Open-access O valor da vida em qualquer idade: resenha do livro A velhice, de Simone de Beauvoir

The value of life at any age: a review of the book The Coming of Age, by Simone de Beauvoir

El valor de la vida a cualquier edad: reseña del libro La vejez, de Simone de Beauvoir

Beauvoir, S. A velhice. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1990

Descreverei a situação que se reservou aos velhos

e a maneira como eles a vivem. Direi tudo aquilo que - desvirtuado pelas mentiras, mitos e clichês -

se passa realmente em seus corações (p. 8).

É com essa disposição que Simone de Beauvoir inicia sua importante obra A velhice1. Ela a publicou pela editora Gallimard em 1970, quando tinha 62 anos. Um trabalho hercúleo de 714 páginas, cuja primeira edição completou 75 anos em 2025. Essa importante referência para os cientistas sociais e para as ciências sociais e a saúde foi traduzida pela Editora Nova Fronteira em 1990. Por trazer uma contribuição tão significativa que resiste ao tempo, eu a ressuscitei, para convidar os leitores a retomá-la e a apreciá-la.

O núcleo principal da obra é dividido em duas partes: (1) uma reflexão sobre a velhice como realidade biológica, histórica, social, existencial e política; (2) e uma imersão no sentido que a sociedade dá à presença dos velhos e como os trata, de um lado, e como eles próprios vivenciam essa transformação de seu corpo, de suas experiências e de seus desejos, de outro.

Estruturalmente, o livro assim se desenvolve: na primeira parte, a autora descreve o que chama de exterioridade biológica, existencial, etnológica, ou seja, o conjunto de aspectos marcados pelas dimensões que distinguem o velho de um adulto e de uma criança. Ela faz uma viagem que acompanha o velho na história da humanidade na Antiguidade, na Idade Média, na Modernidade e na Contemporaneidade.

Na segunda parte, ela o coloca como um “Ser no Mundo”, isto é, em suas vivências, o que inclui a percepção do outro sobre ele e como ele próprio se enxerga. A autora trabalha o tempo todo com exemplos - obviamente europeus e alguns de outros países, por exemplo, o caso de Gandhi - de como determinadas categorias sociais e pessoas específicas assumiram sua velhice. Um pequeno capítulo sobre os centenários traz uma descrição e uma síntese comovedoras, fortalecendo a ideia de que eles se distinguem por serem pessoas simples, saudáveis, resilientes, sociáveis e de bem com a vida.

Do ponto de vista biológico, o livro assinala a inexorabilidade dos anos cronológicos, frente aos quais a velhice se contrapõe à morte prematura. Gostemos ou não, a longevidade traz algumas características que a distinguem das etapas anteriores da vida, marcadas, segundo ela, pela medicina, pela economia e pelo próprio fato de existir. Por exemplo, a velhice é incontestavelmente a última etapa da vida. Na perspectiva médica, o corpo que envelhece é afetado e analisado nas perdas de sua capacidade física e às vezes mental. Sob o olhar econômico, “os adultos” - o grupo etário que manda em todas as sociedades - convencionam as leis que determinam o momento em que os velhos devem cessar seu protagonismo, tratando-os como um grupo dispensável e inútil. Sobre esse aspecto, diz Simone de Beauvoir: “eles são condenados à miséria, à solidão, às deficiências, ao desespero. A classe dominante”, aqui ela se refere a quem tem poder, os adultos, “adota a posição cômoda de não considerar os velhos como humanos” (p. 8)1.

Do ponto de vista histórico, Simone de Beauvoir ressalta que o velho sempre foi escanteado. Nas sociedades primitivas, que tinham grande escassez de comida, eram deixados para morrer ou eram mortos; nas tribos nômades, suas dificuldades físicas os impediam de seguir o grupo e assim eram largados à própria sorte. Nos tempos modernos e contemporâneos, são marginalizados - não encontram emprego e não se lhes oferecem oportunidades remuneradas ainda que tenham capacidade e habilidades -, são considerados improdutivos, um fardo, inúteis, portanto, aptos a desaparecer.

