A Renovação Carismática Católica: algumas observações

Resumos

ESTE texto trata o tema da Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil a partir de uma perspectiva sociopsicológica. Evitando cair em posições de sim e não, a reflexão está organizada em dois pontos principais. No primeiro são apresentadas observações e informações destinadas a situar o leitor ante a realidade da RCC em suas fontes, desenvolvimento e atuais cenários. O segundo ponto é mais analítico. Pergunta-se nele pelas funções da religião e se procura averiguar se e como a RCC realiza essas funções básicas. No fim, se acena ao dilema de fundo da RCC: de um lado, a carregada ênfase na religiosidade subjetiva de seus membros e, do outro, o perigo nada irreal de esquecer o testemunho social que a Igreja Católica do Brasil vê como sendo uma dimensão constitutiva da resposta religiosa ao que o "Espírito fala hoje às Igrejas".


THIS paper explores the theme from a more psycho-sociological view point, trying to avoid a moralistic approach to the polemic question of the real meaning of this movement in the brazilian Catholic Church to-day and in the future. The article is divided in two main topics. In the first are presented some important informations about the origin, development and present situation of the RCC. In the second and more analytical point, he tries a brief analysis of this movement, discussing the main functions of a catholic spiritual movement in modern society and culture, with emphasis in the formation of a christian-catholic personal and collective identity. The main dilemma of RCC seems to be how to conciliate its strong accent on subjectivity with the social responsabilty of catholics in Brazil to-day.


DOSSIÊ RELIGIÕES NO BRASIL

A Renovação Carismática Católica. Algumas observações

Edênio Valle

RESUMO

ESTE texto trata o tema da Renovação Carismática Católica (RCC) no Brasil a partir de uma perspectiva sociopsicológica. Evitando cair em posições de sim e não, a reflexão está organizada em dois pontos principais. No primeiro são apresentadas observações e informações destinadas a situar o leitor ante a realidade da RCC em suas fontes, desenvolvimento e atuais cenários. O segundo ponto é mais analítico. Pergunta-se nele pelas funções da religião e se procura averiguar se e como a RCC realiza essas funções básicas. No fim, se acena ao dilema de fundo da RCC: de um lado, a carregada ênfase na religiosidade subjetiva de seus membros e, do outro, o perigo nada irreal de esquecer o testemunho social que a Igreja Católica do Brasil vê como sendo uma dimensão constitutiva da resposta religiosa ao que o "Espírito fala hoje às Igrejas".

ABSTRACT

THIS paper explores the theme from a more psycho-sociological view point, trying to avoid a moralistic approach to the polemic question of the real meaning of this movement in the brazilian Catholic Church to-day and in the future. The article is divided in two main topics. In the first are presented some important informations about the origin, development and present situation of the RCC. In the second and more analytical point, he tries a brief analysis of this movement, discussing the main functions of a catholic spiritual movement in modern society and culture, with emphasis in the formation of a christian-catholic personal and collective identity. The main dilemma of RCC seems to be how to conciliate its strong accent on subjectivity with the social responsabilty of catholics in Brazil to-day.

Introdução

O FENÔMENO DA Renovação Carismática Católica (RCC) não pode ser visto como algo novo ou inédito na história do cristianismo. Existe desde os tempos apostólicos. Já nas primeiras comunidades cristãs os estados alterados da mente causam estupor e suscitam divergências. Paulo, por exemplo, se vê coagido a intervir na comunidade de Corinto (1 Cor, 12-15) para estabelecer a hierarquia dos valores e lembrar os critérios de avaliação dessas manifestações. Comportamentos que lembram o que acontece na RCC estiveram presentes, sob formas variadas, seja no primeiro, seja no segundo milênio cristão. Em vários momentos da Idade Média eles emergem suscitando adesões entusiasmadas e rejeições apaixonadas. Foi assim, por exemplo, nos tempos de Gioachino di Fiori ou na época de espraiamento da "devotio moderna", um movimento espiritual que chegou a levantar as suspeitas do Tribunal de Inquisição até contra o fundador dos jesuítas.

