Open-access Efeitos do Anti-Intelectualismo na Ciência na Ótica de Doutores em Formação1

RESUMO

Na pandemia de Covid-19 no Brasil, houve o recrudescimento de práticas corrosivas ao ethos científico, como cortes orçamentários e discursos negacionistas e anticientíficos. O objetivo deste estudo foi caracterizar os efeitos desse cenário na formação acadêmica da perspectiva de doutores em formação. Por meio de entrevistas realizadas com 10 doutorandos matriculados em programas de excelência no país, foram identificados: menor acesso a atividades formativas; insegurança financeira; comprometimento do desempenho acadêmico; perda de prestígio social da carreira acadêmica; emigração e desistência da carreira acadêmica. Tais efeitos fazem parte de uma cultura anti-intelectualista que precisa ser combatida na retomada do valor social da ciência.

Palavras-chave
Negacionismo Científico; Anticiência; Crise Orçamentária; Pós-Graduação Stricto Sensu

ABSTRACT

During the Covid-19 pandemic in Brazil, there was a resurgence of practices that are corrosive to the scientific ethos, such as budget cuts and denialist and anti-scientific discourses. The objective of this study was to characterize the effects of this scenario on academic training from the perspective of PhD students. Through interviews conducted with 10 doctoral students enrolled in university excellence programs in the country, the following were identified: reduced access to training activities; financial insecurity; impairment academic performance; loss of social prestige of the academic career; emigration; and withdrawal from the academic career. These effects are part of an anti-intellectualist culture that needs to be combated during the recovery of the social value of science.

Keywords
Scientific Denialism; Anti-Science; Budget Crisis; Stricto Sensu Postgraduation

Introdução

Oficializada, no Brasil, em 1965, a pós-graduação stricto sensu é considerada um raro caso de sucesso no interior de nosso sistema educacional (Balbachevsky, 2005; Brasil, 2021). Esse sucesso seria atestado, entre outros aspectos, pelo número crescente de mestres e doutores titulados a cada ano, pela significativa majoração da produção científica brasileira e pelo aumento do impacto dessas publicações na ciência mundial (Brasil, 2021). A proporção de doutores para cada 100 mil brasileiros saltou de 4,3 em 2003 para 11,6 em 2019 (Brasil, 2004, 2021); o quantitativo de artigos publicados em periódicos internacionais passou de 12 mil em 1998 para 65 mil em 2018; e o fator de impacto da produção científica brasileira, medido em termos de citação por publicação, saltou de 0,73 em 2011 para 0,86 em 2018 (Brasil, 2021).

As conquistas alçadas pela pós-graduação stricto sensu estão, no entanto, sob risco de retração. A formação de mestres e doutores em anos recentes, especialmente ao longo dos anos de 2010 e início dos anos de 2020, tem ocorrido em um contexto marcado por uma grave crise orçamentária na área de ciência e tecnologia (C&T) e pelo crescimento de práticas negacionistas e anticientíficas (Duarte; César, 2020; Escobar, 2021; Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020). Segundo o IPEA (2021), desde 2014 os recursos federais destinados à área de C&T vêm sendo consistentemente reduzidos; entre os anos de 2013 e 2020 a redução chegou a 37%. Com isso, os gastos com a área em 2020 foram inferiores aos aplicados em 2009. Com relação ao orçamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência que se destina a apoiar a formação de mestres e doutores por meio da concessão de bolsas de estudo, os valores aplicados em 2020 foram similares aos gastos em 2011 (IPEA, 2021). Outras importantes unidades orçamentárias da C&T brasileira, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), somados, têm hoje orçamentos menores do que os orçamentos de que dispunham no início dos anos 2000 (IPEA, 2021).

Esse retrocesso orçamentário se traduz, correntemente, na redução expressiva do número de bolsas de estudo disponíveis para mestrandos e doutorandos (Fernandes, 2022), no fechamento de laboratórios de pesquisa (Quintans-Júnior et al., 2020), na diminuição da produção científica brasileira (Fernandes, 2022; Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020), na inédita queda do número de ingressantes, matriculados e titulados em cursos stricto sensu (Quintans-Júnior et al., 2020; Palhares, 2022), no drástico aumento do êxodo de cientistas brasileiros para o exterior (Quintans-Júnior et al., 2020; Galvão-Castro; Cordeiro; Goldenberg, 2022) e no encerramento de programas de pós-graduação (Gorziza, 2022). Importa destacar que, iniciada em 2014, a crise orçamentária da C&T brasileira foi agravada com a chegada da extrema direita ao executivo federal em 2019 (Quintans-Júnior et al., 2020; Tollefson, 2019).

O desinvestimento na área de C&T também foi acompanhado pela expansão e pelo fortalecimento de práticas negacionistas em todo o país (Tollefson, 2019). O negacionismo científico se caracteriza pelo esforço em colocar sob suspeição resultados científicos já consolidados e sistematicamente replicados (Duarte; César, 2020; Penaforte, 2021). Em geral, busca-se fomentar falsas controvérsias em relação a essas proposições e criar um aparente debate na ausência de qualquer evidência empírica que justifique a revisão do conhecimento existente (Penaforte, 2021). Ao fazê-lo, o negacionismo também põe em questão a autoridade e a legitimidade dos cientistas e de suas instituições, bem como induz ou favorece a deslegitimação dos modos pelos quais a ciência é produzida (Duarte; César, 2020).

Usualmente, os resultados científicos negados correspondem a afirmações “inconvenientes” que, se aceitas, poderiam ensejar a proposição e implantação de mudanças políticas e sociais contrárias aos interesses de determinados grupos (Duarte; César, 2020). Uma vez questionadas e negadas, no entanto, essas afirmações tornam-se inócuas e a integridade dos interesses supramencionados é assegurada (Duarte; César, 2020). No Brasil, a promoção de práticas negacionistas tem ocorrido com o apoio e a participação de autoridades nacionais (Duarte; César, 2020; Penaforte, 2021). Resultados científicos que, por exemplo, asseguraram a ineficiência da cloroquina como terapêutica para a Covid-19 (Moreira; Nunes, 2022) e alertaram para o aumento substancial do desmatamento dos biomas brasileiros (Sanches, 2019) foram questionados e sistematicamente negados por autoridades políticas nos últimos anos. As instituições responsáveis por esses resultados foram colocadas sob suspeita e os cientistas foram desacreditados, demitidos (Sanches, 2019), perderam financiamento de pesquisas em andamento (Hallal, 2021) e tiveram homenagens cassadas por decisão governamental (Silveira, 2021a). Essa promoção do negacionismo científico tem se desdobrado, inclusive, em condições que ameaçam a própria integridade física de cientistas nacionais (Stevanim, 2021).

À ampliação da crise orçamentária e do negacionismo científico soma-se, ainda, a expansão da anticiência em território nacional (Monteiro, 2020). Embora o negacionismo científico e a anticiência sejam fenômenos que compartilham características comuns, o segundo tem particularidades não identificáveis no primeiro. A anticiência frequentemente se caracteriza pela rejeição da ciência e de seus métodos em favor de outras formas de conhecer (Holton, 1993; Hotez, 2020). Mais especificamente, a anticiência envolve a defesa de uma “ciência alternativa” ou de uma “paraciência” que seria muito diferente da ciência “convencional”. Com isso, a anticiência advoga o “fim da ciência como nós a conhecemos” e a substituição desta por uma forma alternativa de produzir conhecimento (Holton, 1993, p. 153). Conforme Holton (1993), historicamente, os movimentos anticientíficos buscam a deslegitimação da ciência, de seus métodos e de suas reivindicações epistemológicas e ontológicas – mas, sobretudo, buscam reverter a influência que a ciência exerce sobre a vida e o progresso humanos. No país, são ilustrativos os casos de autoridades que já criticaram o espaço excessivo dado à ciência pela sociedade e lamentaram o fato de a igreja evangélica não ter ocupado a ciência (Jornal Nacional, 2019) e que já tentaram tornar obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas (Pasternak; Orsi, 2021).

