Educação, paranoia e semiformação

Education, paranoia and semiformation

Sinésio Ferraz Bueno Sobre o autor

Resumos

Este artigo aborda a relação entre semiformação, segundo Theodor Adorno, e a paranoia no campo do conhecimento. Para Adorno, a emancipação orienta-se pela crítica da semiformação e da paranoia no conhecimento. Nessa direção, é feita uma análi se crítica das ideias de Adorno sobre a semiformação no campo educativo. Essa análise é inserida no contexto de uma crítica aos pressupostos epistemológicos atualmente hege mônicos no campo dos estudos sobre educação e conhecimento. Nessa categoria do conhecimento assim concebida, pela perspectiva educacional, a razão instrumental é concretamente questionada na sua forma restritiva de conhecimento. Assim, é possível mostrar algumas questões referentes ao problema da educação contemporânea sob a ótica das formulações de Adorno.

Educação; Semiformação; Adorno; Teoria Crítica


This paper aims at showing the relationship between semi-formation by Adorno and the paranoia in the field of knowledge. According to Adorno, the emancipation is oriented by the dialectical criticism of the semi-formation and the para noia in knowledge. A critical analysis of Adorno's concepts of the semi-formation in knowledge is presented. This critical analysis is inserted in the critical context of the cur rently hegemonic epistemological ideas in the field of studies on education and knowl edge. In this category of knowledge considered through the educational perspective, the instrumental reason is concretely questioned in its restrictive form of knowledge. Thus, it is possible to show some issues about contemporary education matters discussed under the perspective of the thoughts of Adorno.

Education; SemiFormation; Adorno; Critical Theory


ARTIGOS

Educação, paranoia e semiformação

Education, paranoia and semiformation

Sinésio Ferraz Bueno

Doutor em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP); Pesquisador do Grupo de Estudos em Filosofia e Educação (GEPEF) e Professor do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Email: sinesioferraz@yahoo.com.br

Endereço para correspondência

RESUMO

Este artigo aborda a relação entre semiformação, segundo Theodor Adorno, e a paranoia no campo do conhecimento. Para Adorno, a emancipação orienta-se pela crítica da semiformação e da paranoia no conhecimento. Nessa direção, é feita uma análi se crítica das ideias de Adorno sobre a semiformação no campo educativo. Essa análise é inserida no contexto de uma crítica aos pressupostos epistemológicos atualmente hege mônicos no campo dos estudos sobre educação e conhecimento. Nessa categoria do conhecimento assim concebida, pela perspectiva educacional, a razão instrumental é concretamente questionada na sua forma restritiva de conhecimento. Assim, é possível mostrar algumas questões referentes ao problema da educação contemporânea sob a ótica das formulações de Adorno.

Palavras-chave: Educação; Semiformação; Adorno; Teoria Crítica.

ABSTRACT

This paper aims at showing the relationship between semi-formation by Adorno and the paranoia in the field of knowledge. According to Adorno, the emancipation is oriented by the dialectical criticism of the semi-formation and the para noia in knowledge. A critical analysis of Adorno's concepts of the semi-formation in knowledge is presented. This critical analysis is inserted in the critical context of the cur rently hegemonic epistemological ideas in the field of studies on education and knowl edge. In this category of knowledge considered through the educational perspective, the instrumental reason is concretely questioned in its restrictive form of knowledge. Thus, it is possible to show some issues about contemporary education matters discussed under the perspective of the thoughts of Adorno.

Keywords: Education; SemiFormation; Adorno; Critical Theory.

I

Uma das contribuições mais importantes da Teoria Crítica para o pensamento filosófico foi a análise minuciosa das tendências regressivas da razão esclarecida. Como se sabe, para Adorno e Horkheimer, os acontecimentos bárbaros do século XX não podem ser explicados como mero desvio da humanidade frente a um percurso inequivocamente emancipador, para cuja resolução seria suficiente uma correção da rota do progresso que pudesse restituir uma suposta nobreza originária. Pelo contrário, fatos como o holocausto e a bomba atômica expressaram de maneira exemplar e sinistra as tendências regressivas do Esclarecimento a um estado de barbárie que não foi simplesmente superado pelo progresso da razão, mas permanece imanente a cada uma de suas realizações. Na mesma medida em que, por meio do progresso tecnológico, a humanidade expandiu sua soberania frente às forças da natureza, estas expressaram sua vingança primordial perante modalidades de conhecimento baseadas no domínio totalitário. A "revolta da natureza", traduzida sob a forma de sucessivos espetáculos de aniquilação, emergiu como sintoma expressivo de uma doença que compromete cada esforço humano para se libertar do medo arcaico frente aos poderes naturais. Refletido dialeticamente, o progresso na sociedade burguesa apresenta-se, sobretudo, atravessado de ponta a ponta pelas tendências regressivas peculiares às pulsões de morte. A própria sugestão de aperfeiçoamento contínuo da humanidade, implícita na ideia de progresso, torna-se questionável à luz das reflexões de Adorno. "Pelo contrário, o progresso seria a geração da humanidade, perspectiva que se abre pela via da extinção" (ADORNO, 1995b, p. 40).