A onda carismática que marca nossos dias não pode ser vista como uma mera repetição do acontecido anteriormente. Tem originalidade própria e seu acolhimento no seio nas Igrejas cristãs tem diferenças com relação ao que se verificou no passado. O pentecostalismo atual, além disso, é um movimento bastante estudado. Possuímos, hoje, recursos bem mais refinados para avaliá-lo dos mais variados pontos de vista. Mas seria inválido supor que a RCC seja um fenômeno já devidamente analisado e socialmente e assimilado no interno do "campo religioso católico" (Benedetti, 1988). O sentido, a dinâmica, a permanência e as perspectivas futuras da RCC não são ainda claras. Ao mesmo tempo, já é amplamente aceito que a onda pentecostal que surpreendeu a Igreja Católica no pós-concílio não é um modismo passageiro. Cresce o número de teólogos e analistas que o vêem como uma manifestação que afeta toda a Igreja. A RCC faz parte do cenário do catolicismo neste início do século, e veio, ao que tudo indica, para ficar.

Vale, por isso, a pena retomar sua análise, na tentativa de chegar a uma visão mais elaborada de seu significado no conjunto das extraordinárias transformações pelas quais passa o Catolicismo no mundo inteiro (Hébrard, 1992; Jenkins, 2002; Champion e Hervieu-Léger, 1990). Nossas reflexões se concentrarão na RCC brasileira, pois estamos conscientes de que há meios de desvinculá-la do grande contexto mundial no qual ela se insere.

Dispomos hoje de trabalhos excelentes sobre "o movimento" carismático católico no Brasil. Eles nos oferecem uma boa visão de conjunto do fenômeno. Entre os autores mais qualificados, menciono: Oliveira et alii, 1978; Antoniazzi, 1994; Oro, 1996; Prandi, 1997 e Carranza, 2000. Multiplicam-se também as publicações menores sobre a RCC, algumas delas abordando aspectos específicos muito interessantes. Com sintomática freqüência esses trabalhos estudam os confrontos que se estabelecem em torno da RCC. Algumas situações conflitivas se dão no âmbito da própria Igreja Católica, afetando a convivência interna nas dioceses e paróquias, devido a divergências teológicas e pastorais, mas sobretudo por causa do entusiasmo com que os carismáticos se lançam a defender e propagar seus princípios e propostas. Fora da Igreja, as dificuldades maiores derivam de relacionamentos com o neopentecostalismo protestante (Machado, 1998). O problema mais abordado é o da tensão existente entre as duas tendências que lutam pela hegemonia na condução do processo de mudança global da Igreja Católica. São estudos que contrapõem a corrente carismática às CEBs e às pastorais sociais e ao estilo de Igreja que surgiu na fase áurea das teologias inspiradas na Libertação (Ceris, 1995 e Comblin, 1983). Remeto o leitor aos autores e livros acima citados para informações mais detalhadas sobre a RCC. Neles se encontrará uma visão bem desenvolvida das origens, mudanças e tendências que se constatam hoje nos movimentos carismáticos brasileiros. Escrevo movimentos, no plural, por estar convencido de que são várias as faces e tendências presentes sob o discurso e os comportamentos aparentemente idênticos da RCC do Brasil.

Correndo o risco de simplificar uma situação complexa e cheia de cenários, modelos e nuances, poder-se-ia dizer que a RCC é a principal representante de um segmento que tenta levar a Igreja Católica a assumir um caráter mais intimista e pietista que social, negligenciando seu papel na sociedade. No limite, a supremacia do ideal da RCC poderia levar o Catolicismo brasileiro a assumir uma posição proselitista e anti-ecumênica na evangelização. A predominância de uma eclesiologia calcada nas comunidades de base e no compromisso com o povo, em oposição, faria do testemunho social e político do cristão da Igreja a pedra de toque e o critério definidor da validade evangélica da fé católica.

O itinerário das presentes observações é modesto. Em um primeiro ponto, serão delineadas as linhas históricas da evolução da RCC e feitas algumas considerações de ordem geral sobre suas características de fundo. Minha intenção, no segundo ponto, é a de levantar algumas hipóteses para a análise de aspectos psicossociais de maior relevância no fenômeno pentescostal católico. Talvez se possam (terceiro ponto), assim, deduzir algumas pistas práticas para a ação da Igreja com relação a um fenômeno cuja avaliação final só poderá ser feita nos próximos decênios da história.