Em conjunto, os fenômenos descritos são emblemáticos das condições hostis sob as quais mestrandos e doutorandos se formam na atualidade (Escobar, 2021). As consequências a eles associadas (e.g., redução do número de ingressantes e titulados em cursos stricto sensu, fechamento de laboratórios e encerramento de programas de pós-graduação) ameaçam não apenas o futuro da pós-graduação, mas também a própria sobrevivência da ciência nacional (Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020). Vale ressaltar que, após as eleições democráticas de 2022, que resultaram na saída da extrema direta do executivo federal, há a expectativa de reversão ou, ao menos, de abrandamento das condições hostis citadas (Pagno, 2022). Com isso, uma investigação sobre os efeitos do fortalecimento de práticas contrárias à ciência sobre a pós-graduação pode parecer, em um primeiro momento, um anacronismo sob a nova gestão federal (2023-2026). Se anacrônicas, no entanto, investigações dessa natureza não podem ser consideradas irrelevantes, ao menos por compor mais um registro histórico desse período nefasto para a ciência brasileira.

Os materiais consultados sugerem que a crise orçamentária na área de C&T e o fortalecimento de práticas negacionistas e anticientíficas impactaram a comunidade científica brasileira como um todo (Escobar, 2021; Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020; Tollefson, 2019). Dessa forma, é possível hipotetizar que doutorandos de diferentes áreas do conhecimento, de diferentes instituições e de diferentes programas de pós-graduação foram afetados por esses fenômenos. Com isso em vista, o objetivo deste trabalho foi contribuir com a descrição dos potenciais impactos do desinvestimento em C&T e da expansão do negacionismo e da anticiência sobre a formação de doutores, mediante a realização de entrevistas com alunos de programas de excelência. Em outras palavras, este trabalho buscou adensar as pesquisas sobre esses efeitos da perspectiva dos próprios alunos, fornecendo descrições da realidade vivida e consubstanciando informações já disponíveis na literatura. Como os programas de pós-graduação de excelência (i.e., programas nota 6 e 7) são considerados referências em qualidade (Hostins, 2013) e concentram financiamento e prestígio no país (Horta; Moraes, 2005), investigar os eventuais efeitos de práticas contrárias à ciência sobre alunos de programas nota 7 pode ser especialmente útil para estimar o alcance com que elas influenciam e impactam a formação de novos cientistas.

Método

Considerando os objetivos desta pesquisa, foi conduzido um estudo de natureza exploratória. Conforme Gil (2008), investigações dessa natureza se debruçam sobre fenômenos novos ou ainda pouco estudados e visam produzir informações que ajudem a caracterizar, em linhas gerais, tais eventos. Desta pesquisa (CAAE: 89979618.3.0000.5398; parecer de aprovação número: 2.712.777), participaram 10 doutorandos matriculados em programas de pós-graduação (PPG) nota 7 do estado de São Paulo e que eram, em 2020, bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Para a seleção dos informantes, foram identificados inicialmente todos os PPG nota 7 do estado paulista e, na sequência, foram sorteados 10 programas. Um aluno de cada PPG foi selecionado; essa seleção se deu por meio de informações disponíveis no site da Biblioteca Virtual da FAPESP: buscou-se selecionar alunos, com bolsa de doutorado em andamento, que pertencessem aos PPG sorteados e que haviam concluído pelo menos quatro semestres do curso de doutorado. Entre os respondentes, cinco eram do sexo feminino e cinco do sexo masculino; e pertenciam a diferentes áreas do conhecimento: Fisioterapia, Zoologia, Farmácia, Química, Física, Engenharia Elétrica, Literatura, Biologia Animal, Economia e Filosofia.

Os participantes, contatados e convidados a participar do estudo por e-mail, foram submetidos a entrevistas semiestruturadas entre maio e junho de 2020. As questões previstas para a conversação eram: (i) Na sua opinião, as características atuais do contexto científico brasileiro, que envolvem cortes orçamentários e cancelamento de editais e bolsas, afetam sua formação científica? Em caso afirmativo, como afeta?; (ii) Na sua opinião, considerando agora o cenário científico nacional e internacional, o crescimento de práticas negacionistas e anticientíficas (a exemplo dos movimentos antivacina e terraplanista) afeta sua formação científica e acadêmica? Em caso afirmativo, como afeta?; e (iii) Quais são suas perspectivas para o futuro? As entrevistas foram realizadas via Skype e só foram iniciadas após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos informantes. Com a anuência dos entrevistados, todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Foi realizada uma transcrição não naturalista (Azevedo et al., 2017) dos dados coletados, a qual preservou especialmente o conteúdo informativo da conversação e omitiu idiossincrasias da fala (e.g., pausas, fillers, repetições de frases, encorajamentos, falsos inícios).

Na sequência, os dados foram submetidos a uma análise categorial. Conforme Caregnato e Mutti (2006), uma avaliação dessa natureza envolve desmembrar o texto transcrito em unidades e reorganizá-lo em categorias temáticas, considerando a semelhança de conteúdo existente entre seus componentes. Neste estudo, a análise dos dados compreendeu a execução de três etapas. Na primeira, foi realizada uma leitura de familiarização das transcrições, com vistas a identificar nos relatos trechos com a descrição de eventuais efeitos da crise orçamentária, do negacionismo e da anticiência sobre a formação do(a)s respondentes; os trechos identificados foram selecionados (etapa de desmembramento). Na segunda etapa, os relatos selecionados foram agrupados por semelhança, sistematizados e nomeados com expressões que dessem relevo aos efeitos identificados (etapa de reorganização); neste momento, foram criadas seis categorias temáticas relacionadas ao acesso a atividades formativas, à insegurança financeira, ao desempenho acadêmico, ao prestígio social das profissões acadêmicas, à emigração e à desistência da carreira científico-acadêmica. Na terceira etapa, as descrições desses efeitos foram interpretadas por meio de uma articulação com textos que tratassem dos temas de interesse (etapa interpretativa).

Resultados

Nesta seção, será apresentada uma sistematização dos relatos dos informantes em relação aos impactos da crise orçamentária da ciência brasileira e da expansão do negacionismo científico e da anticiência no Brasil sobre a formação stricto sensu. Esses efeitos foram formulados com base no exame das respostas dos participantes às questões realizadas durante as entrevistas. A apresentação dos resultados será ilustrada com trechos das falas dos respondentes que ajudam a exemplificar e dar concretude aos fenômenos descritos – os informantes serão, doravante, identificados por uma notação mnemônica formada pela letra P (i.e., Participante) e por um número de um a 10. Em linhas gerais, foram identificados seis efeitos: menor acesso a atividades formativas; insegurança financeira; comprometimento do desempenho acadêmico; perda de prestígio social da carreira acadêmica; emigração e desistência da carreira acadêmica – os quais serão descritos em subseções separadas.

