na luta das mulheres negras pelo direito ao voto que inicialmente (19 a Emenda, 1921) foi assegurado apenas para as brancas. A educadora e mais duas afro-americanas foram as únicas mulheres afro-americanas contratadas para trabalharem com as tropas de homens de cor na França durante a I Guerra Mundial. Nos anos 1930, ela tornou-se militante do Pan-Africanismo. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/hunton-addie-waites-1866-1943> Acesso em: 09/08/2011. lembrava que o "demônio da hidra encabeçada" conhecido como "problema da raça" tinha deixado como um dos maiores legados a noção de "fraqueza moral da feminilidade Negra". Escrevendo de Atlanta, nossa terceira representante denunciava que as mulheres da raça eram alvo de "imerecidas críticas" (Hunton, jul. 1904:280). A injustiça era muito antiga, pois, "desde os tempos de Adão", elas vinham sendo responsabilizadas pelas "fraquezas da raça". Diante de todas as "feridas" e "hemorragias da alma" a que estiveram sujeitas no decorrer da história, a escritora questionava: de onde vinham essas ideias sobre a imoralidade da mulher "Negra"? Ao julgar tais comentários injustos e superficiais, pois eles desconsideravam que "havia diferentes tipos de classe de mulheres Negras", Hunton restringia o sentido de "classe".

Ainda que não particularize explicitamente tal definição, as entrelinhas do seu texto evidenciam que, para ela, existia apenas uma classe de "Negras" apta a ser reconhecida como respeitável. "Força motriz" para as "realizações da raça" (id.ib.:282), as mulheres de cor instruídas foram capazes de perceber "desde cedo" que as "qualidades morais e conservadoras da raça residiam na sua feminilidade" e por isso eram suas únicas e legítimas porta-vozes. Esse esforço de publicizar apenas um tipo de feminino dentro da raça foi a forma pela qual Hunton e tantas outras intelectuais afro-americanas construíam para si próprias um modelo público de "feminilidade respeitável" (Wolcott, 2001:3).

Num contexto de contraposição às "imagens controladas"(Collins, 2009:76-7)11 11 De acordo com Collins, retratar afro-americanas como mammies, matriarcas e amantes quentes ajuda a justificar a opressão da mulher Negra nos EUA. Romper com essas "imagens controladas" designadas para apresentar racismo, sexismo, pobreza e outras formas de injustiça social como naturais, normais e inevitáveis tem sido um dos maiores objetivos do Pensamento Feminista Negro. exercidas pelos estereótipos de sexo, trabalho e caráter, é que a professora Josephine Yates escreve mais um texto de contraponto. Sua missão era demonstrar a importância da Associação Nacional das Mulheres de Cor12 12 A National Organization of Colored Women foi fundada na cidade de Washington em 1896. Antes de sua fundação, as mulheres negras "educadas" já contavam com duas organizações nacionais próprias: a National League of Colored Women e a National Federation of Colored Women. De acordo com artigo II do seu regimento, um dos objetivos da NACW era "assegurar a harmonia de ação e cooperação entre todas as mulheres engajadas na elevação do lar, da moral e dos direitos da vida". Sua estrutura era composta por clubes, grupos, ligas, comitês de todo o país e que tinham como compromisso a elevação racial. Entre 1896 e 1904, a NACW realizou quatro conferências "para acompanhar o trabalho e o desenvolvimento da mulher Afro-Americana". (Yates, jul. 1904: 283-7). Amplamente pesquisados pela historiografia, os clubes de mulheres negras foram espaços primordiais para a formação de líderes negras. Comprometidas com a ressignificação da feminilidade da mulher de cor através de discussões de arte, música, literatura, política e ciência doméstica, suas participantes entendiam que esses espaços representavam "uma das maiores forças do século na solução dos problemas da raça". Sobre a formação da NACW, ver Shaw (1991:10-25). Para diferentes aspectos da história dos clubes e associações de mulheres negras nos EUA ver: Salem (1990); Hine(1990:70-93); Terborg-Penn(1998); Knupfer (1996). Uma excelente discussão sobre os conflitos entre mulheres negras e brancas nos clubes femininos (ou problemas da "unidade na diversidade") está em Wilson (2011). , uma organização nacional de "mulheres Negras educadas" e "voltadas para o levantamento da raça" (Yates, jul. 1904:283). Não por acaso, nossa escritora anterior, com quem Yates compartilhava muitas bandeiras, lembrará que, no caso das negras, a construção da feminilidade conectava-se à raça como um todo, ou seja, ao "progresso e ao desenvolvimento do Negro":

Ela [a mulher Negra] ajudou a acumular propriedade, real e pessoal, que valem mais de $700.000.000. Ela ajudou a levantar aproximadamente $14.000 para educação de suas crianças. Ela educou mais de 25.000 professoras de sua própria raça e, isso tudo foi feito em menos de meio século à revelia de sua complicada posição (Hunton, 1904:282).

Assim como na cidade, as mulheres de cor da plantation também tinham uma mensagem a transmitir num Sul dilacerado pela segregação racial. Lá do Alabama, nossa já conhecida Mrs. Washington comentava deslumbrada as "vantagens da educação" para as "agricultoras de cor". Se "quarenta anos" antes elas eram vistas como algo parecido como uma "mula" e "pouco mais querido que um cavalo", com o advento da "Nova República" e das "conferências semanais de agricultoras", as "escravizadas" de ontem trilhavam os caminhos da vitória "melhorando" cada vez mais sua "condição social" e sua "relação com a família" (Washington, 1904:288). Nas "suas pequenas fazendas", produziam "grãos", "vegetais" e dedicavam-se ao inteiro cuidado das crianças. Essa conciliação entre as tarefas públicas e privadas devia-se a apenas um fator: "suas almas, tão brancas e limpas quanto às das suas mais justas irmãs" (id.ib.:290). Washington também evocou noções da feminilidade universal para saudar as novas negras do Sul (Higginbothon, 1993:100).13 13 É necessário ao menos mencionar que as realidades do Norte e do Sul eram bem distintas. Assim, no último, as igrejas batistas desempenharam uma função particular na produção de lideranças femininas negras. Como demonstra Higginbhotan, as igrejas foram apropriadas por tais mulheres como sua "esfera pública" - "o único espaço verdadeiramente acessível para a comunidade negra no Sul pós-Reconstrução". Donas de mentes das "mais puras e verdadeiras", deixaram para trás os grilhões que aprisionavam "corpo, mente e alma". Estavam enfim prontas a executar a mesma missão que suas colegas de cor citadinas: "desenvolver a casa e a família solucionando assim o chamado problema da raça" (Washington, jul. 1904:288).