Na Dialética do Esclarecimento, o apelo à esfera patológica, embora, à primeira vista, possa parecer apenas um recurso retórico que busca expressar a gravidade de tendências regressivas, tanto no que se refere à concepção de progresso na sociedade burguesa quanto no que se refere ao próprio pensamento científico, na verdade dá conta da essência obscura da dialética da razão. Em sua incapacidade de estabelecer, frente ao objeto a ser conhecido, uma relação de cuidadosa aproximação que possa ser capaz de incorporar as contradições imanentes ao ato cognoscente, a razão recalca suas limitações epistêmicas e simula o pleno domínio da realidade. O comportamento do sujeito cognoscente que repele sistematicamente uma possível via de mão dupla, por meio da qual as mediações frente ao objeto poderiam ser compreendidas e superadas, recebe o nome adequado, face ao acúmulo sistemático de barbárie e do horror produzidos por sua autarquia ilusória: paranoia. O ato de conhecer que somente se contenta com a permanente instrumentalização dos homens e das coisas e sua subsunção inflexível ao valor de troca apresenta notável homologia com o comportamento paranoico que, obssessivamente, repete a escravidão frente à ideia fixa:

Assim como, hoje em dia, os projetos científicos práticos e fecundos requerem uma capacidade intacta de definição, a capacidade de imobilizar o pensamento num ponto determinado pelas necessidades da sociedade, de delimitar um campo a ser investigado em seus menores detalhes sem que o investigador o transcenda, assim também o paranóico não consegue deixar de transgredir um complexo de interesses determinados por seu destino psicológico. Seu discernimento consome-se no círculo traçado pela idéia fixa, assim como o engenho da humanidade se liquida a si mesmo na órbita da civilização técnica. A paranóia é a sombra do conhecimento. (ADORO, 1985, p. 182)

Dessa forma, o modo positivista de conhecer a realidade, limitado ao momento afirmativo do princípio de identidade, produz certo tipo de conhecimento instrumental que se sintoniza com os estereótipos culturais hegemônicos de força, vitória e sucesso. A recusa positivista de transcendência conceitual, sua carência sistemática de autorreflexão, harmoniza-se com os processos emocionais cristalizados no delírio de grandeza e nos sentimentos persecutórios. No mundo contemporâneo, o cruzamento dos processos paranoides no plano emocional e intelectual se expressa sob a forma da produção de certo tipo de conhecimento científico, majoritariamente subordinado não somente aos imperativos de reprodução do capital, como ainda às pulsões destrutivas no plano ontogenético.

Na sociedade atual, a harmonia prévia entre paranoia emocional e paranoia intelectual desdobra-se em questões altamente pertinentes para a análise da relação entre conhecimento e sociedade. Seja sob o registro afetivo, seja sob o registro intelectual, a humanidade e a natureza são vitimadas pela falsa projeção paranoica que se recusa a assumir, compreender e enfrentar o abismo necessário entre as coisas e seus conceitos. Em termos afetivos e intelectuais, o sujeito é poupado do enfrentamento da castração e da diferença, o que conduz ao entrelaçamento sinistro entre falsa projeção no registro libidinal e no registro cognoscente. A falsa consciência perpetua-se duplamente, pois, assim como não há autoconsciência emocional frente à projeção de impulsos proibidos no objeto, também é impedida uma identidade refletida, para a qual seria necessária a consciência da não-identidade. A infiltração da patologia na esfera do conhecimento compromete suas perspectivas emancipatórias na mesma medida em que o acúmulo de barbárie trai a promessa de libertação que um dia justificou a civilização. A afinidade entre o trabalho do cientista e a subjetividade vazia do paranoico compromete o conhecimento não somente no tocante à possibilidade de humanizar o mundo, como também na própria capacidade de autorreflexão. Para Adorno e Horkheimer, a restituição do compromisso ético que o conhecimento poderia ter frente às verdadeiras necessidades da humanidade depende de uma reflexão crítica sobre seus próprios princípios lógicos. Nas palavras dos autores, a emancipação do conhecimento frente à paranoia está vinculada à capacidade de "elaborar intelectualmente o fracasso da pretensão absoluta", em vez de insistir na "pretensão que levou seu juízo ao fracasso" (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 181).

II

À paranoia do conhecimento, no plano epistêmico, corresponde certo tipo de pedagogia igualmente cega e previamente imunizada contra a indução de processos autorreflexivos. Na sociedade burguesa, a educação, em vez de constituir-se como processo dialético de apropriação subjetiva da cultura, capaz de preservar a tensão entre adaptação e crítica à realidade, converteu-se unidimensionalmente em veículo de adaptação e conformismo. Os potenciais críticos e emancipadores da cultura, que deveriam lapidar a formação do sujeito autônomo, dão lugar à semiformação, que o prepara para a aceitação passiva da identidade entre cultura e adaptação, entre conhecimento e dominação totalitária.

Originalmente, à Bildung, que pode ser entendida como o conceito germânico de formação, era peculiar a existência de uma tensão estrutural entre adaptação e crítica. Nesses termos, no interior do próprio processo de aquisição de rudimentos culturais que visavam à conformação do homem com a sociedade, estava igualmente presente a formação de condições para a problematização e a possível confrontação da sociedade vigente pelo indivíduo. Conforme ressalta Bruno Pucci, a formação implicava um processo negativo mediante o qual o cidadão poderia "ser autônomo sem deixar de se submeter; submeter-se sem perder a autonomia" (PUCCI, 1997, p. 90). Esse duplo caráter, originalmente inerente ao processo formativo, foi reduzido à sua transformação em mero veículo de adaptação ao existente. É assim que compreendemos a degeneração da formação em semiformação, vale dizer, em redução da cultura a simples acomodação ao existente.

