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Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres?

Resumo

O objetivo deste trabalho é mostrar o impacto da morte precoce de idosos, em especial dos que são responsáveis financeiros da família, na renda desta. Considera-se como precoce, porque o óbito ocorre a uma idade onde a expectativa de vida é positiva e diferente de zero. A preocupação surge da constatação de que 74,7% das mortes registradas por Covid-19 até 13/08/2020 ocorreram em Indivíduos com 60 anos ou mais, dos quais 56,4% eram homens. Por exemplo, aos 60 anos um Indivíduo do sexo masculino ainda poderia esperar viver mais 18,1 anos, dadas as condições de saúde vigentes em 2018.

Palavras-chave
Idosos; Renda; Dependentes da renda; Coronavirus

Abstract

The objective of this study is to show the impact of the early death of the elderly, especially those who are financially responsible for families, on the income of other family members. It is considered to be premature, because death occurs at an age where life expectancy is positive and different from zero. The concern arises from the finding that 74.7% of the deaths recorded by Covid-19 until 8/13/2020 occurred in individuals aged 60 years or older, of which 56.4% were men. For example, at age 60 a male individual could still expect to live another 18.1 years, given the health conditions prevailing in 2018.

Key words
Elderly; Income; Income dependente; Coronavirus

Doutora, não me deixe morrer, sou eu quem sustento os meus dois netos

(Paciente oncológico terminal com 83 anos à sua médica no RJ em 2005).

Introdução

O objetivo deste trabalho é mostrar o impacto da morte precoce de idosos, em especial dos que são responsáveis financeiros por famílias na renda dos demais familiares. Considera-se como precoce, porque o óbito ocorre a uma idade onde a expectativa de vida é positiva e diferente de zero. A preocupação surge da constatação de que 74,7% das mortes registradas por Covid-19 até 13/08/2020 ocorreram em indivíduos com 60 anos ou mais, dos quais 56,4% eram homens. Por exemplo, de acordo com estimativas da autora, aos 60 anos um indivíduo do sexo masculino ainda poderia esperar viver mais 18,1 anos, dadas as condições de saúde vigentes em 2018.

Não se tem dúvidas de que a pandemia do coronavírus está trazendo consequências devastadoras em termos de perdas de vidas humanas e de emprego, afetando as famílias de várias formas. Uma delas é a diminuição da renda de seus membros, seja pela morte ou pela perda de emprego num momento de difícil acesso a um trabalho remunerado. A tendência esperada é a de um crescimento do número dessas mortes e do desemprego, neste último caso, mesmo depois da pandemia, o que terá um grande impacto nas suas famílias.

Vários trabalhos já mostraram a importância da renda dos idosos na renda das famílias brasileiras11 Camarano AA. Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres? Rio de Janeiro: Ipea; 2020. [Nota Técnica nº 81]

2 Teixeira SM, Rodrigues VS. Modelos de família entre idosos: famílias restritas ou extensas? Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. 2009; 12(2):239-254.

3 Camarano AA, Kanso S. Famílias com idosos: nInhos vazios? Rio de Janeiro: Ipea; 2003. [Texto para Discussão nº 950].

4 Camarano AA, Kanso S. Envelhecimento da População Brasileira: uma contribuição demográfica. In: Freitas EV, Py L, Cançado FAX, Doll J, Gorzoni ML, organizadores. Tratado de Geriatria e Gerontologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2011. p. 58-73.

5 Barros RP, Mendonça R, Santos, D. Incidência e natureza da pobreza entre idosos no Brasil. In: Camarano AA, organizadora. Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: Ipea; 1999. p. 221-250.

6 Saboia J. Benefícios não-contributivos e combate à pobreza de idosos no Brasil. In: Camarano AA, organizadora. Os novos idosos brasileiros: Muito além dos 60? Rio de Janeiro: Ipea; 2004. p. 353-410.
-77 Camarano AA. Diferenças na legislação à aposentadoria entre homens e mulheres: breve histórico. Mercado de Trabalho: conjuntura e análise 2017; 62.. De acordo com dados da PNAD Contínua (PNADC), em 2019, dos 72,6 milhões de domicílios brasileiros, 35,0% tinham pelo menos um idoso residindo. Nestes domicílios moravam 65,3 milhões de pessoas, em média 2,6 pessoas por domicílio, das quais 30,9 milhões eram não idosas. Dentre os não idosos, 16,9 milhões não trabalhavam. Os idosos contribuíam com 70,6% da renda destes domicílios e 62,5% de sua renda vinha de aposentadorias ou pensões.