Menor acesso a atividades formativas

Segundo os dados coletados, o retrocesso orçamentário na área de C&T tem se traduzido na redução do quantitativo e da variedade de atividades formativas disponibilizadas pelos programas de pós-graduação. Isto é, com menos recursos disponíveis, os mestrados e doutorados reduziram o número de espaços voltados ao ensino e à aprendizagem dos alunos. Como exemplifica a Participante 1 (P1):

[...] agora a pós-graduação, tipo, o programa, não tem dinheiro para pagar, por exemplo, esses cursos de inglês, essas coisas um pouco mais fora do que eles oficialmente precisam fazer, né, então começa a não ter dinheiro para essas coisas, começa a não ter dinheiro para convidar palestrante para vir para cá, para organizar evento dentro do instituto.

Outrossim, a liberação de recursos, pelas agências estatais de fomento à pesquisa, para o financiamento de certos tipos de atividades formativas também tem sido infrequente no cenário atual – e, sem a liberação desses recursos, o acesso a tais atividades é inviabilizado. O Participante 2 (P2) relata que fez “um pedido de bolsa para o exterior para a FAPESP [...] e esse mês eles me responderam, falando que foi cancelada a minha proposta porque eles não têm noção da [...] estabilidade financeira da FAPESP”. P2 se refere a um estágio de pesquisa no exterior que estava previsto em seu projeto e que teria implicações tanto na investigação que ele estava conduzindo quanto em sua formação científica. Como a agência não liberou os recursos, o desenvolvimento dessa atividade pelo participante tornou-se inviável.

Adicionalmente, de acordo com os dados, o desinvestimento na área de C&T pode impossibilitar que alunos stricto sensu deem continuidade à sua formação em estágios pós-doutorais. Conforme o Participante 3 (P3):

se eu quiser fazer um pós-doutorado, né, eu dependo, no caso, de bolsa. Então, como, toda essa confusão de cortes, afeta se eu quiser dar continuidade, por exemplo, fazer um pós-doutorado, porque vai ter menos bolsas, então, vai ser bem mais concorrido, vai ser bem mais difícil conseguir uma bolsa para fazer um pós-doutorado (P3).

Dentre os 10 participantes, três (i.e., P1, P2 e P3), portanto, citaram o menor acesso a atividades formativas como um dos efeitos da crise orçamentária da ciência brasileira. Como visto, essa redução se expressa na diminuição do número de atividades ofertadas pelos programas, no não custeio de atividades formativas pelas agências de fomento e no número insuficiente de bolsas disponíveis para o pós-doutoramento.

Insegurança financeira

Segundo as informações coletadas por meio das entrevistas, a insegurança financeira é um dos efeitos do cenário atual sobre a formação de doutores. Entre os 10 informantes, esse efeito foi destacado pela Participante 4 (P4) e pelo Participante 5 (P5). Nas palavras dos entrevistados:

Você entra numa pesquisa, você tem um planejamento [...]. E aí você perde essa bolsa [de estudo], sabe, toda a sua vida se desestrutura, porque você não mora mais com seus pais, muitos saíram da cidade, foram para outra cidade, então a única opção é você trabalhar fora. [...]. Então [afeta a saúde mental], tanto em relação a você não saber como é que vai ser amanhã, você não sabe se vai ter bolsa amanhã, você não sabe se vai ser amparado amanhã, como você tem que se preocupar com outras coisas que não a sua linha de pesquisa, como deveria ser (P4).

Como eu falei, né, da questão da bolsa, da mesma forma que a gente, uma simples revisão de um artigo negativa pode desestimular o caminho de um cientista, imagina a falta de financiamento – isso é muito mais grave, né. E outra, a grande questão de você montar todo um aparato científico no Brasil sem uma estabilidade para o pesquisador: é muito complicado porque o cara, que pode ter o maior potencial do mundo para ser um cientista muito bom, às vezes ele não vai se dedicar por conta de uma questão tão básica quanto você não ter um reconhecimento de uma estabilidade financeira (P5).

Além da insegurança financeira impactar a saúde mental de pós-graduandos, gerando, por exemplo, ansiedade, falta de motivação e frustração, nos trechos anteriores, P4 e P5 frisam também a incompatibilidade entre a falta de estabilidade financeira e as exigências para formação de doutores. Ou seja, segundo os entrevistados, outra decorrência do desinvestimento na ciência brasileira é tornar inviável que os alunos se dediquem com exclusividade aos compromissos dos cursos stricto sensu – o que alude ao terceiro efeito identificado: o comprometimento do desempenho acadêmico.

Comprometimento do desempenho acadêmico

As informações coletadas mediante o relato dos participantes sugerem, ainda, que a crise orçamentária da ciência nacional compromete o desempenho, a produtividade e a qualidade do trabalho dos pós-graduandos. Como exemplifica P1:

Assim, é bem, é bem triste. Isso te desanima, tipo, acaba desanimando você, acaba te desincentivando, te deixando assim mais [...] desanimado, então sua pesquisa acaba sendo afetada, querendo ou não. Você acaba tendo menos, assim, garra de fazer as coisas, porque você começa, não que a gente faça isso por ganhos e tal, mas você começa a ver que tem mais, muito mais pedras no caminho do que qualquer outra coisa, te desanima, não te faz, assim, querer ultrapassar tantos obstáculos quanto era antes, sabe (P1).

À semelhança de P1, o Participante 6 (P6) assevera que, sob as condições atuais, “[você] fica desanimado de continuar se dedicando tanto para um negócio que pode não dar retorno”. O Participante 7 (P7) afirma que o desinvestimento na C&T brasileira afeta “diretamente a nossa perspectiva, elas acabam, elas afetam diretamente a questão subjetiva do nosso trabalho, ou seja, que é o nosso desejo por esse trabalho e isso com certeza transparece na nossa pesquisa”. Assim, três (i.e., P1, P6 e P7) dos 10 participantes relataram o comprometimento do seu desempenho acadêmico como um efeito do cenário atual.

Perda de prestígio social da carreira acadêmica

Para ao menos dois participantes, no Brasil, o retrocesso orçamentário na área de C&T e a expansão do negacionismo científico e da anticiência estão vinculados a um processo de desacreditação e de perda de prestígio social da carreira acadêmica. Isto é, se antes a escolha por essa carreira e o exercício profissional do fazer científico e do fazer docente eram valorizados socialmente, na segunda e na terceira década do século XXI, a formação e a atuação acadêmicas têm sido, conforme as pessoas entrevistadas, frequentemente desvalorizadas e alvos de hostilidades diversas. Na avaliação de P6 e da Participante 8 (P8), respectivamente:

se as coisas mais básicas e óbvias são negadas, é difícil pensar que o meu trabalho [científico] [...] vai ter algum efeito prático. Então, acaba dando uma sensação de que nada do que a gente está fazendo importa muito, porque ninguém vai ler e cada um acredita na sua fé, então é mais um desânimo interno do que qualquer coisa (P6).

Eu acho que o fato de a gente estar em um país que não prioriza o que a gente faz é muito frustrante, né? Tanto no sentido do processo mesmo, desse momento em que a gente ainda está fazendo a nossa pesquisa, quanto na nossa inserção depois disso. [...] coletivamente a gente está sendo golpeado o tempo todo, né, o tempo todo a gente está pedindo ‘por favor, deixa eu viver fazendo o que eu gosto de fazer, o que que eu acredito’ (P8).

Para as pessoas entrevistadas, desse desprestígio e dessa desacreditação decorrem ainda a frustração de projetos de vida; isso porque se malogram as perspectivas de reconhecimento, de inserção profissional e de remuneração adequada após o término do doutorado. Nas palavras de P8:

são 14 anos investindo nisso, é um projeto de vida, eu acredito nisso! E você tem que acreditar meio que sozinha, né, porque você não tem um respaldo público, governamental para isso. Então é muito triste a situação toda.