Alguns dados históricos e observações de fundo sobre a RCC

Pessoalmente, penso que é útil encarar a RCC como uma decorrência da norte-americanização da cultura brasileira. Sem querer tornar absoluta essa intuição pessoal, constato que o way of life dos americanos atingiu praticamente todos os aspectos e estilos de nosso modo de viver, comer, trabalhar e usar o tempo livre. Nossos jornais e televisão reproduzem muito do que se observa na mídia estadunidense. Os carros, as geladeiras, os telefones celulares, a decoração, a arquitetura, a bolsa de valores, os bancos, os shoppings, a moda, o cinema, os valores e as metas éticas e sociais etc., quase tudo, enfim, mostra que nos pensamos a partir do que os americanos são e fazem. Não é que inexistam resistências e posicionamentos críticos de nossa parte. Não é que não tenhamos a "nossa" cultura e o nosso "jeito" de ser. As coisas do Brasil têm sempre um toque inconfundivelmente nosso. O "nosso", contudo, é cada vez mais influenciado pelo "deles". O comportamento religioso brasileiro não poderia escapar à pressão global que nos chega do poderoso irmão do norte. Cada vez mais o cristianismo brasileiro se torna uma cópia (um pouco em atraso) do que sucede no norte do continente. O que se dá lá se copia e se repete de alguma maneira aqui. Tal invasão é mais evidente nos cultos pentecostais e neopentecostais do que nas Igrejas históricas. A penetração dos pattern religiosos americanos não se limita às igrejas cristãs. Permeia outras formas de busca religiosa, como a Nova Era (Amaral, 1994 e Valle, 1998, pp. 197-232), essa imensa nebulosa que já encobre boa porção das classes médias mais abastadas do Brasil urbano (Magnani, 1996). Acha-se por trás da influência de religiões e filosofias de corte de si oriental, mas que nos chegam mais via Califórnia do que através de suas matrizes originais.

Penso que algo análogo se deu de 1970 para cá com a Igreja católica, graças à RCC. Obviamente, as profundas ligações que a Igreja Católica brasileira tem com a Europa representaram um entrave sociológico à entrada de elementos tipicamente próprios do protestantismo norte-americano entre nós. Outro fator de resistência foi o impulso de autoconsciência que o Vaticano II despertou no catolicismo latino-americano. Ademais, no caso do Brasil, existe uma espécie de identidade brasileira (com uma "mínima religiosa" nossa) que vem da base cultural e da formação histórica de nosso povo. Essa base não se deixa submergir sem mais pelas ondas culturais da globalização, embora acusando seu impacto. Ora, a RCC é um lídimo produto norte-americano. Tem progenitores ianques pelos seus dois lados, pelo do pai (o pentecostalismo) e pelo da mãe (o catolicismo americano em busca de novas vias de expressão). Carranza salienta a presença maciça de padres norte-americanos na implantação da RCC no Brasil (Carranza, 2000, pp. 32 e ss.). O berço da RCC é o catolicismo norte-americano que antes do Concílio era um todo monolítico. Com o Vaticano II, entrou em crise. O impacto dos novos ventos teológicos e pastorais levou à busca de novos caminhos de recuperação da fé. Um grupo de universitários foi encontrá-los em uma tradição de origem protestante popular que vem do século XIX e existia desde o tempo dos "pais fundadores". Esse grupo era de universitários e não de gente comum. Alguns deles tinham passagem pelos Cursilhos de Cristandade, movimento espanhol bastante rígido. O Cursilho introduziu na Igreja Católica o uso de técnicas fortes que mexem com o emocional do grupo e desestabilizam os arranjos psicorreligiosos do cotidiano das pessoas. Foram esses universitários que "inventaram" o pentecostalismo católico. Ao buscarem novas vias para a renovação pedida pelo Concílio, passaram a copiar os reavivamentos (revivals) que, àquela altura, eram um apanágio das Igrejas pentecostais, que o usavam com o fito de reconquistar cristãos que haviam se desgarrado de suas igrejas de origem porque perdidos no anonimato das "multidões solitárias" (D. Riessman) das grandes cidades. Na primeira metade do século XX, o pentecostalismo havia se destacado como sendo o mais eficiente instrumento de revitalização da fé no protestantismo norte-americano. Os primeiros grupos de católicos carismáticos talvez tenham experimentado o mesmo que os crentes com quem conviviam nos aglomerados urbanos de classe média e puderam, assim, perceber que o "batismo do Espírito" não só reanimava a fé individual como liberava energias para uma poderosa ação evangelizadora. Não sem grande habilidade, os pioneiros do catolicismo revivalista souberam se diferenciar dos protestantes, não obstante a vizinhança antropológica entre eles e os protestantes. E o fizeram através do que alguém chamou de "as três brancuras": Nossa Senhora, a Eucaristia e o Papa.