Sintetizando, a família de idosos não é um ninho vazio, como esperado pela literatura e o idoso tem desempenhado um papel importante como provedor da mesma. Dado isso, a pergunta que se coloca é de como as famílias brasileiras com idosos estão se organizando para fazer face ao envelhecimento populacional, à maior dependência econômica dos filhos adultos, ao enxugamento do papel do Estado e à recente pandemia? São elas “ninhos vazios”? Se não, o que as tem levado a divergir do comportamento esperado? Que tipo de apoio (ou falta de) pode-se esperar dessas famílias em tempos de coronavírus?

Este trabalho está dividido em cinco seções, sendo a primeira esta introdução. A segunda faz uma breve descrição de como se constituem as famílias com idosos e a terceira caracteriza esses idosos. A quarta seção faz algumas especulações sobre o que poderia acontecer com a renda dessas famílias se seus trabalhadores perdessem o seu emprego e/ou se seus idosos morressem e, na quinta, tecem-se as considerações finais.

Os domicílios de idosos

A família é vista como a fonte de apoio informal mais importante para os seus membros. Em muitos países, aparece como a única alternativa. Isso tem se verificado tanto pela corresidência como pela transferência de bens, serviços e recursos financeiros. Os seus membros se ajudam visando alcançar o bem-estar coletivo, constituindo um espaço de “conflito cooperativo” onde se cruzam as diferenças por gênero e intergeracionais. Daí surge um leque variado de arranjos familiares.

As formas esperadas de arranjos familiares para famílias com idosos são do tipo casal sem filhos ou famílias unipessoais, ou seja, idosos morando sós. O estado conjugal é um determinante importante desses arranjos bem como a independência dos filhos, expressa pela saída de casa. Outro determinante é a autonomia física, mental e financeira, pelo menos dos chefes de família. Quando essas situações não acontecem, a corresidência ou a ampliação das famílias pode ser uma estratégia utilizada para beneficiar tanto as gerações mais novas como as mais velhas.

A literatura dos anos 1980 mostrou que uma das estratégias de enfrentamento da pobreza na América Latina foi o aumento ou a redução do tamanho das famílias88 Arriagada I. Políticas sociales, familia y trabajo en la América LatIna de fIn de siglo. Santiago de Chile: Naciones Unidas; 1997.. No Brasil, o período em que os filhos passam como economicamente dependentes de seus pais tem crescido devido às suas dificuldades de inserção no mercado de trabalho, ao maior tempo despendido na escola e à maior instabilidade das relações afetivas99 Camarano AA, Mello JL. Capítulo 1-Introdução. In: Camarano AA, organizadora. Transição para a Vida Adulta ou a Vida Adulta em Transição? Rio de Janeiro: Ipea; 2006. p. 13-28.. Como exemplo dessas dificuldades, cita-se o fenômeno dos “nem nem”, primeiro observado entre a população jovem, no caso pessoas de 15 a 29 anos, que não estudavam e nem trabalhavam. Recentemente, esse fenômeno tem sido verificado, também, entre os homens de 50 a 59 anos que não trabalhavam, não procuravam trabalho, não eram aposentados e nem pensionistas, também denominados “nem-nem”1010 Camarano AA, Fernandes D. O que estão fazendo os homens maduros que não trabalham, não procuram trabalho e não são aposentados? Mercado de Trabalho: conjuntura e análise 2014; 57.

11 Camarano AA, Carvalho DF. O que estão fazendo os homens maduros que não trabalham, não procuram trabalho e não são aposentados? Cien Saude Colet 2015; 20(9):2757-2764.
-1212 Camarano AA, Fernandes D. Condições de empregabilidade do trabalhador mais velho. In: De Negri JA, Araújo BC, Bacelette R, organizadores. Desafios da nação: artigos de apoio. Brasília: Ipea; 2018. p. 193-229.. Dentre eles, uma pequena proporção, porém crescente, morava na casa dos pais idosos; proporção esta que passou de 5,3% para 9,1% entre 1992 e 20121010 Camarano AA, Fernandes D. O que estão fazendo os homens maduros que não trabalham, não procuram trabalho e não são aposentados? Mercado de Trabalho: conjuntura e análise 2014; 57..