Embora o patrimônio cultural tenha sido preservado nos museus de arte, nas salas de concerto, nas bibliotecas, nos teatros e mesmo sob a forma audiovisual, o preço de sua sobrevida é a impossibilidade de dar vazão aos potenciais críticos e formadores em nome dos quais sua forma e seu conteúdo foram originariamente consagrados. "No clima da semiformação, os conteúdos objetivos, coisificados e com caráter de mercadoria da formação cultural, sobrevivem à custa de seu conteúdo de verdade e de suas relações vivas com o sujeito vivo"(ADORNO; HORKHEIMER, 1971, p. 245). Na sociedade burguesa contemporânea, a semiformação é o idioma educativo hegemônico, uma vez que o tipo de integração cultural por ela veiculado consagra a reificação do mundo e, com ela, a neutralização da dimensão crítica e negativa da cultura.

No capitalismo tardio, embora cresça a diferença de poder entre as classes sociais, o grau de reificação de suas consciências as aproxima no campo cultural, na medida em que todos qualificam-se para tipos muito semelhantes de consumo cultural. Essa modalidade de integração cultural, que ideologicamente procura legitimar-se como democrática, uma vez que teria aproximado classes sociais antes separadas pelo elitismo da cultura burguesa da era liberal, na verdade consagra a neutralização do potencial crítico e negativo da cultura. Juntamente com o encurtamento das distâncias culturais, a própria cultura foi seriamente prejudicada, em virtude da eliminação dos momentos de diferenciação, os quais, embora amparados pelo privilégio de classe, permitiam aos artistas e intelectuais burgueses a produção de obras críticas e negativas que mantinham viva a esperança de um mundo sem privilégios (ADORNO; HORKHEIMER, 1971, p. 252). Na Dialética de Esclarecimento, Adorno e Horkheimer sintetizam como o processo de massificação da cultura, ao submeter-se prioritariamente às demandas de mercado, implicou a neutralização da independência antes preservada por artistas e filósofos frente aos detentores do poder:

Só a obrigação de se inserir incessantemente sob a mais drástica das ameaças na vida dos negócios como um especialista estético impôs um freio definitivo ao artista. Outrora, eles firmavam suas cartas como Kant e Hume – como um "humilde servidor", ao mesmo tempo em que solapavam os fundamentos do trono e do altar. Hoje chamam os chefes de governo pelo primeiro nome e estão submetidos em cada um de seus impulsos artísticos ao juízo de seus patrões iletrados (ADORNO; HORKHEIMER 1985, p. 125).

A falsa democratização da cultura, realizada pela massificação e sua correlata simplificação da forma e do conteúdo das obras clássicas, acarretou notável empobrecimento cultural, não somente em virtude da hegemonia do valor de troca, já na própria concepção do objeto de cultura, como também pelo fato de que a fruição das obras ocorre de maneira coisificada, desconectada de uma possível dimensão crítica. Articulada com a indústria cultural, a pedagogia semiformadora dedica-se, sobretudo, à inculcação de rudimentos que permitem certo tipo de fruição das obras da cultura limitada à contemplação passiva, a uma fruição desacompanhada dos elementos formativos que seriam essenciais para um contato autônomo e formador. A relação cega assim instaurada frente à cultura justifica a caracterização de Adorno sobre a semiformação: "ela não é, como pretende, uma iniciação à formação, mas seu inimigo mortal" (ADORNO, 1971, p. 255).

A relação complementar entre a paranoia no plano da produção do conhecimento e a semiformação no plano pedagógico transparece no apontamento realizado por Adorno sobre o aspecto essencial da semiformação, a saber, sua propriedade de ser "esfera do ressentimento" (1971, p. 261). O conceito nietzschiano de ressentimento, originalmente empregado para expressar o ódio impotente veiculado pela moral cristã contra valores aristocráticos inacessíveis a indivíduos inferiores, é mobilizado por Adorno para designar o vínculo entre o conhecimento comprometido pela patologia e a semiformação. Essa relação é explicitada na Dialética do Esclarecimento, designando, com clareza, o quanto a produção de conhecimentos e a adesão a certos valores por parte do indivíduo semiformado é perpassada por impulsos destrutivos, expressando de maneira exemplar o tipo de personalidade e de cultura que favorece a reprodução das condições geradoras do fascismo. Na citação a seguir, o ressentimento semiformado é atravessado pela incapacidade de autorreflexão, tanto no sentido intelectual quanto emocional, carência expressada pelo conceito de falsa projeção:

A falsa projeção é o usurpador do reino da liberdade e da cultura; a paranóia é o sintoma do indivíduo semicultivado. Para ele, todas as palavras convertem-se num sistema alucinatório, na tentativa de tomar posse pelo espírito de tudo aquilo que sua experiência não alcança, de dar arbitrariamente um sentido ao mundo que torna o homem sem sentido, mas ao mesmo tempo se transformam também na tentativa de difamar o espírito e a experiência de que se está excluído e de imputar-lhes a culpa que, na verdade, é da sociedade que o exclui do espírito e da experiência. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 182).