Emigração

Segundo os dados coletados durante as entrevistas, a emigração de cientistas para o exterior é outro efeito associado à crise orçamentária da ciência nacional e ao crescimento de práticas negacionistas e anticientíficas no país. Na apreciação de três, dos 10 informantes, as atuais condições político-econômicas se incompatibilizam com o exercício, em território brasileiro, das profissões aprendidas na pós-graduação. Para as entrevistadas, frente a esse cenário, a alternativa é buscar oportunidades profissionais em outros países. Os excertos reproduzidos na sequência são emblemáticos:

Os meus objetivos para o futuro são de dar aula em universidade pública, conseguir continuar pesquisando [...] e, continuar formando os acadêmicos como são, estão sendo formados, e melhorar cada vez mais. Agora, as perspectivas são um pouco diferentes dos objetivos, eu não tenho muita certeza, por exemplo, se valeria a pena continuar no Brasil, ou se ir para outro país. Porque a pesquisa daqui é muito subvalorizada (P4).

As perspectivas como pesquisadora: eu tenho, no momento, assim, eu tenho vontade de, nesse curto prazo, eu sei que quero sair do Brasil, né, para seguir, para continuar minha carreira científica, né. Quero fazer pós-doc fora do país, porque eu acho que vai ter muito mais oportunidades para mim fora, mas, a longo prazo, eu quero muito voltar para o Brasil, porque eu sinto essa, esse dever cívico (a participante ri brevemente) com meu país, e eu gosto muito do Brasil, assim (Participante 9 [P9]).

Eu estou pensando em ir para o exterior – é difícil, né? Porque é ruim, é muito triste, porque o país, as pessoas investiram em mim, então, eu não sou uma cientista excelente, mas eu já tenho conhecimento que foi gerado, que foi adquirido por causa de dinheiro público. Eu sempre quis ficar no Brasil, porque eu já morei um tempo fora, e assim, a gente se identifica, né, com o nosso lugar e tal. Se eu tivesse condições de trabalho e de emprego, e também respeito, sabe, [...] eu não abriria mão do meu país (Participante 10 [P10]).

Importa notar que, para as três participantes, a saída do país não seria aventada se as condições disponíveis fossem outras. P9 e P10 mencionam, inclusive, a existência de um compromisso com a sociedade brasileira: como tiveram bolsas de estudos no mestrado e doutorado, as participantes avaliam que seria necessário atuar em território nacional para retornar à sociedade o investimento que foi realizado – mas as condições vigentes não possibilitam essa atuação.

Desistência da carreira acadêmica

Para um, dos 10 entrevistados, a incompatibilidade entre as condições político-econômicas do país e o exercício profissional do fazer científico e do fazer docente implica a própria desistência da carreira acadêmica. Segundo o informante, no contextual atual,

ao invés de pensar ‘olha, eu vou terminar o meu doutorado e ir para o Ensino Superior’, eu vou falar ‘eu vou terminar o meu doutorado e eu posso fazer uma outra coisa que não tem nada a ver com [minha área de formação], e eu tenho que me preparar para isso para que eu não morra de fome’, vamos dizer assim, no limite seria isso (P7).

Após dedicar sua formação de nível superior (i.e., graduação, mestrado e doutorado) a uma disciplina específica, P7 esclarece que está cursando uma segunda graduação, a qual não está relacionada com sua formação prévia. De acordo com P7, essa mudança profissional e o abandono da carreira acadêmica é uma tentativa de “me antecipar a algumas questões e me preparar para isso que é, que a gente vê, que é o desmonte de uma carreira” e assegurar recursos para a sua subsistência.

Discussão

A caracterização dos efeitos da crise orçamentária e do crescimento de práticas negacionistas e anticientíficas sobre a formação dos participantes possibilita especificar em que termos esses eventos desafiam o avanço ou a própria sobrevivência da ciência e da pós-graduação brasileiras. Os efeitos identificados evidenciam, por exemplo, que o contexto à época do estudo impunha prejuízos à abrangência da formação stricto sensu, à qualidade dos trabalhos produzidos na pós-graduação e à atuação profissional, em solo brasileiro, dos futuros mestres e doutores.

A abrangência e a qualidade da formação de recursos humanos em cursos de mestrado e doutorado é, por exemplo, prejudicada pelo menor acesso a atividades formativas e pela insegurança financeira. O primeiro efeito ganha relevância quando analisado à luz do processo de confrangimento curricular ao qual mestrados e doutorados vêm sendo submetidos desde os anos de 1990. Com a implantação do atual modelo de avaliação dos programas stricto sensu no biênio 1996-1997, o tempo médio de titulação de mestres e doutores passou a ser regulado pela Capes (Kuenzer; Moraes, 2005). Mais especificamente, a distribuição de recursos pela agência tornou-se contingente ao tempo de formação demandado pelos programas para titular seus alunos. Sob essas condições, os cursos stricto sensu confrangeram seus currículos e aligeiraram a formação de recursos humanos nesse nível de ensino (Kuenzer; Moraes, 2005). Desde então, segundo Barata (2019), houve uma progressiva redução da oferta de disciplinas e de outras atividades formativas. Como decorrência, nos PPG atuais, “praticamente não há espaço para a formação teórica e metodológica ampla, ficando os alunos limitados aos aspectos mais técnicos da reprodução de pesquisas” (Barata, 2019, p. 3). Considerando os dados coletados, a crise orçamentária da C&T brasileira pode acentuar a carência de espaços formativos já reportada nos cursos stricto sensu e prejudicar a qualidade dos recursos humanos formados nesses espaços (Barata, 2019; Kuenzer; Moraes, 2005). Com menos recursos, os PPG reduzem a variabilidade e a oferta de atividades formativas e as agências de fomento diminuem a frequência com que custeiam as ações pleiteadas por seus beneficiários.

Em âmbito nacional, o retrocesso orçamentário em C&T é também caracterizado pela instabilidade orçamentária imposta à área (Tollefson, 2019; 2020). Os consecutivos cortes e o frequente contingenciamento de recursos nos campos científicos e tecnológicos geram insegurança financeira para cientistas e pós-graduandos, pois não há garantias de que os compromissos assumidos pelas agências de fomento serão honrados. Nos cursos stricto sensu, essa insegurança se reflete especialmente na impossibilidade de afiançar que as bolsas de estudo serão pagas nas datas previstas (G1, 2022; Tollefson, 2019, 2020). Na literatura, a segurança financeira é considerada elemento sine qua non para assegurar a capacitação adequada de mestres e doutores e a conclusão dos cursos stricto sensu no período previsto (Holley; Caldwell, 2012; Reis; Blundi; Silva, 2020; Santos; Perrone; Dias, 2015). Por outro lado, a insegurança financeira se incompatibiliza com a dedicação exclusiva dos alunos à rotina da pós-graduação, pode frustrar projetos acadêmicos e profissionais e favorecer a evasão discente. Isso porque a bolsa de estudo é frequentemente o principal meio de subsistência do alunado pós-graduado; e sem garantias a respeito do seu pagamento, mestrandos e doutorandos ficam expostos a vulnerabilidades econômicas diversas (Reis; Blundi; Silva, 2020; Santos; Perrone; Dias, 2015). Segundo Reis, Blundi e Silva (2020), a insegurança financeira afeta de forma determinante a rotina, a atuação e o desempenho do pós-graduando, desestabilizando e desorganizando suas atividades acadêmicas. Dessa forma, ela impõe prejuízos tanto à formação stricto sensu quanto à qualidade dos trabalhos produzidos por eles.

