Apresentação

DOSSIÊ - EDUCAÇÃO, COTIDIANO E PARTICIPAÇÃO: DESAFIOS E CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO

Apresentação

O Dossiê, que ora apresentamos ao leitor, organizou-se em torno do eixo temático Educação, cotidiano e participação: desafios e contribuições para a formação, levando em conta os desafios atuais enfrentados nos diversos contextos de formação. Além disso, buscou também identificar contribuições epistemológicas para esse processo de formação e para compreender a participação cotidiana e cidadã, presentes nos diferentes trabalhos de investigação aqui tratados. Os autores dispuseram-se, dessa maneira, a construir intersecções entre o seu campo de pesquisa e a área da educação, nos componentes pedagógico-formativos, enfatizando as dimensões da participação que se expressam e têm visibilidade no cotidiano educacional. Os trabalhos propostos reúnem produções teórico-empíricas resultantes das linhas de pesquisa e de atuação dos diversos autores que, em seus programas de pós-graduação e em seus grupos de investigação e trabalhos de formação, têm contribuído para o aprofundamento teórico-conceitual na temática apresentada neste dossiê. O recorte teórico-epistemológico adotado pelos(as) autores(as) fundamenta-se no campo de suas produções bibliográficas e das linhas de investigação que desenvolvem em diferentes campos, como a educação, psicologia social e direitos humanos, sociologia da educação, participação comunitária e cidadã, educação musical, psicologia comunitária e política.

Algumas características emergem dos oito artigos propostos, indicando similitudes e continuidades entre eles. Os artigos apresentam aos leitores(as) parâmetros de comparação e reflexão a partir de realidades e contextos sócio-político-educacionais, que podem ser considerados próximos (como os do Brasil e América Latina) e também distantes (como os da Europa). Entretanto, todos trazem olhares epistemológicos que os aproximam, visto que os artigos estabelecem pontos de contato em torno dos três eixos temáticos centrais: 1) sobre a discussão a respeito da participação nas problemáticas sociais contemporâneas; 2) sobre as dimensões teórico-práticas relativas ao cotidiano na educação; 3) sobre os aspectos da participação na formação acontecendo em níveis distintos, desde a Educação de Jovens e Adultos (EJA), passando pela escola de ensino médio até a educação no ensino superior.

No eixo relativo à ênfase principal na participação encontram-se três artigos, um chileno, outro português e o terceiro mexicano. O artigo Protestas, participación y educación pública: discursos sobre lo público en las movilizaciones estudiantiles en Chile, de Héctor Berroeta e Juan Sandoval, professores da Universidade de Valparaíso, no Chile, traz uma análise a respeito da participação dos jovens chilenos nos últimos acontecimentos políticos de 2011 daquele país. São analisados os dados, obtidos através da realização de vários grupos focais, relativos aos significados que esses jovens atribuem à sua participação nas mobilizações acontecidas nos espaços públicos. O trabalho Formação em Psicologia Comunitária e os seus contributos pedagógicos para a Participação Cívica, de José Ornelas e Maria Vargas-Moniz, professores do Instituto Superior de Ciências Psicológicas Sociais e da Vida (ISPA), em Lisboa, traz dados sobre as razões para que pós-graduandos em psicologia comunitária participem de atividades relacionadas à cidadania e ao desenvolvimento de grupos a partir de seu percurso formativo. Jorge Mario Flores Osorio, professor da Universidade Autônoma do Estado de Morelos, no México, e presidente do Centro Latinoamericano de Investigación, Intervención y Atención Psicosocial, no artigo Pedagogía, solidaridad y transformación social, aborda os aspectos influentes para que ocorra uma formação pedagógica comprometida com a superação da exclusão e da pobreza. Analisa os aspectos relativos à investigação/intervenção desenvolvida junto a comunidades indígenas em Chiapas e Guatemala com o objetivo de fortalecer uma educação indígena autônoma.