Em debate de 1968 intitulado "A educação contra a barbárie", o ressentimento que caracteriza a semiformação é abordado por Adorno como falência da cultura e como incapacidade de elaboração do mal-estar que resulta da não-realização da promessa de emancipação:

Penso que, além desses fatores subjetivos, existe uma razão objetiva da barbárie, que designarei bem simplesmente como a da falência da cultura. A cultura, que conforme sua própria natureza promete tantas coisas, não cumpriu a sua promessa. Ela dividiu os homens. A divisão mais importante é aquela entre trabalho físico e intelectual. Deste modo ela subtraiu aos homens a confiança em si e na própria cultura. E como costuma acontecer nas coisas humanas, a consequência disto foi que a raiva dos homens não se dirigiu contra o não-cumprimento da situação pacífica que se encontra propriamente no conceito de cultura. Em vez disto, a raiva se voltou contra a própria promessa ela mesma, expressandose na forma fatal de que essa promessa não deveria existir". (ADORNO, 1995a, p. 164)

Assim, como "esfera do ressentimento", a semiformação evidencia seu elevado potencial destrutivo, uma vez que propaga certo tipo de medo perante a diferença que é análogo àquele que origina o delírio paranoico de domínio pleno do mundo por meio do conhecimento. Assim como o cientista paranoico consagra-se à edificação de obras perfeitas, sem arestas e sem contradições, amparadas na lógica instrumental, a hegemonia dos processos semiformadores na esfera educativa hipostasia a realidade, consagrando a impossibilidade de se experimentá-la autenticamente sem o recurso a estereótipos que confortavelmente possam reduzir a complexidade do real a rótulos e fórmulas preconcebidos. Analogamente à paranoia da ciência, a semiformação desempenha "função social objetiva", pois a incapacidade de realizar experiências autônomas, em um mundo no qual a produção da individualidade tornou-se impossível, é ilusoriamente compensada por "esquemas para subjugar a realidade, que certamente não alcançam a esta, mas que compensam o medo ante o incompreendido" (ADORNO; HORKHEIMER, 1971, p. 261). A subjetividade que poderia resistir à unidimensionalidade da cultura é previamente impossibilitada, pois o que é "produzido objetivamente é também a índole subjetiva que torna impossível a compreensão objetivamente possível" (ADORNO; HORKHEIMER, 1971, p. 262). A similitude entre paranoia e semiformação reproduz as condições geradoras do fascismo, pois consagra a "educação por cotoveladas", à qual não é estranho o delírio persecutório voltado contra os mais frágeis da hierarquia social. O ressentimento resultante de uma formação pela metade pode ser, em determinados contextos políticos, canalizado sobre as vítimas eleitas por cada sociedade. A hostilidade presente em cada indivíduo particular, que poderia ser conjuntamente elaborada e compreendida em suas mediações sociais, econômicas e políticas, pode encontrar oportunidade de vazão sobre desamparados reais ou imaginários, e para isso bastará que um coletivo de ressentidos esteja irmanado em torno de ideais redentores solenemente pronunciados por um líder. Sob tais condições, a fraqueza dos perseguidos espia a impotência objetiva dos perseguidores:

A cólera é descarregada sobre os desamparados que chamam a atenção. E como as vítimas são intercambiáveis segundo a conjuntura: vagabundos, judeus, protestantes, católicos, cada uma delas pode tomar o lugar do assassino, na mesma volúpia cega do homicídio, tão logo se converta na norma e se sinta poderosa enquanto tal. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 160)

As condições geradoras do tipo de barbárie peculiar ao fascismo estão presentes na sociedade contemporânea, não sendo incompatíveis com a existência de instituições democráticas. O problema da coletivização da sociedade foi amplamente analisado por Adorno, que, em diversos momentos, alertou para o problema da atração muitas vezes irresistível exercida pelos coletivos sobre os indivíduos. Sob a influência hipnótica de líderes que conseguem mobilizar a libido individual no interior de coletivos, a oposição entre os de dentro (in-group) e os de fora (out-group), alimentada pela leitura estereotipada e rígida da realidade, é capaz de despertar a fúria inquisitiva dirigida contra as vítimas do momento. A coisificação da própria psicologia é um dos fatores mais preocupantes nas reflexões dos teóricos críticos sobre a regressão do indivíduo na sociedade contemporânea, uma vez que a semiformação não o afeta somente de fora para dentro. A generalização da socialização forçada, inerente à semiformação, fez parte do processo histórico de decadência do capitalismo liberal, do declínio da autoridade paterna no interior da família burguesa e do declínio da própria individualidade. Sob o capitalismo tardio configurou-se a "vida danificada", tal como Adorno caracterizou em Minima Moralia, em um processo no qual os homens deixaram de ser indivíduos autônomos, sendo reduzidos, em grande medida, à condição de egos fragilizados, heterônomos e quase sempre submetidos apenas ao imperativo da adaptação. Na Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer apontam com precisão a conversão de indivíduos em átomos sociais: "Não lhe foi concedendo a plena satisfação que os colossos desencadeados na produção superaram o indivíduo, mas extinguindo-o como sujeito" (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 191).

