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As campanhas educativas contra o câncer

Cancer education campaigns

Resumos

Discute a trajetória das campanhas educativas contra o câncer, seu papel na política de controle da doença e sua evolução entre 1920 e 1950. Através das imagens pode-se perceber a permanência de conceitos do campo da cancerologia surgidos no início do século XX. Diagnóstico precoce e tratamento médico especializado formavam o binômio que embasava os argumentos médicos sobre a alta possibilidade de cura da doença. A esses termos somava-se uma noção de prevenção que preconizava: evitar as causas externas de irritação dos tecidos seria a principal forma de proteção. Embora a estética dessas campanhas se tenha transformado ao longo dos anos, buscando atrair o público e chamar sua atenção para os perigos da doença, a base de sua concepção permaneceu a mesma.

campanhas educativas; controle do câncer; Serviço Nacional de Câncer; Mario Kroeff; Brasil


The article explores the history of cancer education campaigns, their role in disease control policies, and the changes they underwent between 1920 and 1950. Through images, we see how concepts that arose in the early twentieth century have persisted in the field of cancerology. Medical arguments about the great likelihood of curing the disease were grounded on two things: early diagnosis and specialized medical treatment. The notion of prevention also figured in, with the main form of protection believed to be avoidance of any external cause of tissue irritation. Although the aesthetics of these campaigns has shifted over time, including efforts to attract the public and call their attention to the dangers of the disease, their conceptual basis has remained the same.

education campaigns; cancer control; National Cancer Service (SNC); Mario Kroeff; Brazil


IMAGENS

As campanhas educativas contra o câncer

Cancer education campaigns

Manuela Castilho Coimbra CostaI; Luiz Antonio TeixeiraII

IHistoriadora. Rua Ibituruna, 89/ bloco 1/ 703 20271-021 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil. manucoimbra@gmail.com

IIPesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil, 4036/403 21040-361- Rio de Janeiro - RJ - Brasil. teixeira@coc.fiocruz.br

RESUMO

Discute a trajetória das campanhas educativas contra o câncer, seu papel na política de controle da doença e sua evolução entre 1920 e 1950. Através das imagens pode-se perceber a permanência de conceitos do campo da cancerologia surgidos no início do século XX. Diagnóstico precoce e tratamento médico especializado formavam o binômio que embasava os argumentos médicos sobre a alta possibilidade de cura da doença. A esses termos somava-se uma noção de prevenção que preconizava: evitar as causas externas de irritação dos tecidos seria a principal forma de proteção. Embora a estética dessas campanhas se tenha transformado ao longo dos anos, buscando atrair o público e chamar sua atenção para os perigos da doença, a base de sua concepção permaneceu a mesma.

Palavras-chave: campanhas educativas; controle do câncer; Serviço Nacional de Câncer; Mario Kroeff; Brasil.

ABSTRACT

The article explores the history of cancer education campaigns, their role in disease control policies, and the changes they underwent between 1920 and 1950. Through images, we see how concepts that arose in the early twentieth century have persisted in the field of cancerology. Medical arguments about the great likelihood of curing the disease were grounded on two things: early diagnosis and specialized medical treatment. The notion of prevention also figured in, with the main form of protection believed to be avoidance of any external cause of tissue irritation. Although the aesthetics of these campaigns has shifted over time, including efforts to attract the public and call their attention to the dangers of the disease, their conceptual basis has remained the same.

Keywords: education campaigns; cancer control; National Cancer Service (SNC); Mario Kroeff; Brazil.

As campanhas educativas visando à prevenção do câncer, tão comuns em nossos dias, constituem uma das grandes preocupações de saúde pública em diversas partes do mundo. No Brasil, a cada ano são elaboradas campanhas contra o fumo; de estímulo a hábitos alimentares sadios; de restrição ao banho de mar em determinados horários; e de incentivo ao autoexame de mama e à prática de exames ginecológicos periódicos para mulheres com mais de 40 anos. Além disso, a cada 31 de maio (Dia Mundial sem Tabaco), 29 de agosto (Dia de Combate ao Fumo) e 27 de novembro (Dia de Combate ao Câncer) são elaboradas intervenções em lugares de grande circulação, como praças ou estações de metrô das grandes metrópoles brasileiras. Nessas ocasiões cartazes procuram demonstrar os males causados pelo hábito de fumar, e profissionais orientam sobre hábitos mais saudáveis. Sua intenção é mobilizar a sociedade para participar da prevenção e intervir de forma dinâmica, suscitando o questionamento e, consequentemente, a mudança de comportamento.