Em todos os períodos, sempre houve exceções em relação a determinados perfis de idosos: pessoas reconhecidamente sábias, ricas e, nos tempos modernos, detentoras de poder, salvam-se do menosprezo e dos maus tratos infligidos pelos adultos. Elas são preservadas, frequentemente continuam atuantes e respeitadas, sendo muitas vezes tomadas como exemplos.

Simone de Beauvoir conclui que o modo como a sociedade trata os velhos é político. O poder de que eles próprios gozaram como adultos se anula e passa para outras mãos. De maneira geral, a sociedade tende a destiná-los a uma sobrevivência de pobreza, sofrimento e regramento. E entre os pontos que ressalta está o dos asilos ou instituições de longa permanência em que, como em instituições totais, todos são tratados igualmente, a história pessoal não é reconhecida e nem os desejos que cada um tem. Por isso, a autora lembra que o drama da velhice não está no fato de o indivíduo ser velho, mas em o mundo não o reconhecer como sujeito e desdenhar de sua subjetividade.

Na segunda parte do livro, o foco é na experiência da velhice. A autora explora testemunhos, obras literárias e biografias de pessoas idosas para compreender como lhes foi possível enfrentar o envelhecimento. Ressalta que há múltiplas formas de vivê-lo - algumas marcadas por amargura e resignação, outras por lucidez e criatividade.

Nessa parte do livro, adota uma abordagem existencialista, explorando o lado pessoal de como o indivíduo vive e sente o envelhecer. Pessimista, diz, o envelhecimento não é apenas um momento de decadência física, mas uma forma de exclusão social e negação de humanidade no “outro”. Ela destaca o choque de consciência: frequentemente o sujeito continua se sentindo o mesmo “por dentro”, mas é “velho para o outro”. Para ele próprio, existencialmente, o que conta não é a idade biológica, mas como se define, faz planos, os realiza e ultrapassa os obstáculos que a cronologia lhe impõe.

Simone de Beauvoir analisa também as emoções associadas ao envelhecer: medo, ressentimento, negação e nostalgia para alguns. Serenidade e realização para outros. Para alguns, boas vivências de sexualidade, amor e amizade; para outros, solidão, isolamento social e abandono. O livro é cheio de exemplos de pessoas que transcenderam suas limitações e tiveram uma velhice plena de alegria e realizações, apesar de alguns problemas físicos e de saúde. Frequentemente, cita a diminuição da criatividade sentida e vocalizada por velhos escritores, artistas e intelectuais. No entanto, cita também casos belíssimos de pessoas que desabrocharam e produziram grandes obras depois dos 60 anos, como Tolstói, Victor Hugo e Michelangelo. Assim, o envelhecimento é vivido como uma contradição existencial: o corpo envelhece e se torna um obstáculo, impondo limites à liberdade por transtornos físicos e doenças. Mas a consciência pode permanecer livre e ativa, pois o corpo não é mero instrumento, mas parte constitutiva do ser.

No final de sua obra, Simone de Beauvoir defende que a velhice pode ser um tempo de liberdade e reflexão, desde que a sociedade reconheça o idoso como sujeito e não o reduza à condição de objeto. E preconiza o que foi dito na Assembleia da ONU em Madrid2, que propõe uma revolução ética: repensar o lugar do velho na sociedade e reconhecer o valor de toda vida humana em qualquer idade.