Essa situação mostra que as famílias estão sendo cada vez mais requeridas para cuidar dos seus segmentos “vulneráveis” e o idoso tem assumido um protagonismo muito importante. Apoios intergeracionais, via arranjos familiares, têm sido crescentemente importantes como estratégias de sobrevivência, embora sob formas diferenciadas. Uma das estratégias tem sido a corresidência, onde variações na renda dos pais e dos filhos desempenham um papel importante. É comum também que a renda dos idosos desempenhe um papel importante na dos domicílios onde moram aqueles com perda de autonomia, mesmo que contem com a presença de filhos, netos ou outros parentes. Mesmo na condição de dependência aportam uma contribuição importante no orçamento destes domicílios, alcançando 73,8% em 201377 Camarano AA. Diferenças na legislação à aposentadoria entre homens e mulheres: breve histórico. Mercado de Trabalho: conjuntura e análise 2017; 62.. Ou seja, por um lado necessitam de ajuda e, por outro, proveem ajuda. Pode-se falar de um sistema de transferencias intergeracionais intermediado por políticas públicas.

Partindo dessa premissa, o objetivo desta seção é entender como as famílias brasileiras estão se organizando para fazer face ao envelhecimento populacional e à maior dependência econômica dos seus membros. A Tabela 1 apresenta o total de domicílios e a população aí residente, classificada em três categorias de domicílios:

Tabela 1
Número de domicílios e moradores segundo algumas categorias dos domicílios. Brasil, 2019.

1- número total de domicílios com idosos

2- número de domicílios onde a renda do idoso responde por mais de 50% da sua renda e

3- número de domicílios onde a renda do idoso é a única fonte de renda.

Além do total de domicílios nessas categorias, a Tabela 1 apresenta o número de pessoas aí residindo, distribuídas em três grupos de idade: idosos, pessoas de 15 a 59 anos e menores de 15 anos. Pode-se observar que entre os 72,6 milhões de domicílios brasileiros, idosos residiam em 35,0% deles, proporção esta que vem crescendo ao longo do tempo, em função do envelhecimento populacional e de mudanças nos arranjos familiares. Por exemplo, essa proporção foi de 18,9% em 19871313 Camarano AA. Relações Familiares, Trabalho e Renda entre idosos. In: Júnior JCB, organizador. Empreendedorismo, Trabalho e Qualidade de Vida na Terceira Idade. São Paulo: Editora Edicon; 2009. p. 81-96..

Nesses domicílios viviam 65,3 milhões de pessoas, das quais 30,9 milhões eram não idosas e 5,3 milhões tinham menos de 15 anos. Isto significa 19,2% e 12,8% dos adultos e crianças brasileiras, respectivamente. Ou seja, os domicílios com idosos não são compostos só por idosos. Aí se encontra 37,7% do total da renda das famílias brasileiras, uma proporção mais elevada do que a da população aí residente, sinalizando que a renda dos domicílios com idosos residentes é maior do que a renda daqueles onde não residem idosos. Quase a metade dessa renda (46,8%) vem da Seguridade Social e uma outra parcela, também expressiva, vem da renda do trabalho (45,2%).

Como já se mencionou, os idosos contribuíam com 70,6% da renda desses domicílios e 62,5% desta renda vinha de pensões ou aposentadorias, ou seja, da Seguridade Social (Tabela 2). No entanto, a renda do trabalho constituía 28,5% dessa renda, já que um terço dos idosos do sexo masculino e 15,0% das mulheres idosas que residiam nesses domicílios estavam ocupados. Considerando 20 a 59 anos como a idade de trabalhar, observa-se que 66,4% dos homens e 53,3% das mulheres que aí residiam também estavam ocupados. No conjunto das pessoas ocupadas no domicílio, os idosos respondiam por 35,7% deste e eram responsáveis por gerar 44,4% da renda do trabalho desses domicílios. A Tabela 3 mostra a proporção de homens e mulheres, adultos e idosos que estavam ocupados nos três tipos de domicílios de idosos considerados.

Tabela 2
Composição da renda do idoso segundo o tipo de domicílio. Brasil, 2019.
Tabela 3
Composição da força de trabalho dos domicílios com idosos. Brasil, 2019.