Já a ativista Mary Terrell14 14 Mary Church Terrell (1863-1954) nasceu em Memphis, no Tennessee. Em 1894, tornou-se bacharel em Artes e Línguas Clássicas pela Oberlin College. Antes de se mudar para Washington D. C., lecionou no Wilberforce College, em Ohio. A educadora, escritora e ativista foi a primeira presidente da Associação Nacional das Mulheres de Cor entre 1896 e 1901 e fundadora da Liga das Mulheres de Cor em Washington (1892). Além disso, apoiou a Associação Nacional pelo Sufrágio da Mulher Americana, ainda que a organização tenha sido favorável à exclusão das mulheres negras do direito ao voto. Em 1940, sua autobiografia - A Colored Woman in a White World - foi publicada. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/terrell-mary-church-1863-1954> Acesso em: 10/08/2011. emprestava sua atenção a algo que era um verdadeiro "milagre": o "progresso intelectual da mulher de cor". Nas escolas, nas universidades, nos comércios, nas igrejas, nas instituições de caridade, a comunidade negra contava com "heroínas que sacrificavam sua vida pela raça". (Terrel, jul. 1904:293). Assim como as demais, a escritora também acompanhava o desenvolvimento desses sujeitos numa perspectiva comparada às brancas. Entretanto, seu discurso sobre as oportunidades desiguais pautadas pela raça era mais direto. Não somente como "mulheres", mas como "mulheres de cor", elas eram "desencorajadas" a galgar melhores oportunidades. Mesmo assim, não se intimidaram! "Bateram as portas da Justiça e pediram uma chance de equidade". Enquanto "mulheres da raça" seus apelos foram atendidos. Tinham se tornado as "responsáveis" na "mais larga medida" pelo estágio de "refinamento" e "pureza" que se encontravam os "lares de cor" espalhados pelo país (id.ib.).

Da Louisiana, Sylvanie Williams15 15 Não foi possível encontrar informações biográficas sobre Sylvanie Francoz Williams. também tinha o que dizer das mulheres de cor locais, representantes engajadas na propagação de uma "doutrina da integridade racial" (Williams, jul. 1904:299). Outra vez, uma noção universal de feminino é racializada para falar desse segmento. "Emblemas" de uma "feminilidade leal e diligente" e de uma "fé forte e brava" (id.ib.:300), as "nobres mulheres de cor" provavam o seu "progresso moral" através das "famílias com seis e sete crianças de um mesmo pai" e pela "celebração de muitos casamentos entre os mais pobres" da raça (id.ib.). Esses fatos eram o suficiente para desdizer as "blasfêmias" de um tal Charles Booth que, num de seus relatórios, afirmava ser "difícil conceber as virtudes da mulher negra" (id.ib.:298). Ela questionava a ideia da "raça" enquanto unidade afirmando que a "imoralidade do Negro" existia, mas apenas entre os integrantes "pauperizados" e "brutalizados" (id.ib.:299). A mulher da raça emergia mais uma vez como personagem principal: "um dia quando os homens e crianças da raça tiverem ascendido todos a chamarão de "abençoada" (id.ib.:300).

A última do nosso hall de notáveis pensadoras é Josephine Bruce.16 16 Josephine Beal Willson Bruce (1853-1923) nasceu na Filadélfia. Filha de um dentista com uma cantora, em 1878, ela casou-se com o fazendeiro do Mississipi Blanche K. Bruce, o único Senador negro do país. Ativista dos clubes femininos, em 1892, ela candidatou-se à presidência da Associação Nacional das Mulheres de Cor, mas sua pele clara foi utilizada contra ela. Entre 1898 e 1902, tornou-se decana do Tuskegee Institute. Nos anos 1900, escreveu artigos para o The Crisis e editou o National Notes, publicação da Associação Nacional das Mulheres de Cor. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/bruce-josephine-beall-willson-1853-1923> Acesso em: 10/08/2011. A colaboradora engrossa o coro das colegas comentando sobre a existência de uma "classe educada" de Negros, praticantes das "mais altas virtudes" na cidade de Farmville.

Mas nem tudo eram flores, especialmente no Sul do país. Lá, em cidades como Calumet, a situação da população de cor era "patética". Devido à "falta de facilidades educacionais", "setenta por cento desse segmento era analfabeto" (Bruce, 1904:295). Já os negros de Saint Louis podiam bater com orgulho no peito: tinham produzido sua própria classe de instruídos. Nela, destacavam-se mulheres que atuavam como professoras e com isso "elevavam o padrão moral de sua comunidade". A despeito do fato de os problemas de "criminalidade, saneamento e pobreza" ainda não terem sido "totalmente solucionados", as mulheres de cor educadas ("responsáveis" pela "boa casa", pela "boa moral" e pela "boa sociedade") mereciam ser parabenizadas, pois graças a "um sem número delas (...) os resultados do melhoramento da comunidade" estavam vindo à tona (id.ib.:295,298).

Agora que já conhecemos parte dos escritos dessas conspícuas, discutiremos mais a fundo o que significava ser uma mulher da raçapara as classes negras educadas. A TVN continua nos guiando. Coincidência ou não é no seu número seguinte que será pintado um quadro preciso da nova mulher negra. À revelia da existência de dezenas de representantes femininas ilustres, na edição de agosto, a revista convidou um homem negro para desenhá-la. Cumprindo sua tarefa com toda pompa que a situação exigia, John Adams Jr. apresenta Gussie aos leitores. Ilustrada por uma figura que a retratava como uma mulher esbelta e elegante, a jovem era "admiradora da Arte Fina; artista de piano e violino; doce cantora, escritora mais voltada para os ensaios; amante dos bons livros e dona de casa" (Adams Jr., ago. 1904:323).