Como visto, o comprometimento do desempenho acadêmico também foi identificado como um dos efeitos do cenário atual sobre a capacitação de doutores. À luz dos dados coletados, o desinvestimento em C&T e a expansão do negacionismo científico e da anticiência no país aumentaram o custo de resposta envolvido na execução das atividades propostas pelos programas; e, concomitantemente, a satisfação relacionada ao seu desenvolvimento e execução diminuiu. Em conjunto, esses dois fatores podem diminuir a probabilidade de mestrandos e doutorandos se engajarem nas atividades exigidas pela rotina da pós-graduação. Sendo esse caso, o contexto político-econômico em pauta pode, em última instância, contribuir para o atraso ou para o descumprimento – pelos alunos – das exigências curriculares impostas pelos programas.

Os limites impostos pelo cenário atual à atuação profissional dos futuros mestres e doutores relacionam-se, de acordo com os dados coletados, com a perda de prestígio social da carreira acadêmica. Face a isso, a emigração e a desistência das profissões acadêmico-científicas emergem como alternativas. Desde que os cursos stricto sensu visam formar quadros para a atuação no contexto acadêmico (Almeida Júnior et al., 2005), a inserção de mestres e doutores em instituições de nível superior se compatibiliza com os objetivos formativos desses cursos. No século XXI, no entanto, observa-se uma incongruência entre a formação de recursos humanos em mestrados e doutorados e as oportunidades que os egressos têm de, efetivamente, exercer as profissões aprendidas. Já em 2017, a taxa de ocupação formal de doutores no Brasil era de 72,3% – a menor taxa registrada desde 2010 (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019). Conforme o CGEE (2019), os 27,7% restantes não poderiam ser automaticamente interpretados como uma espécie de taxa de desemprego, visto que esses egressos podem estar, por exemplo, atuando como autônomos ou em estágio pós-doutoral.

Seguindo Mattos (2012), é possível questionar essa análise proposta pela CGEE (2019). O alongamento da escolarização, por meio da realização de estágios pós-doutorais, pode ser entendido como uma estratégia de enfrentamento do desemprego. Sob os atuais cortes orçamentários na área de C&T (Fernandes, 2022; IPEA, 2021), contudo, tampouco essa opção parece estar disponível – como reconheceram, inclusive, P3 e P7 durante as entrevistas. Nessa direção, publicações jornalísticas mais recentes denunciam a existência de desemprego entre doutores (Andrade, 2024; Sayuri, 2018) e a subutilização de cientistas no país (Carrança, 2021; Silveira, 2021b) – os quais, por subsistência, aceitam funções incompatíveis ou abaixo de sua qualificação. Além disso, como reportado, pesquisadores brasileiros têm sido expostos, com cada vez mais frequência, a condições hostis que ameaçam não apenas a sua segurança financeira e institucional (Escobar, 2021; Hallal, 2021), mas também a sua integridade física e psicológica (Escobar, 2021; Stevanim, 2021).

Nesse contexto, a emigração de cientistas brasileiros para o exterior – comumente denominada de brain drain – e a desistência da carreira acadêmica emergem como possibilidades adaptativas. Embora os números reais do brain drain ainda sejam desconhecidos, estima-se que entre 3000 a 35000 cientistas tenham deixado o país nas duas últimas décadas (Andrade, 2024). Se observam, entre esse grupo, tanto alunos que foram concluir ou completar sua formação stricto sensu no exterior e permaneceram nos países de destino quanto brasileiros que emigraram em busca de oportunidades ou de melhores condições de trabalho na área de C&T (Andrade, 2024). Vale destacar que a evasão de cientistas para outros países (Galvão-Castro; Cordeiro; Goldenberg, 2022; Quintans-Júnior et al., 2020) tem efeitos deletérios há muito conhecidos (Berlinck; San’Anna, 1972). Com a saída desses profissionais altamente qualificados, os recursos públicos investidos na capacitação desse pessoal podem não ser adequadamente retornados para a sociedade brasileira; além disso, com menos cientistas atuando em território nacional, o próprio desenvolvimento científico e tecnológico do país é posto em risco e a conquista da soberania científica e tecnológica é postergada (Berlinck; San’Anna, 1972; Quintans-Júnior et al., 2020). A desistência da carreira acadêmica tem, para o Brasil, consequências parecidas. Em nível individual, por sua vez, o abandono das profissões aprendidas nos cursos stricto sensu se relaciona com a frustração de projetos de vida após anos de dedicação à formação de nível superior. Assim, pode ser considerado como um dos efeitos últimos da crise orçamentária da C&T e da expansão do negacionismo científico e da anticiência sobre a formação de doutores.

Dessa análise vale ressaltar um aspecto que perpassa todos os efeitos citados: o sofrimento dos doutorandos e doutorandas. Durante a realização das entrevistas, esse sofrimento pôde ser identificado não apenas nos relatos dos participantes, mas também em suas expressões faciais e em seus gestos. Nos trechos reproduzidos, ele é particularmente sugerido pela menção dos respondentes aos sentimentos de tristeza (P1, P8 e P10), de frustração (P8) e de desânimo (P1 e P6). Uma vez que essas condições estão sob controle especial de agentes externos aos PPG, os eventos envolvidos também se caracterizam por ser, em grande medida, incontroláveis (Samelo, 2012). Ou seja, a ocorrência desses eventos hostis não é, em geral, afetada pelas ações dos alunos no âmbito dos cursos stricto sensu; e essa condição de incontrolabilidade pode intensificar ou exacerbar ainda mais o sofrimento desse alunado.

Em resumo, os resultados deste estudo evidenciam que efeitos do desinvestimento na área de C&T e da expansão do negacionismo científico e da anticiência não incidem apenas sobre aqueles que são diretamente afetados por esses eventos (e.g., aqueles que tiveram suas bolsas de estudo descontinuadas ou que tiveram os resultados de seus próprios estudos negados). Como visto, ainda que não expostos diretamente a eles, os participantes relataram como esses eventos influem e modificam suas rotinas na pós-graduação. Em decorrência, é possível supor que esses fenômenos também são capazes de atuar sobre potenciais ingressantes dos cursos stricto sensu: com a perda do prestígio social da carreira acadêmica, um número menor de pessoas pode se interessar pelos mestrados e doutorados. Com efeito, um decréscimo do número de iniciantes em cursos de pós-graduação já foi notado em períodos recentes (Palhares, 2022).

Os resultados obtidos nesta pesquisa também demonstram que as práticas contrárias à ciência e os impactos a elas associados afetam mesmo os alunos matriculados em programas de excelência que, reconhecidamente, concentram capital financeiro e simbólico no interior do Sistema Nacional de Pós-Graduação (Horta; Moraes, 2005; Hostins, 2013). Ou seja, a despeito dos privilégios que os PPG mais bem avaliados pela CAPES detêm, os efeitos dos ataques à ciência nacional também se estendem sobre eles. Os 10 participantes, ao longo das entrevistas, mencionaram as consequências deletérias desses eventos sobre a sua própria formação (e.g., P1, P2, P3, P6, P7, P8, P9 e P10) e sobre a formação stricto sensu de forma geral (e.g., P4 e P5). Desde que pertencem a áreas do conhecimento diversas, os dados coletados com os respondentes apoiam, outrossim, a análise de que o retrocesso orçamentário em C&T e a expansão do negacionismo científico e da anticiência impactam a pós-graduação brasileira como nível de ensino (Escobar, 2021; Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020, Tollefson, 2019) e não apenas áreas ou PPG específicos. Essa generalidade é mais um elemento que sinaliza os riscos que as condições político-econômicas, do século XXI, impõem à sobrevivência da cultura científica brasileira.