Seguindo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e da International Union Against Câncer, a elaboração e divulgação dessas campanhas são ações centrais na política de controle da doença, coordenada e em parte executada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. A elaboração dessas campanhas e desses programas tem como base a concepção médica de que o controle do câncer repousa sobre dois pilares: o estímulo a hábitos caracterizados pela medicina como saudáveis, o que se acredita reduzir, sobremaneira, sua incidência, e o diagnóstico precoce, que se baseia na noção de que quanto mais cedo a doença for diagnosticada maiores serão as chances de êxito no tratamento. Essa forma de conceber o controle da doença não é nova, pois, historicamente, a noção de prevenção esteve ligada de modo íntimo ao câncer. Desde o século XVIII, as ações relacionadas ao meio ambiente, às condições de trabalho e a hábitos saudáveis foram consideradas componentes da única forma de diminuir o risco de se contrair a doença. Até meados do século XX, a prevenção teve importância equivalente à da terapêutica, uma vez que evitar a doença era, na maior parte dos casos, a possibilidade de salvamento.

Mario Kroeff e as campanhas contra o câncer

O câncer é curável se for tratado a tempo.

As manifestações iniciais são discretas e variam com as múltiplas localizações que pode tomar a doença no corpo humano.

Desconfie dos pequenos tumores cutâneos que tendem a aumentar ou que se ulceram (nódulos, sinais...); das ulcerações persistentes da língua ou dos lábios; dos endurecimentos da mama, mesmo indolores; de toda perda sanguínea sem causa aparente, mormente nas mulheres na época da menopausa; dos transtornos digestivos persistentes; das alterações permanentes da voz (rouquidão) etc.

Faça exames de tempo em tempo, mesmo na ausência de qualquer sintoma para descoberta de possíveis lesões, na sua fase inicial.

O Serviço Nacional do Câncer atende para exame a qualquer pessoa atacada de lesão suspeita, aconselhando a terapêutica indicada (Kroeff, 1947, p.368).

As primeiras ações sistemáticas de caráter educativo, no campo da saúde pública brasileira, datam do final da década de 1910. Nesse momento, nossos sanitaristas, em sintonia com as concepções de saúde pública americanas, popularizadas pela Fundação Rockefeller, passaram a ter nessas atividades uma alternativa às autoritárias ações de saúde baseadas principalmente na imposição de medidas obrigatórias a uma população passiva. Inicialmente voltadas para a popularização da prevenção de doenças evitáveis, pela incorporação de hábitos simples - como o uso de calçados para evitar a disseminação de algumas verminoses -, a educação em saúde logo se ampliaria em diversos campos, dando origem a profissões práticas e instituições de saúde específicas. Institutos de higiene, enfermeiras de saúde pública, exames periódicos, vigilância sanitária passaram a ser importantes instrumentos de uma saúde pública cada vez mais voltada para uma postura ativa da população, pronta a assimilar os preceitos saudáveis pela educação.

Das histórias infantis de Monteiro Lobato, valorizando as transformações na vida do Jeca a partir da mudança de seus hábitos, elaboradas no início da década de 1920, às cartilhas de educação em saúde criadas pelo Serviço de Educação em Saúde do Ministério da Educação e Saúde, na década de 1940, o campo da educação em saúde foi-se ampliando e englobando novas doenças, que aos poucos também passavam a ser consideradas evitáveis. Hoje, ele ultrapassa em muito a noção de prevenção de doenças específicas rumo à noção de promoção da saúde, definição que abrange a população, nos mais diversos aspectos de sua vida. Tal transformação, impulsionada pela ação do Estado e pela sociedade civil, pode redundar na melhoria de suas condições de vida e saúde.

Em relação ao câncer, as primeiras ações educativas surgiram ainda na década de 1920, quando alguns médicos, preocupados com a ampliação dos índices da doença, começaram a elaborar pequenos panfletos orientando sobre a prevenção e o diagnóstico precoce, que distribuíam em seus consultórios. Nas duas décadas seguintes, essa prática foi bastante utilizada nos postos e consultórios ginecológicos, com o objetivo de esclarecer as mulheres sobre a necessidade de exames ginecológicos periódicos como forma de detecção precoce do câncer cervical.