De fato, Gussie tinha muitos predicados que a aproximavam da imagem da nova mulher americana: branca, burguesa e instruída.17 17 Entre os anos 1890 e 1930, diferentes grupos dedicaram-se a pensar novas representações para as mulheres. No caso das americanas, a discussão maior girava em torno dos direitos ao voto e ao trabalho remunerado fora de casa. Ver Patterson (2008). Mas, dentro de uma perspectiva de racialização do gênero, como pensar as particularidades de seu arquétipo? A diferença primordial é que as representações feitas pelo professor de Artes do Morris Brown College carregavam em seu bojo um objetivo particular: recriar a "personalidade da raça" realçando e generalizando as características individuais de algumas poucas mulheres de cor instruídas como traços universais de todo um grupo. Sua narrativa de uma "feminilidade verdadeira" oferece quadro profundo e vigoroso dessa nova mulher negra:

Considere ela, suas palavras! e você verá que não há ninguém melhor, eu juro por ela! Não existe ninguém mais puro, mais nobre que estampe pre-eminência no semblante do homem, da mulher, da criança, lance suas armas, estojos e armaduras brilhantes nos seus imaculados pés e assegure uma vida em defesa da dela. Considerem ela, nações! Meça ela através dos padrões da perfeição humana. Meça ela com as mesmas escalas que são empregadas para medir rainhas, filhas e esposas dos homens nobres. E, depois de encerrado o teste da busca por seus reais méritos, ela será reconhecida não apenas pela beleza física, não apenas pelo encanto intelectual, mas pela energia moral, pela pureza do coração, pela morada do propósito e pela sóbria consciência de uma verdadeira feminilidade, a mesma que a das irmãs brancas ou vermelhas ou irmãs cor de oliva. Abandone todos os homens que tenham o sangue da América proibida como unidade eterna, homens com tradições que retrocedem dois séculos e meio de história, que retornam à escravidão e pior, que fortalecem a ignorância. Eu digo, deixe todos os homens, mesmo os que não sejam desses que arremessam a vida da mulher negra para os ventos da incerteza mesmo quando sua honra é uma estaca (id.ib.:171)

A mulher negra era sublime, superior e encantada. E tornava-se uma prioridade mundial ("nações!") tomar conhecimento de sua potencialidade. Dona da absoluta "perfeição humana", seus "méritos" eram "reais", por isso elas não precisavam ter receio de nada. Estavam credenciadas para ter sua magnitude verificada com os mesmos instrumentos usados para checar as qualidades das "rainhas". Como resultado teriam de volta tudo aquilo que a escravidão havia lhes roubado: "energia moral", "pureza do coração", "sóbria consciência". Em curtas palavras, uma "verdadeira feminilidade" tinha que ser preservada.

A definição da "feminilidade" é um momento crucial do texto. Ela é o único trecho no qual a raça da mulher negra é mencionada e isso é feito através da figura do outro, uma espécie de alteridade equiparatória com um tom universalista ("a mesma das irmãs brancas ou vermelhas... ou cor de oliva"). Criatura mágica, estrela soberana, a mulher negra tinha seu feminino devolvido através da homogeneização com suas "irmãs". Por isso, sua feminilidade deveria não apenas ser definida, mas defendida contra homens ignorantes que duvidavam da sua "honra", forte como uma "estaca". Em tempos de Jim Crow, esses escritos - narrativas incisivas de "empoderamento"18 18 Dentro da sólida tradição de Estudos Feministas Negros, intelectuais afro-americanas, sob os mais diversos prismas (História Social, Sociologia, Estudos Culturais, Literatura, Pós-Colonialismo, Teoria Queer, etc.), discutem as "políticas de empoderamento" que mulheres negras têm construído ao longo de séculos. Para Sheila Radford-Hill, "empoderamento" é "a agência que elas expressam através de suas ações políticas e sociais". Collins, por sua vez, problematiza a definição do conceito ao focalizar as particularidades históricas desses sujeitos. "Para mulheres Afro-Americanas, o empoderamento nunca ocorrerá num contexto caracterizado pela opressão e pela injustiça social. Um grupo pode ganhar o poder através da dominação de outro, mas esse não é o tipo de empoderamento encontrado no pensamento de mulheres Negras. Lendo seu trabalho intelectual, percebo que (...) o Pensamento Feminista Negro trabalha em conjunto com outros projetos similares de justiça social" (Radford-Hill, 2000:xi; Collins, 2009:xii). Um balanço crítico sobre as "políticas de empoderamento" está em Weissberg (1999). - esforçavam-se em mostrar que as mulheres negras eram naturalmentefemininas. Oriunda de histórias de violência, de trabalho forçado, de separações, de preconceito, sua condição feminina ligava-se ao novo e ao antigo, à escravidão e à liberdade, daí a necessidade de ter uma "feminilidade reconstruída" (Carby, 1987). A perspectiva da reconstrução questionava o pressuposto da inferioridade que permeava sua relação com as brancas e colocava os limites da irmandade entre todas as mulheres noutras bases.

Ainda que as ideias hegemônicas do feminino (mãe, esposa, dona de casa) fossem incompatíveis com a vida das mulheres negras (Carby, 1999), no texto de Adams Jr., elas eram adequadas às suas experiências como estratégia de combate a uma "feminilidade deficiente" (White, 2008:10). Em vez disso, elas eram elevadas à condição máxima de heroínas, donas de uma mensagem de feminilidade que precisava ser transmitida para o mundo. Afinal, como advertia Nannie Burroughs19 19 ] Nannie Helen Burroughs (1883-1961) nasceu em Orange, na Virginia. Em 1907, ela obteve o título de mestre pela Eckstein-Norton University. No mesmo ano, ela apoiou a Convenção Nacional Batista e, em 1909, tornou-se a primeira presidenta da National Trade and Professional School for Women and Girls em Washington, D.C. Dona do bordão "Nós nos especializamos no mais completo impossível", ela defendia a ideia que a educação industrial e clássica eram compatíveis. Burroughs presidiu a escola até o ano de sua morte. Em 1964, a instituição foi rebatizada com seu nome. Disponível em: < http://www.blackpast.org/?q=aah/burroughs-nannie-helen-1883-1961> Acesso em: 09/08/2011. , num texto emblemático que criticava tanto homens quanto mulheres negras que olhavam a "cor" em detrimento do "caráter", na hora de subirem ao altar "refinamento e caráter não eram restritos à mulher branca" (Burroughs, jul. 1904:277).