Cumpre notar que o negacionismo científico, a anticiência e a crise orçamentária da C&T nacional também podem ser analisados à luz do anti-intelectualismo. Para Hofstadter (1963), em uma obra seminal sobre o tema, o anti-intelectualismo é um fenômeno cuja emergência pode ser identificada em diferentes momentos da história da humanidade e que, por ser multifacetado, resiste a uma conceituação inequívoca. Ainda assim, para o autor, as práticas anti-intelectuais convergem, via de regra, em seu ressentimento e na sua suspeição em relação ao ethos acadêmico e aos representantes desse ethos; e também convergem na sua “disposição constante para minimizar o valor” do processo e dos produtos da atividade intelectual/acadêmica (Hofstadter, 1963, p. 7). Dessa forma, o anti-intelectualismo envolve aversão à abstração, ao emprego do raciocínio reflexivo e analítico e ações que buscam solapar a credibilidade das instituições, dos profissionais e dos saberes acadêmicos (Stanley, 2022; Szwako, 2022). Conforme Szwako (2022), o negacionismo, a anticiência e o anti-intelectualismo são fenômenos com propriedades comuns, mas se observa, entre o último e os primeiros, uma relação de abrangência.

No caso brasileiro, o anti-intelectualismo observado na época da ditadura militar (1964-1985) emerge novamente nos anos de 2010 e inícios dos anos de 2020. Em sua versão do século XXI, se caracteriza, especialmente, pelas campanhas de desacreditação e de desvalorização das universidades públicas e dos atores nelas inseridos (Reis; Senra, 2021; Szwako, 2022). Em 2019, por exemplo, Abraham Weintraub, à época Ministro da Educação, acusou as universidades brasileiras de balbúrdia, sugerindo que nesses espaços não eram desenvolvidas quaisquer atividades virtuosas de ensino, pesquisa e extensão (Szwako, 2022). Do mesmo modo, o agravamento da crise orçamentária da C&T nacional, com a chegada da extrema direita em Brasília em 2019, pode ser associado a uma agenda anti-intelectualista do então governo (Quintans-Júnior et al., 2020; Reis; Senra, 2021; Szwako, 2022; Tollefson, 2019). Como sumaria P8, nos tempos correntes, “a gente vive uma crise aguda de aversão a tudo que é da ordem do intelecto, ao que é da ordem do pensamento”.

Stanley (2022) elege o anti-intelectualismo como uma das características da política fascista. Segundo o autor, o papel da educação formal nessa política é viabilizar a transmissão de informações que vão ao encontro dos interesses e das premissas fascistas, a exemplo de informações que cultuam um passado mítico e tradicional e que reafirmam os papéis sociais atribuídos aos gêneros; que promovem o irracionalismo e a intolerância à diversidade sexual e racial; e que incitam e mantêm a divisão da população entre “nós” e “eles”. Uma vez que a educação formal frequentemente privilegia a pluralidade em seus espaços, ela se torna alvo de ataques e hostilidades; a autonomia universitária é, sob essa perspectiva, uma ameaça a ser neutralizada. As tentativas da extrema direita brasileira de restringir a autonomia das universidades públicas em anos recentes (Duarte; César, 2020; Galvão-Castro; Cordeiro; Goldenberg, 2022; Saldaña, 2021) podem ser, nesse sentido, interpretadas como mais uma característica do anti-intelectualismo e da política fascista no país.

Conforme elucidam Campos e Bernades (2022), apesar de a tipificação de quadros políticos atuais como fascismo ser controversa, é preciso reconhecer que políticas fascistas podem ser postas em curso mesmo que o estado não seja propriamente fascista. Para Campos e Bernades (2022), Reis e Senra (2021), e Barroco (2022), há coincidência entre ações governamentais executadas durante o quadriênio 2019-2022 e táticas fascistas de governo – sendo o anti-intelectualismo um exemplo emblemático. Com isso, os efeitos – identificados neste estudo – do negacionismo, da anticiência e da crise orçamentária da C&T sobre a formação stricto sensu também podem ser entendidos como efeitos do anti-intelectualismo ou da política fascista sobre a formação de doutores. Como repetido, tais efeitos ameaçam o futuro da ciência e da pós-graduação nacionais.

Considerações Finais

Visto que a pós-graduação stricto sensu está inserida em um contexto que se caracteriza pelo retrocesso orçamentário na área de C&T e pela expansão do negacionismo científico e da anticiência (Duarte; César, 2020; Escobar, 2021; Oliveira et al., 2020; Quintans-Júnior et al., 2020), este estudo buscou adensar a descrição dos efeitos desse cenário sobre a formação de doutores, dando destaque à perspectiva dos próprios alunos a respeito desses impactos. Os dados obtidos demonstram que esses fenômenos afetam mesmo aqueles não diretamente expostos aos cortes orçamentários e às práticas negacionistas e anticientíficas. Em conjunto, os efeitos observados em relação a esses eventos envolvem: menor acesso a atividades formativas, insegurança financeira, comprometimento do desempenho acadêmico, perda de prestígio social da carreira acadêmica, emigração e desistência da carreira acadêmica, sendo tais efeitos perpassados pelo sofrimento dos doutores e doutoras em formação. Importa notar que a maioria desses efeitos podem convergir para o enfraquecimento das práticas científicas no país; o êxodo de cientistas para o exterior e a desistência da carreira acadêmica contribuem, inclusive, para decrescer o número de cientistas atuantes em solo brasileiro. Tais decorrências – que também podem ser interpretadas como decorrências de políticas fascistas nacionais – ameaçam frontalmente a sobrevivência da cultura científica nacional (Quintans-Júnior et al., 2020).

Conforme mencionado, com a derrota da extrema direita nas eleições presidenciais de outubro de 2022, há a expectativa de que os cortes orçamentários na área de C&T sejam revertidos e de que a ciência brasileira ingresse em um período mais próspero (Pagno, 2022). Para além do investimento sistemático e contínuo em C&T, no entanto, será preciso desenvolver políticas públicas que assegurem que os egressos dos cursos de doutorado permaneçam no Brasil (Quintans-Júnior et al., 2020) e se insiram no mercado de trabalho. Será necessário também desenvolver políticas que tornem as profissões acadêmicas novamente atrativas (Palhares, 2022); e será preciso identificar meios de frear e de reverter, no país, o crescimento de práticas negacionistas, anticientíficas (Hotez, 2020) e, em última instância, de práticas anti-intelectuais (Szwako, 2022).

Por fim, destaca-se que este estudo tem limitações que se relacionam ao pequeno número de participantes, às características da amostra (alunos de PPG nota 7 e bolsistas) e ao uso do relato verbal como dado básico de análise. Investigações futuras, pautando-se em métodos distintos, podem avançar as discussões aqui iniciadas. Seria importante, por exemplo, avaliar os efeitos dos cortes orçamentários e da expansão do negacionismo científico e da anticiência sobre alunos matriculados em programas com outras notas (e.g., PPG nota 3, 4, 5 ou 6), sobre alunos de mestrado e sobre alunos que foram diretamente expostos a esses eventos. Pode ser também relevante investigar a ocorrência de práticas anticientíficas e negacionistas entre o próprio alunado stricto sensu.

  • 1
    Este estudo corresponde a um recorte da tese de doutorado da primeira autora, defendida em maio de 2022; a segunda autora atuou, na oportunidade, como membro titular da banca examinadora.

Disponibilidade dos dados da pesquisa

O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.