Com isso, sua identidade católica foi garantida, reforçada agora, por três armas de extraordinário poder de fogo: a centralidade da Bíblia e de Jesus Cristo, a manifestação livre de carismas no seio da comunidade em festa e as curas e exorcismos, vistos como comprovação do poder de Deus. Todos esses elementos contavam ainda com o reforço da reaprendizagem da oração pessoal através de uma abertura ao Espírito Santo, esse grande esquecido da Teologia Católica no século em que o catolicismo se implantou nos Estados Unidos.

O gênio empreendedor dos americanos cuidou do resto. Em poucos anos, todos os países católicos foram avassalados pela onda carismática. Hébrard estimava que, em 2000, os born again seriam cerca de 562 milhões em todo o mundo (Hébrard, 1992, p. 15). Ou seja, um quarto dos cristãos de todas as Igrejas cristãs, incluída a Católica, seriam carismáticos e teriam, de alguma maneira, sido "tocados" pelo Espírito. Essa experiência pessoal e intransferível direta do poder e da presença de Deus é reforçada pelas práticas e rituais que distinguem os carismáticos de outros grupos da Igreja. Deste ponto de vista, o que se passa em um grupo carismático não é o que se observa em outros movimentos católicos com os quais a RCC tem alguns traços em comum, como o Neocatecumenato, o Opus Dei ou mesmo os Cursilhos de Cristandade.

Carranza (2000, p. 24) descreve bem alguns desses elementos comportamentais típicos dos carismáticos e detectáveis ao primeiro olhar:

rezar de braços elevados para o alto; [...] a emotividade, a afetividade e a espontaneidade atuando como meios de comunicação; a referência constante de sensações como indicativas de experiências místicas e a certeza da presença de Deus; a necessidade de milagres como prova da existência divina e, finalmente, o batismo no Espírito Santo, manifestação que confere especificidade ao Movimento dentro da Igreja Católica.

O Brasil, que rapidamente absorve qualquer novidade religiosa, não tardou em se tornar uma das maiores nações carismáticas católicas do mundo. É impossível dizer quantos são hoje os católicos carismáticos do Brasil. Seguramente, são vários milhões. Eles representam, nos dias de hoje, a força provavelmente mais organizada e motivada de que dispõe a Igreja Católica em nosso país. Claro que a força do movimento não se explica pela regularidade quase uniforme dos comportamentos. Sua força vem muito mais da legitimidade que recebeu, em 1973, de Paulo VI, e foi amplamente ratificada e ampliada durante o pontificado de João Paulo II. Mas não só. Ela vem de dentro da experiência religiosa que esses católicos fazem na RCC. Sem esse zelo religioso - que parece ser mais durável que em outros movimentos - não se explicaria a eficácia da RCC. Não nos esqueçamos, porém, que essa eficácia tem seu alicerce em uma organização interna e externa muito bem planejada e executada. Hoje, a RCC está organizada em todo o país e possui uma máquina que funciona dentro de razoáveis padrões de modernidade.

Uma visão geral da RCC no Brasil

Deixo de antemão expresso que vejo a RCC como uma realidade sociologicamente volátil e ainda não bem definida. Sua presença e força são, porém, um fato. Longe de estar em retração, a RCC não faz senão expandir-se e consolidar-se no seio da Igreja Católica. Conta com a aprovação e o apoio de um crescente número de Bispos. A posição pastoral da CNBB é cautelosa, nem condenatória, nem de suspicácia (CNBB, 1994). Em Roma, ao que parece, o prestígio da RCC é bem maior.