Por ter sido escrito nos idos de 1970, numa Europa em que o envelhecimento populacional se apresentava como uma realidade indiscutível, esse livro contribuiu para conformar uma consciência social ao mesmo tempo realista e positiva sobre o tema, o que passa a se expressar em documentos e resoluções que hoje se tornaram referência para o mundo. Assinalo apenas alguns dos últimos referenciais: da ONU, "Decade of Healthy Ageing platform. Progress and resources for the UN Decade of Healthy Ageing (2021-2030)”3; da OCDE, “Enhancing productivity and growth in an ageing society: key mechanisms and policy options”, “Old-age dependency” (2025)4 e “Ageing and social police” (2024)5; da OMS, “Relatório de progresso da década do envelhecimento saudável (2021-2023)”6 e “Relatório mundial sobre o idadismo” (2022)7; e da OPAS, “Década do envelhecimento saudável nas Américas: situação e desafios” (2023)8 e “Perspectivas demográficas do envelhecimento populacional na Região das Américas” (2023)9.

No Brasil, o envelhecimento chegou com toda força na segunda metade do século XX e, de lá para cá, só faz acelerar, tornando-se a grande novidade demográfica do século XXI. O país vem enfrentando o fenômeno com algumas soluções de Estado importantes: 83% recebem aposentadoria, embora a maioria tenha como ganho um salário mínimo, que mal dá para comer e comprar os remédios. E estão em pior situação os velhos que são dependentes físicos, mentais e sociais. Existe a Política Nacional da Pessoa Idosa (1994)10, o Estatuto do Idoso (2003)11 e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa12, documentos bastante completos e que contêm as melhores referências nacionais e internacionais. Em 2024 foi homologada a “Lei de Cuidados”13, que infelizmente ainda não foi implementada. Na prática, podemos dizer que, apesar das normas oficiais, a ficha da sociedade brasileira sobre o acelerado envelhecimento da população ainda não caiu, embora o tema tenha entrado na pauta de alguns setores, como os da saúde e da assistência social.

Findemos com a advertência de Simone de Beauvoir: essa etapa da vida nos convida à empatia. Ela conclui que é preciso repensar a velhice como parte integral da existência humana, e não como uma degeneração. Existe, pois, um chamado ético a reconhecer o velho como sujeito, não como objeto de cuidado ou piedade. Seu livro, além de ser um tratado de sociologia e filosofia, é também uma denúncia política, ao dizer que “a maneira como trata seus velhos revela a ética e a humanidade de determinada sociedade”1 (p. 658).

Referências

  • 1 Beauvoir S. A velhice. São Paulo: Editora Nova Fronteira; 1990.
  • 2 United Nations (UN). Second world assembly on ageing. Madrid: UN; 2002.
  • 3 United Nations (UN). Decade of Healthy Ageing platform. Progress and resources for the UN Decade of Healthy Ageing (2021-2030). ONU; 2024.
  • 4 Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). The Economic benefit of promoting healthy ageing and community care. Paris: OECD Publishing; 2025.
  • 5 Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD). Health policy studies. Paris: OECD Publishing; 2025.
  • 6 World Health Oranization (WHO). Progress report on the UN Decade of Healthy Ageing, 2021-2023. Geneva; WHO; 2024.
  • 7 Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Relatório mundial sobre o idadismo. Washington; OPAS; 2022.
  • 8 Pan American Health Organization (PAHO). The Decade of Healthy Aging in the Americas: situation and challenge. Washington: PAHO; 2023.
  • 9 Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Perspectivas demográficas do envelhecimento populacional na Região das Américas. Washington: OPAS; 2023.
  • 10 Brasil. Ministério do Desenvolvimento Humano e Combate à Fome (MDS). Política Nacional da Pessoa Idosa. Brasília: MDS; 1994.
  • 11 Brasil. Presidência da República. Estatuto da Pessoa Idosa. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras providências. Diário Oficial da União 2003; 3 out.
  • 12 Brasil. Presidência da República. Portaria nº 2.528, de 19 de outubro de 2006. Aprova a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Diário Oficial da União 2006; 20 out.
  • 13 Brasil. Presidência da República. Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados. Diário Oficial da União 2024; 24 dez.
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vania de Matos Fonseca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    Mar 2026

Histórico

  • Recebido
    18 Nov 2025
  • Aceito
    18 Nov 2025
  • Publicado
    20 Nov 2025
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