A preocupação sobremaneira com a imagem pública e privada, com a aparência e com a alma, assim como com a mensagem que as afro-americanas guardavam em seus corações eram reforçadas por outras mulheres da intelectualidade negra como Katherine Tillman.20 20 Katherine Davis Chapman Tilman (1870-?) nasceu em Mount City, Illinois. Filha de uma família de negociantes negros, ela estudou na Louisville State University, em Kentucky. Desde a adolescência, Tillman escrevia poemas e contos para as "jovens de sua raça". A autora, que acreditava que a escrita era um dos principais instrumentos para elevação racial e para o desenvolvimento de um sentimento de domesticidade entre as mulheres de cor, publicou dois romances na A.M.E. Church Review: Beryl Weston's Ambition: The History of an Afr0-American Girl's Life (1893) e Clancy Street (1898-9). A data e as circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Ver Tate (1991); Andrew, Foster e Harris (2001:395). No final do século XIX, a jovem discutia a importância de suas irmãs valorizarem um dos maiores bens que a "Cristandade" havia deixado para a comunidade negra: o lar. Para ela, toda mulher deveria saber como tornar sua casa o "lugar mais feliz da terra", mas seu apelo especial ia para as representantes da raça:

Vamos nós como Afro-Americanas prometer para si próprias a elevação de nossos lares. Vamos lutar contra a intemperança, contra a infidelidade, contra os jogos em salões, contra literatura ruim e a imoralidade de todos os tipos, pois esses são os demônios que destroem nossas casas. Vamos nos engajar na propaganda de Cristo e ajudar a dominar esses demônios. O mundo precisa de nossos esforços e vamos sair em Seu nome para conquistar (Tillman, 1895:286).

É importante dimensionar que a complexidade que envolve a reconstrução da feminilidade negra extrapola o antagonismo branco x negro. Esse é um dos momentos mais importantes da sobreposição entre gênero e raça na presente discussão. Como missionária do sucesso familiar, o papel da mulher de cor vinculava-se a um modelo de feminino hegemônico, mas, ao mesmo tempo, como vimos, quando elas usavam tal modelo, o faziam de forma articulada às suas experiências como negras em diferentes espaços (educação, trabalho, religião, saúde, política, etc.). Esse processo tenso e ambíguo referia-se à construção de "políticas de respeitabilidade" (Higginbotham, 1993) por mulheres comprometidas com um trabalho específico: o levantamento racial.

Como destaca Evelyn Higginbotham, abraçar tais valores pode ser visto como um "imperialismo cultural", mas não se pode perder de vista que essa apropriação era ambígua. Nesse sentido, incorporar os padrões morais das famílias de classe média brancas era também radical, audacioso. Em tempos de Jim Crow, quando "a sociedade branca via a mulher negra como promíscua, não-merecedora de proteção contra insultos e até mesmo contra o estupro" (id.ib.:100), elas ousaram lutar por um tratamento equivalente ao das brancas no qual a "domesticidade" (Wolcott, 2008:8) ocupava lugar central.

Claro que isso também tinha o seu lado conservador de crítica àqueles que não se adequassem a tais valores, aqueles "sem sucesso"21 21 Olhando a interação entre afro-americanas de diferentes classes na cidade de Detroit entre os anos 1914 e 1945, Victoria Wolcott reforça a importância de estudar os migrantes "sem sucesso", abandonados pela história: "prostitutas, apostadores e artistas populares transformaram a Detroit Negra tanto quanto líderes de clubes, fundadores de igrejas e ativistas sociais. Alguns permaneceram pobres a despeito da luta por empregos, já outros atingiram significativa mobilidade social" (Wolcott, 2001:3). , mas é preciso enxergar que essas mulheres lutavam contra a ideia de uma imoralidade negra inata, combatida como uma praga social. Desse modo, ao construírem sua própria moralidade, elas desafiavam a falsa retórica da supremacia branca demonstrando que para afro-americanas a luta pela respeitabilidade era muito mais que um "simples reflexo da ideologia vitoriana", mas sim uma "estratégia de sobrevivência" (Wolcott, 2001:7). Além disso, tal clamado por novas imagens, feito em interação com os valores das classes dominantes, também era uma possível estratégia de contraposição às incongruências entre as ideias de família, gênero e feminino negro, construídas durante a escravidão. De acordo com Patricia Collins:

Dois elementos da família ideal tradicional são especialmente problemáticos para as mulheres Afro-Americanas. Primeiro, a separação assumida entre a esfera "pública" do trabalho remunerado e aquela "privada" das responsabilidades familiares não-remuneradas nunca funcionou para as mulheres Negras dos EUA. Durante a escravidão, elas trabalharam na esfera pública sem receber (...) e tiveram a privacidade de suas famílias rotineiramente violadas. Segundo, o binarismo público/privado que separa o familiar, o doméstico do mercado de trabalho remunerado é fundamental para explicar a ideologia Norte-Americana de gênero. Se alguém assume que o homem real trabalha e que a mulher real cuida de sua família, Afro-Americanas são vítimas de idéias deficientes de gênero. A mulher Negra em particular torna-se menos "feminina" porque seu trabalho remunerado fora de casa compete com o do homem além de afastá-las de seus filhos (2009:54).

Antes de nos despedir de nossas caras notáveis, algumas observações finais. Desde as primeiras linhas, leitores e leitoras devem estar pensando que Soujourner Truth, Anna Cooper, Josephine Yates, Margaret Washington, Addie Hunton, Sylvania Williams, Mary Terrell e Katherine Tillman representavam a minoria da raça negra. Por isso, gostaria de pensar as trajetórias de tais mulheres a partir do Female Talented Tenth (Higginbotham, 1993:21).22 22 O Female Talented Tenth (na tradução literal pouco apropriada "Décimo Talentoso do Feminino") diz respeito a dois aspectos: a singularidade que as mulheres de cor instruídas representavam naquele momento e o fato de que na condição de representante da raça, tal grupo promoveu a "difusão do orgulho racial e dos valores da classe média branca" entre os negros. Nesse projeto difusor, a luta pelo acesso aos mais altos níveis da educação destacou-se como uma das principais metas. Tal luta trouxe para a superfície pedagogias e ideologias distintas que colocavam em conflito negros e seus apoiadores brancos. Nesse sentido, "o conceito de Female Talented Tenth oferece uma oportunidade de explorar o processo pelo qual os valores da classe média foram introduzidos, propagados e interpretados entre pessoas [negras] e, em alguns casos, rejeitados por elas" (Higginbotham,1993:31). Esse conceito é importante, pois ele as posiciona no indiscutível lugar de exceção, de raridade que ocupavam na condição de pessoas (mulheres) de cor que atingiram os mais altos níveis da educação formal. Agarrando tal oportunidade com unhas e dentes, elas incorporaram o papel de multiplicadoras de práticas que articulavam gênero, raça e auto-ajuda em clubes femininos, jardins de infância, escolas, universidades. Esse processo, mais uma vez, evidenciava as fragilidades de uma irmandade entre negras e brancas. Tal "irmandade incerta" (id.ib.:84)descortinava ainda interesses distintos e práticas de cooperação racial moldadas pelo racismo.