Levando em consideração a alta dependência da renda dos idosos, observou-se que em 60,7% dos domicílios com idosos ou em 18,6% do total dos domicílios brasileiros, a renda destes era responsável por mais de 50% da renda dos mesmos. Aí residiam 32,2 milhões de pessoas, das quais 9,9 milhões tinham entre 15 a 59 anos e 2,2 milhões eram crianças abaixo de 15 anos. Entre os adultos, cerca de cinco milhões não trabalhavam, enquanto 5,6 milhões de idosos o faziam. A Tabela 3 confirma que, tanto absolutamente quanto relativamente falando, muito mais idosos estavam ocupados nesses domicílios comparativamente aos não idosos. Cerca de 60% da força de trabalho desses era composta pelos primeiros, sejam homens ou mulheres, e o seu trabalho era responsável por 77,4% da renda do trabalho desses domicílios. Como se pode ver na Tabela 2, a renda do idoso era responsável por 90,1% da renda dessas famílias, sendo que a maior parte dela vinha da Seguridade Social, 59,7%; em segundo lugar, colocava-se a renda do trabalho, 31,3%.

A última categoria de domicílios considerada foi a dos domicílios onde os idosos eram responsáveis pela única fonte de renda. Nesta categoria, encontravam-se 13,5 milhões de domicílios, o que representava 18,6% do total de domicílios brasileiros, onde moravam 19,5 milhões de idosos, cerca de cinco milhões de não idosos, sendo que 910 mil eram crianças menores de 15 anos. Nesses domicílios, cerca de 30% dos homens idosos e 15% das mulheres trabalhavam. Dentre os não idosos, 5,7% trabalhavam, mas não tinham renda. Também neste caso, a principal fonte de renda dos idosos era a Seguridade Social, que era responsável por 64,6% do seu total, seguida da do trabalho, que contribuía com 25,2%.

Quem são esses idosos?

Busca-se nesta seção conhecer quem são os idosos brasileiros, considerando o tipo de domicílio onde residem. A Tabela 4 apresenta algumas características desses de acordo com a tipologia dos domicílios utilizada. No conjunto de domicílios com idosos, observa-se uma predominância de mulheres, tanto no conjunto dos moradores quanto entre os idosos, 54,3% e 56,1%, respectivamente, ou seja, as mulheres são mais sobrerrepresentadas entre os idosos do que entre os não idosos. A idade média das mulheres idosas era de 70,3 anos e estas tinham uma expectativa de sobrevida de 13,1 anos, segundo as estimativas da autora. Já a idade média dos homens idosos era de 69,6 anos e a expectativa de sobrevida de 12,5 anos. A escolaridade tanto dos homens quanto das mulheres idosas era muito baixa; apresentavam aproximadamente sete anos de estudo. Aproximadamente 93% dos homens idosos eram chefes ou cônjuges desses domicílios. Isto significa que estão nos seus próprios domicílios, o que sugere um maior empoderamento dos mesmos. Já a proporção comparável para as mulheres foi mais baixa, 86,6%. Consequentemente mais mulheres moravam na casa de parentes, 14,4%. Morar em casa de parentes pode ser um indicativo de um menor empoderamento, o que é mais expressivo entre as mulheres. Este é um dos fatores que podem explicar a maior violência sofrida por elas. Mesmo na condição de parentes, os idosos contribuíam para a renda dos domicílios; cerca de nove por cento desta.

Tabela 4
Características dos domicílios com idosos. Brasil, 2019.

Na Tabela 4, pode-se encontrar as características dos idosos que residiam nos domicílios onde mais de 50% da renda dos mesmos dependia da sua renda. Também predominavam as mulheres tanto entre o conjunto de moradores quanto entre os idosos, e a idade média destes era muito similar a dos idosos residentes nos outros tipos de domicílios. Já a escolaridade média era ligeiramente mais alta, tanto para os homens quanto para as mulheres. Uma proporção mais elevada desses idosos, tanto homens quanto mulheres, estava no seu próprio domicílio, o que significa uma proporção mais baixa morando com parentes. Isto pode ser resultado de uma maior independência tanto econômica quanto funcional.

Finalmente, o último grupo de domicílios considerado é o de que contava apenas com a renda do idoso. Aí também predominavam as mulheres e a idade média dos homens era ligeiramente mais alta do que a dos residentes nos demais tipos de domicílios. Entretanto, a das mulheres estava em torno de 70 anos semelhante a das demais. A escolaridade média não diferia muito da dos demais domicílios. Uma proporção ainda mais elevada desses idosos estava no seu próprio domicílio, ou seja, mais empoderados. Embora bem mais baixa do que a observada nos outros tipos de domicílios, a proporção de mulheres vivendo com parentes é quase o dobro da dos homens.