Nos seminários e entre o jovem clero, as idéias da RCC costumam encontrar entrada bastante forte, não obstante a atitude crítica da teologia que se ensina hoje nas faculdades de teologia. Muitas vocações laicas, sacerdotais e religiosas vêm hoje de grupos carismáticos. Aumentam rapidamente as chamadas "novas formas de vida consagrada" quase todas elas de origem e corte pentecostal católico. Em poucos anos, alguns desses grupos chegaram a reunir centenas de membros diretos e milhares de simpatizantes. Em tais agrupamentos coexistem elementos arcaicos e novos. Existem neles modalidades de vida comunitária e ação pastoral nas quais as diferenças entre leigos e clérigos perderam - até certo ponto - importância, subvertendo o arraigado clericalismo que caracteriza a estrutura da Igreja católica.

Uma outra marca bastante típica dos movimentos de inspiração carismática é seu élan criativo associado à juventude de seus participantes. O impacto que as pessoas sentem na "experiência do Espírito" costuma ser forte. Atinge fundo os indivíduos. Na maioria dos casos, pode-se usar o conceito psicológico de conversão (James) para designar o que se passa no âmbito pessoal do carismático impactado pela presença do espírito. Depos de uma tal experiência, a pessoa se percebe como tendo "nascido de novo; é uma nova criatura. Hulda Stadtler acentua dois diferentes aspectos nesse processo de intensa pregnância. Alteramse ou se reorganizam de maneira nova os traços de personalidade e cria-se uma outra identidade social ancorada em novos vínculos e papéis comunitários e novas percepções do mundo externo, desde sentimentos de pertença e adesão ao grupo novo em que se entra pela via do batismo no Espírito. Stadtler, antropóloga que investigou a conversão também na RCC, escreve:

Razões pessoais para a conversão podem ser consideradas como pontos de partida especiais para compreender os vínculos entre mudanças nas concepções de si mesmo e a aquisição do que Gilberto Velho descreveu como um novo "sistema cognitivo". Alterar a concepção particular de si mesmo leva a uma crescente reavaliação do "estar-no-mundo", além de uma complexa construção de explanações para os eventos que correm no mundo. No caso do Pentecostalismo, a possibilidade de tornar-se um membro especial do povo de Deus - como um profeta, por exemplo - deflagra uma "revolução simbólica (Rolim), e um tipo específico de reestruturação cognitiva (Vygotsky; Luria).

Essa reestruturação do campo perceptivo e da autocompreensão do sujeito tem suporte nos fervorosos grupos de oração que a RCC incentiva com o objetivo de manter vivo o primeiro entusiasmo dos membros. Há também atividades de formação especialmente as relativas à Bílblia, em uma linha quase sempre fundamentalista. Simultaneamente, a RCC orienta os novos adeptos para uma ação evangelizadora direta, centrada no testemunho pessoal e grupal coordenado com manifestações massivas de evangelização em tudo semelhantes ao que fazem os pentecostais protestantes. Dentro do estilo mais comedido dos rituais da Igreja Católica, a exuberância das manifestações carismáticas se acham sob certo controle. Mesmo assim, comportamentos carismáticos, como a glossolalia e as profecias, as curas, os milagres e os exorcismos aparecem, em algumas ocasiões com algum exagero. Nesse sentido, é muito amplo e diferenciado o leque de comportamentos que se observa. São esses alguns dos fatores que explicam boa parte do crescimento dos carismáticos e da sua coesão doutrinal e ritual, em todo o Brasil.

Os sociólogos que se debruçam sobre a RCC acentuam que a Renovação tem prevalência nas cidades e sua incidência é maior entre as classes médias (Prandi, 1997, pp. 159-169). Sua relação com o mundo político e os problemas sociais é freada pelo seu objetivo principal, que é o de renovar "interiormente" as pessoas e a comunidade cristã. A RCC se apresenta como sendo "o" novo modo de ser Igreja. Contrapondo-se ao clima dessacralizado, plural e permissivo da cultura em geral, ela cobra de seus membros um programa de vida no qual a espiritualidade e a fidelidade doutrinal e moral católicas constituem o eixo central. Primeiro vem a transformação espiritual, as mudanças na vida familiar e profissional, a retomada das práticas de piedade, o abandono do que é mundano, o controle da sexualidade etc. Só depois, lentamente, e como que por força, seguirão as mudanças sociais. Dessa moral do indivíduo só se pode esperar uma visão conservadora dos processos sociais e da história. A tendência é a de ver o social como um projeto de moralização e isto sob o prisma de um catolicismo voltado para si mesmo.