III

Na primeira parte deste trabalho, procuramos apresentar as graves implicações da modalidade hegemônica de conhecimento científico que instrumentaliza a realidade e recusa sistematicamente a autorreflexão crítica acerca de seus pressupostos de total dominação sobre a natureza e sobre os próprios homens. Conforme vimos, para expressar tal gravidade, Adorno e Horkheimer apontaram a similitude entre o sujeito cognoscente e a subjetividade vazia do paranoico, caracterizando a paranoia como "sombra do conhecimento" (1985, p. 182). Na segunda parte, após breve apresentação da semiformação como processo educativo que socializa os homens, mas ao mesmo tempo lhes nega rudimentos formadores que poderiam permitir uma relação crítica e negativa frente à realidade, buscamos estabelecer o vínculo entre o conhecimento comprometido pela paranoia e a semiformação como "esfera do ressentimento". Consideramos que o aspecto mais significativo do cruzamento entre esses conceitos reside na hostilidade prévia do indivíduo semiformado frente à promessa de emancipação que originalmente animou e justificou a Bildung. Paranoia e ressentimento difundem certa "educação por cotoveladas", configurando uma situação em que a não-realização da emancipação iluminista entre os homens, em vez de ser acompanhada pela autorreflexão crítica, expressa-se como hostilidade e vontade destrutiva, que se volta contra a promessa ela mesma e, portanto, contra a própria cultura. Esta deixa de ser oportunidade de resistência ao fascismo, convertendo-se em veículo de sua difusão. Considerando a pertinência e a urgência de reflexões críticas sobre esse fenômeno, nesta terceira parte do trabalho, intentamos realizar breves apontamentos sobre o potencial desses conceitos na esfera educativa.

A correspondência sombria entre a paranoia no plano do conhecimento científico e a semiformação no plano pedagógico foi refletida criticamente por Adorno sob horizontes que integram filosofia e educação. No primeiro parágrafo de sua obra Dialética Negativa, o filósofo alemão enuncia o paradoxo que enreda toda reflexão crítica e negativa sobre o mundo atual: "A filosofia que outrora parecia obsoleta permanece viva, porque o momento de sua realização foi perdido" (ADORNO, 1992, p. 11). Sob a forma de um enunciado desconcertante, Adorno expressou de que maneira a atualidade e a urgência do pensamento deriva exatamente de seu fracasso em realizar historicamente as promessas de emancipação que o animaram no passado. Pois as luzes da razão, quando confrontadas com os episódios dramáticos do século XX, como as guerras mundiais, o holocausto e a bomba atômica, devem resignar-se à admissão do mais completo fracasso. Christoph Türcke resume com clareza o paradoxo adorniano em sua propriedade de expressar a obsolescência e a atualidade do pensamento filosófico após a sequência de catástrofes do século XX. Para Türcke, o impasse não poderá ser solucionado pela criação de um novo sistema filosófico, pois isso negligenciaria a desproporção entre o alcance da filosofia e o gigantismo da desumanização do mundo; será uma vez mais ignorado se o filósofo limitar-se à "limpeza da linguagem ou da lógica", tarefas que restringem o pensamento; também não será enfrentado pelos filósofos que contentarem-se com a administração da tradição filosófica. "Nada disso oferece saída. Resta reconhecer a culpa, aceitar o castigo, prestar penitência. Filosofia que não tem má consciência, não tem consciência adequada de si mesma. Falta-lhe a marca decisiva de qualquer filosofia: a auto-reflexão" (TÜRCKE, 2004, p. 46). A filosofia somente poderá redimir-se de seu fracasso permanecendo fiel ao potencial crítico que historicamente deu solidez ao trabalho dos filósofos. Animado pela má consciência e pela vergonha na cara, o filósofo deve confrontar-se com os produtos históricos da intelecção paranoica, como "advogado da promessa da razão, porém, na plena consciência de empenhar-se por uma causa perdida" (TÜRCKE, 2004, p. 46).

Adorno encarregou-se igualmente da formulação de um "imperativo categórico" para o campo educativo que repercute essa má consciência indispensável à filosofia: "qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação" (ADORNO, 1995a, p. 119). Analogamente, da mesma forma que um risco de inconsistência ameaça o trabalho filosófico que procura tergiversar a exigência de autorreflexão, podemos afirmar que também o educador incorre em autoengano quando busca traduzir sob fórmulas simplificadas as formas e os conteúdos de uma educação progressista sem confrontá-la com os resultados da hegemonia da semiformação. Assim como o filósofo, também o educador necessita incorporar a vergonha e a má consciência como parâmetro ético a animar seu trabalho, confrontando-se com a identidade entre educação e razão instrumental. Wolfgang Maar sintetiza muito adequadamente aquilo que Adorno entende como sendo uma educação que resiste à barbárie:

A educação não é para a emancipação, compromisso com um fim ético idealizado no contexto social-cultural. A educação, para ser efetiva, é crítica da semiformação real, resistência na sociedade material presente aos limites que nesta se impõem à vida no 'plano' de sua produção efetiva. A emancipação é elemento central da educação, mas, para ser real e efetiva, há que ser tematizada na heteronomia. (MAAR, 2003)

A tematização da emancipação sob o estado hegemônico de heteronomia foi caracterizada por Adorno sob termos similares àqueles de uma educação após Auschwitz: "desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia" (ADORNO, 1995, p. 155). Tal necessidade contrasta com o alto nível de progresso tecnológico na civilização burguesa, uma vez que, mesmo sob tais condições de desenvolvimento técnico, as pessoas encontram-se tomadas por impulsos destrutivos que ameaçam a vida civilizada. Dessa forma, ambas as tarefas, do filósofo e do educador, em seu esforço de autorreflexão, confluem para a tematização da emancipação na heteronomia, implicando, como aspecto central, a confrontação da modalidade burguesa de progresso com seu produto necessário: a barbárie. Analisar o engendramento do progresso com a barbárie implica recolocar o dilema a ser enfrentado por filósofos e educadores, pois a persistência da escassez de recursos e da opressão, em um mundo no qual a abundância de mercadorias proporcionada pela produtividade técnica virtualmente permitiria que nenhum de seus habitantes padecesse da fome ou da falta de água potável, indica a radicalização das contradições na base material da sociedade e, com ela, a incapacidade da humanidade de organizar o mundo de acordo com parâmetros racionais. A incapacidade de autorreflexão que compromete o trabalho do cientista, sua constante recaída na reiteração dos mesmos princípios que levaram ao fracasso, de maneira análoga ao paranoico, que se torna prisioneiro da ideia fixa, expressa igualmente o comprometimento do próprio progresso em sua pretensão exaustivamente fracassada em constituir-se como linha reta do estado de barbárie até as riquezas da civilização técnica:

A realidade produz a ilusão de desenvolver-se para cima e, no fundo, permanece sendo o que era. O espírito que quer algo novo, enquanto ele mesmo não é mais que uma engrenagem, dá com a cabeça na parede em cada tentativa desesperadamente reiterada, tal como um inseto que se chocasse contra o vidro ao voar para a luz. (ADORNO, 1995b, p. 56).

Assim, se as reflexões sobre semiformação no plano pedagógico envolvem assumir que a emancipação deve ser "elemento central na educação", o trabalho do educador deverá envolver uma crítica negativa do progresso na sociedade burguesa, seja no que se refere à expansão desmedida das forças produtivas sob o impulso da mentalidade paranoica no plano epistêmico, seja no que se refere à identidade entre educação e semiformação. Nesse sentido, a crítica da modalidade hegemônica de progresso na sociedade burguesa solicita a autorreflexão crítica do ressentimento inerente à semiformação. O aspecto mais importante a ser ressaltado acerca da perspectiva de uma tal compreensão referese ao fato de que, embora a semiformação proporcione a identificação do indivíduo com o status quo, tal integração não equivale, como pretende, a uma completa reconciliação racional com a realidade. Pelo contrário, conforme analisou Horkheimer, a aceitação da "identidade entre razão e dominação", que equivale igualmente a aceitar a "regra do mais forte como norma eterna", não impede que sentimentos secretos de hostilidade frente à própria civilização permaneçam, existindo sob a forma de impulsos anticivilizatórios (HORKHEIMER, 1976, p. 124). A admiração nutrida pelo homem contemporâneo frente às incontáveis realizações técnicas convive com certa hostilidade secreta que está na origem das condições que favorecem o fascismo. Para Adorno, a compreensão intelectual e a elaboração emocional dos sentimentos anticivilizatórios originados sob condições semiformadas é condição para que Auschwitz não se repita:

É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta tornase alvo de uma rebelião violenta e irracional. (ADORNO, 1995a, p. 122)

No âmbito reflexivo da Teoria Crítica em geral e, mais precisamente, no que se refere ao pensamento de Adorno, existem várias possibilidades de abordagem da necessidade imperativa de autorreflexão crítica sobre as tendências anticivilizatórias e seu elevado grau destrutivo. Sob o recorte conceitual que até aqui orientou esta análise, a saber, a articulação entre paranoia e semiformação, consideramos que a análise de Adorno sobre as características de um dos tipos circunscritos ao escopo da "personalidade autoritária" apresenta grande potencial para reflexões no campo educativo, razão pela qual a este tema doravante será dedicada nossa análise1 1 Como se sabe, em sua fase norte-americana, o Instituto de Pesquisas Sociais realizou um estudo empírico intitulado "A Personalidade Autoritária", com o objetivo de compreender as tendências fascistas presentes na personalidade dos cidadãos norte-americanos nos 40 do século XX. Entre os indivíduos de alta pontuação na "Escala F", indicador empírico do potencial fascista dos entrevistados, a pesquisa revelou que, em graus variáveis, a heteronomia traduz-se em preconceito racial, anti-intelectualismo, convencionalismo, identificação com as elites econômicas, leitura estereotipada da realidade, prazer de natureza sadomasoquista, obsessão pelo sexo e elevadas tendências destrutivas inconscientes (ADORNO, 1965). Embora essa pesquisa apresente restrições espáciotemporais, consideramos que, pelo fato de ela estender-se à análise da reificação das consciências em uma sociedade grandemente marcada pelo tecnicismo, os Estados Unidos dos anos 40 século passado, suas conclusões permanecem válidas como insight teórico para as reflexões do presente trabalho. .

No interior da tipologia referente à "Escala F", que teve por objetivo quantificar e qualificar os danos psicológicos acarretados pela reificação social, um dos tipos autoritários, denominado "caráter manipulador", distingue-se pelo "realismo exagerado" e pela "fúria organizativa" que o inclinam ao apego irrefletido à realização de ações práticas desacompanhadas da reflexão sobre a finalidade e o sentido técnico de tais ações (ADORNO, 1995a, p. 129). É o estereótipo do homem prático, empreendedor, que alcança sucesso graças à sua capacidade de liderança, ideal que permanece muito cobiçado nos tempos atuais e, não por acaso, é sistematicamente propagado pelos manuais de autoajuda. Na configuração do "caráter manipulador", confluem, de maneira exemplar, as características essenciais tanto do conhecimento comprometido pela paranoia quanto do ressentimento que afeta o indivíduo semiformado. Sob o ponto de vista intelectual, o contato com a cultura e com as finalidades do saber subordina-se aos imperativos de instrumentalização da realidade, sem qualquer dimensão autorreflexiva. A hostilidade prévia aos potenciais emancipadores da cultura, que caracteriza a semiformação, igualmente conduz à concepção do campo cultural como esfera do domínio irrefletido da natureza.