De um lado, mulheres brancas preocupadas com a segurança nacional e com certo sentimento de culpa pelas restrições impostas à instrução da população negra. Do outro, negras empenhadas em conquistar respeito e elevação para si e seus pares através da educação. As cláusulas desse contrato pareciam ser bem interessantes para as últimas. Primeiro, por intermédio dessa interação desigual, elas davam os contornos iniciais daquela que em pouco tempo se tornaria uma classe média negra. Segundo, como educadoras podiam reconstruir a feminilidade negra acionando estereótipos femininos como a vocação da mulher para o ensino. Terceiro e, não menos importante, tinham a chance de desenvolver instrumentos próprios para (re)formar sua raça.

Ao ser representada por suas penas como "uma unidade que deve[ria] ser ensinada a sustentar-se, pensar logicamente, ser independente, auto-confiante e agir corretamente" (Yates, jul. 1904:284), a raça assumia então o papel de sujeito ao passo que suas mulheres, os postos de liderança. Na condição de representantes dessa raça-sujeito, esses "décimos de talento" sabiam do trabalho que tinham pela frente e, por isso, exigiam que os brancos deixassem que elas próprias, as "únicas sinceramente interessadas na elevação de sua raça", discutissem sua própria ideia de moralidade (Hunton, jul. 1904:282).

Nesse contexto, a construção de uma feminilidade racializada23 23 Cabe dizer que as negras não foram as únicas a racializar a discussão sobre uma nova mulher. O feminino racializado também aparece, dentre outros, em American Jewess (1895-1899), a única revista do pensamento feminino judaico publicada em inglês no século XIX nos EUA. O periódico era "uma Revista Mensal de Assuntos Sociais, Literários e Religiosos" voltado para as classes altas. Suas páginas incluíam seções de Medicina, Moda e Ciência Doméstica. Apresentadas como "Mulheres de Negócio de Sucesso", suas escritoras também discutiam os perigos de uma feminilidade subtraída condenando mulheres que usavam bicicletas e ceroulas, por exemplo. A revista defendia uma maior equidade religiosa entre masculino e feminino. No interessante artigo "The New Woman", publicado por Ella Bartlett, em abril de 1895, a Ministra da sociedade Universalista problematizava o real significado dessa figura: "o adjetivo 'novo' tem sido aplicado às mulheres com surpreendente atraso (...) O que a Nova Mulher tem feito, fez ou fará só é considerado quando apresentado como uma descoberta do 'genus homo' (...) Entretanto, as pesquisas sobre sua história mostram que essa descoberta é apenas a descoberta de algo que já acontecia, então isso não é uma 'nova ordem' de fato". A autora conversava com as leitoras, "irmãs de Moisés", sobre temas como casamento, trabalho, estudo, direitos de propriedade e equidade de direitos na tutela de seus filhos. Lançando mão de dezenas de ironias, Bartlett perguntava: "Deve a nova mulher advogar uma reforma no jeito de se vestir e preparar roupas similares a dos homens? (...) Existiu um curto período na história da raça que as vestimentas eram "feitas com o mesmo material para ambos os sexos". Ver Bartlet (jul. 1895:9). tinha sim o seu quê de radicalismo posto que, através dela, a feminilidade "verdadeira"24 24 Para Carby, a "verdadeira irmandade" seria uma "instituição cultural" reforçada no século XIX por manuais, revistas femininas, programas educativos e práticas sociais (1987). com suas noções de pureza, piedade, submissão e domesticidade brancasestava sendo enegrecida. Essa apropriação dos valores dominantes deve ser olhada dentro das complexidades em que a situação se constrói. Afinal, uma nova coloração de feminilidade foi alcançada por histórias de "empoderamento" contadas pelas mulheres negras dentro e fora de seus lares. Na condição de donas de casa, profissionais e, sobretudo, líderes da raça, tinham uma mensagem. O mundo não podia mais lhe virar as costas, por isso:

Nós apresentamos a mulher de cor de hoje do jeito exato em que ela impressiona o mundo: como um fator crescente para o bem. Destacamos sua inteligência, beleza e caráter por melhor reconhecimento social. Aqui está ela numa pose típica cheia de vigor, generosa em afeição, doce em emoção e forte em muitas atribuições da mente e da alma (Adams Jr., ago. 1904:171).

Figuras 11 a 14 - 4 protótipos de Novas Mulheres Negras - por John Henry Adams Jr., The Voice of the Negro, ago. 1904 (textos do autor).

Figuras 15 a 17 - Três exemplos de Novas Mulheres Negras - retiradas do livro New Negro for a New Century de Booker T. Washington (legendas de Fanie Barrier Williams).

Fontes primárias

Artigos em Revistas

Demais textos

Recebido para publicação em 23 de agosto de 2011.

Aceito em 13 de junho de 2012.