Sumarizando, esses dados mostram claramente a importância da renda do idoso na de um terço das famílias brasileiras, o que desmistifica a visão tradicional do idoso dependente do ponto de vista econômico. O que se viu aqui foi este assumindo um papel importante de provedor, para o qual não só a renda da Seguridade Social desempenha um papel significativo, mas, também, a do trabalho. Considerando o contexto atual da pandemia, em que a mortalidade dos idosos tem aumentado, bem como o seu desemprego, pergunta-se como fica a situação dessas famílias.

Como fica a situação dessas famílias em um contexto de pandemia?

A crise provocada pela pandemia da Covid-19 e a consequente adoção de medidas de isolamento social no Brasil afetou significativamente o mercado de trabalho. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC) apontou que a taxa de desemprego passou de 11,8% para 12,8% entre fevereiro e maio de 2020. Essa taxa não subiu mais porque o percentual de desocupados na população de 14 anos ou mais oscilou para baixo; de 7,3% para 7,1% entre fevereiro e maio. O percentual da população em idade de trabalhar que saiu da força de trabalho (6,5%), sem procurar emprego, é ligeiramente superior àquele que deixou de trabalhar (6,3%)1414 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise n. 69. Brasília: Ipea; 2020..

A comparação da PEA do primeiro trimestre de 2019 com a equivalente para 2020 apontou uma redução significativa na PEA feminina e na idosa. No total, cerca de 230 mil idosos deixaram de trabalhar ou procurar trabalho, sendo 71,3% mulheres. Também com relação à ocupação, foram os idosos e as mulheres que mais sentiram a perda de emprego. Foram cerca de 160 mil empregos perdidos, 88,4% femininos. Embora os dados da PNADC refiram-se ao primeiro trimestre de 20201515 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra. Rio de Janeiro: IBGE; 2020., início da pandemia, já mostram um impacto importante na taxa de desemprego e de participação da população brasileira. Acredita-se que, de forma diferenciada, essa queda deve ter atingido todos os trabalhadores brasileiros.

Segundo a PNADC, no primeiro trimestre de 20201515 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra. Rio de Janeiro: IBGE; 2020., aproximadamente a metade dos homens idosos trabalhava por conta própria, 49,8%, e 21,8% eram comerciantes, pedreiros, motoristas de táxi, de carros por aplicativos e de caminhões. A proporção de mulheres idosas que trabalhavam por conta própria era mais baixa que a dos homens, mas ainda muito alta, 38,6%. Isto pode ser explicado pelo peso do emprego doméstico. As suas principais ocupações eram as de empregadas domésticas, comerciantes, costureiras, faxineiras e cozinheiras em empresas. Estas ocupações absorviam 38,3% das mulheres. Em tempos de isolamento, essas ocupações, tanto as masculinas quanto as femininas, são as que têm sofrido o maior impacto tanto pela destruição de vagas quanto pela substituição de trabalhadores idosos por outros mais jovens pelos primeiros serem mais sensíveis ao risco da pandemia e/ou ao medo deles próprios de se exporem. Segundo o Ipea1616 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise n. 68. Brasília: Ipea; 2020., em maio de 2020, essa categoria recebeu 40% menos do que recebia habitualmente.

Além disso, a PNADC apontou uma redução no rendimento médio dos trabalhadores com mais de 40 anos a partir do segundo trimestre de 20191717 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra. Rio de Janeiro: IBGE; 2019.. Essa redução foi maior entre os maiores de 60 anos. Por exemplo, a comparação do terceiro semestre de 2019 com o correspondente de 2018 indica uma queda de 6,6%1818 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra. Rio de Janeiro: IBGE; 2018..

Os dados da PNAD Covid-19 de maio de 20201515 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC). Microdados da amostra. Rio de Janeiro: IBGE; 2020. revelam uma perda de 18% nos rendimentos médios do trabalho efetivamente recebidos pela população brasileira em relação aos rendimentos médios habitualmente recebidos. Entre a população maior de 60 anos, essa perda foi mais expressiva, de 22%. Apesar da grande maioria dos idosos, (73,6%), ser aposentado ou pensionista, o que lhes garante uma renda mensal vitalícia, a redução da renda do trabalho terá um impacto importante na das famílias, como será visto a seguir.