Referências

  • ALMEIDA JÚNIOR, Antônio Ferreira et al. Parecer CFE no 977/65, aprovado em 3 dez. 1965. Revista Brasileira de Educação, v. 30, p. 162-173, 2005. Disponível em:https://www.researchgate.net/publication/250989251_Parecer_CFE_n_97765_aprovado_em_3_dez_1965 Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://www.researchgate.net/publication/250989251_Parecer_CFE_n_97765_aprovado_em_3_dez_1965
  • ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. Brazil’s plan to lure 1000 expat scientists back home faces criticismo. Science, 8 May 2024.
  • AZEVEDO, Vanessa et al. Transcrever entrevistas: questões conceptuais, orientações práticas e desafios. Revista de Enfermagem Referência, n. 14, p. 159-168, 2017. Disponível em: https://rr.esenfc.pt/rr/index.php?module=rr⌖=publicationDetails&pesquisa=&id_artigo=2715&id_revista=24&id_edicao=114. Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://rr.esenfc.pt/rr/index.php?module=rr⌖=publicationDetails&pesquisa=&id_artigo=2715&id_revista=24&id_edicao=114
  • BALBACHEVSKY, Elizabeth. A pós-graduação no Brasil: novos desafios para uma política bem-sucedida. In: BROCK, Colin; SCHWARTZMAN, Simon (Org.). Os desafios da educação no Brasil Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p. 275-304. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237073967_A_pos-graduacao_no_Brasil_novos_desafios_para_uma_politica_bem-_sucedida Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://www.researchgate.net/publication/237073967_A_pos-graduacao_no_Brasil_novos_desafios_para_uma_politica_bem-_sucedida
  • BARATA, Rita Barradas. Mudanças necessárias na avaliação da pós-graduação brasileira. Interface, v. 23, e180635, p. 1-6, 2019. Editorial. Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/gBkWRwqC5svbVNL3R8QN4sx/ Acesso em: maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/icse/a/gBkWRwqC5svbVNL3R8QN4sx/
  • BARROCO, Maria Lúcia. Direitos humanos, neoconservadorismo e neofascismo no Brasil contemporâneo. Serviço Social & Sociedade, n. 143, p. 12-21, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/zjrwPzBctDGqj84D74Vg4cv/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/sssoc/a/zjrwPzBctDGqj84D74Vg4cv/?format=pdf⟨=pt
  • BERLINCK, Manoel Tosta; SAN’ANNA, Vanya. A “evasão de cérebros” brasileiros para os Estados Unidos da América: análise da situação sugestões para uma política de retorno. Revista de Administração de Empresas, v. 12, n. 2, p. 13-23, 1972.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Plano nacional de pós-graduação (PNPG) – 2005-2010 Brasília, DF: CAPES, 2004.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Comissão Especial de Acompanhamento do PNPG 2011-2020. Evolução do SNPG no decênio do PNPG 2011-2020 Brasília, 2021. 208 p.
  • CAMPOS, Carmen Hein; BERNARDES, Márcia Nina. Ideologia de gênero e o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Revista Estudos Feministas, v. 30, n. 3, p. 1-13, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/43NqLDdCy6Gjzb8BSPfJf5H/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/ref/a/43NqLDdCy6Gjzb8BSPfJf5H/?format=pdf⟨=pt
  • CAREGNATO, Rita Catalina Aquino; MUTTI, Regina. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo. Texto & Contexto - Enfermagem, v. 15, n. 4, p. 679-684, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tce/a/9VBbHT3qxByvFCtbZDZHgNP/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 13 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/tce/a/9VBbHT3qxByvFCtbZDZHgNP/?format=pdf⟨=pt
  • CARRANÇA, Thais. Desemprego no Brasil da pandemia: doutor em engenharia espacial vende doces. BBC News Brasil, São Paulo, 12 maio 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57035017 Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57035017
  • CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS. Brasil: Mestres e Doutores 2019. Brasília: CGEE, 2019. Disponível em: https://mestresdoutores2019.cgee.org.br Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://mestresdoutores2019.cgee.org.br
  • DUARTE, André de Macedo; CÉSAR, Maria Rita de Assis. Negação da política e negacionismo como política: pandemia e democracia. Educação & Realidade, v. 45, n. 4, e109146, p. 1-22, 2020.
  • ESCOBAR, Herton. ‘A hostile environment.’ Brazilian scientists face rising attacks from Bolsonaro's regime. Science, 7 Apr. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1126/science.abi8999 Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://doi.org/10.1126/science.abi8999
  • FERNANDES, Samuel. Cortes diminuem bolsas de pesquisa e prejudicam publicações científicas. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 jan. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2022/01/cortes-diminuem-bolsas-de-pesquisa-e-prejudicam-publicacoes-cientificas.shtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2022/01/cortes-diminuem-bolsas-de-pesquisa-e-prejudicam-publicacoes-cientificas.shtml
  • G1. Após novos bloqueios, Capes diz não ter como pagar mais de 200 mil bolsas de mestrado e doutorado. G1, 06 jan. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/12/06/apos-novos-bloqueios-capes-diz-nao-ter-como-pagar-200-mil-bolsas.ghtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/12/06/apos-novos-bloqueios-capes-diz-nao-ter-como-pagar-200-mil-bolsas.ghtml
  • GALVÃO-CASTRO, Bernardo; CORDEIRO, Renato Sérgio Balão; GOLDENBERG, Samuel. Brazilian science under continuous attack. The Lancet, v. 399, n. 10319, p. 23-24, 2022.
  • GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social São Paulo: Editora Atlas, 2008.
  • GORZIZA, Amanda. (2022, 04 de agosto). Sem blindagem para a ciência. Revista Piauí, 04 ago. 2022. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/sem-blindagem-para-ciencia/ Acesso em: 25 maio 2023.
    » https://piaui.folha.uol.com.br/sem-blindagem-para-ciencia/
  • HALLAL, Pedro. SOS Brazil: science under attack. The Lancet, v. 397, n. 10272, p. 373-374, 2021.
  • HOFSTADTER, Richard. Anti-intellectualism in American Life New York: Alfred A. Knopf, 1963.
  • HOLLEY, Karri; CALDWELL, Mary Lee. The challenges of designing and implementing a doctoral student mentoring program. Innovative Higher Education, v. 37, n. 3, p. 243–253, 2012.
  • HOLTON, Gerald James. Science and anti-science Cambridge, MA: Harvard University Press, 1993.
  • HORTA, José Silvério Baía; MORAES, Maria Célia Marcondes. O sistema CAPES de avaliação da pós-graduação: da área de Educação à grande área de Ciências Humanas. Revista Brasileira de Educação, n. 30, p. 95-116, 2005. Disponível em:https://www.scielo.br/j/rbedu/a/M8tTt3grZhxGmcXmJrVmTfd/?format=pdf⟨=pt Aceso em: 14 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/rbedu/a/M8tTt3grZhxGmcXmJrVmTfd/?format=pdf⟨=pt
  • HOSTINS, Regina Célia Linhares. Formação de pesquisadores em programas de excelência de pós-graduação em educação. Revista Brasileira de Educação, v. 18, n. 53, p. 415-498, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Cm8PCtJW8GV7g6qgPqywGTh/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 14 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Cm8PCtJW8GV7g6qgPqywGTh/?format=pdf⟨=pt
  • HOTEZ, Peter. Combating antiscience: are we preparing for the 2020s? PLOS Biology, v. 18, n. 3, e3000683, p. 1-6, 2020.
  • IPEA. Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação e Infraestrutura. Nota técnica Políticas públicas para ciência e tecnologia no Brasil: cenário e evolução recente. Brasília: IPEA, 2021.