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  • Esculpindo a "Nova Mulher Negra": feminilidade e respeitabilidade nos escritos de algumas representantes da raça nos EUA(1895-1904)
    Crafting the "New Negro Woman": femininity and respectability in the writings of African American activists
  • 1
    Filha de uma escrava com seu senhor branco, Anna Julia Haywood Cooper (1858-1964) nasceu em Raleigh na Carolina do Norte. Ela iniciou sua educação formal em 1867, dois anos após a Guerra Civil, na Saint Augustine's Normal School and Collegiate Institute, instituição direcionada à formação de ex-escravos. Em 1887, ela adquiriu o título de mestre em Matemática no Oberlein College em Ohio. Dentre outros, ela lecionou na Wilberforce University e na Washington Colored High School. Em 1892, seu primeiro livro -
    A Voice from the South by a Black Woman of the South - foi publicado. Após isso, Cooper iniciou uma jornada pelo país fazendo palestras sobre educação, direitos civis e status da mulher negra. Em 1925, aos setenta e cinco anos, ela se tornou doutora em Filosofia pela Universidade de Paris, sagrando-se como a quarta afro-americana a atingir tal feito. Entre 1930 e 1950, ela assumiu a presidência da Frelinghuysen University, uma escola para estudantes negros. A filósofa morreu em Washington D. C. aos 105 anos. Disponível em: <
  • 2
    Sojourner Truth/Isabella Baumfree (1791-1883) nasceu escrava. Sendo emancipada apenas em 1827, Sojourner (que adotou esse nome apenas em 1843) foi abolicionista e ativista dos direitos da mulher, tornando-se a afro-americana mais conhecida do século XIX. Evangélica, ela defendeu a criação de uma comunidade própria de ex-escravos visando seu sustento e auto-determinação. Em 1851, Truth ficou famosa por seu célebre discurso -
    Ain't I a Woman - proferido na Conferência dos Direitos da Mulher. Em 1875, sua biografia -
    Narrative of Sojourner Truth; A Bondswoman of Olden Time, Emancipated by the New York Legislature in the Early Part of the Present Century; with a History of her Labors and Correspondence Drawn from her "Book of Life" - foi publicada por Olive Gilbert e France Titon
    . Disponível em: <
    http://www.blackpast.org/?q=aah/truth-sojourner-isabella-baumfree-ca-1791-1883> Acesso em: 09/08/2011. Para trajetórias de outras abolicionistas negras como Anna Murray Douglass, Mary Ann Shad Cary, Sarah Parker Remond, Frances Harper, Sarah Mapps Douglass, Eliza Dixon Day, Sarah Forten e suas interações com raça, sexo e classe ver também Yee (1992).
  • 3
    Nas três primeiras décadas do século XX, a questão do Novo Negro ganhou cada vez mais força na imprensa e demais escritos de intelectuais afro-americanos. Diversos autores criaram definições próprias para o que seria esse personagem em construção. Um dos maiores ápices de tal processo foi a criação, nos anos 1920, daquilo que ficou conhecido como
    Harlem Renaissence. Tendo como panos de fundo, a Grande Migração, a industrialização e a I Guerra Mundial, o HR foi um movimento literário e cultural voltado para mostrar o talento de romancistas, poetas e músicos negros. Um de seus principais líderes foi o filósofo Alain Locke, que, em 1925, batizou essa efervescência cultural como o "Movimento do Novo Negro". Concentrado no bairro negro do Harlem em Nova York, o MNN pregava o orgulho e a integração raciais combatendo o racismo e os estereótipos que os marginalizavam. (Cf. Locke: "suas sombras têm sido maiores que sua personalidade" [...] Para muitas gerações na América o Negro tem sido "mais uma fórmula do que um ser humano", alguma coisa para ser "investigada, condenada ou defendida" [...] "mas o tempo das "tias", "tios" e
    mammies já se foi"). Sobre a centralidade do Harlem comenta Locke: "Tome o Harlem como exemplo. Manhattan não é simplesmente a maior comunidade negra do mundo, mas a primeira concentração de elementos tão diversos da vida Negra. O bairro atrai o Africano, o
    West Indian, o Negro Americano (do Sul e do Norte). Os homens da cidade, os camponeses, os homens de negócios, os homens profissionais, os artistas, os poetas, os músicos, os aventureiros, os trabalhadores, os religiosos, os criminosos, os exploradores e outras castas sociais. Cada grupo veio por motivações particulares (...) mas suas experiências compartilhadas tem determinado uma fusão de experiências e sentimentos". De forma geral, os intelectuais do movimento preocupavam-se com o processo de urbanização dos afro-americanos no Norte ressaltando a formação de uma nova consciência racial através do processo de "reorientação da visão" que estava em curso: "Na última década, alguma coisa além do controle das estatísticas tem acontecido na vida do Negro Americano. Três figuras que tradicionalmente presidem o problema do Negro crescem nos seus próprios braços: o Filósofo, o Filantrópo e o líder da Raça. Eles não são o inconsciente do Novo Negro, mas a justificativa para sua existência" (Locke, 1925:3). Segundo Locke, o "Novo Negro representava o 'guru' de uma 'nova democracia na cultura Americana'" e por isso sua identidade renovada deveria ser incluída na história americana como um todo (id.ib.:9). Com a Grande Depressão de 1929, o movimento entra em declínio. Além de Locke, que ficou conhecido como "pai do Novo Negro", destacaram-se entre seus participantes os escritores Zora Neale Hurston, Langston Hughes, James Weldson, Counteen Cullen, Jessie Rednom Fauset. Sobre o
    Harlem Renaissence, ver Lewis (1997).
  • 4
    Daqui por diante TVN.
  • 5
    Em termos acadêmicos, pode-se dizer que os anos 1980 testemunharam a emergência de um
    feminismo negro que questionava aquele clássico por ignorar a contribuição das mulheres negras para sua existência. Nesse momento, intelectuais afro-americanas como Barbara Smith, Audre Lorde e bell hooks fizeram tal questionamento produzindo pesquisas inovadoras que articulavam gênero, raça e classe e denunciavam a inevitabilidade de se reconhecer as diversas formas de se conceitualizar o feminino. Essas autoras e suas inúmeras sucessoras são reconhecidas por produzirem narrativas sobre sonhos, dores e esperanças de mulheres negras. No feminismo negro, as experiências pessoais são abertamente consideradas como determinantes para a construção do conhecimento acadêmico e por isso a escrita na primeira pessoa é uma de suas mais importantes características. As interseções entre subjetividade, pensamento e produção intelectuais são bem explicitadas pela fala de Sheila Radford-Hill: "as posições do feminismo negro definem politicamente a mim e as questões e preocupações que guiam minha vida e meu trabalho. Na minha visão, o feminismo merece sobreviver apenas se ele fortalecer os esforços de mulheres negras por mudanças sociais que desafiam aquilo que nós acreditamos (...) restaurar a força do gênero, da cultura e da comunidade é a única contribuição que o feminismo negro pode oferecer" (Radford-Hill, 2000:5). Elas aparecem também na afirmação de Patricia Collins sobre a importância de resgatar as experiências de nossas antepassadas, marcadas por uma "fusão intelectual entre trabalho e ativismo (...), ação e teoria" como parte da tradição de um Pensamento Feminista Negro (Collins, 2000:29). Ver ainda: Smith, 1983