Busca-se nesta seção especular sobre a situação das famílias dependentes de idosos no contexto de perda de emprego generalizada e da mais alta mortalidade dos idosos.

Perda da renda do trabalho

Apresentam-se na Tabela 5 os resultados de um exercício que simula a redução e a perda da renda do trabalho e, também, da renda do idoso no caso da sua morte. As duas primeiras colunas mostram, respectivamente, a renda média domiciliar per capita no caso da renda do trabalho ser zero e a proporção da renda do domicílio que passa a depender da seguridade social. Estas simulações foram realizadas para cada um dos três tipos de domicílios analisados neste trabalho. Nota-se que a renda domiciliar per capita diminui em todos os três tipos de domicílios, mas a redução é maior naqueles onde a dependência da renda do idoso é menor, ou seja, onde há mais adultos trabalhando. Neste caso, pode-se esperar uma redução de quase 40% nessa renda. Mas mesmo naqueles domicílios que dependem apenas da renda do idoso, a perda é de 15,0%. O que se observa em todos os domicílios é que a dependência da renda da Seguridade Social torna-se muito forte, certamente, da renda do idoso, no caso da perda da renda do trabalho.

Tabela 5
Algumas simulação sobre a renda dos domicílios com idosos. Brasil, 2019.

E se os idosos morrerem?

Chama-se a atenção para o fato de que 74,7% das mortes por Covid-19 ocorrem entre as pessoas com 60 anos ou mais, sendo que 56,4% são homens. Dentre essas, aproximadamente um terço acomete as pessoas de 70 a 79 anos (dados atualizados em 13/08/2020). Levando em conta as condições de saúde de 20181616 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Boletim Mercado de Trabalho - Conjuntura e Análise n. 68. Brasília: Ipea; 2020., um indivíduo com 70 anos pode esperar viver mais 12,8 anos e trabalhar por mais dois (estimativas da autora). Ou seja, a mortalidade nessa idade pode ser considerada precoce.

Se morrem todos os idosos, cerca de 31 milhões de pessoas não idosas terão a sua renda mensal per capita reduzida de R$1.491,20 para R$1.041,40, desde que não haja perda na renda do trabalho dos não idosos. Neste caso, a renda do trabalho passa a ser responsável por 85,4% da renda desses domicílios, num momento de alto desemprego e redução dos rendimentos do trabalho.

Como se viu, em 21,2% dos domicílios brasileiros, no mínimo 50% da sua renda dependia da renda dos idosos. A renda mensal per capita desses domicílios era de R$ 1.772,2. Se esses idosos morressem, o rendimento médio per capita cairia para R$ 529,2. Ou seja, o impacto seria muito grande, uma redução de quase 75% que afetaria cerca de 12,1 milhões de pessoas, sendo 2,2 milhões com menos de 15 anos e as tornaria também muito dependente da renda do trabalho dos não idosos, 83,2%.

A outra categoria é composta pelos domicílios que contavam apenas com a renda dos idosos, que representavam 18,6% dos domicílios brasileiros. A morte desses idosos levaria a que cerca de cinco milhões de pessoas não idosas ficassem sem nenhuma renda, já que não contavam com a renda do trabalho e/ou de outra fonte.

Comentários finais

As simulações consideram situações extremas, ou seja, zeram a renda do trabalho e assumem que todos os idosos morrerão. Apontam para uma situação limite, mas já foi observado uma redução na renda do trabalho de toda a população brasileira nos primeiros meses deste ano, mais acentuada entre os idosos. Isto ocorre pelo desemprego em todas as idades e pelo corte de salários, bem como pelo aumento da mortalidade da população, em especial da idosa. São duas faces da pandemia, que afetam a renda das famílias e deixam em destaque o papel dos idosos brasileiros e a contribuição da Seguridade Social para a sua sobrevivência.

Chama a atenção para o fato de que o idoso é vítima duas vezes nessa pandemia: é quem morre mais e quem é mais afetado pelo desemprego. No entanto, o seu papel nas famílias é pouco reconhecido. Acho que se pode falar que caso morra um idoso, uma família entra na pobreza.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Set 2020
  • Data do Fascículo
    Out 2020

Histórico

  • Recebido
    18 Ago 2020
  • Aceito
    19 Ago 2020
  • Publicado
    21 Ago 2020
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