Em Educação após Auschwitz, Adorno exemplifica tal perfil psicológico e cognitivo como sendo aquele tipo de mentalidade capaz de projetar com extrema eficiência uma ferrovia ligando os campos de concentração de Auschwitz às câmaras de gás, ao mesmo tempo em que demonstra absoluta indiferença ao que aconteceria com as vítimas (ADORNO, 1995a, p. 133). Em sua análise da vida danificada, na obra de fragmentos intitulada Minima Moralia, em vários momentos, Adorno remete às características psicológicas desse tipo de personalidade ansiosamente almejada nas organizações capitalistas. Em um desses momentos, no aforismo "Peixe n'água", o tipo manipulador é descrito como "pessoas espertas, bem-humoradas, sensíveis e capazes de reagir: elas poliram o velho espírito de negociante com últimas novidades da Psicologia. De tudo são capazes, até mesmo de amar, conquanto sempre deslealmente" (ADORNO, 1992, p. 18). Em outro momento, no aforismo "Instituição para surdos-mudos", Adorno aponta as fortes tendências de declínio da capacidade de realizar experiências que são realimentadas pelo sistema escolar:

Enquanto as escolas adestram as pessoas no uso da fala, assim como na prestação dos primeiros socorros às vítimas de trânsito e na construção de planadores, os alunos emudecem cada vez mais. Eles são capazes de fazer conferências, suas frases qualificam-nos para o microfone diante do qual se vêem como representantes da média das pessoas, mas a capacidade de falarem uns com os outros se atrofia. Pois esta pressupõe ao mesmo tempo experiências dignas de serem comunicadas, liberdade de expressão, independência e, ao mesmo tempo, relacionamento. (ADORNO, 1992, p. 120)

A pertinência dessa análise de Adorno evidencia-se quando consideramos que o tipo humano dotado de tais características cognitivas e psicológicas expressa de maneira exemplar o resultado de uma "educação por cotoveladas" bem-sucedida. O estereótipo do homem ativo e realizador ressoa atualmente como ideal altamente desejado tanto nas empresas capitalistas quanto nas universidades e nas demais organizações, configurando-se hegemonicamente como ponto de chegada de uma educação de sucesso. Em seu ensaio Educação após Auschwitz, Adorno denominou esse tipo de caráter manipulador como "consciência coisificada", a saber, pessoas que se concebem a si próprias como coisas e igualmente concebem as outras pessoas como coisas (ADORNO, 1995a, p. 130)2 2 O conceito de "consciência coisificada" em Adorno foi tecido sob forte inspiração luckasiana, traduzindo os efeitos descritos por Luckács sobre a "objetividade ilusória" da estrutura mercantil na sociedade capitalista, em que as relações entre pessoas tomam a forma de relações entre coisas. Para Luckács, a mecanização resultante da fragmentação do trabalho espelha não somente uma realidade material, como também espiritual, pois a subjetividade do trabalhador acaba afetada pela reificação presente no trabalho (LUCKÁCS, 1989, p. 102). .

As características da personalidade prática, ativa e realizadora configuram, portanto, a confluência entre o tipo de conhecimento comprometido por uma vontade paranoica de domínio instrumental sobre a natureza e os processos educativos semiformados comprometidos pelo ressentimento. Uma vez que a dialética do esclarecimento se caracteriza por um percurso histórico ao longo do qual, na mesma medida em que os homens se emanciparam frente ao poder da natureza, por meio dos avanços científicos e tecnológicos, um novo estado de barbárie prospera silenciosamente, não em oposição ao progresso, mas graças a ele, como seu subproduto histórico, a consciência coisificada transparece como a configuração psicológica mais adequada dessa dialética. Por um lado, a paranoia da ciência manifesta-se para tal tipo de consciência sob a forma da fetichização dos objetos técnicos, fenômeno que impede a reflexão ética sobre as finalidades humanitárias que deveriam conduzir à dominação da natureza. Por outro lado, o ressentimento cego resultante da não-realização das promessas emancipadoras da cultura manifesta-se na identificação integral entre cultura e adaptação ao status quo, de tal maneira que a dimensão crítica, negativa e transcendente da razão seja desqualificada como devaneio inútil.

Dessa forma, retomando a proposição anteriormente formulada sobre a necessidade de que, assim como os filósofos, também os educadores deverão incorporar a vergonha e a má consciência no âmbito de uma tematização das finalidades emancipadoras sob o estado hegemônico de heteronomia, consideramos que os objetivos educacionais atualmente hegemônicos carecem de urgente reflexão crítica, dada sua conformação ao estado de semiformação vigente. No entanto, à realização de tal tarefa opõem-se fortes tendências que, no campo educativo, reforçam sistematicamente o atrelamento dos ideais formadores ao campo da adaptação unidimensional. A esse respeito, na Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer já haviam apontado para a fragilidade dos juízos reflexivos que se atrevem a questionar a racionalidade instrumental: "Pois a reflexão que, na pessoa sadia, rompe o poder da imediatidade nunca é tão convincente como a aparência que ela suprime. Enquanto movimento negativo, refletido e não-retilíneo, ela carece da brutalidade que é inerente ao positivo" (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 181-182). Nos dias atuais, a "brutalidade do positivo" permanece extremamente sedutora e possui incontáveis adeptos, sempre a louvar as realizações do progresso tecnológico, mesmo que o planeta, nas últimas décadas, esteja dando inconfundíveis sinais de exaustão. No campo educativo, a hegemonia unidimensional da dimensão adaptativa da educação manifesta-se entre os aprovados nos concorridíssimos vestibulares das áreas "nobres" do conhecimento, assim como no elogio sistemático da dimensão prática do conhecimento frente a todo divagar que simule alguma compenetração de natureza teórica. Tal hegemonia da "brutalidade do positivo" expressa claramente a confluência que aqui procuramos desenvolver entre paranoia e semiformação. Dessa forma, acreditamos que uma expressiva contribuição da Teoria Crítica na área educativa consiste no fato de que, tematizar a emancipação sob as condições vigentes de heteronomia, visando à sua desbarbarização, implica necessariamente refletir sobre a consciência coisificada como ideal educativo oculto sob as demandas de sucesso e adaptação bem-sucedida na educação contemporânea.