    ; Lorde, 1984; hooks, 1989.
  • 6
    ] Embora apareça no índice com esse título, o artigo é renomeado como "Melhoramento Social para as Mulheres da
    Plantation" na parte em que ele aparece.
  • 7
    ] Josephine Silone Yates (1852-1912) nasceu em Long Island, Nova York. Ela ajudou a fundar a Kansas City Women's League e, em 1893, foi eleita sua primeira presidenta. Disponível em: <
  • 8
    ] Margaret James Murray Washington (1865-1925) era filha de um descendente de irlandês com uma afro-americana. Ela graduou-se em Fisk University em 1889. Casou-se com Booker T. Washington em 1892. Além de escrever diversos discursos para o marido, Mrs. Washington foi uma de suas principais apoiadoras no Tuskegee Institute, onde criou um programa de alfabetização e higiene voltado para as mulheres pobres do Alabama. Em 1896, a educadora foi eleita presidenta da Federação Nacional de Mulheres Afro-Americanas. Já em 1914, passou a presidir a Associação Nacional de Mulheres de Cor. Ela morreu em 1925 defendendo a educação industrial e a cooperação interracial no Sul dos EUA. Disponível em: <
  • 9
    Ao final da seção, os editores advertiam que tinham pedido a todas as colaboradoras para enviar um "resumo biográfico", mas apenas Yates e Washington atenderam a solicitação.
  • 10
    Nascida em Nortfolk na Virginia, Addie Waites Hunton (1866-1943) foi a primeira mulher negra a graduar-se no Spencerian College of Commerce, na Filadélfia. Em 1907, ela passou a secretariar o trabalho social da Young Women's Christian Association (YWCA) com pessoas negras. Entre 1906 e 1910, Hunton foi secretária da Associação Nacional de Mulheres de Cor. Além disso, teve participação destacada na luta das mulheres negras pelo direito ao voto que inicialmente (19
    a Emenda, 1921) foi assegurado apenas para as brancas. A educadora e mais duas afro-americanas foram as únicas mulheres afro-americanas contratadas para trabalharem com as tropas de homens de cor na França durante a I Guerra Mundial. Nos anos 1930, ela tornou-se militante do Pan-Africanismo. Disponível em: <
  • 11
    De acordo com Collins, retratar afro-americanas como
    mammies, matriarcas e amantes quentes ajuda a justificar a opressão da mulher Negra nos EUA. Romper com essas "imagens controladas" designadas para apresentar racismo, sexismo, pobreza e outras formas de injustiça social como naturais, normais e inevitáveis tem sido um dos maiores objetivos do Pensamento Feminista Negro.
  • 12
    A
    National Organization of Colored Women foi fundada na cidade de Washington em 1896. Antes de sua fundação, as mulheres negras "educadas" já contavam com duas organizações nacionais próprias: a
    National League of Colored Women e a
    National Federation of Colored Women. De acordo com artigo II do seu regimento, um dos objetivos da NACW era "assegurar a harmonia de ação e cooperação entre todas as mulheres engajadas na elevação do lar, da moral e dos direitos da vida". Sua estrutura era composta por clubes, grupos, ligas, comitês de todo o país e que tinham como compromisso a elevação racial. Entre 1896 e 1904, a NACW realizou quatro conferências "para acompanhar o trabalho e o desenvolvimento da mulher Afro-Americana". (Yates, jul. 1904: 283-7). Amplamente pesquisados pela historiografia, os clubes de mulheres negras foram espaços primordiais para a formação de líderes negras. Comprometidas com a ressignificação da feminilidade da mulher de cor através de discussões de arte, música, literatura, política e ciência doméstica, suas participantes entendiam que esses espaços representavam "uma das maiores forças do século na solução dos problemas da raça". Sobre a formação da NACW, ver Shaw (1991:10-25). Para diferentes aspectos da história dos clubes e associações de mulheres negras nos EUA ver: Salem (1990); Hine(1990:70-93); Terborg-Penn(1998); Knupfer (1996). Uma excelente discussão sobre os conflitos entre mulheres negras e brancas nos clubes femininos (ou problemas da "unidade na diversidade") está em Wilson (2011).
  • 13
    É necessário ao menos mencionar que as realidades do Norte e do Sul eram bem distintas. Assim, no último, as igrejas batistas desempenharam uma função particular na produção de lideranças femininas negras. Como demonstra Higginbhotan, as igrejas foram apropriadas por tais mulheres como sua "esfera pública" - "o único espaço verdadeiramente acessível para a comunidade negra no Sul pós-Reconstrução".
  • 14
    Mary Church Terrell (1863-1954) nasceu em Memphis, no Tennessee. Em 1894, tornou-se bacharel em Artes e Línguas Clássicas pela Oberlin College. Antes de se mudar para Washington D. C., lecionou no Wilberforce College, em Ohio. A educadora, escritora e ativista foi a primeira presidente da Associação Nacional das Mulheres de Cor entre 1896 e 1901 e fundadora da Liga das Mulheres de Cor em Washington (1892). Além disso, apoiou a Associação Nacional pelo Sufrágio da Mulher Americana, ainda que a organização tenha sido favorável à exclusão das mulheres negras do direito ao voto. Em 1940, sua autobiografia -
    A Colored Woman in a White World - foi publicada. Disponível em: <
  • 15
    Não foi possível encontrar informações biográficas sobre Sylvanie Francoz Williams.
  • 16
    Josephine Beal Willson Bruce (1853-1923) nasceu na Filadélfia. Filha de um dentista com uma cantora, em 1878, ela casou-se com o fazendeiro do Mississipi Blanche K. Bruce, o único Senador negro do país. Ativista dos clubes femininos, em 1892, ela candidatou-se à presidência da Associação Nacional das Mulheres de Cor, mas sua pele clara foi utilizada contra ela. Entre 1898 e 1902, tornou-se decana do Tuskegee Institute. Nos anos 1900, escreveu artigos para o