No eixo relacionado à ênfase principal no cotidiano, encontram-se dois artigos, um inglês e outro brasileiro. O artigo Culture, identity and alternatives to the consumer culture, de autoria de Carolyn M. Kagan e Mark H. Burton, professores e pesquisadores da Manchester Metropolitan University, no Reino Unido, analisa dimensões da identidade e cultura no cotidiano que podem mudar os impactos sobre a vida planetária. Acompanham e analisam propostas de criação de cenários de educação informal e crescimento cultural, em situações cotidianas de grupos, como aspectos decisivos que podem influenciar, de maneira construtiva, o modo de vida da sociedade. O artigo de Jusamara Souza, professora do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), intitulado Música, educação e vida cotidiana: apontamentos de uma sociografia musical, analisa a presença da música e suas conexões com a comunidade em uma pequena cidade de colonização alemã do Rio Grande do Sul. Partindo de uma sociografia musical feita em 2012, registrada através de questionário e entrevista, a autora elabora uma reflexão sobre a diversidade musical refletida nas práticas de músicos e organizações musicais. Os conceitos de identidade musical, alteridade e interação entre músicos permitiram explorar distintas visões, estilos e temporalidades presentes na vida musical da cidade. O objetivo da pesquisa foi tecer conexões entre música e educação tomando os pressupostos da sociologia da vida cotidiana.

Com ênfase principal na educação e formação, encontramos o terceiro eixo aqui apresentado, com três artigos, um português e dois brasileiros. O artigo Mulheres da Educação de Jovens e Adultos em busca da formação perdida: um olhar da educação musical, de Maria Guiomar Ribas, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), retoma dados de uma pesquisa sobre a educação (musical) de mulheres na EJA. Um elemento destacado por Ribas, ao longo do texto, são as histórias da participação de mulheres na educação escolar. As histórias às quais o artigo se refere compreendem narrativas de mulheres/alunas da EJA que interromperam e retomaram sua formação (musical). O artigo é uma contribuição ao debate sobre educação (musical), cidadania e participação. Isabel Menezes, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Porto, e Pedro Ferreira, professor/pesquisador no Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE), no Porto, no artigo Cidadania participatória no cotidiano escolar: A vez e a voz das crianças e dos jovens, analisam o processo de desenvolvimento de uma pesquisa participativa junto a alunos do ensino médio em escolas portuguesas. São analisadas as informações obtidas, pelos próprios alunos, através de documentos, entrevistas e questionários, cujo processo criou oportunidades para o exercício e fortalecimento da cidadania, ao recuperarem acontecimentos e opiniões sobre a história portuguesa relacionados à democracia e à participação no passado e presente. Em A pesquisa participante e a intervenção comunitária no cotidiano do Pibid/CAPES, Maria de Fatima Quintal de Freitas, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apresenta os resultados de um trabalho de pesquisa participante e intervenção psicossocial em comunidade, desenvolvido junto a estudantes das licenciaturas em pedagogia, ciências sociais e filosofia, dentro do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID)/CAPES-UFPR. Este projeto teve como eixo central o planejamento e realização de atividades didático-pedagógicas no campo dos direitos humanos e solidariedade, a serem implementadas nas escolas da rede pública pelos licenciandos. O artigo aborda o processo interno de formação e preparação desses universitários, analisando o seu envolvimento e participação como um elemento crucial na formação seguindo os passos da pesquisa participante, assim como analisando as etapas de participação quando da intervenção comunitária junto às escolas da rede pública.

Este dossiê temático se encerra com a resenha de autoria de Maria de Fatima Quintal de Freitas e Jusamara Souza, que apresentam a obra Juventude, cultura cívica e cidadania, organizada por Angela Randolpho Paiva, na qual a organizadora apresenta os resultados de uma longa pesquisa realizada junto a jovens de 16 a 18 anos, de 25 escolas de ensino médio na cidade do Rio de Janeiro, utilizando questionários e grupos focais. O foco não foi tratar do jovem em uma perspectiva saudosista, e nem dentro de uma análise afeita aos movimentos sociais, mas analisar o cotidiano desses jovens que pertencem a uma juventude que carrega em si dois aspectos importantes. De um lado, nasceu em um tempo que é fruto de um recente processo de (re)democratização no âmbito da América Latina e convive com acelerados processos de comunicação e globalização. De outro, esta juventude possui um nível de escolaridade e capacidades cognitivas que lhe permitem tecer críticas sobre o seu país e o processo democrático, sobre as diferentes formas da política e cultura política existentes no dia a dia, e sobre as diferentes facetas de expressão e exercício daquilo que se conhece como cidadania. É desta juventude, nascida em um tempo com estas características, que a obra debruça-se para intentar compreender o que significa ser jovem hoje ao participar em seu cotidiano.

Estendemos o convite a todos para esta reflexão nas várias realidades apresentadas.

Maria de Fatima Quintal de Freitas e Jusamara Souza

Organizadoras

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Set 2014
  • Data do Fascículo
    Set 2014
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