Notas

  • 1
    Como se sabe, em sua fase norte-americana, o Instituto de Pesquisas Sociais realizou um estudo empírico intitulado "A Personalidade Autoritária", com o objetivo de compreender as tendências fascistas presentes na personalidade dos cidadãos norte-americanos nos 40 do século XX. Entre os indivíduos de alta pontuação na "Escala F", indicador empírico do potencial fascista dos entrevistados, a pesquisa revelou que, em graus variáveis, a heteronomia traduz-se em preconceito racial, anti-intelectualismo, convencionalismo, identificação com as elites econômicas, leitura estereotipada da realidade, prazer de natureza sadomasoquista, obsessão pelo sexo e elevadas tendências destrutivas inconscientes (ADORNO, 1965). Embora essa pesquisa apresente restrições espáciotemporais, consideramos que, pelo fato de ela estender-se à análise da reificação das consciências em uma sociedade grandemente marcada pelo tecnicismo, os Estados Unidos dos anos 40 século passado, suas conclusões permanecem válidas como
    insight teórico para as reflexões do presente trabalho.
  • 2
    O conceito de "consciência coisificada" em Adorno foi tecido sob forte inspiração luckasiana, traduzindo os efeitos descritos por Luckács sobre a "objetividade ilusória" da estrutura mercantil na sociedade capitalista, em que as relações entre pessoas tomam a forma de relações entre coisas. Para Luckács, a mecanização resultante da fragmentação do trabalho espelha não somente uma realidade material, como também espiritual, pois a subjetividade do trabalhador acaba afetada pela reificação presente no trabalho (LUCKÁCS, 1989, p. 102).
  • Endereço para correspondência:
    Rua Pinheiro de Ulhoa Cintra, 838/11
    03673-000
    São Paulo – SP
  • Data de recebimento: 05/03/2009

    Data de aprovação: 10/11/2009

    • ADORNO, T. W. Estudio Cualitativo de las ideologias. In: ADORNO, T. W. et. al. La personalidad autoritaria Buenos Aires: Editorial Proyección, 1965.
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    • ADORNO, T. W. Dialéctica Negativa Trad. José Maria Ripalda. Madrid: Taurus, 1992b.
    • ADORNO, T. W. Minima Moralia Trad. Luiz Eduardo Bica. São Paulo: Ática, 1992.
    • ADORNO, T. W. A educação contra barbárie. In: ADORNO, T. W. Educação e Emancipação Trad. Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995a.
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    • PUCCI, B. A teoria da semicultura e suas contribuições para a teoria crítica da educação. In: ZUIN, A.A.S.; RAMOSDEOLIVEIRA, N.; PUCCI, B. (Org.). A educação danificada Petrópolis, Vozes, 1996.
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    1 Como se sabe, em sua fase norte-americana, o Instituto de Pesquisas Sociais realizou um estudo empírico intitulado "A Personalidade Autoritária", com o objetivo de compreender as tendências fascistas presentes na personalidade dos cidadãos norte-americanos nos 40 do século XX. Entre os indivíduos de alta pontuação na "Escala F", indicador empírico do potencial fascista dos entrevistados, a pesquisa revelou que, em graus variáveis, a heteronomia traduz-se em preconceito racial, anti-intelectualismo, convencionalismo, identificação com as elites econômicas, leitura estereotipada da realidade, prazer de natureza sadomasoquista, obsessão pelo sexo e elevadas tendências destrutivas inconscientes (ADORNO, 1965). Embora essa pesquisa apresente restrições espáciotemporais, consideramos que, pelo fato de ela estender-se à análise da reificação das consciências em uma sociedade grandemente marcada pelo tecnicismo, os Estados Unidos dos anos 40 século passado, suas conclusões permanecem válidas como insight teórico para as reflexões do presente trabalho. 2 O conceito de "consciência coisificada" em Adorno foi tecido sob forte inspiração luckasiana, traduzindo os efeitos descritos por Luckács sobre a "objetividade ilusória" da estrutura mercantil na sociedade capitalista, em que as relações entre pessoas tomam a forma de relações entre coisas. Para Luckács, a mecanização resultante da fragmentação do trabalho espelha não somente uma realidade material, como também espiritual, pois a subjetividade do trabalhador acaba afetada pela reificação presente no trabalho (LUCKÁCS, 1989, p. 102). Endereço para correspondência: Rua Pinheiro de Ulhoa Cintra, 838/11 03673-000 São Paulo – SP

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      23 Set 2010
    • Data do Fascículo
      Ago 2010

    Histórico

    • Recebido
      05 Mar 2009
    • Aceito
      10 Nov 2009
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