    The Crisis e editou o
    National Notes, publicação da Associação Nacional das Mulheres de Cor. Disponível em: <
  • 17
    Entre os anos 1890 e 1930, diferentes grupos dedicaram-se a pensar novas representações para as mulheres. No caso das americanas, a discussão maior girava em torno dos direitos ao voto e ao trabalho remunerado fora de casa. Ver Patterson (2008).
  • 18
    Dentro da sólida tradição de Estudos Feministas Negros, intelectuais afro-americanas, sob os mais diversos prismas (História Social, Sociologia, Estudos Culturais, Literatura, Pós-Colonialismo, Teoria
    Queer, etc.), discutem as "políticas de empoderamento" que mulheres negras têm construído ao longo de séculos. Para Sheila Radford-Hill, "empoderamento" é "a agência que elas expressam através de suas ações políticas e sociais". Collins, por sua vez, problematiza a definição do conceito ao focalizar as particularidades históricas desses sujeitos. "Para mulheres Afro-Americanas, o empoderamento nunca ocorrerá num contexto caracterizado pela opressão e pela injustiça social. Um grupo pode ganhar o poder através da dominação de outro, mas esse não é o tipo de empoderamento encontrado no pensamento de mulheres Negras. Lendo seu trabalho intelectual, percebo que (...) o Pensamento Feminista Negro trabalha em conjunto com outros projetos similares de justiça social" (Radford-Hill, 2000:xi; Collins, 2009:xii). Um balanço crítico sobre as "políticas de empoderamento" está em Weissberg (1999).
  • 19
    ] Nannie Helen Burroughs (1883-1961) nasceu em Orange, na Virginia. Em 1907, ela obteve o título de mestre pela Eckstein-Norton University. No mesmo ano, ela apoiou a Convenção Nacional Batista e, em 1909, tornou-se a primeira presidenta da National Trade and Professional School for Women and Girls em Washington, D.C. Dona do bordão "Nós nos especializamos no mais completo impossível", ela defendia a ideia que a educação industrial e clássica eram compatíveis. Burroughs presidiu a escola até o ano de sua morte. Em 1964, a instituição foi rebatizada com seu nome. Disponível em: <
  • 20
    Katherine Davis Chapman Tilman (1870-?) nasceu em Mount City, Illinois. Filha de uma família de negociantes negros, ela estudou na Louisville State University, em Kentucky. Desde a adolescência, Tillman escrevia poemas e contos para as "jovens de sua raça". A autora, que acreditava que a escrita era um dos principais instrumentos para elevação racial e para o desenvolvimento de um sentimento de domesticidade entre as mulheres de cor, publicou dois romances na
    A.M.E. Church Review:
    Beryl Weston's Ambition: The History of an Afr0-American Girl's Life (1893) e
    Clancy Street (1898-9). A data e as circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Ver Tate (1991); Andrew, Foster e Harris (2001:395).
  • 21
    Olhando a interação entre afro-americanas de diferentes classes na cidade de Detroit entre os anos 1914 e 1945, Victoria Wolcott reforça a importância de estudar os migrantes "sem sucesso", abandonados pela história: "prostitutas, apostadores e artistas populares transformaram a Detroit Negra tanto quanto líderes de clubes, fundadores de igrejas e ativistas sociais. Alguns permaneceram pobres a despeito da luta por empregos, já outros atingiram significativa mobilidade social" (Wolcott, 2001:3).
  • 22
    O
    Female Talented Tenth (na tradução literal pouco apropriada "Décimo Talentoso do Feminino") diz respeito a dois aspectos: a singularidade que as mulheres de cor instruídas representavam naquele momento e o fato de que na condição de representante da raça, tal grupo promoveu a "difusão do orgulho racial e dos valores da classe média branca" entre os negros. Nesse projeto difusor, a luta pelo acesso aos mais altos níveis da educação destacou-se como uma das principais metas. Tal luta trouxe para a superfície pedagogias e ideologias distintas que colocavam em conflito negros e seus apoiadores brancos. Nesse sentido, "o conceito de
    Female Talented Tenth oferece uma oportunidade de explorar o processo pelo qual os valores da classe média foram introduzidos, propagados e interpretados entre pessoas [negras] e, em alguns casos, rejeitados por elas" (Higginbotham,1993:31).
  • 23
    Cabe dizer que as negras não foram as únicas a racializar a discussão sobre uma nova mulher. O feminino racializado também aparece, dentre outros, em
    American Jewess (1895-1899), a única revista do pensamento feminino judaico publicada em inglês no século XIX nos EUA. O periódico era "uma Revista Mensal de Assuntos Sociais, Literários e Religiosos" voltado para as classes altas. Suas páginas incluíam seções de Medicina, Moda e Ciência Doméstica. Apresentadas como "Mulheres de Negócio de Sucesso", suas escritoras também discutiam os perigos de uma feminilidade subtraída condenando mulheres que usavam bicicletas e ceroulas, por exemplo. A revista defendia uma maior equidade religiosa entre masculino e feminino. No interessante artigo "The New Woman", publicado por Ella Bartlett, em abril de 1895, a Ministra da sociedade Universalista problematizava o real significado dessa figura: "o adjetivo 'novo' tem sido aplicado às mulheres com surpreendente atraso (...) O que a Nova Mulher tem feito, fez ou fará só é considerado quando apresentado como uma descoberta do 'genus homo' (...) Entretanto, as pesquisas sobre sua história mostram que essa descoberta é apenas a descoberta de algo que já acontecia, então isso não é uma 'nova ordem' de fato". A autora conversava com as leitoras, "irmãs de Moisés", sobre temas como casamento, trabalho, estudo, direitos de propriedade e equidade de direitos na tutela de seus filhos. Lançando mão de dezenas de ironias, Bartlett perguntava: "Deve a nova mulher advogar uma reforma no jeito de se vestir e preparar roupas similares a dos homens? (...) Existiu um curto período na história da raça que as vestimentas eram "feitas com o mesmo material para ambos os sexos". Ver Bartlet (jul. 1895:9).
  • 24
    Para Carby, a "verdadeira irmandade" seria uma "instituição cultural" reforçada no século XIX por manuais, revistas femininas, programas educativos e práticas sociais (1987).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Jul 2013
  • Data do Fascículo
    Jun 2013

Histórico

  • Recebido
    23 Ago 2011
  • Aceito
    13 Jun 2012
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