No que tange a ações de maior magnitude surgidas no setor público, as primeiras iniciativas nesse campo foram elaboradas pelo médico Mario Kroeff, que ficou imortalizado na história da medicina por suas ações contra a doença. Ex-médico, combatente de nossas brigadas na Primeira Guerra Mundial, Kroeff ingressou na saúde pública, como inspetor sanitário da Inspetoria da Lepra, Doenças Venéreas e Câncer, em 1919. Sua passagem por essa seção do Departamento Nacional de Saúde Pública, fortemente empenhada em ações educativas contra as doenças venéreas, deu-lhe o lastro para uma atuação com ênfase na propaganda educativa sobre o controle do câncer. Desde os primórdios de sua atuação no campo da cancerologia, imputou importante papel às ações educativas que levassem à população a noção, tão cara à medicina da época, de que o câncer, se descoberto em sua fase inicial, poderia ser facilmente curado. Além disso, seu interesse pelas novas tecnologias fez com que ele colocasse a serviço de sua causa o que havia de mais moderno no campo da comunicação e da informação, como o rádio e o cinema (Teixeira, Fonseca, 2007). A imprensa escrita, à qual sempre dera atenção especial, também era de grande valia para seu projeto de popularizar as ações de prevenção da doença. Até a década de 1950, era comum, nos jornais brasileiros, a cobertura mais ampla de publicações médicas, novidades científicas e tratamento de doenças. Isso não era exclusividade do câncer, mas lhe foi dispensado tratamento especial: em 1929, Kroeff teve sua tese publicada no Correio da Manhã e, quase dez anos depois, em 1938, a inauguração do Centro de Cancerologia foi noticiada nos principais jornais da época, assim como suas atividades e futuros projetos. A pauta 'câncer', na imprensa, ajudava a reforçar a especialidade da cancerologia, além da identidade profissional desses médicos

Em outubro de 1936, logo após ter fundado o Centro de Cancerologia do Rio de Janeiro, Kroeff dirigiu-se diretamente aos jornais com o objetivo de deslanchar campanha e propaganda contra a doença:

Reuni os jornalistas, numa entrevista coletiva, para pedir a colaboração da imprensa na campanha contra o câncer, ora iniciada pelo governo, com a criação do Instituto de Cancerologia, no Serviço de Assistência Hospitalar do Distrito Federal. O papel da imprensa pode ser, nesse sentido, de capital importância ... . Como o grande público nada sabe a respeito da doença, cumpre-nos a tarefa de difundir largamente certas noções práticas de cancerologia, por meio de conselhos e pequenas notícias publicadas em jornais, em cartazes sugestivos, pregados pelos muros, em folhetos, distribuídos a granel, em conferências populares, em palestras pelo rádio, etc., etc., para assim atrair os doentes a exame e tratamento ... . A profilaxia do câncer fica sendo assim, em última análise uma questão de propaganda. A imprensa poderá desempenhar relevante serviço educacional e sanitário, se quiser colaborar conosco, com o Centro de Cancerologia, onde se encontram agora reunidos, os meios clássicos de tratamento para a grande massa popular (Kroeff, 1947, p.285).

Em 1941 transformações no âmbito do Ministério da Educação e Saúde determinaram a criação de diversos serviços federais relacionados a doenças específicas. Entre eles estava o Serviço Nacional de Câncer (SNC), primeira estrutura de âmbito nacional voltada para o controle desse mal. Entre as atribuições do novo serviço estavam as pesquisas relacionadas à doença, as ações preventivas para seu controle e o tratamento dos cancerosos. Esse tipo de atribuição não era peculiaridade do SNC; pelo contrário, fazia parte da noção mais geral de saúde pública da época, que tinha na educação sanitária importante campo de ação. No entanto, essa possibilidade se ajustava completamente ao projeto que vinha sendo posto em prática por Kroeff.

No ano seguinte à criação do SNC, Mario Kroeff viajou para os Estados Unidos - então país de referência na organização de serviços e pesquisa sobre o câncer. Seus principais objetivos eram conhecer a organização institucional e as técnicas lá utilizadas contra a doença e comprar uma pequena quantidade de rádio, para dar início ao serviço de radiologia a ser montado no Instituto do Câncer. Nos EUA, Kroeff tomaria conhecimento do grande número de ações educativas no campo da prevenção do câncer, lá existentes (Kroeff, 1947).

De volta ao Brasil, ele se transformaria num apóstolo das campanhas educativas para o controle do câncer. Muito influenciado pelo que viu nos EUA, deu início a diversas atividades que tinham por objetivo alertar a população sobre os perigos da doença e seus primeiros sinais, estimulando a visita periódica ao médico e apostando na noção de que, se tratado em seus estádios iniciais, o câncer é curável. De início, o Serviço Nacional de Câncer produziu material gráfico, que distribuiu em escolas e consultórios médicos. Também passou a estimular a propaganda educativa junto às instituições que faziam parte da Campanha Nacional Contra o Câncer.

Em pouco tempo surgiram novas iniciativas no campo da propaganda educativa. Entre elas destaca-se a parceria com a Rádio do Ministério da Educação e Saúde (Rádio MEC), que a partir de 1942 passou a irradiar mensalmente, durante quase um ano, conferências produzidas pelo SNC para os médicos das regiões mais afastadas do país. Grande parte dessas palestras focalizava os sintomas principais, relacionados aos tipos mais comuns de câncer. É também dessa época a produção de um filme sobre o câncer pelo próprio Mario Kroeff e também voltado para a divulgação dos diversos aspectos da doença, visando à promoção de seu diagnóstico precoce. A película seria apresentada em sessões especiais de alguns cinemas do Distrito Federal, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul (Carvalho, 2006).

Para ser justo com a história é importante afirmar que Kroeff não estava sozinho, nem era pioneiro nas ações de educação em saúde em relação ao câncer. Muito em voga nos Estados Unidos nos anos 1930, essas iniciativas, no Brasil, foram fortemente incentivadas pelo cancerologista paulista Antonio Prudente que, através da Associação Paulista de Combate ao Câncer, que dirigia, promoveu diversas atividades educativas voltadas para o câncer, que também funcionavam como formas de incentivar a arrecadação de fundos para a criação de um hospital para a Associação. Ainda em 1946, Prudente instituiu em São Paulo a Campanha Contra o Câncer, visando ampliar a propaganda sobre a doença. Nesse momento, além de ampla distribuição de panfletos explicando a doença e as formas de prevenção, foi montada uma exposição no centro da cidade de São Paulo, que obteve grande sucesso de público (Teixeira, Fonseca, 2007).

Em 1948 veio à luz a primeira Exposição Educativa do SNC. A mostra foi montada em uma loja alugada no centro da cidade do Rio de Janeiro, com recursos obtidos junto à iniciativa privada. Inaugurada pelo presidente Dutra e, segundo Kroeff (1947), vista por mais de duzentas mil pessoas, a exposição contava com diversas fotografias de doentes e suas lesões, e também com ilustrações do artista John Rabong, que visavam incentivar as ações de prevenção. Em sintonia com as concepções de Kroeff, o discurso expositivo da mostra objetivava o fortalecimento de uma nova forma de conceber a doença, não mais mostrando o câncer como um estigma, mas destacando o aspecto de ser curável e, se diagnosticado logo no início, tratável.

Tanto nas exposições educativas como nas campanhas, veiculadas em rádios ou através de panfletos, cartazes e demais materiais impressos, era comum a utilização de algumas imagens e metáforas específicas. Em relação às imagens, a mais corrente era a do caranguejo, símbolo da doença e sempre apresentado como figura aterradora, pronta a destruir suas vítimas. Também muito frequentes eram as imagens de feridas e deformações causadas pela doença. Estas eram alvo de críticas de diversos médicos, temerosos de que esse tipo de imagens pudesse favorecer a cancerofobia, afastando a população dos exames e tratamentos. No entanto, Kroeff justificava a apresentação desse tipo de imagens postulando que, em vez de afastar a população da medicina, quando apresentadas em correta medida, agia no sentido de alertar a população sobre doença (Kroeff, 1947).

Seguindo o cenário bélico reforçado pela Segunda Guerra Mundial, muitas peças de propaganda faziam da prevenção uma verdadeira guerra contra a doença - chegavam a mostrar aviões de guerra e comparar o trabalho dos médicos ou do organismo às atividades dos soldados durante uma batalha.

Outro aspecto interessante dessas campanhas diz respeito à frequente representação das mulheres nos panfletos e cartazes, em virtude de constiuírem público fundamental, uma vez que a prevenção ao câncer cervical, a partir da década de 1940, passou a ser importante objeto de postos ginecológicos relacionados à saúde pública - as mulheres, entretanto, eram sempre mostradas como vitimas impotentes e aterrorizadas, não apresentando qualquer ação no sentido de se proteger contra a doença. Essa forma de representação em muito difere da que se observa nos Estados Unidos, onde as campanhas contra o câncer cervical foram iniciadas por grupos de mulheres politicamente engajadas, que demandavam a ampliação das ações de prevenção à doença. Nesse país, a propaganda de prevenção ao câncer normalmente representa a mulher como cidadã ativa na busca de seus direitos.

No que tange às temáticas exibidas, além do binômio já ressaltado, referente à descoberta precoce da doença, e à necessidade de tratamento especializado, sobressaem as alusões aos tipos de cânceres e sua gravidade, a preocupação com a ação de charlatões, a apresentação dos sintomas mais característicos da doença em sua fase inicial, algumas noções básicas da biologia da doença que mostram sua base celular e a necessidade de prevenção frente a substâncias irritantes que estariam relacionadas ao surgimento da doença.

O último aspecto característico dessas campanhas que pretendemos ressaltar diz respeito à concepção do câncer como flagelo aterrador que ataca todas as nações e se apresenta como grande inimigo a ser combatido. Há mais de uma década, o historiador francês Patrice Pinell mostrou que, a partir do início do século XX, o câncer se transformou de doença rara e desconhecida em flagelo dos tempos modernos, contra o qual toda a sociedade se deveria mobilizar. Mais temido à medida que mais conhecido, ele passava a ser alvo de movimento social que colocou em ação Estados e sociedades na criação de instituições científicas e de assistência, de legislações específicas e de novas formas de organização profissional, com o objetivo de controle do mal (Pinell, 1992). No caso do Brasil, essa visão do câncer como flagelo de grande proporções é facilmente observável nas imagens veiculadas nas campanhas. Caranguejos que destroem cidades e assolam sociedades independentemente do período temporal ou do espaço geográfico são o símbolo desse flagelo a ser combatido.

A partir da década de 1950, quando Kroeff já havia deixado a direção do SNC, as campanhas contra o câncer foram institucionalizadas e realizadas a cada ano. O mês do câncer passou a ser comemorado em abril e, aos poucos, foi-se firmando como período de realização de campanhas em todo o país, realizadas em colaboração com as entidades filiadas e permanentemente incentivadas. A cada abril instalavam-se, nas capitais dos estados e em algumas grandes cidades, várias exposições educativas realizadas pelas instituições associadas ao SNC, que fornecia o material a ser exposto. Agora a diretriz do SNC previa que as campanhas buscassem alertar para os perigos da doença sem, no entanto, ser alarmistas ou geradoras de cancerofobia. A partir de então as imagens produzidas mostravam principalmente mapas de distribuição da doença, diretrizes para a prevenção, índices de cura pelos tratamentos especializados, aspectos da vida saudável e hábitos a serem evitados. A partir de 1958, o Distrito Federal passou a elaborar exposições volantes utilizando como suporte um caminhão do Serviço, que ficava estacionado em diversas regiões da cidade, em particular nos subúrbios, onde era maior o desconhecimento a respeito da doença. Paralelamente às exposições efetuava-se campanha educativa sobre a doença, difundida pela imprensa escrita e radiofônica.

Concluindo, ressaltamos que entre a segunda metade da década de 1930 e a década de 1940, a propaganda educativa contra o câncer firmou-se como aspecto central das ações de controle da doença. Fortemente impulsionadas pela ação de Mario Kroeff e seus seguidores, exposições, programas radiofônicos, filmes e produção gráfica faziam parte de uma estratégia de divulgação dos preceitos de prevenção vigentes à época, destacando-se a descoberta precoce da doença e o tratamento especializado. Hoje substituída por iniciativas com base na chamada prevenção primária - segundo a qual os modos de vida saudáveis estão na base da prevenção -, essas ações foram de grande importância não só na divulgação do problema do câncer e de sua prevenção, mas também no processo de fortalecimento institucional do Serviço Nacional do Câncer e na modelagem do campo da cancerologia.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Ago 2010
  • Data do Fascículo
    Jul 2010
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