No Brasil, que imita os evangelistas norte-americanos, surgiu, nos últimos anos, figuras carismáticas católicas de grande prestígio midiático. Os mais conhecidos são os padres cantores, os fundadores de organizações e os pregadores de TV ou rádio. Mas existem, e vão constituindo uma verdadeira rede, pregadores leigos, bandas musicais e organizadores de shows que se tornaram bastante conhecidos tanto entre os carismáticos quanto em outros segmentos católicos e não católicos. São evangelizadores que atravessam as fronteiras das paróquias e dioceses, duas balizas tradicionais do mandato de pregar e da jurisdição dentro da Igreja Católica. O católico médio, hoje em dia, dificilmente saberá o nome do Presidente da CNBB, mas todos sabem quem é o Pe. Marcelo.

Do ponto de vista da comunicação, a RCC cresceu muito. Está conseguindo um lugar ao sol no concorrido mercado televisivo brasileiro. No campo editorial, fonográfico, radiofônico e discográfico é igualmente notável (e lucrativo) o avanço obtido por diversos grupos carismáticos católicos. Seus programas de televisão e rádio, por exemplo, atingem quase todo o território nacional. As emissoras carismáticas apresentam uma imagem quase uniforme do novo catolicismo que apregoam. A imagem que o grande público faz hoje da Igreja Católica se identifica e se confunde com o que diz, faz e vende a RCC. As diretrizes do Papa ou da CNBB encontram muito menos ressonância na opinião pública do que a palavra de alguns líderes carismáticos que, graças à mídia, falam para o Brasil inteiro. Em alguns casos, há associações de natureza não muito clara entre grandes redes e alguns padres comunicadores. O acordo entre Pe. Marcelo e a Globo, por exemplo, permitiu que esse jovem sacerdote realizasse uma grande proeza, qual seja, a de reunir, em um mesmo lugar, dois milhões de pessoas para um culto religioso. Esse efeito extraordinário não pode ser explicado apenas pelo talento evangelizador do Pe. Marcelo!

Em seu conjunto, a RCC transmite uma impressão de criatividade e constante crescimento. É um quadro que não se observa nas dioceses, paróquias, congregações religiosas e demais organizações de Igreja. As congregações religiosas - sem dúvida o primeiro e mais importante esteio de sustentação da Igreja Católica do passado - encontram dificuldades em entrar pela via da RCC de buscar uma adaptação nem sempre lúcida às exigências do atual "mercado religioso" brasileiro. Suas obras tradicionais (colégios, hospitais, instituições sociais, paróquias) se tornam verdadeiros elefantes brancos que apresentam sua resposta aos desafios presentes da evangelização (Valle, 2003). Seus métodos e estilos de evangelização são, deste ponto de vista, quase que obsoletos. Muitas congregações, em especial as femininas, parecem marcar passo, sem condições de recriar-se desde seu carisma e objetivos de origem. Assistem a um lento mas real envelhecimento de seus quadros, com a conseqüente inviabilização das numerosas obras fundadas até o Cocílio Vaticano II (1962-1965). O discurso profético dos anos pós-concilares e o propósito de refundar a vida religiosa corre, com isso, o risco de se transformar em desejo piedoso sem maiores possibilidades de realização.

Bibliografia

Texto recebido e aceito para publicação em 30 de setembro de 2004.

Edênio Valle é professor de Psicologia da Religião no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É psicólogo e teólogo. É autor de vários livros e artigos sobre psicologia e religião, entre eles, Experiência religiosa e psicologia (Loyola).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Dez 2004
  • Data do Fascículo
    Dez 2004

Histórico

  • Recebido
    30 Set 2004
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