  • JORNAL NACIONAL. Em vídeo, Damares Alves diz que igreja evangélica perdeu espaço nas escolas para a ciência. G1, 09 jan. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/09/em-video-ministra-dos-direitos-humanos-critica-adocao-da-teoria-da-evolucao-nas-escolas.ghtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/09/em-video-ministra-dos-direitos-humanos-critica-adocao-da-teoria-da-evolucao-nas-escolas.ghtml
  • KUENZER, Acacia Zeneida; MORAES, Maria Célia Marcondes. Temas e tramas na pós-graduação em Educação. Educação & Sociedade, v. 26, n. 93, p. 1341-1362, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/NCGYCZkVyFqBNwCTJnjWJ8x/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 14 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/es/a/NCGYCZkVyFqBNwCTJnjWJ8x/?format=pdf⟨=pt
  • MATTOS, Valéria de Bettio. Trajetórias profissionais de mestres e doutores egressos da Universidade Federal de Santa Catarina: inserção no mundo do trabalho. 2012. 234 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012.
  • MONTEIRO, Marko. Science is a war zone: some comments on Brazil. Tapuya: Latin American Science, Technology and Society, v. 3, n. 1, p. 4-8, 2020.
  • MOREIRA, Rudá; NUNES, Ana Carolina. Documento da Saúde defende efetividade da cloroquina. CNN Brasil, São Paulo, Brasília, 22 jan. 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/documento-da-saude-defende-efetividade-da-cloroquina/ Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.cnnbrasil.com.br/saude/documento-da-saude-defende-efetividade-da-cloroquina/
  • OLIVEIRA, Eduardo et al. Science funding crisis in Brazil and COVID-19: deleterious impact on scientific output. Anais da Academia Brasileira de Ciências, v. 92, n. 4, p. 1-3, 2020.
  • PAGNO, Marina. Lula terá que 'reconstruir' ministério da Ciência e reverter bloqueio de fundo que pode causar 'apagão', avaliam especialistas. G1, 12 nov. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2022/11/12/lula-tera-que-reconstruir-ministerio-da-ciencia-e-reverter-bloqueio-de-fundo-que-pode-causar-apagao-avaliam-especialistas.ghtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2022/11/12/lula-tera-que-reconstruir-ministerio-da-ciencia-e-reverter-bloqueio-de-fundo-que-pode-causar-apagao-avaliam-especialistas.ghtml
  • PALHARES, Isabela. USP, Unesp e Unicamp formam 25% menos mestres e doutores na pandemia. Folha de São Paulo, São Paulo, 02 mar. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2022/03/usp-unesp-e-unicamp-formam-25-menos-mestres-e-doutores-na-pandemia.shtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2022/03/usp-unesp-e-unicamp-formam-25-menos-mestres-e-doutores-na-pandemia.shtml
  • PASTERNAK, Natália; ORSI, Carlos. Contra a realidade: A negação da ciência, suas causas e consequências. Campinas: Papirus 7 Mares, 2021.
  • PENAFORTE, Thais Rodrigues. O negacionismo enquanto política: o debate da cloroquina em uma comissão parlamentar. Cadernos de Saúde Pública, v. 37, n. 7, e00023021, p. 1-13, 2021.
  • QUINTANS-JÚNIOR, Lucindo José et al. Brazil’s research budget: endless setbacks. EXCLI Journal, v. 19, p. 1322-1324, 2020.
  • REIS, Ana Carolina; BLUNDI, Breno Alves dos Santos; SILVA, Eduardo Pinto. Desmantelamento da ciência brasileira no deliberado corte de bolsas: aspectos políticos e consequências psicossociais para estudantes de pós-graduação. Muiraquitã: Revista de Letras e Humanidades, v. 8, n. 1, p. 371-393, 2020.
  • REIS, Ronaldo Eustáquio Feitoza; SENRA, Kathy de Freitas Marinho. O anti-intelectualismo e a espiral do silêncio: A manutenção da ignorância e o medo do isolamento como estratégia política. Ambiente & Educação, v. 26, n. 1, p. 751-781, 2021.
  • SALDAÑA, Paulo. Bolsonaro desconsiderou 1º da lista em 40% de nomeações para reitor de universidades federais. Folha de São Paulo, Brasília, 27 jul. 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/07/bolsonaro-desconsiderou-1o-da-lista-em-40-de-nomeacoes-para-reitor-de-universidades-federais.shtml Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/07/bolsonaro-desconsiderou-1o-da-lista-em-40-de-nomeacoes-para-reitor-de-universidades-federais.shtml
  • SAMELO, Mariana Januário. Desamparo aprendido e imunização em humanos: avaliação metodológica/conceitual e uma proposta experimental. 2012. 192 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • SANCHES, Mariana. Tentam incriminar o carteiro pela mensagem’, diz pesquisador do Inpe sobre demissão de diretor que criticou Bolsonaro. BBC News Brasil, São Paulo, 02 ago. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49212252 Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49212252
  • SANTOS, Anelise Schaurich; PERRONE, Cláudia Maria; DIAS, Ana Cristina Garcia. Adaptação à pós-graduação stricto sensu: uma revisão sistemática de literatura. Psico-USF, v. 20, n. 1, p. 141-152, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusf/a/Xwwrt737WYsRk6Mb3qpC7Yc/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 14 maio 2025.
    » https://www.scielo.br/j/pusf/a/Xwwrt737WYsRk6Mb3qpC7Yc/?format=pdf⟨=pt
  • SAYURI, Juliana. Com crise e cortes na ciência, jovens doutores encaram o desemprego: ‘Título não paga aluguel’. BBC News Brasil, São Paulo, 16 jul. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44696697 Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44696697
  • SILVEIRA, Evanildo. Mérito científico, Bolsonaro e cloroquina. Questão de Ciência, 19 nov. 2021a. Disponível em: https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2021/11/19/merito-cientifico-bolsonaro-e-cloroquina Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2021/11/19/merito-cientifico-bolsonaro-e-cloroquina
  • SILVEIRA, Evanildo. Triturando diplomas. Revista Piauí, 01 dez. 2021b. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/triturando-diplomas/ Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://piaui.folha.uol.com.br/triturando-diplomas/
  • STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Tradução de Bruno Alexander. Porto Alegre: L&PM, 2022.
  • STEVANIM, Luiz Felipe. Efeitos da anticiência. Radis, 08 abr. 2021. Disponível em: https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/entrevista/efeitos-da-anticiencia Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/entrevista/efeitos-da-anticiencia
  • SZWAKO, José. Anti-intelectualismo. In: SZWAKO, José; RATTON, José Luiz (Org.). Dicionário dos negacionismos do Brasil Recife: CEPE, 2022. P. 39-41.
  • TOLLEFSON, Jeff. ‘Tropical Trump’ sparks unprecedented crisis for Brazilian science. Nature, News in focus, v. 572, p. 161-162, 8 Aug. 2019. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-019-02353-6 Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.nature.com/articles/d41586-019-02353-6
  • TOLLEFSON, Jeff. Brazilian lawmakers in showdown to double science budget. Nature, News in focus, 19 Aug. 2020. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-02433-y Acesso em: 21 maio 2023.
    » https://www.nature.com/articles/d41586-020-02433-y
  • Editora responsável:
    Carla Karnoppi Vasques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Maio 2023
  • Aceito
    07 Abr 2025
location_on
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Educação Avenida Paulo Gama, s/n, Faculdade de Educação - Prédio 12201 - Sala 914, 90046-900 Porto Alegre/RS – Brasil, Tel.: (55 51) 3308-3268, Fax: (55 51) 3308-3985 - Porto Alegre - RS - Brazil
E-mail: educreal@ufrgs.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro