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Fatores de satisfação e insatisfação profissional de docentes de nutrição

Resumo

A satisfação docente pode se refletir no sucesso das instituições de ensino superior em proporcionar aprendizagem significativa aos estudantes. Este estudo buscou conhecer a satisfação profissionalde professores de nutrição de uma instituição federal de ensino superior, identificando os fatores que geram satisfação e insatisfação e os sentimentos visualizados ao final da carreira. Estudo descritivo e exploratório de abordagem qualitativa, com uso de questionário e entrevista semiestruturada, submetida à análise de conteúdo. Dos docentes, 72,7% estão satisfeitos com a profissão. Foram considerados fatores de satisfação: realização de uma vocação, atividades de pesquisa e extensão, desenvolvimento e reconhecimento dos estudantes e sociedade, aprendizado, autonomia, flexibilidade e relacionamento com alunos. Os fatores de insatisfação foram excesso de trabalho e de atividades administrativas, burocráticas e de assistência, desinteresse efalta de respeito dos alunos, relacionamento com colegas e gestores, desvalorização docente, turmas grandes e estrutura física deficiente. Os pesquisados manifestaram atitude positiva e não possuem desejo de abandonar a carreira. Mais estudos são necessários sobre fatores desatisfação e insatisfação dos professores para contribuir com a produtividade e o bem-estar docente.

Ensino; Docência universitária; Satisfação

Abstract

Teacher satisfaction can be reflected in the success of higher education institutions to provide meaningful learning to their students. This study analyzed the professional satisfaction of nutrition teachers at a federal institution of higher education by identifying the factors that generated satisfaction and dissatisfaction for them and also the feelings that they envisioned for themselves at the end of their careers. This is a descriptive and exploratory study with a qualitative approach. A questionnaire and semi-structured interviews were performed. The results showed that 72.7% of the teachers were satisfied with their profession. In relation to satisfaction were considered: the fulfillment of a vocation; research and extension activities; the development and recognition of students and society; learning; autonomy; flexibility; and relationships with students. In relation to dissatisfaction were considered: overloading due to work, administration, bureaucratic duties and assistance; lack of interest and respect from students; relationships with colleagues and managers; devaluation in the role of teaching; large classes and poor physical infrastructure. The respondents expressed a positive attitude and had no desire to leave their profession. Further studies are required regarding factors leading to satisfaction and dissatisfaction for teachers, in order to contribute to their productivity and well-being.

Teaching in higher education; Satisfaction; Nutrition

Introdução

Os estudos sobre a carreira docente desenvolveram-se a partir dos anos 1970, o que tem contribuído para a melhor compreensão do destino profissional dos professores. A dimensão pessoal dos docentes, entretanto, tem recebido pouca atenção no contexto universitário.

Para Zabalza11. Zabalza MA. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed; 2004.são aspectos essenciais da dimensão pessoal dos docentes universitários, a satisfação pessoal e profissional e a carreira de professor. Para esse autor, o modo como o professor é, sente ou vive as expectativas com que desenvolve seu trabalho, geralmente são fatores não considerados que possam afetar a qualidade de ensino.

Os estudos sobre satisfação profissional do professor são ainda escassos no Brasil, em especial com os da área da saúde. Professores satisfeitos são menos passíveis de mudar de posição no trabalho e a satisfação tem sido relacionada com a permanência na profissão22. Alves MG, Azevedo NR, GonçalvesTNR. Satisfação e situação profissional: um estudo com professores nos primeiros anos de carreira. Educ. Pesqui. 2014; 40(2):365-382..

Existem mudanças de atitudes e estado emocional com o decorrer do tempo de docência que podem interferir com o desempenho profissional, visto que os fatores de satisfação e insatisfação refletem o investimento que se faz na carreira11. Zabalza MA. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed; 2004.. Trabalhadores satisfeitos são mais comprometidos com a profissão e tendem a desenvolver suas atividades com mais empenho33. Ladebo OJ. Effects of work-related attitudes on the intentional to leave the profession an examination of school teachers in Nigeria. Educ. Management Administration Leadership 2005; 33(3):335-369.. Por outro lado, os insatisfeitos podem não produzir como o esperado e ainda estar sempre buscando uma maneira de trocar de emprego ou de local de trabalho.

A satisfação profissional dos professores tem sido considerada como um sentimento e uma forma de estar positivo [...] perante a profissão, originados por fatores contextuais e/ou exteriorizados pela dedicação, defesa e mesmo felicidade face à mesma44. Alves FC. A (in)satisfação dos professores. In: Estrela MT, organizador. Viver e construir a profissão docente. Porto: Porto Editora; 1997. p. 81-116.. As manifestações contrárias caracterizam a insatisfação.

A satisfação refere-se a um estado geral e emocional positivos. Dentre as teorias que explicam o grau de satisfação dos professores como trabalho que executam, a teoria de Herzberg55. Herzberg F. A teoria motivação-higiene. In: Marques CA, Pina CM organizadores. Comportamento organizacional e gestão de empresas. Lisboa: Publicações Dom Quixote; 1996. p. 43-67. afirmaque a satisfação pessoal é causada tanto por fatores internos, como a realização pessoal e o reconhecimento profissional, quanto por fatores de higiene ou de contexto, como as condições de trabalho, remuneração, segurança, estabilidade e as relações interpessoais estabelecidas no ambiente de trabalho. A satisfação desenvolve-se em resposta a estímulos sociais e condições reais de trabalho e pode ser entendida como um suprimento de uma necessidade, uma realização de expectativas33. Ladebo OJ. Effects of work-related attitudes on the intentional to leave the profession an examination of school teachers in Nigeria. Educ. Management Administration Leadership 2005; 33(3):335-369.,66. Ikenyiri E, Ihua-Maduenyi R. Teachers assessment of needs satisfiers as motivation for teacher effectiveness in rivers state primary schools. Mediterranean J. of Social Sciences 2012; 3(4):790-801.,77. Souza AS, Reinert JN. Avaliação de um curso de ensino superior através da satisfação/insatisfação discente. Avaliação 2010; 15(1):159-176..

A satisfação profissional reflete-se na eficácia do trabalho desempenhado, promove o bem-estar psicológico e permite um melhor desempenho das atividades docentes22. Alves MG, Azevedo NR, GonçalvesTNR. Satisfação e situação profissional: um estudo com professores nos primeiros anos de carreira. Educ. Pesqui. 2014; 40(2):365-382..

A satisfação com a carreira docente pode estar relacionada a fatores intrínsecos (sentimentos, emoções, experiências) e extrínsecos (condições de trabalho, reconhecimento, oportunidades)44. Alves FC. A (in)satisfação dos professores. In: Estrela MT, organizador. Viver e construir a profissão docente. Porto: Porto Editora; 1997. p. 81-116.. A promoção da satisfação pessoal do professor por meio da diminuição dos fatores geradores de insatisfação pode representar uma maior dedicação às funções docentes, bem como uma menor rotatividade, garantindo às instituições uma melhor visibilidade na sociedade88. Marqueze EC, Moreno CRC. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicol. Estud 2009; 14(1):75-82.,99. Bunton SA, Corrice AM, Pollart SM, Novielli KD, Williams VN, Morrison LA, Mylona E, Fox S. Predictors of workplace satisfaction for U.S. Medical School Faculty in an era of change and challenge. Acad. Med 2012; 87(5):574-581..

Entender os determinantes da satisfação do corpo docente é fundamental para que as universidades alcancem a excelência em todos os seus propósitos. Instituições que entendem e valorizam essa questão possuem melhores condições de proporcionar um ambiente de trabalho agradável, atraindo e retendo profissionais de maior qualidade1010. Costa NMSC. Career satisfaction among medical school professors: a case study in Brazil. Rev. Bras. Educ. Med 2009; 33(3):339-348..

Esta investigação foi realizada com professores de um curso de Nutrição de uma instituição federal de ensino superior da cidade de Goiânia - Goiás - Brasil, com o objetivo de identificar os fatores que geram satisfação e insatisfação com a docência e os sentimentos visualizados para o final da carreira.

Método

No presente estudo fez-se uso da pesquisa social exploratória de abordagem qualitativa1111. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec-Abrasco; 2014.para compreender o processo e os aspectos relevantes sobre a satisfação de professores de nutrição.

A pesquisa social é um método de cunho científico no qual se adquirem conhecimentos novos no campo da realidade social1212. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Altas; 2008.. Pode apresentar diferentes subclassificações de acordo com a finalidade de cada objeto de pesquisa, sendo dividida em exploratória, descritiva e explicativa. Na presente pesquisa merece destaque a exploratória, que tem como objetivo esclarecer, desenvolver conceitos ou dialetizar ideias relativas ao objeto de estudo1212. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Altas; 2008..

Foram considerados como critérios de inclusão na pesquisa: ser professor efetivo na instituição, não estar licenciado e nem em afastamento para pós-graduação. Foram excluídos da amostra os profissionais que se recusaram a participar do estudo e aqueles que, por algum motivo, encontravam-se afastados do trabalho devido a férias ou licenças médicas, prêmio, entre outras.

Todos os professores que se enquadravam nos critérios de inclusão foram convidados a participar da investigação, por meio de correio eletrônico. Os dados foram coletados em um encontro com cada professor, com duração média de 40 minutos, momento no qual foi entregue e preenchido o questionário com questões de interesse da investigação e após, realizada a entrevista semiestruturada. À medida que as entrevistas foram sendo realizadas, foi sendo construída uma tabela de saturação de dados, critério utilizado para estabelecer ou fechar o tamanho da amostra em estudo, interrompendo a captação de novos componentes1313. Fontanella BJB, Luchesi BM, Saidel MGB, Ricas J, Turato ER, Melo DG. Amostragem em pesquisas qualitativas: proposta de procedimentos para constatar saturação teórica. Cad Saude Publica 2011; 27(2):389-394..

Foram usados dois instrumentos de coleta de dados: um questionário com questões abertas e fechadas e uma entrevista semiestruturada, realizada sem conhecimento prévio do roteiro por parte dos entrevistados. A entrevista é uma das técnicas mais utilizadas em pesquisas, considerada uma forma de interação social, pois permite a obtenção de informações sobre o que os sujeitos sabem, creem, sentem, desejam, fazem, e como explicam ou respondem às situações que enfrentam1111. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec-Abrasco; 2014.,1212. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Altas; 2008..

Os dados coletados no questionário possibilitaram a identificação dos docentes em relação aos dados pessoais, formação pedagógica, qualificação acadêmica, produção científica, dentre outros aspectos.

Com a entrevista buscou-se respostas às questões que interessavam ser investigadas, como: o nível de satisfação com a carreira docente, a opção pela mesma profissão se pudesse escolher novamente, os fatores que o mantém na docência, a vivência de momentos de desgaste e/ou desânimo com o ensino e os sentimentos visualizados ao final da carreira.

A elaboração do roteiro de entrevista semiestruturada buscou atender aos objetivos do estudo em um contexto flexível, de forma a permitir a inclusão de novas questões, caso fossem pertinentes, e a subjetividade dos sujeitos dando sentido às suas vivências e experiências1111. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec-Abrasco; 2014..

Ao dar voz aos professores, pretendeu-se também complementar a compreensão e a interpretação de dados obtidos através dos questionários. Quando se opta pela abordagem qualitativa de pesquisa, “somente a entrevista de questões abertas, ou seja, marcada por uma relação apenas proposta de tópicos, sem delimitar respostas pré-estabelecidas, é compatível com a própria definição de pesquisa qualitativa”1414. Turato ERT. Tratado da metodologia clínico-qualitativa. Petrópolis: Vozes; 2003..

Uma grande quantidade de dados foi obtida através da fala dos professores. Minayo1515. Minayo MCS. Trabalho de campo: contexto de observação, interação e descoberta. In: Minayo MCS, Deslandes SF, Gomes R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes; 2013. p. 61-78.ressalta que o material obtido com esse instrumento “tende a ser maior e com um grau de profundidade incomparável em relação ao questionário, porque a aproximação qualitativa permite atingir regiões inacessíveis à simples pergunta e resposta”.

Os dados obtidos na entrevista foram áudio-gravados e posteriormente transcritos na íntegra e de forma literal. O material, então, foi submetido à análise temática de conteúdo1616. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 2011., que torna possível conhecer significados, estruturas relevantes e modelos de comportamento por meio do encontrado no discurso1111. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec-Abrasco; 2014..

O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Humana e Animal do Hospital das Clínicas da universidade em que foi realizada a pesquisa. A coleta de dados somente foi iniciada após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos docentes.

Como um estudo qualitativo, com amostra não randomizada e não representativa, os resultados não podem ser generalizados e esta constitui uma limitação deste estudo.

Resultados

Participaram do estudo 11 professores, sendo a maioria (10) do sexo feminino, com idade entre 29 e 59 anos. O tempo de docência variou entre um e 40 anos, sendo que 27,3% (3/11) tinha entre um e 10 anos de carreira docente e 72,7% (8/11) mais de 10 anos, todos em regime de dedicação exclusiva. Dos entrevistados, 81,8% (9/11) tinham doutorado e 18,2% (2/11) mestrado.

Satisfação profissional

Quando questionados sobre a satisfação com a docência, a maioria (72,7%) dos entrevistados afirmou estar satisfeita, enquanto 18,2% estavam insatisfeitos e um participante mostrou-se indiferente, conforme pode ser verificado nas falas:

Eu estou 100% satisfeita, gosto demais do que faço, gosto muito de dar aula. (P5)

No momento, o nível de satisfação é muito baixo, posso me considerar insatisfeita.(P10)

Não sei se estou satisfeita ou insatisfeita, acho que nem uma coisa nem outra.(P7)

Dentre os motivos de satisfação dos professores, destaca-se o fato de gostar da profissão, perceber a docência como uma satisfação pessoal e realização de uma vocação, fatores relatados por 72,7% dos entrevistados:

Aquela satisfação própria como profissional que seguiu uma vocação, aí é total. É uma satisfação pessoal.(P9)

A possibilidade de fazer pesquisa dentro da universidade associada a trabalhos de extensão com a comunidade foi relatado como motivo de satisfação por 45,4% dos professores:

A vivência universitária é muito interessante, já me envolvi com projetos financiados, não financiados, convênios, treinamento, todos envolvendo alunos.(P6)

Estar envolvida com pesquisa e extensão é um motivo de satisfação. (P3)

Outro motivo de satisfação relatado também por 45,4% dos docentes foi o reconhecimento por parte dos estudantes e da sociedade:

O papel social que a gente tem. Se você fala que é professora, as portas se abrem. Você consegue falar coisas em espaços que ninguém mais consegue. (P5)

A minha maior satisfação é quando eu vejo os meus alunos prestando atenção na sala da aula, me elogiando para um outro professor. (P1)

Outro fator citado foi a gratificação em contribuir com a formação de profissionais. O desenvolvimento dos alunos com a possibilidade de formar nutricionistas qualificados também foi apontado como fator de satisfação pelos docentes:

É muito gratificante a gente ver as pesquisas dando certo, dando frutos, os alunos se formando, fazendo mestrado, doutorado e poder dizer: eu contribuí para essa formação. (P1)

A autonomia e a flexibilidade foram apontadas como motivos de satisfação:

Eu reconheço que o grande mérito daqui é a autonomia. Eu faço aqui o que eu gosto, e o que eu não gosto eu simplesmente digo não. (P10)

Outro motivo de satisfação relatado foi a possibilidade de aprendizado, de poder estudar e aprender mais:

É uma satisfação muito instigante, você sempre está aprendendo e tem sempre algo a aprender.(P9)

Fatores de insatisfação

Na análise dos fatores causadores de insatisfação, destacou-se o excesso de trabalho aliado às atividades extras (administrativas, burocráticas, assistência etc.), relatado pela maioria (81,8%) dos docentes participantes:

Tudo é o professor que tem que fazer. Não tem muito apoio dentro da universidade.(P5)

Teve dias que eu saí daqui chorando, de tanto trabalho que tinha sido depositado em mim. (P1)

A dificuldade de relacionamento com os colegas de trabalho e com os gestores foi relatada por 54,5% dos professores como um motivo de insatisfação:

Dentro da faculdade a gente tem alguns guetos de docentes, grupos bem isolados, cada um faz o seu, cada um no seu quadrado. E eu acho que isso é ruim. (P2)

Quando você também não tem um apoio da própria administração, da direção ou da coordenação para suas disciplinas, também desanima muito. (P3)

O desinteresse, associado à falta de respeito dos estudantes,foram apontadoscomo fatores geradores de insatisfação, visto que o professor precisa dedicar tempo e estudo para o preparo das aulas e, muitas vezes, não recebe o retorno esperado:

Os desgastes na sala de aula, os alunos são cada vez menos preparados, cada vez querendo estudar menos e cada vez só querendo questionar e ter as coisas prontas. (P10)

Já sofri, por exemplo, de aluno ser mal educado e eu precisar por ele no lugar. (P11)

Outro motivo gerador de insatisfação é a desvalorização da docência descrita por 45,4% dos entrevistados. Esta falta de reconhecimento advém dos diretores, da coordenação e até mesmo do governo, como pode ser verificado nas falas:

Aqui no Brasil, dadas as condições de funcionamento, salário, reconhecimento, de tudo isso, é muito complicado. (P7)

A gente faz um monte de atividades extras sem o devido reconhecimento mesmo.Agente faz porque gosta, para dar oportunidade para os alunos. (P4)

Os fatores pedagógicos, manifestos nas condições insatisfatórias de trabalhoexistentes, ou seja, na falta de infraestrutura da universidade de um modo geral,revelaram-se os principais obstáculos à atuação docente e são referidas como as principais causas de insatisfação:

Uma vez sentei com os alunos ali na entrada do Hospital das Clínicas para dar uma aula porque não tinha outro lugar. (P10)

As salas de aulas com muitos alunos também foi revelada como motivo de insatisfação para 36,4% (4/11) dos docentes:

A turma era muito grande, muito pulverizada.(P2)

Escolha da profissão

Quando questionados sobre a possibilidade de poder escolher novamente a docência como profissão, 72,7% afirmaram que a escolheriam outra vez, enquanto somente 18,2% não o fariam.

Uma professora analisou as dificuldades enfrentadas na carreira e concluiu que faria tudo novamente se pudesse voltar ao início da carreira:Eu escolheria sim. (P8)

Sentimentos visualizados no final da carreira

Os professores foram questionados sobre os sentimentos com os quais se visualizavam chegando ao fim da carreira. A ideia de que continuariam ensinando ou pesquisando, independente da aposentadoria, foi assinalada por 45,4% dos professores de Nutrição:

Me vejo ainda em sala de aula, envolvida mais com pesquisa, que é algo que eu quero fortalecer dentro da minha atuação. (P3)

O cansaço também foi citado pelos docentes:

Eu vou estar muito cansada porque é uma profissão que exige muito da gente. (P8)

Os sentimentos de realização, satisfação e felicidade foram mencionados por 36,4% dos docentes, quando se imaginaram chegando ao final da carreira:

Eu me vejo satisfeita com aquela sensação de dever cumprido, que acho que é o mais importante.(P1)

Eu acho que vou estar feliz. (P5)

Discussão

Esta investigação mostra que a satisfação dos docentes de nutrição está relacionada com a docência propriamente dita e que a insatisfação relaciona-se com as condições de trabalho no ensino superior, semelhante ao encontrado em estudo realizado com docentes que atuam como preceptores de estudantes da área da saúde1717. Latessa R, Calvin G, Beaty N, Steiner MBD, Pathman D. Satisfaction, motivation, and future of community preceptors: what ate the current trends? Acad. Med 2013: 88(8):1164-1170..

Alves44. Alves FC. A (in)satisfação dos professores. In: Estrela MT, organizador. Viver e construir a profissão docente. Porto: Porto Editora; 1997. p. 81-116. classifica os determinantes de satisfação/insatisfação em econômico, institucional, pedagógico, relacional e social. São fontes de satisfação/insatisfação dos professores, no fator econômico, os salários; no nível institucional, a pressão que o caráter centralizador-conservador exerce na instituição; no âmbito pedagógico, as condições de trabalho, os êxitos eos fracassos dos alunos; no fator relacional, o relacionamento com os alunos e com os pares; no fator social, o statussocial conferido à profissão.

O alto índice de satisfação com a profissão entre os docentes está de acordo com o encontrado por outros autores88. Marqueze EC, Moreno CRC. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicol. Estud 2009; 14(1):75-82.

9. Bunton SA, Corrice AM, Pollart SM, Novielli KD, Williams VN, Morrison LA, Mylona E, Fox S. Predictors of workplace satisfaction for U.S. Medical School Faculty in an era of change and challenge. Acad. Med 2012; 87(5):574-581.
-1010. Costa NMSC. Career satisfaction among medical school professors: a case study in Brazil. Rev. Bras. Educ. Med 2009; 33(3):339-348.,1818. Garcia MAA, Silva ALB. Um perfil do docente de medicina e sua participação na reestruturação curricular. Rev. Bras. Educ. Med 2011; 35(1):58-68.,revelando que esta atividade é motivo de prazer para os professores.

Os aspectos mais valorizados nesta investigação vinculam-se àsquestões pessoais nas quaisestão incluídas a realização pessoal, como trabalho interessante que permite autonomia e flexibilidade, trabalho que permite novos conhecimentos, trabalho valorizado, trabalho que promove o desenvolvimentos dos estudantes.

A escolha da profissão como uma vocação também foi encontrada por Costa1010. Costa NMSC. Career satisfaction among medical school professors: a case study in Brazil. Rev. Bras. Educ. Med 2009; 33(3):339-348., que afirma que os fatores que conduzem à motivação e à satisfação relacionam-se a características intrínsecas tais como autorrealização, reconhecimento e crescimento. As oportunidades de pesquisa também foram referidas como um fator de satisfação, resultado corroborado por Cox et al.1919. Cox M, Kupersmith J, Jesse RL, Petzel RA. Commentary: building human capital: discovery, learning, and professional satisfaction. Acad. Med 2011; 86(8):923-924..

A possibilidade de atuar em diferentes áreas está relacionada ao bem-estar dos docentes2020. Kanter SL. Faculty career progression. Acad. Med 2011; 86(8):919., o que evidencia a importância da valorização do professor e do incentivo às suas atividades. Este fato revela a variedade de saberes e competências que envolvem a docência2121. Tardif M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes; 2011..

Peters et al.2222. Peters AS, Schnaidt KN, Zivin K, Rifas-shiman S, Katz HP. How important is money as a reward for teaching? Acad. Med 2009; 84(1):42-46. observaram que o aprendizado do aluno foi apontado como principal motivo de satisfação em seu trabalho. Apesar de no presente estudo este não ter sido o fator principal, percebe-se que o desenvolvimento discente também influencia na satisfação dos professores.

Dentre os motivos de insatisfação o que mais se destacou foi o excesso de trabalho, o que concorda com os resultados encontrados por Marqueze e Moreno88. Marqueze EC, Moreno CRC. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicol. Estud 2009; 14(1):75-82.. Assinala-se uma sobrecarga de atividades de trabalho e que a docência em sala de aula é apenas uma parte das tarefas a serem desenvolvidas pelo professor, havendo uma cobrança para o incrementoda produção científica por meio de pesquisas e publicações em periódicos especializados1515. Minayo MCS. Trabalho de campo: contexto de observação, interação e descoberta. In: Minayo MCS, Deslandes SF, Gomes R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes; 2013. p. 61-78.. Somam-se a estas, a realização de atividades de assistência e extensão, que exigem preparo e planejamento árduos e longos99. Bunton SA, Corrice AM, Pollart SM, Novielli KD, Williams VN, Morrison LA, Mylona E, Fox S. Predictors of workplace satisfaction for U.S. Medical School Faculty in an era of change and challenge. Acad. Med 2012; 87(5):574-581.,2323. Pimenta SG, Anastasiou LGC. Docência no Ensino Superior. São Paulo: Cortez; 2012..

O cenário em que se desenvolve o ensino, segundo os participantes deste estudo, sobrecarrega o professor, diminuindo o interesse e a dedicação às atividades próprias da docência e provoca insatisfação profissional, além do questionamento sobre suacompetência. Acrescenta-se também o número elevado de alunos em sala de aula, advindos da democratização do ensino superior no Brasil e o aumento do acesso à universidade e as atividades extraclasse, consideradas como carga horária informal de trabalho.

Segundo Alves et al.22. Alves MG, Azevedo NR, GonçalvesTNR. Satisfação e situação profissional: um estudo com professores nos primeiros anos de carreira. Educ. Pesqui. 2014; 40(2):365-382., parece ser consenso o reconhecimento do mal-estar manifestado pelos professores, causado pelo aumento de exigências e pressões exercidas sobre as atividades a serem desempenhadas.

A satisfação das necessidades individuais é um fator determinante nas percepções e atitudes dos professores, incluindo o próprio exercício profissional. Em outras palavras, os docentes trabalham com o objetivo de satisfazer tanto as necessidades pessoais quanto as profissionais, as quais “refletem valores e podem diferir de uma pessoa para outra”11. Zabalza MA. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed; 2004..

Bunton et al.99. Bunton SA, Corrice AM, Pollart SM, Novielli KD, Williams VN, Morrison LA, Mylona E, Fox S. Predictors of workplace satisfaction for U.S. Medical School Faculty in an era of change and challenge. Acad. Med 2012; 87(5):574-581. encontraram como fatores que provocam a insatisfação, de modo semelhante a este estudo, o estilo de coordenação/gestão e a falta de organização, ressaltando a influência dos relacionamentos com colegas e gestores sobre a satisfação dos profissionais, independente da área de atuação.

A insatisfação relacionada à integração e aos relacionamentos está ligada à própria formulação dos currículos da área da saúde das universidades, os quais, em sua maioria, tendem a fragmentar o ensino em ciclos básico e profissional, promovendo desarticulação e isolamento dos professores e atividades2424. Batista NA, Batista SH. Docência em saúde: temas e experiências. São Paulo: Senac; 2014.. O desenvolvimento das capacidades dos docentes deve envolver dimensões individuais e coletivas com abordagens formais e informais que permitam o aprendizado com os colegas, como uma alternativa para melhorar a integração e a própria capacitação do educador2525. Steinert Y. Faculty development: from workshops to communities of practice. Med. Teach 2010; 32(5):425-428..

A dificuldade relacionada ao perfil dos estudantes tem sido motivo de pesquisas que buscam uma forma de reter a atenção do aluno tornando-o um ser ativo no processo de ensino-aprendizagem2626. Murdoch-Eaton D, Whittle S. Generic skills in medical education: developing the tools for successful lifelong learning. Med. Educ 2012; 46(1):120-128.. É preciso envolvê-lo no processo por meio de metodologias inovadoras de ensino, pelas quais pode desenvolver a capacidade crítica e a reflexão. Essas inovações educacionais tendem a minimizar os problemas e a melhorar a satisfação tanto do professor quanto do estudante com o processo educativo2727. Pereira WR, Tavares CMM. Pedagogical practices in nursing teaching: a study from the perspective of institutional analysis. Rev. Esc. Enferm. USP 2010; 44(4):1077-1084.,2828. Prado HM, Falbo GH, Falbo AR, Figuerôa JN. Active learning on the ward: outcomes from a comparative trial with traditional methods. Med. Educ 2011; 45(3):273-279..

Com relação à possibilidade de escolher novamente a profissão, os resultados encontrados neste estudo também foram relacionados por Bunton et al.99. Bunton SA, Corrice AM, Pollart SM, Novielli KD, Williams VN, Morrison LA, Mylona E, Fox S. Predictors of workplace satisfaction for U.S. Medical School Faculty in an era of change and challenge. Acad. Med 2012; 87(5):574-581. e Costa1010. Costa NMSC. Career satisfaction among medical school professors: a case study in Brazil. Rev. Bras. Educ. Med 2009; 33(3):339-348., que encontraram que a maioria dos docentes escolheriam novamente a mesma carreira. Isto revela que, apesar das dificuldades, a docência é uma atividade significativa para os profissionais de saúde.

A satisfação no trabalho aumenta com as intervenções destinadas a provocar mudanças não tanto nos aspectos organizativos, que apenas diminuiriam a insatisfação, mas também nos modos de relação sujeito-trabalho. Isso significa que a satisfação aumenta quando as relações que os docentes têm com o trabalho sãoaperfeiçoadas, como em situações nas quais se possibilita o aumento de autonomia na tomada de decisões, o domínio de novas habilidades, a expectativa de crescimento pessoal no planoprofissional e o maior reconhecimento do trabalho executado.

Conclusão

Em sua maioria, os docentes estão satisfeitos com a atividade realizada e os principais motivos de satisfação estão relacionados a fatores pessoais. A insatisfação, por sua vez, está relacionada principalmente ao papel da instituição no desenvolvimento da atividade docente.

O balanço global é frequentemente acompanhado de referências positivas e negativas sobre a profissão. As condições adversas da docência são enunciadas tanto por professores que fazem umaavaliação geral positiva como pelos que a fazem de forma negativa. A atitude global dependerá, consequentemente, da prevalência de aspectos considerados positivos ou negativos, o que, aliás, ajusta-se ao conceito de bipolaridade satisfação/insatisfação.

Assim, o balanço positivo da profissão revela que os professores valorizam essencialmente os motivos intrínsecos de satisfação, relegando, ao segundo plano, ascondições extrínsecas percebidas como desfavoráveis no exercício da profissão.

Não é suficiente diminuir os fatores causadores de insatisfação, pois é necessário estimular a satisfação para que o docente esteja confortável em sua atuação e possa vivenciar no início, no meio e no final de sua carreira, sentimentos agradáveis e prazerosos.

São necessárias outras pesquisas para aprofundar o conhecimento sobre os fatores de satisfação e insatisfação com a carreira docente de professores do ensino superior da área da saúde, pois o crescimento da satisfação deles viabiliza a otimização institucional das universidades e o aprimoramento da qualidade dos processos formativos que nelas ocorre.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2016

Histórico

  • Recebido
    02 Fev 2016
  • Revisado
    15 Fev 2016
  • Aceito
    17 Fev 2016
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